sábado, 31 de dezembro de 2016

2017 MUITO FELIZ

Feliz Ano Novo aos que acordam em 2017 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.

A quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes os que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; e, generosos, ousam a humildade.

Feliz Ano Novo a todos que despertam ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.

Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio. A quem mira a vida como dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.

Novo seja o ano daqueles que não tropeçam na própria língua, sonegam palavras ácidas, desaprendem a maledicência e semeiam fragrâncias nas veredas dos sentimentos. De quem se guarda no olhar recatado e não mergulha no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.

Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, mundo e amor. Viver é graça para quem se dedica a acariciar rugas e trata suas limitações como cerca florida de choupana montanhesa. Tenham um feliz ano todos que sabem ser gordos e felizes, endividados e alegres, enfermos e otimistas, carentes de certezas mas repletos de vindouras fortunas em seus anseios.

Feliz ano aos órfãos de Deus e de alvíssaras, aos que se abrigam em armaduras de verdades irrefutáveis, aos cavaleiros do desassossego e às damas que recobrem, sob o pudor do corpo, a mais deslavada orgia espiritual. Felizes sejam os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vitórias inconsúteis que nada temem, exceto a expressão súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que os desprezam.

Felizes sejam também as mulheres que devotam amor e dor a quem merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências, aos alpinistas que despencam do próprio ego, e para quem se agasalha de ética e não conspira contra a vida alheia.

Feliz Ano Novo aos que colecionam utopias, fazem das mãos arado e, com o próprio suor, regam as sementes solidárias que cultivam.

Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens, e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a marca atemporal de quem se inebria de emoções férteis.

Muitas felicidades aos que trazem em si o afago do silêncio, sentem-se bem acompanhados quando estão sós e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado com sorrisos de sabedoria.

Aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a velhice com humor, a morte sem estranheza, e brincam com a criança que os habita.

Feliz Ano Novo aos sonâmbulos que trafegam nas veredas do futuro e sonham que a vida é um sonho tão real que dele não vale a pena despertar.

Um ano feliz a todos que professam a incredulidade nos ídolos de pés de barro, veneram bens invisíveis, e andam pelas madrugadas destronando o medo. A todos que creem no que não merece fé e têm fé nos lampejos da dúvida, nos desvãos da incerteza e no mistério que instaura, como presente, o Deus vivo cuja morte é reiteradamente proclamada por quem nele deságua.



F.Beto

FELIZ ANO NOVO

Por que desejar feliz ano novo se há tanta infelicidade a nossa volta? Será feliz o próximo ano para sírios e iraquianos, e os soldados norte-americanos sob ordens de um presidente que qualifica de “justas” guerras de ocupações genocidas? Serão felizes as crianças africanas reduzidas a esqueletos de olhos perplexos pela tortura da fome? Seremos todos felizes, conscientes dos fracassos da Conferência do Clima em Paris por empresas e governos que salvam a lucratividade e comprometem a sustentabilidade?
O que é felicidade? Segundo Aristóteles, é o bem maior que todos almejamos. E alertou Tomás de Aquino: mesmo ao praticarmos o mal. De Hitler a madre Teresa de Calcutá, todos buscam, em tudo que fazem, a própria felicidade.
A diferença reside na equação egoísmo/altruísmo. Hitler pensava em suas hediondas ambições de poder. Madre Teresa, na felicidade daqueles que Frantz Fanon denominou “condenados da Terra”. A felicidade, o bem mais ambicionado, não figura nas ofertas do mercado. Não se pode comprá-la, há que conquistá-la. A publicidade empenha-se em nos convencer de que resulta da soma dos prazeres.
Para Roland Barthes, o prazer é “a grande aventura do desejo”. Estimulado pela propaganda, nosso desejo exila-se nos objetos de consumo. Vestir esta grife, possuir aquele carro, morar neste condomínio de luxo – reza a publicidade – nos fará felizes.
Desejar feliz ano novo é esperar que o outro seja feliz. E desejar que também faça os outros felizes. O pecuarista que não banca assistência médico-hospitalar para seus peões e gasta fortunas com veterinários para tratar de seu rebanho espera que o próximo tenha também um feliz ano novo?
Na contramão do consumismo, Jung dava razão a São João da Cruz: o desejo busca, sim, a felicidade, “a vida em plenitude” manifestada por Jesus, mas ela não se encontra nos bens finitos ofertados pelo mercado. Como enfatizava o professor Milton Santos, acha-se nos bens infinitos.
A arte da verdadeira felicidade consiste em canalizar o desejo para dentro de si e, a partir da subjetividade impregnada de valores, imprimir sentido à existência. Assim, consegue-se ser feliz mesmo quando há sofrimento. Trata-se de uma aventura espiritual. Ser capaz de garimpar as várias camadas que encobrem o nosso ego.
Porém, ao mergulhar nas obscuras sendas da vida interior, guiados pela fé e/ou pela meditação, tropeçamos nas próprias emoções, em especial naquelas que traem a nossa razão: somos ofensivos com quem amamos; rudes com quem nos trata com delicadeza; egoístas com quem é generoso conosco; prepotentes com quem nos acolhe em solícita gratuidade.
Se logramos mergulhar mais fundo, além da razão egótica e dos sentimentos possessivos, então nos aproximamos da fonte da felicidade, escondida atrás do ego. Ao percorrer as veredas abissais que nos conduzem a ela, os momentos de alegria se consubstanciam em estado de espírito. Como no amor.
Feliz ano novo é, portanto, um voto de emulação espiritual. Claro, muitas outras conquistas podem nos dar prazer e alegre sensação de vitória. Mas não são o suficiente para nos fazer felizes. Melhor seria um mundo sem miséria, desigualdade, degradação ambiental, políticos corruptos!
Essa infeliz realidade que nos circunda, e da qual somos responsáveis por opção ou omissão, constitui um gritante apelo para nos engajarmos na busca de “outro mundo possível”. Contudo, ainda não será o feliz ano novo.
O ano será novo se, em nós e a nossa volta, superarmos o velho. E velho é tudo aquilo que já não contribui para tornar a felicidade um direito de todos. À luz de um novo marco civilizatório há que superar o modelo produtivista-consumista e introduzir, no lugar do PIB, a Felicidade Interna Bruta (FIB), fundada em uma economia solidária.
Se o novo se fizer advento em nossa vida espiritual, então com certeza teremos, sem milagres ou mágicas, um feliz ano novo, ainda que o mundo prossiga conflitivo; a crueldade, travestida de doces princípios; o ódio, disfarçado de discurso amoroso.
A diferença é que estaremos conscientes de que para se ter um feliz ano novo é preciso abraçar um processo ressurrecional: engravidar de si mesmo, virar-se pelo avesso e deixar o pessimismo para dias melhores

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MAIS UMA VEZ ESTAMOS CHEGANDO AO FIM DE AMO

Nossa história e, dentro dela o nosso viver e conviver, tem um ritmo que cada vez parece mais acelerado. Todos se queixam que o tempo passa cada vez mais rápido. Não se sabe bem se é a idade que avança, se são as ocupações que aumentam cada dia mais e não nos deixam sentados no tempo. Enfim, começa ano e termina ano com uma rapidez espantosa. Parece que foi ontem o abraço de “Feliz Ano Novo” e já estamos nos preparando para repetir esse cumprimento.

Geralmente são maiores as lamentações de que o tempo passa do que as alegrias de somarmos mais vida aos anos que se vão. E pior disso acontece quando as pessoas, por verem o tempo correr, fogem para o vazio, achando que não adiante plantar porque não se consegue colher e nem realizar plenamente os próprios sonhos. O ritmo do tempo, mesmo acelerado, precisa ser acolhido como a mais bela peça musical que vai fazendo parte do repertório de nossos hinos.

Refletindo melhor, como é importante começar e terminar o ano! Quanta gente começa e não vê o final. Quantos acidentes no percurso! Mas, também, quantas oportunidades nos são oferecidas para construir, com elegância divina, o edifício da nossa existência.

A chegada do fim de ano confirma que o caminho é irreversível. Passam as horas, passam os dias, passam os meses, passam os anos. O tempo passa e nele nós também passamos. Porém, se os calendários vão sendo substituídos por outros, nós continuamos passando sem substituição, porque não somos simples moradores do tempo, mas, na medida que somamos anos à vida, necessitamos somar mais vida aos anos e caminhar rumo à plenitude, na eternidade.

Na cultura consumista que nos envolve, também corremos o risco de achar que, ao consumir coisas, também se possa ir consumindo com a vida. E a vida não nos é dada para ser consumida, mas para ser construída com o passar dos anos.

Uma das grandes causas de frustrações e decepções humanas é ceder à tendência de tornar a vida descartável, como se o amanhã não nos cobrasse o investimento de sua qualificação.

Se o passado é a herança que vamos acumulando e a escola que vai nos ensinando, o presente é a oportunidade que necessitamos administrar como um tesouro envolto em vaso de barro. Somos chamados a nos alegrar e encantar com o tesouro, porém não podemos esquecer seu cuidado para que o vaso não rompa e o tesouro se perca, irremediavelmente.

Mais uma vemos estamos chegando ao fim do ano. Esse fim não vem fechar as portas da vida, mas carrega consigo as chaves do novo que vai se abrir para a nossa liberdade responsável. A luz de Cristo é a mesma do passado, mas o trecho do caminho é novo para o futuro. Se cansamos com o trajeto percorrido no ano que finda, certamente não nos faltarão as energias do Espírito para renovar o nosso vigor no empreendimento de uma nova jornada.

CHEGAR ANTES.

Enquanto recordava que esta poderia ser  a última crônica de 2016, veio em mente algo muito simples: na infância a atenção não incluía o término do ano, mas o começo do novo ano. O amanhecer do primeiro dia não alterava apenas um algarismo, mas abria espaço para a tradicional saudação acompanhada da mãozinha estendida. Levantávamos mais cedo do que o normal e nos dirigíamos às casas dos vizinhos. O ritual era conhecido: dizíamos ‘feliz ano novo’ e, ao mesmo tempo, aguardávamos algumas moedas. Cada qual corria no intuito de chegar antes e, assim, saudar por primeiro e ser agraciado com uma simples, mas simbólica doação.

O contentamento era tão grande, ao ponto de deixar em segundo plano o valor arrecadado. Afinal, um coração de criança sempre encontra motivos para alegrar-se. Não há necessidade de volume, nem de aparência, muito menos de preço. A criança que fomos no ontem era mais simples, desconhecia eletrônicos, não tinha grandes exigências. O coração conhecia a leveza advinda da bondade e da gratidão. Fico pensando: que maravilhoso era correr para desejar ‘feliz ano novo’, mesmo que, em seguida, a mão era estendida aguardando um singelo abono. O contentamento não suponha grandes motivos, nada era mensurado a partir da quantidade arrecadada.

Os tempos mudaram. A vida experimenta outros sabores e também alguns dissabores. Para alegrar uma criança, nem sempre é fácil. Sem contar que nada mais surpreende. Tudo é conhecido, através de redes e meios que criam necessidades à infância. Quantas dúvidas quando se trata de presentear alguns pequenos. Por outro lado, a grande maioria já não sabe a importância de desejar ‘feliz ano novo’. Alguns costumes assinalados pela simplicidade não deveriam ficar no esquecimento. Não se trata unicamente de recuperar o passado, mas de conservar aquela alegria que unia gerações e que valorizava os pequenos gestos.

Bom, o ano está terminando. Os balancetes permitem diferentes análises. O olhar econômico é fonte de frustração. Foi um ano bem difícil. A recuperação desconhece a rapidez. Por outro lado, foi um tempo de muito aprendizado. É necessário reinventar até mesmo o jeito de viver, revendo determinados costumes. Talvez não seja aconselhável estender a mãozinha, por causa da crise. Porém, ninguém está dispensado de saudar e abraçar com um efusivo ‘Feliz 2017’.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

VOCÊ!

Desde 1927 a revista Time escolhe anualmente o “Homem do Ano”. A iniciativa nasceu dos editores para “escrever algo em semana de poucas notícias”. Em 2006, o escolhido não foi nenhuma personalidade famosa, mas você. Você foi o “Homem do Ano”. Lógico, a escolha tem um significado positivo para a coletividade anônima, e maior para a Time.

Convenhamos que a iniciativa da Time visa à preocupação de aumentar sua participação e influência em termos de informação e notícia. Logo, eleger o “Homem do Ano” vende anúncios e exemplares da revista. Com isso a revista amplia sua influência na formação da opinião pública. Contudo, após duras críticas da opinião pública, em 1999 a revista alterou o título do “Homem do Ano” para “Pessoa do Ano”, na intenção de evitar conflitos de gênero, sexismo, etc. Até então, somente quatro mulheres ganharam o título "Homem do Ano": Corazon Aquino em 1986, Rainha Elizabeth II em 1952, Soong Mei-ling (Madame Chiang Kai-shek) em 1937 e Wallis Simpson em 1936. As únicas mulheres a ganharem o prêmio após a mudança foram as que denunciaram as práticas ilegais das empresas de trabalho em 2002, Cynthia Cooper da Worldcom, Sherron Watkins da Enron e Coleen Rowley do FBI.

De grande influência social, ao propor a premiação “Pessoa do Ano” a revista Time também alavanca seus negócios midiáticos através dos usuários que contribuem para o desenvolvimento do mundo virtual, como quem acessa portais como Wikipédia, Facebook, Youtube e MySpace. Em razão disto, em 2006 elegeu você a “Pessoa do Ano”, em inglês You. A premiação referia-se aos milhões de anônimos usuários da internet. No ano anterior, a Time elegeu o fundador da Microsoft, Bill Gates, e sua esposa, Melinda, pelo crescimento e influência dos conteúdos online gerados pelos usuários em blogs ou sites como YouTube, MySpace e Wikipédia. Somente em 2005, o portal mais popular, o YouTube, recebeu cerca de cem milhões de visualizações diárias. Há dez anos, em 2006, o YouTube foi comprado pelo Google. É lógico que a escolha vai além do Você, mas na intenção de fundar e estruturar a nova democracia digital.

Sendo assim, homenagear os anônimos vencedores chamados de Você não foi por falta de notícias a serem divulgadas, mas pelo retorno econômico e pela influência na informação gerada em cada acesso em algum portal virtual. Quanto maior o número de acessos a um portal virtual maiores são as influências na informação, notícias e setor comercial. Eleger o coletivo como "Pessoa do Ano" é almejar a maior influência de informação em nível mundial. Em suma, você foi o escolhido enquanto acessar algum portal de internet. Contudo, você é mais do que uma conexão ou um internauta. É mais que digital. Afinal, não é o Wi-Fi que conduz a vida humana, e sim outras dimensões e valores imprescindíveis.

PODEMOS SER INTERROMPIDOS A QUALQUER MOMENTO.

Envolta em papel de presentes, chegou a nova agenda. Bonita, funcional, cheia de esperanças e sonhos, como a juventude costuma ter. ao seu lado, marcada pelo tempo e pelas lutas diárias, a velha agenda, cansada e um pouco triste por ser deixada de lado. Embora ela saiba que é amada por mim. Entre as duas, o mistério do tempo.

A velha agenda nada mais é que a minha vida. Em suas páginas estão assinalados os meus fracassos, os meus pecados, as minhas omissões, as esperanças que murcharam, as sementes que não germinaram, as boas intenções que, por não terem sido realizadas, se tornaram más intenções.

Mas ela guarda também páginas luminosas, momentos divinos. Lá estão os meus êxitos, minhas alegrias, os sonhos realizados, os perigos que ficaram para trás. Lá estão assinalados encontros com o Pai e encontros com os irmãos. Algumas palavras lembram momentos difíceis com final feliz: as vezes que tudo me levava a dizer “não” e eu disse “sim”; e as vezes que eu disse “sim”, quando tudo conspirava em favor do “não”.

A nova agenda está totalmente em branco. Compete a mim, em meio às complicações da vida, escrever alguma coisa. O passado é irreversível, é imutável. Não existe a possibilidade de rasgar algumas das folhas da agenda e da vida ou apagar o que foi escrito. Já Pilatos dizia ao povo judeu: “O que escrevi, escrevi”. Por outro lado, o passado é um mestre que merece ser consultado, embora as respostas mudem com o passar do tempo.

Em cada Ano Novo renovamos nosso estoque de projetos e decisões. Se muita coisa não deu certo no ano que passou, é justo apostar todas as fichas no ano que surge. Sou responsável pela nova agenda, mesmo sabendo que ela receberá contribuições dos outros.

A agenda de 2017 está também aberta aos imprevistos. Não vamos enfrentar este ano sozinhos. Deus vai continuar a amar-nos e sua graça nos ajudará a superar os momentos confusos e difíceis.

Santo Agostinho lembrava que Deus promete a todos e sempre o seu perdão, mas não garante a ninguém o dia de amanhã. O escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) falava de três certezas que nos acompanham: recém estamos começando, temos muita coisa a fazer e podemos ser interrompidos a qualquer momento.

Cada dia é presente de Deus, é um sinal de seu amor. Com isso Ele quer nosso amadurecimento humano e divino. Os gregos falavam do “kairós”, isto é, o tempo de Deus, a passagem de Deus em nossa vida. E o tempo de Deus é hoje. Que a nova agenda nos diga isso todos os dias.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

FELIZ 2017

Neste ano-novo, se faça novo, reduza a ansiedade, regue de ternura os sentimentos mais profundos, imprima a seus passos o ritmo das tartarugas e a leveza das garças.


Não se mire nos outros; a inveja mina a autoestima, fomenta o ressentimento e abre, no centro do coração, o buraco no qual se precipita o próprio invejoso.


Espelhe-se em si mesmo, assuma seus talentos, acredite em sua criatividade, abrace com amor sua singularidade. Evite, porém, o olhar narcísico. Seja solidário: estenda aos outros as mãos e oxigene a própria vida. Não seja refém de seu egoísmo.


Cuide do que fala. Não professe difamações e injúrias. O ódio destrói a quem odeia, não o odiado. Troque a maledicência pela benevolência. Comprometa-se a expressar alguns elogios por dia. Sua saúde espiritual agradecerá.


Não desperdice a existência hipnotizado pela TV ou navegando aleatoriamente pela internet, naufragado no turbilhão de imagens e informações que não consegue síntetizar. Não deixe que a sedução da mídia anule sua capacidade de discernir e o transforme em consumista compulsivo. A publicidade sugere felicidade e, no entanto, nada oferece senão prazeres momentâneos.


Centre sua vida em bens infinitos, nunca nos finitos. Leia muito, reflita, ouse buscar o silêncio neste mundo ruidoso. Lá encontrará a si mesmo e, com certeza, um Outro que vive em você e que quase nunca é escutado.


Cuide da saúde, mas sem a obsessão dos anoréticos e a compulsão dos que devoram alimentos com os olhos. Caminhe, pratique exercícios, sem descuidar de aceitar as suas rugas e não temer as marcas do tempo em seu corpo. Frequente também uma academia de malhar o espírito. E passe nele os cremes revitalizadores da generosidade e da compaixão.


Não dê importância ao que é fugaz, nem confunda o urgente com o prioritário. Não se deixe guiar pelos modismos. Faça como Sócrates, observe quantas coisas são oferecidas nas lojas que você não precisa para ser feliz. Jamais deixe passar um dia sem um momento de oração. Se você não tem fé, mergulhe em sua vida interior, ainda que por apenas cinco minutos.


Arranque de sua mente todos os preconceitos e, de suas atitudes, todas as discriminações. Seja tolerante, coloque-se no lugar do outro. Todo ser humano é o centro do Universo e morada viva de Deus. Antes, indague a si mesmo por que, às vezes, provoca nos outros antipatia, rejeição, desgosto. Revista-se de alegria e descontração. A vida é breve e, de definitivo, só conhece a morte.


Faça algo para preservar o meio ambiente, despoluir o ar e a água, reduzir o aquecimento global. Não utilize material que não seja biodegradável. Trate a natureza como aquilo que ela é de fato: a nossa mãe. Dela viemos e a ela voltaremos. Hoje, vivemos do beijo na boca que ela que nos dá continuamente: ao nutrir cada um de nós de oxigênio e alimentos.


Guarde um espaço em seu dia a dia para conectar-se com o Transcendente. Deixe que Deus acampe em sua subjetividade. Aprenda a fechar os olhos para ver melhor.


Feliz 2017!

DIA SEM SOL

Tempo nublado; silêncio na madrugada... A idade me ensina que a tristeza vista no imediatismo do meu coração é falsa...
Acostumamos a idolatrar os dias ensolarados... e, de fato, são belos e bela é a vida na possibilidade de agir, andar, encontrar amigos e companheiros; contudo, a quietude dos dias nublados revela-nos os limites do nosso modo estar no mundo...
Vivemos acelerados, falamos e agimos preenchendo a vida para que esta não tenha nenhum vazio...
Compramos, vendemos... Nos mostramos, olhamos a estamparia do mundo... O tempo é tempo ocupado...
Assim, nos dias nublados tendemos a ficar melancólicos... Qual será o nosso medo?
Penso que temos medo de nos encontrarmos... De ver desnudados sonhos reprimidos, fragilidades camufladas...
Ninguém cresce longe do próprio coração...
Urge ousadia e coragem para viver o tempo livre, desbravando nosso próprio mundo desabitado...
Pensar, cochilar... ler um poema, ouvir uma canção... O ócio é criativo. Ele pode não ser utilitário para a lógica do mercado e do espetáculo... mas o é para que cuidemos de nós...
Robóticos, não brincamos...
Utilitaristas, não sonhamos...
Só conhecemos o que pode a força bruta... pouco sabemos do que pode o corpo no bailado das nuvens, vivenciando as potências da ternura e da suavidade...
Antes escrevíamos longas cartas; hoje, trocamos pequenas mensagens previamente codificadas no reducionismo de calar a força das palavras e de, ruidosamente, evitar as lições do silêncio...
Não fujamos da dança das nuvens...
Tempo livre... é tempo de mar e brincar, dar-se a preguiça e dar-se aos voos da vida sonhada...
Todos, nos dias atuais, sabem os dados que nos identificam socialmente... poucos, e muitas vezes nós próprios, desconhecemos o que somos nas batidas melodiosas do nosso coração... Nele, mora nossa história... e nosso eu adiado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Numa isolada região, montanhosa e fria, vivia um aldeão simples e temente a Deus. Em sua oração pedia que Deus visitasse sua pobre cabana. Na véspera de Natal - sem saber se era sonho ou realidade - Jesus garantiu-lhe que o visitaria. Já no alvorecer do dia começou os preparativos para acolher o Senhor. Enfeitou, como pode sua habitação, preparou uma deliciosa sopa de cebolas e colocou um pedaço de carneiro nas brasas.

Lá fora a nevasca era mais forte e o camponês, de dez em dez minutos, olhava a estrada branca e vazia. Pelas tantas viu um vulto avançando. Ainda não era Ele. Apenas um vendedor ambulante, faminto e carregando pesado fardo. Foi ao seu encontro e convidou-o a entrar. Ofereceu-lhe um prato de sopa e um pedaço de carne, enquanto a lareira secava suas roupas. Depois, agradecido, partiu. Uma hora depois surgiu, no mesmo caminho, uma mulher. Tinha de levar um recado urgente e estava cansada e faminta. Depois de um prato de sopa e um naco de carne, ela partiu. Já quase escurecia e apareceu outra visita. Era uma criança que se perdera pelo caminho. Depois de alimentá-la com sopa e carne, orientou-a para tomar o rumo certo.

Algumas horas passaram, o vento rugia lá fora e a neve continuava caindo. Desgostoso, o aldeão foi deitar, pois chegara à conclusão que o Senhor não viria. Certamente o considerava indigno de sua visita. Seu sono foi interrompido por uma luz intensa e radiosa, em meio a ela estava o próprio Jesus.

Com um misto de desculpa e protesto, o camponês afirmou: esperei-o durante todo o dia... E Jesus esclareceu: por três vezes visitei tua cabana. Lembra aquele viajante cansado, aquela mulher pobre e aquele menino perdido? E, sorrindo, esclareceu: era eu.

Este conto é inspirado no genial escritor russo Leon Tolstoi. Antes e depois dele foram escritos outros milhares de contos. Mas nenhum deles consegue superar a magia de Lucas. José e Maria, obedecendo um decreto de Cesar, foram registar-se em Belém: “Enquanto lá estavam completaram-se os dias para o parto e Maria deu à luz seu filho primogênito e reclinou-o numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2,1-4). Um anjo apareceu aos pastores e a glória do Senhor os envolveu. E o anjo disse: não tenham medo, eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo – Senhor.

Natal - ontem, hoje e sempre - é uma narrativa só compreendida pela ótica do amor. O amor misericordioso de nosso Deus, que é de sempre e para sempre. E na vivência do amor fraterno que entramos no mistério do Natal.

sábado, 24 de dezembro de 2016

FELIZ NATAL

Feliz Natal a todos que dançam embalados pelos próprios sonhos e nunca dizem sim às artimanhas do desejo.

Feliz Natal aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia.

Feliz Natal a quem acorda, todas as manhãs, a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções que só obrigam a quem carece de convicções.

Feliz Natal aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam recatados os seus olhos no recanto da sobriedade.

Feliz Natal aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores e aos escritores sem palavras.

Feliz Natal a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão e convocam os famélicos à mesa feita com as tábuas da justiça e coberta com a toalha bordada de cumplicidades.

Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir.

Feliz Natal a todos que, com o rosto lavado das maquiagens de Narciso, dobram os joelhos à dignidade dos carvoeiros.

Feliz Natal a todos que sabem voar sem exibir as asas e abrem caminhos com os próprios passos, inebriados pelos ecos de profundas nostalgias.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão, bordam toalhas de cumplicidades, secam lágrimas no consolo da fé, criam hipocampos em aquários de mistério.

Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas a quebrar convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Queira Deus que renasçam com o Menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios. 


- CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 64, frade dominicano e escritor

O MEU NOME É CRISE.

Adital – Há tempos não se falava tanto de mim como agora. Tudo por causa de uma crise no sistema financeiro. A África anda, também há tempos, em crise crônica – de democracia, de alimentos, de recursos; quem fala disso?

Existe ameaça de crise do petróleo; governantes e empresários parecem em pânico frente à possibilidade de não poder alimentar 800 milhões de veículos automotores que rodam sobre a face da Terra.

No último ano, devido ao aumento do preço dos alimentos, o número de famintos crônicos subiu de 840 milhões para 950 milhões, segundo a FAO; mas quem se preocupa em alimentar miseráveis?

Meu nome deriva do grego krísis, discernir, escolher, distinguir – enfim, ter olhos críticos. Trago também familiaridade com o verbo acrisolar, purificar. Ao contrário do que supõe o senso comum, não sou, em si, negativa. Faço parte da evolução da natureza.

Houve uma crise cósmica quando uma velha estrela, paradoxalmente chamada supernova, explodiu há 5 bilhões de anos; seus cacos, arremessados pelo espaço, deram origem ao sistema solar. O sol é um pedaço de supernova dotado de calor próprio. A Terra e os demais planetas, cacos incandescentes que, aos poucos, se resfriaram. Daqui a 5 bilhões de anos o sol, agonizante, também verá sua obesidade dilatada até se esfacelar nos abismos siderais.

Todos nós, leitores, passamos pela crise da puberdade. Doeu ver-nos expulsos do reino da fantasia, a infância, para abraçar o da realidade! Nem todos, entretanto, fazem essa travessia sem riscos. Há adolescentes de tal modo submersos na fantasia que, frente aos indícios da idade adulta, que consiste em encarar a realidade, preferem se refugiar nas drogas. E há adultos que, desprovidos do senso de ridículo, vivem em crise de adolescência…

Resulto da contradição inerente aos seres humanos. Não há quem não traga em si o seu oposto. Quantas vezes, no trânsito, o mais amável cidadão arremessa o carro sobre a faixa de pedestres; a gentil donzela enfia a mão na buzina; o aplicado estudante acelera além da conveniência! Não é fácil conciliar o modo de pensar com o modo de agir.

Estou muito presente nas relações conjugais desprovidas de valores arraigados. Sobretudo quando a nudez de corpos não traduz a de espíritos e o não-dito prevalece sobre o dito. Felizmente muitos casais conseguem me superar através do diálogo, da terapia, da descoberta de que o amor é um exercício cotidiano de doação recíproca. O príncipe e a fada encantados habitam o ilusório castelo da imaginação.

Agora, assusto o cassino global da especulação financeira. Acreditou-se que o capitalismo fosse inabalável, sobretudo em sua versão neoliberal religiosamente apoiada em dogmas de fé: o livre mercado, a mão invisível, a capacidade de auto-regulação, a privatização do patrimônio público etc.

Dezenove anos após fazer estremecer o socialismo europeu, eis-me a gerar inquietação ao mercado. A lógica do bem-estar não lida com o imprevisto, o fracasso, o inusitado, essas coisas que decorrem de minha presença. Os governantes se apressam em tentar acalmar os ânimos como a tripulação do Titanic, enquanto a água inundava a quilha, ordenou à orquestra prosseguir a música…

Tenho duas faces. Uma, traz às minhas vítimas desespero, medo, inquietação. Atinge aquelas pessoas que não acreditavam em minha existência ou me encaravam como se eu fosse uma bruxa – figura mitológica do passado que já não representa nenhuma ameaça.

Minha outra face, a positiva, é a que a águia conhece aos 40 anos: as penas estão velhas, as garras desgastadas, o bico trincado. Então ela se isola durante 150 dias e arranca as penas, as garras, e quebra o bico. Espera, pacientemente, a renovação. Em seguida, voa saudável rumo a mais 30 anos de vida.

Sou presença frequente na experiência da fé. Muitos, ao passar de uma fé infantil à adulta, confundem o desmoronar da primeira com a inexistência da segunda; tornam-se ateus, indiferentes ou agnósticos. Não fazem a passagem do Deus “lá em cima” para o Deus “aqui dentro” do coração. Associam fé à culpa e não ao amor.

Acredito que este abalo na especulação financeira trará novos paradigmas à humanidade: menos consumismo e mais modéstia no padrão de vida; menos competição e mais solidariedade entre pessoas e empreendimentos; menos obsessão por dinheiro e mais por qualidade de vida.

Todas as vezes que irrompo na história ou na vida das pessoas, trago um recado: é hora de começar de novo. Quem puder entender, entenda.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

DECRETO DE NATAL

Fica decretado que, neste Natal, em vez de dar presentes, nos faremos presentes junto aos famintos, carentes e excluídos. Papai Noel será malhado como Judas e, lacradas as chaminés, abriremos corações e portas à chegada salvífica do Menino Jesus.
Por trazer a muitos mais constrangimentos que alegrias, fica decretado que o Natal não mais nos travestirá no que não somos: neste verão escaldante, arrancaremos da árvore de Natal todos os algodões de falsas neves; trocaremos nozes e castanhas por frutas tropicais; renas e trenós por carroças repletas de alimentos não perecíveis; e se algum Papai Noel sobrar por aí, que apareça de bermuda e chinelas.
Fica decretado que, cartas de crianças, só as endereçadas ao Menino Jesus, como a do Lucas, que escreveu convencido de que Caim e Abel não teriam brigado se dormissem em quartos separados; propôs ao Criador ninguém mais nascer nem morrer, e todos nós vivermos para sempre; e, ao ver o presépio, prometeu enviar seu agasalho ao filho desnudo de Maria e José.

Fica decretado que as crianças, em vez de brinquedos e bolas, pedirão bênçãos e graças, abrindo seus corações para destinar aos pobres todo o supérfluo que entulha armários e gavetas. A sobra de um é a necessidade de outro, e quem reparte bens partilha Deus.

Fica decretado que, pelo menos um dia, desligaremos toda a parafernália eletrônica, inclusive o telefone e, recolhidos à solidão, faremos uma viagem ao interior de nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a nossa verdadeira identidade. Entregues à meditação, fecharemos os olhos para ver melhor.

Fica decretado que, despidas de pudores, as famílias farão ao menos um momento de oração, lerão um texto bíblico, agradecendo ao Pai de Amor o dom da vida, as alegrias do ano que finda, e até dores que exacerbam a emoção sem que se possa entender com a razão. Finita, a vida é um rio que sabe ter o mar como destino, mas jamais quantas curvas, cachoeiras e pedras haverá de encontrar em seu percurso.

Fica decretado que arrancaremos a espada das mãos de Herodes e nenhuma criança será mais condenada ao trabalho precoce, violentada, surrada ou humilhada. Todas terão direito à ternura e à alegria, à saúde e à escola, ao pão e à paz, ao sonho e à beleza.

Fica decretado que, nos locais de trabalho, as festas de fim de ano terão o dobro de seus custo convertido em cestas básicas a famílias carentes. E será considerado grave pecado abrir uma bebida de valor superior ao salário mensal do empregado que a serve.

Como Deus não tem religião, fica decretado que nenhum fiel considerará a sua mais perfeita que a do outro, nem fará rastejar a sua língua, qual serpente venenosa, nas trilhas da injúria e da perfídia. O Menino do presépio veio para todos, indistintamente, e não há como professar o “Pai Nosso” se o pão também não for nosso, mas privilégio da minoria abastada.

Fica decretado que toda dieta se reverterá em benefício do prato vazio de quem tem fome, e que ninguém dará ao outro um presente embrulhado em bajulação ou escusas intenções. O tempo gasto em fazer laços seja muito inferior ao dedicado a dar abraços.

Fica decretado que as mesas de Natal estarão cobertas de afeto e, dispostos a renascer com o Menino, trataremos de sepultar iras e invejas, amarguras e ambições desmedidas, para que o nosso coração seja acolhedor como a manjedoura de Belém.

Fica decretado que, como os reis magos, todos daremos um voto de confiança à estrela, para que ela conduza este país a dias melhores. Não buscaremos o nosso próprio interesse, mas o da maioria, sobretudo dos que, à semelhança de José e Maria, foram excluídos da cidade e, como uma família sem-terra, obrigados a ocupar um pasto, onde brilhou a esperança.

Fonte: CEBI

NATAL EM TEMPOS DE HERODES.

O Natal deste ano será diferente de outros natais. Geralmente é a festa da confraternização das famílias. Para os cristão é a celebração da divina Criança que veio para assumir nossa humanidade e faze-la melhor.
No contexto atual, porém, em seu lugar assomou a figura do terrível Herodes. o Grande (73 a.C-4-a. C), ligado à matança de inocentes. Zeloso por seu poder, ouviu que nascera em seu reino, a Judéia, um menino-rei. Foi quando ordenou degolar todas os meninos abaixo de dois anos (Mt 2,16). Ouviu-se então uma das palavras mais dolentes de toda Bíblia:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem”(Mt 2,18).

Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas impostas pelo atual governo, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos como saúde, educação, segurança, aposentadorias e congelando por 20 anos as possibilidades de desenvolvimento têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.

Aos legisladores não são desconhecidas as consequências letais, derivadas da decisão de considar mais importante o mercado que as pessoas.

Dentro de poucos anos, teremos uma classe de super-ricos (hoje são 71.440 segundo IPEA, portanto,0,05% da população),uma classe media amedrontada pelo risco de perder seu status e milhões de pobres e párias que da pobreza passaram para miséria. Esta significa fome das crianças que morrem por sub-nutrição e doenças absolutamente evitáveis, idosos que já não conseguem seus remédios e o acesso à saúde pública, condenados a morrer antes do tempo. Essa matança possui responsáveis. Boa parte dos legisladores atuais da chamada “PEC da morte” não podem se eximir da pecha de serem os atuais Herodes do povo brasileiro.

As elites do dinheiro e do privilégio conseguiram voltar. Apoiados por parlamentares corruptos, de costas ao povo e moucos ao clamor das ruas e por uma coligação de forças que envolve juizes justiceiros, o Ministério Público, a Polícia Militar e parte do Judiciário e da mídia corporativa, reacionária e golpista não sem o respaldo da potência imperial interessada em nossas riquezas, forjaram a demisão da Presidenta Rousseff. O real motor do golpe é o capital financeiro, os bancos e os rentistas (não afetados pelas políticas dos ajustes fiscais).

Com razão denuncia o cientista politico Jessé Souza: “O Brasil é palco de uma disputa entre dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites”(FSP 16/4/2016).

A tristeza é constatar que todo esse processo de expoliação é consequência da velha políitca de conciliação dos donos do dinheiro entre si e com os governos, que vem desde o tempo da Colônia e da Independência. Lula-Dilma não conseguiram ou não souberam superar a arte finória desta minoria dominante que, a pretexto da governabilidade, busca a conciliação entre si e com os governantes, concedendo alguns benefícios ao povo a preço de manter intocada a natureza de seu processo de acumulação de riqueza em altíssimos níveis.

O historiador José Honório Rodrigues que estudou a fundo a conciliação de classe sempre de costas ao povo, afirma com razão:”a liderança nacional, em suas sucessivas gerações, foi sempre anti-reformista, elitista e personalista…A arte de furtar é nobre e antiga praticada por essas minorias e não pelo povo. O povo não rouba, é roubado…O povo é cordial, a oligarquia é cruel e sem piedade…; o grande sucesso da história do Brasil é o seu povo e grande decepção é a sua liderança”(Conciliação e Reforma no Brasil, 1965, pp. 114;119).

Estamos vivendo a repetição desta maléfica tradição, da qual jamais nos liberaremos sem o fortalecimento de um anti-poder, vindo do andar de baixo, capaz de derrubar esta clique perversa e instaurar um outro tipo de Estado, com outro tipo de política republicana, onde o bem comum se sobrepõe ao bem particular e corporativo.

O Natal deste ano é um Natal sob o signo de Herodes. Não obstante, cremos que a divina Criança é o Messias libertador e a Estrela é generosa para nos mostrar melhores caminhos

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A CEIA MÁGICA

“A Missa do Galo se encerrou aos primeiros minutos de 25 de dezembro. Padre Afonso se deixara contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono.
Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Natal e lhes deu a bênção final. Uma dezena de paroquianos se ombreou na sacristia para lhe manifestar votos de boas festas. Presentes se sobrepunham a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.
Dependurados os paramentos, padre Afonso se viu sozinho.

Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele sabia tê-lo merecido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio, acometeram-lhe muitas tentações.

Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia.

Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes, sentia saudades dos filhos que não tinha. Atormentava-o se ver sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, surpreendia-se sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por sua família imaginária.

Naquela noite, a solidão lhe bateu forte. Uma solidão com a ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum dos paroquianos tivera a generosidade de o convidar à ceia.


Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e se dirigiu à zona boêmia.


Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve vontade e medo de sentir ódio também de Deus.

Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.


Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas se aliviar e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.


Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar um sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.


Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido.


Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.


Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria.


Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.


Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele a tomou pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto.


Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia.


Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma prostituta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): “As prostitutas vos precederão no Reino de Deus.” E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.


Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia.”

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

COMO O NATAL PODE SER SIMPLES.

Sempre gostei do tempo que antecede o Natal. Confesso que alguns sentimentos já não são mais os mesmos de outros tempos. Na infância tudo parecia demorado, principalmente a chegada das festas natalinas. Na simplicidade da tenra idade, as exigências se resumiam em pequenas surpresas que expandiam o coração de alegria. Havia um equilíbrio interessante entre o papai noel e o Menino Jesus. O material não excluía o espiritual. A refeição era mais elaborada, mas a religiosidade se destacava. As saudações eram efusivas, as alegrias mais verdadeiras, os encontros mais intensos. Impossível apagar da mente e do coração as modestas cenas natalinas.

Os anos vão passando e a saudade continua sempre presente. Os cenários mudaram muito. A essência, em determinados espaços, cedeu lugar à aparência. O Aniversariante não é recordado por todos. A insistente materialização do Natal impede o equilíbrio entre o bom velhinho de barba branca e a Criança da gruta de Belém. Celebrar o Natal sem o Menino Jesus é esvaziar a festa da vida, subjugar a Luz, distanciar o céu da terra. Sem espiritualidade, a alegria é superficial e a paz torna-se frágil. Há tantos espaços sem manjedoura, estrela sem brilho, corações sem amor.

Mas nem tudo está perdido. O ano foi e continua exigente, mesmo assim é possível fazer algo diferente neste Natal. Quando o material é limitado, o afeto pode ser expandido. Menos presentes e mais abraços; poucas coisas, maior intensidade. Menos recursos, mais proximidade. A crise não afeta o real sentido do Natal, nem diminui a alegria de ver famílias reunidas, sensibilidade mais aguçada, diálogos mais prolongados. O Natal está acima da sofisticação. No ontem, o cenário era uma simples gruta, na insignificante Belém. Hoje, o espaço ideal é o coração da humanidade que continua sedento de amor.

Todos gostam de ganhar presentes. Se os recursos estão limitados, a criatividade, advinda da espiritualidade, é capaz de inspirar o maior e sempre atual presente: Jesus. Se não é possível voltar no tempo, a alternativa é vislumbrar outros tempos. Qual a família que não necessita de paz, harmonia, diálogo e paciência? Pronto. Estes são os presentes que o dinheiro não compra e que todos podem ofertar. Se o papai noel não chegar, não tem problema. O Menino Jesus já bateu à porta dos nossos corações. Com Ele, o Natal será sempre muito feliz.

A ROLHA DO MALAFAIA

deus ama quem dá com alegria, diz um versículo da bíblia.

logo, deus ama jean wyllys.

veja o que é usar trechos bíblicos retirando-os de seu contexto original.

é isso que fazem os pilantras que parasitam o dízimo.

a justificativa para a oferta são sempre frases retiradas de seu contexto original.

é sabido que Jesus tinha um tesoureiro, o tal judas da cidade de kerioth, mas as espórtulas que recebiam era pra alimentá-los, não era para jesus comprar um jumentinho importado e ostentar.

nem era dízimo, porque o dízimo era uma obrigação que somente agricultores e donos de rebanho tinham com o templo.

era um espécie de imposto sobre produção.

e mais, o dízimo – quem tem ouvidos para ouvir que ouça – era oferta em alimentos e não em grana viva.

sobre a grana viva o mestre já havia advertido os infelizes: a césar o que é de césar, a deus o que é de deus.

pois deus, como se sabe, não tem conta bancária.

mas malafaia tem.

e foi nela que identificaram um depósito de cem mil lascas.

dinheiro de dízimo, justificou o fariseu caga-raiva.

mas a federal, longe da hipnose dos templos (templo é dinheiro), não caiu no conto do vigário aplicado pelo vigarista.

os homens da lei dos homens crêem que silas pretendia lavar com água benta uma grana suja.

por isso mesmo o conduziu à delega debaixo de vara, como diria o fleumático marco aurélio.

cena que nos remete às chibatadas que o mestre desferiu contra os vendilhões do templo.

mala desdenhou da condução coercitiva de lula, feriu com ferro e com ferro foi ferido.

certa vez, silas afirmou, dedo em riste, que eduardo cunha era o cabra mais honesto que ele havia conhecido.

com mil diabos!

mais cedo ou mais tarde esse sujeito pagará por seus, até agora, supostos crimes e por sua associação com criminosos.

espero que na cadeia ele encontre uma rolha para lacrar o seu cântaro de vinho.

e já que estamos em questões eclesiásticas, em verdade vos digo:

natal é para celebrar o papai noel e não o cristo.

isso é fuleiragem, minha gente boa.

em lugar nenhum da bíblia você vai encontrar o tal 25 de dezembro.

mesmo porque dezembro nem existia no calendário dos que escreveram o livro.

e mais, jesus nasceu em belém, comendo açaí e pato no tucupi, quem nasceu em natal foi o papai noel.

antes de se mudar para a lapônia e viajar de trenó, o velho potiguar praticava ski bunda no morro do careca.

vi uma foto de michel temer ao lado de um cosplay do santa clauss, desses noéis de shopping.

e num é que as crianças estavam de cara amarrada ao lado de temer e do papai noel de araque.

no natal de temer, ao invés do bom velhinho, quem tá de saco cheio é a criançada.

palavra da salvação.


Lelê Teles

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

LEVEI 70 ANOS PARA APRENDER COMO SÃO AS PESSOAS

Um dos maiores problemas com o qual o ser humano pode conviver é a busca de aprovação pela família ou sociedade. Não espere que as pessoas à sua volta vejam o seu desempenho no momento e na hora que você mais precisa que isso aconteça. Os que vivem em sua volta, na maioria das vezes, gostam de você do jeito que é bom para eles. Poucos sabem entender que cada um tem o seu caminhar e a sua forma de enxergar a vida.
Não espere que as suas verdades, conquistadas com muito esforço, sirvam também para os demais. O processo de aprendizado é individual.
Não espere que o óbvio seja companheiro de todas as suas verdades. Só você vê o mundo da sua maneira. Ninguém trilhou o mesmo caminho que você.
Não espere que, depois de viver junto com alguém, as coisas possam ficar melhores. Não, não ficam. As pessoas vêm até nós com suas virtudes e seus defeitos. Ninguém consegue ser o que nós esperamos que seja. Por um minuto até pode, mas o dia inteiro não será possível. Ou você aceita a pessoa como ela é ou irá ter problemas de relacionamento.
Não espere que um dia a pessoa mude e passe a ser como você gostaria que ela fosse. Isso nunca acontece. O caminhar é individual. As pessoas só mudam quando decidem mudar. Ninguém tem o controle da vida do outro.. Não espere que seu amigo entenda... Ele vê você exatamente da forma como demonstrou lhe entender e ler. As pessoas se revelam e se mostram nas dificuldades.
Não espere que os amigos de festas venham lhe ajudar, eventualmente, no transporte dos móveis de sua mudança de casa. A expressiva maioria deles não gosta de você. Gosta e aprecia o que você lhes oferece como distração ou alimento.
Não espere ter muitos amigos. Poucos nos aceitam como somos. Poucos têm a energia compatível. Não espere que sua felicidade esteja nas mãos dos outros. Eles também buscam a deles. Felicidade é uma mera combinação de mente aberta com oportunidade escancarada. Ser feliz é uma determinação e não uma busca. Felicidade é essência e não matéria.
Não espere, portanto, que seu bolso lhe traga esta felicidade. A satisfação que emana de um bem, em nossa vida, leva em si poucas horas de prazer. O que não se toca "esconde" a essência da vida feliz. A felicidade está DENTRO de nós. É só saber usar.Não espere que, finalmente, seguir os outros venha lhe dar a paz que você busca. Ela está em seu equilíbrio emocional e na forma como você verbaliza as suas verdades. Eles são a base do seu e do meu plantio.

CATEDRAIS.

Rezar extramuros das igrejas, sinagogas, mesquitas e templos é uma prática comum de nosso tempo. Em avenidas, ruas ou estádios de futebol se fazem prédicas e rezas para uma multidão de pessoas. O louvável de tudo isto é o homem que reza a Deus. Contudo, a relação que se estabelece com Deus nessas prédicas e rezas é hoje desafio de reflexão teológica.

Nos primeiros anos do cristianismo os cristãos rezavam nas casas, nos porões e às escondidas com medo da prisão, de torturas e até da morte cruel. Na liberdade de manifestar publicamente a fé em Cristo, os cristãos iniciam a construção de igrejas, templos, catedrais e de enormes basílicas. Roma é o berço da construção de igrejas, catedrais, e das chamadas Basílicas Papais: São João de Latrão, São Pedro, São Paulo e Santa Maria Maior. São as quatro maiores basílicas do mundo. A de São João de Latrão é a mais antiga e mais importante e leva o título de “Omnium urbis et orbis ecclesiarium mater et caput”. Isto é, Mãe de todas as igrejas de Roma e do Mundo. Foi construída entre anos de 314 e 335. A Basílica de São Pedro é a maior igreja do cristianismo. Foi construída sobre o túmulo de Pedro, crucificado no ano 64 durante o governo do imperador Nero. A construção foi ordenada pelo imperador Constantino trezentos anos depois da morte de Pedro. Atualmente, as citadas basílicas são os locais mais visitados pelos cristãos.

No segundo milênio do cristianismo, grandes catedrais foram erguidas pela Europa. São catedrais de características góticas que possuem traços de arquitetura diferenciada em relação ao estilo românico, com impulso vertical e com muita luminosidade. Graças a técnicas arquitetônicas introduziram as abóbadas em ogiva, apoiadas sobre robustos pilares que permitiram elevar a altura das catedrais. Este traço característico em direção ao céu exprime uma linguagem universal de convite à oração rumo ao alto, do elevar-se a Deus. Os próprios vitrais pintados, com muita luminosidade, narram a história da salvação em que Deus derrama-se sobre os fiéis e os envolve em seu amor. Com seus traços arquitetônicos as catedrais góticas expressavam uma harmonia entre a fé e a arte por meio da linguagem universal da beleza que ainda hoje suscita muita admiração.

Muitos elementos da cultura e arquitetura gótica poderiam ser destacados por fazerem das catedrais uma verdadeira “Bíblia de pedra” que há séculos representa uma comunidade cristã e civil percorrendo o mesmo itinerário, o da salvação. Nelas participavam os humildes e poderosos, os analfabetos e doutos, porque todos eram instruídos na casa comum, da fé. Hoje, os estádios de futebol viraram "catedrais". Certamente menos imponentes, pobres em arquitetura, de linguagem e de rito fanático. Na verdade, locais onde se glorifica ao Senhor não pelo mistério da salvação, mas pela vitória de seu time. Nos estádios, a oração não é pela realização do mistério do Cristo sofredor, que inspira mudança de vida e arrependimento pelos pecados, mas feitas com uma única intenção, pedir a vitória do time. Nesta postura treinadores, jogadores e torcida fazem suas orações. É algo a ser refletido pela Teologia.




Miguel Debias
e

domingo, 18 de dezembro de 2016

CREMAÇÃO. O QUE VOCÊ PENSA A RESPEITO.

Não é estranha a afirmação de que hoje “tudo mudou”! Isso é notório e confirmado em todos os campos da atividade humana. Em questões religiosas e morais, quem vivenciou experiências de cristandade num passado recente também sente e vive, hoje, novas visões e tendências contraditórias. Também na relação com a morte e com os mortos acentuam-se novos comportamentos, mesmo que nem todos sejam os mais condizentes.

A realidade da morte e seus ritos ainda move sentimentos e motiva rituais, mas até nos funerais muitas tradições foram mudando. As empresas funerárias oferecem planos; facilitam espaços e modalidades de transportes; garantem seguranças legais e assessorias que amenizam os familiares. Mas tudo isso tem seu preço.

O velório que era mais doméstico e acompanhado, dia e noite, por amigos e vizinhos, vai reduzindo sempre mais o seu tempo, inclusive dispensando a presença durante a noite por motivos de segurança. Evidentemente, as mudanças nas práticas dos funerais variam muito entre os grandes centros urbanos e o mundo rural e entre as diversas culturas. Mas, em geral, dentro das mudanças que vão ocorrendo, sempre é preservada a sacralidade da morte e confirmada em suas reações familiares e sociais.

Uma das questões que sempre preocupou a humanidade e a Igreja é a cremação, cada vez mais comum, mesmo entre os católicos praticantes. Devido à questão polêmica da ressurreição dos corpos no fim do mundo, no Renascimento, a cremação era uma escolha mal interpretada e motivo de conflito. Desde 1963, com o Papa Paulo VI, a Igreja liberou a seus fiéis a escolha pela cremação.

É bom clarear que, na tradição católica, a cremação nem sempre era proibida. Era comum e inevitável nas epidemias e em casos de calamidades naturais e de guerra.

É evidente que a Igreja não via contradições entre cremação e a doutrina da ressurreição dos corpos no fim do mundo. A teologia sempre confirmou que o corpo que ressurgirá será qualitativamente diferente do corpo mortal. Deus não precisa de nossos restos mortais para o milagre da ressurreição. Se assim não fosse, como seria a ressurreição final de quem morreu em incêndio ou explosões?

Referindo-se à questão da cremação, a Igreja Católica lançou no dia 25 de outubro de 2016 uma instrução com o título “Ressurgir com Cristo”. Aqui, a Igreja não se opõe à cremação, porém recomenda que os restos mortais sejam depositados em cemitérios ou outro lugar sagrado. Questiona-se o fato de guardar em casa ou espalhar as cinzas no mar ou outros espaços da natureza.

Penso que, em relação à conservação digna, tanto do corpo, quanto das cinzas, a decisão deverá considerar também a questão simbólica, o bom senso do memorial e a realidade antropológica. “Espera-se que esta nova instrução possa fazer com que os fiéis cristãos tenham mais consciência de sua dignidade de filhos de Deus” (cardeal Gehrard Müller)

sábado, 17 de dezembro de 2016

A IMPORTÂNCIA DE APRENDR

As ideias podem mover o mundo. Há uma urgência e, ao mesmo tempo, uma carência de ideias criativas. Copiar ou imitar é mais cômodo. O novo não surge do nada, mas de acréscimos e aperfeiçoamentos. A inspiração é fantástica: de algo muito simples, verdadeiros luminares desencadeiam processos transformadores. Porém, somente o sentimento é capaz de reunir verdadeiras multidões, entrelaçando amor e comoção. As alegrias causam êxtase, empolgam, provocam vibração. Porém, a dor é capaz de invadir o mais profundo do ser e unir um número sem fim, eliminando, por uns instantes, distâncias, diferenças culturais, religiosas e étnicas. O sofrimento está envolto de uma magia que contagia e cria comunhão.

Há um mistério por detrás da dor: ela é capaz de fazer com que o mundo inteiro fale o mesmo assunto, pense nos mesmos detalhes, derrame as mesmas lágrimas. Talvez seja pelo fato de ser impossível explicar alguns acontecimentos, que existe tanta coesão ao redor do sofrimento. Há momentos onde todos têm perguntas e ninguém é capaz de respostas. O intelecto ensaia continuamente explicações, mas o silêncio, por vezes, se impõe e obriga ao recolhimento. Sentir profundamente é uma forma de reunir dentro de si os suficientes motivos para continuar acreditando na excepcionalidade da vida.

As lágrimas expressam o incomunicável. As palavras são insuficientes, quando a questão demanda uma explicação. Querer entender alguns mistérios é abrir espaço ao dinamismo, provocando buscas, ensaiando superação. Nenhuma dor deveria levar ao conformismo. Afinal, se há vida o destino é evidente: ser feliz. Mas viver não é apenas reunir e colecionar acertos e vitórias. Muitas vezes do pior nasce o melhor. O segredo é descobrir o que fazer com a decepção, como lidar com a frustração, como preencher o vazio de uma perda. Como tudo seria diferente se houvesse uma maior preparação para lidar com a vida e com alguns acontecimentos que desencadeiam desestruturação.

Guardo comigo uma frase que acaba acalmando o coração, em determinadas tribulações: “Para quem não tem fé, nenhuma explicação é suficiente. Mas para quem tem fé, não há a necessidade de explicações”. É maravilhoso acreditar em Alguém maior, capaz de serenar as inquietações, permitindo o encontro diário com a transcendência. Um dia, na eternidade, o mistério será desvendado.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A DOENÇA DA MODA.

Sem ser propriamente uma doença, o estresse é a doença da moda. É um conjunto de fatores que acabam derrotando os mecanismos de defesa. É a soma de ansiedade, depressão, angústia, problemas mal ou não resolvidos, que tiram o sono e a própria alegria de viver. O atingido torna-se pessimista, imprestável para a convivência normal. Por fim, o estresse pode tornar-se verdadeira doença cardiovascular.

A palavra stress apareceu pela primeira vez em 1936, num artigo de uma revista científica, assinado por Hans Selye, médico endocrinologista de origem húngara, que lecionava na famosa universidade John Hopkins. A partir daí o fenômeno ultrapassou a área da medicina.

O estresse atinge, sobretudo, empresários de meia idade e que residem em grandes cidades. Mas afeta também homens e mulheres, ocupados ou desocupados, executivos e empregados. Cursando o primeiro ano, uma criança recusou participar das atividades escolares, ponderando para a professora que estava estressada.

Sem chegar a níveis patológicos, o estresse causa estragos na vida cotidiana. Interessante artigo que circulou na internet tem como título “Não deixe suas panelas brilharem mais do que você”. E retrata a luta de uma dona de casa contra o pó. Ela gastava cerca de oito horas por semana para manter a casa bem limpa, preocupada com uma possível visita. Uma casa só vai ser um lar quando a dona de casa for capaz de escrever: eu te amo - seja para quem for - nos móveis empoeirados.

Em vez de ficar horas e horas tirando o pó dos móveis, poderia apelar para tarefas alternativas bem mais agradáveis: plantar uma flor em seu jardim, telefonar, sem motivos, para sua melhor amiga da infância, assar um bolo e lamber a colher suja de massa. Lá fora um pássaro está construindo seu ninho numa laranjeira florida, um lírio vermelho acaba de desabrochar e o carrinho do sorvete está ali, diante de sua porta.

A vida é curta... saiba aproveitá-la. Tire o pó, se precisar..., mas há tantas alternativas mais agradáveis. Crie momentos de encanto para o esposo e os filhos; até o cachorro merece uns afagos e não dê tanta importância ao que os outros pensam.

Não ligue muito para o pó. Um dia todos partiremos e vamos virar pó. Ninguém vai se lembrar de sua casa tão limpinha, mas vão lembrar de sua amizade, de sua alegria e do que você ensinou. Afinal, não é o que você juntou e sim o que você espalhou que reflete como você viveu.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

UM NATAL NOVO.

De novo é Natal. De tanto ouvir e ver as mesmas coisas, o Natal virou rotina. Propagandas sem novidades, velhas canções, alto-falantes dizendo as mesmas coisas diante das mesmas vitrines, as ruas enfeitadas quase do mesmo jeito. Você cansou e não consegue disfarçar um bocejo.

O Natal perdeu a graça. Por que será? O sermão dos religiosos que os fiéis sabem de cor ou o coral com o mesmo repertório dos últimos natais, os mesmos cartões postais com os mesmos dizeres? E para piorar, surge o Papai Noel, cansado e suado, com aquelas roupas de inverno num calor de 30 graus.
A boa Conceição, saída de um livro de Machado de Assis, pergunta: mudou o Natal ou mudei eu? Onde está o Natal de outros tempos, com o pequeno presépio feito em casa, com um espelho parecendo um lago e o pinheirinho com o algodão parecendo neve? Onde está aquele Natal que enchia de encanto o coração e as famílias?
É muito grave, sequestraram nosso Natal. Ele nos foi roubado e em seu lugar tentam colocar panetones, perus, chocolates, presentes, muitos presentes. No lugar do Menino pobre de Belém, querem nos impingir bonecas que falam e dançam, carrinhos com motor, que andam e acendem luzes, tênis iluminados e roupas que vem do outro lado do mundo. Sem falar dos gulosos jantares, onde é quase impossível escolher, tantas são as ofertas.
Podemos, quem sabe, ir ao Procon e pedir que devolvam o Natal. Este natal que nos impingem está vencido, precisa ser retirado do mercado. É falsificado.
Como ponto de partida, é preciso colocar Jesus no centro de nossa festa. Não é o natal do Papai Noel, distribuindo presentes para as crianças ricas e brinquedos reciclados para os pobres. É o Natal de Jesus, que veio trazer a todos o grande presente da salvação. É o Natal daquele que veio trazer a boa nova aos pobres, excluídos e sem esperança.

Natal é também lembrar que o Menino cresceu e nos deixou um modo de viver. Um modo exigente, mas que inclui a misericórdia. Natal não é uma noite, mas uma vida. Natal é o privilégio de recomeçar, exatamente ali naquele ponto que nos encontramos. Natal é a certeza de que para Ele não existem casos perdidos.
Em 1223, Francisco de Assis, o santo do presépio, decidiu: “Quero, neste ano, celebrar o Natal mais bonito de minha vida”. Cada um de nós pode tomar essa decisão. Isso significará reinventar um Natal, um Natal com menos lampadinhas e mais luz. Um Natal com menos festas e mais amor, um Natal onde Jesus é a figura principal.
E quando você der – ou receber – um presente, pense no grande Presente que Deus Pai nos enviou: seu Filho Jesus. E o amor, o encantamento, a alegria, a capacidade de recomeçar sejam os enfeites deste Natal. Troque seu natal vencido por um Natal novo, saído das páginas do Evangelho.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ME DIZ COM QUEM ANDAS

e direi quem são os seus amigos.

sujeitos avessos à lei costumam abrir mão de seus nomes de batismo e adotam um nome de guerra, criando assim uma identidade antissocial.

esses facínoras inventam vulgos para si mesmos ou recebem apelidos que os caracterizam no mundo da criminalidade.

disso todos nós o sabemos.

no bando de virgulino, ele mesmo era o lampião, o clarão que iluminava a noite cuspindo fogo de bacamartes, arrancando fagulhas de pedras com o arrastar de facões, aterrorizando o mundo.

com ele se esquivava pela caatinga, matando e dançando xaxado, sujeitos de nomes não menos temíveis como gavião, meia-noite, bala-seca, jararaca, corisco...

vai vendo.

no início dos anos oitenta surgiram nas cidades os bandoleiros-traficantes.

foi a vez do trio gordo, meio-quilo e escadinha apavorar o ridjanêro, balneário que vivia sob a lei dos fora da lei do comando vermelho.

o power trio foi pioneiro de uma criminalidade que se organizava nas íngremes paisagens atijoladas das favelas.

depois deles vieram beira-mar, canela de vidro, uê, cagado, piolho, chulé, boca murcha, piroca, sem pescoço, gardenal, cara de cavalo, sem cérebro etc.

o tal meio-quilo, traficante de responsa que morreu ao cair de um helicóptero que lhe garantiria uma fuga espetacular do presídio, chegou a namorar a filha do vice-governador do estado.

vai vendo.

e por falar em ridjanêro, o time de bangu 8 pode ganhar reforço.

além do cabeça de guardanapo - e sua consorte com muito azar - tudo indica que dois meios-de-campo de peso estão chegando: big foot e edward peace.

um por ter dado continuidade à brincadeira do guardanapo, o outro por brincar de esconder dinheiro na olimpíada.

mas, porém, contudo e todavia... no campeonato interestadual de pelada entre presidiários, o time de cabral terá um duro embate com o time que vai se formando em curitiba.

dizem até que cabral conseguiu uma transferência provisória para a cadeia do caipira-da-fala-fina para estudar o esquema tático do adversário após a globo vazar a escalação do escrete curitibano.

foi um executivo da odebrecht (ode à brecht?) quem passou a lista para a imprensa, veja com exclusividade os convocados:

santo, reitor, pino, caju, gripado, angorá, babel, caranguejo, misericórdia, mineirinho, boca mole e todo feio...

nosso time de comentaristas disseca o plantel e mostra quem é quem: babel é aquele que tentou liberar a construção de um zigurate com mais de cem metros de altura para tentar, dali, meter a mão no bolso de deus.

mas com a ajuda de satanás, a torre de babel foi implodida ainda na fase do alicerce, como na bíblia.

o tal babel, gordo como uma porca, acreditava que tinha as costas quentes, porém foi surpreendido com um balde de água fria, uma espécie de ice bucket challenge versão baiana.

agora, para entrar em forma, o construtor de zigurates se prepara para fazer um regime forçado comendo quentinha azeda em curitiba.

mas já tem gente querendo armar um tapetão.

outro dia, um juiz de uma região agrícola do sul do país, o árbitro mais arbitrário da história, gargalhava em um convescote com o centro-avante do escrete da odebrecht, o tal mineirinho funga-funga, aquele que não sabe perder.

o que faziam os dois ali, às vésperas da escalação?, perguntavam os torcedores.

será que combinavam o resultado da partida? é possível, visto que ali também se encontravam dois outros pernas-de-pau da mesma equipe, a dupla de pontas-de-lança santo e careca, atletas de cristo, daqueles que depois de um gol ajoelham-se no gramado e sacam a testeira 100% jesus.

o nobilíssimo reitor, ao que tudo indica, é o cérebro do time. pernambucano radicado em brasília, é conhecido por já ter jogado em diversos times; embora manjado, esse gosta de esconder o jogo.

boca mole é aquele zagueirão do piauí, um tipo truculento que esquece a bola e já vai na canela do adversário. costuma jogar com dois ovos na boca.

caju é o goleiro, o cabra que segura todas. versátil, pode também ser usado como massagista e estancador de sangrias.

caranguejo é o coringa. sangue frio, flutua com desenvoltura por todo o campo, é ele quem distribui as jogadas e quem sobe à área para cabecear.

todo feio acaba de chegar da terceira divisão e foi escolhido para dar um susto na zaga adversária.

o técnico, mt, uma espécie de vanderlei luxen burro, é também conhecido como piloto de trem fantasma, mordomo do conde drácula e jaburu usurpador.

mt é um técnico cagão, joga na defensiva e muda o esquema tático a todos momento, é só alguém da globo reclamar que ele substitui um jogador.

ninguém o queria para técnico, ele chegou lá puxando o tapete vermelho da outra titular. segundo nizan guanaes, a popularidade de mt nasce do fato de ele ser muito impopular.

mesmo com todas essas descrendenciais, o veterano mt participa dessas peladas em brasília desde os tempos em que a bola era quadrada.

galáticos, o passe de cada um supera os craques do barcelona, todos são patrocinados por grandes empreiteiras.

façam suas apostas.

o time vestirá uniforme listrado e tornozeleira eletrônica.

palavra da salvação


Lelê Teles

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O MÊS DE DEZEMBRO TERIA ALGUMA MAGIA?

Por que algumas pessoas são egoístas durante o ano todo e nos últimos dias de cada ano passam a refletir e aceitar alguns conceitos de boa convivência e bondade? O mês de dezembro teria alguma magia? Seria isto? Seria uma confluência de poderes religiosos, místicos, astrológicos e climáticos? Seria alguma tentativa de negar o quanto alguns foram cruéis nos outros onze meses? Seria uma forma de passar uma imagem falsa de ser uma boa pessoa repleta de bons princípios? Confesso que eu não sei, só sei que o real significado do Natal não é entendido por muitos. Natal não é simplesmente ficar embasbacado com enfeites e luzes nas mais diversas cidades e ruas do mundo. Natal não é uma simples troca de presentes num “amigo oculto” que cada vez mais tem variações confusas. Natal não é se empanzinar com as mais diversas guloseimas servidas na noite. Natal não é ter a árvore natalina mais colorida, bonita e repleta de cores do bairro. Natal não é nada material meus caros! Então, será que vocês têm de fato um Natal? Claro que não é preciso deixar de ter estes eventos que descrevi acima, pois é possível ter o Natal com tudo isto, mas ressalto que também é possível ter e entender o Natal sem nada disto. Pensando assim, fica evidente que o Natal em si não está vinculado naquilo que se tem e se produz na noite do dia 24 de dezembro, mas naquilo que se sente e que se deseja fazer durante todo o ano. Muitos têm uma bela ceia, um fabuloso “amigo oculto”, uma animada e uma iluminada festa, todavia podem estar distantes do Natal. Espero que você que me ler agora não se enquadre neste grupo de pessoas. 

Natal é a expressão maior da compaixão e da aceitação. Natal é entender o diferente e excluir a imposição. Natal é “multi-color”, “multi-religião”, “multi-orientação”, “multi-ideologia”, “multi-idioma” e “multi-partidário”. Portanto, ao Natal não se deve instituir cor de pele, religião específica, orientação sexual, ideologia pessoal, país e desejo político. Neste sentido, é possível entender que o significado do Natal transcende fronteiras e desejos pessoais. Natal é ser bom. Bom mesmo, sem interesses para ser chamado pelos outros artificialmente de “gente boa”. Natal é poder e querer ofertar sem esperar nada em troca. Natal é ter bons princípios com expurgo da mesquinhez e do individual. No Natal, não há espaço para “olhar para o umbigo”. Natal é entender o quanto nos afastamos de nós mesmos por desejos um tanto quanto obsoletos e materiais. Natal é perceber que você não está acima de tudo e que não pode controlar os outros. Natal é escutar. Natal é amar, mas amar do fundo do coração e não como muitos dizem após uma boa transa - “eu te amo, baby”. Natal é respirar todas as manhãs, ver o pôr do sol todas as tardes, escutar o canto dos pássaros ao amanhecer, namorar a lua ao anoitecer e compreender que temos tudo e não aproveitamos nada. Natal é verificar que o valor das pessoas não está simplesmente na roupa vestida, no perfume usado, no carro comprado, na jóia ostentada, no cargo ocupado e nas posses conquistadas, mas sim na própria pessoa. Esta mesma pessoa que sorri, chora, canta, dança, dorme e olha para você e você nem percebe. Natal é ser fraternal de modo que se eu tenho um e meu “irmão” tem zero, portanto ambos terão meio. Natal é entender que a divisão é espontânea e não imposta por força de lei. Natal é enxergar que sua postura, conduta e atitudes refletem muito além de você e atingem os outros. Natal é poder estar com quem você ama e chorar no ombro daqueles que você confia. Natal é ter humildade para pedir desculpas caso tenha errado e aceitar as desculpas caso tenha sido magoado. Natal é fazer o seu melhor e buscar crescer sem derrubar seu ninguém. Natal é ser “abençoado” por não aceitar a hipocrisia, o preconceito, o ditatorial e o corrupto. Natal é cheirar seus filhos, beijar sua esposa e abraçar seus pais e irmãos, pois eles possibilitaram você ser o que você é. Natal é valorizar seus amigos por que eles sempre estarão contigo independente do que aconteça. Natal é se deleitar com a pureza e a inocência das crianças e quem sabe incorporar mais isto na nossa vida. Atrevo-me a dizer que, em muitas coisas, quando crescemos ao invés de evoluir fazemos é “involuir”. Talvez, se o mundo fosse comandado pelas crianças seria mais leve, pacífico e repleto de boas brincadeiras.

Enfim, o significado do Natal está intimamente relacionado ao nascimento de Jesus. Portanto, não cometi nenhum erro, pois tudo, que descrevi acima, foi buscado e desejado por ele independente de uma data específica. Então, Natal é quando o ser humano de fato assume o papel humano nas relações. 

Diante de tudo isto, retorno aos questionamentos levantados no início. 

Qual seria o porquê de querermos nos aproximar destas boas atitudes somente nos últimos 10 dias do ano? Isto não tem cabimento! Todos os dias deveriam ser,dentro desta lógica, natalinos. Não precisamos marcar no calendário os dias para sermos bons e doar agasalhos, fazer campanhas de comidas para pessoas carentes ou ter outros atos de apoio ao próximo. Isto deveria ser universal e contínuo. Bem amigos, depois de tudo, eu desejo um feliz natal a todos e torço para que você que me ler seja mais “natalino”, inclusive nos outros meses e dias do ano. 

“Lembre-se, se o Natal não é achado em seu coração, 
você não o achará debaixo da árvore.” 
(Charlotte Carpenter

BOTARAM FOGO NA CASA GRANDE

Sob o falso pretexto de expulsar os "ratos" do PT, parte inconsequente da nossa elite conservadora resolveu botar fogo na casa-grande.

O caos financeiro e institucional no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, a invasão da Câmara por radicais e alguns lunáticos pedindo 'intervenção militar', a deposição de uma presidente por intermédio de um golpe jurídico-parlamentar, um país governado por bandidos, a falência de diversas empresas e a consequente demissão de centenas de milhares de trabalhadores, bem como a prisão de diversas autoridades da República (senadores, deputados, ministros, ex-ministros, governadores e ex-governadores) são apenas as "fulgurosas" chamas desse "incêndio", que só aos incautos encanta.

É preciso ver para além das chamas. Para além da fumaça.

Quero só ver se vai aparecer algum bombeiro antes que o fogo, que já consumiu boa parte da casa-grande, consuma e destrua toda a nação.

Não se trata de querer preservar os malfeitos ou de ser leniente/conivente com a corrupção ou com a impunidade.

Mas será que para expulsar os "ratos" e os "cupins" que infestam a casa-grande, é mesmo necessário destruir o país, levando-o à completa ruína, ao caos?

Não teria sido mais prudente e consequente expulsar os "ratos" e os "cupins", mas preservar a Casa? E assim, também, a senzala?

Por enquanto, os nossos chamados "líderes" e "homens públicos" que, quando pensam, só pensam em 2018, assistem a tudo à distância, impassíveis, inertes, covardes.

Enquanto isso... ardem as chamas.

Conseguiremos nos reerguer das cinzas?

domingo, 11 de dezembro de 2016

PAI NOSSO...

A oração é o combustível de todo cristão. A fé cristã é robustecida pela prática da oração. É o elemento imprescindível de quem acredita em um ser Superior, Absoluto. Pelo exercício da oração o homem se encontra com a natureza humana, a terrestre, a morte, e com a divina, a transcendente, a imortalidade. A oração transforma o ser humano, eis um desafio espiritual subjetivo e comunitário de nosso tempo.

A oração não é tão somente um exercício espiritual dos cristãos, judeus ou muçulmanos. Há muitas religiões com suas diferenciadas experiências de oração. Todas com suas teorias, ideias e aplicações. Normalmente a oração está caracterizada à religião, à comunidade dos fieis e à prática pessoal. A palavra oração, do latim orare, tinha o sentido de pronunciar uma fórmula ritual, uma súplica, um discurso, um pedido. A oração propriamente dita é uma experiência de recitare no sentido de ler em voz alta, recitar. Em linguagem popular é rezar. O significado era recitar ou ler as orações. No vocabulário hebraico bíblico a oração é traduzida pelo verbo pãlal que dá sentido de: orar, interferir, mediar, julgar. Estes verbos são encontrados oitenta e quatro vezes no Antigo Testamento hebraico. A oração é o diálogo da alma com Deus. É o meio de comunicação do homem com o seu Criador. Então, na oração Deus se revela e orienta as pessoas para andarem na sua presença.

Sendo assim, a oração não é experiência exclusiva dos homens. Jesus de Nazaré, o enviado do Pai, passava longos dias em oração. Para o seu seguimento, a comunidade dos discípulos lhe pede que os ensine a rezar. E Jesus lhes propõe uma prática: “quando rezardes, dizei: Pai, santificado seja teu nome. Venha o teu reino. Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixeis cair em tentação”.

Na oração de Jesus a primeira súplica é pela união com Deus Pai. A segunda prece é o trabalho pelo Reino. A terceira reza é para matar a fome. A quarta súplica é gratificar-se na sua misericórdia. A quinta súplica é pela proteção da fragilidade humana. A oração de Jesus advoga a comunhão com o Pai; aceitar o convite a experimentar o Reino; alegria e júbilo pela dignidade; a vida favorecida pela misericórdia, com relação a erros cometidos; e orientação para evitar um pecado futuro pela animação sóbria e criativa que decorre os dias.

A oração é a respiração de quem se põe à escuta da vontade de Deus. A experiência de oração é profunda quando cresce a liberdade e a sabedoria interior que transforma a própria pessoa. Nesse caso, a oração é uma bela e santa aventura, plena de coragem em moldar-se à vontade de Deus. Experimenta-se o ser homem de Deus. Chega-se ao estado do ser homem transformado em oração a exemplo de São Francisco de Assis. É transformar-se literalmente na vontade de Deus, de acordo com o que Jesus veio relembrar. Há muitos exemplos de pessoas que conseguiram e conseguem, podemos até conhecer algumas entre nós. São Francisco de Assis foi, na sua humildade, alguém que, de tão bem sucedido no querer seguir Jesus, transformou-se em oração e recebeu o título de "O Outro Cristo".

sábado, 10 de dezembro de 2016

"VAI CATAR COQUINHO

Na beira da estrada que da entrada a propriede, estão dois pés de coqueiros. Sempre gostei de coqueiros. Eles até têm um nome científico e as variedades são muitas. Lembro bem: um amigo queria plantar dois coqueiros e meu irmão conseguiu as plantas já adultas. A adaptação foi imediata. Os anos passaram e lá estão os coqueiros. Não faz muito tempo, o cacho estava florido, as abelhas faziam visitas frequentes em busca do néctar. Nestes dias, num daqueles momentos de olhar e pensar longe, percebi que os coquinhos estão todos maduros. O amarelo das frutinhas, então, me transportou à infância.

Um sabor inesquecível: as tardes de domingo eram simples, as brincadeiras tinham as marcas da inocência, o mundo possuía o formato do alcance dos olhos. A intensidade, porém, não dependia de nenhum incremento. Comer coquinhos era um programa muito especial. Os domingos eram aguardados com certa ansiedade. A simplicidade proporcionava profundas alegrias. Tudo era motivo para gargalhada. Os brinquedos eram naturais ou fabricados manualmente. Os córregos, com espécies comuns de peixes, reuniam os decididos pescadores mirins. O lanche era feito de frutas silvestres. Quando havia pipoca doce ou rapadura, a festa alcançava a sofisticação.

O cacho repleto de coquinhos amarelados provocou um feliz intervalo. Foram instantes rápidos, num tempo de tanta velocidade. Recordar é viver. As lembranças conseguem aliviar as preocupações e as crescentes exigências diárias. É maravilhoso ter um ontem capaz de roubar alguns minutos do hoje. O passado é mágico: não ocupa espaço e, ao mesmo tempo, elimina distâncias. Impossível viver bem o hoje sem os parâmetros do ontem. Tudo é aprendizado, conteúdo necessário para novos sonhos. Apenas um pequeno lamento: a grande maioria perdeu a simplicidade das brincadeiras, a transparência dos relacionamentos, o encantamento pela natureza.

Evidente que havia desencontros. Era comum ouvir a expressão: ‘vai catar coquinho.’ Emoções passageiras, trocadilhos sem rancor. O respeito nunca ficava no esquecimento. Os tempos são outros. Tomara que o ritmo acelerado dos dias não roube a oportunidade de olhar, mesmo que seja de forma rápida, os ‘coquinhos’ que amadurecem. Por uns instantes, sempre é possível voltar no tempo e reavivar aqueles momentos que continuam confirmando que quanto mais simples for a vida, maior será a felicidade. Nos próximos dias, no real sentido, irei catar alguns coquinhos maduros, que estão prestes a se soltar do cacho.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

COMO SURGIU O NATAL

Isaias, seiscentos anos antes, exortou o povo a manter viva a esperança; João Batista proclama que o Messias está próximo, mas foi o “sim” de Maria que colocou em marcha a redenção. O seu sim foi o sinal verde entre o céu e a terra.

Uma mulher, pequena e pobre, situou-se na encruzilhada do tempo. Seu nome: Maria. Descendente de homens de esperança, filha de um povo que tinha aprendido a buscar a Deus e que tinha o hábito de olhar para o céu e para as nuvens na expectativa de que Ele se manifestasse. Mulher, pequena e pobre, vestia-se de Deus. Seu coração estava constantemente voltado para o Altíssimo, Senhor até do impossível.

Tudo nela era ordem, tudo era harmonia. Deus veio visitá-la. Queria dela um sim. Queria ter carne de homem, sonho de homem, coração de homem. Queria caminhar pelos nossos caminhos, queria ter história como todos os homens. Queria inaugurar um novo tempo, queria instaurar uma nova ordem de coisas. Maria hesita apenas um momento. Sua humildade é superada pela disponibilidade. O sim é proferido e esse sim vai dividir o tempo: antes e depois dele.

A hesitação de Maria é feita de honestidade. Ela não quer voltar atrás depois de responder. O anjo sussurra-lhe que Deus quer nascer em seu seio. Diz que a força de Deus será colocada à sua disposição. Assim como tinha agido no seio estéril de Sara, assim como tinha atuado na dureza do deserto, assim como havia habitado o coração dos profetas, assim também agiria no seio de Maria.

Aquele que iria nascer de Maria seria o Filho do Altíssimo, seria a esperança dos povos. Mas era preciso que Maria desse o seu sim. Deus nunca age contra a vontade do homem. Nada pode fazer se o coração do homem se fecha. O Altíssimo está pronto a agir maravilhosamente quando o homem deixa espaço para agir.

Maria respondeu com o sim, um sim incondicional para todas as propostas e para sempre: estou disposta a acolher a aventura de Deus em minha vida. Estou pronta a deixar que Deus realize grandes coisas em mim. Porque eu sou a serva do Senhor. Foi assim que o Natal aconteceu.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UMA MOTIVAÇÃO MOTRIZ

Quanto mais difícil é a realidade, maior deve ser a motivação. No surgir das dificuldades não faltam conselhos, pensamento positivo, confiança, fé, orações. Nesta corrente positiva vídeos e mensagens são enviados de amigo para amigos via WhatsApp. É uma iniciativa positiva. Porém, o ser humano precisa de uma motivação motriz.

Em contexto de altos índices de estresse, depressão, desânimo, medos e angústias, o verbo motivar ganha destaque. Na opinião dos profissionais da área da saúde, essas doenças são um fenômeno da sociedade moderna de característica consumista. O moderno estilo de vida tem construído um quadro social patológico de ascendente consumo de drogas farmacêuticas e até da prática de automedicação. Em razão desse quadro patológico enfatiza-se cada vez mais a questão das motivações. A questão tem ganhado destaque nas ciências humanas, bem como nas áreas administrativas, pedagógicas, literárias, com as mais diversas conceituações e aplicações. A palavra motivação provém do latim motivos, que significa mover. Isto aplicado ao processo comportamental significa incentivar, estimular ou energizar por algum motivo ou razão. A motivação é a mola propulsora que leva a pessoa a realizar seus desejos para algum objetivo na vida.

A motivação também é algo intrínseco às pessoas, dado que todos podem se motivar por si próprios. Na essência do indivíduo, como comportamento único e natural, a motivação vem do sentido ou da importância que cada pessoa atribui à determinada coisa, trabalho, projeto, etc. Portanto, motivação é pessoal, mas pode ser influenciada por objetivos e interesses próprios, familiares ou coletivos em busca de algo que possa satisfazer suas vontades.

Portanto, para compreender o comportamento do homem moderno é fundamental o conhecimento de suas motivações. Visto que o motivo é tudo aquilo que impulsiona a pessoa a agir de determinada forma, as motivações são algo a ser pensado, por serem determinantes na configuração da personalidade e dos comportamentos. Diante do quadro de desmotivações e de falta de perspectivas pessoais é urgente refletir sobre as motivações das pessoas. É importante estimular os indivíduos. Mas o homem é um ser permanentemente insatisfeito, julga sempre faltar algo para sua satisfação. Entretanto, ao satisfazer suas necessidades pessoais e de autoestima não significa que esteja motivado, pois as necessidades humanas são infinitas. É certo que o ser humano está sempre procurando motivos para viver melhor e mais feliz, então é bom um estímulo motriz a dar sentido perene a sua vida. Logo, continue a passar adiante motivações inteligentes para a vida das pessoas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ORGULHOSOS & VAIDOSOS

Pessoas feridas nos seus sentimentos costumam usar estes adjetivos contra quem não lhes demonstrou o devido apreço. Sei de milhares de pessoas tidas como vaidosas e orgulhosas e sei que, para algumas pessoas e grupos, faço parte desses maus sujeitos. 

Sé é como pensam, então cabe a mim me penitenciar e corrigir, mas sei por experiência que para muitos deles nada do que o desafeto faça vai mudar o que decretaram: fulano de tal é orgulhoso e vaidoso. Digo o que penso. Não sei se sou orgulhoso, mas tenho orgulho de algumas coisas que fiz e não me orgulho de outras. Orgulho-me dos meus amigos que cresceram e a quem ajudei a crescer. Orgulho-me da mãe que tive e a poucos dias atrás perdi.

Não me orgulho de ter ferido quem não merecia sofrer. Quem se orgulha demais é um orgulhoso. Quem tem orgulho de algumas coisas e as sustenta pode não ser orgulhoso. Atribuir a Deus e aos amigos o bem que fizemos e aceitar que algum bem foi feito é humildade. Ninguém deve negar os valores que tem. Só não devemos é supervalorizar-nos.
Quanto a ser vaidoso, nosso espelho, nossa fala e nossos amigos devem dizê-lo. Eles sabem se somos acessíveis, se insistimos em respeitar e ser respeitados e se reagimos quando alguém nos varre para baixo do tapete.

 Sou como Paulo, que aceitava ser o último dos apóstolos, mas insistia que era apóstolo. Não pretendia renunciar a esse título. Não era, pois, justo que os seguidores de outros profetas e apóstolos negassem sua profecia. Podia ser o último, mas era apóstolo. E Paulo não era orgulhoso nem vaidoso. Era justo consigo e com os outros. Nem sempre a pessoa de quem discordamos ou que de nós discorda é orgulhosa ou vaidosa. É bom consultar nossa vaidade ferida.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

UM TESTE PARA VOCÊ:

É do espírito miúdo e da mente pequena do amplamente distribuído homem raso a afronta e o desrespeito àquilo que ele jamais irá compreender daí e, portanto, jamais admitir. É que a paisagem do futuro é por demais ampla para seus olhos estreitos e enlameados com o medo, a mediocridade e o egoísmo e; sua cabeça, sempre arreada, jamais irá alinhar-se aos profundos do horizonte; as luzes de um amanhã pleno são por demais incandescentes aos acostumados ao turvo de buracos ou cavernas existenciais.

Testem vocês! Tentem fazer algo de incomum! Já de partida serão classificados como loucos, insanos ou perturbados; tentem, por exemplo, alimentar os que tem fome; dar fim ao analfabetismo da gente pobre da comunidade ou quem sabe; garantir um pão com margarina mais uma xícara de café com leite às crianças? Já afirmo que um batalhão de inimigos irá se erguer contra você e seu sonho impossível.

Finque o pé na história e sem titubeio, trave uma batalha, por exemplo, por saúde pública, universal e de qualidade excelente; reúna a cidade e diga que ninguém, nenhum de nós, pode viver sem moradia digna e decente ou; defenda abertamente que idosos não são lixos ou refugos humanos e que devem ser integralmente respeitados por todos; sabe o que essas grandes causas podem lhe causar? Estou certo de que será taxado de populista, demagogo, arruaceiro, provocador, agitador, esquerdista, comunista ou subversivo.

Se você ousar tratar de temas absurdos e inadmissíveis como educação e saúde; moradia e transporte público para a população; trabalho e renda digna para todos; meio ambiente e qualidade de vida para a cidade você será acusado, julgado, preso, humilhado, isolado e submetido até aprender a respeitar a lei e a ordem.

E a infâmia dos acusadores correrá livre e veloz de boca em boca, de ouvido em ouvido até você, meu bom atrevido, ser convertido em um indivíduo da mais alta periculosidade, afinal, já sabemos, é a segurança nacional que está em jogo; são os alicerces de nossa democracia que estão sendo usurpados por um alguém feito você. E as pessoas de bem? E as famílias? E a grande confraria dos irmãos de José? E as digníssimas senhoras que promovem o chá beneficente para o orfanato do menino Jesus? Como ficam?

Onde já se viu? E a associação dos filhos de Maria? E a festa da cidade que homenageia o empresário do ano? E o baile das debutantes? Você com suas lutas e exigências absurdas... Quer o quê? Aparecer? Quer revolucionar? Vai alterar nossas tradições, nossos hábitos sociais?

Quer ser um novo Fidel Castro? Que absurdo completo... Acho que não, né!?