quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A NOITE ESCURA DA ALMA.

No vai e vem dos dias, imerso num mar de compromissos, sempre restam uns instantes para pensar longe, fugir da pressão da agenda e aliviar um pouco a alma. O final de ano se aproxima e a sobrecarga não conhece tréguas. Administrar o cansaço é imprescindível, verbalizar a esperança é uma questão de espiritualidade. Ser justo no balancete existencial é bom senso. Continuar vivendo a alegria, apesar dos desacertos e desencontros, é um medicamento eficaz. Mesmo que o calendário aponte para o fim, não há uma inclinação para o término. Nada finda. Tudo recomeça. É assim diariamente. Toda conclusão aguarda por uma continuação. Talvez não seja possível uma renovação total, mas dar sequência é um jeito criativo de viver.

Sempre gostei de janelas. Mesmo que o tempo seja escasso, é bom ficar uns instantes debruçado, olhando tudo sem enxergar nada. As janelas possibilitam ângulos extraordinários. Há detalhes que só são vistos a partir dessas aberturas, que rasgam tijolos e concreto para garantir luminosidade. Mesmo com todo o aparato de grades e proteção, a janela sempre recorda que o infinito não cabe dentro das paredes. Há um mundo que extrapola limites e que inspira liberdade, convida à ousadia, provoca reinvenção diante da insistente monotonia.

Mas há outras janelas que precisam ficar escancaradas. A janela da alma não pode ficar apenas entreaberta por causa do desânimo e do cansaço. O corpo se ressente quando as exigências afrontam a resistência. Não é diferente com a vida espiritual. A Madre Teresa de Calcutá, muito provada por querer transformar a gritante realidade do povo sofrido, usava uma expressão, inspirada em São João da Cruz, que faz pensar: ‘a noite escura da alma.’ Certamente ela experimentou a escuridão da incompreensão, da sua pequenez diante de um universo de necessidades.

Todos têm momentos de escuridão da alma. Alguns desistem dos sonhos, outros se refazem pela fé e seguem adiante. Experimentar a ausência da luz, da esperança, do amor é mais do que humano. Nestes momentos, faz um bem enorme voltar à janela e olhar o firmamento, liberar os sentimentos, pensar o impensável, aliviar aquela autoimposição de que tudo deve ser como foi planejado. A noite escura da alma, quando bem administrada, poderá render o incrível amanhecer daquele amor sem fim, que recupera as energias e provoca infinitas alegrias. Sim, onde houver trevas, que eu leve a luz.

E ISTO BASTA...

A morte de Fidel dominou o noticiário e gerou convulsão ideológica nas redes sociais.

Como fosse possível, se instalou uma guerra pra definir o maior líder latino-americano: herói ou vilão?

Não só os admiradores o colocaram como principal assunto no Twitter desde que a morte foi anunciada.

Quem optou por festa, como os cubanos da pequena Little Havana em Miami, reduto dos eleitores de Donald Trump, ironicamente teve que engolir as condolências do ‘amigo’ dele, o presidente russo Vladimir Putin, que definiu Fidel como “sincero e confiável.”

No Brasil, os eleitores da direita foram surpreendidos e muitos ficaram revoltados com o reconhecimento de seus líderes à importância histórica de Fidel.

“Como é possível que vejam qualquer coisa boa num ditador sanguinário?”, perguntaram em histeria coletiva.

O debate sem fim. Sua morte não foi como será a de um FCH qualquer.

Até o filho mais ilustre de Cuba deixar de ser notícia principal, o luto prevalecerá à festa e nada pode mudar isso.

Serão nove dias de homenagens fúnebres, com carreata por 13 cidades para levar as cinzas de Fidel até Santiago, onde ele nasceu, estudou e festejou a vitória contra o imperialismo ianque.

Quem não consegue compreender a magnitude do homem e da obra não deveria se lançar ao debate cansativo e inútil.

É mais saudável aceitar o traçado histórico sem tentar compreender.

Aliás, como explicar a loucura de quem guerreia?

Imagine lutar contra os EUA, sendo um país tão pequeno e localizado a 140 km de distância?

O que deveria chocar é o que motiva a guerra, não quantos mataram ou morreram numa.

Fidel condenou o comandante Huber Matos a cumprir 20 anos de cadeia, um amigo com quem dividiu as trincheiras na Sierra Maestra, só porque ele renunciou ao cargo por não concordar com o regime ditador.

Um absurdo né?

Mas, quando o amigo saiu da prisão, correu para os EUA e fundou a organização anticastrista Cuba Independente e Democrática (CID).

Se Fidel tivesse admitido o insurgente livre no período de maior pressão contra Cuba, seria ou não uma ameaça à revolução?

Como medir a força necessária para mudar a consciência de um povo? Como garantir sua proteção do poderoso inimigo vizinho?

Teria Cuba sobrevivido por meio século à perseguição de presidentes americanos nada pacíficos?

Fidel enlouqueceu na luta CONTRA a dominação. A loucura americana foi e segue sendo PELA dominação de territórios e riquezas.

O que impressiona no debate sobre a morte de Fidel é que loucura americana, que segue dizimando nações, é relativizada.

Poucos se dispõem à compreender a ditadura como forma de defesa e o racionamento de alimentos provocado por embargos econômicos.
Mas, a ditadura com corrupção, repressão, escassez de saúde e educação e alta concentração de riqueza, sim.

Meu ex-professor no colégio salesiano me cobrou um exemplo de líder americano que patrocinou mortes em guerras.

É ou não um debate insano?

Espero que ele não tenha a resposta na Cuba sem Fidel.

Que a história do líder revolucionário não o absolva devolvendo a ilha à condição de bordel dos EUA.

Porque resumo Fidel como o homem que mostrou ao mundo que dinheiro não é tudo e os EUA não podem tudo.

E isso basta para que vislumbre o que fez de útil.

sábado, 26 de novembro de 2016

É MELHOR PLANEJAR QUE IMPROVISAR

O improviso nem sempre resolve. Melhor planejar que improvisar, orienta a sabedoria popular. As exigências dos novos tempos são diferentes e complexas. O mundo parece mais favorável a quem tem mais capacidade de planejar suas ações. Então, em sociedade competitiva, o planejamento pode nutrir esperanças até aos mais desfavorecidos do sistema.

Atualmente o sistema capitalista debate-se com a maior crise econômica mundial da história. Tamanha é a crise que muitas empresas fecham suas portas antes mesmo do primeiro ano de sua criação. Os empresários atribuem o fechamento à alta carga tributária ou pelo fato da economia mundial estar ruim. Certo que a economia neoliberal anda em bancarrota, mas talvez o pior disto seja a falta de planejamento. Muitas empresas abrem sem um bom planejamento em setores como produção, vendas e demanda de mercado. Estudos oferecidos pelo setor industrial provam que as empresas não planejam depois de abrir as portas, sendo um sério risco para o empreendimento, devido à alta competitividade do mercado. Em contrapartida, as pequenas empresas e os grupos que definem suas metas e objetivos, traçando planos estratégicos a curto, médio e longo prazo, sobressaem à crise econômica.

O planejamento empresarial não é complicado, apenas consiste num plano com distribuição de obrigações em todos os departamentos da empresa. Isto porque em cada departamento da empresa há uma responsabilidade diferente e de subsidiariedade. Então, o planejamento consiste no conhecimento e na responsabilidade com as metas e objetivos dos colaboradores em cada setor da empresa. Em geral, o fechamento de uma empresa ocorre devido à falta de planejamento.

Assim como numa empresa o planejamento é a chave do sucesso, com o futuro do país não é diferente. O governo brasileiro poderia propor um planejamento com metas a curto, médio e longo prazo para acabar com a exclusão social, educacional, econômica, o analfabetismo, a mortalidade infantil, o racismo, os privilégios de altos salários, a violência contra a mulher, etc. No planejamento seriam incluídas formas de combate à transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, a superação da diferença social, da radicalização da fome, da falta de saneamento básico, de crimes ambientais e ecológicos, da alienação política, a quebra do monopólio dos veículos de comunicação, democratização do poder judiciário, etc. As políticas públicas planejadas podem atuar a favor das minorias, da população carente, não somente da classe privilegiada. Dessa forma, o governo brasileiro poderia colaborar para que haja um entendimento nacional na diversidade política, com respeito à democracia, superando o ódio contra políticos e partidos. Enfim, o planejamento para o bem comum de toda população brasileira.

UMA PORTA SANTA

O ser humano é simplesmente fantástico. Durante as horas de um dia são incontáveis os pensamentos e os sentimentos. A capacidade criativa, quando bem direcionada, provoca verdadeiras maravilhas. Mas há humanos excepcionais, destacam-se por palavras, gestos, convicções, capacidade de amar, sem nenhum intervalo. Sem dúvida, o Papa Francisco é a maior referência. Com uma simplicidade sem igual, resgata o melhor que há nas pessoas, provoca emoções, aponta para um jeito sempre novo de viver. Não faz discursos, apenas fala com seus atos e com sua crença no amor presente em todas as pessoas.

Instituiu o Ano da Misericórdia que, nestes dias, chega ao seu final. Não é um término, muito menos um encerramento. Foi um longo exercício para ser assimilado e praticado. Ao ressaltar a importância e a urgência da misericórdia, o Papa apresentou o medicamento eficaz para tratar as feridas e as dores causadas pelo ódio e pela violência. Longe do amor, não há fraternidade, respeito e solidariedade. A misericórdia é capaz de cortar o mal pela raiz e restituir à convivência a tão necessária harmonia que provoca mudanças, reinventa a convivência e multiplica a esperança.

O Ano da Misericórdia compreendia um ritual, além de elencar ações espirituais e materiais. No contexto celebrativo estava indicada, em determinadas igrejas e santuários, a Porta Santa. Os fiéis foram convidados a passar por tal porta, tendo presente que a vida é feita de passagens. Além de superar etapas e encerrar ciclos, há muitas portas que aguardam por transeuntes. A disposição em deixar para trás tudo o que não ajuda na vivência dos verdadeiros valores humanos e cristãos é a condição que inspira mudanças profundas. O Ano da Misericórdia, em suma, foi e continuará sendo uma provocação de mudança do coração.

Quem não precisa trabalhar determinadas transformações em seu coração? Algumas urgências são evidentes: arrancar o ódio e a vingança do coração, recuperar a humildade tão esquecida nos embates do poder, devolver ao semblante a simplicidade de um sorriso, multiplicar a bondade, tendo como primazia a solidariedade. Mas há uma ‘porta santa’ de fácil passagem diária: a porta do lar. Feliz de quem vive a misericórdia na convivência familiar e não abre mão de viver a fidelidade e o amor, com as bênçãos da espiritualidade.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

UM PROJETO PARA SER VIVIDO

Dois namorados – Gustavo e Jocelane – universitários, pouco acima dos 20 anos, aguardavam o padre na secretaria paroquial. Assunto: casamento. Gostariam que o sacerdote presidisse seu casamento. Tomando a agenda, o padre aguardou dia e hora da cerimônia. O noivo esclareceu: quando o senhor tiver tempo, qualquer dia desses, qualquer hora. E como o padre continuasse sem entender, explicaram que pretendiam um casamento simples, sem festas. Eles namoravam há cinco anos e sabiam o que queriam. Estavam preocupados com aquilo que o casamento tem de sagrado e não com as exterioridades. Estavam preocupados com o quadro e não com a moldura.

Algumas semanas depois, numa pequena capela lateral disseram o “sim”, um ao outro e ambos a Deus. Na lista dos convidados, apenas os pais, dois casais de padrinhos e o padre. Não houve fotógrafo, nem música, nem tapetes, nem vestido de noiva, nem banquete, nem curiosos. Mas, na realidade, não faltou nada.

Passaram-se anos, a cegonha chegou e continuam cada vez mais felizes. Eles haviam construído sua casa sobre a rocha. Na mesma igreja, mas no altar central, alguns dias após, outros dois jovens receberam o sacramento do matrimônio.

Foi o casamento do ano. A igreja estava enfeitada com rosas e tulipas da Holanda e centenas de velas. Mais de 600 pessoas haviam sido convidadas para assistir ao espetáculo. O ambiente era de uma grande feira, com fotógrafos, cinegrafistas, aias, jornalistas e curiosos. Deslumbrados, os noivos não prestaram atenção à leitura do Evangelho que falava da casa construída sobre a areia. Depois houve uma grande festa, presentes e lua de mel em Aruba. Passaram-se apenas alguns meses e eles se separaram.

Na divisão dos presentes, ninguém quis ficar com o vídeo, que foi para o lixo. Nem mesmo chegou a ser visto pelos familiares. O mesmo destino tiveram as fotos com seus sorrisos forçados. Eles haviam dado atenção à moldura. Quadro e moldura, agora, foram para a lixeira.

O insuspeito jornalista Stephen Kanitz afirma: “O casamento é um momento de consagração de duas pessoas, de promessas que deverão ser lembradas e guardadas todo o dia e para sempre, não arquivadas numa fita magnética na última gaveta do armário menos acessível. O altar não é um lugar para ficar posando para fotógrafos, mas para refletir o que cada um está prometendo ao outro. A lembrança deste momento mágico deverá ficar registrada para sempre, mas na mente e no coração”.

Além de vocação humana, casamento é um projeto de Deus. Não se trata de um espetáculo para ser visto, mas de um projeto para ser vivido. Não se trata de um show para o público, mas um compromisso pessoal marcado pela dimensão divina.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

CONSELHÃO DE TEMER ESTÁ LONGE DO BRASIL REAL.

Nós nos descobrimos uma República de bananas devastada pela desonestidade e pela incorreção (...) Não dá para achar que a corrupção dos outros é grave e daqueles que eu gosto não tem problema. Aí não é combate à corrupção, mas reserva de mercado (Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Federal, em discurso na abertura de um seminário na sede da Procuradoria-Geral da República, na mesma hora em que o "Conselhão" se reunia no Palácio do Planalto nesta segunda-feira).
***

Com tantas lambanças acontecendo ao mesmo tempo em Brasília, a gente até esquece da vida que continua correndo no atropelo do Brasil real.

De tudo que li sobre a primeira reunião do novo "Conselhão" do governo Temer, não encontrei uma mísera linha sobre a urgência de medidas para o combate ao desemprego, o grande drama brasileiro.

Na manhã desta terça-feira, ficamos sabendo que faltou trabalho para quase 23 milhões de pessoas no terceiro trimestre deste ano, o que corresponde a 21,2% da população em idade produtiva no Brasil.

A cada novo levantamento do IBGE estes índices continuam subindo sem parar. No terceiro trimestre de 2015 havia sido de 18%.

Para estes milhões de brasileiros que acordam todo dia sem ter para onde ir nem cartão para bater, e sem saber como vão botar comida na mesa, tanto faz se Geddel sai ou fica.

Não fazem ideia de quem se trata, nem da serventia deste "Conselhão", formado por 93 cidadãos da sociedade civil, em sua maioria empresários, selecionados pelo governo para discutir os rumos do País.

Pelo que pude ver nas imagens, não havia ali nenhum representante da legião de desempregados, negros, favelados, sem teto e sem terra, aqueles habitantes esquecidos do Brasil real.

Em Brasília, neste momento, políticos e empresários flagrados pela Lava Jato em tenebrosas transações só pensam numa lei de anistia para o caixa dois e acordos de leniência para salvar a própria pele.

O que os move e os une já não são votos nem lucros, mas o medo de ir para a cadeia.

Estão juntos na luta pela impunidade.

Quando tiverem um tempinho, quem sabe, cuidarão desta questão do desemprego, talvez na próxima campanha eleitoral.

Enquanto isso, lá no Brasil real, dissemina-se a violência fora de controle e multiplicam-se os confrontos entre forças de segurança e moradores das periferias e das favelas, deixando um rastro de vítimas dos dois lados.

Estudo da Confederação Nacional da Indústria também divulgado nesta terça-feira pelo jornal O Globo revela que crimes violentos e a escalada dos gastos com segurança privada consomem pelo menos R$ 130 bilhões por ano.

É um valor que chega perto do rombo fiscal de R$ 170 bilhões previsto para 2016, que tanto preocupa o governo e poderia ser investido pelas empresas em projetos de geração de novos empregos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A COZINHA...

Nas últimas décadas a respeito da saúde tem-se ouvido muitos conselhos, orientação alimentar, recomendações sobre algo ser bom ou ruim. Em atenção a isso, é notória nas pessoas maior preocupação com a questão alimentar. Isto é um bom sinal de saúde pública, algo positivo. Contudo, um grande mercado midiático surgiu em torno da alimentação.

Essa questão alimentar, obviamente, não está resolvida para as pessoas do século XXI. De qualquer modo, ao falar em alimentação não faltam gostos alimentares, receitas para qualquer paladar e profissionais qualificados. Ao pensar em comensalidade a cozinha é o centro da questão. Ainda que não se saiba preparar uma deliciosa refeição, é na cozinha que as pessoas despertam a vontade de sempre aprender e criar algo. As mães sempre têm uma moda de inventar e até de inovar receitas. Desde o mais comum prato ao mais sofisticado, criatividade não falta nas mãos das cozinheiras.

Em razão disso surgiram os chamados gourmets, nome dado aos profissionais de arte culinária requintada. O termo gourmet está vinculado à ideia de “alta cozinha”, em francês haute coisine, associada à cultura culinária. Isto é, uma cozinha feita de forma criteriosa, com produtos de qualidade e artisticamente apresentada. Então, gourmet é um profissional conhecedor do paladar alimentar, de ricas iguarias e de bons vinhos, bebidas. Em vista desta prestação de serviço, é definido como um produto limitado, exclusivo, arrojado, com características únicas de posicionamento premium. Isto é, associado a um forte valor agregado. Atualmente a cozinha é o espaço da casa que ganha destaque em vista da preocupação e do cuidado com a saúde.

Sendo a alimentação e a comensalidade experiência tão determinante na vida de todo ser humano, as refeições são algo imprescindível para a humanização. Para compreender o que isto representa, convém saber de fato o que um pai sente ao ver seus filhos passarem fome, privados de uma mesa farta e saudável. Essa experiência obviamente não é fácil de entender para quem vive a participar de grandes banquetes. A experiência da alimentação ou da comensalidade é imprescindível e determinante para todos, pois não é apenas alimentação de boa qualidade que as pessoas encontram ao sentar-se à mesa. Mas, algo mais profundo, uma experiência que dá sentido à totalidade da vida e das relações. Antes de tudo, alimentação além de ser sinônimo de vida, sustento do corpo, é a razão pela qual consumimos energias, é a busca da dignidade, da felicidade e do prazer de dividir com outro. A experiência de partilhar a mesa e a alimentação é muito mais do que ganhar calorias. É ver nossa humanidade tornar-se alteridade, elemento constitutivo das relações humanas.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

BABAQUÍCE DAS ANÁLISES ECONÔMICAS

Sigo com atenção as análises econômicas que se fazem no Brasil e pelo mundo afora. Com raras e boas exceções, a grande maioria dos analistas são reféns do pensamento único neoliberal mundializado. Raramente fazem uma auto-crítica que rompa a lógica do sistema produtivista, consumista, individualista e anti-ecológico. E aqui vejo um grande risco seja para biocapacidade do planeta Terra seja para a subsistência da nossa espécie. O título do livro de Jessé Souza “A tolice da inteligência brasileira”(2015) impirou o título de minha reflexão: “Babaquice das análises econômicas atuais”.

Meu sentido do mundo me diz que se não tomarmos absolutamente a sério dois fatores fundamentais, podemos conhecer cataclismas ecológico-sociais de dimensões dantescas: o fator ecológico, de teor mais objetivo e o resgate da razão sensível de viés mais subjetivo.

Quanto ao fator ecológico: em sua grande maioria a macroeconomia ainda alimenta a falsa ilusão de um crescimento ilimitado, no pressuposto ilusório de que a Terra dispõe de recursos igualmente ilimitados e que possui ilimitada resiliência para suportar a sistemática exploração a que é submetida. A maldição do pensamento único mostra soberano desdém aos efeitos negativos em termos de aquecimento global, devastação de ecossitemas, escassez de água potável e outros, tidos como externalidades, vale dizer, dados que não entram na contabilidade das empresas. Esse passivo é deixado para o poder estatal resolver. O que deve ser garantido de qualquer forma é o lucro dos acionistas e a acumulação de riqueza em níveis inimagináveis que deixaria Karl Marx enlouquecido.

A gravidade reside no fato de que as instâncias que se ocupam com o estado da Terra, por parte dos organismos mundiais como a ONU ou mesmo nacionais que denunciam a crescente erosão de quase todos os ítens fundamentais para a continuidade da vida (uns 13), não são tomados em conta. A razão é que são anti-sistêmicos, prejudicam o crescimento do PIB e os ganhos das grandes corporações.

Os cenários projetados por sérios centros de pesquisa são cada vez mais perturbadores. O aquecimento, por exemplo, não cessa de aumentar como se afirmou agora em Marrakesch na COP 22. A temperatura global de 2016 ficou 1,35 C acima do normal para o mês de fevereiro, a mais alta dos últimos 40 anos. Os próprios cientistas como David Carlson da Organização Meteorológica Mundial, uma agência da ONU, declarou: “isso é espantoso…a Terra certamente é um planeta alterado”.

Tanto a Carta da Terra quanto a encíclica do Papa Francisco Laudato Si: como cuidar da Casa Comum alertam sobre os riscos que a vida corre sobre o planeta. A Carta da Terra (grupo animado por M. Gorbachev, do qual tenho participado) é contundente: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade da vida”.

Nos debates sobre economia, em quase todas as instâncias, os riscos e o fator ecológico sequer são nomeados. A ecologia não existe, mesmo nas declarações do PT, nas quais a palavra ecologia sequer aparece. E assim, gaiamente, poderemos trilhar um caminho sem retorno, por igorância, irresponsabilidade e cegueira produzida pela volúpia da acumulação de bens materiais.

Donald Trump declarou que o aquecimento global é um embuste e que cancelará o acordo de Paris, já assinado por Obama. Paul Krugman, Nobel de economia, já alertou que tal decisão poderá significar um grave dano aos USA e ao planeta inteiro.

Conclusão: ou incorporamos o dado ecológico em tudo o que fizermos, ou então nosso futuro não estará garantido. A estupidez da economia só nos cega e nos prejudica.

Mas esse dado científico, fruto da razão instrumental analítica, não é suficiente, pois ela friamente analisa e calcula e entende o ser humano fora e acima da natureza que pode explorá-la a seu bel-prazer. Temos que completá-la com o outro fator, o resgate da razão sensível, a mais ancestral em nós. Nela reside a sensibilidade, o mundo dos valores, a dimensão ética e espiritual. Ai residem as motivações para cuidarmos da Terra e nos engajarmos por um novo tipo de relação amigável com a natureza, sentindo-nos parte dela e seus cuidadores, reconhecendo o valor intrínseco de cada ser, e inventando outra forma de atender nossas necessidades e o consumo com uma sobriedade compartida e solidária.

Temos que articular os dois fatores: o ecológico (objetivo) e o sensível (subjetivo): caso contrário dificilmente escaparecemos, mais cedo ou mais tarde, da ameaça de um colapso do sistema-vida

sábado, 19 de novembro de 2016

FERIADÃO EM BUENOS AIRES

Passamos o feriadão do dia 15, Proclamação da República em Buenos Ayres. Uns já a conheciam, outros era a primeira vez. Como sempre, a capital argentina é linda, atrativa e muito gostosa. Estivemos em diversos lugares e coloco neste post as que achei mais legal e indico para quem for para lá:
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Casa Rosada – A sede da presidência da Argentina é um dos símbolos do país e passou a ter seu exterior pintado de rosa por volta de 1870. Há várias explicações para a cor, desde que representaria a união de dois partidos políticos até quanto ao uso de sangue bovino misturado à tinta naquela época. O edifício que hoje é sede do governo começou a tomar a forma a partir da junção da Casa de Governo com o edifício de Correios e Telégrafos. Conhecer a fachada e tirar uma foto ali é figurinha carimbada no roteiro dos brasileiros, mas é possível também fazer uma visita guiada (gratuita) ao interior do edifício aos sábados, domingos e feriados.

Plaza de Mayo – A Praça de Maio é o coração político de Buenos Aires. O local é palco frequente de manifestações populares, entre elas a manifestação das Mães da Plaza de Mayo que ocorre às quintas-feiras, e está cercado por edifícios como a Casa Rosada, o Congresso e a Catedral. Arborizada e com vários bancos, essa praça costuma ser um local de descanso dos portenhos que trabalham ou vivem na região.

Av. 9 de Julho, Av. Corrientes o Obelisco –
O Obelisco é um monumento histórico de Buenos Aires criado para comemorar os 400 anos de fundação da cidade. Ele está localizado no cruzamentos entre as avenidas Corrientes e 9 de Julho, ambas muito movimentadas. A Av. 9 de Julho já foi, inclusive, considerada a avenida mais larga do mundo.

Caminito – As janelas e paredes coloridas fazem parte do cenário no Caminito, uma rua-museu a céu aberto extremamente turística, que abriga restaurantes, lojas de lembranças e ateliês. O assédio é chato, mas quando se fala em turismo em Buenos Aires, esse é um dos locais mais tradicionais a ser conhecer. O nome se deve a um tango, cujas letras estão gravadas em algumas paredes do lugar. A variedade de lembranças de viagem no lugar é enorme, entretanto, negociar o preço é a melhor tática.

Teatro Colón – O Teatró Colón é motivo de orgulho dos portenhos e impressiona pela riqueza de detalhes em seu interior. Pela acústica apurada, ele é considerado um dos melhores teatros de ópera do mundo e quem visita a cidade pode aproveitar a viagem para assistir a um espetáculo. Caso não consiga assistir a uma apresentação, faça a visita guiada, que mostra a arquitetura e decoração interna do edifício.

Museu de Arte Latinoamericana – MALBA é a versão encurtada do nome do museu, que abre suas portas para exibir quadros de artistas como Tarsila do Amaral e Frida Kahlo. O local é interessante pois reúne obras de artistas de diversos países e possui algumas obras interativas, deixando o passeio mais leve.

Museu Nacional de Belas Artes – O foco do museu é contar a história da Argentina e alguns dos períodos mais importantes de sua história através de obras de artistas locais. O lugar tem quadros muito bonitos e além das obras nacionais há obras de artistas como Monet, Pissarro e El Greco. Fazer a visita guiada é indicado para conhecer com mais propriedade e história das obras.

 Puerto Madero, área portuária revitalizada e que hoje tem excelente restaurantes, é um ótimo passeio em Buenos Aires, principalmente para conhecer esse lado moderno da cidade. Passeando por lá, aproveite para visitar a Puente de la Mujer e a Fragata Sarmiento, que atualmente funciona como museu.

 La Bombonera – O adorado estádio do Boca Juniors é um dos pontos que os fãs de futebol mais gostam de conhecer. Visitas ao museu e ao estádio possibilitam conhecer mais de perto a história do clube, suas conquistas e ter até a oportunidade de ver de pertinho o campo e visitar os vestiários.

Cemitério da Recoleta – Pode parecer estranho, mas é isso mesmo: o cemitério da Recoleta é um dos “pontos turísticos” mais visitados de Buenos Aires. No lugar estão enterradas algumas celebridades argentinas, entre elas o General Alvear e Evita Perón, cujo túmulo sempre está com flores. Na visita guiada gratuita dentro do cemitério é possível conhecer detalhes dos túmulos mais importantes, alguns deles são considerados monumentos históricos nacionais.

 Floralis Generica – O monumento metálico criado pelo arquiteto Eduardo Catalano chama a atenção mesmo de longe. Trata-se de uma enorme flor de metal, cujas pétalas se abrem durante o dia e se fecham durante a noite. O parque ao seu redor é procurado para tomar sol e descansar.
Onde Comer



O lado gastronôm
buenos-aires-onde-comer-ico é parte integrante e inseparável de um roteiro na cidade. Come-se muito bem em Buenos Aires, principalmente se houver um planejamento prévio sobre quais lugares visitar. Para não perder o supra-sumo da cozinha argentina, experimente o seu doce de leite, as empanadas, os cortes de carne argentinos e alfajores.

 Café Tortoni – Um dos locais mais tradicionais de Buenos Aires é o Café Tortoni. Tudo bem que o atendimento dos garçons não é lá grandes coisas, mas o lugar vale a pena mesmo pelo ambiente, com uma decoração muito bonita, e pela tradição. O Café foi fundado em 1858 e é considerado a cafeteria mais antiga da cidade. Um café quente ou um chocolate com churros são bons motivos para fazer uma parada por lá durante a tarde. Durante a noite, o Café Tortoni também tem apresentações de tango.

La Brigada e Don Julio – Sair de Buenos Aires sem comer uma carne acompanhada de papas fritas é uma tarefa quase impossível, se você não é vegetariano. Os restaurantes especializados em carne, como La Brigada e Don Julio, servem cortes argentinos deliciosos e peças muito saborosas. Mas atenção: o ponto tradicional da carne no país é mal passado e se você não gosta de carne dessa forma, é bom não esquecer de dizer como prefere que ela seja preparada!

– Havana – A Havana é uma marca de doces argentina, que tem inúmeras lojas espalhadas pela cidade. Na verdade a rede já ganhou lojas em outras partes do mundo, mas visitar uma Havana em Buenos Aires faz parte do programa gastronômico. Tradicional mesmo são seus alfajores com sabores variados e o doce de leite, que é uma delícia! O local também é ideal para tomar um café ou um chocolate quente.

Freddo – Provavelmente você irá se deparar com uma loja da Freddo em alguma de suas andanças pela capital argentina, e se o tempo estiver quente, uma parada será inevitável. A rede de sorvetes é famosa pelo sorvete de dulce de leche, que hoje em dia já ganhou diversas formas diferentes e pode ser servido puro, ou acompanhado de chocolate a amêndoas, por exemplo.
Shows de tango
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 Seja em um show super turístico, em uma casa pouco explorada, na rua mesmo, ou em uma milonga (onde os locais se encontram para dançar), ter contato com o tango e admirar essa dança é um programa muito interessante em Buenos Aires. Os preços variam de acordo com a casa, porém, é possível encontrar tangos para todos os bolsos. Mesmo quem não é tão fã de dança se rende ao talento dos bons dançarinos e ao ritmo.
 A variedade de locais para assistir a um espetáculo de Tango é imensa. Algumas das opções mais procuradas pelos turistas são o Señor Tango, Tango Porteño, Café Tortoni, Madero Tango, El Querandí, Piazzolla e o Centro Cultural Borges. Cada um dos espetáculos tem um foco, alguns são mais turísticos e comerciais, outros mais tradicionais. Se quiser apresentação estilo espetáculo e teatral, uma boa opção é o Tango Porteño, mas se você prefere uma apresentação menor, uma boa sugestão é o El Querandí. Para gastar pouco, opte pelo Centro Cultural Borges ou vá para milongas, onde os locais frequentam para dançar, como La Viruta ou Parakultural – em várias milongas é possível fazer aulas de tango.
Na grande maioria das casas de show há a possibilidade de jantar e depois assistir ao espetáculo; cada uma das casas organiza “pacotes” com diferentes atrativos e diferentes preços.
Passeios em Buenos Aires


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 Delta do Tigre – isitar o a cidade de Tigre é um passeio interessante para quem já conheceu os principais pontos da capital e deseja visitar um lugar mais tranquilo. Para chegar à cidade de Tigre é possível ir de trem a partir da estação Retiro até a estação Mitre/Maipú (separadas por uma passarela), e de lá utilizar o circuito turístico Tren de La Costa até a estação Delta. Na cidade, o que os turistas mais costumam fazer é caminhar para conhecer a própria cidade e passear de barco pelo Delta do rio Tigre, admirar a paisagem, as casas e construções locais.





Quem não perde a oportunidade de voltar de viagem com alguns quilos a mais na bagagem deve incluir no roteiro uma visita à Calle Florida e Galerias Pacífico. A avenida Santa Fé também é ótima para compras devido à enorme variedade de lojas e oportunidade de encontrar ofertas. Para compras de luxo a dica é o Patio Bullrich; mas se, ao contrário, você deseja economizar e encontrar lojas descoladas, vá à Plaza Serrano e sua região, ou visite a incrível Feira de San Telmo aos domingos! A feira de San Telmo é imperdível para quem gosta de antiguidades.
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 Florida – A rua Florida (Calle Florida), é um dos principais lugares para fazer compras na cidade. O lugar é muito frequentado por turistas e tem lojas de todos os tipos (roupas, calçados, acessórios, farmácia) além de vendedores ambulantes que expõem seus produtos no meio da rua, já que o local é fechado para carros. Também na rua Florida encontram-se as Galerias Pacífico, um shopping com arquitetura muito bonita (não deixe de observar o teto) e marcas de renome mundial.

Espero ter sido útil e não esqueça: Programe Buenos Ayres como teu próximo destino turístico. Garanto que você vai gostar.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CONFIANÇA É PRECISO CONQUISTAR.

Um argumento contra a presidenta Dilma, amplamente divulgado pelos veículos de comunicação, era a respeito da economia brasileira. Passados alguns meses do golpe parlamentar a economia brasileira segue em franca apatia. Na verdade, o projeto econômico Temer-Meirelles tem constrangido os veículos de comunicação engajados na cassação da presidente. Pois confiança se conquista, não se manipula.

No dia dezenove de setembro foram divulgados alguns dados econômicos do terceiro trimestre do país. A divulgação não foi de forma ampla em rede nacional, como outrora era contra a presidente Dilma. Apenas alguns pequenos veículos de comunicação não sonegaram a real informação. A retração da economia brasileira é comprovada. Quando o mercado esperava uma ligeira alta em dozes meses, a queda da atividade econômica chega 5,61%. O Produto Interno Bruto, o PIB, tem uma queda de 0,09% ao mês, o pior resultado. Em seis meses um milhão e meio de brasileiros perderam o emprego. Nos últimos seis meses o acumulado em perdas da economia é de menos 5,61%. Se não bastasse o plano Temer-Meirelles já endividou o Brasil em 20 bilhões. Como já não tem para pagar o que devem com suas arrecadações, flexibilizaram por seis meses o pagamento de dívidas dos Estados com a União. Conforme os dados divulgados pelo índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), o plano econômico Temer-Meirelles transformou a recessão brasileira na maior do mundo.

Não bastante, o plano econômico Temer-Meirelles, que tem provocado efeito terror na atividade econômica, anuncia a privatização de bens da União, venda de grande parte das empresas e patrimônio da Petrobrás. O governo Temer sem legitimidade política de limitar os gastos públicos e de redução da taxa da inflação, aumenta as benesses e distribuição de cargos federais aos padrinhos do golpe parlamentar e eleva o déficit público, da previdência social, etc. Ainda, incorpora as projeções negativas na recuperação da economia à produção nos setores da indústria e agropecuária, bem como o impacto dos impostos sobre os produtos. O desempenho negativo tem afetado as vendas no varejo, que voltaram a cair nos meses de julho e agosto, com retração de 0,3% sobre junho. Em suma, a atividade econômica do Brasil aumenta sua crise se comparada com outros países.

O mais grave, os economistas sinalizam que a desaceleração acentuada da economia do país levará à queda do PIB do terceiro e quarto trimestre. A expectativa dos economistas ouvidos semanalmente pelo Banco Central em pesquisa Focus é de que a atividade medida pelo PIB vá fechar 2016 com retração de 3,15%, bem acima da projetada no início do ano. Os números e a recessão econômica contradizem o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que tem dito que a expectativa do governo é de um crescimento do PIB deste ano. Diante do agravamento do quadro econômico, os poderosos veículos de comunicação deveriam informar sobre a real situação da recessão econômica gerada pelo plano Temer-Meirelles. Afinal uma parte do povo brasileiro apoiou o golpe parlamentar encampado por estes veículos de comunicação.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O FUTURO DO NOSSO PAÍS.

Péricles foi o construtor da primeira democracia do mundo. O brilho do seu gênio iluminou o século V a.C tornando Atenas a capital intelectual e política da época. Os historiadores falam do Século de Péricles. Pela primeira vez um governante pensou numa estratégia para garantir o futuro, sem depender das armas. Em certa ocasião, Péricles mandou reunir todos os notáveis, gênios e artistas que tinham engrandecido Atenas e tinham a missão de perpetuar esta grandeza.

Foram chegando os arquitetos, engenheiros, escultores, guerreiros que defenderam a cidade, filósofos que propuseram novos sentidos para a vida, lavradores que garantiram o pão. Todos os setores pareciam representados. Péricles percebeu comprometedora ausência: faltavam os professores. Onde estão os mestres?, perguntou o magistrado. E quando estes chegaram, Péricles falou: aqui se encontram aqueles que, com seu esforço e perícia, transformaram, embelezaram e protegeram a cidade. Faltavam vocês, que têm a missão mais importante e elevada de todas: a de transformar e embelezar a alma dos atenienses.

A grandeza de um país não se mede pelo seu PIB (Produto Interno Bruto), nem pela extensão territorial, nem pelas jazidas de minerais, nem pelo poderio de suas armas. A verdadeira grandeza é a que procede da inteligência e do caráter. E neste sentido, toda a estratégia em relação ao futuro precisa passar pela educação. Não se pode confundir educação com instrução. Nem se pode imaginar que toda a educação passe pelas salas de aula.

Educar não é apenas ensinar os nomes dos rios, as capitais dos países e as datas dos eventos do passado. Educar é ajudar a construir a pessoa em sua totalidade: corpo, mente e espírito. Educar é moldar os corações. O educador é um estilista de almas, um embelezador de vidas. De certa maneira, é um parteiro do espírito e da personalidade. É ainda ele quem indica o caminho da comunidade, que se forma pela partilha e aceitação dos outros, acolhendo a riqueza na diversidade.

Mas não podemos simplificar, imaginando que a educação seja uma tarefa da escola e do estado. A missão primeira de educar é da família. Ali se vive a primeira experiência comunitária. Os pais são também mestres e catequistas. A educação deve também perpassar pelos meios de comunicação. Grande parte da responsabilidade recai sobre o estado, que tem o dever sagrado de estabelecer políticas que priorizam, ao lado da saúde, a educação. A grandeza de uma nação passa por ali.

De resto, entre os mais de 40 títulos conferidos a Jesus, nos Evangelhos, o mais comum é o de mestre. Ele é mestre para os apóstolos e para as multidões. Até mesmo os adversários dão-lhe esse título. E nesta ótica, todos devemos ser discípulos e missionários do Mestre. Só Ele é o caminho, a verdade e a vida.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

UM SIMPLES PÉ DE CAMOMILA

Os canteiros não eram preparados para tal finalidade e nem as sementes eram lançadas ritualmente à terra. De um ano para outro, no entanto, as plantinhas surgiam em meio às verduras e temperos. Todos os anos estavam lá e a colheita era garantida. Minha mãe zelava pela camomila. Após a maturação das flores, havia um tempo de exposição ao sol. O maravilhoso chá, então, era guardado em potes para o ano inteiro. A lição não foi esquecida. Dias atrás, minha irmã, seguindo o ritual da mãe, entregou-me um pote com a camomila colhida naquela horta, que sempre evoca tantas lembranças. As palavras foram bem resumidas, mas o sentimento alcançou o grau máximo da sensibilidade.

No armário da vovó está aquele simples recipiente contendo uma preciosidade: o chá de camomila. O ritual diário é acrescido de lembranças e de infinita gratidão. Como é maravilhoso quando os outros não esquecem o que se gosta. Mas o que toca profundamente é saber que uma nova geração pode dar continuidade às boas práticas da geração anterior. Não tenho dúvidas de que as plantinhas de camomila sempre terão o devido espaço, naquela horta que tem uma história familiar. Mesmo que os mercados ofereçam tal produto, o cultivo garante algo a mais: um toque de ternura que atualiza os laços que não envelhecem.

Os benefícios do chá de camomila são muitos, sem contar que há outros acréscimos que ultrapassam a saúde física. Servir chá é uma forma de reunir e entrelaçar afeto. Há quem prefira um cafezinho. Independente dos gostos, é urgente aumentar a criatividade em relação à convivência. O individualismo tem afetado até a digestão. As exigências alcançam patamares que extrapolam a resistência física. A velocidade acompanha os dias, abrevia os encontros, fragiliza o essencial. Como não há nenhum aceno de transformação a curto prazo, o segredo é ativar a criatividade.

Cultivar camomila pode ser uma forma de reinventar o amor familiar. As gerações não deveriam permitir distanciamento e nem esquecimento daqueles rituais que sempre serão repletos de significado. Um simples pote de camomila é capaz de reunir as melhores lembranças, inesquecíveis momentos, os mais densos gestos de amor. Se não houver um canteiro, um simples vaso é suficiente para cultivar a camomila que faz bem ao corpo e à alma.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A VIDA É UM DIREITO SAGRADO.

A vida é um direito sagrado. Toda pessoa merece uma vida de dignidade. Porém, o índice de qualidade de vida humana, segundo relatório do Desenvolvimento Humano publicado em 1990, deve considerar os aspectos que a influenciam, como econômicos, sociais, culturais, políticos. Atualmente, para a maioria da população mundial, os ganhos econômicos são insuficientes para garantir uma melhor qualidade de vida.

Anualmente no Brasil um ponto abordado pela comissão do orçamento da União é o reajuste do salário mínimo. A proposta de votação de aumento do salário mínimo é feita com base na variação da inflação do ano. Isto é, a comissão de orçamento utiliza-se do índice nacional de preços ao consumidor e acrescenta a variação do produto interno bruto para um reajuste do salário mínimo. O salário mínimo nacional, apesar de ter subido nos últimos anos, mostra-se sempre aquém de garantir condições de uma melhor qualidade de vida. Como a própria nomenclatura diz – salário mínimo – é o menor pagamento que uma empresa pode pagar a um funcionário. A Austrália e a Nova Zelândia foram os primeiros países a criarem o salário mínimo, em meados do século XIX. Atualmente, ele existe em quase todos os países do mundo. No Brasil, foi instituído pelo então presidente Getúlio Vargas, com a promulgação da Lei de nº 185, em janeiro de 1936, e decreto-lei em abril de 1938. Nesta época havia quatorze salários mínimos diferentes no país, sendo que o do Estado do Rio de Janeiro correspondia a três vezes o valor do vigente no Nordeste. Em 1943 foi dado o primeiro reajuste e em 1984 aconteceu a unificação nacional do salário mínimo. Embora sua criação tenha sido feita com base naquilo que é preciso para a sobrevivência de uma pessoa, atualmente os trabalhadores recebem um terço do necessário para uma vida digna.

Por conseguinte, a política salarial no Brasil é falha. Pagar um terço do que o trabalhador merece é exploração. É de extrema vantagem para a economia nacional aumentar o salário mínimo. Visto que metade da população brasileira vive do salário mínimo. Com ganhos condizentes radicaliza-se a pobreza no país. Em razão disto, aumenta-se a capacidade de compra e de consumo das pessoas. Significa especialmente aumentar a produtividade. Haveria uma proliferação de novos postos de empregos e serviços. As condições de trabalho deplorável nas indústrias diminuiriam por gerar um mercado mais competitivo, exigente. A oferta de emprego aumentaria e por sua vez a qualidade do serviço. Diminuiria a instabilidade no trabalho, as tensões entre sindicatos patronais e trabalhadores. Pensar uma nova política salarial com base na melhor qualidade de vida promoveria uma transformação cultural, social, política, econômica da União. Porque o salário mínimo é uma questão social, humana, imprescindível até mesmo para a superação da crise econômica nacional.

sábado, 12 de novembro de 2016

MENOS OU MAIS PRISÕES?

Fiquei pasmo quando li uma declaração de um responsável pela segurança de um estado que afirmava ser necessário construir mais presídios e garantir segurança máxima. Não vem ao caso emitir um julgamento referente à intenção desta autoridade. Certamente, sua afirmação é decorrente da pressão da sociedade, motivada pela trágica onda de violência que tende a aumentar.

Alguém já imaginou a possibilidade de pensarmos um mundo sem prisões? Isso é loucura, blasfêmia ou uma utopia? Certamente, o medo que perpassa os setores da vida humana e semeia suspeita em todo o tecido social, força a maioria a declarar-se a favor de “mais prisões” e até da pena de morte.

No meio deste mundo atropelado pelo imediatismo em resolver o que aparece na superficialidade de uma sociedade, temos dificuldade de fazer um profundo exame de consciência. Só assim nos daríamos conta de que precisamos investir na solidez da família; aprimorar o ensino, garantindo mais e melhores escolas; incentivar a vida em comunidade e superar a cultura do individualismo; substituir a droga por um programa de vida empenhativo e uma espiritualidade que dê sentido à vida etc.

Na questão do “mais prisões”, não está apenas uma preocupação de defender a sociedade, sanar ou condenar os indivíduos infratores. Parece que se avoluma um conceito de fracasso e pessimismo, desconfiança e descrença em relação aos seres humanos. Não custa perceber na sociedade o interesse em conviver com animais. Aqui, não faltam os que afirmam ser mais gratificante essa convivência do que com os humanos.

Na questão do “menos prisões ou nenhuma prisão”, está uma sociedade sem violência e sem vingança. Buscamos uma sociedade reconciliada e segura para todos, uma sociedade sem presos e sem prisões. Mas junto a isso clamamos por uma sociedade sem vítimas, nem crimes que venham provocar sofrimentos, revoltas ou desejos de vingança. Como cristãos precisamos sonhar e fazer acontecer, na prática, experiências de fraternidade, até que seja eliminada a violência.

Enquanto existirem presos e prisões, fazemos nosso o apelo do Papa Francisco na visita aos encarcerados na Filadélfia, no dia 27 de setembro de 2015: “Este período da vossa vida pode ter um objetivo: estender a mão para retomar o caminho, estender a mão para que ajude à reintegração social. Uma reintegração de que todos fazemos parte, que todos somos chamados a estimular, acompanhar e realizar. Uma reintegração procurada e desejada por todos: reclusos, família, funcionários, políticas sociais e educativas. Uma reintegração que beneficia e eleva o nível moral de toda a comunidade e a sociedade... Sede artífices de oportunidade, sede artífices de caminho, sede artífices de novas vias. Todos temos alguma coisa de que ser purificados”.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

AMIZADE NÃO TEM PREÇO.

Diz um célebre pensamento baseado na Bíblia, no Livro do Eclesiático, capítulo 6, versículo 14: “quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”. É justamente por saber o quando custa um tesouro que se entende quão bem representa o valor da amizade. Outro pensamento diz: “amizade não tem preço”. A amizade tem valor imensurável. No atual contexto em que as relações humanas são superficiais é prudente cultivar boas amizades. O espaço ideal para isto é a comunidade.

O termo amizade tem muito sentidos. Do latim o termo deriva de amicus, que quer dizer amigo, e também de amore, amar. Do grego refere-se à relação afetiva, mais no sentido romântico, sexual. Em sentido amplo o termo diz respeito à relação humana que envolve o mútuo afeto, lealdade, conhecimento, altruísmo, uma relação de confidente. Isto é, uma relação em que se deposita confiança. Amizade supõe credibilidade entre pessoas, harmonia, transparência no que se faz e no que se diz. Então, amizade leva a crer na coerência da relação humana.

Para dar-se conta do que representa uma verdadeira amizade, outro sábio pensamento adverte: “diga-me com andas e te direi quem és”. Ainda que não se saiba precisamente a origem e o autor dessa frase, o pensamento tornou-se imperecível. Sem exagero, imortal, imutável. Em todo caso, o pensamento representa um problema sério para a formação das pessoas. Certamente dos tempos mais remotos aos nossos dias, pais, pedagogos e mestres continuam a indicar precisamente os problemas para constituir boas amizades. Facilmente se pode entender a dificuldade de afastar filhos, jovens e mesmo adultos das más companhias e influências. Amizades têm enorme poder para construir e para desconstruir uma vida.

Na sociedade atual, voltada aos valores passageiros e de critérios subjetivos, há dificuldade em estabelecer amizades. Isto é real e resume-se no pensamento: “ame seus pais, sua vida e seus amigos. Seus pais, porque são únicos. Sua vida, porque é curta demais. Seus amigos, porque são raros”. Essas afirmações não são feitas a partir da metafísica grega do ser, mas do acontecer, do real, da relação humana cotidiana.

Um bom espaço para estabelecer amizades é a comunidade. Para os cristãos a comunidade é a base da vida. Jesus Cristo elegeu a comunidade como espaço sagrado das pessoas vivenciarem as melhores sensações da vida: ter a certeza de que se pode confiar em alguém, confiar no próximo. Em contrapartida ao individualismo e isolamento, todo ser humano deveria centrar empenho na comunidade. Sem dúvida a história humana, a vida de um povo, de uma sociedade, de cada indivíduo, acontece e se explica pelas relações comunitárias. A história de cada pessoa alcança o ápice e o mais alto ensinamento na comunidade. Para saber se alguém é um bom amigo veja o que ele faz em comunidade.

O MUNDO ESTÁ DENTRO DE NÓS

Todos os dias, invariavelmente, um grande mestre ia até à margem do rio, sentava e ficava horas naquela atitude. Aparentemente não fazia nada. Não pescava, nem parecia importar-se com o marulho das águas ou com beleza das flores e do canto das aves. Depois de um certo tempo, levantava e ia para casa. Essa estranha rotina despertou curiosidade num vigia de uma luxuosa mansão, diante do qual o mestre passava.

Depois de observar por algum tempo esta rotina, aparentemente, sem sentido, o vigia resolveu interrogar o estranho personagem. Desculpe-me a curiosidade; muitas vezes vejo o senhor descer até o rio, mas não faz nada. Só fica sentado junto às águas e depois volta para casa. O mestre não respondeu, mas fez uma pergunta: eu também tenho observado o senhor, que fica parado diante da porta. O que mesmo o senhor faz? Ora, é muito simples, eu sou o vigia.

Que coincidência, disse o mestre, eu também sou vigia. Mas existe uma pequena diferença, o senhor vigia uma casa e eu vigio a mim mesmo. Estranho, observou o vigia, e quem lhe paga por isso? O meu ganho é a tranquilidade que não pode ser medida por nenhum tipo de remuneração deste mundo.

Conhecer a si mesmo é o ponto mais alto da sabedoria, a mais difícil das artes, observava o filósofo grego Sócrates. E Santo Agostinho ironizava os que viajavam para conhecer países, montanhas, lagos, templos, mas não conheciam a sis mesmos.

A pressa, a velocidade e o barulho marcam nossa civilização. As agendas, quase sempre, estão lotadas. Em função disso, acabamos dispensando o que nos parece menos importante. E esta lógica nos leva a dispensar as coisas do espírito e gastar o tempo todo com tarefas. Nosso tempo é caracterizado pelo saber. Dominamos a técnica e sabemos tudo o que acontece no mundo, mas ignoramos o que está dentro de nós.

A cada noite, milhões ficam magnetizados diante do vídeo. Queremos saber o que aconteceu no mundo. Ou seguimos com emoção os capítulos das novelas e o drama pessoal de cada personagem. E como estamos habituados ao fazer, nem mesmo sabemos usar o tempo ocioso, disponível. Ativistas, nos sentimos culpados quando nada estamos fazendo. O silêncio nos assusta, pois temos medo de encarar a nós mesmos.

As coisas são importantes, as tarefas precisam ser feitas, mas não podemos pagar um preço absurdo por isso. Temos direito de tempos na fascinante caminhada pelo nosso interior, povoado de tesouros. São esses tempos que acabam por dar sentido às coisas que fazemos. É, sobretudo, no silêncio iluminado de nosso interior que está Aquele que dá sentido ao tempo e à eternidade - Deus. Só Ele pode dar significado à nossa vida. Deus é silêncio, Deus é música, Deus é paz, Deus é a chave para entender a nós mesmos e nosso agir.

O MUNDO ESTÁ DENTRO DE NÓS

Todos os dias, invariavelmente, um grande mestre ia até à margem do rio, sentava e ficava horas naquela atitude. Aparentemente não fazia nada. Não pescava, nem parecia importar-se com o marulho das águas ou com beleza das flores e do canto das aves. Depois de um certo tempo, levantava e ia para casa. Essa estranha rotina despertou curiosidade num vigia de uma luxuosa mansão, diante do qual o mestre passava.

Depois de observar por algum tempo esta rotina, aparentemente, sem sentido, o vigia resolveu interrogar o estranho personagem. Desculpe-me a curiosidade; muitas vezes vejo o senhor descer até o rio, mas não faz nada. Só fica sentado junto às águas e depois volta para casa. O mestre não respondeu, mas fez uma pergunta: eu também tenho observado o senhor, que fica parado diante da porta. O que mesmo o senhor faz? Ora, é muito simples, eu sou o vigia.

Que coincidência, disse o mestre, eu também sou vigia. Mas existe uma pequena diferença, o senhor vigia uma casa e eu vigio a mim mesmo. Estranho, observou o vigia, e quem lhe paga por isso? O meu ganho é a tranquilidade que não pode ser medida por nenhum tipo de remuneração deste mundo.

Conhecer a si mesmo é o ponto mais alto da sabedoria, a mais difícil das artes, observava o filósofo grego Sócrates. E Santo Agostinho ironizava os que viajavam para conhecer países, montanhas, lagos, templos, mas não conheciam a sis mesmos.

A pressa, a velocidade e o barulho marcam nossa civilização. As agendas, quase sempre, estão lotadas. Em função disso, acabamos dispensando o que nos parece menos importante. E esta lógica nos leva a dispensar as coisas do espírito e gastar o tempo todo com tarefas. Nosso tempo é caracterizado pelo saber. Dominamos a técnica e sabemos tudo o que acontece no mundo, mas ignoramos o que está dentro de nós.

A cada noite, milhões ficam magnetizados diante do vídeo. Queremos saber o que aconteceu no mundo. Ou seguimos com emoção os capítulos das novelas e o drama pessoal de cada personagem. E como estamos habituados ao fazer, nem mesmo sabemos usar o tempo ocioso, disponível. Ativistas, nos sentimos culpados quando nada estamos fazendo. O silêncio nos assusta, pois temos medo de encarar a nós mesmos.

As coisas são importantes, as tarefas precisam ser feitas, mas não podemos pagar um preço absurdo por isso. Temos direito de tempos na fascinante caminhada pelo nosso interior, povoado de tesouros. São esses tempos que acabam por dar sentido às coisas que fazemos. É, sobretudo, no silêncio iluminado de nosso interior que está Aquele que dá sentido ao tempo e à eternidade - Deus. Só Ele pode dar significado à nossa vida. Deus é silêncio, Deus é música, Deus é paz, Deus é a chave para entender a nós mesmos e nosso agir.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

EU DEVIA TER AMADO MAIS.

O dia era normal, não muito diferente dos demais. Mas logo cedo, um refrão veio à mente: ‘eu devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais...’ Naquela manhã pensei, muitas vezes, na letra e na melodia dessa sempre atual canção dos Titãs. Há músicas que nos fazem cantarolar o dia inteiro. Talvez seja um jeito de reviver momentos, aguçar emoções, atualizar sentimentos. A vida precisa de música, de letras que falem do que vai nas profundezas da existência. Quanto maior a identificação, mais intenso é o afeto. Em alguns minutos do dia, as pessoas poderiam cantarolar, nem que fossem canções de ninar.

O contexto que envolve e delineia o conteúdo de Epitáfio, música que continua contabilizando tributos aos Titãs, é instigador e curioso. O grupo musical imaginou o que poderia estar escrito no próprio túmulo. Impossível acompanhar a melodia sem abrir espaço à reflexão. A letra não deixa de expressar o lamento por um tempo que não volta e por atitudes que poderiam ter sido diferentes. A constatação é de que os anos passaram, sem que a vida provasse a intensidade. A normalidade dos sinais vitais não é garantia absoluta de que a vida esteja direcionada à plenitude. Não são poucos os que respiram sem gratidão, os que caminham sem eira e nem beira, os que aguardam simplesmente pelo desenrolar dos dias.

Falar da inscrição na lápide do túmulo é estranho. Alguns podem não dar continuidade à leitura. Mas não deixa de ser uma verdade da qual ninguém pode se esquivar. Um dia, talvez, os formatos de reverência à última morada não sejam nada parecidos com os da atualidade. As inscrições ocuparão, quem sabe, unicamente os corações daqueles que provaram a grandiosidade do ato de amar e ser amado. Mas há algo que não quer calar: a vida passa, só permanece a intensidade dos momentos, a coerência dos atos, a leveza dos relacionamentos. Impossível voltar atrás e refazer uma trajetória.

Cada momento é único e um instante pode durar uma eternidade. Tudo seria diferente se houvesse uma opção radical por ser simplesmente humano. A agitação e a insatisfação têm colocado a vida à margem da felicidade. Há dias em que os sorrisos são largos. Em alguns momentos, as lágrimas são abundantes. Não importa. Sempre será possível amar mais, chorar mais, presenciar o espetáculo do nascer do sol, arriscar mais. Se não houver lápide, houve ao menos um coração que não esqueceu, em nenhum instante, de amar profundamente mais.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

COMPAIXÃO COM OS PRESOS

Não faltam aqueles que perguntam com ironia: O que a Igreja tem a ver com os presos? Por que a Igreja entra nesse assunto? Por que compadecer-se deles, se eles não tiveram compaixão pelos outros? Por que interessar-se pelos seus direitos, se eles não respeitaram os direitos dos outros? Por que há tanta impunidade? São essas as únicas pessoas que merecem estar na cadeia?

Questiona-se sobre esta realidade dramática dos presos e das prisões, parece uma reação natural. Porém, condenar não faz parte do pensamento e, menos ainda, da prática cristã. A Igreja tem a ver com os presos, porque, em primeiro lugar, Cristo se preocupou e veio para nos libertar de todas as prisões. Quando Ele publicou seu programa de vida e missão retomou o que disse o profeta Isaias. Um dos compromissos confirmados foi: “Enviou-me para anunciar a libertação aos presos...”.

Cristo, que veio para nos libertar de todas as prisões, também experimentou na carne a dramática prisão, como inocente. Mas, foi passando por ela, ao extremo do aprisionamento da cruz, que Ele nos libertou e inaugurou, pela ressurreição, a possível redenção para todos. Em Cristo, o crucificado ressuscitado, “Não há uma pessoa irrecuperável. Ninguém é irrecuperável!”.

A Igreja, corpo de Cristo no tempo e no espaço, é chamada por natureza a colocar-se a serviço da sociedade, ajudando a aprimorar e redimir a convivência humana. A compaixão da Igreja com os presos encontra também uma razão humana. Não existe ser humano que esteja isento de erro. Somos todos capazes do ótimo e do péssimo. Em cada um de nós está escondido um anjo ou um demônio.

Quando nos referimos aos presos, somos chamados a pensar que toda a pessoa é maior que a sua culpa e que todos são recuperáveis. Pensar assim parece uma ingenuidade, mas o problema é não se permitir pensar assim e não investir na recuperação. Quando se criam confianças em torno da pessoa, por mais ferida que esteja, sempre se abre uma porta de esperança para a sua recuperação. Paciência, confiança e perseverança são remédios caros, mas que possibilitam a cura.

O senso de humanidade e a força da fé cristã nos mostram, com evidência, que não se corrige a violência com outra violência; não se apaga o fogo com o fogo. Cremos, também, que detestar o pecado não significa desenganar o pecador. Cremos que seja possível superar a violência com o amor, a bondade e o perdão.

O amor perdoa sempre e, mesmo diante de situações limite, mantém vivo o sonho de uma sociedade reconciliada e fraterna. O que constrói a fraternidade é o perdão. “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!” (Jesus). Neste assunto é bom lembrar que a história da Igreja começou com perseguições e cadeias. Os presos não são estranhos para nós. Foram nossos companheiros de “prisão” em muitas situações históricas que ainda hoje continuam.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

VIOLÊNCIA E POLÍTICAS PÚBLICAS

A população do Rio Grande do Sul e do país inteiro vive assombrada pelo fenômeno da violência. Diante desse fenômeno quero refletir com a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) sobre a origem da violência.

Hannah Arendt alertava para a falta de grandes estudos sobre o fenômeno da violência e a consequente banalização do conceito. Para ela, a violência caracteriza-se por sua instrumentalidade e sua distinção do poder, do vigor, da força e da autoridade. A política constitui-se o horizonte de interpretação da violência que, por sua vez, não é nem natural, pessoal ou irracional. Nessa ótica, a violência contrapõe-se ao poder de tal forma que onde domina um absolutamente, o outro está ausente.

A partir de Arendt, a violência fornece um referencial teórico para entender o fenômeno na sua complexidade e amplitude. Seu pensamento fundamenta-se num caminho de ação no campo da educação em vista de uma intervenção na realidade de violência social. Uma educação que não efetiva a ação e em que os sujeitos não são protagonistas e autônomos em seu agir, é uma educação que fomenta a violência.

Para a filósofa, a violência e sua glorificação explicam-se pela severa frustração da faculdade de agir no mundo contemporâneo pela raiz da burocracia da vida pública. “Os seres sociais agem pelos impulsos e se tornam irracionais manifestando-se de modo violento. A violência é uma atitude irracional, mas é racional no momento em que a reação no curso de um conflito se transforma em ação e, no calor da emoção, reúne varias pessoas num mesmo grupo social. Na multidão, esse ser social não tem nome, identidade, profissão, sexo e não segue as leis, as regras e, acima de tudo, os comportamentos e condutas são negligenciados”.

Essa temática é vasta e não se pretendeu esgotar o assunto, mas vale lembrar dados da criminalidade do Rio Grande do Sul, onde a maioria dos encarcerados são jovens. Grande parte deles estudou até o 6° Ano do ensino fundamental. Cada ano que uma criança ou adolescente permanece na escola, reduz em 10% a possibilidade de cair no mundo do crime. Isso é comprovado pela estatística de que apenas 0,04% dos apenados terem concluído um curso superior. Portanto, investir na educação é todo um conjunto que perpassa diferentes esferas de políticas públicas, como, por exemplo, ações conjuntas de todos os governos em prol da saúde, do emprego, da moradia, do saneamento básico, do esporte e cultura e muito mais. Isto é, vai além da cogitação de novos presídios.

domingo, 6 de novembro de 2016

OS RICOS CADA VEZ MAIS RICOS

Apesar da crise econômica os ricos estão sempre mais ricos. Isto mostra que a crise é oportunidade para alguns aumentarem seus ganhos. Do outro lado da moeda, a realidade da maioria da população é pobreza e penúria. Se poucos ganham com a crise e a maioria padece, o sistema é perverso, cruel. Cabe diante desta triste realidade pensar num outro sistema. É tarefa mundial para o bem da humanidade.

Segundo o levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, divulgado na última semana do mês de setembro, o rendimento real dos 10% mais ricos subiu 2,4% nos últimos doze meses. Em contrapartida, os rendimentos reais para quem recebe menos que um salário mínimo caíram cerca de 9% nos últimos doze meses. Também conforme o IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou retração de 0,6% no segundo trimestre.

A pesquisa ainda mostrou que a redução nos salários reais foi pior em setores com a menor qualificação e nenhuma das ocupações exercidas com apenas o ensino fundamental apresentou sustentação na renda. Os grupos mais afetados são os jovens até 25 anos, as mulheres e os trabalhadores com ensino médio incompleto. Nos grupos intermediários a queda foi de 3%. O rendimento médio apresentou uma perda de 1,5% em comparação com o trimestre anterior. Somam-se à queda no rendimento as condições do mercado de trabalho que permanecem em ritmo acelerado de deterioração, com a taxa de desemprego passando de 10,9% no primeiro trimestre de 2016 para 11,3% no segundo. Os Estados com menor renda como Maranhão, Ceará, Alagoas e Bahia, todos no Nordeste, além do Pará, na região Norte, são os mais afetados. Em suma, como diz a sabedoria popular, “dinheiro faz dinheiro”.

A amostragem desses dados não visar condenar os ricos, mas refletir que no atual sistema, com ou sem crise, continuam sendo favorecidos. Contrapor a realidade penosa da maioria da população alimenta a ideia de que é possível outro sistema mais justo. Contudo, outro sistema é possível perante o grito e a mobilização das vozes dos excluídos e marginalizados. Predicar por esperança a quem está fora e não possui a mínima condição de competir sem a utopia de outro sistema mais justo, igualitário e menos excludente é inaceitável. A mudança do sistema é urgente, pois privado de condições de dignidade o homem morre e a sociedade adoece por inteiro. O atual sistema tem privado a maioria da população do acesso ao crescimento, do direito de viver, do básico necessário para a vida. Neste sistema econômico para alguns os cofres estão mais cheios enquanto para muitos as mãos estão sempre mais vazias. Para qualquer cristão e homem de bem isto é inaceitável.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

ESTIVE NA CADEIA E ME VISITASTES;

Quando o evangelista Mateus, no capítulo 25, vai declarando os critérios do julgamento das nações, tudo nos parece claro e razoável. Porém, quando chega ao versículo 36b e 43b ficamos perplexos e questionamos o Cristo: “Quando foi que te vimos preso e te visitamos, ou não te visitamos?”. Não cabe no imaginário que temos de Cristo pensá-lo como merecedor de tal punição. Então, ele mesmo nos recorda que todas as vezes que fizemos, ou não fizemos isto a um nosso irmão, ou irmã, foi a Ele que visitamos ou não visitamos.

Diante desse apelo que nos é feito por esta obra de misericórdia, a questão que nos inquieta não é a visita, em si, mas o que vem antes e depois, a causa e o efeito de uma condenação prisional. Que tipo de humano é preso? Qual é o motivo de sua prisão? A sociedade quer de volta alguém que foi preso? É possível recuperar alguém na prisão? E o potencial de uma liberdade consciente e responsável, como reage dentro de uma prisão? E mesmo na visita a um prisioneiro, que sentimento vai conosco? Qual remédio vamos oferecer? Quais palavras ou gestos vamos comunicar?

Diariamente ficamos estremecidos com notícias que nos inquietam. Além de aumentarem os crimes e delitos, comprova-se que o modo como isso acontece está ficando cada vez mais recrudescido, repugnante e grotesco. Além disso, confirma-se que os autores desses desmandos são pessoas de carne e osso, cujas vítimas igualmente o são. Não é difícil ouvir responsáveis pela segurança da sociedade proclamarem, em alto e bom tom, que precisamos construir mais presídios de segurança máxima. No meio de tudo isso, parece aumentar sempre mais a torcida dos que acham que a única solução é a pena de morte.

Ficamos chocados com as denúncias sobre superlotação de cadeias e prisões, maus tratos infligidos aos presos, torturas, massacres, fugas, chacinas, excessos de guardiães da ordem, revoltas nas prisões, dificuldades de reintegração no convício social e reprovação dos gastos públicos na manutenção de cada condenado etc. Não é difícil ouvir julgamentos com dois pesos e duas medidas. Enfim, a misericórdia humana sente-se muito enredada neste campo de relações com o mundo da criminalidade, da corrupção e do delito.

Os fatos violentos mexem com os sentimentos profundos do ser humano, tanto em nível pessoal quanto coletivo. Despontam as mais controvertidas reações, desde a indiferença, a rejeição, o medo, o desejo de vingança, até a misericórdia e a compaixão. É muito fácil ceder ao medo ou deixar-se levar pelo primeiro impulso do preconceito.

Os meios de comunicação social, com sua força de convencimento e de formação da cultura, servem-se, com frequência e de forma ampla, do sensacionalismo da violência para temas de filmes, novelas, reportagens e comentários. Tanta divulgação, mais do que formar, deforma a relação humana, generalizando a desconfiança, dificultando a serenidade necessária para refletir e perdoar e desmotivando a obra de misericórdia relacionada à visita dos encarcerados.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

UM CENÁRIO DIFERENTE

Sempre gostei de cenários. O mundo é recriado com algum ou nenhum toque humano. Os detalhes quase sempre roubam a cena. A imaginação acaba completando o que, por um lapso, ficou faltando. Mas cenários precisam de enredos e personagens. Talvez mais de personagens, pois há histórias sobrando, no aguardo de uma harmoniosa e sequencial redação. Em alguns dias, os cenários se alternam rapidamente. Nem sempre é possível fechar a gaveta de determinados sentimentos e abrir aquela que está na urgente sequência. A pressa não gosta de incrementos. O olhar de quem está apressado é desprovido da verdadeira percepção. Ainda bem que o maior de todos os cenários, a natureza, sempre será capaz de surpreender.

Num dia desses, experimentei uma profunda alegria, num cenário atípico. Nesses anos todos de vivência, não imaginei que o quarto de um hospital poderia ter o aspecto de uma catedral, ornada para uma cerimônia. As circunstâncias levaram o jovem casal a efetivar somente o casamento civil. Para o sacramento do matrimônio almejavam reunir os familiares e os numerosos amigos. Impossibilitados por questões financeiras, adiaram o sonho de ‘casar na igreja’. É bonito interligar o matrimônio com a festa. Porém, a maior festa é o próprio sacramento que santifica o amor entre duas pessoas e o diviniza.

Aquele leito nem parecia cama hospitalar. Havia tapete vermelho. Muitas flores, familiares e padrinhos. Ela estava com um belo vestido de noiva. A equipe de enfermagem permitiu leve maquiagem. Segurava um singelo buquê. Tocou a marcha nupcial. Entrou o noivo e o filho de 4 anos, com as alianças. Muitos sorrisos, incontidas lágrimas, muitas lágrimas. A cerimônia foi simples. As coisas de Deus sempre têm a marca da simplicidade. Os noivos, apesar de tudo, disseram com convicção: ‘na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...’ O Pai-Nosso de mãos dadas elevou aos céus gratidão por aquele momento tão especial e súplicas pela recuperação da saúde.

Guardarei para sempre esse momento celebrativo. O amor não precisa de requintado cenário. O amor é tudo, é mais do que um cenário. A noiva até jogou o buquê. Por uns instantes, o hospital tornou-se festivo, palco de um amor eterno. Não importa como serão os outros dias. Aquele momento resumiu e reuniu o tempo suficiente para confirmar que família é tudo. Aprendi: o quarto de um hospital também pode ser uma catedral. Basta que haja amor e muita fé.

TER FÉ ESTÁ NA MODA



As famílias eram conhecidas. Vi o crescimento dos filhos. Antes de marcar o casamento, o celular tocou para uma breve consulta à agenda. O grande dia chegou. Sempre gostei de cerimônias de matrimônio. É a festa máxima do amor familiar. A homilia não deve ser longa. O simbólico tem uma capacidade tremenda de comunicar o que vai além das palavras. Nem sempre nos damos conta de que algumas frases são realmente de efeito. Aquele sábado fora de agenda lotada. Os imprevistos também ocupam espaço. Há acontecimentos que merecem ser atendidos. Não podem ser adiados.

Acabei não participando da festa social do referido casamento. Não foi por falta de vontade. No dia seguinte, a agenda continuaria praticamente lotada. Quando cheguei no convento, ouvi o sinal de uma mensagem no celular. Era de um casal amigo que estava na cerimônia de casamento. A mensagem era curta: ‘Ter fé está na moda’. Somente isso. Imediatamente recordei que fora a frase que eu havia pronunciado aos jovens noivos. Uma profunda alegria tomou conta do meu coração. Adormeci com a certeza de que os jovens têm escuta seletiva. Talvez não prestem atenção em muitas palavras, mas captam o essencial.

Na tentativa de resgatar a caminhada cristã, eu havia dito aos noivos que ter fé, hoje, é estar na moda. Há um retorno visível à espiritualidade. O cenário já não é mais de rejeição ou de indiferença. Outro acréscimo interessante diz respeito à aceitação das diferenças. Evidente que o caminho ainda é longo, quando se trata de um olhar crítico, pois nem tudo é espiritualidade. Não tenho dúvidas de que os próximos tempos serão de muita fé. Talvez as manifestações religiosas terão diferentes formatos. Mas a espiritualidade será resgatada como garantia da própria felicidade.

Ter fé está na moda. Ou melhor, nunca saiu de moda. Os antigos filósofos não vacilavam: o ser humano é corpo e alma, matéria e espírito. As buscas mais profundas continuam aspirando pela transcendência. Em cada época as acentuações até podem se alternar. Porém, é impossível negar o que vai na essência. Os noivos estavam felizes. Os pais também. Todos estávamos felizes. A fé não é um enfeite, nem um efeito. A fé é um dom que ilumina o amor. Para ser feliz para sempre é imprescindível ter fé, muita fé. Ter fé está na moda.