sexta-feira, 20 de outubro de 2017

RAÇÃO PARA POBRE.


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Ainda temos muito a falar sobre a ração que o prefeito de São Paulo, João Dória, prometeu fornecer aos pobres para erradicar a fome na cidade, com possibilidade de extensão do fornecimento para todo o território nacional. Não apenas pela falta de sensibilidade de quem elaborou o projeto e teve a coragem de apresentá-lo a sociedade, mas também pela quantidade de pessoas que apoia tamanho vilipêndio a dignidade humana. Entre elas, alguns líderes religiosos.

Assisti ao vídeo de lançamento da campanha, no qual Dória classifica a ração como um "alimento abençoado", e confesso que o que mais me chocou, foi constatar a presença de padres, freiras e até de um grande líder do espiritismo cristão, dando apoio ao projeto. Qualquer estupidez que venha a sair da mente de Dória ou da direita, não me surpreende, mas saber que pessoas - que se propuseram a ter uma vida religiosa cristã, e que por isso, deveriam ter um compromisso maior com a dignidade humana - apoiam esse tipo de coisa, me entristece.

Fazendo um comparativo entre as ideias e preocupações dos governos da direita justa, meritocrática e moralista, com os governos da esquerda maligna, delinquente e assistencialista, no sentido de erradicar a fome ou de pelo menos não permitir que ela aumente, percebemos uma diferença brutal na percepção social do problema. O governo Alckimin está envolvido em um escândalo, que configura um desvio de mais de 2 milhões de reais, na verba destinada a merenda escolar das crianças de São Paulo. Ou seja, alguém que ganhou votos para fazer algo pelos menos favorecidos, está roubando o dinheiro que deveria alimentar os mesmos. Mas ninguém foi preso.

Por outro lado, o ex governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, foi preso, acusado de comprar votos, dando comida aos mais pobres. O que não foi provado. Logo, ele teve que ser solto. Vale lembrar que o mesmo Garotinho, trouxe para o estado, um projeto chamado "Restaurante Popular", que mesmo não tendo sido uma ideia original sua, a adoção foi uma tremenda bola dentro no seu governo. As refeições eram servidas ao preço módico de 1 real. Os Governos seguintes acabaram com o projeto, que agora retornou sob a benção do bispo e prefeito nas horas vagas, Marcelo Crivella, muito mais por conta da presença da atuante e engajada deputada federal licenciada, Clarissa Garotinho, filha de Garotinho e hoje secretária de administração no governo do sobrinho de Edir Macedo. Duvido que tal ideia tivesse partido do prefeito fantasma. Até porque, o senhor Crivella ainda não repassou para as creches do município, os 13 milhões de reais que seriam destinados as escolas de samba e que ele vetou, justificando que as crianças eram mais importantes. E são mesmo. E também acho que as escolas de samba não devem receber dinheiro público. Mas cadê o dinheiro? Será que está guardado em alguma arca no templo de salomão?

Então você apoia quem beneficia os mais pobres em troca de votos? Não necessariamente. Mas analisemos friamente a questão. Entre votar em alguém, que além de não fazer nada a seu favor, ainda vai roubar o pouco que você tem, não seria mais inteligente - ou até mesmo por uma questão de legítima defesa - votar em alguém que fará algo por você ou lhe prejudicará menos? Entre um candidato que promete lhe servir ração e outro que lhe oferece uma refeição digna por 1 real, em quem você votaria? Sabendo que ambos irão se beneficiar de alguma coisa - por menor que seja - quando eleitos. Isso é fato. E não importa se o candidato é de direita, esquerda, centro ou do cateto oposto a hipotenusa. Não sejamos hipócritas.

O Bolsa família de Lula gerou revolta em boa parte da elite, a mesma que prefere que o pobre coma os restos oferecidos por Dória, a ter um pouco mais de dignidade. O mantra: "Não pago imposto para sustentar vagabundo", foi e ainda é muito entoado, por uma turma que vê o dinheiro dos seus impostos sendo armazenados em malas secretas, investidos em jóias e barras de ouro e sendo usado para comprar deputados e senadores, para que esses garantam a governabilidade - pasmem - de um presidente que desde que aplicou o golpe, faz de tudo para ferrar ainda mais a vida do povo brasileiro. E tem conseguido com louvor.

O prefeito de São Paulo ainda não oficializou a distribuição da "Dória Chow", mas devemos lembrar que a sua administração já sugeriu como contenção de gastos, que se "marcasse" as crianças com tinta de caneta, para que as mesmas não repetissem a merenda na escola. Isso tudo porque a verba destinada a merenda não sai do bolso do estado. Até porque, o estado não gera renda. O dinheiro é nosso, dos nossos impostos, tributos e afins e deveria ser usado como nós quiséssemos e de acordo com as nossas necessidades mais urgentes. Mas isso é utopia. Esquece!

Oferecer ração para os mais pobres, é uma verdadeira cachorrada (com todo respeito e o meu pedido de perdão aos caninos pela comparação), que nos faz deduzir que a ração proposta, se alinha mais com as necessidades alimentares dos cães fascistas que andam ladrando por aí. Segundo Dória, o mesmo composto alimentar possui vários sabores e é consumido por Astronautas em viagens espaciais. Estaria ele planejando enviar os pobres para lua? Para o espaço ele já os mandou há muito tempo.

Oremos!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

ANTROPOCENO X ECOCENO.


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O primeiro a elaborar uma ecologia da Terra como um todo, ainda nos anos 20 do século passado, foi o geoquímico russo Vladimir Ivanovich Vernadsky (1963-1945). Ele conferiu caráter científico à expressão “biosfera” criada em 1875 por um geólogo austríaco Eduard Suess. Nos anos 70, com James Lovelock, se desenvolveu a teoria de Gaia, a Terra que se comporta como um super-organismo vivo que sempre produz e reproduz vida. Gaia, nome grego para a Terra viva, não é tema da New Age mas o resultado de minuciosa observação científica.

A compreensão da Terra como Gaia oferece a base para políticas globais, como por exemplo, o controle do aquecimento da Terra. Se ultrapassar dois graus Celsius, (estamos próximos a isso) milhares de espécies vivas não terão capacidade de se adaptar e de minimizar os efeitos negativos de tal situação mudada. Desapareceriam. Se ocorrer, ainda neste século, um “aquecimento abrupto”(entre 4-6 graus Celsius) como preve a sociedade científica norte-americana, as formas de vida que conhecemos não subsistiriam e grande parte da Humanidade correria grave risco em sua sobrevivência.

Vários cientistas, especialmente o prêmio Nobel em química, o holandes Paul Creutzen, e o biólogo Eugene Stoemer se deram conta, já no ano 2000, das mudanças profundas ocorridas na base físico-química da Terra e cunharam a expressão antropocenteno. A partir de 2011 a expressão já ocupava páginas nos jornais.

Com o antropoceno se quer sinalizar o fato de que o grande ameaçador da biosfera que é o habitat natural de todas as formas de vida, é a agressão sistemática dos seres humanos sobre todos os escossistemas que, juntos, formam o planeta Terra.

O antropoceno é uma espécie de bomba-relógio sendo montada, que explodindo, pode pôr em risco todo o sistema-vida, a vida humana e a nossa civilização. Coloca-se a pergunta: que fazemos coletivamente para desarmá-la? Aqui é importante identificar o que fizemos para que se constituisse esta nova era geológica? Alguns a atribuem à introdução da agricultura há 10 mil anos quando começamos a interferir nos solos e no ar. Outros acham que foi nos meados do século 18 quando iniciou o processo industrialista que implica muma sistemática intervenção nos ritmos da natureza, com a ejeção de poluentes nos solos, nas águas e no ar. Estoutros colocam a data de 1945 com a explosão de duas bombas atômicas sobre o Japão e os posteriores experimentos atômicos que espalharam radioatividade pela atmosfera. E nos últimos anos, as novas tecnologias tomaram conta da Terra, exaurindo seus bens e serviços naturais mas também causando o lançamento na atmosfera de toneladas de gazes de efeito estufa e bilhões e bilhões de litros de fertilizantes químicos nos solos que causam o aquecimento global e outros eventos extremos.

O imperativo categórico é que urge mudar a nossa relação para com a natureza e a Terra. Não dá mais para considerá-la um balcão de recursos que podemos dispor ao nosso bel-prazer, mormente, visando a acumulação privada de bens materiais. A Terra é pequena e seus bens e serviços limitados. Cumpre produzir tudo o que precisamos, não para um consumo desmedido mas com uma sobriedade compartida, respeitando os limites da Terra e pensando nas demandas dos que virão depois de nós. A Terra pertence a eles e a tomamos emprestado deles para devolve-la enriquecida.

Como se depreende, releva enfatizar que temos que inaugurar o contra-ponto à era do antropoceno que é a era do ecoceno. Quer dizer: a preocupação central da sociedade não será mais o desenvolvimento/crescimento sustentável mas a ecologia, o ecoceno, que garantem a manutenção de toda a vida. A isso deve servir a economia e a política.

Para preservar a vida é importante a tecno-ciência mas igualmente, a razão cordial e sensível. Nela se encontra a sede da ética, da compaixão, da espiritualidade e do cuidado fervoroso pela vida. Esta ética do cuidado imbuída de uma espiritualidade da Terra nos comprometerá com a vida contra o antropoceno. Portanto, faz-se mister construir uma nova ótica que nos abra para uma nova ética, colocar sobre nossos olhos uma nova lente para fazer nascer uma nova mente. Temos que reinventar o ser humano para que seja consciente dos riscos que corre, mas mais que tudo, que desenvolva uma relação amigável para com a Terra e se faça o cuidador da vida em todas as suas formas.

Há 65 milhões de anos caiu um meteoro de 9,6 km de extensão na Península de Yucatán no México. Seu impacto foi o equivalente a 2 milhões de vezes a força da uma ponderosa bomba nuclear. Três quartos das espécies vivas desapareceu e junto com elas todos os dinossauros depois de terem vivido por 133 milhões de anos sobre a face da Terra. O nosso ancestral, pequeno mamífero, sobreviveu.

Oxalá desta vez o meteoro rasante não sejamos nós, sem responsabilidade coletiva e sem o cuidado essencial que protege e salva a vida.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

ENSINO RELIGIOSO NAS ESCOLAS.


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Corre no STF a discussão se nas escolas, pode ou não haver ensino religioso. O termo “ensino religioso” leva a equívocos pois contém uma conotação confessional. Num Estado laico como o brasileiro, que acolhe e respeita todas as religiões sem aderir a nenhuma delas, o correto seria dizer “ensino das religiões”. Pertence à cultura geral, que os estudantes tenham noções básicas das religiões praticadas na humanidade. Tal estudo possui o mesmo direito de cidadania que o da história universal ou das ciências e das artes. O termo correto seria, portanto, o “ensino das religiões”.

Entretanto, o mais importante seria iniciar os estudantes na espiritualidade como é entendida hoje pelos estudiosos. Não se trata de uma derivação da religião, o que pode ser, mas esta não possui o monopólio da espiritualidade. A espiritualidade é um dado antropológico de base como é a inteligência, a vontade e a libido.

O ser humano além de possuir uma exterioridade (corpo) e uma interioridade (psiqué), possui também uma profundidade (espírito). O espírito é aquele momento da consciência em que cada um se capta a si mesmo como parte de um todo e se pergunta pelo sentido da vida e de seu lugar no conjunto dos seres.

Talvez melhor que um fiósofo, um escritor nos possa esclarecer o que seja o espírito e a vida do espírito. Antoine de Saint Exupéry, autor do Pequeno Príncipe, deixou uma carta póstuma de 1943 e somente publicada em 1956. Intitulava-se “Carta ao General X”. Ai escreveu:”Não há senão um problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser humano”(Dare un senso a la vita, Macondo Libri 2015 p. 31)

Para ele, a vida do espírito ou a espiritualidade é feita de amor, de solidariedade, de compaixão, de companheirismo e de sentido poético da vida. Se esta vida do espírito fosse cultivada, não haveria o absurdo dos milhões de mortos na segunda guerra mundial. É o que mais faz falta hoje no mundo.Pelo fato de a vida do espírito vir coberta por um manto de cinzas de egoismo, indiferença, cinismo e ódio é que as sociedades se tornaram desumanas. Saint Exupéry chega a dizer:”temos necessidade de um deus”(p.36).

Esse Deus não vem de fora. Ele é aquela Energia ponderosa e amorosa que os cosmólogos chamam de Energia de Fundo do Universo, inominável e misteriosa da qual sairam todos os seres e são sustentados, a cada momento, por ela. E nós também. Cosmólogos como Brian Swimme e Freeman Dyson chamam de Abismo Alimentador de Tudo ou de Fonte Originária de todos os Seres. Deus deve ser pensado nesta linha.

È próprio da vida do espírito poder abrir-se a essa Realidade, deixar-se tomar por ela e entrar em diálogo com ela. O resultado é ter uma experiência de transcendência, sentindo-se mais sensível e humano.

Há uma base biológica para a vida do espírito. Neurocientistas, a partir dos anos 90 do século passado, constataram que sempre que o ser humano aborda temas ligados a um sentido profundo da vida e ao Sagrado. verifica-se uma grande aceleração dos neurônios dos lobos temporais. Chamaram a isso “o ponto Deus no cérebro”. Assim como temos órgãos exteriores como os olhos, os ouvidos e o tato, temos também um órgão interior, que é nossa vantagem evolutiva, pela qual captamos essa Realidade misteriosa que nos circunda e tudo sustenta.

Deter-se sobre esta Realidade e entrar em diálogo com ela, nos torna mais humanos, menos violentos e agressivos. Danah Zohar, física quântica e seu marido psiquiatra Ian Marshall, escreveram um convincente livro sobre o “ponto Deus no cérebro” denominando-o de “inteligência espiritual”(Record, Rio 2000). Assim somos dotados de três tipos de inteligência: a intelectual, a emocial e a espiritual. Cumpre articular as três para sermos mais plenamente humanos.

Estimo que as escolas além de fornecer um ensino das religiões, ganhariam enormemente se iniciassem os estudantes na vida do espírito. Quem estaria apto para orientar esta prática? Professores de psicologia, de pedagogia, de filosofia e de história. A aula poderia ser dividida em duas partes: nos primeiros vinte minutos pequenos grupos discutiriam um tópico de algum mestre do espírito de distintas procedências. Procurariam internalizar tais conteúdos. Nos outros vinte minutos seria colocar em comum o que refletiram e abrir um debate aberto.

Como alternativa, pode-se também reservar um tempo para cada estudante recolher-se, auscultar sua profundidade e ver o que daí sai: bons e maus sentimentos, conhecendo-se a si mesmo e propondo-se a fortalecer os bons e colocar os maus sob controle. Assim sentiria a vida do espírito, consciente e pessoal.

Temos como matar a fome de pão. Precisamos matar a fome de vida espiritual, que se nota por todos os lados. Ela “seria a única a satisfazer o ser humano”.

QUANDO ME TORNEI FANÁTICO

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Abracei o fanatismo ao descobrir que só o Deus pregado por minha Igreja é o verdadeiro. Todos os outros deuses, todas as outras religiões, todas as outras tradições espirituais que não creem como eu creio são heréticas, ofendem a Deus, procedem do diabo e merecem ser varridas da face da Terra.

Os fiéis dessas Igrejas que não professam o meu Credo estão condenados às chamas do Inferno e só haverão de se salvar aqueles que se arrependerem, abandonarem seus cultos idólatras e abraçarem a única e verdadeira fé – esta que a minha Igreja manifesta.

Tornei-me fanático em sucessivas etapas. Fui criado em uma família católica e, desde cedo, aprendi que os protestantes são infiéis por não respeitarem a virgindade de Maria nem acatarem a autoridade do papa.

Ridicularizei os espíritas por admitirem que se comunicam com os mortos. Acusei os judeus de terem assassinado Jesus. Abominei os ritos de matriz africana como supersticiosos e orquestrados pelo demônio.

Tivesse eu poder, haveria de banir da sociedade todas essas crendices que tomam o Santo Nome de Deus em vão.

Até que um dia sofri um acidente de trânsito, onde me encontrava a trabalho. Fui atropelado por uma moto que surgiu inesperadamente quando eu atravessava o Largo Terreiro de Jesus.

Fui socorrido por um desconhecido que me levou a um hospital evangélico em seu carro. Por eu estar inconsciente, devido à pancada da cabeça no solo, ele assumiu os custos apresentados pelo pronto-socorro e ainda assinou um termo de responsabilidade. Como deixou telefone e endereço, ao receber alta fui agradecer-lhe. Soube que é ateu.

Fiquei me perguntando se todos os fiéis de minha Igreja seriam capazes de prestar igual solidariedade ou se passariam indiferentes diante de um acidentado, e ainda se autodesculpariam com este raciocínio cínico: “Nada tenho a ver com isso.”

No hospital, fui visitado por uma senhora espírita, que me deu grande consolo, já não tenho parentes na cidade do acidente. Manifestei a ela meu estranhamento ao fato de os espíritas afirmarem conversar com os mortos. Ela retrucou com um sorriso: “Vocês, católicos, conversam com quem quando oram a São Jorge, Santo Expedito e Santo Antônio?”

Meu médico era um judeu casado com uma palestina. E as duas enfermeiras, muito atenciosas, frequentavam o candomblé e a umbanda.

Ao deixar o hospital, tive a surpresa de encontrar, na pousada na qual me hospedara, a mochila que havia perdido no acidente. Dentro, todos os meus pertences, inclusive o dinheiro que eu tinha retirado do banco para pagar a hospedagem.

Um taxista encontrou o cartão da pousada entre meus documentos, devolveu a mochila e informou o que me havia ocorrido. Como deixara o telefone dele, liguei para agradecer. Não resisti à pergunta: “Por que o senhor devolveu todos os meus pertences, inclusive o dinheiro?” Ele simplesmente respondeu: “Sou muçulmano.”


Frei Beto

domingo, 15 de outubro de 2017

OS JOGOS VORAZES DE LAS VEGAS.

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Vai-se a Las Vegas para jogar, curtir resorts, ou para namorar e casar-se com rapidez, em clima de excitação. Ou para matar...e para morrer. Foi isso que o mundo presenciou no último domingo, quando 58 pessoas foram mortas e mais de 500 ficaram feridas, muitas gravemente, naquele que já é considerado o maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos.

O Estado Islâmico foi imediatamente cogitado e assumiu a autoria, parece. Mas até agora as investigações apontam em outra direção. O atirador – que se matou em seguida, antes da chegada das forças de segurança – era um aparentemente pacato senhor de 64 anos, que tinha uma casa perto dali. Ia frequentemente a Las Vegas porque, segundo informações, gostava de jogar.

Pelo que se descobriu após a tragédia, gostava também de armas. Foram encontradas dez armas no quarto de hotel onde se hospedava, ao lado de seu cadáver. Com várias delas, montadas após quebrar as janelas do quarto, ele atirou do 32º andar do famoso cassino e resort Mandalay Bay contra uma multidão que se encontrava em um festival de música country, em frente ao hotel.

O irmão de Stephen Paddock – era esse o nome do atirador – mostrou-se surpreso e consternado. Segundo ele, o irmão sempre fora uma pessoa pacífica e reservada. Solitário, não tinha muitos amigos. Tinha uma namorada australiana, que no momento da chacina encontrava-se nas Filipinas.

E de novo nos vemos diante do absurdo, da falta de sentido mais absoluta. Por quê? A violência é algo tão irracional. Não havia um motivo, uma provocação, nada a que ou a quem Paddock tivesse que revidar, contra-atacar, nada. Apenas uma multidão de pessoas, muitos deles jovens, que ouvia pacificamente um show, cantando e dançando.

De repente, já no final do show, ouviu-se uma saraivada de tiros disparados por um homem louco que gostava de jogar com dados, com cartas e... com armas. E resolveu jogar na vida real, descarregando o vazio de sua vida na multidão inocente.

A tragédia traz de volta a conflitiva questão da livre venda de armas nos Estados Unidos. Venda e porte livre. Qualquer cidadão pode entrar em uma loja de armas e comprar quantas quiser. Segundo as investigações da polícia, Paddock havia comprado três em sua última visita a um desses estabelecimentos que vendem brinquedos para jogos vorazes e letais.

Comprou-os e levou-os, além dos outros que já possuía, dos quais dez foram encontrados junto a seu corpo. Como não chama sequer a atenção da recepção de um grande hotel o fato de um hóspede entrar carregado de malas para passar apenas três dias? Como não há sequer uma revista em sua bagagem ou pelo menos uma vigilância redobrada sobre sua pessoa?

Com tantos episódios violentos como esta matança em Las Vegas já acontecidos no país, todo lugar público deveria ter vigilância mais rigorosa para impedir que pessoas como Stephen Paddock pudessem transitar livremente com seu arsenal bélico e depois atirar contra centenas de inocentes.

Mas o país está muito ocupado caçando migrantes teoricamente ilegais que ali têm família e trabalham duramente para se sustentar. Ou discutindo com o ditador insano da Coreia do Norte, para ver quem tem mais mísseis e espalha mais medo na humanidade.

Enquanto isso, os jogos vorazes internos continuam. E inocentes são atingidos e mortos. Surpreendidos em seu lazer despreocupado por armas que ferem e matam, levadas na volumosa bagagem de Paddock quando se hospedou no resort.

Falando ao Congresso estadunidense em 2015, o Papa Francisco alertou para o conteúdo demoníaco da venda de armas que lava dinheiro com sangue. Exortou os congressistas a encontrarem uma solução definitiva para acabar com isso. Parece que suas palavras, apesar de aplaudidas de pé com entusiasmo, não encontraram nenhum eco na concretude da realidade.

As armas continuam circulando, manipuladas por qualquer pessoa, até mesmo jovens e crianças. E as tragédias continuam acontecendo em vários pontos do país: escolas, universidades, shows musicais e outros lugares destinados à vida e à alegria. E a qualquer momento o tédio, a falta de sentido para a vida, o vazio existencial explodem na forma de tiros, ceifando vidas cegamente.

Hoje, Vegas chora seus mortos, como antes o fizeram Columbine; Blacks Burg, Virginia; Newton, Connecticut; Orlando, Flórida. E outros e outros. Todo lugar é lugar: cinema, escola, universidade, discoteca, ceia de natal etc. etc. Em todos esses espaços, vidas foram interrompidas, perdas foram choradas, sangue foi derramado.

Às vezes os criminosos deixam explicações, outras não. Paddock não deixou. Pelo menos até agora nada foi encontrado. O silêncio onde ele jaz pesará para sempre sobre a Las Vegas feita de luzes artificiais, resorts e cassinos. As armas do assassino, recolhidas, serão provavelmente usadas por outros, que por sua vez poderão em um dia de depressão ou fúria usá-las contra inocentes. A roda da violência vai girar novamente. Até que um governo responsável tome medidas sérias para cortar sua espiral, vetando o livre porte de armas.



Violência só gera violência. Levar a violência no bolso, ou na mala, ou nas mãos, não pode dar bom resultado. Porque somos seres imperfeitos e a sociedade onde vivemos nos desequilibra e nos faz perder a razão. É muito perigoso dispormos de instrumentos letais para descarregar nossos demônios interiores sobre nossos semelhantes. A lei tem o dever de pelo menos coibir nossos atos insensatos, já que não tem o poder de curar nossas feridas interiores. Sobre essas, só o encontro, o diálogo e o amor têm poder. Pelo visto, não chegaram a tempo de sanar o coração em carne viva de Stephen Paddock.

sábado, 14 de outubro de 2017

ILUSÕES...

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Ilusões, frutos de sonhos, de certezas incertas, de devaneios... Cada ser humano guarda sua cota de ilusões dentro de si. Uma ilusão diferente da outra toma espaço; uma pessoa diferente da outra conserva as suas. As utopias deixam brechas entreabertas se não forem conduzidas nesse fluir de vida e de consciência...

Quantas ilusões deixei pelo caminho! Umas joguei fora, outras esqueci à margem da vida, como quem deixa o casaco vermelho na praça e sabe que jamais vai achá-lo. Outras, ainda, carreguei até que fosse possível, na tentativa de não me desfazer delas, tentando sustentá-las até que fosse admissível.

Transformei uma boa quantidade delas, e isso me fez alimentar muitos sonhos e construir tantos outros que nem sabia que poderiam existir, mas que pouco a pouco se fortificaram em mim.

Esperei muitos desejos se realizarem num passe de mágica, o que fez crescer as desilusões que ficaram retidas em mim até que eu pudesse transformá-las.

Quintana, o amigo poeta, em “Das ilusões”, diz: “Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o. Com ele ia subindo a ladeira da vida. E, no entanto, após cada ilusão perdida... Que extraordinária sensação de alívio!”. As palavras do poeta me fazem perceber que cada um conserva sua parcela de ilusões num saco, num pote mágico ou truncada dentro de si; entretanto só quem tem o poder de transformá-la ou deixar-se transformar por ela é quem a carrega.

Minhas ilusões, dores e amores seguem em constante transformação... Ah! Vida vivida, reinventada em constante transformação...

Ah! Ilusões...

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A MARCHA DOS ENGANADOS.

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Tenho a "A Marcha" de E. L. Doctorow – vencedor do Prêmio PEN-Faulkner de 2006 – como um dos mais poderosos romances americanos de língua inglesa das últimas décadas. O grande autor de "Ragtime" narra a caminhada de guerra do General William Sherman, com seus 60 mil homens, saqueando plantações sulistas, "pondo abaixo cidades e vilarejos", com negros emancipados e brancos fugitivos do sul, cujo desfecho é a vitória do humanismo portado das tropas da União. Mas também é a saga dos vencedores e derrotados, tanto como espoliados como vencedores – sem rumo e sem destino – naquele futuro americano em direção à derrota do racismo e da opressão do escravismo.

O que Doctorow critica não é a guerra ou a revolução em abstrato, mas a dor concreta dos atingidos pelo que é fatal na História. Para Doctorow, o rumo pessoal dos indivíduos não pertence à escolha deles, mas a milhares de circunstâncias não escolhidas, que se derramam como uma dor infinita, compondo o mundo real. Nele, o presente é o centro de tudo: não a narrativa, não o futuro, não utopia desejada pela consciência. A dor é o significado presente, tanto dos vencidos sem razão, como dos vencedores inocentes. Ambos são apenas peças do fluxo da história soprado pela ideia.

Albion Simms, numa das muitas batalhas, com seus olhos arregalados, diz que estão atirando nele, mas não lembra o próprio nome. Nem porque está ali, nem porque esqueceu de ontem, mas simplesmente sabe que a sua "cabeça dói". Ao ser lembrado do seu nome Simms diz "não saber lembrar", pois tudo o que ocorre "é sempre agora". É "por isso que está chorando ?", pergunta-lhe Albion, seu companheiro de batalha: "Sim. Porque é sempre agora (...) É sempre agora".

As pessoas não vivem na História, mas no cotidiano, parece dizer Simms, pois seu agora é um presente perpétuo.

Não para o grupo ou para classe, mas para o indivíduo concreto que embarca numa determinada narrativa e faz dela o seu destino de dor ou de glória efêmera. A narrativa é um coletivo em guerra, em marcha, com a dor de cada um transformada em dor épica despersonalizada. Sua aparência é de apenas um parêntese sem cor definida, mas a dor do indivíduos soma-se por encanto – em determinados episódios – para se tornar destino de todos.

Para Temer, para os fascistas do MBL, para a Globo e seus partidários, o presente é a própria Historia, que se tornou destino de todos. É preciso reiterar sempre – e eles o fazem – que só existe o "agora": que a dor de viver esta infinita canalhice do golpismo e da reformas sem povo e sem diálogo, é a História perpétua, que jamais será rompida.

É o "destino final", o fim da História, o paraíso que fez da violência privada a violência estatal, no universo dos ricos e famosos, cujo Macron é João Dória, cujo Trump é Bolsonaro e cujo Mussolini – sem discurso emocional e sem coragem de fazer uma marcha sobre Roma – é Michel Temer. Até o fascismo eles tornaram caricato.

As mentiras que estão pregando, a miséria que estão semeando e a dor que consolidam – com as suas reformas sem quaisquer sacrifícios dos ricos e com sua lavagem cerebral destinada a colocar os corruptos em posições de mando – como reféns das reformas, não garantem este presente como perpétuo. Garantem apenas o seu bem-estar momentâneo, pois o ódio dos enganados é sempre mais potente e rebelde do que a repulsa dos derrotados. Não é agora que veremos este estouro de inconformidade, mas ele virá. Nesta ou noutra geração. E será muito mais duro, forte e impiedoso, do que "A Marcha" de Doctorow.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A REVOLUÇÃO DO GÊNERO FEMININO


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O século XX pode ser considerado como o do movimento feminista, o qual preconizou debate em torno dos gêneros e ampliou os direitos civis e políticos das mulheres. Por consequência houve avanço da produção intelectual feminista, em especial no campo da ciência teológica. Seguramente o movimento feminista conquistou brechas de uma nova cultura.

É incontroverso que o século passado ouviu o grito das mulheres. Com isto as enciclopédias de ciências humanas foram contempladas com novos conteúdos e paradigmas. Muitas são as protagonistas do movimento feminino. Para registrar precursoras do feminismo, aparecem entre elas Olympe de Gouges, com a Declaração dos direitos da mulher, publicado em 1791, e Mary Wollstonecraft, com seu livro Reivindicação dos direitos da mulher, de 1792. O tema comum dessas obras é a “falta de acesso das mulheres à educação e a impossibilidade do exercício pleno da cidadania”. É parte primordial deste debate “o direito das mulheres à educação, ao voto e à propriedade, reivindicação do sufrágio no século XIX”. Ao determinar essas questões cruciais o debate chega ao século XX incluindo outros temas como “trabalho e igualdade salarial, direitos reprodutivos e violência contras as mulheres”. Com certeza esse debate é plausível para toda a humanidade, por estar articulado sob o prisma da cidadania.

Assim, o feminismo do século XX prenuncia novos tempos e nova cultura. O caloroso debate não consistiu em dar um caráter novo às velhas coisas, mas ressaltar que mulheres são parte de nossa história, tradição, e da memória coletiva. Para reconfigurar o processo civilizatório o debate feminino almeja reconstruir o significado do mundo de forma mais integrada entre os gêneros. Ressignificar a trajetória da humanidade não significa apagar as marcas dolorosas estampadas nos corpos e nas mentes das mulheres. Identificar as causas da memória dolorosa feminina permitirá expressar linguagens capazes de mover medos, sofrimentos, tabus, preconceitos que ameaçavam as relações de justiça entre os seres humanos.

Com tudo que está sendo proporcionado por este debate de gênero feminino certamente toda a humanidade ganhará. Dessa forma, o movimento feminino mostra-se um caminho pedagógico e político capaz de, em meio às contradições sociais e históricas, resgatar a ética da tradição evangélica. Nisto é importante perceber as brechas literárias que os sistemas patriarcais não conseguiram sufocar, como a riqueza espiritual e humana de homens e mulheres criados em iguais condições e direitos. Certamente é uma diferença histórica o movimento de Jesus, constituído de homens e mulheres, que apontou uma experiência mais integradora do que a estabelecida pela cultura de seu tempo. A leitura da práxis de Jesus permite a inspiração de relações de justiça e de solidariedade entre os gêneros.

A esse respeito, importante contribuição da teologia feminista e para o movimento feminino foi a publicação da obra Woman´s Bible (Bíblia da Mulher) pela teóloga Elisabeth Cady Stanton, em 1895. A fundação, por mulheres católicas, da Aliança Internacional Joana D'Arc em 1898 nos Estados Unidos, e em 1911 na Grã-Bretanha, foi outra grande contribuição para a humanidade. Soma-se como significativa contribuição a este debate a ordenação de mulheres pelas principais igrejas protestantes em meados do século XX. Almejar às relações humanas, sociais, políticas e culturais a igualdade e amor entre os gêneros são sinais de nova cultura para o século XXI