sábado, 30 de julho de 2016

RESPONDENDO AO CLAMOR DA FOME.

Não há como ser Igreja, corpo de Cristo, se não estiver em ação a caridade. “Às vezes sentimos a tentação de sermos cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros”: “Fechar os olhos diante do próximo nos torna cegos diante de Deus”.

Jesus Cristo, rosto da misericórdia do Pai, encarnou-se para nos redimir. Ele passou pelo mundo fazendo o bem a todos e se posicionou compassivo diante e dentro da indigência humana. Como discípulos missionários, nós, cristãos, somos chamados a responder ao clamor da pobreza e da fome com esta mesma compaixão . Tendo consciência das necessidades, nos dispomos a agir, mediante práticas e ações misericordiosas. Não basta ouvir o clamor da fome, somos chamados a socorrer, mediante a caridade organizada em nossas comunidades.

Neste apelo do Evangelho, “pode-se entender o pedido de Jesus a seus discípulos: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer, que envolve tanto a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que encontramos".

Referindo-se à realidade social do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais, dos sem-terra, sem-teto, sem pão e sem saúde, a “Vendo a sua miséria, ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandalizamos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos bens e da renda. O problema se agrava com a prática generalizada do desperdício”.

Por ser muito complexa a realidade da fome, tanto em suas causas, quanto em suas consequências, necessitamos enfrentá-la com coragem e criatividade. Para tanto, o fato de sermos cristãos carrega consigo a motivação fundamental que não nos permite omissão. O faminto é o próprio Cristo que irá nos julgar. “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25, 35). Responder ao clamor da fome é garantir o êxito de uma vida que se eterniza.

Mas o drama da fome não pode ser enfrentado numa aventura personalista. Ser cristão é ser comunidade. Uma comunidade cristã que se educa na fé e aperfeiçoa sua prática celebrativa só pode ir crescendo no serviço da caridade que se expressa no milagre constante da partilha. Não vivemos a fé em compartimentos. Uma dimensão fecunda a outra. Quem bem celebra aprende a ser solidário e cresce na fé. Quem se educa na fé e se torna solidário, também se torna sempre mais consciente e participante na Liturgia da comunidade.

Se a fé sem obras é morta, a misericórdia também é! A escuta e a resposta ao clamor da fome tornam acreditável a fé e também a força da misericórdia de Deus atuante na história.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

AJUDANDO A SER FELIZ

A vocação mais universal, o anseio mais profundo da pessoa é ser feliz. Desde que nascemos até a morte procuramos a felicidade. E isto vale para todos. Crianças ou adultos, homens ou mulheres, pobres ou ricos, sábios ou ignorantes, ateus ou homens de fé, todos procuram a felicidade. E isto não é de hoje e durará para sempre. Dentro de cada um existe uma exigência: o dever e o direito de ser feliz. Os outros fazem parte de nosso projeto de felicidade, mas a realização é inteiramente pessoal.

Este desejo de ser feliz não encontra acolhida na realidade. Mas não se trata de falta de esforço. Todos os nossos atos visam à felicidade. O escritor Albert Camus garante: os homens morrem e não são felizes.

O tema chegou à Universidade. Neste número encontra-se a famosa Universidade de Harvard, que abriu uma Cadeira Opcional direcionada para o tema. As inscrições - mais de 1.400 no primeiro ano - superam disciplinas tradicionais. A universidade alerta que não fornecerá um Diploma de Felicidade, apenas mostrará caminhos. Isto significa que voltamos ao ponto de partida: é caminhada pessoal. E a experiência diz que não existe a Felicidade. Apenas podemos criar condições para sermos mais felizes. Somando muitos pequenos momentos felizes nos aproximamos da meta inatingível. Conclui-se que Felicidade não é um território a alcançar, mas um modo de caminhar.

Algumas indicações nos ajudam a uma realização pessoal, que faz parte do direito e do dever de ser feliz. Podemos até apontar pontos nesta busca:

1. Afasta-se das pessoas negativas. Elas têm um potencial enorme de desmotivar.

2. Aceita e valoriza os instantes positivos. Eles são em número maior que os negativos. E se algo der errado, recomeça com mais sabedoria.

3. Não reclame, nem fale mal dos outros. Isto não leva a nada.

4. Cultiva o sorriso, a alegria e o bom humor. O otimismo não resolve o problema, mas o pessimismo o piora.

5. Sê alguém sempre pronto a colaborar. Você nunca será feliz sozinho, precisa dos outros.

6. Surpreende os outros com momentos mágicos. Um jantar, um ramalhete de flores, um convite. Não precisa ser dia de aniversário.

7. Faz tudo com sentimento de perfeição. Mesmo assim dá margem ao erro dos outros e aos seus.

8. Cuida de sua aparência pessoal. É aquilo que os outros enxergam. Traz alegria aos ambientes.

9. Coloca o amor ao próximo em primeiro lugar. Os outros podem esquecer tudo, menos sua bondade.

10. A referência maior de sua felicidade é Deus. A Fé ilumina e dá sentido à vida.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

UM NIVER DIFERENTE

Os convites foram entregues. O planejamento seguiu o cronograma previsto. A alegria parecia ser maior que o espaço do coração. Ninguém havia provado algo semelhante. O primeiro aninho da Lívia tinha algo peculiar. Os paradigmas foram quebrados. Todos criaram uma grande expectativa. Finalmente o dia chegou. O sol resolveu não brilhar, naquela tarde de sexta-feira. Uma outra luz, no entanto, provocou um intenso e infinito brilho. O aniversário da alegre menina aconteceu junto aos idosos da Casa Lar do Idoso. Ninguém ficou de fora do ritual. Festa de criança tem magia: todos voltam a ser criança.

Por algumas horas, o lar que acolhe idosos que não têm uma família que os cuide tornou-se um salão de festas. As paredes estavam enfeitadas. A tonalidade rosa deixava transparecer toque feminino, os detalhes comunicavam bom gosto. A sensibilidade deu conta de tudo e ainda se superou. As gerações, naquele instante, eliminaram toda e qualquer distância. De um jeito ou de outro, os adultos com o semblante marcado pela passagem dos anos fizeram a experiência de ser avós da pequena e animada Lívia. Corações em festa ao redor de uma alegre criança. Foi difícil saber onde estava o doce: nas mesas ou no coração de todos os participantes?

Em tempos de tantas mudanças e contraditórios episódios, alguns fatos roubam a cena e inspiram um bocado significativo de esperança. Quem afirma que tudo está perdido, não está sendo justo com parte da realidade que não recebe adequado tratamento pela mídia. Os fatos positivos dificilmente são ventilados e comunicados. Há tanta coisa boa acontecendo. As notícias, tratadas em alguns laboratórios de comunicação, parecem causar desânimo e roubar o verdadeiro conteúdo da existência. Evidente que há muito a ser feito no intuito de neutralizar a injustiça e a violência. Um novo mundo, no entanto, depende de novos corações.

A pequena Lívia irá crescer em contato com algo fantástico: a solidariedade. A linguagem será outra. Impossível ser abraçado hoje por idosos e amanhã chama-los de velhos. As gerações precisam se encontrar. Não há uma idade melhor do que a outra. O respeito e a aproximação provocarão outras atitudes, geradoras de bem-estar. Envelhecer sem ser distanciado das crianças é um direito natural. O primeiro aninho da Lívia foi um ensinamento e uma inspiração, algo para ser eternizado.

terça-feira, 26 de julho de 2016

UM PAÍS QUE PRENDE SUPLICY E DEIXA CUNHA SOLTO É UM PAÍS DOENTE.

Não poderia haver nada mais simbólico que a prisão de Suplicy hoje em São Paulo num de seus melhores papeis, o de ativista social.

Criou-se uma situação que ilustra o Brasil destes tempos.

Um país que prende Suplicy e deixa solto Eduardo Cunha é um país doente.

Não me venham com sofismas. Não me venham dizer que são situações diferentes. Tudo isso é nada diante da simbologia do caso.

Suplicy vai preso porque defende os oprimidos. Cunha está solto porque defende os plutocratas.

Somos uma sociedade que pune quem se coloca ao lado dos excluídos e protege os fâmulos da plutocracia. Por isso somos um dos países mais brutalmente desiguais do mundo.

Veja Cunha.

Ele roubou, mentiu, ameaçou, mudou projetos de lei para beneficiar empresas que patrocinaram sua eleição a deputado federal.

Chamou os brasileiros de débeis mentais ao negar contas milionárias na Suíça provadas pelas autoridades locais. Escarneceu de todos ao fabricar lágrimas e se fazer de coitadinho depois de agir como gangster a carreira toda.

Inventou uma palavra, estatutário, para trapacear sobre a propriedade das contas. Depois se saiu com um golpe semântico de bandido ao dizer que não eram contas, mas trusts — como se isso mudasse qualquer coisa relativa ao dinheiro escondido na Suíça.

Fez um pau mandado seu na Caixa assinar antecipadamente uma carta de demissão para a eventualidade de ele não praticar as roubalheiras ordenadas.

Eduardo Cunha fez tudo isso, e muito mais. E está aí, sem ao menos sequer uma tornozeleira que preservasse parcialmente a indignidade que é ele permanecer livre.

Bastou a Suplicy agir pelos oprimidos que foi carregado por policiais de Alckmin como se fosse um saco de lixo rumo à detenção. Aos 75 anos.

E no entanto, brutalizado por agentes da plutocracia, mesmo sem pisar no chão, Suplicy protagonizou uma marcha gloriosa.

Ele escancarou o que é o Brasil real, a terra selvagem em que um homem puro como ele é preso enquanto um canalha corrupto como Eduardo Cunha é recebido pelo presidente interino num palácio.

CORRUPÇÃO PASSIVA E ATIVA NO BRASIL

Depois que surgiu a psicanálise, a nova hermenêutica e o estruturalismo não podemos mais nos restringir ao consciente e aos ditames da razão na análise dos fenômenos humanos, pessoais e coletivos. Há um universo pré-consciente, sub-consciente, inconsciente (pessoal e coletivo) e pressupostos subjacente a nossas práticas, que tem que ser tomados em conta.

Quero me ater apenas a duas vertentes que influenciam nossos comportamentos: são os legados das duas principais culturas ancestrais que subjazem no nosso inconsciente coletivo e que são presspostos não pensados que nos ajudam a entender fenômenos atuais, como por exemplo, a tresloucada corrupção que atravessa o corpo social brasileiro: a cultura grega e a cultura judaico-cristã.

Da cultura grega herdamos o sentimento de vergonha. O conceito correlato é a do herói. Ter vergonha para os gregos consistia em se frustrar em qualquer empreendimento como na guerra e na convivência social. Perder uma batalha constituía uma vergonha coletiva para todo um povo. Perder numa competição nas Olimpíades provocava vergonha. Triunfar e ser bem sucedido preenchia os requisites do herói.

Hoje esta categoria está presente em nossa sociedade. É um heroi o jogador que conseguiu o gol da vitória do time de sua predileção. Vergonha coletiva é o Brasil perder de 7×1 na Copa Mundial de futebol contra a Alemanha. Conseguir altos indices de crescimento e de lucro de uma empresa faz do empresário um herói. Perder uma eleição produz vergonha. A vergonha tem a ver acom a imagem que projetamos socialmente. Ela tem que causar admiração e respeito. Caso contrário, faz as pessoas se sentem envergonhadas.

A outra vertente é constituída pela tradição judaico-cristã. A categoria central é a culpa. Geralmente colocamos a culpa nos outros. Se fracassamos num negócio, é por culpa da crise econômica. Se o matrimônio se desfez é por culpa de um dos parceiros. Se há uma desgraça ecológica é por culpa dos moradores que se instalaram em áreas de risco. Às vezes, colocamos a culpa em nós mesmos por um acidente de tráfico, por erros que produzem uma ruinosa administração ou porque roubamos dinheiro público e nos tornamos corruptos.

A culpa atinge a interioridade e afeta a consciência. A repercução não é tanto diante dos outros que talvez nem saibam de nosso malfeito, mas diante do tribunal da consciência. Esta nos remete logo a Deus, pois entre a consciencia e Deus não há mediação. Estamos direta e imediatamente diante dele.

A culpa nos causa remorsos. Com o dinheiro desviado da merenda escolar, se tiver um mínimo de consciência ética, percebe que está prejudicando crianças que começam a passar fome. O sentimento de culpa pede reparação e cobra uma punição.

O oposto à culpa é o sentimento de ser justo e reto, dois conceitos definidores de uma pessoa “justa”(santa) no sentido bíblico.

Sentir vergonha e dar-se conta da culpa constituem as bases de uma consciência ética. Não precisar se envergonhar diante dos outros e não se sentir culpado diante da consciência e de Deus são sinais de retidão de vida e de uma atitude ética correta. Pode dormir tranquilo e não temer a maledicência pública.

Qual é o nosso problema concernente à escandalosa corrupção passiva e ativa no Brasil? É a acabada falta de vergonha e a completa ausência de culpa dos corruptos e corruptores diante de seus malfeitos.

Mesmo surpreendidos no ato de corrupção, ouvimos sempre o mesmo mote: “não sou culpado de nada”, “sou injustiçado”, “sou completamente inocente”. E trata-se de pessoas notoria e comprovadamente corruptas. Perderam a noção total de culpa e não dão nenhuma importância à vergonha pública de seus atos. Seguem desfilando, tranquilos pela cidade e a frequentar os melhores restaurantes.

Raramente ouve-se a indignação ética por parte de alguns com os gritos de “corrupto, ladrão”. Mas os corruptos nem se incomodam e continuam no seu desfrute.

Já Aristótles na sua Ética a Nicômano estabelecia a vergonha e o rubor do rosto como um indicativo da presença de uma consciencia ética. Sem essa vergonha, a pessoa era realmente um “sem vergonha”, um mau caráter, sem sentido dos valores.

Essa falta de vergonha e de sentimento de culpa se transformou, entre nós no Brasil, numa especial de segunda natureza, tornada uma prática usual. Por isso, quase todo o tecido social é contaminado pelo virus da corrupção, dos corruptores e dos corrompidos.

Mas ela chegou nos dias atuais a níveis tão escandalosos que não podem mais ser tolerados pela sociedade e pelos cidadãos que ainda guardam uma consciência ética, do que é reto e correto, justo ebom.Cobra-se rigorosa investigação e condenação.

A corrupção como prática pessoal e social, sem sermos moralistas e utópicos, tem que ser banida e reduzida a níveis compatíveis com a condição humana decaída e corruptível. Há que se resgatar o sentimento de vergonha e de culpa, sem o que nossos esforços serão inócuos.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

DONOS DE MÍDIAS:MANDAM E DESMANDAM.

Na época da virada da história antiga para a medieval não havia mídia, mas os opressores, desumanos cruéis, mentirosos, manipuladores, injustos e criminosos já agiam como os de hoje, com outros meios. Para a casta atual a mídia é um meio, o que importa são os resultados que buscam para se perpetrar no poder e auferir privilégios, pisando nos direitos da maioria, inclusive o direito à verdade e à justiça.

A opinião pública, para essa elite oculta mas operante, é apenas alvo de consumo de suas porcarias. Do ponto de vista comercial usam a mídia, geralmente canais de TV e de Rádio concessões públicas, como meios para engordar seus cofres usando o povo como cliente de seus produtos superfaturados (todos, sem exceção), à cata de lucros despropositados.

No campo econômico e político a minoria dominante quebra a coluna vertebral da razão popular para, com a sua consciência no chão, manobrar a sociedade que muda de nome ao ser chamada de eleitores, consumidores, telespectadores, leitores, "cidadãos de bem", estudantes, donas de casa, homens e mulheres de negócios, políticos etc, deixando de ser sujeitos que pensam, que raciocinam, que tomam decisões, para se transformar em massa informe, anônima e sem nenhum poder de influenciar. Milhões de pessoas dessa multidão não valem nada em relação ao que decidem os que mandam e que se empoleiram sobre todos.

É nesse meio que atua a mídia. Seus donos fazem parte dos ocultos que mandam e desmandam. A mídia exerce o papel de domesticar as multidões dóceis, que a tudo obedecem, sem nada fazer. Melhor para os senhores dominadores e manipuladores é quando as multidões se dividem, brigam entre si e possibilitam mais ainda que os poderosos façam em cima de todos o quem bem entendem.

É interessante que a massa obediente aos ditames dos senhores ocultos até desfaz de quem pensa, de quem denuncia, de quem luta para impedir que as trevas caiam sobre o mundo e para apressar o novo amanhã de um mundo de pessoas sujeitos pensantes e de posse da inteligência.

Cá com meus botões me lembro de ceias, festas e bebidas dos senhores donos do capital e da mídia, com suas caras brancas e avermelhadas, debochando do povo que acredita em tudo o que eles mostram em suas TVs, Rádios, jornais e revistas. Riem e chamam o povo de "essa gente", de babacas, de idiotas, de buchas de cão, de paus mandados e que assim será por muito tempo enquanto eles, os senhores brancos, mandarem no Estado, na economia, nos aparelhos políticos, nas religiões, nas instituições de ensino, em tudo.

Pois é, nessa noite levei um choque com o artigo de uma das vítimas do golpista Michel Temer, Paulo Moreira Leite, demitido da TV Brasil por se opor ao golpe e porque é um dos poucos e raros jornalistas críticos e decentes deste País.

No artigo (lê aqui) PML lembra de que João Goulart foi roubado numa pesquisa feita a pedido da Federação do Comércio de São Paulo, que demonstrava apoio amplo do povo ao Presidente derrubado. A pesquisa foi escondida e só conhecida 40 anos depois do golpe civil-militar assassino, que dava aprovação de 60% a Jango. O objetivo, ao esconder o levantamento favorável, foi o de passar à opinião pública a ideia mentirosa de que o mandatário da Nação era fraco e sem apoio popular.

Quer dizer, a Federação do Comércio de São Paulo, a FIESP, os bancos, a mídia, parte do judiciário, do PGR etc, hoje, são um bando de criminosos manipuladores como o sempre o foram, fazendo-nos todos de idiotas e recipientes de seus detritos nojentos e fétidos, dejetos de uma classe dominante cruel, desumana e injusta.

Citando o Professor Luis Antonio Dias, da PUC de São Paulo, em entrevista à TV Câmara, em 2014 – e isso é bom porque conta com o apoio da pesquisa e não com a opinião pessoal – PML registra os efeitos devastadores sobre a imagem de João Goulart por gerações futuras, como um presidente fraco e sem alicerce nas massas, mas, acrescento eu, dando também a ideia de que o povo brasileiro não pensa, não quer saber a verdade e tem raiva de quem a sabe. Disse Luis A. Dias: "Muitos historiadores, até dez anos atrás, ainda tinham essa ideia de que Goulart caiu porque era frágil, não tinha o apoio dos partidos e, sobretudo, da população".

E assim foi com Getúlio Vargas. Fustigado dia e noite por uma mídia safardana, irresponsável e partidária do roubo, da corrupção e da destruição dos direitos sociais, Getúlio morreu para não permitir o golpe.

Sem dúvidas, por detrás do gatilho do revólver que destruiu o coração de Getúlio se amontoavam as aves de agouro e golpistas, com o ex-comunista traidor Carlos Lacerda à frente, como a Globo e as outras mídias de hoje. A mídia e os poderosos assassinaram Getúlio contando com as emissoras de rádio e com os jornais para fazer o serviço sujo de um povo usado para gritar "crucifica-o, crucifica-o".

Não esqueçamos de que revistas, jornais e colunistas brasileiros chegaram a pedir que Dilma fosse assassinada e a aconselharam que a Presidenta se suicidasse. Tanto que a Presidenta afirmou que ela não é Getúlio, para se suicidar nem Jânio, para renunciar nem Jango para se refugiar no exílio.

Há que resistirmos a essa mídia lodaçal descarada, dos homens brancos e debochados, verdadeiros bandidos da economia e da democracia.

Há que desligarmos as TVs, rasgarmos os jornais, jogarmos no lixo as revistas. Tudo é lixo e canal de excrementos dessa elite entreguista e criminosa!

Nosso lugar é nas ruas construindo a virada revolucionária da democracia, respeitosos às nossas diferenças e diversidades.

Não basta que os setores organizados, como as centrais sindicais, os movimentos sociais combativos, os partidos de esquerda, os intelectuais e artistas consequentes, apaixonados pelo Brasil e pela justiça social, participem dos eventos contra o golpe.

É preciso que todos os homens e todas as mulheres saiamos para as ruas. É necessário que convençamos o povo, muitos até sob pressão, a rasgarmos os sofás em casa e atirarmos as novelas pelas janelas e sairmos às ruas para evitarmos o golpe com Michel Temer golpista e traidor à frente.

Fora Temer, membro da máfia golpista manipuladora desrespeitosa de nossa inteligência social e nacional!

Fora mídia, que mente e manipula pesquisas!

Fora todos os golpistas, eis que aurora da justiça social pede para nascer!

A alternativa a essa poderosa mobilização nacional será a crucificação da verdade, da justiça, da democracia, da soberania do Brasil, dos empregos, da fartura e do bem estar!

domingo, 24 de julho de 2016

ORDEM NA SENZALA E PROGRESSO NA CASA GRANDE

O governo provisório de Michel Temer é analógico, rodando um filme branco e preto de piratas pilhadores, que tentam a qualquer custo restaurar as pontes com o passado mais atrasado do Brasil e reestruturar as bases de poder oligárquico para os negócios com as metrópoles.


Depois do período colonial, as nações centrais mantiveram profundos vínculos econômico-financeiros com as nações periféricas por meio de suas corporações empresariais e, com seus liames políticos, impuseram a arquitetura do Estado e do poder.


Foi assim no Império e na República que resultou do golpe militar do Marechal Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamim Constant, logo após a proibição da escravidão pela Lei Áurea.


Os militares não se aliaram aos republicanos abolicionistas, mas aos proprietários das terras, das minas, das empresas e dos bancos que se estabeleciam no país.


Desde então, as forças armadas e policiais brasileiras, por serem originárias historicamente dos reinados e mantidas por eles, para defenderem o patrimônio da Coroa e dos proprietários das terras e das empresas, têm se comportado, no Brasil, salvo raras excessões, como combatentes de inimigos internos, respaldadas por "Juízes de Pelourinho", autoridades forjadas na cultura colonial do açoite, da degola, do esquartejamento e salgamento de corpos de líderes populares. Sempre foi assim em Pindorama e a história tem os fatos emoldurados e pendurados na parede da memória.


Por ter manifestado sentimento nativista e desejo de independência do Brasil, Felipe dos Santos foi amarrado a uma junta de cavalos bravios e arrastado pelas ruas de Vila Rica, em Minas Gerais, até o corpo partir em pedaços. As partes foram salgadas e penduradas nas árvores da entrada da cidade. Tiradentes foi enforcado, esquartejado, as partes do corpo também salgadas e amarradas em postes de Vila Rica. A cabeça ficou exposta no paço da cidade.


Zumbi teve a cabeça cortada, levada ao governador de Pernambuco, Melo de Castro, e exposta no paço da cidade do Recife. Antônio Conselheiro, Lampião e muitos dos seus seguidores também tiveram as cabeças cortadas e expostas em praças públicas. Assim se comportam as forças armadas e policiais do Brasil, em nome da ordem e do progresso citadas pelos de cima.


A violência policial-militar está entranhada nos corações e mentes das autoridades inimigas da democracia que servem a proprietários e rentistas. Nos períodos recentes das ditaduras civil-militares torturaram com requinte de crueldade, aniquilaram pessoas, fizeram-nas mortas-vivas, tamanha a violência dos facínoras, nos porões dos cárceres.


A Presidenta Dilma foi uma das vítimas da tortura. Na sessão da Câmara dos Deputados que a afastou da Presidência da República e deu posse a Michel Temer, o deputado Jair Bolsonaro homenageou o torturador Brilhante Ustra com seu voto a favor do golpe.


A República brasileira é fruto de um golpe militar, manobrado politicamente por gerentes de interesse estrangeiros. Por incrível que pareça, o Brasil não consegue se livrar da sombra do passado, do atraso organizado, e se firmar como uma República democrática, livre e soberana.


O lema dos golpistas da República colonial, inscrito na bandeira brasileira, "Ordem e Progresso", é o mesmo do golpista Michel Temer e seu governo provisório, que se adianta na tentativa de subtração de direitos conquistados pela população trabalhadora e na entrega a empresas multinacionais, de suas riquezas, como as jazidas de petróleo do pré-sal, a maior jóia de Pindorama, de empresas estatais estratégicas para o desenvolvimento, como as do setor elétrico e outros bens públicos.


Os golpes militares que se seguiram na história do Brasil, nos ciclos de vigência do Estado democrático de direito, foram dados por militares em parceria com gerentes de interesses externos, para realinhar o Brasil aos vínculos econômico-financeiros das nações centrais impostos pelas corporações empresariais.


Nos momentos de crise, como o que o mundo atravessa, com efeitos extremamente perversos sobre as economias mais dependentes e vulneráveis, as nações centrais buscam nas nações periféricas compensações de suas perdas.


O afastamento da Presidenta Dilma e a imposição de Michel Temer, com um golpe tramado pelo Congresso, setores do Judiciário e da mídia, é resultado de uma sofisticada conspiração que atende a essa finalidade.


Desde os tempos coloniais, as nações periféricas contam com categorias nativas, não proprietárias, de gerentes de interesses estrangeiros que vivem a pregar uma ideologia que só serve a eles e seus negócios.


São tipos que transitam na política e no mercado, e estão sempre participando de governos, principalmente no comando de áreas estratégicas, com as grandes corporações de mídia à disposição, onde formam a opinião pública e comandam a massa.


Não gostam de pagar impostos. Costumam ser sonegadores contumazes. Se dizem inimigos do Estado, mas sempre contam com a proteção e a salvação dos seus negócios pelo Estado.


Não têm compromisso com a cidadania, com as populações desfavorecidas. O negócio deles é negócio.


Bancam golpes, repassam para os trabalhadores os prejuízos decorrentes das crises e defendem com unhas e dentes as margens de lucro de suas empresas.


Para os golpistas de sempre, nada de política externa que proporcione autonomia, independência. Nada de falar grosso com as nações centrais


Para eles, "Ordem e Progresso " quer dizer: baixem as cabeças, trabalhem, produzam, consumam, não questionem, e deixem os destinos nas mãos deles. Deixem os piratas explorarem Pindorama

sexta-feira, 22 de julho de 2016

PONTO DE PARTIDA

Ralph Waldo Emerson, escritor, poeta e filósofo, foi uma das personalidades mais influentes do pensamento do século XIX. Norte-americano (1803-1882), teve também grande influência na Europa, sobretudo no campo religioso.

Numa oportunidade, ele e seu filho tentavam arrastar para o estábulo um bezerro teimoso. Emerson puxava e o filho empurrava. Por mais que se esforçassem, o animal empacava e não saia do lugar. Emerson tinha uma empregada, pessoa simples, que mal sabia ler. Com certa timidez, ofereceu-se para ajudar.

Ela simplesmente pegou um pouco de farelo e sal e ofereceu ao bezerro. Imediatamente ele aceitou a oferta e a seguiu, docilmente, até o curral, para espanto do filósofo. Pai e filho, apesar da inteligência e cultura, cometeram um erro primário. Eles só haviam pensado na própria vontade. E o bezerro, à semelhança dos patrões, comportou-se, exatamente da mesma maneira: a partir da própria vontade. Mas a empregada, com pouco conhecimento e muita intuição, pensou mais no bezerro, que a seguiu lambendo sua mão.

O homem do campo costuma lembrar que o cavalo tem o lado certo de montar. Quando a pessoa não parte do lado certo, acaba fracassando e sujeito a coices. Na vida, tudo depende do ponto de vista. Não podemos levar em conta somente nosso ponto de vista, mas também o ponto de vista da outra pessoa. Aí começa o diálogo que encaminha a solução. Amar não é querer ser feliz, mas fazer feliz o outro.

Na Idade Média viveu um certo Giovanni Pico Della Mirandola. (1463 – 1494). Dele se dizia que sabia tudo. Dominava todo o conhecimento do seu tempo... e algo mais. Hoje isto não é mais possível. Podemos saber alguma coisa da maioria dos problemas, mas é o especialista quem nos indica a solução. De resto, há diferentes saberes. A empregada de Emerson possuía alguns saberes que o patrão não possuía. Todos, por mais preparados que sejamos, podemos e devemos aprender dos outros.

A lição do bezerro nos ensina também o valor da atitude positiva. O animal detestava ser arrastado e deixar o pasto, mas ele foi sensível ao farelo e ao sal. Educar não consiste em dizer não, mas apontar uma solução melhor. Os pais e educadores, por vezes, precisam corrigir – dizer não – mas terão mais facilidade se apostarem no elogio. Quando elogiada, a pessoa sente-se desafiada a ser melhor. E mesmo quando o elogio, no momento, é impossível, os educadores devem apontar para frente: você vai conseguir! E isto com amor e tempo.

Ralph Emerson sabia aconselhar: “Adote o ritmo da natureza: seu segredo é a paciência”. De resto, as coisas que hoje são fáceis, um dia, foram difíceis. A vida é um processo que leva a uma qualificação maior

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O QUE FALAM AS LEMBRANÇAS

Dar e receber lembranças são gestos praticados por quase todas as culturas. Gentileza carregada de ternura, amor em forma de símbolos, marcas que se eternizam, trocas que eliminam distâncias e enchem o coração de alegria. Todos os presentes são de um valor incalculável. Não o objeto em si, mas o sentimento impregnado em cada detalhe. Já se passaram uns meses, recebi uma ‘flor de lótus’ feita de vidro. Uma peça diferente. Na caixa, um breve histórico dessa flor que nasce no lodo e, no oriente, significa pureza espiritual.

O pântano é formado de lixo e lamaçal, nenhuma vida poderia ser pensada naquela realidade. Uma simples planta, porém, absorve os necessários nutrientes e faz desabrochar uma flor única, beleza rara, prova evidente que, por pior que seja a situação, sempre há algo que pode surpreender.

A flor de lótus é um encanto e, ao mesmo tempo, uma lição. Retirar do pior o melhor é algo que encanta e provoca admiração. Lá onde não se imagina existir alguma coisa boa, a vida surpreende e ensina. Sempre há possibilidades, mesmo que o cenário possa provar aparentemente o contrário; nenhuma realidade é totalmente adversa à vida.

A flor de lótus está sobre a mesa de trabalho, ao alcance dos olhos. Seguidamente é necessário fazer um intervalo para recordar sua inspiradora lição. Sem dúvida, viver é acreditar no melhor, mesmo que o pior esteja em evidência. Não só acreditar, mas arregaçar as mangas para construir e retocar a outra faceta da existência. É perda de tempo exigir que a vida prove somente o que é positivo e belo. A busca pela excelência é uma meta verdadeira e inspiradora. Porém, o cotidiano é feito de oscilações, entre o bem e o mal. Não se trata de uma batalha, mas de um contínuo desafio.

Ao longo dos tempos, sempre houve ‘espaços’ de pântano pessoal e social. Não foram poucos os que provocaram verdadeiras transformações, algo bem próximo do que denominamos milagre. Outros, no entanto, se refugiaram no desânimo e na lamentação. Impossível sonhar com uma vida que não se aproxime do pior.

Não se trata de determinação ou fatalidade. Nenhum humano passa à margem do sofrimento. Cedo ou tarde, algumas decisões provocarão angústias. Porém, tudo pode tornar-se passageiro se houver disposição e persistência. A flor de lótus permanecerá sobre a mesa. Ela recordará eternamente que do pior pode surgir o melhor.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

VIOLENCIA E PAZ A REFLEXÃO DE HOJE.

A barbárie parece pautar as ações da tal humanidade, mas temos de mudar essa lógica.

Mas vamos à História... Cerca de 200 milhões de ameríndios foram mortos por espanhóis, ingleses e portugueses entre os séculos XVI e XX e com as bênçãos da santa amada igreja. O numero é tão assustador que algumas vezes parece ser mais fácil ignorar e não chorar essa vergonha e esses mortos.

Só no Peru, México e América Central no século XV a população nativa era de cerca de 35 milhões, mas após a chegada dos espanhóis no XVI a população foi sendo dizimada e chegou a menos de 3 milhões no século XVII.

A ação portuguesa, não foi menos bárbara. Dizimou grande parte da população nativa do Brasil, estima-se que havia 10 milhões de índios e atualmente existem cerca de 500 mil.

Na América do norte as estatísticas indicam que havia cerca de 10 milhões de nativos e poucos sobraram já que na terra dos bravos a máxima usada para justificar o processo de extermínio era "índio bom, é índio morto".

Mais de 30 milhões de africanos foram sequestrados escravizados, sem que isso causasse indignação às pessoas de bem entre os séculos XVI e XX, ainda hoje há quem relativize esse fato, apesar de a escravidão no Brasil haver perdurado por 388 anos.

Enquanto essa barbárie ocorria no nosso continente na Europa inocentes, aos milhares, eram queimados em praça nas fogueiras da "santa" inquisição, sob aplausos histéricos de uma multidão de ignorantes.

Entre de 70 e 90 milhões morreram nas duas grandes guerras, sendo que desses 22 milhões foram jovens soldados soviéticos e 6 milhões de judeus na 2ª Guerra Mundial.

Apenas civis e aos milhares, morreram em Hiroshima e Nagasaki vítimas da bomba atômica. A bomba atômica lançada sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945, seguida por aquela lançada sobre a cidade de Nagasaki em 9 de agosto causou nos primeiros meses os efeitos agudos das explosões e mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima e 60 mil e 80 mil seres humanos em Nagasaki; cerca de metade das mortes em cada cidade ocorreu no primeiro dia. Durante os meses seguintes, vários morreram por causa do efeito de queimaduras, envenenamento e radioativo e outras lesões. Em ambas as cidades, a maioria dos mortos eram civis.

Cerca de 25 milhões de soviéticos e chineses morreram vítimas do totalitarismo.

Incontáveis comunistas e socialistas foram presos e desapareceram nos EUA no período do macarthismo.

A gerações inteiras a liberdade foi negada graças a ditaduras cruéis apoiadas pelas grandes potências e seus interesses impublicáveis, especialmente na América Latina e África.

Guerra da Coréia, Guerra do Vietnã, Invasão à Baía dos Porcos, Invasão ao Afeganistão, "Guerra Ira x Iraque", colônias européias na África e Índia também semearam ódio e ressentimento e são outros exemplos da barbárie.

No Iraque desde 2001 morreram cerca de 350 mil civis, especialmente mulheres, crianças e idosos. Tudo com apoio da Inglaterra, Espanha e França...

A guerra na Síria já provocou mais de 191 mil mortes, segundo a ONU (mas há outra contagem que anuncia 318.910 mortes documentadas), bem todos nós temos amigos sírios e libaneses, mas esse fato não repercute como deveria entre nós. O numero de mortos na Síria reflete a barbárie humana e tudo acontece na terra natal dos meus amigos Fawaz e Nawaf, onde ainda vivem seus irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas; um conflito interno que estaria sendo fomentado e financiado por interesses ocidentais, segundo o presidente sírio.

A humanidade SEMPRE esteve a desafiar a vida é a desprezar o outro, como se o outro não fosse tão importante quanto eu, apesar das nossas diferenças.

Dai a necessidade de falarmos sobre a Cultura da Paz e pensarmos num mundo novo.

A Cultura de Paz é um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados no respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não-violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação; no pleno respeito aos princípios de soberania, integridade territorial e independência política dos Estados e de não ingerência nos assuntos que são, essencialmente, de jurisdição interna dos Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e o direito internacional; no pleno respeito e na promoção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais; no compromisso com a solução pacífica dos conflitos; nos esforços para satisfazer as necessidades de desenvolvimento e proteção do meio-ambiente para as gerações presente e futura; no respeito e promoção do direito ao desenvolvimento; no respeito e fomento à igualdade de direitos e oportunidades de mulheres e homens; no respeito e fomento ao direito de todas as pessoas à liberdade de expressão, opinião e informação; na adesão aos princípios de liberdade, justiça, democracia, tolerância, solidariedade, cooperação, pluralismo, diversidade cultural, diálogo e entendimento em todos os níveis da sociedade e entre as nações.

Essa é a reflexão de hoje.

terça-feira, 19 de julho de 2016

UM CORAÇÃO ACOLHEDOR

A indiferença é um dos piores e mais dolorosos sentimentos que alguém possa imaginar e sentir. É um grande mal presente em muitos âmbitos da vida e da sociedade moderna. Ocorre no mundo do trabalho. Perpassa o campo da moral. Manifesta-se nas relações sociais, religiosas e políticas. Na economia provoca e causa explorações. A indiferença exclui milhões de pessoas. A sua contrapartida é o gesto de acolhida. Através dele as pessoas podem transformar a sociedade.

A pessoa é um ser relacional. Em qualquer espaço e tempo a pessoa estabelece relações. Diariamente cruza-se com muitas pessoas, sejam elas conhecidas ou não. As relações interpessoais, sejam elas formais ou informais, se multiplicam nos compromissos e nos afazeres cotidianos. Na vida em contexto de urbanidade a pessoa torna-se sempre mais um ser relacional. Ademais, com o invento da internet ampliou-se o campo das relações. Por meio eletrônico estabelecem-se novas relações que transcendem a relação física. No mundo das relações, umas comunicam vida e valores enquanto outras, às vezes, são ignoradas e menosprezadas. Ocasionalmente, na relação interpessoal, acontece o desqualificar da importância do outro.

Cientes de que o ritmo da vida moderna caracteriza-se por forte individualismo onde ninguém tem tempo de escutar o outro, acaba-se por supervalorizar a dimensão subjetiva. Neste sentido, as relações acontecem principalmente em termos circunstanciais e em menor grau num contexto de realização e de afeição do ser humano. Nesta perspectiva associa-se a felicidade ao prazer subjetivo, incluindo o utilizar-se de pessoas para este escopo. Há, então, relações que acontecem na rota do interesse pessoal e no jogo do sistema, ou seja, na indiferença.

A sociedade do sistema da vantagem promove a competição com o próximo. Diariamente as pessoas são submetidas à condição de manifestar relações insignificantes. O atual sistema do ganhar e do lucrar diminui a grandeza das relações humanas. Isto é notório nas torcidas de futebol, nos conflitos entre as nações, na divisão política da sociedade, na intolerância religiosa, social, cultural e étnica.

Em mundo urbano vive-se rodeado de pessoas, por vezes vazias de sentimentos e distantes de afeições. Hoje imigrantes, desfavorecidos, minorias e indígenas são exemplos de seres humanos colocados à margem da sociedade. A indiferença só traz dores e sofrimento. Para contrapor esta realidade, um gesto de acolhida tem muito poder, mais que a economia e o mercado juntos. Atitudes de acolhida, de proximidade, são formas de construirmos uma sociedade saudável para todos. Ademais, são atos que não exigem muito, apenas espírito de solidariedade, mente aberta e um coração acolhedor.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

PARA REFLETIR: ESCOLA SEM PARTIDO

Já foi dito e escrito tanto sobre a escola sem partido que, talvez, nada mais pode ser dito de novo. Mas a forma de dizer nunca se repete e por isso cá estou eu para não dizer que não falei de flores....

Minha percepção é de que esse tema pode ser sintetizado em 5 pontos:

1-Dos propositores: Quem propõe o debate e até possíveis leis inibindo, coibindo e punindo professores que supostamente doutrinam seus alunos são pessoas bem conhecidas na cena pública brasileira, alguns são vereadores e/ou deputados, e que têm em sua biografia posições marcadamente conservadoras e de direita. O que eles entendem por doutrinação é o que os outros fazem, no caso, os professores com perfil mais progressista e de esquerda. Não há nenhum intelectual ou professor de esquerda e progressista que veio à público para endossar o discurso dos propositores da Escola sem partido. Isso significa que a proposição é um caça às bruxas (professores/as de esquerda, no caso) como tantas vezes aconteceu na história.

2-Doutrinação: O que seria propriamente a doutrinação a ser evitada? Claro, a doutrinação seria ensinar Marx; ensinar que a ditadura foi nefasta para o Brasil; ensinar que os colonizadores que vieram para o Brasil cometeram genocídio e que a escravidão foi uma barbárie cometida pelos europeus, brancos, ricos; ensinar que a mulher é vítima de uma história de machismo patriarcal: ensinar que Fernando Henrique Cardoso comprou a reeleição e que a Dilma está sendo vítima de um golpe e que esse golpe não é nenhuma novidade, pois as elites brasileiras sempre a ele recorrem quando seus privilégios estão ameaçados etc, etc...

3-Ideologia: É fato que a doutrinação deve ser evitada, mas seriam os casos acima elencados, doutrinação? Não seriam tão somente um ponto de vista legítimo de ser ensinado e debatido, se for o caso? Em questões polêmicas será possível não tomar partido e defender uma perspectiva ideológica, mantendo saudavelmente uma posição firme, mas dialogal com quem pensa diferentemente? Se um professor de perfil conservador ensinar e debater esses temas não tomará uma posição ideológica favorável a um ponto e crítico ao ponto contrário? E isso não é saudável e intrínseco ao ato mesmo do conhecimento que sempre será limitado pelo lugar social, político e ideológico do intérprete? A questão, me parece, não é de ideologia, que todos têm e não há como pretender neutralidade, mas de postura dialogal, aberta e crítica exigida por qualquer mestre no ensinar.

4-Liberdade de pensamento e expressão: O maior perigo para uma sociedade democrática não são os professores que se posicionam ideologicamente frente aos fatos e acontecimentos, mas são os que pretendem regular e legislar, proibindo antecipadamente a expressão do livre pensamento. A contradição é flagrante. Logo os defensores do livre mercado são os que pretendem regular, coibir e punir o livre pensamento. O regulador, nesse caso, é o interlocutor, o estudante, que sabe distinguir posições embasadas em razões de posições dogmáticas que exigem adesão acrítica. Mas isso vale tanto para um lado quanto para o outro do espectro ideológico. E os estudantes não são bobos, não são passivos e coitadinhos que se deixam levar pela ideologia do professor. Só quem nunca entrou numa sala de aula pode pensar que é possível doutrinar os jovens de hoje...

5-Bom senso: A sala de aula não é um lugar para cerceamento do pensamento e tabus previamente definidos. Os professores não são imbecis, idiotas e irresponsáveis que não sabem o lugar que ocupam no processo da formação das subjetividades e do conhecimento. Os professores são preparados para serem professores, diferentemente de alguns políticos que sequer são preparados para serem políticos e pretendem regulamentar e cercear a liberdade de pensamento de professores. Deixem os professores em paz. Eles não são crianças que precisam de uma lei externa que os punem em caso de desvio ou transgressão do bom senso no ato de ensinar. Somos adultos e responsáveis. E suficientemente sabedores do papel de orientadores-facilitadores na construção do conhecimento e não doutrinadores. O resto é devaneio de aprendizes do fascismo...

domingo, 17 de julho de 2016

SENHOR: CURE A NOSSA SURDEZ

Não é absurdo imaginar que no Jardim Terreal, Adão e Eva, após a primeira crise, ficaram uma semana sem conversar. Mais do que isto: cada um sem querer escutar as razões do outro. Essa doença continua hoje. Madre Teresa de Calcutá diz que a maior doença de nosso tempo é a incapacidade de escutar o outro, aceitá-lo assim como é e amá-lo. Continuamos não levando em conta a sabedoria da natureza que nos deu uma boca e dois ouvidos. Todos querem falar, mas poucos de dispõem a escutar. Isso acaba criando o “diálogo dos surdos”, onde todos gritam e ninguém ouve.

Em função disto surgiu até a Associação Internacional da Escuta. Em média, revela o instituto, a maioria das pessoas passa entre 45% e 70% do dia escutando. O pior: sem escutar. Estão apenas esperando que o outro termine para dar seu ponto de vista. O mais grave é quando esta incapacidade de escutar acontece entre os casais. É ainda a Associação Internacional da Escuta que garante que a maioria dos casais tem, em média, nove minutos diários de conversa significativa.

Em média, falamos de 125 a 180 palavras por minuto. Nossa capacidade de escutar vai além. Conseguimos escutar de 400 a 500 palavras por minuto. Isso desde que estejamos dispostos a escutar. Muitas vezes, a conversa entra por um ouvido e sai por outro. As mães têm experiência disso quando afirmam: “eu já te disse isto mil vezes...”.

A palavra, proferida e ouvida, tem valor medicinal. Ela acolhe, envolve e cura. Isto quando há olho no olho. Entendem bem disso os namorados, que partilham, verbalizam, até os mínimos detalhes. Cada palavra é um tesouro escondido, que descobrimos ou não. Muitas vezes, depois de casados, aquelas confidências, aquela cumplicidade, terminam. E as pessoas se tornam estranhas.

Mahatma Gandhi observava que as pessoas, ao discutirem, gritam. Isso porque os corações estão longe. Escutar da verdade é ouvir com o coração. Muitos desejam ser escutados e não esperam por uma resposta ou solução. O fato de serem escutadas é tudo.

O péssimo hábito de muito falar e pouco escutar afeta também o modo de rezar. Num palavreado artificial, decorado, tentamos dizer a Deus o que Ele deveria fazer. A Bíblia nos diz que o começo do encontro com Deus é a escuta: “Ouve, ó Israel, o que Deus vai falar”  ou “Fala, Senhor, que teu servo escuta. Em nossa oração devemos pedir ao Senhor, que já fez isso muitas vezes, que cure nossa surdez.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

TROCAR INDIFERENÇA POR SOLIDARIEDADE.

Mais ou menos intensa, a fome é sempre um alerta e uma ameaça à vida. Há tantos que sabem e buscam esclarecer, sempre mais, as causas e as consequências da fome. Busca-se mapear e computar dados estatísticos, que confirmam o aumento sempre maior dos índices deste drama da humanidade.

A fome é um escândalo que dura demasiado tempo, como realidade que destrói a vida. Com razão afirmava João XXIII: “Não haverá no mundo justiça, nem paz, enquanto os homens não tomarem a sério a dignidade de criaturas e filhos de Deus, primeira e última razão de ser de toda a criação”

Um médico, competente e muito humano, registrou e publicou num jornal este depoimento: “Na semana passada, convivi com um paciente que é símbolo de nossa pobreza social: uma vítima da silicose, essa doença que destrói os pulmões pela inalação repetida de pó de pedra que mutila milhares de infelizes trabalhadores braçais... Perguntei-lhe se não pensava em fazer outra coisa e o paciente respondeu: ‘O problema, doutor, é que no sertão nós somos muitas vezes obrigados a escolher entre a fome e a falta de ar. Acabamos escolhendo a falta de ar, porque a fome mata mais rápido!”

A fome mata com rapidez a energia para reagir, as esperanças, os sonhos e a própria vida. O desequilíbrio social e econômico, provocado pela corrupção, a ganância, a injustiça e a sedução do acúmulo, provocam a fome de multidões e mortes, que podem ser consideradas verdadeiros homicídios. O profeta Amós  denunciava com veemência o empobrecimento do povo, causado pelos comerciantes que se diziam observantes do sábado e da lua nova, mas ávidos do lucro.

Um cristão anônimo, consciente de sua responsabilidade, dizia: “Quando tomo conhecimento de que os famintos e necessitados poderiam caminhar ao redor do mundo em um cortejo que daria vinte vezes a volta ao planeta e, assim mesmo eu não me espanto e nada faço, então eu sou Caim”.

É muito difícil e até quase impossível precisar o número de vítimas por causa da fome. Porém, afirma-se que, no mundo, diariamente morrem 120 mil pessoas de fome. Diziam os antigos: “Alimenta ao que morre de fome, porque se não o alimentaste, mataste-o”.

O Conselho Pontifício, lançou um documento que continua sendo atual. Tem como título: “A fome no mundo um desafio para todos: o desenvolvimento solidário”. Além de situar causas da fome, aponta luzes para sua superação:

. A busca da maior eficácia na gestão dos bens terrestres;

. Maior respeito pela justiça social consentida na destinação universal dos bens;

. Uma prática competente e permanente da subsidiariedade;

. O exercício da solidariedade que impede a apropriação dos meios financeiros por parte dos ricos e que permitirá a cada pessoa não ser excluída do corpo social e econômico, nem privado de sua dignidade fundamental.

. A superação da cultura da indiferença pela cultura da solidariedade.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

AS RAZÕES DO DO DILÚVIO

Esta noite sonhei com uma alegoria que ouvi em um balcão de pedra de um bar de um embarcadeiro no porto de Castro Urdiales, na Cantabria, Espanha, na década de 1980.

É um pequeno relato – cruel – que versa sobre a demonização e a imprevidência da esquerda e a arrogância e "esperteza" do velho oportunismo da direita – que se repete várias vezes, na História – em seu caminho, a qualquer custo, para o poder.

Foi assim que o ouvi de um velho pescador, ex-combatente anarquista da Guerra Civil Espanhola, chamado Manolo Ouriges.

E é assim que o repasso a vocês agora, com algumas pequenas – e perdoáveis – adaptações:

Dizem que, dias depois de dar a Noé as famosas – e precisas – instruções de construção da Arca, Deus estava distraído, de pé em um rochedo no topo da montanha mais alta, observando o trabalho do velho seguidor – agora convertido em marceneiro – e de seus filhos, em um constante serra, corta, bate, cola, quando sentiu uma presença estranha.

- Pode aparecer. Já sei que você está aí, atrás da rocha – disse, advertindo-se da aproximação do demo por um leve, característico, aroma de enxofre.

Em resposta, o outro abaixou, para que pudessem conversar, o capuz vermelho que lhe cobria o rosto e a barba. E colocou-se ao seu lado para observar também o vai-e-vem das figuras que se movimentavam lá embaixo, pequenas como formigas.

- Então você – disse, depois de algum tempo, o demônio – vai mesmo fazer essa loucura....

- Vou – disse Deus, impávido, o queixo duro apontado para a frente – vou destruir tudo o que existe. Ou quase tudo.

- Mas você vai acabar com todas as coisas – disse o Anjo Decaído – Isso tem algum sentido? E começou a contar, batendo com o pé no chão:

Com as grandes empresas...

- Sei, mas isso não vem ao caso... Respondeu Deus, olhando-o de cima, impávido e e indiferente.

- Com milhares de empregos....

- Já sei, mas isso não vem ao caso...

- Com o valor das grandes companhias e de suas ações....

- Sei, mas isso também não vem também ao caso...

- Com o patrimônio e o futuro dos acionistas e investidores...

- Sei, mas isso também não vem ao caso...tornou o Senhor.

- Com os negócios de centenas de pequenos e médios fornecedores...

- Sei, mas isso também não vem ao caso...

- Com os grandes projetos de infraestrutura, de energia e de defesa que estão em andamento....

- Sei, mas isso também não vem ao caso...

- Com a reputação dos políticos e de todos os partidos...

- Sei, mas isso também não vem ao caso...

- Com até mesmo os seus seguidores...

- Sei, mas isso também não vem ao caso...

- E com a vida de milhões de pessoas.

- E isso também não...vêm ao caso – pontuou o Divino, finalmente, conclusivo e enfático.

- É... – exclamou o demônio, pensativo – isso vai ser uma coisa dos diabos!

- Mas e não é justamente essa a ideia? Quero que seja você que leve a culpa por tudo, ou melhor, por quase tudo.

- Mas se fui eu que multipliquei o PIB, a renda per capita e o salário mínimo nestes últimos 13 anos, diminuí a dívida bruta e a líquida, paguei a dívida com o FMI, economizei 370 bilhões de dólares em reservas internacionais, fiz quase 3 milhões de casas populares, plataformas, navios, refinarias e hidrelétricas, submarinos, cargueiros militares, mísseis, caças e fuzis de assalto, descobri petróleo no fundo do mar, tripliquei a fabricação de automóveis e dobrei a safra agrícola... até a Copa do Mundo e as Olimpíadas – suspirou, tristemente, Lucífer – eu trouxe para cá...

- Mas não soube "vender" nem explicar nada disso – cortou o Senhor, bruscamente –. Consequentemente, não me venha com vitimização, nem mimimi e nem lamúrias. Você sabe que agora ninguém mais se lembra do que você fez nem sabe do que você está falando.

- Mas para que fazer isso? – repetiu o pobre diabo, exibindo todo seu espanto e inconformidade, apontando para as montanhas e cidades, no horizonte, como se já as visse cobertas por um oceano. – Assim, tudo irá por água abaixo, tudo o que existe...

- Tudo, não.

Vão sobrar essa arca, os bichos, a família de Noé, e água, muita água, que depois refluirá para os pólos, transformando-se em gelo.

E o Marketing, bastante marketing também, é claro.

- O Marketing? Não entendi – perguntou-se o outro, intrigado – se depois não vai ficar, praticamente, pedra sobre pedra...

- O marketing, meu caro. Não seja burro. Você já ouviu falar de Luiz XV?

- Você está se referindo a um rei francês que vai nascer daqui a muitos séculos?

- Exatamente. Dizem que, entre outras coisas, ele vai ficar conhecido por uma expressão famosa.

- Que expressão é essa? – perguntou o diabo.

- "Aprés moi, le Delúge" – Depois de mim, o Dilúvio – continuou o Senhor, em tom professoral –, querendo afirmar, esse grande soberano, que, após sua morte, pode chover até canivete que isso não vai lhe interessar ou preocupá-lo nem por um instante.

Pois, no meu caso, a base do plano é exatamente a inversa.

- Como assim – indagou o diabo – tentando entender o sentido do que queria dizer o altíssimo.

- Como não pretendo morrer, muito pelo contrário, Avant moi, le Déluge – Antes de mim, o Dilúvio... – disse Deus, com um gesto imperial, recolhendo a aba da capa preta, os cabelos fustigados pelo vento. Culparei você pela corrupção e a corrupção pelo desemprego e pela crise, independentemente de problemas nas maiores economias do mundo ou da queda do valor do petróleo, ou das multas bilionárias que irão cair como um meteoro sobre as maiores empresas, e transformarei todos os que existem agora, sem exceção, em pecadores sujos, perversos, devassos e ladrões, para que todos entendam que não existe salvação na Política.

Que não existe salvação para além de mim, o Todo-Poderoso!

E me transformarei no cavaleiro vingador que distribuirá trovões a "tortos" e a "direitos", e que afogará e aprisionará a tudo e a todos – menos aqueles que cumprirem o meu plano – em um avassalador e purificador tsunami de justiça!

- Mas existem outros – tornou o diabo, cofiando novamente a barba – que estão usando o mesmo discurso que você, não se iluda...

- Não se preocupe – disse o onipotente – impávido e resplendoroso. Esses também serão arrasados, quando chegar a hora.

E, levantando os braços para o horizonte, proclamou:

Só poderá haver um "Mito"!

Eu mesmo!

E sua voz rebombou e rebombou, reverberando pelos vales e montanhas.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

UM CORAÇÃO DE CRIANÇA

Os laços de amizade provocam encontros, fortalecem a pertença, desencadeiam esperança. O tempo dedicado ao cultivo da amizade é um excelente multiplicador. Quem tem amigos, tem mais chance de estampar a felicidade, de iluminar o coração. Num dia desses, a agenda permitiu uma breve visita do pároco a uma família: casal com dois filhos e mais a amável avó. No intuito de otimizar o tempo, o encontro, para ficar dentro do padrão, deu-se ao redor da mesa. Ao ingerir os alimentos, os olhares se encontram, as palavras confirmam o vai e vem, na construção do diálogo. A mesa é sagrada. Hás tantos ganhos ao sentar à mesa. O alimento, muitas vezes, é apenas um detalhe, uma inteligente desculpa.

Lá pelo final da refeição, a filha, muito comunicativa e encantada com a espiritualidade, rezou a Ave-Maria em italiano, a pedido da avó. Algo singelo e emocionante. A felicidade dos pais estava notavelmente estampada no semblante que se iluminou. Em seguida, fui convidado a folhar o livro do Papa Francisco, uma compilação de perguntas de crianças do mundo inteiro. As respostas do Pontífice fazem daquela obra um hino à inocência, que pode e deve acompanhar as diversas idades. A espiritualidade é uma dádiva que alcança ternura e fortaleza à existência.

Enquanto o olhar continuava atento às páginas daquele maravilhoso exemplar, a inteligente menina manifestou com a palavra e com o semblante: ‘eu não entendo o que é mesmo o Reino de Deus.’ Participante da catequese, estava intrigada com essa expressão. Talvez já tivesse ouvido algo próximo de uma explicação, mas não estava satisfeita. Tomou a liberdade de me abordar, na tentativa de dirimir a dúvida. O pároco usando de analogia, explicou que Jesus veio inaugurar uma outra forma de pertença, um Reino bem diferente dos demais. A paz, a justiça, a solidariedade e o perdão são características a serem cultivadas para os membros desse Reino. Talvez o esforço da explicação possa render ainda alguns frutos. O intuito foi deixar aberta a possibilidade de outras perguntas.

Ter perguntas nunca será um problema. Pelo contrário, as indagações provocam proximidade para com a verdade. Em todos os tempos, o Reino de Deus suscitou questionamentos, provocou elaborações, estimulou a imaginação. É maravilhoso perceber que, mesmo com tantos outros atrativos e meios, a catequese dinamiza a fé e abre a possibilidade de compreender e acolher as palavras de Jesus. Saí daquele lar disse o religioso,com a certeza de que Deus continua apostando num coração de criança.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

ONDE ESTÃO MEUS AMIGOS ANTI-PETISTAS?

Meus amigos anti-petistas

São muitos e são pessoas de bem. Sensatos, racionais, conscientes de seus direitos e deveres.

Nunca foram muito de política, apenas cumpriam seu dever cívico de votar, de acordo com suas próprias 'tendências' e 'consciência', quase sempre moldadas ao sabor das informações captadas nos jornais televisivos e revistas panfletárias.

Nesse embalo, se empolgaram com Collor de Mello, foram na onda do plano cruzado de Itamar Franco e votaram em FHC, enquanto o conservadorismo genético impôs o nome de Serra, Alckmin, Aécio.

Mas, sejamos justos, alguns deles andaram simpatizando com o carisma de Lula, além de curtirem as consequências de um PIB crescente de 2 trilhões e 300 bilhões (era de 500 bi), uma inflação de 4,5% (saiu de 12%), a segurança de uma reserva cambial de 380 bilhões(era de 30 bi).

Por outro lado, a minguada sensibilidade social dos meus amigos, jamais permitiu que eles se empolgassem com aquela história de 35 milhões de brasileiros dando tchau pra miséria e pobreza. Até porque, essa informação nunca chegou para eles com muita nitidez.

Meus amigos anti-petistas são, graças a Deus, sobretudo éticos e, dentro dessa ética, ficaram decepcionados com as primeiras notícias do mensalão. À medida que seguia o julgamento e o bombardeio midiático, a decepção foi-se transformando em raiva e rancor. E ao fim de dois anos de linchamento, chegaram o ódio e a intolerância. Tornou-se então perigoso andar de vermelho nas ruas brasileiras.

O mais admirável é que eles, cidadãos de bem, que nunca se amarraram em política, de repente foram às ruas a gritarem; foram às sacadas dos apartamentos a baterem vigorosas panelas; enrolaram-se em bandeiras a cantarem o hino nacional, num belo exemplo de vigor cívico. E muitos foguetões e buzinas a perturbarem o nosso sono, quando a câmara federal iniciou a destruição de 54 milhões de votos.

Tudo isso, registre-se, em favor da ética e contra a corrupção na política nacional.

Muitas palmas para os meus amigos anti-petistas!

Ocorre que, passada a euforia foguetória, a realidade chega em forma de uma bomba de Hiroshima: o impeachment, na verdade foi um nauseante golpe ( muito engulho na imprensa internacional ),urdido nas entranhas do PMDB e escancarado nas conversas gravadas dos morubixabas, Jucá, Renan, Sarney. Uma justiça justa e os três seriam presos em pleno senado, conforme o petista Delcídio.

No conluio, dois objetivos cristalinos: subir a rampa do Planalto e "estancar a sangria da Lava jato" .

Sai de cena o mensalão petista, entra na passarela os 71 milhões de doações ilegais peemedebista.

Do poder, desapeia-se o PDT de Brizola, monta o DEM de muitas propinas veiculares; afasta-se o PCdo B de Jandira Feghali, entra o PSDB da privataria, da lista de Furnas, da compra de votos para reeleição etc, etc, etc.

Cai Dilma Rousseff, sem máculas no seu currículo de vida pública, se pendura Michel Temer, com sete ministros na mira do MP, duas delações na Lava jato e um milhão e meio de doações ilegais.

E na trincheira anti-petista, recolheram-se bandeiras, emudeceram panelas, calaram-se todos os gritos

O que terá acontecido com o fervor cívico e o furor ético dos meus amigos?

domingo, 10 de julho de 2016

MATA-SE POR QUALQUER COISA

Mata-se muito no Brasil. Matam pela cor da pele do menino que sai de casa com um saco de pipoca e matam aqueles que praticam sua sexualidade de forma livre, como o século 21 permite.

Matam mulheres por serem mulheres. Agridem, asfixiam, violentam. Somem com elas. As estatísticas se avolumam ano a ano, mostrando que a luta contra a intolerância é uma guerra constante em nosso país.

A OMS já emitiu um alerta quando o assunto é a morte de brasileiras. Com um registro de 4,8 mortes a cada 100 mil mulheres, o feminicídio nos coloca na vergonhosa e inaceitável quinta posição do ranking mundial de "mortes de mulheres por serem mulheres". Quando há o recorte étnico, esse número se torna mais assustador. Segundo o Mapa da Violência sobre homicídios no público feminino, de 2003 a 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875.

Os casos de violência doméstica ou estupro dos últimos meses mostram isso e ainda há um enorme trabalho a ser feito quando o assunto é conscientização de nosso povo. Quando uma jovem foi violentada por mais de 30 homens na periferia do Rio ou quando a ex-modelo Luiza Brunet teve quatro costelas quebradas pelo ex-marido, vê-se que essa cultura patriarcal, misógina e machista ainda está impregnada em diferentes nichos de nossa sociedade.

A homofobia e o racismo também vêm saindo do armário em velocidade surpreendente. O jovem estudante Diego Vieira Machado, de 24 anos, encontrado morto às margens da Baía de Guanabara, no campus da UFRJ, é mostra disso. Mata-se inclusive por ser negro, homossexual e pobre.
Num país em que o Parlamento brasileiro tem bancadas obscurantistas, que veneram o escárnio às minorias ou pregam o ódio com normalidade, faz-se urgente um chamado à sociedade para que ajude-nos a impedir retrocessos, avançar com pautas propositivas e que ampliem direitos. Não há a menor condição de que não haja uma reação política em nosso país frente aos absurdos que são registrados dia a dia.

Para enfrentar esse cenário, é preciso desfazer hierarquias sociais naturalizadas que sustentam a superioridade dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros, dos heterossexuais sobre os homossexuais. É necessário também reverter a ruptura democrática que vivemos há dois meses. Com a chegada de um governo ilegítimo no poder e sem votos, fundamentado por conservadores e a extrema-direita criminosa, secretarias representativas quanto aos direitos humanos foram extintas e o orçamento de suas políticas públicas cortado. Lutar contra o golpe em curso no Brasil também é lutar por maior proteção de nossas minorias. Chega de mortes diárias por absurdos. A vida vale muito.

sábado, 9 de julho de 2016

A ÁRVORE DA MORTE

Imagina-se em uma praia paradisíaca, areia branca, palmeiras balançando e mar azul turquesa. Ao fundo dessa paisagem, uma grande árvore, com farta sombra e frutos, que parecem maçãs, ao seu redor. Excelente lugar para proteger-se do sol e ainda fazer um lanche. Porém, tal atitude, colocaria sua vida em risco!

A mancenilheira da praia é uma planta nativa da América Central e das ilhas do Caribe, que cresce desde a costa da Flórida, nos Estados Unidos, até a Colômbia. Todos os seus componentes são de extremo perigo, tanto que em alguns lugares sua presença é alertada por cruzes vermelhas e placas.

A “árvore da morte” é fortemente cáustica. Sua seiva leitosa contém forbol, um componente químico muito perigoso. Só de encostar na planta, a pele humana pode adquirir queimaduras de terceiro grau. Refugiar-se debaixo dos seus galhos durante uma chuva tropical também pode ser desastroso, porque até a seiva diluída pode causar feridas graves na pele.

Queimar essas plantas também não é boa ideia: a fumaça pode cegar temporariamente e causar sérios problemas respiratórios. No entanto, a ameaça real, que pode levar à morte, vem da sua pequena fruta redonda. Comer o fruto, que parece uma saborosa maçã, pode causar vômito e diarreia tão severos que podem levar à uma desidratação letal. Pesquisadores dizem que cada fruto pode matar até 20 pessoas.

É tão nociva que os nativos envenenavam suas flechas com a seiva da mancenilheira. O Guiness Book, o livro dos recordes, classificou a mancenilheira da praia como a árvore mais perigosa do mundo.

A planta, no entanto, também tem o seu lado bom: ela é utilizada, desde a época colonial, para fazer móveis. Acredita-se que a sua seiva venenosa se neutraliza quando seca ao sol.

Há documentos que mostram, entre outras coisas, que a borracha da casca já foi usada para tratar de doenças venéreas a retenções de líquidos na Jamaica. Além disso, as frutas secas eram usadas como diuréticos.

Bugre – O Brasil também tem árvores nocivas. Entre elas, a aroeira-de-bugre ou bugreiro, que ocorre em diversos estados do país, inclusive na região Sul, bem como na Argentina, Bolívia e Uruguai.

A árvore tem potencial altamente alergênico. Ao entrar em contato com a planta, mesmo que seja somente passar próximo dela, o indivíduo pode sofrer graves erupções cutâneas, que perduram por diversos dias.

A aroeira-de-bugre tem flores melíferas, que produzem pólen e néctar. Florescem entre os meses de setembro e outubro e produzem frutos entre novembro e fevereiro. Suas flores são pequenas, branco-esverdeadas e agrupadas. A árvore pode atingir até 15 metros de altura e diâmetro de aproximadamente

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A VIDA EM TRÊS MOMENTOS.

Todos nós, conscientes ou não, caminhamos envolvidos pelas ondas do tempo. Simples e misterioso, o tempo está sempre presente e, ao mesmo tempo, se esconde. Todos sabemos o que o tempo é, mas não sabemos explicar, quando nos perguntam. Impossibilitados de definir o tempo, nós o fatiamos. E por isso falamos em passado, presente e futuro. Falamos de horas, dias, meses, anos e séculos, a partir da corrida louca de nosso planeta Terra ao redor da majestade do Sol.

Mesmo assim, podemos situar três momentos em nosso agir: antes, durante e depois. A sabedoria é saber qual o peso dar a cada um desses momentos. Por vezes, é o antes, outros vezes o durante, em outras situações vigora a majestade do depois. Embora o tempo seja precioso - dizem que vale ouro -, a pressa não ajuda na realização desses três momentos.

O casamento pode ser um bom demonstrativo. Antes é o namoro, os preparativos, os sonhos; durante é o menos importante dos três, é um momento breve e fugaz; o depois é para sempre. O Evangelho orienta sobre o antes e recomenda construir sobre a rocha. Neste caso, a rocha contrapõe-se à areia. Construir sobre as areias é mais cômodo, é fácil e rápido. São, sobretudo, as razões do coração.

Nós nos amamos e isto basta, proclamam os namorados. No encanto mágico do amor primaveril, não acreditam que o inverno pode vir. O antes, sobretudo para os que vêm no matrimônio, um sinal sagrado, é o momento de visualizar um projeto orgânico definitivo, onde as realidades práticas da vida a dois são contempladas. Este período não pode ser muito apressado. O amor pode ser à primeira vista, mas é a reflexão que o faz amadurecer.

Aí chega o sonhado dia do durante, a festa de casamento. A longa preparação, com mil detalhes, nem sempre de bom gosto, se esvai em meia hora. Depois vem festa, os comentários, a lua de mel...e o depois. O depois, que precisa ser construído no dia a dia, com renúncia e paciência. Se o antes e o durante aconteceram no céu, o depois acontece na terra.

O mesmo critério vale para o Sacramento da Reconciliação. Existe o antes, momento de avaliação, que precisa ser sereno e realista, existe o durante, quase uma formalidade. Significa dizer que ele quer, ele vai mudar. E existe o depois, que é o tempo dos frutos. Nosso coração é importante, devemos levá-lo sempre conosco, mas não podemos esquecer a razão. Vale para o casamento, para a conversão, para a arte de viver

quinta-feira, 7 de julho de 2016

AMAR COM AS MÃOS.

Há um certo consenso quanto à velocidade dos dias. Não são poucos os que expressam e até lamentam que o tempo esteja passando tão rápido. O volume de informações já alcançou o teto máximo. Impossível tomar conhecimento de um pouco de cada coisa. O desafio é ser seletivo, sem descartar o essencial. Viver é um exercício dos mais exigentes, uma ginástica de mil movimentos. A instantaneidade roubou a paciência e deixou à margem a persistência. Talvez a única saída repouse na capacidade de reinventar-se. Sim, viver é ser capaz de reconstruir a vida situando-a num novo tempo, permitindo outras buscas, interagindo com incontidas transformações.

Em meio à complexidade de tal cenário, a busca por certezas não pode ficar no esquecimento. Ninguém percorre extenso caminho sem saber se é possível chegar à meta. Talvez o impasse não esteja na realidade, tantas vezes desencontrada pela falta de ética. O desafio é profundamente existencial. Fascinado pelo consumo e pelas descobertas tecnológicas, o ser humano parece ter perdido a identidade. Nem todos levam jeito para responder a mais crucial das questões: ‘quem eu sou?’ A sensação de indefinição aumenta se outra interrogação for acrescentada: ‘o que vim fazer neste mundo?’

Uma adequada elaboração intelectual só se justifica se houver possibilidade de alcançar a realidade. As teorias são sempre iluminadoras, mas necessitam ser objetivadas. Não é difícil encontrar algumas palavras para explicar o sentido da vida. O desafio, porém, está em viver uma vida repleta de sentido. A demora pode se estender, mas, cedo ou tarde, a existência se encontra com o amor. Viver é amar. Estar nesse mundo só se justifica pela capacidade de amar. Longe de ser um romântico sentimento, o amor passa pelas mãos. Ninguém ama verdadeiramente se permanecer atrelado às palavras.

Amar com as mãos é a melhor e mais coerente resposta que alguém pode dar às questões existenciais. Uma pessoa é, no final de tudo, o que ela ama. Fazer o bem é uma expressão de ternura e de amor. O sentido da vida é construído na vivência do amor. Ninguém deveria cansar de amar. Afinal, a vida vale a pena pelos gestos de amor que vão sendo somados, ao longo do tempo. Que as mãos estejam repletas de amor, para que o coração experimente a intensidade da paz.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

VAMOS SENDO JULGADOS POR NOSSAS OBRAS.

Se “no entardecer da vida seremos julgados pelo amor”, é no percurso da vida que nossas obras vão nos julgando se somos misericordiosos ou não. A grandeza humana que vai tecendo a santidade de uma vida e aproximando-a da medida de Cristo não acontece de improviso. As obras cotidianas de misericórdia revelam a autenticidade de fé e de amor de uma pessoa. Assim entenderam e viveram os grandes santos e santas, cujos nomes a história da humanidade não esquece.

Confirmando o que foi dito, registro aqui uma prece da Madre Tereza de Calcutá: “Ó Senhor, faz com que hoje e em cada dia eu saiba ver-te na pessoa dos teus enfermos e que, oferecendo-lhes os meus cuidados, te sirva a Ti. Faz com que, embora oculto sob um disfarce pouco atraente de ira, arrogância ou demência, eu siba reconhecer-Te e dizer: Ó Jesus, meu doente, como é doce servir-te. Dá-me, ó Senhor, esta visão de fé, e o meu trabalho nunca será monótono. Experimentarei sempre a alegria embalando as pequenas veleidades e os desejos de todos os pobres que sofrem. Ó queridos enfermos, ainda me sois mais queridos por representardes Cristo. Que grande privilégio é poder servir-vos”.

Paul Claudel nos diz que para compreender uma vida, como para compreender uma paisagem, é necessário escolher bem o ponto de vista. Para nós, humanos, o melhor ponto de vista é a morte. A partir da morte avaliamos o conjunto dos acontecimentos de nossa história. Em que vale a pena investir? O que garante o sucesso de uma vida? O que mesmo eterniza uma vida? O posicionamento da vida muda conforme o posicionamento diante da morte. Nossas obras vão nos julgando.

No Evangelho de Mateus 25, Jesus mostra que o êxito da vida vai sendo confirmado pela prática da misericórdia. Não se trata de uma filantropia genérica, que também tem seu valor. Não se trata só de compaixão por aqueles que sofrem. Esta reação não basta. Ter ideias e estratégias para mudar o mundo pode ser um sonho bom, mas não suficiente. O aprendizado da misericórdia só é possível a partir do encontro com Jesus Cristo. É Ele que garante um novo horizonte de sentido à vida e às obras e, com isso, uma orientação decisiva.

Para a hora da verdade da vida e para o momento supremo da pessoa, Cristo revela com clareza quais são os critérios decisivos de salvação ou condenação. Todos passaremos pelo mesmo teste: o amor em atos e em verdade. O juízo desenrola-se conforme um único critério válido para todos. Até mesmo o ateu pode percorrer as ruas do mundo sem encontrar aparentemente a Deus, mas não pode deixar de cruzar com o próximo em necessidade.

Diante de Deus não importa um “curriculum vitae” com belos títulos de celebridade, ou uma lista de sucessos: “ Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos tantos milagres? Então eu vou declarar a eles: Jamais conheci vocês” (Mt 7,22-23).

terça-feira, 5 de julho de 2016

A FACE DA CRISE

A palavra mais pronunciada em nossos dias é crise. A crise é assunto em todos os telejornais. Está na boca do jornalista, do político e do povo. Está na antessala do empresário. Presente no prato do pobre. O mundo parece estar subjugado pelo seu poder. Ela parece ser a vitoriosa, mas eis um engodo.

“O mundo está em crise”. É de compreensão geral. Contudo, o critério de aceitação é atribuído pelo baixo índice de crescimento econômico. Pelo índice mensura-se o tamanho da crise. O mundo é visto apenas sob um olhar, o econômico. As outras dimensões da vida estão subservientes ao dinheiro. Nisto há o reducionismo de compreensão da situação mundial. A vida humana está para além da taxa de crescimento econômico, pois tem um valor imensurável. A civilização não pode ser mensurada pelo mercado, que é medido por seus rendimentos e perdas.

Na realidade trata-se de uma crise de consumo. O consumismo é um estilo de vida nada seguro. Não havendo consumo não há necessidade de produção. Vende-se pouco, pouco se consome. Toda crise questiona a lógica das coisas e da vida. Uma explicação do atual cenário é a globalização da economia que centraliza as condições de consumo nas classes sociais abastadas. Noutra leitura, nas entrelinhas da crise há privilégios para poucos e carência para as multidões.

Neste cenário de um mundo globalizado e hegemonizado por forças conservadoras transnacionais, qualquer ação política que proponha uma mudança de lógica de vida e de sociedade geral é combatida e levada ao fracasso. Hoje, superar a crise neoliberal requer uma submissão política e social global, sendo uma derrota dos sistemas democráticos e do estilo de simplicidade da vida. Nenhum político que pense ao contrário desta força hegemônica conservadora mundial haverá de governar, sobretudo em continentes pobres como o latino-americano. Hoje, são quase nulas as vozes de lideranças religiosas e dos movimentos populares, organizações sociais de pressão contra esse sistema. Conta, a favor do mercado, o capital e sua estrutura concentrada em poucas mãos ou nas de pequenos grupos. Além disto, a mídia aniquila toda força de reação coletiva. Se não bastasse tudo isto, as nações pobres são desprovidas de condições de desenvolvimento autossustentável.

Obviamente, neste cenário global, há uma revolução da classe neoconservadora, baseada na visão de que uma sociedade em dimensão coletiva inexiste. Só existe o indivíduo procede com a ideia da economia. Ainda há Estados soberanos, porém da democracia mínima. Tem-se um valor, mercado, que dá prioridade do sistema dominante. Livrar-se deste engano é pensar no primordial das pessoas e da sociedade.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

UMA PEQUENA CHAMA ACESA

Era um verdadeiro ritual. O respeito e a fé se uniam. As mãos se juntavam e os joelhos se dobravam. Uma vez por mês, com possíveis variações, a família vizinha entregava a capelinha de Nossa Senhora. Uma tradição tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda. De casa em casa ela passava, interligando os vizinhos, inspirando orações, elevando muitos corações. Exceto em algumas situações, a capelinha ficava uma noite e um dia em cada lar. Depois do jantar, a oração do terço reunia e unia em prece, as diferentes idades e gerações. Logo na chegada da capelinha, era providenciado um copo com água e azeite. Uma lamparina permanecia acesa o tempo todo. Uma pequena chama velava e convidava à iluminação.

Os tempos são outros. Em muitos lugares, sem nenhum ruído, a capelinha continua visitando as residências. A lamparina já não é mais a mesma. Outras luzes são acesas. Os eletrônicos aperfeiçoaram a forma de propagação da luz. Porém, fica a lembrança daquele copo com água e azeite e a pequena chama que se mantinha acesa durante todo tempo da visita. As orações uniam as famílias e eliminavam a distância entre vizinhos. Não havia outras distrações. Os únicos ruídos emanavam da natureza. O silêncio abraçava todas as dimensões. A vida era profundamente sentida, o sabor era mais concentrado.

Andando por muitos lugares, sinto vontade de ‘acender’ outras lamparinas. Há tanta ausência de luz e de esperança. Em alguns ambientes, a espiritualidade nunca adentrou. Em outros, a bondade foi substituída pelo egoísmo e a paz foi negociada pela ostentação. As palavras não bem pronunciadas têm roubado a alegria de muitos corações. Há uma clara urgência: procuram-se almas generosas para acender a chama do amor e da fé. Só assim a escuridão cederá espaço e a claridade entrará por todas as frestas, provocando verdadeira renovação.

As preces da infância povoam a lembrança. Acontece que o mistério era muito mais acolhido do que compreendido. A inocência permitia tantos sonhos, a imaginação não aceitava contornos. A transcendência estava mais próxima da consciência. Os anos passaram, ainda bem que a saudade conserva acesa a chama daquela simples lamparina. Ela jamais se extinguirá. A insistência em multiplicar a luz da fé tem rendido bons sinais. Todos buscam luz. A lamparina iluminará infinitos caminhos que conduzem ao céu.

NÃO CAIR EM TENTAÇÃO.

Gosto de pensar que somos todos do mal. Calma, tenha paciência e leia até o fim! Os que se dizem “do bem”, não passam em testes mínimos de boa conduta, monitorados por o mais elementar dos mecanismos de investigação. Não precisa de aparelho de escuta sofisticado para ouvir tramas mais ou menos diabólicas como tem sido a prática o âmbito público do nosso cenário político. Qualquer mecanismo de investigação é suficiente. Faça o teste.

Pode ser simplesmente escutar o vizinho ou a vizinha, ou os colegas de trabalho, de clube ou de instituição religiosa e teremos a medida da condição humana inclinada ao mal. Quem nunca mentiu? Quem nunca ficou com o troco a mais? Quem nunca falou mal dos outros? Quem nunca sonegou impostos ou falsificou notas para escapar do fisco? Quem nunca furou fila? Quem nunca adulterou produtos e mexeu na balança? Quem nunca invejou, odiou e desejou o enterro do desafeto? Quem nunca fez mal à natureza, aos animais, comendo-os? Quem nunca? Você nunca? Parabéns, anjo!

No âmbito da relação com o que é de todos, com o público, naquilo que configuramos como corrupção, como dizia Millôr Fernandes, não é difícil perceber que o “incorruptível é o que ainda não recebeu uma boa oferta”. Contudo, todos nos consideramos do bem, os maus são os outros. Não é assim mesmo?

Eu não, eu penso que somos todos do mal, inclusive eu.

Mas, compramos e vendemos aos outros a ideia de que somos “do bem”. Ninguém se diz do mal. Prende-se um corrupto e ele desmente as acusações e se diz inocente. Visite as prisões e estarás diante de pessoas que se dizem injustiçadas. Os estupradores acusam a vítima. Ninguém se declara homofóbico ou fascista. Contudo, eu penso que somos todos do mal, inclusive eu.

Somos mentes dissimuladas. A razão e a linguagem cumprem em nós a função de mascarar o real. Pela palavra revelamos o ser, mas pela mesma palavra dissimulamos e escondemos o que somos. E o que somos? Somos todos do mal.

Só a consciência de que somos do mal pode nos tornar melhores. Parece um paradoxo não? Não seria a consciência de que somos do bem que nos tornaria melhores? Não. Definitivamente não. Se achar do bem é autoengano.

Contudo, o mal não compensa. Só os do bem, vivem bem. Só os do bem têm amigos, os do mal tem cúmplices. Os do mal estão sempre desconfiados e um dia a casa cai. Então, melhor nos esforçarmos sinceramente para sermos do bem. Viver no bem, com ética, contra a nossa alma que teima em cair no mal, eis a forma mais eficaz de uma vida bem-sucedida. A longo prazo o mal não compensa. Vigie, portanto, para não cair na tentação