quarta-feira, 31 de maio de 2017

A VIDA TEM ESTAÇÕES.

Sempre gostei de prestar atenção nas transformações que acontecem, nas diferentes estações do ano. A natureza é dinâmica e criativa. Apesar de todas as interferências inconsequentes da mão humana, o planeta continua dando sinais que encantam, elevam e convidam à contemplação. Quem tem um contato maior com o meio ambiente certamente vive muito melhor. São Francisco de Assis inspirou uma nova postura na relação com a obra da criação. Ele chamava a terra de mãe, o sol de irmão. Cada ser criado recebia o respeito devido, por ser uma extensão do Criador. O mundo utilitarista distanciou o humano dos seus ‘irmãos’ e ‘irmãs’ e a natureza iniciou um longo caminho de padecimento. Ainda bem que nem tudo está perdido. A conscientização não pode dar trégua até não despertar na humanidade um grande cuidado.

É interessante perceber a vizinhança entre as estações. A impressão é de que uma prepara a chegada da outra. O outono, com todo seu charme, faz alguns preparativos para a chegada do inverno, depois de ter se despedido do verão. A primavera brilha nas muitas tonalidades, sem deixar de abrir os braços para acolher, em seguida, o verão. O dinamismo da troca de estação permite detalhes incríveis. É lamentável que a distração simplesmente roube o olhar de admiração que poderia brotar do coração humano. Um dia, talvez, a velocidade e o excesso de preocupações abram espaço para outros sentimentos que darão à vida um novo jeito de ser e de conviver com tudo e com todos.

Todas as estações têm suas peculiaridades, mas o outono é de um charme sem igual. Creio que seja a estação que mais se aproxima do desapego e do retorno à essência. As folhas caem e os excessos são podados. As cores são variadas, apesar da delicadeza de algumas tonalidades, o vento se encarrega de levar as folhas para longe, no intuito de serem absorvidas pela mãe terra. Os humanos poderiam aprender muito com a especificidade de cada estação. Como é necessário se despir dos excessos, permitindo novas tonalidades, recolhendo-se, com o intuito de perceber e se restabelecer com o silêncio que harmoniza e que faz transbordar a paz. Gratidão aos ensinamentos do outono.

terça-feira, 30 de maio de 2017

A MORTE É MAIS TRISTE NO VERÃO.

Roma é uma cidade marcada por uma relação especial com a morte. Começando pelos monumentos: as catacumbas, os mausoléus, ou os mausoléus construídos sobre catacumbas, símbolos da morte elevados ao quadrado. Mas os monumentos também são memória. Volta e meia entro em uma igreja e encontro esculpido no mármore (para que não se apague): "Recorda que deves morrer". Recordar a morte, passar por ela e recordar a morte dos outros, projetando nela a nossa própria finitude, a cada sítio arqueológico ou local de culto. Mas não só nesses lugares.

Passando pela via dei Fori Imperiali, a grande avenida que liga a Praça Veneza ao Coliseu, os turistas podem admirar, maravilhados, o Foro Imperial de um lado e o Foro de Trajano do outro. Poucos observam uma bicicleta pintada de branco, junto de um poste, diante da estátua de Nerva, um dos imperadores da Roma antiga, que, com as esculturas dos demais imperadores, materializa os grandes momentos da antiguidade como um livro a céu aberto.

A bicicleta era de Eva, uma imigrante vinda da República Tcheca, uma estrangeira como tantos nesta cidade, que vivem e adotam Roma como sua. Eva foi atropelada quando retornava do trabalho em outubro de 2009. Os ciclistas romanos transformaram a sua bicicleta em símbolo das vítimas do trânsito. Conservam a pintura, enfeitam a bicicleta com fitas coloridas, fazem disso um hino cotidiano à vida de Eva. A morte para recordar a vida que houve.

Roma está cheia de locais que recordam os que já se foram. Não são necessárias placas ou explicações, quem mora aqui sabe do que se trata. Ontem mesmo voltava para casa depois de um dia quente, ensolarado, e me deparei com um maço de flores frescas em um poste perto da minha casa. Trata-se de uma pessoa morta naquele lugar, anos atrás. E apesar dos anos, do sol, do calor, as flores estão ali, frescas. Porque alguém não deixa que as flores sequem e que a memória se apague. Em momentos como esse, percebemos que a morte está sempre por perto, triste como no primeiro dia. Imbatível diante das estações do ano. Mas isso também nos recorda que vale a pena viver e que vale a pena confiar: um dia as flores frescas estarão lá para nós, depostas por um anônimo, depois de tantos meses, de tantos anos, lembrando aos que estarão no nosso lugar que a vida continua. E pode ter a graça de uma flor, um gesto tão simples e tão profundo.

Roma é tudo isso. Uma cidade cheia de problemas, uma cidade em que os conflitos com os imigrantes podem aparecer atrás do próximo muro ou dentro de quatro paredes. Mas também é uma cidade que acolhe e recorda sem distinção os que nela viveram. E por isso, e não só por isso, é uma cidade única, melancólica com o seu perfil cor de ocre e as suas ruínas, uma cidade com flores frescas em pleno verão, que a deixam ainda mais triste na sua lindeza histórica.

domingo, 28 de maio de 2017

O BRASIL DO ESPELHO

Depois de visitar o País das Maravilhas, Alice, personagem de Lewis Carroll, decidiu atravessar o espelho de sua casa. Assim, entrou no País do Espelho, onde viu tudo ao contrário do que realmente é.

Se vivesse hoje no Brasil, bastaria Alice sair à rua para ver a realidade invertida: o bem comum ignorado pela maioria dos políticos; a propina superior ao salário; a mentira a tentar encobrir a verdade; a safadeza a predominar sobre a ética; e a venalidade sobre a honestidade.

Veria vários Brasis. E dois em destaque: o da maioria, que trabalha arduamente para ganhar por mês menos de dois salários mínimos, e quando doente sofre ainda mais por não contar com a eficiência do SUS e nem poder pagar o preço abusivo de remédios e planos de saúde.

E o Brasil dos que subornam instituições, juízes, deputados, senadores e governadores, para facilitar seus negócios e engordar os lucros. O Brasil dos que mamam nas tetas do Estado.

É tamanha a fila dos que têm rabo preso que todos eles devem estar se perguntando: “Quando chegará a minha vez?”

O presidente Temer recebeu no porão do Palácio Jaburu, no dia 7 de março, um bandido que se chama Joesley Batista, mas ingressou na residência oficial sob a alcunha de “Rodrigo”. Ali ele descreveu descaradamente, à máxima autoridade do país, as falcatruas nas quais andava metido. Recebeu do presidente estímulo para continuá-las.

Não me surpreende se, naquela noite, ao colocar para dormir o pequeno Michel, Temer tenha lido para o filho Alice no país do espelho e gravado na memória este trecho, no qual acreditou ao receber o homem que diz ter corrompido 1829 políticos: “Acho que não podem me escutar... e tenho quase certeza de que não podem me ver. Alguma coisa me diz que estou invisível...”

O rei está nu! E, apesar de seus dois pronunciamentos, não conseguirá ingressar no espelho e ver a sua real situação invertida.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

HARAQUIRI


Em japonês, seu nome é Seppuku. No Ocidente, tornou-se conhecido como haraquiri. Em qualquer uma das versões, literalmente, significa “cortar o ventre”. As primeiras informações de sua existência remontam ao século XII. No século XIX, foi proibido. Reservado aos samurais, o ritual surgiu primeiramente como prova de lealdade, mesmo na morte, do samurai ao seu senhor. Com o tempo, passou a ser executado como forma de resgatar a nobreza de um samurai que traíra ao seu senhor ou infringira o código de honra dos guerreiros.

O harikiri era uma cerimônia pública. Após ter obtido autorização de seu senhor, o samurai, devidamente trajado, ajoelhava e, tomando sua espada ou punhal, realiza primeiro o kiru, um corte horizonte, abaixo do umbigo (em japonês, hara), da esquerda para a direita. Em seguida, se lhe restavam foças, fazia outro corte no sentido vertical, de baixo para cima. As vísceras deviam ser versadas para fora para provar a honradez. Feito isso, entrava em ação o kaishakinin que, num golpe de misericórdia, realizava a decapitação final.

Mesmo identificada com a cultura oriental, a prática de tirar a própria vida como um modo de ter morte digna, foi comum também na Roma antiga. Chefes militares e soldados, na iminência de serem aprisionados pelos inimigos, optavam por cravar a espada em si mesmos. Como nos atesta a Bíblia no livro dos Atos dos Apóstolos, qualquer funcionário público que falhasse no cumprimento do seu dever, salvava sua honra tirando a própria vida (At 16, 25-28). Mas o ato era mais habitual entre os funcionários mais graduados. Foi o caso do general Quintílio Varo ao ser derrotado pelos germanos. Sentindo-se culpado por não ter sabido conduzir seus soldados, cravou a espada no peito. O mesmo foi feito por Marco Antônio, aquele que se tornou famoso por ser amante de Cleópatra. Nero, sem coragem para tal ato, pediu a um soldado que lhe cravasse a espada no coração.

Mas o método mais utilizado em Roma para morrer com dignidade era o corte nos pulsos. A história nos atesta que foi grande o número de políticos romanos que, metidos em intrigas e falcatruas, recorriam a esta prática. No fim do período de Tibério, parte significativa do Senado romano fez correr o sangue das próprias veias. Estavam todos com a honra comprometida e, para fugir à prisão e castigo, preferiram sair desta vida por própria iniciativa e assim resgatar a dignidade, mesmo que fosse depois da morte. Segundo o historiador Tácito, “por medo do carrasco preferiam morrer assim, e também porque, aos condenados, recusava-se sepultura e os bens eram confiscados, enquanto que aos que tiravam a própria vida respeitava-se o testamento e dava-se sepultura ao corpo, como recompensa”. Entre os que optaram por essa saída encontram-se os famosos Sêneca, professor de Nero, e o escritor Petrônio.

Tripas saltando para fora do ventre, espada cravada no coração, sangue jorrando dos pulsos... Cenas que, certamente, não são mais necessárias e nem desejáveis na nossa sociedade moderna e civilizada que rejeita a violência. No lugar delas, sugerimos o simples, singelo e incruento sincericídio. Se alguma noção de honra resta aos homens públicos neste momento de crise nacional, poder-se-ia apenas exigir-lhes que admitam seus crimes, deixem a vida pública, devolvam o dinheiro roubado e, num gesto de grandeza, nunca mais a ela voltem. E isso, de livre e espontânea vontade para que as mãos das vítimas não se sintam tentadas a sujar-se para fazer justiça

quinta-feira, 25 de maio de 2017

NÃO CAMINHAMOS SÓS

Do inferno não há volta. Sua entrada não tem portão, nem cadeado, nem chave. Mas uma vez passado o limiar, não há como retroceder. A frase no alto, adverte: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” É a entrada do inferno descrita por Dante Aleghieri em sua Divina Comédia. O sentido da frase é claro: depois da morte, não há mais possibilidade de mudança no nosso destino. Ou estaremos no céu, ou no inferno.

Menos óbvia era a frase colocada no portal de entrada de vários campos de concentração na Europa do séc. XX: "Arbeit macht frei". O trabalho liberta. Ela podia soar como uma advertência: quem foi trazido para cá é porque é vagabundo, não sabe se organizar na vida, precisa ser forçado a aprender e, numa sociedade industrial, o trabalho é a melhor forma de disciplinar os desviados e rebeldes da sociedade. Parece que foi esse o sentido primeiro do uso da frase pelos nazistas. Judeus, ciganos, homossexuais e comunistas eram pessoas vagabundas que precisavam ser reeducadas e assim contribuir para a construção do Terceiro Reich. Frei Joseph-Marie, foi prisioneiro durante três anos em um desses campos. Para ele, a frase era uma sádica ironia. Em Dachau, Auschwitz, Buchenwald e tantos outros, a única libertação que um prisioneiro podia esperar, era a morte. Ela era a esperança de libertação daquele inferno de trabalho, fome e vexações.

As duas frases me vieram à mente na segunda-feira passada quando, ao chegar no Hospital Colônia Itapuã, me deparei com o portal que separava a “área limpa” da “área suja” do leprosário, disse Vanildo Luiz Zugno. Era um portal que, diferentemente do inferno de Dante, tinha portão, cadeado e, ao seu lado, muros e arame farpado que impediam qualquer um dos internos de sair. Mas assim como o portal do inferno de Dante, este também só tinha entrada. Uma vez ultrapassado o limiar, não havia qualquer possibilidade de saída. Nem depois da morte. Do lado de dentro estava o cemitério para onde eram levados os ali falecidos. Até hoje seus restos lá estão. Nem um único sequer foi reclamado pelos familiares.

No alto do portal do leprosário, uma enigmática frase: “Nós não estamos sós”.A
 frase foi escolhida em um concurso entre os internos. Das muitas sugerida, esta foi a escolhida. Me pus a pensar: qual seu sentido? Qual a intenção do interno, que sabia que nunca mais sairia de lá, ao pronunciar aquela frase? E qual a intenção daqueles – o diretor do hospital, as irmãs da Penitência e Caridade Cristã que ali trabalhavam, Frei Pacífico de Bellevaux, capelão do Hospital Colônia Itapuã de 1940 a 1954 – ao escolher esta frase? Não sei. Não sabemos. Não há, até agora, nenhum documento que o diga...

Mas, Rita, a gentil enfermeira de tantas experiências com os remanescentes do leprosário e com os doentes mentais que hoje ocupam o espaço, foi a quem deu a chave para o enigma da frase. Num tempo em que não havia medicação para a hanseníase, eles foram retirados do convívio social, sepultados ainda em vida, ocultados dos olhos de todos, para que a sociedade não fosse contaminada pela lepra. Eles deram sua vida para que o resto da sociedade não tivesse sua vida ameaçada. Segregados da sociedade, trancafiados nos pavilhões Carville, seus filhos arrancados – literalmente - do seio materno e enviados para o Abrigo Santa Cruz, eles e elas, não estavam sós naquele vilarejo a 60 quilômetros de Porto Alegre. Toda a sociedade estava com eles. Eles carregavam sobre si a doença da sociedade para que esta pudesse estar sã. Verdadeiramente, eles não estavam sós! Nós estávamos com eles e, isso, não pode ser esquecido

quarta-feira, 24 de maio de 2017

QUE BONITO É SER FAMÍLIA

Os horários conventuais, exceto em alguma ocasião, são sempre muito pontuais. O início da oração e das refeições, bem como dos momentos formativos, é respeitado ao pé da letra. Não se trata de rigidez, mas de organização. Sempre gostei da pontualidade, pois a mesma nos deixa com maior liberdade e também com a responsabilidade de ficarmos dentro do espaço de tempo destinado às respectivas funções. O almoço, por exemplo, dura exatamente 30 minutos.

Há uma oração inicial e uma final. Mesmo que alguns terminem antes, todos permanecem à mesa. Não há TV ligada e nem outros aparelhos de som. Além de saciar o corpo, aquele tempo se destina ao diálogo e às trocas de informações. Não deixa de ser um ritual muito significativo.

O mundo imprimiu outro ritmo ao cotidiano. Muitas famílias já não se encontram ao redor da mesa. Em alguns lares, o destaque não está na convivência e no diálogo, mas nas notícias e nos programas televisivos. Por incrível que pareça, mesmo estando ao redor da uma bela mesa, muitos olhares não se encontram, a comunicação não flui e, consequentemente, os alimentos não são saboreados adequadamente.

A refeição não deveria apenas saciar a fome, mas, sim, manter próximos aqueles que estão unidos pelo vínculo do amor. A mesa sempre será sagrada pelo pão de cada dia e por nutrir o vínculo familiar. Encontrar-se é uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma prioridade. É condição para reavivar a chama do amor e da pertença mútua.

A esperança da grande maioria é que um dia tudo será diferente. Não há garantias de que o mundo terá um ritmo menos acelerado. Os indicativos acenam para o aumento da velocidade, pois o consumismo ditará a tonalidade dos encontros e fará a distribuição do tempo. Permanecer trinta minutos ao redor da mesa é o mínimo. Se não for possível nos outros dias, ao menos no final da semana.

Afastar todo e qualquer ruído eletrônico para privilegiar o diálogo, as risadas, as histórias e os acontecimentos é fundamental. Há um só tempo para ser família: hoje. Cada refeição deveria ser festiva, não pelo cardápio apenas, mas pela oportunidade de celebrar o encontro e pela insubstituível alegria de ser família, contemplando todos os formatos que esse nome inspira.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

AGORA É DIRETAS JÁ.

É difícil algum novo escândalo de corrupção, nepotismo e tráfico de influência surpreender quem acompanha de perto a política brasileira. O tecido da nossa institucionalidade política esgarçou, carcomido pela podridão. Os eleitores votam, o poder econômico elege e, lá em cima, os eleitos se entendem, se congratulam, se recompensam, e com certeza riem da nossa cara.

Nem por isso devemos descrer na democracia, desde que haja disposição de botar abaixo a plutocracia. A Lava Jato é, nesse sentido, uma iniciativa positiva, malgrado seu risco de também cair na tentação de fazer jogadas partidárias.

O Brasil está nu. E desmoralizado. E os dois poderes republicanos, o Legislativo e o Executivo, dependurados no Poder Judiciário. Este preside de fato o país. Contudo, o Brasil merece retomar o curso normal do processo democrático e, para isso, o Congresso deveria calçar as sandálias da humildade e aprovar, agora, eleições diretas para a presidência da República.

Qualquer outra solução é tentar costurar remendo novo em pano velho. Manter Temer é ver o país em queda livre, inclusive pelas denúncias que ainda emergirão.

Uma eleição indireta teria que buscar um candidato acima de qualquer suspeita. E o Congresso certamente não haverá de eleger quem, amanhã, possa desalojar do aparelho do Estado os suspeitos de corrupção e os indicados por eles.

Se queremos resgatar a democracia é melhor correr o risco com o povo do que pretender solucionar a crise sem ele.

DO MODERNO AO PÓS-MODERNO

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão. E nos ensinaram a situar o homem no centro do pensamento e a acreditar que a razão, sem dogmas e donos, construiria uma sociedade livre e justa.

Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade - Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, o ceticismo frente aos valores.

Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a inflação, com a nossa filha gastando mais em pílulas de emagrecimento que em livros, e causa-nos profunda decepção saber que, neste país, a impunidade é mais forte que a lei.

Ainda assim, temos esperança de mudá-lo. Recuamos do social ao privado e, rasgadas as antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Já não há utopias de um futuro diferente. Hoje, é considerado politicamente incorreto propagar a tese de conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Que análise de realidade previu a volta da Rússia à sociedade de classes? Resta-nos captar fragmentos do real (e aceitar que o saber é uma construção coletiva). Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, descontinuidade e pluralismo.

A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de consumo imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva mimetização generalizada de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhando por veredas perdidas.

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos.

Ingressamos na era da globalização. Graças às redes de computadores, um rapaz de São Paulo pode namorar uma chinesa de Beijing sem que nenhum dos dois saia de casa. Bilhões de dólares são eletronicamente transferidos de um país a outro no jogo da especulação, derivativo de ricos. Caem as fronteiras culturais e econômicas, afrouxam-se as políticas e morais. Prevalece o padrão do mais forte.

A globalização tem sombras e luzes. Se de um lado aproxima povos e quebras barreiras de comunicação, de outro ela assume, nas esferas econômica e cultural, o caráter de globocolonização.


Frei Beto

sábado, 20 de maio de 2017

DECLARAÇÃO DA POBREZA PERANTE A ONU.

O aumento escandaloso dos níveis de pobreza no mundo tem suscitado movimentos pela erradicação desta chaga na humanidade.

No dia 9 de maio realizou-se um ato na Universidade Nacional de Rosário promovido pela Cátedra da Água, um departamento da Faculdade de Ciências Sociais, coordenado pelo Prof. Anibal Faccendi, em forma de uma Declaração sobre a ilegalidade da pobreza. Frei Leonardo Boff participou e fez a fala de motivação. O sentido é conquistar apoios do congresso nacional, da sociedade e de pessoas de todo o continente para levar esta demanda às instâncias da ONU para conferir-lhe a mais alta validação.

Já antes no dia 17 de outubro de 1987 havia sido criado por Joseph Wresinski, o Movimento Internacional ATD (Atuar Todos para a Dignidade) que incluía o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Neste ano será celebrado em muitos países que aderiram ao movimento no dia 17 de setembro.

A Declaração de Rosário vem reforçar este movimento pressionando os organismos mundiais da ONU para efetivamente declarar a fome como ilegal. A Declaração não pode quedar-se apenas no seu aspecto declaratório. O sentido dela é poder criar nas várias instituições, nos países, nos municípios, nos bairros, nas ruas das cidades, nas escolas, mobilizações para identificar as pessoas seja na linha da pobreza extrema( viver com menos de dois dólares e sem acesso aos serviços básicos) ou a pobeza simplesmente dos que sobrevivem com um pouco mais de dois dólares e com acesso limitado à infraestrutura, à moradia, à escola e outros serviços mínimos de humanização. E organizar ações solidárias que os tirem desta premência, com a participação deles.

Já em 2002 Kofi Annan, antigo secretário da ONU havia declarava duramente:” Não é possível que a comunidade internacional tolere que praticamente a metade da humanidade tenha que subsistir com dois dólares diários ou menos num mundo com uma riqueza sem precedentes.

Efetivamente, os dados são estarredores. A OXFAM que é uma ONG que articula muitas outras em vários países e que se especializou em estudar os níveis de desigualdade no mundo, apresenta todos os anos seus resultados, cada vez mais amedrontadores. Geralmente a OXFAM vai a Davos na Suiça onde se encontram os maiores ricos epulões do mundo. Apresentam os dados que os deixam constrangidos. Neste ano em janeiro de 2017 revelaram que 8 pessoas (a moria está lá em Davos) possuem riqueza equivalente àquela que 3,6 bilhões de pessoas. Quer dizer, cerca de metada da humanidade vive em situações de penúria seja como pobreza extrema, seja como pobreza simplesmente ao lado da mais aviltante riqueza.

Se lermos afetivamente, como deve ser, tais dados, damo-nos conta do oceano de sofrimento, de doenças, de morte de crianças ou de mortes de milhões de adultos, estritamente em consequência da fome. E aí nos perguntamos: onde foi parar a nossa solidariedade mínima? Não somos cruéis e sem misericórdia para com nossos semelhantes, face àqueles que são humanos como nós, que possuem desejos de um mínimo de alimentação saudável como nós? Removem-se-lhes as víceras vendo os filhinhos e filhinhas não podendo dormir por fome e eles mesmos tendo que engolir em seco pedaços de comida, recolhidos nos grandes lixões das cidades, ou recebidos da caridade das pessoas e de algumas instituições (geralmente religiosas) que ainda lhes oferecem algo que lhes permite sobreviver.

A pobreza geradora de fome é assassina, uma das formas mais violentas de humilhar as pessoas, machucar-lhes o corpo e ferir-lhes a alma. A fome pode levar ao delírio, ao desespero e à violência. Aqui cabe recordar a doutrina antiga: a extrema necessidade não conhece lei e o roubo em função da sobrevivência não pode ser considerado crime, porque a vida vale mais que qualquer outro bem material.

Atualmente a fome é sistêmica. Thomas Piketty, famoso por seu estudo sobre o Capitalismo no século XXI mostrou como esta presente e escondida nos USA: são 50 milhões de pobres. Nos últimos 30 anos, afirma Piketty, a renda dos mais pobres permaneceu inalterada, enquanto o 1% mais rico cresceu 300%. E conclui: “Se nada se fizer para superar esta desigualdade, ela poderá desintegrar toda a sociedade. Aumentará a criminalidade e a insegurança. As pessoas viverão com mais medo do que com esperança”.

No Brasil fizemos a abolição da escravatura, mas quando faremos a abolição da fome?

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A FIGURA DA BELEZA.

A beleza é uma das faces de Deus que mais instiga e fascina o homem na revelação de seu mistério. Rodin esclarece que “não há, na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma idéia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade.”.

Esta afirmação nos remete a uma afirmação teológica fundamental. Se a fé nos diz que Deus é a verdade, a experiência humana ao longo dos séculos e milênios tem nos revelado que a verdade é bela, ou que o belo é o verdadeiro. Beleza e Verdade são outros nomes para o Deus que as diversas religiões vêm nomeando ao longo dos tempos, experimentando em suas vidas e vendo-se por elas fascinadas.

Contemplar a Deus, experimentar sua presença tem sido descrito com palavras, imagens e metáforas muito próximas daquelas utilizadas para descrever a experiência estética. Na tradição judaico-cristã e na rica mística gerada pelo cristianismo, a ética e o apelo ao compromisso no serviço ao outro anda de par com a experiência do fascínio e deslumbramento pela contemplação da beleza desse Outro que fascina e atemoriza com a força de sua sedução. A mística tem, inegavelmente, uma dimensão estética.

Porém, de que estética e de que beleza se trata? Certamente não da beleza dos padrões ditados pelos parâmetros humanos. A beleza do divino é desconcertante e imprevisível, apresentando-se freqüentemente com visibilidade e signo invertido e paradoxal, deixando aquele ou aquela que a experimenta perplexo e fascinado, buscando captar a direção que lhe é mostrada com tal experiência.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, opõem-se duas concepções relativas à interpretação da figura de Cristo e sua representação. Orígenes foi um dos primeiros a defender a representação de um Cristo perfeitamente belo. Apoiava-se no salmo de David, que cantava: “Oh mais belo dos filhos dos homens, reina, triunfa pelo fulgor atraente de tua beleza”. Esta sublimação do Cristo respondia às concepções teológicas de São Gregório de Nissa, de São Jerônimo, de Santo Agostinho e São João Crisóstomo.

Por outro lado, os monges e Padres da Igreja da África e da Ásia Menor se recusavam representar um Cristo de beleza fulgurante. Seguiam nisto o profeta Isaías: “ O Filho do Homem é sem beleza e sem brilho, nós o vimos e o desconhecemos. Era um objeto de desprezo, o último dos homens, um homem das dores e conhecendo a enfermidade. Não tinha graça nem beleza que pudesse atrair nossos olhares.” São Cirilo de Alexandria, bispo de Jerusalém, e São Basílio, bispo de Cesaréia, foram partidários de uma representação austera, melhor adaptada ao Cristo, que recusou todas as tentações do mundo, veio para a redenção dos pecadores e foi crucificado vergonhosamente com os escravos.

Ao longo da história do Cristianismo, estas duas tendências vão se alternar sobre as representações da figura de Jesus Cristo. Ora será representado com esplendor e glória dentro dos cânones de beleza vigentes em cada época, como os Cristos bizantinos e renascentistas, ora representado e venerado inseparável do mistério de sua cruz, com as mais dolorosas representações de seu sofrimento e suplício, no qual os seres humanos verão sua salvação e esperança, no consolo de seu próprio sofrimento e dor

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O DEUS DE VERÍSSIMO

Em sua crônica de domingo, 7/5, em O Globo, Veríssimo diz que escolheu como Deus, no qual racionalmente se pode acreditar, aquele que se arrependeu de sua obra, admitiu o seu erro, levantou a poeira e deu a volta por cima para começar de novo – o Deus do Dilúvio, “Deus das dúvidas e do segundo pensamento. Um Deus com quem, decididamente, se pode conversar.”

Veríssimo não necessitava ir tão longe para encontrar o Deus multifacetado do Antigo Testamento. Bastaria ir àquele que revelou, em sua humanidade, a face real de Deus – Jesus de Nazaré.

Ali está o Deus que xinga o governador de “raposa” e os fariseus de “raça de víboras e sepulcros caiados”; se irrita com Pedro, a ponto de chamá-lo de “satanás”; se equivoca na escolha de Judas como apóstolo; passa à família a impressão de que enlouqueceu; faz o primeiro milagre, não para salvar uma pessoa, e sim para a festa não acabar, ao transformar água em vinho; se revela pela primeira vez como Messias a uma mulher; chora por que o amigo morreu; e deixa os abastados numa saia justa ao afirmar que é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

Humano assim como foi Jesus, ele só podia mesmo ser Deus, afirma Leonardo Boff.

CINDERÉLAS DA VIDA REAL

Nem todas as cinderelas vivem esse tipo de drama depois de aceitarem a proposta de casamento de um príncipe encantado. Nem todas ficam desesperadas por não poderem falar a sua língua nativa com os filhos. Mas para trinta por cento, pelos mais variados motivos, o conto de fadas termina mal.
 Na Itália a média de divórcios fica em torno de 30% e a maioria deles ocorre após 15 anos de casamento. Os casamentos mistos, em que um dos cônjuges é estrangeiro, são cerca de 10% do total. Também nesses casos, a média de divórcio é semelhante, levemente inferior à média geral. Metade dos italianos que casa com um estrangeiro possui um cônjuge vindo do Leste europeu. Nesse panorama, o número de casamentos entre brasileiros e italianos é ínfimo, mesmo assim não estamos isentos de estereótipos.
 As pessoas costumam comentar, por exemplo, que temos muitas coisas em comum: falamos uma língua neolatina, pertencemos a uma cultura latina, somos expansivos como os povos do Mediterrâneo. O problema é justamente este: o estereótipo. As pessoas entram naquela empolgação das “coisas em comum”, das “semelhanças”, e entram numa espécie de bloco carnavalesco, cada um com a sua fantasia. Ela, cinderela; ele, príncipe encantado: não se casam com uma pessoa, mas com uma ideia.
 Depois que acaba o conto de fadas, vem a vida real. Que língua vamos falar em casa? Que comida vamos oferecer aos hóspedes? A que horas vamos comer? Quem vai servir os pratos? Parece bobagem, mas como dizem os italianos: “o diabo está nos detalhes”. E esses detalhes, dia após dia, ou se tornam parte da rotina, ou se tornam parte da ruptura.
 Eu, por exemplo, fiquei estarrecida com um costume que nunca cultivei na minha família – porque não tenho nenhuma origem italiana!: Na Itália, a dona de casa serve os pratos de todos os convidados, só então senta à mesa e as pessoas começam a comer. Já no Brasil, colocamos as travessas na mesa e salve-se quem puder, não é? À primeira vista, este gesto me pareceu uma submissão inadmissível, uma coisa servil, medieval. Só com o tempo passei a ver como uma cortesia, apreciada pelos hóspedes e sinal de gentileza da anfitriã. Quer dizer, em princípio achei que estava fadada a ser a gata borralheira do lar, mas dá para fazer a mesma coisa e ser princesa hospitaleira. O importante é que a atitude esteja clara para todos, que o significado seja compreendido.
 Bem, a gente pode dar um conselho, mas o percurso de transformação é individual. Exige esforço, clareza e compreensão por parte do Outro. As pessoas se amam juntas e brigam juntas. Também podem fazer as pazes juntas. Nesse processo, tudo é recíproco, proporcional e de responsabilidade de ambos. Mas uma coisa é certa: nada é óbvio, nada é apenas um detalhe. Somos sempre e necessariamente diferentes e é na diversidade que apostamos quando convivemos com os outros: só assim o encanto continua, depois que a carruagem volta a ser abóbora e vira ingrediente para a sopa.

Gislaine Marins

terça-feira, 16 de maio de 2017

A PAZ DO MUNDO E A PAZ DE DEUS.

Qual a diferença da Paz que Jesus veio E VEM NOS TRAZER DIARIAMENTE (para quem O busca) e da paz que o mundo oferece? A paz que o mundo oferece VEM DE FORA, vem das coisas criadas. É uma distração da mente e um prazer momentâneo para o corpo. Um filme, uma música, um show, uma conversa, um remédio, uma droga, trabalhar bastante, manter a mente ocupada com atividades e dar ao corpo comida, bebida, sexo enfim são coisas do mundo material que trazem uma certa alegria momentânea e passageira, mas que no fundo acabam gerando mais vazio e mais sofrimento.

Já a Paz de Jesus VEM DE DENTRO. É um encontro pessoal com o Mestre que provoca um estado de calma e tranquilidade, uma ausência de perturbações e agitação. Um estado de espírito, onde o ser interior se encontra equilibrado e sereno, onde se sente amado e está cheio de amor, de paz e harmonia interior.

Para termos a paz do mundo material, não precisamos ir longe, está no celular. É só você acessar a internet e ficar horas e horas vendo distrações, mendigando um pouco de alegria e distraindo a mente. Está na televisão, na cozinha, na geladeira, no quarto. É um caminho fácil. Já para termos a Paz de Jesus é um caminho mais estreito, é preciso subir a montanha, ir para o deserto, autoconhecer-se para purificar o coração, tirar de dentro as emoções negativas, os afetos desordenados como dizia Santo Inácio. É preciso ter disciplina e dedicar diariamente um bom tempo para este encontro. Mas vale a pena. É UMA PAZ REAL, VERDADEIRA E ETERNA.

Vamos buscar esta paz, na oração, na meditação, na leitura orante da palavra, no silêncio da capela. O Mestre dá em abundância para quem O busca. É o primeiro presente que Ele nos dá e junto sua alegria e sua sabedoria. Ele senta para cear conosco os ricos manjares que o Pai Lhe deu.

E com isso teremos muito mais alegria, força e AUTORIDADE para ensinarmos o caminho para milhares de pessoas que estão caminhando para o sofrimento do vazio, da depressão e do suicídio. Sem essa paz de Deus, somos uns teóricos cegos tentando ensinar um caminho (teorias que lemos em algum lugar) que não conhecemos para outros cegos.

Como poderemos dar paz para o povo sedento se somos pregadores estressados, nervosos, as vezes agressivos e agitados como Martha irmã de Maria? Como poderemos ajudar organizar a vida do povo, ajudar a resolver os problemas das pessoas, se somos desorganizados e não resolvemos os nossos problemas? Precisamos nos reconstruirmos DIARIAMENTE. Pensemos nisso irmãos.


Adroaldo Lamaison

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A VIDA EM BOLHA

Diz-se por aí que a internet, e suas redes sociais, são gaiolas que a todos capturam formando “bolhas de amigos” que curtem e compartilham o mais do mesmo, fechados ao diálogo com o diferente e que, por sua vez, também vive em sua “bolha-mundo”.

De fato, a comunicação, o diálogo aberto e franco com o diferente e até estranho, com a possibilidade de crítica e autocrítica que vá construindo positivamente as identidades e as subjetividades, sem intolerâncias, ressentimentos e ódios, parece ser um ideal distante, sobretudo no Brasil, em tempos sombrios de cenário político polarizado em que se é a favor ou se é contra, sem espaço para terceira opção. O contrário disso, contudo, é que seria quase ideal, isto é, quando duas pessoas pensam igual, uma é dispensável!

Mas a vida em “bolhas” é antiga, bem antes da internet. A família é uma bolha. Os sindicatos são bolhas. As comunidades científicas são bolhas. Os partidos políticos são bolha. As ideologias são bolhas. As igrejas são bolhas (O papa Francisco, porém, não!). A cultura é uma bolha. A linguagem é uma bolha. O limite da linguagem é o limite do meu mundo, dizia Wittgenstein. O limite da bolha é o limite do meu mundo, daria para dizer, parafraseando o filósofo.

Bolha parece indicar um espaço-mundo fechado e os que o habitam pensam mais ou menos igual e, reproduzem o que pensam, pela interação. Quem vive na mesma bolha é um igual e os que estão fora são os diferentes, estranhos e, até, inimigos. A bolha dá identidade sem passar pela diferença e esse é um perigo. Mas o maior perigo é de que os que vivem em bolha pensam que o seu “bolha-mundo” é o certo, verdadeiro e bom e o “mundo-bolha” do outro é o errado, falso e do mal.

Platão imortalizou a ideia de que o homem comum vive preso a uma caverna. O que é a caverna de Platão senão uma bolha? Mas Platão imaginou que o filósofo e o pensador seriam capazes de romper as amarras que os prendem à caverna e se libertarem para o mundo da luz, metáfora do conhecimento e da ciência. Os filósofos e pensadores são aqueles, diz Platão, que superam os limites da ignorância e das ideologias do mundinho fechado e conquistam, não sem esforço, o mundo de sabedoria, de universalidade, verdade e bondade. Um gênio esse Platão! Mas, por onde andarão os filósofos e pensadores que circulam fora das bolhas? Se alguém encontrar algum, avise os navegantes!..

Penso que estamos todos, inclusive os pensadores, envoltos em alguma caverna ou “bolha-mundo” sem chance de libertação total. O que podemos fazer, contudo, é escolher qual bolha queremos habitar, ou será que é a bolha que nos escolhe? Pretender-se livre, totalmente livre, flutuando por cima da “bolhas-mundo” polarizadas, senhor de si e acima do bem e do mal, acima das ideologias, acima da esquerda e da direita, acima das vicissitudes do tempo, está mais para mito do que para realidade.

Contudo, há de se desejar estar para além da prisão da caverna escura da ignorância e das ideologias que nos amarram. Há de se desejar, se esforçar e se abrir ao diálogo e ao rompimento dos fechamentos dogmáticos da vida em bolha, que geram ódios, ressentimentos e violência. Há de se desejar a saída da caverna. E quem sair e se libertar, lembre-se, que os que aqui ficaram, por vós esperam! Socorrei-nos, sem demora!

domingo, 14 de maio de 2017

CADA UM PRA SÍ

No dia 22 de março a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei da terceirização ilimitada e irrestrita. Posteriormente a proposta também foi aprovada pelo Senado e no dia 31 de março foi sancionada pelo Presidente da República Michel Temer. A terceirização, ainda que seja iniciativa da década de 40 pós-Segunda Guerra Mundial, no atual contexto favorece ao empregador e fere os direitos dos trabalhadores.

A paternidade da terceirização é dos Estados Unidos, instalada no período pós-Guerra Mundial, quando, visto a demanda de produção de armamentos, as grandes empresas repassavam serviços a outras. A delegação de serviços visava apressar a produção bélica e melhorar o processo operacional e a administração das grandes empresas. A prática passou a ser denominada outsourcing, que traduzido significa terceirização. Com a globalização da economia com forte pico na década de 80 as empresas multinacionais difundiram essa prática pelo mundo.

No Brasil o processo não foi diferente com a abertura da economia e do capital para as empresas estrangeiras. As políticas dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso fortificaram este processo. Atualmente devido à crise econômica, com redução do consumo, a terceirização visa principalmente à contratação de serviços de terceiros com mão-de-obra barata.

A aprovação do projeto de lei da terceirização ilimitada e irrestrita (PL 4330/04) permite às empresas a livre contratação, como sem carteira assinada, recolhimentos de previdência social, pagamento de décimo-terceiro e férias. A lei ampliou o poder das empresas que podem atuar como terceirizadas ou como associações, fundações ou individuais. Quem contesta sua aprovação alega que a terceirização do trabalho fragilizará os sindicatos, a organização dos trabalhadores e o poder de negociação com as empresas. Quem apóia vê nessa sistemática de contratação mais agilidade e redução de custos para a contratante e resultados positivos na economia. Contudo, a Rússia, um dos países que aprovaram a terceirização, já anunciou que em 2018 a lei será extinta. Na Inglaterra não foi diferente e em outros países criou um caos social e nas condições de trabalho.

Com efeito, a aprovação da terceirização no Brasil tem forte impacto em toda a população. A lei da terceirização parte do princípio que toda a pessoa seja patrão de si próprio ou empreendedor individual. As consequências serão negativas. A primeira, 75% dos postos de trabalho deixarão de ter vínculos empregatícios do passado. Isto significa que deixarão de ser regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), aprovada em 1943. Por segundo, é banir a organização sindical dos trabalhadores. Terceiro, é baixar o valor da mão-de-obra. Ou seja, explorar o máximo do prestador de serviço. Em quarto, é fim de qualquer movimento social. Isto significa que as greves terão seus dias contatos. A quinta consequência leva à precarização das condições e das relações de trabalho. A sexta aumentará o desemprego. A sétima explode a violência social no país. Oitava, o embate ideológico político toma novamente as ruas. Nona, as ações trabalhistas na Justiça serão facilitadas ao empregador. A décima, sem lei que garanta dignidade e seguridade ao trabalhador, o Brasil virará terra do cada um pra si. Infelizmente, um retrocesso ao sistema do colonialismo.


sábado, 13 de maio de 2017

DESAPEGAR-SE: COMO É DIFÍCIL

Preciso começar a distribuir meus livros, a minha hora está chegando, preciso exercitar o desapego” – disse um senhor com idade avançada. Desapegar-se de livros era desapegar-se da vida como existia até então; era entregar-se ao desconhecido ou, então, conhecido até onde sua fé alcançava. Essa constituía-se uma difícil tarefa que precisava empreender.

O tempo passa, o envelhecer bate à porta e a estrutura interna, construída dia após dia, não desampara. Desapegar-se das pequenas e das grandes pessoas e objetos é a porta de saída e de entrada da nova etapa. Continuar ensinando e aprendendo de maneira diferenciada, até o último instante de vida, é o maior desafio empreendido na grande jornada chamada envelhecer.

Essa nova etapa vem com a força da vida que precisa ser reinventada, mas, acima de tudo, compreendida. Para vivê-la tranquilamente é preciso libertar-se das fantasias de culpa, mágoas e fantasmas do passado e entregar-se para a vida via compreensão. Procurar uma palavra, um olhar, um sentimento que realmente reconecte com o mágico, com o universo, com a vida, com a aprendizagem e com a passagem é engrandecedor.

Exercitar o desapego ajuda a enxergar a vida com novo olhar. Ao mesmo tempo em que ensaia o fechar de um ciclo plenificando uma vida, abre as portas para um novo amanhecer de consciência.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

COBRAR OS SONEGADORES, UMA SOLUÇÃO PARA O INSS.

Em época de austeridade fiscal e de reformas impopulares como a da Previdência, o combate à sonegação, que passa de R$ 400 bilhões ao ano no Brasil, é deixado de lado, escreve Tomás Rigoletto Pernías, doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp, em artigo publicado por Brasil Debate, 25-04-2017: “Sonegação fiscal, o esporte predileto das elites” Veja também em IHU de 26 de abril de 2017.

Eis o artigo.

Em tempos de crescente desigualdade social, desemprego, rebaixamento dos salários, corte nos benefícios sociais e precarização dos serviços públicos, é imperioso frisar que há uma alternativa para a agenda de austeridade imposta pelo governo. Repetir o mantra “não há alternativa”, TINA – “There is no alternative“, também é, por seu turno, uma escolha.

O combate à sonegação fiscal, alternativa pouco lembrada pelos parlamentares quando o assunto concerne à arrecadação fiscal, passa ao largo da agenda governamental. Cumpre lembrar que o recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ainda em 2016, procurou inviabilizar a continuidade da CPI do CARF,(Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) em clara tentativa de blindar investigações que miravam os grandes empresários e suas relações promíscuas com o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.

Estima-se que, somente em 2013, o valor de impostos sonegados no Brasil tenha atingido R$ 415 bilhões. No ano seguinte, em 2014, o valor sonegado chegou aos R$ 500 bilhões. Tampouco em 2015, com o ex-ministro da fazenda Joaquim Levy – mãos de tesoura – e seu suposto rigor fiscal, o assunto foi tratado de maneira diferente, uma vez que a sonegação ultrapassou os R$ 420 bilhões.

Querido pelo mercado financeiro e bem visto pelos grandes veículos de comunicação, o atual ministro da Fazenda Henrique Meirelles parece ignorar que o combate à sonegação é uma alternativa viável às práticas de austeridade econômica. Em 2016, estimou-se que, novamente, R$ 500 bi foram sonegados.

Entretanto, mesmo após as experiências fracassadas dos países que optaram pelas vias da austeridade depois da crise de 2008, os parlamentares brasileiros aprovaram a PEC 55, que congelou por 20 anos os gastos do governo federal. O descaso relacionado à cobrança de recursos públicos afeta diretamente a previdência – alvo da vez – com somas que atingem R$ 426 bilhões devidos ao INSS por diversas empresas.

Em 2017, a sangria persiste: aproximadamente 158 bilhões sonegados. Neste mesmo ano, o ministro Henrique Meirelles sinaliza uma possível elevação de impostos, ao contrariar os anseios da notória campanha realizada pela FIESP – “não vou pagar o pato”. O motivo: evitar o descumprimento da meta fiscal e contornar a frustração da receita pública. Além disto, observa-se que o sistema tributário brasileiro, que já pune desproporcionalmente a população pobre, é marcado por seu caráter regressivo e injusto – como bem observado pelo colega Juliano Gourlarti em artigo publicado no Brasil Debate.

A sonegação também é um esporte praticado em outros países. Nos EUA, o Internal Revenue Service (agência norte-americana responsável pelo recolhimento dos impostos) estima que o net tax gap médio (diferença que nunca será recuperada entre o valor que deveria ser recolhido e o valor efetivamente recolhido) anual entre 2008-2010 seja de U$406 bilhões. Neste ínterim, Donald Trump procura desmantelar iniciativas como o Obamacare, ao dificultar ainda mais o acesso da população pobre ao sistema de saúde norte-americano, caracterizado por seus custos elevados em comparação com outros sistemas de saúde de países desenvolvidos.

No Reino Unido, em 2013: £119.4 bilhões foram estimados para o tax gap – a soma dos impostos não pagos, impostos evitados e a sonegação. Autoridades oficiais apontam um valor menor, mas ainda significativo. Entrementes, o National Health Service – sistema de saúde público inglês – sofre com os cortes promovidos pela austeridade fiscal, deteriorando a qualidade da oferta de serviços de saúde.

Para além das pessoas físicas que podem contratar serviços de “planejamento tributário” para seus impostos, o que dizer de empresas como a Apple, Google e empresas farmacêuticas, que surfaram em inovações tecnológicas criadas e financiadas pelo Estado – com o dinheiro de impostos dos contribuintes norte-americanos – mas que agora abusam de créditos fiscais/tributários e procuram fugir de suas obrigações fiscais? “Stay hungry, stay foolish” ?!? Mariana Mazzucato, em seu livro O Estado Empreendedor – Desmascarando o Mito do Setor Público Vs. o Setor Privado, explora a questão e demonstra como as grandes empresas que se apoiaram em recursos públicos estão falhando em dar a devida contrapartida à sociedade.

Cabe questionar: a quem interessa a sonegação e a morosidade com a cobrança dos impostos devidos? Ao trabalhador formal, certamente que não, posto que seu imposto de renda é retido na fonte. O escândalo recente “Panamá papers”, ao flagrar graúdos da política e mundo empresarial envolvidos em “contabilidade criativa” e alocação de recursos em paraísos fiscais, prova que a sonegação favorece a classe alta – em evidente detrimento do grosso da população.

É fundamental salientar que há uma alternativa aos descaminhos da austeridade fiscal. Para além de perseguir uma estratégia que priorize o crescimento econômico – sem o qual não haverá recuperação das receitas fiscais – é urgente a criação de um sistema tributário que combata a desigualdade e a sonegação.

A mesma mão que taxa pesadamente os pobres parece acariciar o bolso dos ricos. Essa mão não é invisível.

Afinal de contas, existe (ou não) almoço grátis?

quinta-feira, 11 de maio de 2017

MELHOR ASSIM


Porto Alegre. Rua da Conceição, Centro. João acordou cedo. O movimento já começara no entorno da Rodoviária. O velho viaduto range sob o peso dos carros, ônibus e caminhões que levavam e traziam mercadorias, pessoas, sonhos e esperanças no novo dia.

João olha para o lado. Aí está a caneca do café. No fundo do recipiente de metal, ainda um pouco do líquido negro, frio, depois da noite fria do início de maio. Ao lado, a garrafa de cachaça. Vazia. O pouco que sobrara na noite anterior, seu vizinho de rua e de abrigo havia sorvido para acalentar a noite. João estende a mão esquerda e, mesmo sem olhar, localiza o corpo quente e enrolado de sua companheira Kaká. Ela o acompanha há muito tempo. Encontrou-a solitária numa pracinha pros lados da Redenção. Abandonada, na rua, sem dono. Foi paixão à primeira vista. Desde aquele dia a cadelinha vira-lata segue João no seu roteiro diário em busca do pão de cada dia. Pode ser pão de ontem conseguido na porta da Padaria Soledade. Mas também serve uma fruta meio estragada no latão em frente ao mercadinho Boa Esperança. Ou um pedaço de xis abandonado por alguém num banco da Praça da Alfândega. Quem tem fome não escolhe. Isso bem sabe João. E Kaká também aprendeu a regra. Tanto que ela agora já come frutas e outros legumes. Afinal, como a carne tá difícil até prá quem tem casa e trabalho, prá cachorro de morador de rua, nem osso sobra.

Apoiando-se no braço direito e jogando o peso da cabeça para a frente, João volta-se para o lado esquerdo onde está Kaká. Entre ela e ele, o saco com aquilo que ele chama “minhas tralhas”. É pequeno, quase vazio, mas guarda quase tudo que João tem hoje: um par de calças conseguido ontem num Centro Espírito, duas camisas que ele encontrara abandonadas em frente a uma casa no Bom Fim e um tênis dado por Clécio, seu companheiro de abrigo noturno embaixo do elevado da Conceição. E, como não podia deixar de ser, o bem mais precioso: uma afiada faca com cabo de madeira para qualquer eventualidade. Afinal, a rua é cheia de perigos e o melhor é estar aprevenido*.

Clécio e João tinham se tornado amigos depois que os dois fugiram juntos da polícia que queria limpar a frente de um supermercado da Cristóvão Colombo. Clécio tinha vindo de São Paulo. De carona em carona chegara em Porto Alegre. A razão da fuga? “Em São Paulo a Guarda passa e tira os cobertor e as tralhas de morador de rua.” João, ainda sonolento, passa a mão na cabeça de Kaká que, reconhecendo a mão do dono, apenas grunhe. Sorrindo, João lembra daquela correria pela Cristóvão ao lado de Clécio. Cuspindo como se fosse na cara dos policiais, solta um sonora palavra e uma gargalhada. Passa a mão por sobre o corpo. Aí está seu cobertor que ele ganhou na Igreja São Carlos. Aqui não tem perigo. Não tem guarda prá tirar os cobertores e as tralhas dos moradores de rua.

Clécio, que acordara com o palavrão e a gargalhada de João, olha assustado e, como que saindo de um pesadelo e adivinhando os pensamentos de João, pergunta com voz pastosa: “João, quem é o prefeito de Porto Alegre?” “Sei lá eu e nem me interessa...” Enquanto João solta mais um sonoro palavrão, Clécio vira pro lado e murmura prá si mesmo um reconfortante “Melhor assim!”


Judinei Zugo

quarta-feira, 10 de maio de 2017

QUAL O MAIOR BEM QUE PODEMOS FAZER?

Qual o maior bem que podemos fazer? Não há dúvida, o maior bem que podemos fazer é dar a vida aos outros, sacrificar a si em nome do outro. Ou, um pouco abaixo disso, vender tudo que se tem, dar aos pobres e seguir o caminho de Jesus ou de Buda... Dar a vida e dar o que a vida lhe deu, ou se conquistou na vida, sempre será o maior bem. Mas, quem está à altura desse ato grandioso? Poucos, demasiadamente poucos, sobretudo num tempo como o nosso em que nos apegamos à vida e aos prazeres da vida como se fossem a razão última do ato mesmo de viver. É por conta disso que altruísmo radical é tão excelso quanto raro.

Qual, então, o maior bem que podemos fazer, sem exigirmos o quase impossível, que é dar a própria vida e os bens que ajuntamos na vida? Essa pergunta tem um caráter eminentemente ético, mais do que religioso, e é o ideal moral de um movimento mundial chamado de “altruísmo eficaz”.

O que é o altruísmo eficaz?

O altruísmo eficaz é um movimento mundial de inspiração ética que não se satisfaz com a posição cômoda, que é a ética que segue regras e normas, por exemplo, não matar, não roubar, não mentir, não trair etc. Não que seguir essas normas seja ruim, mas são insuficientes, sobretudo para quem está em uma situação privilegiada economicamente e vive numa sociedade excludente, desigual e até convive com a fome, o sofrimento e a morte do outro, exatamente por falta de alguém que seja eticamente sensível para diminuir o sofrimento e a morte onde é possível.

O altruísmo ético é, pois, uma postura ética que supera tanto a ética das intenções, aquela ética que segue regras e normas com caráter de imperativo categórico como acima exposto (não matar, não roubar etc) quanto o egoísmo ético que postula que cada um tem que pensar somente em si e na sua família, no máximo. É preciso fazer o maior bem possível, sem olhar a quem se faz, mesmo que esse alguém seja um desconhecido, diz o altruísta eficaz.

O altruísmo eficaz tem seu maior representante o filósofo Peter Singer que, recentemente, escreveu um belíssimo livro exatamente com esse título: O maior bem que podemos fazer: como o altruísmo eficaz está a mudar as ideias sobre viver eticamente.

Peter Singer não é só um teórico. Ele mesmo assumiu, na prática, o que escreveu sobre o dever de ajudarmos os outros e a diminuir o sofrimento do mundo, inclusive dos animais. Ele defende a ideia de que se está ao nosso alcance ajudar a alguém que precisa, e essa ajuda não requer que sacrifiquemos nada de importância comparável, então por que não ajudar? Ele mesmo, Peter Singer, doa para organizações não governamentais, publicamente reconhecidas como transparentes e eficazes, mais de 25% de tudo o que ele e sua esposa ganham com seu suor. É um exemplo que deveria fazer a nós cristãos, Peter Singer é ateu, corar de vergonha!

Não estará na hora de questionarmos não só política e economicamente o capitalismo liberal, mas, sobretudo, moralmente, pelo mal que causa aos pobres do mundo e a insensibilidade do próprio sistema que a todo instante exige mais austeridade fiscal resultando em menos benefícios aos que realmente necessitam? E não estará na hora de individualmente questionarmos a própria posição de conforto e consciência tranquila, por não fazermos o mal, e passarmos a fazer o maior bem possível?

Não basta não fazer o mal, é imperativo moral fazer o maior bem possível. Somos exímios em criticar quem ajuda, inclusive quem ajuda os animais abandonados na rua, dizendo que não resolve, mas não estará na hora de nos juntarmos aos que fazem o bem, ao invés de ficarmos no conforto e na consciência tranquila por nada fazer de mal?

terça-feira, 9 de maio de 2017

LIMITES DO HOMEM

Horas antes de ser confirmada a morte cerebral da ex-primeira-dama nacional, Marisa Letícia, manifestações de ódio, intolerância e preconceito correram via redes sociais. O gesto de solidariedade com familiares enlutados não é apenas de uma questão de respeito, de sentimento humano e religioso, mas de ética e de dignidade com os entes queridos. E ética tem somente quem cultiva as virtudes do respeito e do cuidado digno dos moribundos.

Os ataques via redes sociais à ex-primeira-dama Maria Letícia mostraram uma parcela da classe rica enfurecida de ódio e intolerância. O neurocirurgião Richam Faissal Ellakkis, representante desta classe, sugeriu um procedimento para matar a ex-primeira-dama, em comentário no WhastApp: "Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela". O médico acabou demitido juntamente com a médica Gabriela Munhoz por compartilhar informações sigilosas de Marisa Letícia. O médico e diretor do Hospital Sírio-Libanês, Roberto Kalil Filho, justificou a demissão: “quando afrontam a ética, quebram o juramento de Hipócrates proclamado ao receberem o título de doutor e compartilham publicamente segredos e sentimentos a eles confiados, os médicos violam um dos princípios mais sagrados da profissão, o sigilo médico. O caso revela um dos lados perversos do comportamento humano, reprovável e absolutamente inadmissível para quem se apresenta como médico”. Outra demonstração de ódio contra Marisa Letícia partiu do procurador de Justiça de Minas Gerais Rômulo Paiva Filho, que compartilhou: “Morre logo, peste! Quero abrir logo o meu champagne!”.

Os comentários não ferem somente a ética profissional da medicina, mas beiram uma variável criminal. O desprezo pela vida ultrapassou a bestialidade. O termo bestialidade surgiu do latim bestia, que significa, literalmente, animal. A palavra é interpretada como sinônimo de indivíduo ignorante, estúpido, tolo, de um comportamento não civilizado. Segundo a Bíblia, comportamento besta demonstra a ignorância do homem que age como criatura irracional (Sl 73,22); designa grandes poderes (Jr 10,8; Dn 7,3-23); os chamados anticristos (Ap 13,1; 20,10).

Diferentemente do grupo de médicos neurologistas e do promotor de justiça, adversários políticos de Lula foram até o Hospital Sírio Libanês para prestarem condolências. Acompanharam este gesto milhões de brasileiros e vários ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas diante da bestialidade humana, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) adverte: “Precisamos chamar a atenção para a compaixão, que talvez seja a premissa para distinguir o ser humano de uma besta". Outra exortação vem do jurista Celso Antônio Bandeira de Mello: “Os ataques à ex-primeira-dama Marisa Letícia e manifestações de pessoas que comemoraram sua morte são coisas típicas da classe média alta, constituída por uma escória, uma ralé”. No Brasil, constata-se que após o golpe parlamentar de 2016 as pessoas não suportam mais o diferente, os adversários políticos. Vive-se um grave risco para a paz social da nação, pois cresce a bestialidade.


Miguel di Biazi

segunda-feira, 8 de maio de 2017

REVOGUE-SE A LEI DA ABOLIÇÃO

Não satisfeito com a reforma trabalhista que retira direitos dos trabalhadores e favorece interesses dos patrões, o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), líder da bancada ruralista, encaminhou projeto que reintroduz no Brasil a neoescravatura.

A proposta é de estarrecer: os trabalhadores rurais não seriam pagos apenas com salários, mas também mediante “remuneração de qualquer espécie”, como oferta de moradia e alimentação.

Esse descaso com os direitos humanos é um retrocesso civilizatório. Se aprovado o projeto, fazendeiros que só têm olhos para suas contas bancárias dirão ao empregado: “Vou lhe fornecer casa e comida. E este será o pagamento pelo seu trabalho, uma vez que vai morar e comer de graça.”

O projeto prevê ainda que a jornada diária poderá se estender por 12 horas! Anula-se assim o 1º de Maio, data na qual os trabalhadores comemoram a conquista das 8 horas diárias. E só haverá dia de descanso após 18 dias de trabalho consecutivo. Ou seja, além de o trabalhador jamais desfrutar de aposentadoria, devido à desumana reforma previdenciária em pauta, teria sua morte antecipada por exaustão. Quem nunca pegou no cabo de enxada não tem ideia do que significa lidar com a terra sob sol ou chuva.

O deputado do PSDB, sem nenhum pudor diante da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Cidadã de 1988, propõe ainda: o que negociarem patrão e empregado valerá mais que a legislação trabalhista; a CLT não mais protegerá o trabalhador rural; autoriza-se trabalho aos domingos e feriados sem necessidade de laudos; empregado que morar no local de trabalho poderá vender integralmente as férias; revogam-se as normas do Ministério do Trabalho sobre saúde e segurança no campo; as regras sobre agrotóxicos não mais serão definidas pelos ministérios do Trabalho e da Saúde etc.

O Brasil acelerou o seu retrocesso com o governo Temer. Fala-se que a Previdência é deficitária e se reduzem os direitos dos trabalhadores de baixa renda, sem no entanto tocar nas gordas aposentadorias de políticos que exerceram dois mandatos, e de membros das Forças Armadas e do Poder Judiciário.

Há muita grita de “fora Temer” e repulsa a parlamentares favoráveis às reformas trabalhistas e previdenciárias. Nenhum deles, porém, entrou no Congresso Nacional pela porta dos fundos. Foram todos eleitos nas urnas.

Ano que vem termina o mandato de todos os deputados e de 27 senadores. Novos deputados e 54 senadores serão eleitos. E em 2018 não será fácil utilizar o caixa dois. Portanto, a questão que se coloca não é apenas em quem cada eleitor votará. É iniciar, desde hoje, campanha em prol de candidatos que sejam comprovadamente éticos e comprometidos com os direitos dos segmentos mais pobres e discriminados de nossa população.

Como canta Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Tomara que deputados e senadores eleitos em 2018 não possam entoar, ao tomarem posse, o verso de Belchior: “Ainda somos os mesmos!”

Frei Beto

sábado, 6 de maio de 2017

HA SEMPRE ALGUÉM ESPERANDO ESPERANDO GODOT

Conheci um homem que fez de tudo na vida. Dizem que foi ateu e marxista e que chegou a ser mercenário da Legião Estrangeira francesa e que atirou contra muita gente.

De repente se converteu. Fez-se monge sem sair do mundo. Foi trabalhar como estivador. Mas todo o tempo livre dedicava-o à oração e à meditação. Durante o dia recitava mantras: “Jesus, valei-me”. “Jesus, perdoai meus pecados”. “Jesus santificai-me”. “Jesus, fazei-me amigo dos pobres”. “Jesus, fazei-me pobre com os pobres”.

Estranhamente, tinha um jeito próprio de rezar. Pensava: se Deus se fez gente em Jesus, então foi como nós: fez chichi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho com as coisas que o incomodavam como a fralda molhada.

No começo Jesus teria gostado mais de Maria, depois mais de José, coisas que os psicólogos explicam. E foi crescendo como nossas crianças, brincando com formigas, correndo atrás dos cachorrinhos, atirando pedras em burros e, maroto, levantando os vestidinhos das meninas para vê-las furiosas como imaginou irreverentemente Fernando Pessoa.

E então rezava à Maria, a mãe do Menino, imaginando como ela ninava Jesus, como lavava no tanque as fraldinhas e como cozinhava o mingau para o Menino as comidas fortes para o esposo, o bom José. E se alegrava interiormente com tais matutações porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração. E chorava com frequência de alegria espiritual.

Ao fazer-se monge, decidiu por aqueles que fazem do mundo a sua cela e que vivem radicalmente a pobreza junto com os pobres: os Irmãozinhos de Foucauld. Criou uma pequena comunidade na pior favela da cidade. Tinha poucos discípulos. A vida era muito dura: trabalhar com os pobres e meditar. Eram apenas três que acabaram indo todos embora. Essa vida, assim exigente, não era para eles.

Viveu em vários países, mas foi sempre ameaçado de morte pelos regimes militares e tinha que se esconder e fugir para outro país. Aí, tempos depois, lhe ocorria a mesma sorte. Mas ele se sentia na palma da mão de Deus. Por isso vivia despreocupado.

Indispunha-se também com a Igreja institucional, essa do cristianismo apenas devocional e sem compromisso com a justiça dos pobres. Mas, finalmente, conseguiu agregar-se a uma paróquia que fazia trabalho popular. Trabalhava com os sem-terra, com os sem-teto e com um grupo de mulheres. Acolhia prostitutas que vinham chorar suas mágoas com ele. E saiam consoladas.

Corajoso, organizava manifestações públicas em frente à prefeitura e puxava ocupações de terrenos baldios. E quando os sem-terra e sem-teto conseguiam se estabelecer, fazia belas celebrações ecumênicas com muitos símbolos, as chamadas “místicas”.

Mas todos os dias, depois da missa da noite, ficava enfurnado, por longo tempo, na igreja escura. Apenas a lamparina lançava lampejos titubeantes de luz, transformando as estátuas mortas em fantasmas vivos e as colunas eretas, em estranhas bruxas. E lá se quedava, Impassível, olhos fixos no tabernáculo, até que viesse o sacristão para fechar a igreja.

Um dia fui procurá-lo na igreja. Perguntei-lhe de chofre: “meu irmãozinho, (não vou revelar seu nome porque o entristeceria), você sente Deus, quando depois dos trabalhos, se mete a meditar aqui na igreja? Ele lhe diz alguma coisa”?

Com toda a tranquilidade, como quem acorda de um sono profundo, olhou-me meio de lado e apenas disse:

“Eu não sinto nada. Há muito tempo que não escuto a voz do Amigo (assim chamava Deus). Já senti um dia. Era fascinante. Enchia meus dias de música. Hoje não escuto mais nada. Talvez o Amigo não me falará nunca mais”.

Retruquei eu, “por que continua, todas as noites, aí na escuridão sagrada da igreja”?

“Eu continuo”, respondeu, “porque quero estar disponível; se o Amigo quiser chegar, sair de seu silêncio e falar, eu estou aqui para escutar. Imagine, se Ele quiser falar e eu não estiver aqui? Pois ele, cada vez, vem apenas uma única vez. Que seria de mim, infiel amigo do Amigo”? Sim, ele continua sempre “esperando Godot”. “E não se move” como da peça de Samuel Beckett.

Deixei-o em sua plena disponibilidade. Sai maravilhado e meditativo. É por causa desses que o mundo é poupado e Deus continua a manter sua misericórdia sobre aqueles que o esquecem ou o consideram morto, segundo disse um filósofo que ficou louco. Mas há os que vigiam e esperam, contra toda a esperança esperam Godot. Esta espera fará que,cada dia, tudo seja novo e cheio de jovialidade.

Um dia o sacristão o encontrou inclinado sobre o banco da Igreja. Pensou que dormia. Percebeu que o corpo estava frio e enrijecido.

Como o Amigo não veio, ele foi ao encontro dele. Agora não precisa mais esperar Godot e o seu advento. Estará com o Amigo, celebrando uma amizade, no maior entretenimento, pelos tempos sem fim

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FÉ,RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Os filósofos se agitam em ver distinções onde o senso comum enxerga confusamente. Uma dessas confusões é sobre os três conceitos que compõem o título desse artigo. Seguimos o método esquartejador, por partes.

Fé é um ato de crença, confiança e entrega que se deposita em alguém ou num conjunto de verdades reveladas.

Contudo, antes de pensarmos na fé como fé em Deus, é fundamental pensar a fé na dimensão puramente humana.

Fé humana ou antropológica é o que move o filho a se jogar do terceiro andar do prédio, em meio à fumaça que lhe impossibilita ver, mas ouve a voz do pai que lhe diz: “joga-se meu filho, eu sei que tu não me vês, mas eu te vejo”. E o filho se joga. Pascal dizia que é “a fé é um salto no escuro”. Nada mais apropriado.

Fé é aquela atitude de confiança naquilo que não vemos e não temos certeza absoluta. Há um risco no ato de crer, impossível de ser redimido, apesar das evidências que nos dão alguma segurança. A mulher ama o marido e o marido ama a mulher e reciprocamente fazem juras e promessas de amor e se dão provas de amor. Contudo, permanece o risco. A palavra pode enganar e a obra e o gesto podem esconder intenções falsas. Mesmo assim, um crê no outro. É preciso crer no amor, dizia Kierkegaard.

Sem fé, a vida seria um impossível. Toma-se o ônibus e é necessário crer que o motorista não seja um terrorista e jogue os passageiros no precipício. Vai-se ao restaurante e toma a comida sem que alguém, previamente, teste se a comida não contém veneno etc. Os exemplos são infinitos.

O contrário da fé, não é a descrença, mas o medo e a paranoia. Desconfiar de todos e de tudo, eis o paranoico que vive a síndrome do medo. Lá onde a fé falha, instaura-se o medo e a paranoia que vê perigo e inimigos por todos os lados. Que triste uma vida sem fé!

Quando a fé é a confiança e a certeza, sem a prova cabal, em Deus e nas suas promessas, então a fé passa da dimensão antropológica para a dimensão transcendente e teológica. A fé religiosa não é, ainda, sinônimo de religião, pois mesmo sem religião é possível continuar crendo e confiando em Deus na solidão do seu eu. E aqui vale o mesmo da fé humana e antropológica, com um agravante, a Deus ninguém viu e, por isso, a fé é ainda mais arriscada.

Religião, por sua vez, é a forma humana de organizar a fé em Deus. A religião é estrutura, organização, doutrina, hierarquia, moral e ritualização do ato de crer. Quando os que creem no mesmo Deus seduzem um ao outro, temos então a religião, forma coletiva de pensar e viver a própria fé.

Espiritualidade é a viver segundo um espírito que anima a vida. Quem tem fé no outro e tem fé em Deus, de per si, tem espiritualidade. Mas isso não significa que espiritualidade seja sinônimo de fé e de religião. É possível uma espiritualidade laica e até ateia com legitimidade e com integridade. Viver segundo um espírito, eis o que é espiritualidade.

Ora, uns vivem segundo espírito da competição e da indiferença, típica do capitalismo. Outros sob o espírito do medo e da desconfiança. Outros, e não raro, sob o espírito da confiança, da solidariedade, da harmonia e da paz. Outros ainda sob o Espírito Santo de Deus que faz irromper o medo e enfrentar os poderosos, fazendeiros com seus jagunços, golpistas com seus tentáculos de poder, imperadores com seus exércitos e arenas com seus leões etc.

Fé, religião e espiritualidade. Eu tenho fé numa religião que fomenta a espiritualidade da justiça, paz e ecologia. E você? Namastê!


POR:Gilmar Janpierri

quinta-feira, 4 de maio de 2017

PENSE NISSO.

Uma democracia se caracteriza por favorecer a cidadania de direitos. Direito à alimentação, saúde e educação. A uma vida digna e feliz. Direito ao trabalho e ao lazer, à moradia e à cultura. Direito de escolher seus representantes políticos e se beneficiar da proteção social custeada pelos impostos que o cidadão paga.

A democracia é sabotada quando o governo sonega direitos ao cidadão. Flexibiliza as leis trabalhistas ao romper cláusulas pétreas dos contratos laborais que impedem a superexploração da força de trabalho e o fortalecimento dos privilégios do capital.

A democracia entra em colapso quando direitos básicos, como saúde e educação, se tornam produtos caros a serem negociados no balcão do mercado. E também quando o governo privatiza o patrimônio público, reduz o Estado a mero gerente de interesses particulares, e manda às favas os escrúpulos e garante a governabilidade por meios escusos, como o conluio criminoso entre políticos e corporações empresariais através da corrupção.

Essa falácia democrática segue a lógica de que não deve haver cidadania de direitos, exceto para a elite, o que transforma direitos em privilégios. Deve haver “cidadania” de bens, de acesso ao mercado de consumo, de mimetismo cultural, de aspirações dos remediados e da classe média aos padrões de consumo das nações metropolitanas.

Quando a cultura narcísica do ter predomina sobre a cultura humanística do ser é sinal de que o tecido social começa a se esgarçar. Virtudes como solidariedade, voluntariado, acolhimento e respeito às diferenças são implodidas. Cedem lugar à competitividade, ao individualismo, à vaidade exacerbada, aos preconceitos e discriminações. A harmonia social se vê ameaçada pela violência da imposição arbitrária de usos e costumes, e pelo agravamento das diferenças sociais. Então a sociedade, qual manada tocada ao curral, aceita trocar liberdade por segurança.

Os tempos mudam. Inútil sonhar com a volta ao passado. Agora a informatização estabelece novas modalidades de relações sociais. E essas ferramentas tecnológicas não são neutras. Ditam comportamentos, atitudes, novos paradigmas. Por isso é preciso impedir que estimulem o solipsismo, esse dar de ombros para o que se passa em volta por quem não se interessa senão pelo próprio umbigo.

As redes sociais podem e devem tecer vínculos de solidariedade, e propiciar plataformas de protestos e propostas. É preciso desimbecializá-las como meros nichos de desconstrução do outro. Os problemas não estão nos indivíduos, e sim nas instituições, nas estruturas, no sistema. 

De nada adianta querer cortar a árvore podre sem considerar a doença que contamina a floresta. Sem a visão macro do processo social cai-se no atoleiro do emocionalismo bizarro, infantil, que em nada contribui para se formular um projeto alternativo de sociedade.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

AS CORES DO OUTONO

O outono é simplesmente inspirador. Todos os anos, um sentimento de admiração invade meu ser. Impossível descrever, mas as árvores de folhas avermelhadas dão um toque especial e inspiram sentimentos diversos, inexplicáveis. Sinto vontade de expressar em palavras minha alegria outonal, mesmo que, em outros momentos, eu já tenha me referido à estação das folhas que trocam de cor e caem. O outono não se esgota em poucas frases e vocábulos. Não precisa ser explicado, mas não pode passar despercebido. Os olhos abrem as janelas do coração para que a beleza seja contemplada e a vida transformada.

Tenho a impressão que os seres humanos também trocam de ‘cor’. Os próprios cabelos comprovam que é possível mudar de tonalidade. Refiro-me, porém, a outros tons, para além do couro cabeludo. A maturidade tem um colorido muito especial. Os gestos, as palavras e as decisões são de matizes avermelhadas, numa harmonia sem igual. Não sei explicar, mas há uma relação entre o outono e a maturidade. Se as folhas caem é porque alcançaram o necessário amadurecimento. Porém, assim como o outono esconde discretamente, nas suas profundezas, a primavera e as outras estações, a maturidade resguarda harmoniosamente, dentro de si, o florescimento de um novo jeito de olhar os fatos e os acontecimentos, uma postura diferenciada diante dos problemas sem solução.

Num tempo de tantas mudanças, de insistente consumo, é importante que o outono da maturidade seja portador de serenidade e de harmonia. As solicitações aumentam a cada dia, os compromissos se multiplicam, as preocupações alcançam proporções imensuráveis e a vida suspira humildemente por um pouco mais de paz. Assim como algumas folhas são levadas pelo vento impetuoso, que o orgulho se perca em distâncias jamais alcançadas; que o desânimo se desprenda para deixar espaço à esperança. Há uma primavera batendo à porta do coração. Que seja dada permissão para que ela adentre e ocupe os melhores espaços existenciais. Enquanto isso continuo contemplando as folhas avermelhadas de mais um outono, que muda paisagens e que resgata muitos sentimentos.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A VIDA É UM SHOW !

“A vida humana não é somente vivida, mas também é representada”, diz o teólogo José Comblin. Na vida há uma espécie de palco onde o ser humano pode representar como ator e espectador. A pessoa não deixa de ser uma diversidade de representações, experiências, olhares, formas inesgotáveis. Hoje parece que as pessoas necessitam da representação para viver em paz, o que é um risco para a juventude.

A palavra representar tem muitos significados, como dar uma imagem de algo que representa uma coisa. Também pode ser entendida como ser, constituir um trabalho que representa um grande esforço. Ainda, representar ao público através de uma peça de teatro. Um agir no substituir uma pessoa numa reunião. Representar a realidade, etc. Então, representar possui um amplo sentido. As formas mais comuns de representar a vida são peças teatrais, ritos, celebrações religiosas. Para os antropólogos desde a antiguidade o ser humano representa sua vida do nascimento à morte. Como exemplo, o rito batismal e os funerais praticados por toda humanidade são formas de representação. As representações estão relacionadas à vida e à morte.

Na prática da religião há muita representação. Os sacramentos oficializam essa representação do nascimento com o batismo, no qual a criança passa a ganhar um novo sentido, uma nova vida espiritual. Assim, para todos o batismo é a celebração do nascimento. Esta representação é sinal de vida e de esperança, apesar das precariedades da pobreza, dos sofrimentos e doenças. A própria sociedade secularizada necessita de representações para não sucumbir no espaço social. Por vezes suas representações competem com outros ritos e celebrações do tipo religiosas. Nesta oferta de palcos para representar é capaz de reinventar até mesmo a união entre gêneros, a convivência social da juventude, terceira idade, crianças, etc.

Sem dúvidas todas as representações, sejam religiosas ou seculares, têm poder de influenciar as pessoas. Contudo, estas representações não podem manipular a vida e realidade das pessoas. A sociedade secularizada usa de representações para conduzir as massas populares através dos palcos, dos shows, das vedetes da música, da orgia, do delírio coletivo. As representações desta natureza são muitas vezes uma evasão coletiva. Diante disto, o papel dos educadores é explicar que a convivência social retrata muitas vezes ideologias que entorpecem o sentido da vida. A vida não pode ser concebida como um objeto de consumo ainda que se achem na liberdade de fazer suas escolhas, mas na prática isso não se realiza. A felicidade ou a dramaticidade da vida não pode ser encarada igual a uma peça teatral. Hoje, com tanta oportunidade de ritos e shows, uma educação revolucionária leva muitos pais a repensar o estilo de vida dos filhos, na forma mais integrada à família, a um pequeno grupo de amigos.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ESTAMOS ENTRANDO NO MUNDO DO PÓS EMPREGO E PÓS TRABALHO

Neste 1º de maio, os trabalhadores do Brasil não têm o que comemorar.

Em primeiro lugar, porque o desemprego promovido pelo austericídio golpista já bateu seu recorde histórico, 14, 2 milhões de desempregados, e não para de crescer. Em segundo lugar, porque os direitos dos trabalhadores brasileiros a um emprego decente estão sendo destruídos pela Reforma Trabalhista do governo ilegítimo.

Com efeito, os trabalhadores do Brasil estão entrando no mundo tenebroso do “pós-emprego” e do “pós-trabalho”. Estão dando adeus ao trabalho regular, decente e protegido e entrando numa era de trabalho precário, irregular, desprotegido, perigoso e mal pago. Estão se despedindo da CLT e voltando aos tempos da República Velha, quando a “flexibilidade” e a falta total de proteção eram a regra.

Como sempre, a destruição selvagem de direitos é apresentada como algo "moderno" e "civilizado", que vai "beneficiar a todos", principalmente os trabalhadores. Trata-se de uma moderna “pós-verdade”. Ou de uma mentira arcaica.

Na realidade, as revisões das legislações trabalhistas destinadas a “flexibilizar” o mercado de trabalho e instituir novas formas de contratação já são antigas. Elas começaram na década de 1970, em alguns países anglo-saxônicos, e se intensificaram nas décadas de 1980 e 1990, com o predomínio do neoliberalismo, em nível mundial. É, portanto, algo arcaico e que não produziu, de um modo geral, os resultados esperados, em termos de geração de empregos, principalmente empregos decentes e de qualidade.

No final do ano passado, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou um extenso relatório sobre o assunto intitulado “NON-STANDARD EMPLOYMENT AROUND THE WORLD” (Emprego Não Normalizado no Mundo). A OIT define esse tipo de emprego (NSE) como o trabalho que não se enquadra em contratos por tempo indefinido, em jornadas integrais e numa clara relação de subordinação entre patrão e empregado. Em outras palavras, NSE é todo trabalho que não se enquadra nos padrões clássicos do emprego formal e plenamente protegido, com jornadas regulares. Por isso, ele também é definido, às vezes, como trabalho precário.

Pois bem, nesse relatório da OIT, embora se reconheça que, em certas circunstâncias, o NSE pode beneficiar segmentos específicos, são feitas extensas advertências sobre os perigos desse tipo de emprego para trabalhadores, empresas, mercados de trabalho, economias e sociedades.

Os efeitos nocivos sobre os trabalhadores são bem conhecidos, no mundo inteiro. Os trabalhadores inseridos no NSE em geral ganham menos que os demais trabalhadores (em média 30% menos, podendo chegar a 60% menos, pelo mesmo trabalho), têm proteção social inferior ou muito inferior, suas jornadas são muito inferiores ou muito superiores (sem direito a horas extras) às jornadas regulares, recebem pouco ou nenhum treinamento, estão mais sujeitos a acidentes e a trabalhos insalubres e perigosos, e vivem numa situação de imprevisibilidade e insegurança. Seus padrões de consumo são inferiores aos dos trabalhadores regulares. Têm também dificuldade em acessar crédito, especialmente crédito de longo prazo para comprar imóveis. Por isso, em muitos países europeus é comum encontrar jovens e até pessoas de meia idade que coabitam com seus pais, mesmo trabalhando.

No que tange às empresas, a OIT adverte que aquelas que privilegiam o NSE tendem a ver diminuída a sua produtividade, devido à falta de comprometimento dos trabalhadores com a empresa e ao baixo investimento em qualificação e treinamento da força de trabalho.
Mas as advertências mais graves dizem respeito aos mercados de trabalho e às sociedades.

A OIT adverte que não há uma relação empírica consistente entre NSE e geração de empregos, principal justificativa para a revisão dos direitos trabalhistas. A bem da verdade, tudo depende mais das condições macroeconômicas do que das legislações. Quando há demanda e crescimento, o emprego tende a crescer. Quando vem a recessão, os empregos mínguam.

Entretanto, nos países em que há número significativo de NSE, os mercados de trabalho se tornam mais sensíveis às oscilações do ciclo econômico, especialmente às recessões. Nesses países, esse tipo de emprego tende a crescer mais que o emprego plenamente protegido, quando há crescimento. Foi que aconteceu, por exemplo, na Espanha e na Itália, que fizeram modificações em suas legislações trabalhistas na década de 1980 (Espanha) e final da década de 1990 (Itália). Na Espanha, por exemplo, o trabalho temporário e a tempo parcial cresceu, como proporção dos ocupados, de cerca de 15%, em meados da década de 1980, para 35%, em 1995, sem que ocorresse, porém, uma expansão significativa do emprego total. A OIT denomina esse efeito de “efeito lua de mel”, justamente porque é de curta duração.

Já na crise, esses trabalhadores mais desprotegidos são demitidos em massa, pois o custo das demissões é muito baixo. Com isso, o desemprego sobe muito e rapidamente. Por tal razão, a Espanha combina, atualmente, legislação trabalhista flexível e índices elevados de NSE com altos índices de desemprego. O mesmo aconteceu no Japão, após a crise dos anos 1990. Assim, não há evidências consistentes de que o NSE aumente, de forma significativa, a geração de empregos na expansão, mas há evidências de que elevados índices de NSE aumentem o desemprego nas recessões.

Outra advertência que a OIT faz se relaciona à segmentação do mercado de trabalho pelo NSE. O NSE foi introduzido, em muitos países, para gerar empregos em segmentos específicos, em especial jovens e mulheres que tinham dificuldade em conciliar estudos e cuidados parentais com jornadas regulares de trabalho. A expectativa era de que o NSE, particularmente o trabalho temporário e o parcial, servisse como escada para o acesso ao trabalho protegido. Mas não foi isso o que aconteceu. Com o tempo, o mercado de trabalho foi segmentado. Assim, em muitos países há um mercado de trabalho precário, no qual estão sobrerrepresentados os jovens, as mulheres e os migrantes e um mercado de trabalho protegido, mas não há um fluxo de trabalhadores substancial do primeiro para o segundo. O fluxo do mercado de trabalho regido pelo NSE é em direção ao desemprego, não ao emprego decente. O trabalho precário não conduz ao trabalho protegido, mas conduz ao desemprego.


Nos casos dos países em desenvolvimento, que já têm um mercado de trabalho tradicionalmente segmentado entre formalidade e informalidade, o NSE acaba por agregar uma segmentação no mercado de trabalho formal, criando, desse modo, uma dupla segmentação. Foi o que aconteceu no Peru, por exemplo, que fez reformas trabalhistas ao final da década de 1990. Como resultado, entre 2003 e 2012, houve apenas leve redução na informalidade no mercado de trabalho não agrícola, que passou de 75% para 69%. Porém, tal redução esteve muito associada às boas taxas de crescimento daquele país (7,2% ao ano, entre 2006 e 2012), não à reforma. E, mais grave, os empregos gerados no mercado formal, foram, em sua imensa maioria, de trabalhos temporários. Assim, hoje em dia 63% dos trabalhos com contrato assinado no Peru são trabalhos temporários. Ou seja, além de não resolver o problema da informalidade, que continua extremamente elevada, a reforma trabalhista peruana gerou precariedade no mercado formal. Coisa semelhante aconteceu no Chile no Equador.

E é o que provavelmente vai acontecer no Brasil, caso essa infame Reforma Trabalhista seja aprovada.

Outras consequências negativas do NSE podem ser, em nível geral, a fragilização da representação sindical, com repercussões óbvias sobre a defesa dos interesses dos trabalhadores, e a redução da competitividade e produtividade globais da economia, face ao baixo investimento que as firmas que usam muito NSE fazem em educação dos trabalhadores e em inovação tecnológica. Ademais, o NSE pode ter efeito negativo na seguridade social, face à diminuição das arrecadações previdenciárias.

Nada disso, no entanto, é necessário. No Brasil, o mercado de trabalho já é bastante flexível e a maioria dos contratos tem duração de apenas um ou dois anos. A rotatividade é muito alta, notadamente entre os trabalhadores menos qualificados. A ideia de que os trabalhadores brasileiros têm proteção demasiada, o que dificultaria a geração de empregos, é simplesmente ridícula.

Nosso país demonstrou que se podem gerar muitos empregos e se reduzir a informalidade, com a atual legislação laboral que protege minimamente os trabalhadores. Entre 2004 e 2014, foram gerados 23 milhões de empregos formais e o salário mínimo cresceu cerca de 75%. A formalização do mercado de trabalho, nesse período, subiu de 45,7% para 57,7%, fazendo crescer as receitas previdenciárias. Em dezembro daquele último ano, a taxa de desemprego atingiu seu mínimo histórico: 4,3%. A CLT atrapalhou? Não, a CLT ajudou, pois a demanda permaneceu aquecida não só devido à quantidade dos empregos, mas à qualidade dos postos de trabalho formais, cuja remuneração cresceu acompanhando o salário mínimo.

Ademais, a qualidade dos empregos, formais e protegidos, é de fundamental importância para os processos de distribuição de renda e o combate à pobreza. A própria OCDE publicou, em 2009, o relatório “O Papel do Emprego e da Proteção Social- Tornando o crescimento econômico mais pró-pobre”, no qual se afirma que o emprego decente é o principal caminho para a eliminação da pobreza e que a proteção social reduz a pobreza e a desigualdade transferindo renda para os pobres.
O relatório da OIT mostra que há duas estratégias opostas para a implantação do NSE. A primeira é a “estratégia da integração”, pela qual o NSE é introduzido como forma de atrair profissionais que não desejam ou não podem cumprir a jornada integral de trabalhos. Nesse caso, a flexibilização das regras trabalhistas resulta em trabalhos de boa qualidade. Foi o que aconteceu em alguns países do norte da Europa, com benefícios para alguns grupos específicos, como estudantes e mães com filhos pequenos.
Contudo, há também a “estratégia da marginalização”, na qual a reforma trabalhista é usada simplesmente para burlar a legislação em vigor e diminuir os custos do trabalho de um modo geral. Essa é a estratégia da Reforma Trabalhista do golpe.

O que se quer não é se revolver o problema de grupos e ou segmentos específicos. O que se quer não é adaptar a CLT a novas atividades econômicas. O que se quer é reduzir substancialmente os custos trabalhistas e aumentar as taxas de lucros, numa conjuntura recessiva. O que se quer é colocar os custos da crise nas costas do trabalhador. Além disso, há o desejo evidente de se fragilizar os sindicatos.

No Brasil, voltaram os massacres de trabalhadores. Os metafóricos (reforma trabalhista, reforma da previdência) e os literais (Colniza). Como na República Velha, a questão social voltou a ser caso de polícia.

O governo golpista, que declarou guerra aos trabalhadores e aos pobres, quer comemorar, neste 1º de maio, o pós-trabalho regular, o pós-emprego decente. Quer comemorar o fim da CLT.

Contudo, o êxito da greve geral do último dia 28 mostra que os trabalhadores do Brasil não aceitam as pós-verdades do governo ilegítimo e da mídia golpista e insiste em comemorar o trabalho decente. Insiste em manter seus direitos.

O dia do “pós-trabalho” golpista fracassará. O 1º de maio será sempre o Dia do Trabalho. Protegido e decente.

O que nunca foi decente é o golpe.