quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

DEUS ENVELHECE?

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Há perguntas instigantes e desafiadores ao pensamento. Uma delas é essa que dá título ao texto. É pretensão querer saber o que se passa no mundo do além, no mundo onde os sentidos não alcançam e nossa razão se retira em silêncio. Contudo, é possível dizer algo que faça sentido a essa pergunta desde a perspectiva da fé e da revelação bíblicas.

É senso comum dizer que Deus é autor de tudo, anterior a tudo, ao tempo e ao espaço e que, portanto, não está submetido à decadência ou a mudanças típicas de todo ente empírico, sobretudo, à velhice e morte. Quem poderá contestar essa ideia? Admitir o envelhecimento e a morte de Deus seria subverter a ideia mesma de Deus que porta em si os qualificativos de eternidade, imortalidade e imutabilidade. Mas, e se mudarmos a direção e perguntarmos: a ideia e imagem que construímos de Deus, envelhecem e morrem? Ai a pergunta fará todo sentido e não haverá heresia alguma em afirmar que sim. É o que nos atesta a evolução bíblica da ideia de Deus muito bem expressa no livro “As etapas pré-cristãs da descoberta de Deus” (Juan Luis Segundo, Vozes, 1968).

Luis Segundo esposa uma concepção evolutiva da descoberta de Deus que se dá em cinco fases e se configura em cinco imagens de Deus.

A primeira imagem é do Deus poderoso, terrível, e temível. Um Deus para ser temido, mais do que para ser amado. Um Deus que exige sacrifícios, rituais de purificação e intermediários que administrem a relação ritual com Deus, para lhe aplacar a ira ou para lhe conseguir favores. É a infância da fé no Deus único e que, apesar de ser uma imagem de Deus superada no interior da evolução bíblica, ainda continua a fazer estrago na vida de muitos homens e mulheres de fé e na religiosidade popular.

A segunda imagem de Deus bíblico é o Deus da Aliança, o Deus de um povo, no caso, os Hebreus. É a descoberta de um Deus próximo, que quer o bem do seu povo e o quer livre da escravidão que o diminui e o explora. É um Deus fiel, ciumento, que não admite outros deuses e condena a idolatria e os ritualismos vazios e mágicos. É o Deus da relação mediada pelo coletivo, pelo pertencimento a um grupo, a um povo, à comunidade que justifica uma postura de os de “dentro” e os de “fora”, nós, os “bons” e, eles, os “maus”. Uma imagem evoluída em relação à primeira, mas ainda insuficiente, pelas armadilhas típicas dos deuses nacionalistas e particularistas.

A terceira imagem é o Deus da criação. Nessa fase Deus evolui para um Deus universal, transcendente e Senhor do céu e da terra e tudo o que ela encerra. É o Deus metafísico, o Deus abstrato, o Deus “de tudo e de todos”. O Deus criador e transcendente é uma evolução da ideia de Deus e uma evolução de auto compreensão humana de que somos uma família, um irmão dos outros, pois somos filhos de um único e mesmo Deus. A sua transcendência absoluta, contudo, o torna um ser da razão, mais do que um ser do coração e da experiência do mundo da vida.

A quarta imagem de Deus avança um passo e afirma que Deus é criador de tudo, todavia, não do mal, pois ele é bom e tudo o que ele cria é bom e destinado ao bem. Ao humano cabe, também, ser bom e justo e se afastar do mal e das injustiças, dos apegos egoísticos e dos poderes desse mundo, próprio dos insensatos. É o Deus moral, como dizia Nietzsche.

E, finalmente, a quinta imagem de Deus é o Deus de Jesus Cristo. É o Deus, não mais da justiça e da moral, mas do amor e da misericórdia, como, exaustivamente, nos recorda o Papa Francisco. O Deus do amor e da misericórdia é o Deus mais adulto e evoluído em direção à verdadeira face de Deus e à verdadeira e melhor relação que podemos ter com o outro e com o Outro, que damos o nome de Deus. Amar e ser amado, na liberdade, é o que de mais alto podemos almejar de nós mesmos e o que de melhor podemos almejar e dizer de Deus.

O deus mercado, o deus da retribuição, o deus distante e afastado do mundo, o deus poderoso e milagreiro, o deus do medo e da moral é um deus envelhecido que precisa morrer para ressuscitar em nós, nesse natal, o Deus de Jesus Cristo: o Deus amor!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CONSUMISMO DE NATAL

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O Natal se aproxima. Com ele, a ansiosa preocupação com a lista de presentes. Em muitos círculos familiares e corporativos se torna quase uma obrigação dar presentes, até mesmo para quem não se conhece ou se nutre antipatia. Há inclusive quem dá presente para não se fazer presente.

Presente compulsório amarga o Natal. É pagar pedágio para prosseguir na estrada da indiferença. E “amigo oculto” é uma loteria de afetos. Oculto é, por vezes, o desafeto que se tem para com o sorteado.

Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente seu caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, que simboliza o fetiche da mercadoria.

O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista nos afasta da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite, reduz-se ao galeto das celebrações, às oito ou nove da noite, driblando a madrugada que favorece a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes parecem falar mais alto que os bons e velhos costumes: a oração em família, os cânticos litúrgicos, as narrativas bíblicas e a memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judeia.

O Natal nasceu como uma festa religiosa. É a apropriação cristã de ritos pagãos de celebração da mudança de ciclos da natureza. Marca a comemoração do nascimento de Jesus, cuja data exata se desconhece. Porém, fatores meteorológicos conveniaram a data de 25 de dezembro.

A tradição de troca de presentes é atribuída a vários santos que teriam o hábito de distribuir presentes às crianças pobres: são Nicolau, são Basílio de Cesareia etc. Hoje, poucos se lembram dos excluídos na festa de Natal.

São Francisco de Assis criou, no século XIII, o presépio. O nascimento de uma criança em um curral, filha de uma família sem teto, virou um bucólico cenário que encobre o fato histórico – José e Maria, rejeitados em Belém, ocuparam uma cocheira premidos pela proximidade do parto.

Em uma Comunidade Eclesial de Base da periferia de São Paulo, a leitura do relato evangélico levou dona Lídia ao seguinte comentário: “No dia seguinte, o jornal ‘Diário de Belém’ deu a notícia: família de sem teto invade sítio nas proximidades da cidade.”

Hoje a festa religiosa é ofuscada pela figura lendária de Papai Noel. O velho gorducho foi popularizado, a partir de 1822, pelo poema “Uma visita de São Nicolau”, que Clemente Clark Moore escreveu, em Nova York, para seus filhos. Os trajes e o gorro eram verdes. Em 1863, o cartunista Thomas Nast, da “Harper’s Weeklys”, o desenhou em traje vermelho, incorporado, a partir do início do século XX, à propaganda de bebidas não alcoólicas, como a Coca-Cola.

O sentido cristão do Natal é escanteado pela apropriação consumista de Papai Noel. A presença cede lugar ao presente; a Missa do Galo à mesa na qual impera o peru; a oração ao espocar das rolhas etílicas.

Na boca do coração, o gosto de mel se transubstancia em fel quando a festa se resume a desatar fitas coloridas, abrir presentes e se empanturrar de comidas e bebidas. De algum modo sabemos que sonegamos o significado mais profundo da festa.

O que sucedeu em Belém supera todas as expectativas: Deus irrompeu na história humana! Não veio como um Messias triunfante cercado pelo cortejo de anjos. Entrou pela porta dos fundos.

Filho de um remediado carpinteiro e uma pobre camponesa, o Menino logo se irmanou às gerações de refugiados ao se exilar no Egito para escapar à sanha repressiva do rei Herodes.

Toda a vida de Jesus consistiu em semear as bases de um novo projeto civilizatório que se resume, nas relações pessoais, à predominância do amor e da compaixão; e nas relações sociais, à partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. Esta a proposta do Reino de Deus, oposto ao de César.

Tal ousadia subversiva resultou-lhe em prisão, tortura e morte na cruz. No entanto, sua ressurreição atesta que a vida supera a morte. É essa esperança que nos move para que, um dia, a paz prevaleça como fruto da justiça.

Celebrar o Natal é, portanto, partilhar com outras pessoas, em especial as necessitadas, nossos talentos, aptidões, recursos e bens, para que vivam com dignidade. É ousar fazer nascer o novo nessa velha ordem social marcada pelo preconceito e pela exclusão.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

É VERÃO!

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Para os que vivemos em regiões subtropicais nas quais as quatro estações são marcadamente identificadas, o verão é assustadoramente revelador. Depois do friorento inverno em que nos ocultamos sob espessas camadas de roupas e da indecisa primavera onde, por salutar precaução, hesitamos em manter ou não manter a proteção, finalmente, com o subir dos números do mostrador termométrico, paulatinamente e sem retorno, vamos libertando nosso corpo do peso de meias, sapatos, botas, camisas de manga longa, blusas, casacos, mantas, cachecóis, sobretudos, toucas, chapéus e outros adereços que protegem e, ao mesmo tempo, ocultam nosso corpo.

E é nesse momento que aparecem as assustadoras revelações. O que estava escondido é inexoravelmente mostrado. Dobras, saliências, reentrâncias e protuberâncias corporais que, quando em sua dimensão natural são esteticamente aprazíveis, com o acúmulo hibernal de calorias, carboidratos e lipídios, ganham ares de deformação e teimam em fazer sua aparição nas zonas do corpo que os chinelos, camisetas e bermudas, por mais amplas, folgadas e esticadas que sejam, não conseguem esconder.

Tempo terrível e revelador o do verão! Ainda mais numa época como a nossa em que a obesidade tornou-se uma verdadeira epidemia que preocupa não só aos que vivemos no sobrepeso beirando a obesidade. A Organização Mundial da Saúde, entre outros organismos internacionais, bem como autoridades responsáveis pelo bem estar da população dos principais países do mundo, estão preocupadas com esse grave problema de saúde pública que tem como fatores principais o sedentarismo e o consumo de alimentos ultra processados.

Para nosso consolo e salvação, as autoridades brasileiras não  se omitem e tomam as medidas necessárias para que a obesidade seja vencida e assim possamos retomar a felicidade de ter um corpo que, mesmo que não chegue às dimensões de uma “Garota de Ipanema”, pelo menos possa ser exibido sem temor tanto na praia como na cidade.

Mesmo que muitos, por cegueira ou preconceito ideológico, não o queiram reconhecer, o aumento semanal do preço dos combustíveis praticado pela Petrobrás a partir da nova política de mercado, fará com que os brasileiros e brasileiras abandonem o mau hábito de andar de carro, de ônibus e de trem e passem a se deslocar a pé pelas ruas das cidades e pelas estradas do campo. Outra medida ainda não tomada, mas já em estudos avançados, é a de suspender o transporte escolar para estudantes do interior dos municípios e a meia passagem para as crianças, adolescentes e jovens das cidades. Com isso se atacaria o problema em seus primeiros anos de desenvolvimento que é a obesidade infanto-juvenil e suas terríveis consequências como o diabetes infantil. Autoridades com uma visão mais radical propõe também que se suprima o passe livre no transporte coletivo urbano para a terceira idade. Assim se evitaria a obesidade senil e suas terríveis consequências para as pessoas que já passaram dos 65 anos.

Mas a medida mais radical e necessária já foi tomada e começa a surtir efeito para a felicidade geral de todos os que tememos o verão. O aumento do preço do gás de cozinha em quase 100% está fazendo com que as famílias brasileiras tenham que optar entre comprar gás ou comprar comida. Segundo os estudiosos da saúde pública que subsidiam as autoridades econômicas do Brasil, qualquer uma das opções terá efeitos positivos. Se o pai ou mãe de família optar por comprar gás, não poderá comprar comida e assim não haverá risco de que os filhos comam em demasia e engordem. Se optar por comprar comida, não terá gás para cozinhar e assim os alimentos serão consumidos em sua forma natural, o que é muito mais saudável.

Por isso, brasileiros e brasileiras, nada de temer o verão e nem de temer o Temer. Mais alguns anos de saudáveis políticas econômicas neoliberais e todos estaremos livres e tranquilos quando o verão chegar para exibirmos nossos corpos sem qualquer acumulação indevida. Bom verão a todos e todas!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

SENTIMENTO DE CULPA.

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O sentimento de culpa é próprio do ser humano. Nenhum outro ser vive essa experiência. Em muitas situações o sentimento de culpabilidade está associado à prática religiosa. Os conteúdos religiosos são elementos legisladores e normativos da vida humana. Dessa forma, há uma intrínseca relação entre os conteúdos e a prática religiosa com a culpa.

Os conteúdos religiosos, na sua maioria configurados pela Teologia, são de orientação espiritual, moral e social das pessoas. Crer em Deus procura responder às finitudes e limitações da vida humana. No caso da cultura religiosa monoteísta representada no povo de Israel, formula reflexão identificando Deus como um ser fiel, perfeito e exigente na justiça, que pune a iniquidade e a infidelidade humana. No início do cristianismo os Santos Padres constituíram as verdades da fé com base num Deus onisciente, onipotente e onipresente. O desdobramento desta teologia afirma a centralidade do Verbo encarnado, Jesus Cristo, misericordioso com a condição humana.

Contudo, na história do cristianismo e da teologia os conceitos de Deus são amplos. Com efeito, os textos sagrados permitem a configuração de muitas imagens de Deus. Historicamente, nestes conceitos e compreensões o Deus dos cristãos é definido por traços masculinos como ser Absoluto, legislador da ordem universal e humana. Como consequência lógica decorrente desta experiência e de compreensão teológica, Deus foi associado ao castigo, condenação, temor, medo. Na compreensão da maioria dos cristãos é a maneira que Deus reina nesta vida humana.

Santo Agostinho (354/430) de Hipona, um dos principais teólogos da Igreja, que viveu no período que o império de Roma entrava em decadência, o cristianismo tornava-se a religião oficial e imperadores se convertiam com suas ambições políticas e religiosas, em muito colaborou com a doutrina cristã. Suas obras continuam sendo objeto de estudo e de debate, como A Cidade de Deus, Livre-Arbítrio, Confissões. A obra A Cidade de Deus disserta sobre o mundo dos homens e o mundo dos céus; Confissões é um relato de sua própria conversão, e Livre-Arbítrio aborda a questão da consciência e verdade interior do ser humano. Em suma, o pensamento de Santo Agostinho em contexto de heresias e de tensões políticas e religiosas constitui-se o referencial teológico e de experiência cristã.

Por esse caminho as teologias contextuais dos séculos XX e XXI, como a da libertação e a feminina, procuram contribuir pela compreensão de Deus. A Teologia da Libertação busca compreender Deus a partir do contexto do pobre. A Teologia Feminista, a partir da experiência das mulheres, suspeitados conceitos metafísicos, transcendentais e abstratos de Deus. Questiona os conceitos de Deus formulados pela teologia tradicional de um Ser severo que pune, castiga, condena. Pois, como consequência desta compreensão o pecado tornou-se objeto de pregação e doutrinação religiosa e moral. Este conceito de Deus pela pregação tornou-se um solo fértil para sentimento de culpa no coração dos crentes, devido a algo não cumprido segundo os conteúdos da fé.

Em contexto latino essa concepção de Deus constituiu-se tormento e sofrimento de muitos fiéis empobrecidos, sobretudo de um sentimento de culpa subjetiva. Segundo a teóloga Ivone Gebara, este sentimento de culpa tornou-se o motor da manutenção de uma ordem social injusta, onde os legisladores da vida humana, os homens, são os representantes de Deus. A superação do sentimento de culpabilidade, muito presente sobretudo nas mulheres, será mediante uma revolução antropológica. Em outras palavras, uma tarefa das teologias contextuais que rompem com os conceitos de Deus associados às classes dominantes e ideologicamente responsáveis pela submissão dos pobres e pelo sentimento de culpa.

domingo, 10 de dezembro de 2017

A QUE SE PARECE O REINO DE DEUS.

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Impressiona-me o fato de que cada vez menos escrevo sobre a conjuntura do país e do mundo. Será talvez porque não contêm esses relatórios de desgraças que ouço todo dia na mídia e leio nos jornais e nas redes sociais nenhuma fonte de inspiração. Atiram para baixo, desestimulam, não são geradores de criatividade e entusiasmo.

Comentar novamente as roubalheiras, as prisões preventivas, as denúncias, os três poderes se engalfinhando? Não há mais desejo nem forças. A corrupção atinge até mesmo a afetividade, aquele nível da identidade pessoal onde nascem e brotam as ideias, as intuições, as novidades, as emoções.

Por isso, volto-me para o Evangelho, boa notícia, fonte perene de inspiração. E procuro escutar Jesus de Nazaré, o poeta do Reino de Deus. E ouço-o perguntar: a que se parece o Reino de Deus? Ponho toda a atenção em suas metáforas. O Reino de Deus se parece ao fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha, e toda a massa ficou fermentada. O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra. Noite e dia, estando ele dormindo ou acordado, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como.

O Reino de Deus é como as crianças inocentes e alegres que vinham até Jesus, desobedecendo aos discípulos que queriam tirá-las dali. É como a viúva que depositou para oferta no Templo tudo que tinha para viver. É como o pai que tinha dois filhos e preparou uma festa cheia de vinho, comida e alegria para receber de volta o mais novo, que havia saído de casa e dilapidado todos os seus bens.

O Reino de Deus é como as pessoas, homens, mulheres e crianças. E é como a terra que silenciosamente faz seu trabalho quando todos dormem, elaborando a germinação da vida. O Reino não deve ser procurado aqui e ali, pois já está no meio de nós. Por quê? Porque nós o construímos. Porque nós o testemunhamos.

Essa reflexão brota quando entramos no tempo do Advento, da espera, da esperança que vai se depositar inteiramente em um menino nascido de mulher que andará pelo mundo como o Reino de Deus em pessoa. Esse menino, parecido com todos os meninos, fará sinais, dirá palavras, contará parábolas que falarão sobre o que é o Reino de Deus.

O grande escritor português José Saramago tinha um avô que também era capaz de fazer sentir a proximidade do Reino de Deus com suas histórias e relatos. O avô de Saramago não tinha fé nem religião. Era analfabeto, pobre e camponês. Criava porcos em uma aldeia do Ribatejo. E, no entanto, seu neto escritor, que ganhou o prêmio Nobel, o identifica como “esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.“

O Reino de Deus é o universo em movimento, fiel à sua identidade de ser morada da vida. Por isso, Jesus diz que ele é como a mulher que leveda a massa e cozinha o pão, como o homem que semeia a terra para que haja colheita e alimento, como o pai que perdoa o filho que se comportou mal porque o ama e a casa estava vazia sem sua presença. É como a mãe terra, cujo útero se revolve incessantemente, fazendo germinar a semente, crescer o broto, acolher as raízes e levantar as árvores.

O mundo é a morada de Deus e todo aquele que nele habita e não bloqueia seu movimento é artífice do Reino que pode acontecer em seu seio. Por isso, nesses tempos sombrios, de desesperança, de horizontes curtos, ética em vias de extinção, importa descobrir as palavras que podem pôr o universo em movimento. Ou os gestos que fazem de ossos secos pessoas com músculos e carne, cheias de vida e forças. Ou os segredos não totalmente desvendados que dizem respeito à vida e suas fontes.

O Reino de Deus hoje, nesse início de Advento, para aqueles e aquelas que teimamos em acreditar na criança que há de vir, já está presente. A que se parece? À beleza do mundo, ao encanto das palavras, à alegria ruidosa das crianças. E pode ser acionado e visibilizado pela poesia, pelos relatos, pelas brincadeiras e jogos gratuitos, pelos beijos e abraços, pelos gestos de carinho.

O Reino de Deus se parece à humanidade que o próprio Deus assumiu em Jesus e sua Encarnação. Iniciando o tempo litúrgico que prepara para o Natal, sinto que se não vemos o Reino acontecendo é porque estamos consentindo em que nossa humanidade seja roubada e vilipendiada.

Sejamos humanos, apenas humanos, como os personagens da infância de Saramago, que tinham pena de morrer porque o mundo era tão bonito e por isso reverenciavam a vida até mesmo dos filhotes de porquinhos que criavam. Sejamos apenas humanos, sabendo abrir os sentidos e o coração a todas as formas de amor, desde a justiça até o êxtase.

Ser humano é tarefa difícil, embora simples. Aprender com as crianças ainda é o melhor caminho. Aprender com essa Criança tão esperada que é ela mesma um relato de salvação é um desafio ao mesmo tempo profundo e belo.

sábado, 9 de dezembro de 2017

MAUS HÁBITOS

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O filme é antigo. Em português ganhou o título de “Maus hábitos”. Foi o primeiro rodado por Pedro Almodóvar em um estúdio e com uma equipe profissional. Era o ano de 1983. A Espanha ainda vivia a transição do franquismo para o regime democrático. A liberdade de expressão era uma novidade e o genial cineasta surge em meio à movida madrileñaatacando um dos pilares da ditadura que governara o país ibérico desde a década de 1930 através do terror e da formação das consciências dentro de uma rígida moral católica tradicionalista.

O argumento do filme, no original intitulado “Entre tinieblas”, é simples: uma cantora de cabaré, Yolanda Bel, leva uma vida desregrada, regada a drogas e sexo, até o dia em que presencia a morte de seu namorado por overdose. Para fugir da polícia que a busca por tráfico, Yolanda se refugia num mosteiro de religiosas. Para estranheza da fugitiva, todas as irmãs do convento haviam sido prostitutas, cafetinas, viciadas, criminosas ou duas ou mais destas coisas ao mesmo tempo...

A Congregação da qual o convento faz parte é a das “Redentoras Humilhadas”. Para indicar a missão, todas elas abandonam seus antigos nomes e adotam nomes que indicam sua condição pecadora. Seu objetivo é resgatar jovens mulheres que vivem no pecado. Aos poucos, e para surpresa sua, Yolanda descobre que as irmãs, no afã de extirpar os vícios das jovens mulheres da sociedade madrilena, elas mesmas continuavam vítimas dos vícios que condenavam nas outras. A tensão gerada pelo afã da dura missão fazia com que, cada uma delas encontrasse nos vícios que pretendia combater uma válvula de escape para tornar a vida na clausura mais suportável.

Assim, a Madre Superiora, que se dedica a acolher as jovens que, como Yolanda, eram presas pela prostituição, ela mesma acabava criando jogos de sedução e prazer sexual com as novatas que chegam ao convento. Irmã Perdida, por sua vez, que tem como preocupação acolher as dependentes de drogas, faz do consumo do LSD um caminho para supostas para experiências espirituais que, na verdade, são experiências químicas. Irmã Ratazana de Esgoto e Irmã Víbora, recuperadoras de mulheres que vivem a frívola vida da ascendente burguesia espanhola impulsionada pela retomada econômica da Europa, têm como passatempo, a primeira, escrever, sob pseudônimo, livros sensacionalistas e, a segunda, criar roupas vanguardistas para os santos da capela do convento.

O roteiro do filme avança com a complexidade das tramas típicas de Pedro Almodóvar que levariam a clássicos como “Carne Trêmula” (1997), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale com Ela” (2002), “Má Educação” (2004) e o insuperável “Volver” (2006). Ah! E não podia de deixar de mencionar “A Pele que Habito” (2011).

Mas voltemos a “Entre Tinieblas/Maus Hábitos”. Lembrei deste filme ontem, quando vi, estupefato, na televisão, a imagem das três equipes da Força Tarefa da Lava Jato reunidas no Rio de Janeiro para preparar o Combate Final (sic!) contra a corrupção no Brasil. Combate que, segundo o porta voz das equipes, o impagável Profeta-do-Apocalipse-do-Power-Point-das-Bolinhas-Azuis, terá que ser assestado antes das eleições de 2018. A televisão, numa mise em scènetípica de um filme de segunda categoria, ia focando um a um os personagens da insólita reunião. A medida que os rostos iam aparecendo em close up, não tive como não lembrar da Madre Superiora, da Irmã Perdida, da Irmã Ratazana de Esgoto e da Irmã Víbora e sua tentativa de livrar o mundo dos vícios.

E, como a fugitiva Yolanda, me perguntei: será que, para acabar com a corrupção, teremos que nos tornar tão corruptos quanto aqueles que queremos combater? Só a genialidade de uma trama de Almodóvar para nos conduzir na busca de uma saída para o
labirinto de trevas em que nossos maus hábitos nos colocaram.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O INTENTO DE RECOLONIZAR O BRASIL

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A colonização, especilmente, a escravidão, não constituem apenas etapas passadas da história. Suas consequências (Wirkunsgeschichte) perduram até os dias de hoje. A prova clara é a dominação e a marginalização das populações, um dia colonizadas e escravizadas, baseadas na dialética da superioridade-inferioridade, nas discriminações por causa da cor da pele, no desprezo e até no ódio do pobre, considerado preguiçoso e um zero econômico.

Não basta a descolonização política. A recolonização resurge na forma do capitalismo econômico, liderado por capitalistas neoliberais nacionais, articulados com os transnacionais. A lógica que rege as práticas da recolonização é tirar o máxmo proveito do extrativismo dos bens e serviços naturais e pela exploração da força de trabalho mal paga e, quando possível, como está ocorrendo escandalosamente no Brasil, pela redução dos direitos individuais e sociais.

Os primeiros a verem claro a recolonização foram Frantz Fanon da Argélia e Aimé Césaire do Haiti, ambos comprometidos com a libertação de seus povos. Propuseram um corajoso processo de descolonização para liberar a “história que foi roubada” pelos dominadores e que agora pode ser recontada e reconstruída pelo próprio povo.

No entanto, trava-se um duro embate por parte daqueles que querem prolongar a nova forma de colonização e de escravidão, criando obstáculos de toda ordem para aqueles que buscam fazer uma história soberana na base de seus valores culturais e de suas identidades étnicas.

Césaire cunhou a palavra “negritude” para expressar duas dimensões: uma, da continuada opressão contra os negros e outra, de uma resistência persistente e de uma luta obstinada contra todo tipo de discriminação. A “negritude” é a palavra-força que inspira a luta pelo resgate da própria identidade e pelo direito das diferenças. Césaire criticou duramente a civiização européia por sua vil cobiça de invadir, ocupar e roubar riquezas dos outros, espiritualmente indefensável por ter difundido a discriminação e o ódio racial, embrutecendo e degradando os povos colonizados e escravizados inculcando-lhes a impressão de que não são gente e não possuem dignidade.

Paralelamente ao conceito de “negritude” criou-se o de “colonialidade” pelo cientista social peruano Anibal Quitano(1992). Por ela quer-se expressar os padrões que os países centrais e o próprio capitalismo globalizado impõem aos países periféricos: o mesmo tipo de relação predatória da natureza, as formas de acumulação e de consumo, os estilos de vida e os mesmos imaginários produzidos pela máquina mediática e pelo cinema. Desta forma continua a lógica do encobrimento do outro, do roubo de sua história e a destruição das bases para a criação de um processo nacional soberano. O Norte global está impondo a colonialidade em todos os países, obrigando-os a alinhar-se às lógicas do império.

O neoliberalismo radical que está imperando na América Latina e agora de forma cruel no Brasil é a concretização da colonialidade. O poder mundial, seja dos Estados hegemônicos seja das grandes corporaçãoes querem reconduzir toda a América Latina, no caso o Brasil, à situação de colônia. É a recolonização como projeto da nova geopolítica mundial.

O golpe que foi dado no Brasil em 2016 se situa exatamente neste contexto: trata-se de solapar um caminho autônomo, entregar a riqueza social e natural, acumulada em gerações, às grandes corporações. Faz-se pelas privatizações de nossos bens maiores: o pré-sal, as hidrelétricas, eventualmente os Correios, o BNDS e o Banco do Brasil. Freia-se o processo de industrialização para dependermos das tecnologias vindas de fora. A função que nos é imposta é o de sermos grandes exportadores de commodities, já que os países centrais não os têm para o seu consumo perdulário.

Nomes notáveis da ecologia, articulada com a ecologia como Ladislau Dowbor e Jeffrey Sachs, entre outros, nos alertam que o sistema-Terra chegou ao seu limite (a Sobrecarga da Terra) e não suporta um projeto com tal nivel de agressão social e ecológica.

Ora, esse modelo, para nossa desgraça, é assumido pelo atual governo corrupto e totalmente descolado do povo, de um neoliberalismo radical que implica o desmonte da nação. Daí o dever cívico e patriótico de derrotarmos estas elites do atraso, anti-povo e anti-nacionais, que assumiram esta aventura, que poderá não ser mais suportável pelo povo. Tudo tem limites. Há de surgir uma consciência patriótica na forma de uma generalizada rejeição social. Uma vez ultrapassados esses limites, dificilmente evitaríamos o inominável.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

HUMANOS...


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Tenho prazer em pensar perguntas sem respostas que sejam definitivas. É a mania dos filósofos, perguntar, lá onde o senso comum não vê problema algum. Os teólogos também fazem perguntas essenciais, mas eles sempre são socorridos pelo além, pela revelação que vem de fora. O filósofo não. O filósofo está no limite da razão. No máximo pode ter intuições e inspirações humanas, demasiadas humanas, mas nunca divinas. O que lhe é limite é, contudo, sua grandeza. Falar a partir do não absoluto é libertador, pois é com menos pretensão e responsabilidade nas costas. Pensar livremente, eis a primeira tentativa de dizer o que nos faz humanos, que remete a uma segunda.

Errar também nos faz humanos. Os animais não humanos não erram. Os animais não humanos são perfeitos e estão mais próximos de Deus do que dos humanos. Os humanos não, os humanos erramos. Erramos episteme e moralmente. Erramos na emissão de opiniões e erramos quando pretendemos conhecer, inclusive cientificamente. O que faz o avanço da ciência não é o conhecer comprovado, mas o erro e a falseabilidade que torna todo conhecimento, sempre provisório. Erramos moralmente. E como erramos moralmente! E é humano que assim seja. Os que se acham bons são, a bem da verdade, risíveis. Eu rio dos que se dizem do “bem”, “nós do bem” etc. São dignos de pena os que se dizem “do bem”. Falta-lhe humildade, que é o que nos faz, verdadeiramente, humanos, pois viemos do “húmus”.

Rir é outra coisa que nos torna humanos. O humano é o único animal que ri. Rir nos faz humanos, porque rir é uma faculdade do espírito. O animal não humano não ri. Ele é perfeito. Nada lhe falta e nada há de sobra nele. Em nós não. No humano o espírito nos torna livres, mas a liberdade instaura em nós a falha, o erro, o tropeço. E no tropeço, o riso. O palhaço é o que erra e no erro nós rimos. O palhaço está aí para nos recordar que somos humanos, falhos e contra a lógica. O riso é o tropeço na lógica.

O riso é também a nossa salvação. O bom humor nos salva. Humanos sérios demais, os executivos do mercado, ou os pragmáticos sisudos, são sobretudo, inumanos. Eles se acham, mas são uns robôs...Rir é a salvação. Rir, inclusive, dos que desferrem golpes querendo tirar o nosso bom humor...Imagine alguém querendo se enforcar. Se no ato de dar um chute na escada, para que o peso livre do corpo pressione a corda e o nó o sufoque, se nesse ato ele conseguir rir do que está fazendo, então, estará salvo...! Rir é o princípio da vida. Não leve a vida tão a sério, ria!

O que mais nos define como humanos? O pensamento? Mas animais também pensam? A linguagem? Mas animais não humanos também se comunicam. A sociabilidade e a politicidade? Mas animais também convivem e organizam a convivência. A moral e a religião? Os animais são até melhores do que nós na empatia, na ajuda e amor ao próximo...Religião? Haverá melhor religião do que fazer o que tem que ser feito? E os animais fazem com, perfeição, tudo o que fazem. Não seria isso um ato religioso de religamento com o ser primordial? Observe o voo de um pássaro ou a corrida de um leopardo, perfeição! Os animais são religiosos, sem hipocrisia...

O que nos define essencialmente? Não há resposta que seja definitiva para essa pergunta. Heidegger fala “no aberto’, na condição de criadores de si e de mundos. A pedra não tem mundo, o animal é pobre de mundo. O homem, diz Heidegger, é criador de mundos. Eu concordo com ele. A pergunta que fica no ar é: em que mundo você vive? O mundo em que vivemos é criação e responsabilidade nossa. Se não há satisfação nele, revolta-se! Se há satisfação, então desfrute. Ambos com moderação...!