sábado, 24 de fevereiro de 2018

ENTENDIMENTO E SIMPLICIDADE NO OLHAR

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Aquele enredo de um amor e uma cabana estava gravado em mim... Sim, eu era “dos antigos” e tudo que queria era ver crianças brincando, cachorrinhos se divertindo, flores ornamentando, vida crescendo e raízes firmes no chão.

E eu tive muito disso... Sentado na sacada da vida, observando o tempo passar, as crianças crescerem de mãos dadas com o amor, o canto do sabiá para contemplar... árvores, vida, amor, tudo a se entrelaçar. Sombra e almofada para descansar.

As crianças inventando brincadeiras e estórias mil e eu me envolvendo e me deixando inebriar.

Pés descalços na grama, andar sem ter medo de chegar e não saber onde o barco vai ancorar.

Enxergar o azul do mar transmitindo calma à minha alma... Saborear a vida em sintonia com o universo que me cerca.

Às vezes não estamos prontos para ver o azul do céu ou a cor do mar, nem para absorvermo-nos numa vida piegas. Ela precisa ser constantemente construída dentro de nós, para que tudo floresça ao nosso entorno e nos engajemos na simplicidade dos momentos valorosos.

Bonito e simples. Sim, muitas vezes somos nós que complicamos e não absorvemos a beleza do momento.

Quero entendimento e simplicidade no olhar...

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

TEMPO DE PENITENCIA


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As quaresmeiras florescem nesta época do ano. Lindas e tristes as flores roxas, delicadas miçangas de um colar inconsútil.

Nos quarenta dias prévios à Páscoa, a fé cristã celebra, antecipadamente, a vitória da vida sobre a morte. Ressurreição experimentada a cada manhã ao despertar. Vindos da inércia e da inconsciência, da perda de si no sono, súbito revivemos! Na curva final da existência, proclama a fé, desponta a eterna benquerença.

Tempo de inflexão e reflexão. De que vale abster-se de carne terrestre ou aérea se as marítimas nos repletam a pança? Sacrifício, ofício de cultuar o sagrado. Não Deus, que se basta, e sim nós humanos, ossos revestidos de carne, o que há de mais sagrado. Feitos de pó cósmico, de partículas elementares consubstanciadas em átomos, congregadas em moléculas, revitalizadas em células. Quarenta trilhões de células em um corpo humano. Umas, revestidas de seda pura, fragrâncias raras e joias preciosas. Outras estiradas nas calçadas, fétidas, famélicas, entorpecidas pela química da fuga.

Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo.

Vale abster-se da indiferença e abraçar causas solidárias. Deixar de praguejar contra o mundo e tratar de transformá-lo. Esperar mais de si do que dos outros. Poupar críticas aos efeitos e denunciar as causas. Evitar o pessimismo da razão e alentar o otimismo da vontade. Ousar converter o protesto em proposta.

Tempo de penitência. Descer do pedestal e admitir os graves pecados contra a natureza: poluição dos ares, contaminação das águas, agrotoxização dos alimentos. A corrupção em doses cínicas, pois enquanto se torce pela higienização da política, emporcalha-se o varejo com a sonegação de impostos, o furto de objetos no local de trabalho, o salário injusto pago à faxineira, a propina ao guarda de trânsito, as maracutaias que engordam o lucro pessoal e lesam a coletividade.

Tempo de refluir à interioridade. Dedicar-se às flexões da subjetividade. Trilhar sendas espirituais. Extirpar gorduras da alma. Arrancar a trave do próprio olho antes de apontar o cisco no olho alheio. Cuspir camelos que entopem o coração antes de vociferar perante quem engole mosquitos.

Ah, como é cômodo ser juiz do mundo e proferir duras sentenças condenatórias! Fácil apontar o suposto criminoso, difícil erradicar as causas da criminalidade. Fácil identificar os maus políticos, difícil abandonar a própria zona de conforto para inovar a política.

Em tempo de quaresma há de ter presente que o pior pecado não é o da transgressão, é o da omissão. Graças a ele proliferam tantas transgressões imunes e impunes.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

COMO O PATRIARCADO SE IMPÔS AO MATRIARCADO



É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10-12 mil anos. Mas foram deixados rastos dessa luta de gênero. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, Harper San Francisco 1955) e Françoise Gange (Les dieux menteurs, Paris, Editions Indigo-Côtes Femmes,1997).

Segundo estas duas autoras se realizou a uma espécie de processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal.

Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.

O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16) que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstrui-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente.

Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

Em quarto lugar, destruí-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará”(Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição:”multiplicarei o sofrimento da gravidez”(Gn 3,16). Como se depreende, a inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal:”porei inimizade entre ti e a mulher...tu lhe ferirás o calcanhar”Gn 3,15)

A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito( Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido:”entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará”(Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou um desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

O trabalho das teólogas pretende ser libertador: mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.

Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, cuja existência é cientificamente assegurada, encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Esta mudança deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela debilmente alcançada sob o regime patriarcal. Mas isso só se consegue descontruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias e humanizadoras para os dois sexos. É o que as feministas, antropólogas, filósofas e teólogas e outras estão fazendo com expressiva criatividade.E há teólogos que se somaram a elas.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

MOFO

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Viver em uma cidade milenar permite que a gente descubra certas tendências que as arquiteturas modernas não podem cultivar no nosso coração. De repente, percebe-se um encantamento especial por uma ruína, e não falo dos monumentos mais conhecidos, mas de construções em estado de quase abandono, vigiadas pelo olhar comovido de quem vive Roma em cada ruazinha, em cada esquina, e que salva o património do esquecimento.

Deve ser por isso que fiquei tão chocada quando uma vereadora da cidade criticou uma associação que propõe a projeção de velhos filmes. Tempos atrás, num artigo que não publiquei por achar que havia temas mais importantes a tratar, escrevi sobre Ladrões de Bicicleta, um clássico do neo-realismo italiano que revi, reconhecendo as ruas e os prédios, não apenas nas cenas que enquadram o centro, mas também nas que mostram a periferia.

Decidi que não falaria do assunto e que o filme podia esperar para outra ocasião. Mas a mente não perdoa e reelabora a seu modo o que nos assusta e o que evitamos comentar. Eu tinha prometido não falar sobre isso, então o meu cérebro se vingou produzindo este pesadelo:

Eu morava em uma cidade altamente tecnológica. Nenhuma ruína, nenhum Coliseu a que meus olhos já se acostumaram. Nenhum prédio antigo. Também não havia árvores. Todos os residentes precisavam produzir novidades e só novidades importavam. Quem não inventava algo novo era preso e colocado fora da cidade. Eu tentava me adaptar, não tanto por convicção como pelo terror de acabar numa prisão. E assim, o medo me levava adiante e me dava a oportunidade de ver um rio de gente a ser detida e sumindo nessa prisão nunca vista, mas temida só por ouvir dizer. Acordei sobressaltada, um minuto antes que o pesadelo me conduzisse ao epílogo óbvio: seria presa por não ser suficientemente inovadora. E pensei, enquanto sentia o cheiro dos lençóis e da casa, os odores familiares que nos transmitem segurança, que realmente não sou inovadora em nada. O meu pesadelo era apenas uma reelaboração de O Alienista, de Machado de Assis.

Também lembrei de outro artigo que li esta semana: uma equipe de matemáticos está estudando o Vedas, uma antiga antologia de textos em sânscrito que até hoje não foi plenamente decifrada. Os cientistas acreditam que a lógica do texto está baseada em um sistema de escolha inteligente, capaz de indicar a melhor solução em um evento crítico, que não pode ser resolvido por meio de um sim ou um não. Eles pretendem usar a sintaxe do Vedas para projetar carros inteligentes, em condições de identificar a melhor solução para momentos críticos, por exemplo: bater o carro em um muro ou atingir o pedestre?

Voltei a pensar nos velhos filmes, na vereadora e nos odores. Não posso imaginar um mundo sem o cheiro do mofo. Não posso imaginar um mundo sem o cheiro da história. Não posso imaginar um mundo desprovido de memória. Nem os carros inteligentes e altamente tecnológicos podem abrir mão disso.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O MEDO VENCEU A ESPERANÇA

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“O Brasil é um país curioso, é um país extremamente sem vergonha, não tem a chamada vergonha na cara”.

Antonio Callado, jornalista, romancista, biógrafo e dramaturgo (1917-1997), em entrevista à Folha, poucos dias antes de sua morte.

***

Quem escreve esta coluna hoje não é o jornalista, mas o cidadão brasileiro montado no burrico do Paulo Caruso aí acima.

É um cidadão de quase 70 anos, pai de duas filhas e cinco netos, que está preocupado com o futuro de sua família.

Vamos esquecer por alguns momentos neste domingo o Fla-Flu político-partidário que dividiu a Nação nas eleições de 2014.

Quero e preciso falar das minhas angústias.

Qualquer que seja o resultado da eleição presidencial de 2018 sabemos que o país continuará rachado ao meio.

Atribuir isso a um lado ou outro não resolverá nossos problemas nem fará cessar nossas aflições.

De nada adianta fulanizar a responsabilidade pela maior crise da nossa história recente.

Nenhum dos nomes até agora incluídos na lista de candidatos tem condições de unir novamente este povo em torno de um projeto comum.

Esta é a grande encruzilhada à nossa frente, apenas três décadas após a redemocratização do país.

Nossa jovem e frágil democracia está ameaçada.

Já nem sei o que dizer aos netos que me perguntam o que vai acontecer com o Brasil.

Nós que sempre fomos movidos a esperança em dias melhores, mesmo nas noites mais escuras da ditadura, já não conseguimos enxergar uma luz no fim do túnel.

Em 2002, quando parte da minha geração chegou ao poder vestimos uma camiseta em que se lia:

“A esperança venceu o medo”.

Agora, neste começo de 2018, tão pouco tempo depois, sou obrigado a reconhecer que o medo venceu a esperança.

Não me refiro ao medo imposto pela violência da bandidagem, mas ao medo do futuro, pela absoluta falta de perspectivas de mudança no cenário.

Esperança e medo são os dois sentimentos mais fortes manipulados em eleições desde sempre.

Em 2018, já está claro que o medo vai dominar a campanha eleitoral.

É isto que está por trás da intervenção militar no Rio de Janeiro e da criação extemporânea de um Ministério da Segurança Pública.

São operações do marketing do desespero deste governo e de setores da mídia carioca, em que o combate à criminalidade é apenas uma forma de disseminar o medo para colher votos e assustar ainda mais o eleitorado.

Nos últimos anos, voltamos às piores lembranças do passado, comprometemos o presente e deixamos as novas gerações sem futuro.

Como explicar isso a uma criança?

Eleição sempre foi um momento de renovação de esperanças, de acreditar num futuro melhor, mas este ano nem tenho vontade de sair de casa para votar.

A maioria das pessoas com quem converso, de todas as latitudes políticas, me diz a mesma coisa.

A oito meses da abertura das urnas, quase ninguém tem candidato.

É terrível constatar isso partindo de gente que lutou pelo fim da ditadura e pela volta das eleições diretas para presidente da República, nem faz tanto tempo assim.

Em 1989, na primeira eleição direta da minha geração, neste mesmo período do ano, os eleitores já brigavam por seus candidatos, enfeitavam carros e casas com propaganda, os postes eram tomados por cartazes, não se falava de outra coisa, era uma festa.

Agora, reina o mais absoluto silêncio nas ruas, não há sinais, fora da imprensa e das redes sociais, de que em breve seremos chamados a decidir o nosso destino.

A cada dia aumenta a desesperança, a sensação de que não tem mais jeito, o país não deu certo nem nunca vai dar, como Antonio Callado desabafou aos repórteres Matinas Suzuki Jr. e Maurício Stycer, no final de janeiro de 1997, poucos dias antes de sua morte.

Tenho pensado muito ultimamente nesta entrevista do grande brasileiro Antonio Callado. Ao final, na semana em que completou 80 anos, faz uma triste constatação:

“Perdi completamente o interesse em operações políticas no Brasil. Não acredito que elas venham. Não vejo como podemos sair daqui, agora. Acho o mundo muito esculhambado no momento. Não vejo esperança… Não tenho a menor esperança de ver coisas diferentes na minha frente. Lutei muito é verdade… E não deu em nada”.

Isso foi vinte anos atrás. O que ele diria hoje?

Em tempo: não deixem de ler a comovente reportagem de Eliane Brum “Vidas barradas em Belo Monte” publicada pelo jornal inglês “The Guardian” e reproduzida no UOL neste domingo. Ali está um retrato pronto e acabado do Brasil de 2018 onde o medo venceu a esperança.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ESCREVEMOS PARA QUEM?


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Acho que nunca na história da humanidade tantos se dedicaram com tamanho empenho a escrever sobre todas as coisas como nos dias atuais.


Por onde passo vejo pessoas digitando sem parar como se fossem mudar o mundo com o que escrevem.


Me dá a impressão de que hoje se escreve mais do que se lê e isso não é bom, não deve fazer bem.


Haverá leitores para tudo o que escrevemos no zap-zap e nas redes sociais? Será que as pessoas não têm outras coisas mais prazerosas para fazer?


Tenho para mim que ler é uma forma de se alimentar com as experiências dos outros e aumentar nosso conhecimento.


É sempre bom ler antes de digitar, informar-se bem, pois nem sempre o que escrevemos tem algum interesse para os outros.


Só deveríamos escrever quando for absolutamente necessário, como falar ao telefone numa emergência ou tomar um copo d´água para saciar a sede.


Caso contrário, corremos o risco de ficar repetitivos, batendo sempre nas mesmas teclas gastas.


Em primeiro lugar, é preciso ter alguma coisa nova para dizer, algo que possa ser útil aos outros, para informar, fazer pensar, divertir, se for o caso, ou consolar nos momentos de aflição.


Tirante os que escrevem por dever de ofício, como os jornalistas, escrivães de polícia, cartorários, advogados, juízes e burocratas em geral, que tal se em vez de digitar freneticamente voltarmos a conversar com as pessoas, pessoalmente, sem intermediários eletrônicos?


Nesta febre de evasão da privacidade, em que todo mundo conta para todo mundo o que está fazendo, comendo, pensando, caminhamos para a incomunicabilidade nas relações pessoais em plena era da comunicação total online e full-time.


Se dermos uma boa peneirada, vamos ver que 90% de tudo o que é publicado neste preciso momento em que escrevo é absolutamente dispensável _ a começar, quem sabe, por este texto mesmo.


Por que e para quem a gente tanto escreve, afinal: a pergunta do título fiz a mim mesmo esta noite enquanto pensava sobre o que iria escrever amanhã neste espaço.


Conheço gente que escreve para ser admirado, por sua erudição ou ideias geniais, mas esse nunca foi, certamente, meu caso.


Não escrevo para agradar nem agredir ninguém. Sou um contador de histórias da vida real feito aquela senhorinha que passa o dia na janela e depois conta ao marido o que viu _ do seu ponto de vista, é claro.


O marido, no caso, são os leitores que me acompanham faz mais de meio século e, como não sei fazer outra coisa na vida, continuo escrevendo todos os dias.


Em certos dias, tem assunto demais; noutros, é preciso tirar leite de pedra. Assim é a vida.


Se pudesse, só escreveria sobre coisas boas, inspiradoras, agradáveis de ler e, se possível, engraçadas, mas a vida real não é assim, teima em nos jogar na cara a toda hora fatos abomináveis, personagens execráveis, becos existenciais sem saída.


Às vezes tem gente que me pergunta quando vou lançar um novo livro e eu me pergunto: por que devo escrever outro livro, o que me falta dizer?


Já contei aqui a sacanagem de um amigo meu, também escrevinhador prolífico, que certa vez comentou numa rodinha de jornalistas que eu era o único cara que já tinha escrito mais livros do que lido. Ou seja, que sou um autor inculto.


Pois lhe digo agora, caro amigo, que ultimamente estou tirando o atraso, lendo um livro após outro e, por vezes, dois ou mais ao mesmo tempo _ e tenho gostado muito dessa experiência.


Se as pessoas lessem mais e escrevessem menos, acho que o mundo seria bem mais saudável. Então vou parando por aqui para dar a minha contribuição.


Hoje ganhei um livro novo, Variações sobre o prazer, do grande educador Rubem Alves. Dizem que é muito bom. Como saber? Só lendo…

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

VIOLÊNCIA E DESIGUALDADE

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Pelo menos quatro pessoas morrem assassinadas na América Latina a cada 15 minutos, de acordo com informe recente do Banco Mundial. Embora haja redução da pobreza e das desigualdades nos últimos anos, isso não influi na diminuição da criminalidade.

Dos dez países mais violentos do mundo, oito são latino-americanos, assim como 42 das 50 cidades mais afetadas pela criminalidade. A taxa de homicídios no nosso Continente é de 23,9 mortos a cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o índice sobe para 92 em cada 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a taxa média. No Brasil, há 47 mil homicídios por ano!

Segundo o Banco Mundial, isso se deve ao aumento do tráfico de drogas e do crime organizado; de falhas do sistema judiciário e da impunidade; e da falta de melhor educação e oportunidades de trabalho para os jovens de famílias de baixa renda.

Para enfrentar esse quadro dramático, o banco recomenda a construção de “um tecido social mais inclusivo com maior igualdade de oportunidades”; a implementação de políticas preventivas, com redução dos índices de evasão escolar; e a ampliação da oferta de empregos de qualidade.

O Banco Mundial não se pergunta, em seu relatório, as causas dessa situação. Pesam, evidentemente, o pouco investimento do poder público em educação de qualidade, a corrupção dos políticos e a despolitização da sociedade. Na lógica neoliberal, toda pessoa de “sucesso na vida” é resultado de seu próprio esforço. Ora, isso equivale a esperar que mil alpinistas alcancem, na mesma semana, o pico do Monte Everest, o mais alto do mundo.

É o sistema capitalista, com a sua apropriação privada da riqueza produzida pela sociedade, o grande responsável pela exclusão e desigualdades sociais. Para que uma pessoa atinja o topo da escola social, outros milhares são alijados das oportunidades.

Dos 15 países mais desiguais do mundo, 10 são latino-americanos, nesta ordem: Bolívia, Haiti, Brasil, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Chile, Colômbia e Guatemala. Entre os países do G20, o Brasil é o mais desigual. Basta dizer que os 10% mais ricos da população ficam com 60%.

Os lucros das empresas, que representam 6% da renda nacional, cresceram 231% entre 2000 e 2015. A JBS que o diga! E isso graças à generosidade do Estado que, via BNDES, canalizou muitos recursos para a iniciativa privada cobrando juros irrisórios. Em outras palavras, o pobre povo brasileiro financiou a multiplicação da fortuna dos ricos.

Enquanto o Brasil não passar por uma profunda reforma tributária a desigualdade social só tende a aumentar. O economista Rodolfo Hoffmann calcula, baseado em dados do Pnad 2015, que a disparidade de renda no Brasil cairia 23% se todos pagassem Imposto de Renda de acordo com as alíquotas em vigor, sem deduções, e os recursos arrecadados fossem canalizados para beneficiar os segmentos mais pobres da população. A queda seria de 27% se fosse criada uma alíquota de 40% de Imposto de Renda para quem ganha mais de R$ 7 mil mensais. E ainda seria maior essa redução se o imposto fosse progressivo, taxando a renda e o patrimônio dos 10% mais ricos.

Mas cadê governo para ousar governar democraticamente, ou seja, a favor da maioria do povo brasileiro?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

NELSON RODRIGUES VIVE.

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Nelson Rodrigues tinha uma obsessão pelos idiotas. Combateu-os a vida toda, mas eles venceram, e se multiplicaram.

Foi premonitório numa das suas célebres frases sobre este fenômeno humano:

“Os idiotas irão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade”.

Vivo fosse, Nelson Rodrigues teria hoje 106 anos. Continua mais atual do que nunca.

Por que me lembrei dele justamente nesta terça-feira do Carnaval de 2018?

Fico pensando no que Nelson escreveria em sua coluna “A vida como ela é” sobre o noticiário destes dias em que a idiotice nacional bate todos os recordes.

E olhem que no tempo dele ainda não existiam as redes sociais, um terreno fértil para os idiotas que ele imortalizou em sua extensa obra.

Num país que tem hoje 20 pré-candidatos à Presidência da República, espalhados por mais de 30 partidos, um deles ameaça metralhar a Rocinha para combater a violência se for eleito e os banqueiros nativos batem palmas de pé.

Outros dois presidenciáveis compraram jatinhos com dinheiro público a juros baixos e tem quem defenda este direito como uma oportunidade de mercado, ao mesmo tempo em que blasfemam contra a corrupção.

“A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas que são a maioria da humanidade”, escreveu ele, mais de meio século atrás.

Nelson iria enlouquecer de raiva se lesse os comentários publicados no papel e nas redes digitais nestes últimos dias.

Ao mesmo tempo reacionário na ideologia e revolucionário na dramaturgia, não se conformava com a mediocridade e imbecilidade dos seus contemporâneos do século 20.

Não sabe o que perdeu ao morrer antes deste século 21 que revelou Donald Trump ao mundo e pode eleger Bolsonaro no Brasil, que ainda se espanta com os tapa-mamilos das mulheres de peitos de fora, enquanto o presidente Temer vai de Mangaratiba para Roraima cuidar de venezuelanos e o prefeito carioca Crivella passa o Carnaval na Alemanha.

“Daqui a 200 anos, os historiadores vão chamar este final de século de a mais cínica das épocas. O grande acontecimento do século 20 foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”, foi outra das suas constatações pouco generosas com a humanidade.

“Espera para ver o século 21…”, poderia lhe ter dito Ulysses Guimarães, parafraseando aquela sua profética frase sobre o Congresso Nacional, que os jornalistas da época criticavam: “Espera para ver o próximo”.

Mais do que nunca, a vasta obra do “Anjo Pornográfico”, tão fielmente retratado na biografia de Ruy Castro, é leitura obrigatória para entendermos melhor o que está acontecendo, com seus inacreditáveis protagonistas e comentaristas.

Nelson Rodrigues vive.

Já estamos na Quarta-Feira de Cinzas, acaba a fantasia e começa tudo de novo.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O FEMININO VEIO PRIMEIRO

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O presente texto quer ser uma pequena contribuição ao debate sobre o feminino tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. Vejamos como surgiu no processo da sexogênese. Várias são as etapas.

A vida já existe na terra, há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi provavelmente um bactéria unicellular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Há dois bilhões de anos, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromosomos. Nela se identifica a orgem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromosomos em pares. Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas diferentes com seus núcleos. A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos – que junto com a seleção natural representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e simbiose do que da luta competitiva pela sobrevência.

Nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que no grande utero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.

Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pênis, algo masculino, que tocando a célula passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados há 370 mihões de anos com os répteis, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o aparecimento dos maníferos há cerca de 125 milhões de anos já surgiu uma sexualidade definida de macho e fêma. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos apareceu o nosso ancestral mamífero que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros há 67 mihões de anos, puderam ganhar o chão e se desenvolver chegando aos dias de hoje.

Há ainda o sexo genético-celular humano que apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromososmos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O do homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromosomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromosomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Ainda com referência ao sexo genital-gonodal importa reter que nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, femininina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromosomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina. Em termos do sexo genital-gonodal podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio de Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgêni pelos testículos.

Por fim existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra e pelo hipotálamo que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o andogênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormônio, produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininios; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio.

Importa ainda dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontologica. O ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Até a emergência da sexualidade o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força institiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais ponderosa “que move o céu e as estrelas”(Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas retenhamos: o feminine vem primeiro e é básico.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

FUZIL NAS MÃOS E MÍDIAS NA CABEÇA

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Tudo que Deus fez e faz tem como objetivo primordial o ser humano. Deus oferece na morte de seu Filho primogênito na cruz a salvação ao ser humano. A morte de Deus é pelo homem salvo. O amor de Deus é dado na missão de Jesus, salvar o ser humano. Para Deus cada pessoa é merecedora de seu amor salvífico. Vendo nesta perspectiva a ação de Deus nas história, a morte de cruz por amor, é gesto a ser compreendido e assimilado pelo humano contemporâneo.

No Brasil, a partir da elaboração do Estatuto do Desarmamento em 2003, foi instituída a campanha de conscientização em prol do desarmamento da população. Na época foram veiculados conteúdos em meios de comunicação social com a finalidade de conscientização do perigo do porte de armas. Foram seis meses de intensa campanha visando que as pessoas entregassem de boa-fé as armas, com direito até à indenização, conforme a Lei número 10884/2004.

A princípio o resultado da Campanha pelo Desarmamento, segundo dados do Ministério da Justiça, superou a estimativa com a entrega de 443.719 armas de fogo. As armas recolhidas foram destruídas por um pesado rolo compressor do comando do Exército diante de câmeras de televisão. Com o resultado positivo o Ministério da Justiça estendeu a Campanha pelo Desarmamento até 23 de outubro de 2005. Contudo, apesar da conscientização e da proibição da comercialização de armas de fogo e munição, em 2011 o governo federal gastou 3,5 milhões em indenizações referentes a desarmamento. Contudo, a população brasileira continua fortemente guarnecida por armas de fogo.

Apesar da campanha, hoje se continua a comercializar armas de fogo tanto de forma legal, como de modo ilegal pelo tráfico de drogas. Lamentavelmente a comercialização de armas e munição não é às escondidas. Os órgãos públicos que devem combater o uso e a venda de armas e munições não têm condições de coibir sua comercialização. Mediante a realidade que se apresenta, é surpreendente o juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, postar fotos em redes sociais segurando um fuzil e mostrando o resultado de um teste de tiro. Na postagem feita em 1º de dezembro o juiz federal agradece à Polícia Civil pelo treinamento e à Polícia Militar pela escolta pessoal. O grave, após campanha de desarmamento de grande custo para a nação, é ver um juiz com destacada atuação nos processos da Lava Jato agir de forma nada conveniente com seu ofício público.

A cena do juiz Marcelo Bretas fazendo apologia à violência percorreu o mundo pelas redes sociais e sua postura rendeu muitas críticas. Segundo o jornalista Luís Nassif, chama atenção como o magistrado tem se mostrado preocupado em fortalecer sua imagem diante da opinião pública. Mas, segundo o jornalista, por detrás daquela imagem há um ego impulsionado que nada tem a ver com o papel de um servidor público. É estarrecedor que o magistrado da Operação Lava Jato faça apologia em defesa de armas de fogo, algo que há de sobra no Estado do Rio de Janeiro. De todo modo, um fuzil nas mãos deve ser algo abominável por qualquer cidadão de bem neste Brasil. Tal imagem diz que algo está perdido, a sua própria consciência, e que o Brasil enveredou para o caminho da violência pública, agora institucionalizada.

Entretanto, as bases éticas das estruturas públicas repudiam qualquer vontade abusiva que afronte as formas jurídicas e o livre consentimento pela paz civil. O problema da violência e do mal do Brasil está no próprio homem, na sua incapacidade de ser um cidadão público respeitável. Entretanto, as estruturas de bem se mantêm na colaboração pacífica de milhões de homens justos e honestos neste país. O cidadão comum aprende que honesto vive na miséria e porta a paz em seus atos. Justamente a morte de cruz de Deus foi por ter rejeitado estruturas exteriores como armamentos e violência para salvar o ser humano. Ao assistir a cena de um juiz com fuzil nas mãos e com a mídia na cabeça, tem-se a conclusão de sua incapacidade para exercer um ofício público como a magistratura.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

AMIGOS DE COLEÇÃO.


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Quero deixar imediatamente claro: este texto não fala de coleção de amigos. Muito pelo contrário: amigo de coleção é o ex-amigo, que a gente guarda num cantinho da memória e vai, com o pensamento, visitar de vez enquanto, cultivando a melancolia, a saudade, a tristeza, o rancor, o alívio, a satisfação.

A gente nunca sabe quanto tempo uma amizade pode durar. É preciso jogar-se de cabeça, esperando que seja para sempre, na alegria, na tristeza, na cumplicidade, no apoio, no cuidado, no aviso. Mas nada é garantido. A única certeza é que ex-amigo ficará para sempre nessa condição, cutucando os nossos sentimentos. Ex-amigo não permite a elaboração do luto, quando a gente menos espera ele reaparece, mas o abraço fica suspenso no ar.

O lado positivo da coleção de ex-amigos está no fato de nos oferecer a oportunidade para não cometer os mesmos erros com outros. À medida que a coleção aumenta, o catálogo das emoções se amplia. Há amigos que a gente perde porque perdemos o endereço, trocamos de escola, de casa, de trabalho e de país. São ex-amigos que ensinam o sentido da saudade. Outros, a gente perde porque cresce e em nossas vidas já não cabe a cumplicidade incondicionada, cada um precisa assumir as próprias responsabilidades e deixar de ser gregário. São ex-amigos que ensinam o valor das nossas escolhas. Há amigos que a gente perde porque a vida é complicada e não oferece oportunidade para compartilhar experiências, um almoço, um feriado. São ex-amigos que nos revelam o significado da solidão, que permitem que a gente aprenda a lidar com isso. Há ex-amigos que nos colocam diante da raiva e exigem que a gente descubra um modo para reconhecer, conviver e domar esse sentimento. Há ex-amigos que pioram com o tempo, em vez de envelhecerem como vinho de qualidade, mostram o seu lado mais azedo. Eles nos pedem paciência e às vezes desafiam os limites da nossa paciência. Com eles descobrimos o que significa dizer não, entendemos o valor do ponto. Há ex-amigos que nos surpreendem e nos decepcionam. Eles nos fazem perceber o sentido exato da traição e podem oferecer ótimos exemplos dessa arte que caleja e põe à prova a nossa confiança e a nossa capacidade de apostar de novo, apesar das probabilidades.

Os meus amigos de coleção têm um grande valor para mim. Conservo na memória, cultivo a tristeza, a decepção, mas também os bons momentos, as experiências vividas. Ex-amigos são parte da estrada e da história, na mesma medida dos amigos. Não, não é para comparar, porque amigos são aqueles que certamente já passaram por dificuldades, resistiram e ficaram ao nosso lado, embora tantas coisas tentem continuamente separar as pessoas. Claro que os amigos são especiais. Entretanto, ex-amigos também são. Como um sonho que não deu certo, mas no qual a gente aposta todas as fichas. Porque apenas sonhos podem se tornar realidade. Ainda que se concretizem em outras amizades, o ex-amigo é a vitória da persistência, é a derrota que se torna uma semente de futuro.