domingo, 31 de dezembro de 2017

ANO NOVO VIDA NOVA


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Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.

sábado, 30 de dezembro de 2017

PLANOS E PROJÉTOS

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Fim de ano é tempo de propósitos e planos. Tem o fulano que decide parar de fumar. Já o sicrano jura que vai largar sua vida sedentária e incorporar nos seus hábitos uma caminhada diária. O beltrano garante que vai parar de comprar no cartão de crédito. Este afirma com certeza que não vai faltar à missa nos domingos. Já aquele promete que trabalhará um pouco menos para passar mais tempo com os filhos. Cada um com seu propósito. Geralmente muito delimitado e, em princípio, exequível, de curto prazo e mensurável. Quantos conseguirão? A experiência diz que muito poucas pessoas conseguem, de fato, realizar seus propósitos de final de ano... E não é de estranhar. É da própria natureza do propósito que se fundamenta mais na emoção que na razão. Provavelmente os mesmos propósitos serão refeitos no próximo final de ano para não serem executados outra vez.

E há os que fazem planos. Estes pensam a mais longoprazo e se perguntam: o que quero para o final do próximo ano? Onde e como quero estar? Elaborar planos é uma tarefa mais lenta e mais difícil e que vai para além de um final de ano. E mais: os resultados de um plano são, no imediato, menos delimitáveis e tangíveis. Fazer um plano implica em mais trabalho. Estabelecer uma meta, estratégias, atividades, recursos... Muito mais difícil. Por isso menos gente faz planos. Mas, sem que isso seja contraditório, proporcionalmente, quem faz planos tem mais possibilidade de êxito do que quem faz propósitos. O planejador é menos emocional, menos volúvel e mais persistente.

Mas existe um passo que vai além de propósitos e planos. Existem os projetos. E estes ultrapassam a dimensão dos propósitos e dos planos. Um projeto sempre é de longo prazo. Ultrapassa os limites do calendário anual e implica uma decisão de vida. Não se pergunta por onde e como quero estar no final do próximo ano. O projeto exige pensar onde e como quero estar no final desta vida. Ele exige a combinação de diferentes planos convergentes com o fim estabelecido.

Claro: a execução de um projeto implica na elaboração de planos com a sua racionalidade que por sua vez começa sua implementação com um propósito que só se realiza com a emocionalidade. Um não descarta o outro. Pelo contrário. Exige uma combinação.

Comecei a rabiscar estas reflexões a partir de duas situações que me preocupam. A primeira é a que me ponho como cidadão brasileiro. Depois do 2017 que tivemos e das falas de final de ano das autoridades – executivas, legislativas e judiciárias – tanto no nível federal, como estadual e municipal, a pergunta que me vem é: qual é o projeto que rege os planos e propósitos para o próximo ano? Enquanto cidadãos desta terra brasilis, teremos, no próximo ano, que viver de propósitos ou é possível ter planos e projetos?

A outra preocupação é a que me ponho como cristão, membro da Igreja Católica Romana e profissional do ensino teológico. Depois de um 2017 em que a oposição ao Papa Francisco apareceu de forma articulada e agressiva, é possível sonhar com um projeto de uma “Igreja em saída” para as periferias sociais e existenciais ou teremos que nos contentar com planos e propósitos de curto prazo? Acontecerá com a primavera do Papa Francisco o mesmo que aconteceu com a primavera do Papa João XXIII? Além dos propósitos que se movem pela emoção, há um plano e um projeto de real e radical transformação eclesial?

São preocupações que levo comigo para estes últimos dias de 2017 e espero possamos juntos pensá-las em 2018 e por muito tempo mais.

Feliz Ano Novo

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O ANO PASSOU MUITO RAPIDO

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A sensação é sempre a mesma: o ano passou muito rápido! As expressões se repetem e são sintetizadas num mesmo chavão: ‘não vi esse ano passar’. Para além das percepções e constatações individuais e coletivas, é necessário recordar que as horas continuam tendo a mesma quantidade de minutos, os segundos seguem intocáveis, os dias da semana não sofreram alteração numérica. O tempo é simplesmente implacável: ele passa. Sua função é ir adiante, sem jamais estacionar ou retroceder. O interessante é dar-se conta de que o tempo não se pertence. Pelo contrário, ele se doa gratuitamente e de forma justa. Todos os humanos, independente de localização geográfica, têm a mesma quantidade de tempo.O que difere é que alguns têm mais horas de claridade e outros um pouco mais de escuridão, em determinadas épocas do ano.

O segredo parece residir na qualificação do tempo: o modo como cada um dispõe e distribui suas horas, seus minutos, seus segundos interferem diretamente na realização de seus sonhos. Não se trata de viver com agenda lotada, nem de esbanjar o ócio, mas de ter tempo para viver e deixar marcas de bondade, enquanto os passos pisam firmemente o chão existencial. Todos têm tempo, mas nem todos sabem o que fazer com o tempo. Viver mais levemente é o desafio dos próximos tempos. A velocidade que muitos imprimiram em suas rotinas diárias não tem agregado mais alegria e nem mais vigor. Apesar dos sofisticados meios, não são poucos os que sabem olhar nos olhos, apertar suavemente a mão, abraçar com significado e saudar festivamente.

Os dias sempre vão passar, mas as pessoas também passam. Mesmo que o planejamento não seja encadernado, muito menos publicado, que cada um possa eleger prioridades e reinventar-se na fidelidade. Sim, reinventar-se na fidelidade, pois de nada adianta ter belas metas se não houver persistência em atingi-las. As coisas mais simples deveriam estar no topo das buscas: viver mais com a família, regar as significativas amizades, descansar o suficiente, praticar exercícios, cuidar da alma, alimentando-se espiritualmente. Quase ia esquecendo: não amontar mágoas e ressentimentos e não esquecer de sorrir e de fazer o bem. Mesmo que persista a sensação de que o tempo voa, como é bom ter lembranças, saudades e a consciência de que o melhor tem passagem livre. Viver é maravilhoso.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

FESTAS E AFETOS

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O espírito das festas já não é o mesmo. A inocência irrefletida da infância já não volta mais. Até as crianças já não são as mesmas. Todavia, há um eterno retorno do mesmo, na semana entre o Natal e o Ano Novo. Fim e começo, o ontem e o amanhã, o adeus e o bem-vindo, o já e o ainda não se conectam e se cruzam em poucos dias. É nesse encontro dos extremos que o mais excelso da nossa existência acontece e, por isso, celebramos, festejamos e brindamos.

Contudo, a overdose festiva em apenas oito dias nos deixa tontos, em êxtase, excitados e, no meu caso, num misto de alegria e tristeza que identifico como “melancolia”.

Alegria é um afeto do corpo em que sentimos aumentada a potência de ação do próprio corpo. Na alegria nos tornamos expansivos, contagiantes, vibrantes e com a potência do corpo no seu estágio mais elevado. Na alegria o ser quer aparecer, mostrar-se, comunicar-se, relacionar-se e quase impor-se. A alegria é ostensiva e imperiosa.

A tristeza é um afeto de diminuição de nossa potência de agir. A tristeza nos apequena, nos encolhe e nos tira as energias que movimentam o corpo. A tristeza nos retém e nos torna sem graça e sem vitalidade. A tristeza dilacera e enfraquece a alma.

As festas de Natal, final e início de ano, deixam-me em um estado entre a alegria e a tristeza. Esse estado é a “melancolia”. A melancolia tende mais para a tristeza do que para a alegria, mais para o recolhimento do que para a expansão, mais para a solidão do que para a multidão, mais para a introspecção do que para a extroversão, mais para o silêncio do que para o barulho, mais para uma leitura do que para a televisão, mais para a sobriedade do que para o êxtase do consumo, mais para contemplação do que para a ação, mas para uma música do que para vídeos de mensagens no WhatsApp.

A melancolia não é um estado de tristeza ocasionada por alguma razão objetiva de perda ou de impotência de ação. A melancolia é uma tristeza sem causa e sem razão objetiva. É uma tristeza vaga. É uma tristeza pelo “não sentido do ser”! A melancolia, assim como angústia, é um sentimento do “nada”, de tal forma que quando passa a gente diz: “não era nada”. Quando dia dois de janeiro chegar eu direi: “não era nada”...

Se me perguntarem porque estou tomado por esse estado de melancolia, eu não saberei exatamente dizer porquê. Contudo, tenho uma leve impressão que seja pela obrigação de ser alegre e feliz, que essas datas impõem. Recuso-me fazer parte do espírito do mercado, das compras, dos presentes, das cores exuberantes, dos sorrisos forçados, das promessas irrealizáveis e dos “excessos do ser”. Não sei se sou saudável, mas só sei e sinto que não estou doentio...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

JOÃO BATISTA O PROFETA INCORRUPTO

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O Advento avança com sua proposta de conversão e seus protagonistas. Um deles é o precursor, o profeta “maior do que todos os filhos de mulher”. Neste tempo litúrgico, especialmente, sua figura se levanta como aquele que denuncia a corrupção em todos os níveis em que esta existe, mantendo-se inatingível por este verme que corrói a dignidade e a vida justa, levando à idolatria que adora falsas divindades e não o Deus verdadeiro.

Em tempos de tamanha corrupção, faz-nos bem olhar para aqueles que a denunciam. E João Batista é um deles. Do deserto já se ouvia sua voz clamando por conversão e mudança de vida. Seu olhar de profeta via a corrupção acontecendo e ele sabia que a vida que é Deus mesmo se encontrava ameaçada.

Corrupção vem do latim corrumpere, “destruir, estragar”. Em português, o substantivo feminino corrupção deriva do latim corruptĭo, com o sentido de «deterioração», processo ou efeito de corromper». E este substantivo pode significar:
a) deterioração, decomposição física, orgânica de algo ou putrefação; ou ainda b) modificação, adulteração das características originais de algo.

Desde tempos imemoriais, a corrupção está presente como possibilidade maléfica para o agir e o comportamento humanos. Em sua ambiguidade, o ser humano, homem ou mulher, “deseja o bem, mas não o pratica; e não deseja o mal, mas o pratica”. Assim já dizia Paulo de Tarso na Carta aos Romanos 7, 19. Ser humano é ser dividido, é ser campo disputado, é ter inclinações em mais de uma direção e, portanto, dever exercitar a liberdade a cada minuto e a cada passo.

Por sua vez, idolatria encontra sua raiz em ídolo, do grego “eidolon”, que significa aspecto, imagem mental, fantasma, aparição, assim como também imagem material, estátua. E ainda de “eidos”, que é forma. Ambos os termos se juntam a “latreia”, serviço, adoração e aí temos a palavra idolatria: o culto e o serviço prestados a algo que é falso. O ídolo é, então, uma representação da divindade, a qual se faz objeto de culto, usurpando essa imagem o lugar de Deus e recebendo em vez d´Ele a adoração ou o culto.

Para a Bíblia, o principal problema na idolatria é a traição. Não se trata de um erro metafísico, uma questão de ontologia, mas de ética. A questão chave não é o que as pessoas acreditam, mas como elas se comportam. A idolatria é principalmente uma forma de vida, não uma visão metafísica de mundo. Por esta razão, as principais metáforas bíblicas da idolatria são o adultério e a deslealdade sob todas as suas formas, inclusive a política.

Na Bíblia hebraica, a corrupção se torna próxima à idolatria porque, em qualquer de seus níveis, seja ele moral ou político, é sempre uma traição à verdade. Ou seja, trata-se de pautar o comportamento, as atitudes, a ética sobre bases que não são verdadeiras. Adora-se o não verdadeiro. E essa não verdade corrompe a atitude da adoração que se presta e transborda em frutos envenenados de corrupção os mais diversos, sendo o pior deles a justificação de comportamentos daninhos aos mais vulneráveis e a exploração dos pequenos e pobres.

Alguns profetas em Israel denunciaram esse estado de coisas. Por causa disso, foram perseguidos e mortos. Assim foi com João Batista, o profeta de palavras de fogo que chamava à conversão o povo infiel e reconheceu em Jesus que com ele andava alguém maior diante de quem era importante retirar-se. “É preciso que Ele cresça e eu diminua”.

O mesmo João Batista, mais tarde, quando Jesus já pregava o Reino de Deus pelas cidades e aldeias, denunciará a corrupção do rei Herodes, que tomara para si a mulher de seu irmão. “Não te é lícito tê-la por mulher”, clamou João diante do rei. E foi preso. Ganhou por isso o ódio de Herodíades, mulher de Herodes, que terminou conseguindo que sua jovem e sedutora filha Salomé pedisse a cabeça do profeta em uma bandeja de prata.

Herodes – covarde como em geral o são os corruptos de todos os perfis – havia lhe prometido tudo que quisesse após a dança com que o encantara. Tudo, mesmo que fosse mais do que a metade de seu reino. Teve que conceder à ambiciosa jovem a vida do homem cuja cabeça valia mais do que a metade de um reino.

Hoje a corrupção idolátrica maior não visa tanto a luxúria como a cobiça e o enriquecimento ilícito. A sociedade em que vivemos é corrupta. E, portanto, idólatra. Deforma constantemente seu rosto e seu perfil vivendo na mentira, na clandestinidade e na espoliação descarada e iníqua dos mais pobres e vulneráveis. Acumula riquezas incalculáveis às custas da exploração daqueles que mal têm o que comer e que trabalham de sol a sol para ganhar um salário inferior a suas necessidades. Sendo corrupta, é igualmente idólatra. Ama com verdadeira adoração as coisas materiais e as erige em ídolos que passam à frente dos verdadeiros valores. Transforma o mercado, o lucro, a riqueza em deus e vive da e na crença nesse Deus.

Já o Papa Francisco afirma a aproximação entre corrupção e idolatria: “A corrupção sempre encontra o modo para se justificar, apresentando-se como a condição “normal”, a solução de quem é “esperto”, o caminho para atingir os seus objetivos. Tem uma natureza contagiosa e parasitária, porque não se nutre do que de bom produz, mas do que subtrai e rouba. É uma raiz venenosa que altera a sã concorrência e afasta os investimentos. Enfim, a corrupção é um “habitus” construído sobre a idolatria do dinheiro e da mercantilização da dignidade humana... “

Que neste Advento a figura luminosa e incorruptível de João Batista nos abra os caminhos da justiça e da fidelidade, a fim de podermos construir um mundo e muito concretamente um Brasil menos deteriorado e putrefato para legar a nossos filhos e netos.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

PARA LIANE.

Querida,

Talvez você não saiba, mas é muito difícil escrever alguma coisa sobre o Natal. Fico muito sensível nesta época, especialmente quando percebo que tenho em você tudo o que eu preciso. Aliás, tenho em você tudo o que um ser humano precisa para ser feliz. Tudo o que as pessoas buscam, imploram, pedem aos anjos e santos, eu encontrei em você.

Sinto-me um privilegiado, pois recebo amor e cuidados como ninguém - ou muito pouca gente - recebe. E sei que é isto que a maioria gostaria de receber neste Natal: afeto.

Mais do que presentes, dinheiro, viagens, o que as pessoas precisam é de carinho, é de alguém dedicado a elas da mesma forma que eu tenho você dedicada a mim.

Saiba que eu te amo e te amarei sempre. Não apenas neste Natal, mas em todos os que ainda hão de vir. E nunca se esqueça disso!

Te amo!

sábado, 23 de dezembro de 2017

MEU GRANDE PRESENTE DE NATAL.

Feliz Natal, Manuela.

Você mal chegou e eu te amo de paixão, minha querida e primeira bisneta.

Meu presente foi você... 

Sua chegada à minha existência significou um reviver de esperanças, um abrir de mil janelas por onde entraram sonhos, fantasias e quimeras transformadas em realidades cotidianas...Com tua presença a natureza preencheu-se de maiores encantos, sons e aromas.
Sua presença é meu presente, um presente-dádiva, num tempo presente.
E eu só tenho a agradecer, por você haver invadido minha vida, uma doce invasão, preenchendo meu dias com prazeres e alegrias.

O que posso lhe desejar neste Natal?

Mais do que desejar, posso procurar fazer deste o seu primeiro e o melhor Natal.
A mim, nem precisa desejar Feliz Natal.
Sua presença já é para mim a certeza de um tempo de amor, alegria e paz.

Que os anos vindouros perpetuem essa certeza...
E que, em cada Natal, possamos continuar repetindo.

Meu presente é você! E meu futuro será vê-la crescer com saúde, inteligência e muita felicidade.

Teu feliz bisavô Rui.

domingo, 17 de dezembro de 2017

QUAL O MELHOR PRESENTE?



No meu prédio sou sempre a primeira a pendurar a guirlanda de Natal na porta. Nós enfeitamos a árvore no primeiro dia do Advento, enquanto os italianos fazem isso no dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição.

As diferenças não param aí: nós costumamos comer peru na noite de Natal (ou frango, sejamos francos), enquanto as tradições italianas não são apenas diferentes das nossas, mas variam de acordo com a região. Em Roma, come-se peixe, em Milão, frango capão, uma espécie parecida com o chester.

Nós somos exagerados nas decorações e o resultado nem sempre está à altura da festa: é que entre nós prevalece o espírito carnavalesco, a explosão de cores, o festejo explícito. Na Itália é tudo bem mais comedido e o clima frio ajuda a compor uma atmosfera que sugere uma introspecção onírica e rarefeita. Dois são os elementos principais: a árvore de Natal, geralmente colocada no centro das cidades, e o presépio, uma invenção de São Francisco de Assis, que não pode faltar em lugar nenhum.

Mas a maior diferença está na polêmica: os italianos passam o Advento comentando qual é a árvore mais bonita, qual é a maior, qual é a mais cara, qual é a mais triste. Este ano, na categoria tristeza, Roma ganhou de novo, com uma árvore apelidada de “depenada”. A árvore chegou do norte com os ramos murchos, com ar de fim de festa. Decoraram a árvore com lâmpadas de LED, que emitem uma luz fria e branca, dando à arvore um ar entre o melancólico e o minimalista.

Entre a distração colorida e calorosa dos nossos preparativos e a discussão animada dos italianos, o tempo voa e amanhã já estaremos à beira de um novo ano. Desmontaremos a árvore no mesmo dia, em 6 de janeiro, mas esse dia festivo final, na Itália – e em Roma, em especial – reserva uma outra surpresa: a Befana, uma bruxa que traz presentes para todos, mas nem sempre o que se espera. Ao contrário de São Nicolau, o nosso Papai Noel, que reserva a todos uma lembrancinha, indistintamente, a Befana dá doces e presentes para os que foram bons e dá carvão aos que se comportaram mal. Os romanos, sabiamente, sempre colocam um carvãozinho entre os presentes, para lembrar que ninguém é completamente bom ao longo do ano. É a vitória do realismo. Isso não significa que São Nicolau não tenha razão: os presentes deveriam recordar que às vezes a gente recebe até quando não merece e que a bondade não é uma virtude ativa, mas é uma gentileza da qual usufruímos quando entre nossos pares o altruísmo ganha espaço.

Este ano gostaria de ganhar muitos presentes, admito. Não é pelo valor dos objetos, mas pela confiança no outro. Quanto aos carvões, o ano já reservou muitos para todos ao longo do ano. Nesta Epifania, a Befana bem que poderia se fantasiar de Papai Noel de novo para duplicar a generosidade. Sim, a generosidade é o melhor presente
.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

DEUS ENVELHECE?

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Há perguntas instigantes e desafiadores ao pensamento. Uma delas é essa que dá título ao texto. É pretensão querer saber o que se passa no mundo do além, no mundo onde os sentidos não alcançam e nossa razão se retira em silêncio. Contudo, é possível dizer algo que faça sentido a essa pergunta desde a perspectiva da fé e da revelação bíblicas.

É senso comum dizer que Deus é autor de tudo, anterior a tudo, ao tempo e ao espaço e que, portanto, não está submetido à decadência ou a mudanças típicas de todo ente empírico, sobretudo, à velhice e morte. Quem poderá contestar essa ideia? Admitir o envelhecimento e a morte de Deus seria subverter a ideia mesma de Deus que porta em si os qualificativos de eternidade, imortalidade e imutabilidade. Mas, e se mudarmos a direção e perguntarmos: a ideia e imagem que construímos de Deus, envelhecem e morrem? Ai a pergunta fará todo sentido e não haverá heresia alguma em afirmar que sim. É o que nos atesta a evolução bíblica da ideia de Deus muito bem expressa no livro “As etapas pré-cristãs da descoberta de Deus” (Juan Luis Segundo, Vozes, 1968).

Luis Segundo esposa uma concepção evolutiva da descoberta de Deus que se dá em cinco fases e se configura em cinco imagens de Deus.

A primeira imagem é do Deus poderoso, terrível, e temível. Um Deus para ser temido, mais do que para ser amado. Um Deus que exige sacrifícios, rituais de purificação e intermediários que administrem a relação ritual com Deus, para lhe aplacar a ira ou para lhe conseguir favores. É a infância da fé no Deus único e que, apesar de ser uma imagem de Deus superada no interior da evolução bíblica, ainda continua a fazer estrago na vida de muitos homens e mulheres de fé e na religiosidade popular.

A segunda imagem de Deus bíblico é o Deus da Aliança, o Deus de um povo, no caso, os Hebreus. É a descoberta de um Deus próximo, que quer o bem do seu povo e o quer livre da escravidão que o diminui e o explora. É um Deus fiel, ciumento, que não admite outros deuses e condena a idolatria e os ritualismos vazios e mágicos. É o Deus da relação mediada pelo coletivo, pelo pertencimento a um grupo, a um povo, à comunidade que justifica uma postura de os de “dentro” e os de “fora”, nós, os “bons” e, eles, os “maus”. Uma imagem evoluída em relação à primeira, mas ainda insuficiente, pelas armadilhas típicas dos deuses nacionalistas e particularistas.

A terceira imagem é o Deus da criação. Nessa fase Deus evolui para um Deus universal, transcendente e Senhor do céu e da terra e tudo o que ela encerra. É o Deus metafísico, o Deus abstrato, o Deus “de tudo e de todos”. O Deus criador e transcendente é uma evolução da ideia de Deus e uma evolução de auto compreensão humana de que somos uma família, um irmão dos outros, pois somos filhos de um único e mesmo Deus. A sua transcendência absoluta, contudo, o torna um ser da razão, mais do que um ser do coração e da experiência do mundo da vida.

A quarta imagem de Deus avança um passo e afirma que Deus é criador de tudo, todavia, não do mal, pois ele é bom e tudo o que ele cria é bom e destinado ao bem. Ao humano cabe, também, ser bom e justo e se afastar do mal e das injustiças, dos apegos egoísticos e dos poderes desse mundo, próprio dos insensatos. É o Deus moral, como dizia Nietzsche.

E, finalmente, a quinta imagem de Deus é o Deus de Jesus Cristo. É o Deus, não mais da justiça e da moral, mas do amor e da misericórdia, como, exaustivamente, nos recorda o Papa Francisco. O Deus do amor e da misericórdia é o Deus mais adulto e evoluído em direção à verdadeira face de Deus e à verdadeira e melhor relação que podemos ter com o outro e com o Outro, que damos o nome de Deus. Amar e ser amado, na liberdade, é o que de mais alto podemos almejar de nós mesmos e o que de melhor podemos almejar e dizer de Deus.

O deus mercado, o deus da retribuição, o deus distante e afastado do mundo, o deus poderoso e milagreiro, o deus do medo e da moral é um deus envelhecido que precisa morrer para ressuscitar em nós, nesse natal, o Deus de Jesus Cristo: o Deus amor!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CONSUMISMO DE NATAL

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O Natal se aproxima. Com ele, a ansiosa preocupação com a lista de presentes. Em muitos círculos familiares e corporativos se torna quase uma obrigação dar presentes, até mesmo para quem não se conhece ou se nutre antipatia. Há inclusive quem dá presente para não se fazer presente.

Presente compulsório amarga o Natal. É pagar pedágio para prosseguir na estrada da indiferença. E “amigo oculto” é uma loteria de afetos. Oculto é, por vezes, o desafeto que se tem para com o sorteado.

Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente seu caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, que simboliza o fetiche da mercadoria.

O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista nos afasta da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite, reduz-se ao galeto das celebrações, às oito ou nove da noite, driblando a madrugada que favorece a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes parecem falar mais alto que os bons e velhos costumes: a oração em família, os cânticos litúrgicos, as narrativas bíblicas e a memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judeia.

O Natal nasceu como uma festa religiosa. É a apropriação cristã de ritos pagãos de celebração da mudança de ciclos da natureza. Marca a comemoração do nascimento de Jesus, cuja data exata se desconhece. Porém, fatores meteorológicos conveniaram a data de 25 de dezembro.

A tradição de troca de presentes é atribuída a vários santos que teriam o hábito de distribuir presentes às crianças pobres: são Nicolau, são Basílio de Cesareia etc. Hoje, poucos se lembram dos excluídos na festa de Natal.

São Francisco de Assis criou, no século XIII, o presépio. O nascimento de uma criança em um curral, filha de uma família sem teto, virou um bucólico cenário que encobre o fato histórico – José e Maria, rejeitados em Belém, ocuparam uma cocheira premidos pela proximidade do parto.

Em uma Comunidade Eclesial de Base da periferia de São Paulo, a leitura do relato evangélico levou dona Lídia ao seguinte comentário: “No dia seguinte, o jornal ‘Diário de Belém’ deu a notícia: família de sem teto invade sítio nas proximidades da cidade.”

Hoje a festa religiosa é ofuscada pela figura lendária de Papai Noel. O velho gorducho foi popularizado, a partir de 1822, pelo poema “Uma visita de São Nicolau”, que Clemente Clark Moore escreveu, em Nova York, para seus filhos. Os trajes e o gorro eram verdes. Em 1863, o cartunista Thomas Nast, da “Harper’s Weeklys”, o desenhou em traje vermelho, incorporado, a partir do início do século XX, à propaganda de bebidas não alcoólicas, como a Coca-Cola.

O sentido cristão do Natal é escanteado pela apropriação consumista de Papai Noel. A presença cede lugar ao presente; a Missa do Galo à mesa na qual impera o peru; a oração ao espocar das rolhas etílicas.

Na boca do coração, o gosto de mel se transubstancia em fel quando a festa se resume a desatar fitas coloridas, abrir presentes e se empanturrar de comidas e bebidas. De algum modo sabemos que sonegamos o significado mais profundo da festa.

O que sucedeu em Belém supera todas as expectativas: Deus irrompeu na história humana! Não veio como um Messias triunfante cercado pelo cortejo de anjos. Entrou pela porta dos fundos.

Filho de um remediado carpinteiro e uma pobre camponesa, o Menino logo se irmanou às gerações de refugiados ao se exilar no Egito para escapar à sanha repressiva do rei Herodes.

Toda a vida de Jesus consistiu em semear as bases de um novo projeto civilizatório que se resume, nas relações pessoais, à predominância do amor e da compaixão; e nas relações sociais, à partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. Esta a proposta do Reino de Deus, oposto ao de César.

Tal ousadia subversiva resultou-lhe em prisão, tortura e morte na cruz. No entanto, sua ressurreição atesta que a vida supera a morte. É essa esperança que nos move para que, um dia, a paz prevaleça como fruto da justiça.

Celebrar o Natal é, portanto, partilhar com outras pessoas, em especial as necessitadas, nossos talentos, aptidões, recursos e bens, para que vivam com dignidade. É ousar fazer nascer o novo nessa velha ordem social marcada pelo preconceito e pela exclusão.