quinta-feira, 19 de abril de 2018

ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA.

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Para justificar decepções e encobrir omissões, criamos estereótipos. Na atual conjuntura, a demonização da política e dos políticos. Tal maniqueísmo favorece exatamente o que se critica, a má política.

Distanciar-se da política é se refugiar em suposta redoma de vidro enquanto grassa o dilúvio. Muito pouca coisa é insubstituível na história humana. Uma delas é a política. Ainda não se inventou outra forma de nos organizar como coletividade. A política permeia todos os espaços pessoais e sociais, da qualidade do pão do café da manhã ao acesso à saúde e à educação.

Se a política é “a forma mais perfeita de caridade”, como enfatiza o papa Francisco, por ser capaz de erradicar a fome e a miséria, as estruturas políticas são passíveis de severa crítica quando favorecem a desigualdade e a corrupção.

A política não é intrinsecamente nefasta. Nefasto é o modelo político que sabota a democracia, privilegia a minoria rica, e nada faz de eficaz para promover a inclusão social. Ao contrário, permite ampliar a exclusão e reforça os mecanismos, inclusive repressores, que impedem os excluídos de avançarem da margem para o centro.

Todos os grandes mestres espirituais foram políticos. Buda se indignou ao transpor as muralhas de seu palácio e se deparar com o sofrimento dos súditos. Jesus, na versão de sua mãe, Maria, veio para “derrubar os poderosos de seus tronos e exaltar os humildes, despedir os ricos com mãos vazias e saciar de bens os famintos” (Lucas 1, 52-53). Pagou com a vida a ousadia de anunciar, dentro do reino de César, outro projeto civilizatório denominado Reino de Deus.

A política é uma exigência espiritual. Santo Tomás de Aquino preconizou não poder esperar virtudes de quem carece de condições dignas de vida. A política diz respeito ao outro, ao próximo, ao bem-estar da coletividade. Repudiá-la é entregá-la às mãos daqueles que a transformam em arma para defender apenas os próprios interesses.

Se a política perpassa os aspectos mais íntimos de nossas vidas, como dispor ou não de um teto sob o qual se abrigar das intempéries, nem todos participam do mesmo modo. Há múltiplas maneiras de fazer política, seja por participação, seja por omissão.

O modo mais universal é o voto, uma falácia quando o povo vota e o poder econômico elege. Um embuste quando a democracia é como Saci-Pererê: os eleitores decidem quem administrará o país, mas não como os recursos da nação serão utilizados.

Se não há democracia econômica, se a desigualdade se agrava, a democracia política é uma farsa. De que adianta a Constituição, uma carta política, proclamar que todos têm direito a uma vida digna se a estrutura socioeconômica impede a maioria de desfrutar de fato deste direito?

No reino de César, Jesus rogou ao Pai: “Venha a nós o vosso reino”, ou seja, o projeto civilizatório no qual todos “tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10). Esta a espiritualidade que move quem se empenha em fazer da política ferramenta de libertação, não de opressão e exclusão.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

ESPERANÇA E ALEGRIA DE VIVER.

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É bem comum ter coisas para fazer e serem adiadas. Nunca gostei de ir ao posto de combustível para calibrar os pneus do carro. Não tem um motivo específico. Sempre foi assim: deixava para a próxima abastecida. Dessa forma, os dias iam passando e a lembrança cada vez mais insistente. Num determinado momento, impossibilitado de adiar novamente, eu acabava cumprindo a referida tarefa. Com os pneus ‘oxigenados’, o carro torna-se, então, mais leve, o volante mais adequado. Um dia, talvez, vou descobrir os motivos dessa resistência em calibrar os pneus. Uma hipótese pode estar relacionada com o desapego: sempre entendi que carro é um meio apenas. Necessita de cuidados, mas não convém exagerado apego. Tenho consciência de que devo calibrar os pneus, mesmo não tendo um grande afeto por essa ação. Convém esclarecer que não sou relapso, apenas um pouco resistente. Tudo indica que, com o tempo, irei superar essa limitação.

Enquanto o frentista calibrava os pneus, meu pensamento alcançou outras realidades. Fiquei pensando quantas pessoas passam a vida toda sem nenhuma ‘calibragem’. A saúde precisa ser calibrada através da prevenção, o humor deve ser revisado continuamente, o amor à família deve ter a quantidade exata de oxigênio. O conhecimento aguarda sempre por novas calibragens. Enfim, todos estão convocados a revisar continuamente outros ‘pneus’, além daqueles que permitem que o carro rode. Como tudo seria diferente se o respeito, a fidelidade e a paz recebessem o adequado e diário calibre!? É comum ir adiando, deixando para depois ou até esquecendo definitivamente de determinados valores que favorecem a edificação e a plenitude da felicidade. Um pneu não calibrado não roda. Os valores humanos, quando não renovados e reavivados, deixam de deslizar espontaneamente no cotidiano da existência.

Muitas pessoas são atentas, cuidadosas e até detalhistas: nada passa desapercebido. Cada gesto ou atitude acontecem no tempo certo. Com um pouco de organização e boa vontade, todos poderiam viver com mais serenidade, sem atropelos e com uma quantidade maior de satisfação. Acontece que é muito mais cômodo ir adiando, agendando para o dia seguinte, que nunca chega. As constantes perdas, referentes à qualidade de vida, estão atreladas aos adiamentos que vamos sustentando. Quanta gente deixando, inclusive, para ser feliz depois disso ou daquilo. Algumas ‘calibragens’ só conhecem um tempo específico: hoje. Amanhã já será tarde demais. Adiar não é, em si, um problema. O complicado é não saber o limite e, posteriormente, amargar perdas irrecuperáveis. Estou consciente que não devo descuidar da calibragem dos pneus do carro que estou usando. Aos poucos vou melhorar nesse quesito. Tomara que todos consigam, no tempo certo, calibrar a esperança e a alegria de viver.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

MEDO

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O medo que nos abate em momentos específicos, quando o alarme é acionado, é experimentado por todos nós dependendo das dificuldades de cada um, claro que em uma escala diversa. Eles vão sendo internalizados e mostram-se nas nossas atitudes, nos pondo à prova.

Por vezes é um medo que intimida, que segura o passo, que trava a vida, que dificulta o transcorrer do andar. Medo que atrofia, que é angústia sentida, raiva provocativa... Onde se esconde o medo dentro de nós?

Medo de errar e de desapontar gerador de fantasias de culpa que escondidas permanecem em nós. Pensamentos, sentimentos invadindo atitudes, mostrando trauma e rejeições escondidos nesses medos a se atrapalharem.

Medo que se cria na mente inquieta, acorrentando a vida.

Medo que nos faz fugir de nós mesmos, que precisa ser revisitado, compreendido e transformado em uma grande mudança que passa via elaboração. Representa as vozes de todas as dores confusas vividas no passado.

Quanto maior o medo que se sente maior é a tentativa de compreendê-lo ou de ressignificá-lo.

Acordei naquele dia, olhando diferente para o medo que sentia. Observei-o tentando entendê-lo. Precisava decifrá-lo para só assim poder andar pela vida mais tranquila, observando melhor o que sentia. Dei-lhe a mão e nesse andar ele foi se tornando menor, já não mais me engolia ou me tomava inteira como antes. Me apropriava dele e assim ele se tornou meu amigo. Isso era conscientemente revisitar a vida. Não mais teria esse medo assustador e acredito que assustadoramente em alguns momentos o medo dos meus medos foram amparados.

Assim simplificava a vida.

domingo, 15 de abril de 2018

RECOLONIZAÇÃO OU REFUNDAÇÃO DO BRASIL, ESTA É A QUESTÃO .

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A derrota de Lula no STF a propósito da rejeição do habeas corpus e sua prisão, revela a volta das forças do atraso que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e mediático contra Dilma Rousseff em 2016. A grande questão não se restringe à difamação de nosso maior líder, condenado sem provas cogentes e o sagramento do PT. Dois projetos estão se confrontando e irão definir o nosso futuro: a recolonização ou a refundação.

O projeto da recolonização força o Brasil a ser mero exportador de commodities. Isso implica desnacionalizar nosso parque industrial, nosso petróleo, as grandes instituições estatais. Trata-se de dar o maior espaço possível ao mercado competitivo e nada cooperativo e reservar ao Estado apenas funções essenciais mínimas.

Este projeto conta com aliados internos e externos. Os internos são aqueles 71.440 multimilionários que o IPEA elencou e que controlam grande parte dasriquezas do país. O aliado externo são as grandes corporações mulltinacionais, interessadas em nosso mercado interno e principalmente o Pentágono que zela pelos interesses globais dos Estados Unidos.

O grande analista das políticas imperiais, recém falecido, Moniz Bandeira, Noam Chomsky e Snowden nos revelaram a estratégia de dominação global. Ela se rege por três ideias força: a primeira, um mundo e um império; a segunda, a dominação de todo o espaço (full spectrum dominance), cobrindo o planeta com centenas de bases militares, muitas com ogivas nucleares; a terceira, desestabilização dos governos progressistas que estão construindo um caminho de soberania e que devem ser alinhados à lógica imperial. A desestabilização não se fará por via militar, mas por via parlamentar. Trata-se destruir as lideranças carismáticas, como a de Lula, difamar o mundo do político e desmantelar políticas sociais para os pobres. Um conluio foi arquitetado entre parlamentares venais, estratos do judiciário, do ministério público, da polícia federal e por aqueles que sempre apoiaram os golpes particularmente a grande mídia.

Afastada a Presidenta Dilma Rousseff, todos os itens político-sociais, na verdade, pioraram sensivelmente.

O outro projeto é o da refundação de nosso país. Ele vem de longa data, mas ganhou força sob os governos do PT e aliados, para o qual a centralidade era dada aos milhões de filhos e filhas da pobreza. Não apenas melhorou a vida deles,mas resgatou a sua dignidade humana, sempre aviltada. Esse é um dado civilizatório de magnitude histórica.

Esse projeto da refundação do Brasil, projetado sobre outras bases, com uma democracia construída a partir de baixo,participativa, sócio-ecológica constitui a utopia alviçareira de muitos brasileiros.

Três pilastras a sustentarão: a nossa natureza de singular riqueza e fundamental para o equilíbrio ecológico do planeta; a nossa cultura, criativa, diversa e apreciada no mundo inteiro e, por fim, o povo brasileiro inventivo, hospitaleiro e místico.

Essas energias poderosas poderão construir nos trópicos, uma nação soberana e ecumênica que integrará os milhões de deserdados e que contribuirá para a nova fase planetária do mundo com mais humanidade, leveza, alegria e festa, a exemplo dos carnavais. Mas importa derrotar as elites do atraso.

Não anunciamos otimismo, mas esperança no sentido de Santo Agostinho, bispo de Hipona, hoje a Tunísia. Bem disse: a esperança inclui a indignação para rejeitar o que é ruim e a coragem para transformar o ruim numa realidade boa.

Uma sociedade só pode se sustentar sobre uma igualdade razoável, a justiça social e a superação da violência estrutural. Esse é o sonho bom da maioria dos brasileiros.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O AMOR DA MINHA VIDA.

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O amor da minha vida é aquela pessoa que me entende no olhar e pelo jeito que estou e falo sabe se estou bem ou não.
O amor da minha vida dá um beijo no meu rosto e fica do meu lado sem dizer nada quando estou triste e só de ficar ao meu lado já me ajuda. O amor da minha vida é aquela pessoa que logo vem a minha mente quando quero dividir uma notícia boa, uma fofoca ou só falar de uma cena que vi no filme.
O amor da minha vida é a pessoa que dou um sorriso só ao ver ou ouvir sua voz, é a que torce para o meu time mesmo odiando futebol e que vem à minha mente quando ouço uma música romântica. O amor da minha vida é aquela pessoa que vira amiga dos meus amigos e quando pessoa que não gosto passa me ajuda a falar mal.
A pessoa que amo tem o melhor beijo do mundo mesmo que tenha comido cebola, é a que acorda linda mesmo despenteada e com cara amassada, brinca com meu cachorro, vira mãe do meu filho, me faz amor como ninguém faz sabendo tudo que eu gosto sem nem me perguntar.
É a pessoa que um dia quero casar, que eu ajude num sítio já velhinhos a fazer a macarronada de domingo para a família e a gente sente e rindo conte para eles a mesma história durante anos de como nos conhecemos e se divirta - mesmo com todos de saco cheio de ouvir essas mesmas histórias inesquecíveis.
O amor da minha vida é a pessoa que terá Alzheimer junto comigo. Mas mesmo já muito velhinhos nunca esqueceremos o nome um do outro, botaremos nossas dentaduras no mesmo copo, darei um beijo em sua testa, direi "boa noite minha velha" e quando ela acordar perceberá que morri. Em seus braços.
Quando eu chegar ao céu agradecerei a Deus por ter tido a ela como amor da minha vida e pedirei quando reencarnar que ela seja de novo
Porque o amor da minha vida acaba nunca. Nem com a morte.
Enfim, o amor é isso que eu disse acima. Não é sólido, líquido nem gasoso, não dá para se pegar, tocar, enxergar, é um sentimento que nasce dentro de nossos corações e conosco vive até o fim.
Todo mundo ama ou já amou, mesmo os piores bandidos ou os mais castos. O amor não tem fronteiras, nem faz distinção.
Amor, e o que é o sofrer, para mim que estou...
...jurado pra morrer de amor.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

UMA CARTA PARA MIM MESMO.

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Vasculhando por recordações encontrei uma carta que escrevi para mim mesmo, há muito tempo, e quis dividi-la com vocês que buscam constantemente a transformação:
Eu queria te dizer para escolher outros caminhos, mas tu escolheste por amor, só assim o conhecestes. E esse amor renasce das cinzas constantemente... Amor de relacionamento, amor de pai, amor de amigo, amor de filho... Enfim, amor!
Aprenda a dizer não logo, e que o teu não seja não, não ensaios de não.
Quando o vento soprar forte agarra-te nas árvores com as raízes mais profundas para poder resistir.
Saiba pedir ajuda quando necessário, sempre existe alguém que sabe mais que você, seja humilde.
Em algum momento alguém precisou olhar para teu valor. Para te ajudar a resgatá-lo, procure esse olhar de aprovação, nos outros ou dentro de você.
Ensinaste o que julga mais importante para teus filhos, agora é com eles, mas eles são e serão sempre a luz que ilumina teu olhar independentemente da distância.
Em muitos momentos vais sentir falta de família, igual à planta do teu jardim, sempre tentando com raízes achar o chão firme.
Escolha por ti, cuide da teu menino interior, só assim ele ficará adulto, deixe os outros cuidarem das suas crianças. É obrigação deles.
Quando nada mais tem sentido, vais achar o sentido, tu nasceste verdadeiramente das cinzas em vários momentos e devagar te reconstruíste, mesmo depois de algumas atrapalhações. Fique firme, tudo vai se acalmar.
Não silencie. Grite se precisar, tão alto, mais alto do que conseguir...

Hoje um lampejo de contemplação do que eu vivi invade minha alma, das tentativas de ser melhor e de procurar caminhos para tal. Nesse aprendizado, o mais difícil foi amar a mim, o que me remeteu a muitas buscas internas. Assim, sorria mais, sinta e transforme-se. Esse é o caminho do amor.

Talvez esta carta, se fosse escrita hoje, conteria aprendizados diferentes, mas precisei aprender isso para alcançar novas etapas... É no coração que os grandes aprendizados são construídos.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

CONTRADIÇÕES DA HISTÓRIA


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Por que temos um Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos? Porque antes tivemos um Barack Obama... Simples assim. O Trump se elegeu prometendo desfazer tudo o que o Obama tinha feito: o plano de saúde popular conhecido como “Obama Care”; os direitos das minorias sociais, étnicas e sexuais; o tratamento digno para com os migrantes que a própria economia norte-americana necessita; um menor unilatelarismo imperial nas relações internacionais... Quem elegeu Trump? É conhecido até pelas árvores das ruas de Whashington que Trump foi o candidato da “velha indústria” americana – armas, segurança, automóveis e petróleo – que capitalizou os medos da classe média tradicional “wasp” (white, anglo-saxon and protestant) que sentia sua hegemonia sacudida pela emergência de novos sujeitos sociais tão simbolicamente representados pelo casal presidencial Barack e Michelle Obama. E Trump está dando respostas concretas aos que o elegeram. Ele não é louco. Muito antes pelo contrário. Ele tem uma clareza política ímpar e toma as pequenas decisões do dia-a-dia fundamentado neste norte político.

Por que temos um Papa Francisco à frente da Igreja Católica? Porque antes tivemos um Papa João Paulo II e um Papa Bento XVI. Simples assim... O Papa Francisco foi eleito para desfazer muito do que seus predecessores tinham feito à frente da Igreja Católica Romana: uma excessiva preocupação com a verdade dogmática, uma burocracia focada no dinheirismo e devassa do ponto de vista moral, um fechamento às novas realidades contemporâneas, um medo à democracia e ao popular, uma elitização gnóstica e uma liturgia e uma moral de corte pelagianiano... Quem elegeu o Papa Francisco? Até as Colunas de Bernini, mesmo sem nunca terem-se movido do lugar onde estão há cinco séculos, sabem que Francisco Bergoglio foi eleito pela maioria silenciosa dos cardeais que nos últimos 30 anos foram sistematicamente relegados pela Cúria Romana ao ostracismo eclesiástico e viam suas igrejas definharem em meio aos escândalos vaticanos e os novos desafios da realidade. E o Papa Francisco está dando respostas aos que o elegeram. Seus gestos e suas palavras – tanto nos grandes textos das Exortações Apostólicas e nas Encíclicas como nos pequenos textos dos sermões e catequeses – ele apresenta performaticamente um novo rosto da Igreja cuja maior característica é a alegria e a esperança para os que sofrem. Ele não é o anti-papa nem um pastor sem teologia como querem seus detratores. Tudo o que faz e diz é norteado pelo princípio do amor misericordioso pregado e vivido por Jesus.

Por que temos um golpe parlamentar-midiático-jurídico em curso no Brasil? Porque antes tivemos um Lula durante oito anos na Presidência e uma sua sucessora que, reeleita, ameaçava levar adiante o mesmo projeto por mais oito anos. Simples assim... Os governos Lula e Dilma, mesmo em meio a grandes contradições e a uma oposição feroz, estavam fazendo aquilo para o qual foram eleitos: tirar o Brasil do mapa da miséria e da fome através dos programas sociais, abrir as portas das escolas e das universidades às crianças e aos jovens de baixa renda que antes nunca haviam podido alcançar tais níveis de escolarização, criar políticas para o resgate da identidade e afirmação das peculiaridades de negros e quilombolas, fazer com que os direitos humanos básicos fossem acessíveis àqueles e àquelas que sempre tiveram sua humanidade espezinhada, oferecer emprego, casa e saúde digna para a maioria da população, fortalecer a economia nacional e inserir o país, de forma soberana e altiva, no cenário internacional... Quem elegeu Lula e Dilma? Até as emas dos jardins do Palácio da Alvorada sabem que o voto que elegeu Lula e Dilma veio das camadas mais pobres da população do campo e da cidade. E esse voto e as mudanças sociais nele fundamentadas começaram a mudar a cara da sociedade brasileira. E aqueles que governaram durante 500 anos o Brasil sentiram sua hegemonia ameaçada pelos novos sujeitos sociais que se transformavam em sujeitos políticos. E é bom lembrar que a reação não é recente. Começou com o dito “Mensalão” de 2005, passou pela reeleição de 2006, se explicitou nas eleições de 2010 e 2016. Mas como através do caminho democrático - mesmo que a nossa democracia seja apenas formal - as elites dominantes não conseguiram dar cabo do novo projeto em ascensão, foi necessário o golpe parlamentar de 2016 e, agora, em 2018, a joia da coroa, a prisão de Lula.

Onde vamos terminar? Não sei... Ninguém sabe! O que esperamos é que, depois do Trump, haja um Obama II. E depois de Francisco, um Francisco II. E nunca mais tenhamos que temer um Temer II! E muito menos generais e seus séquitos militares a enfeiar a paisagem do Planalto Central. Porque a democracia é um valor básico da convivência social. Sem ela, só resta o caos. E no caos, todos perdem. Inclusive as elites!

terça-feira, 10 de abril de 2018

FETICHE DO PODER

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A partir de agora o presidente da China pode ser sucessivamente reeleito. Isso significa um retrocesso aos tempos imperiais. A diferença é não ser considerado imperador, e sim ditador.

Com plenos poderes nas mãos, Xi Jinping cuidará de afastar da máquina pública todos os potenciais adversários. Só dois fatores poderão derrubá-lo: um golpe de Estado ou a morte.

“O poder desperta a ambição e faz multiplicar a cobiça”, dizia Aristóteles. Os espanhóis cunharam um provérbio que diz o mesmo em outras palavras: “Si quieres conocer a Juanito, dale un carguito” (Se queres conhecer a Juanito, dá-lhe um carguinho). Em um ano na Prefeitura de Horizontina, como assessor de comunicação, aprendi que o poder não muda ninguém, faz com que as pessoas se revelem.

Por que o poder é a mais sedutora ambição do ser humano e a maior de todas as tentações, acima do dinheiro e do sexo? Porque virtualmente possibilita a realização de todas as demais ambições. Ele “diviniza” o poderoso. Sempre cercado de quem lhe faz eco, se reveste de imunidade e impunidade. Qualquer de suas palavras e atitudes é sucedida de elogios, o que o priva da capacidade de autocrítica.

O poder nasceu democrático. Toda a tribo debatia como abater o mamute e distribuir a carne à satisfação de todos. À medida que a tribo trocou o nomadismo pelo sedentarismo, tornou-se possível conservar o excedente da caça e da colheita. A apropriação desse excedente empoderou seus responsáveis. Poder legitimado por xamãs, feiticeiros e sacerdotes que sacramentaram a autoridade da minoria sobre a maioria.

Se na monarquia o poder se deslocou de Deus para os reis, na democracia ele trocou o trono pelas ruas. O poder seria concedido pelo povo e em seu nome exercido. Isso de fato jamais aconteceu. Os eleitos criaram uma enorme barreira entre a rua e o palácio – a burocracia estatal. Instituições intermediárias, como partidos, ministérios, agências reguladoras e o aparato policial militar, tornam o governo praticamente impermeável às demandas populares.

O poder é, sim, permeável às demandas da elite, manifestadas pela mídia, bancos e empresas. Em uma sociedade marcada por abissal desigualdade social, o poder é sempre monopólio da minoria afortunada.

A fratura mais grave da democracia é a que separa poder político do poder econômico e submete o primeiro ao segundo. O eleitor vota, a elite financeira elege. Os cidadãos não apenas são excluídos das decisões que regem a economia, como também são retalhados em classes sociais distintas e antagônicas de acordo com a renda a que têm acesso.

Mais importante do que saber quem exerce o poder é discernir para quem ele é exercido. Para uma classe minoritária? Para a maioria da população? “A loucura dos grandes precisa ser vigiada”, alertou Shakespeare.

Em ano eleitoral, os eleitores devem pesquisar bem o perfil e a vida pregressa de cada candidato. E votar naqueles que inspiram confiança de agir com ética por mudanças estruturais em favor da maioria da população.

domingo, 8 de abril de 2018

O CASO DA BERINJELA.

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Ou de como lei e justiça são palavras diferentes.

Lei do desespero: perambular pelas estradas de um vilarejo à procura de lenha para aquecer a casa, não ter emprego e não ter dinheiro para comprar lenha.

Falta de justiça: chegar a uma situação na qual os subsídios existentes não bastam para manter a dignidade mínima, nem pessoal, nem familiar.

Lei da fome: deparar-se com uma horta, ver uma berinjela e pensar no filho pequeno, que não tem o que comer em casa.

Falta de justiça: ser pego em flagrante pelos implacáveis representantes da lei com a berinjela na mão e ser indiciado por isso.

Lei da solidariedade: ser perdoado pelo dono da horta, que se recusa a fazer queixa na polícia por tão pouco.

Falta de justiça: ser levado a processo, mesmo na falta de uma queixa do dono da berinjela, por automatismo da burocracia judiciária, que acolheu o flagrante policial.

Lei da cidadania: ser defendido gratuitamente por um advogado público da acusação de furto de berinjela.

Falta de justiça: ser condenado em primeira e segunda instâncias por juízes cumpridores fiéis da lei.

Lei da resistência: suportar nove anos de processo por uma berinjela que nem chegou ao prato do filho, tendo sido retida pela polícia no momento do flagrante.

Falta de justiça: os italianos pagarem os custos do processo, da acusação e da defesa, que dariam para comprar cerca de 4 toneladas de berinjelas.

Lei da justiça: o juiz de última instância inocentar o réu e recordar aos seus colegas de toga que a justiça italiana já inocentou vários acusados de furto por motivo de necessidade, ou seja, por fome.

Falta de justiça: instrumentalizar a lei, ignorando que o próprio dono não pediu reparação do furto à justiça; instrumentalizar a lei, ignorando a irrelevância do caso; instrumentalizar a lei, ignorando os próprios princípios constitucionais que orientam a nação italiana e preveem a aplicação de punições congruentes com a violação cometida.

Lei da confiança: ir até as últimas instâncias, literalmente, e acreditar que a justiça tarda, mas não falha.

A história da berinjela aconteceu na Itália. O flagrante existiu. O dono da berinjela foi consultado pela polícia. O advogado de defesa foi pago pelo Estado porque o réu estava desempregado. Os juízes das duas primeiras instâncias condenaram o acusado à pena de dois anos de prisão, que ele aguardou em liberdade por ser réu primário. O juiz de última instância inocentou o réu e criticou os colegas das instâncias inferiores. Os recursos estilísticos foram empregados para dar mais dramatização ao caso. Todo o resto é verdade.

Esta história dificilmente teria este epílogo no Brasil. Isso também é verdade. Infelizmente.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

TEMPERANDO A VIDA.

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Ninguém podia sobrar um grão de arroz no prato. O que era servido tinha que ser comido. Nada de fartura, mas tudo muito natural. A simplicidade estava no vestir, no morar e na alimentação. Naquele tempo, todos os dias tinha feijão. Hoje, o feijão praticamente tem dia marcado: segunda-feira. O cardápio do domingo já supõe uns incrementos para a refeição do dia seguinte. Tem mães que até cozinham um pouco a mais de feijão, para deixar nos potes congelados para os filhos. Umas folhas de louro agregavam e ainda agregam aroma e sabor especial ao prato predileto dos brasileiros. Na infância, a feijoada à mesa era simplesmente festejada. Não havia necessidade de acréscimos, nem de muitos contornos. Se tinha feijão no almoço, na janta teria sopa de feijão. Essa era a lógica, principalmente nos dias de temperaturas mais amenas. Cresci nesse ambiente, sem muitas exigências, regidos pelo manual da simplicidade. Aos domingos, a pipoca adoçada com melado de cana era saudada efusivamente. Não havia refrigerante, mas não faltava suco natural ou um pouco de vinho numa jarra d’água, claro com algumas colheres de açúcar. Tudo era festa, pois o pouco se transformava em muito.

Os anos foram passando. A sofisticação tornou-se tentação. A insatisfação roubou o espaço destinado à gratidão. Há mesas com banquetes diários, mas com poucas palavras e, às vezes, com vozes que se erguem prejudicando a digestão. Outros temperos estão ao alcance das mãos, graças à industrialização. Dificilmente se encontra residências com galhos de louros pendurados próximos ao fogão. Os condimentos chegam a ser importados. O excedente da refeição dominical nem sempre é aproveitado para a feijoada, que deixou de ter dia fixo no cardápio semanal. Será difícil voltar ao ontem. Nem seria interessante retornar a um tempo que já passou. O que não deveria ter ficado no esquecimento eram os valores que davam à vida um toque especial. A família era unida, não havia ruídos, a mesa era sagrada, mesmo com toalha cheia de remendos. O aroma da paz era percebido à distância. Os problemas eram administrados através da disciplina.

O feijão continua presente na refeição da nossa residência. O sabor fraterno é uma marca indelével, os encontros ao redor da mesa motivam diálogos, histórias de outros tempos, experiências particulares. Cada qual tem em sua bagagem existencial registros, sonhos, frustrações, cenas coloridas, afetos e desafetos intercalados. A vida, com seus versículos e capítulos, serve de enredo para curtas e também longas metragens. Se não tiver expectadores, sem problema. Viver é estar subindo e descendo do palco, onde a necessidade de aplausos é dispensada, pois as melhores cenas, consequentemente geradoras de imagens e de lembranças, são guardadas carinhosamente no santuário sagrado, que é a interioridade de cada um. Pequenos detalhes, uma palavra, um galho de louro, um prato de feijão: em questão de segundos, o pensamento visita o passado e os melhores momentos encostam no hoje, proporcionando leveza e alegria por uma história construída entre desafios, sacrifícios e muito sabor. Tomara que todos tenham sempre feijão à mesa e muitas lembranças no coração.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

LULA FOI CONDENADO PELO QUE É E NÃO POR UM TRIPLEX

 Rafael Ribeiro

A derrota do habeas corpus do ex-presidente Lula no STF se conecta com as condenações acumuladas em primeira e segunda instância. Uma leitura atenta às sentenças do juiz Sérgio Moro e do TRF-4 esclarecem a tese a seguir.

Se Lula é condenado por ser quem ele é, não necessariamente por um triplex ou por causa de um sítio, e se a Justiça não leva em conta provas mas sim uma reportagem do jornal O Globo, temos um problema gravíssimo ai, não temos? Informo especialmente aos menos cientes.

Ouvi de petistas sempre que o ex-presidente estava sendo condenado por suas virtudes, não por seus defeitos. Parece que o Supremo Tribunal Federal consolidou esta tese. Aécio, Temer e outros soltos evidenciam isso. Todos eles deveriam ser julgados pelo STF

O erro de Lula - fazer uma aliança com as elites oligarcas e achar que elas não o defenestrariam - não foi julgado. A discussão não é essa.

Ele foi descartado porque fez Bolsa Família, Ciências Sem Fronteiras, Mais Médicos e promoveu o Estado de Bem-Estar Social Brasileiro. Promoveu reformas sociais que são inaceitáveis para uma elite canalha que agora o rejeita.

Vai pra cadeia por suas virtudes e um gigantesco coeficiente eleitoral.

A elite branca e fascista vai bem, obrigado. Bolsonaro que o diga.