terça-feira, 15 de março de 2016

A NATUREZA É FEITA DE INFINITOS SINAIS.

Há quatro anos um pedreiro aposentado salvou um pinguim. Ele encontrou o pássaro encharcado de óleo em uma praia perto da sua casa, no Rio de Janeiro. Na época, ele lavou adequadamente o pinguim, alimentou a ave com sardinhas e, quando ela ficou forte novamente, o pedreiro levou-a até a praia para que seguisse adiante junto com as outras aves. Só que o pinguim decidiu ficar. O pedreiro tentou novamente, com um barco, soltá-lo em alto mar, mas quando chegou em casa, lá estava o pinguim esperando por ele.

Eles ficaram amigos e a ave ganhou o nome de JingJing. O pinguim passa cerca de oito meses por ano com seu amigo, na praia carioca, e vai para o mar durante dias, ou mesmo meses, mas sempre volta. A própria natureza é capaz de ensinar gratidão. Voltar, para aquele pinguim, é a forma mais adequada para agradecer. Longe de possíveis explicações racionais, ser agradecido é uma atitude encantadora, expressão profunda de afeto e reconhecimento pelo bem recebido.

A gratidão é um necessário aprendizado, condição para fortalecer os laços fraternos e provocar profunda alegria. Além do convencional ‘muito obrigado’, é importante que vire rotina gestos de profundo agradecimento. Mesmo não havendo necessidade, nunca é demais agradecer. Os gestos de gratidão falam mais do que as palavras. São marcas que eternizam, sinais que permanecem, lembranças que harmonizam, laços que se entrelaçam.

O pinguim não se importa em ter que enfrentar temperaturas bem diferentes do seu habitat natural, mas não deixa de voltar para onde foi acolhido e cuidado. A ciência, talvez, se ocupe em decifrar se é instinto ou algo específico da própria espécie. Olhos sensíveis experimentam profunda alegria ao saber da trajetória anual daquele pinguim, salvo pelas mãos calejadas de um humilde pedreiro. Um ensinamento com muitas lições de vida.

Para o equilíbrio do meio ambiente e proteção das espécies, é necessário que surjam muitos ‘pedreiros’, com coração sensível e cuidador. O planeta é a casa comum onde todos podem se abrigar. A consciência, quanto ao valor do meio ambiente, deve ser lapidada continuamente. Gestos generosos sempre serão recompensados. A gratidão pode ser percebida de muitas formas. Todos os anos, o pinguim volta para agradecer. A cada amanhecer a luz do sol se faz gratidão. A natureza é feita de infinitos sinais.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O TEMPO.

Com o término do chamado horário de verão, ganhamos uma hora a mais. Na realidade, não ganhamos, mas nos devolveram um hora roubada no início da estação. Diferente é o ano bissexto, quando realmente ganhamos um dia a mais. Uma pergunta curiosa: o que fizemos - ou faremos - desta hora e deste dia a mais?

A pergunta precisa levar em conta o ‘tempo’. Ele é abstrato e concreto. Falamos de perder tempo, ganhar tempo, recuperar o tempo perdido, passar o tempo, avaliar quanto tempo ainda temos. É algo bem concreto e nós o manejamos todo dia. Mas também é abstrato, invisível, inelástico. Lembrando o velho Santo Agostinho: todos sabemos o que é o tempo, mas não sabemos explicar quando nos interrogam.

Concreto ou abstrato, o homem, desde o tempo das cavernas, tentou medir e calcular o tempo. Há, pelo menos, 3.500 anos, surgiu o relógio do sol. Depois, o relógio de areia - conhecido por ampulheta. Por volta de 1504, um certo Peter Henlein fabricou o primeiro relógio de bolso. O relógio de pulso é recente - 1904 - obra de Louis Cartier. A última palavra é o relógio atômico - 1956 - que atrasa poucos segundos a cada 100.000 anos.

Ao lado dos diversos tipos de relógios apareceram os calendários, espécie de atacadistas do tempo. Logo surgiram os conflitos entre o tempo real e o virtual. O imperador Júlio Cesar pode ser considerado o pai do ano bissexto, que acontece, de maneira geral, a cada quatro anos. O sexto dia, antes das calendas de março, era repetido. O calendário Juliano durou séculos e foi substituído pelo atual calendário Gregoriano, do Papa Gregório XIII. Naquele ano - 1582 - o calendário deu um salto: passou da quinta-feira 4 de outubro para a sexta-feira dia 15. Literalmente, foram acertados os relógios e os calendários.

Medimos, mas não dominamos o tempo. Passado, presente e futuro - ontem, hoje e amanhã - são maneira de situar nossos gestos. Os teólogos falam do tempo como o espaço do amor de Deus. Todas as horas, todos os dias são iguais. Depende como nós os ocupamos. O imperador-filósofo, Marco Aurélio (120 a 160 dC) costumava dizer “Perdi o dia”, quando não tivesse feito uma boa obra.

O tempo é um presente de Deus. Ele o concede para nosso amadurecimento humano e espiritual. É com o tempo que preparamos a eternidade. A misericórdia de Deus é infinita, mas o nosso tempo é limitado. Uma hora, um dia, podem fazer a diferença.

domingo, 13 de março de 2016

VAMOS CERRAR OS PUNHOS

Acredito que estamos vivenciando um momento de mudanças em nossa sociedade. Essas mudanças estão acontecendo graças à resistência das chamadas minorias. A reação dos tradicionalmente oprimidos ainda é tímida, mas naturalmente irá se intensificar. Digo naturalmente, porque é inerente ao instinto de defesa do ser humano, reagir quando não mais suporta ficar acuado. Historicamente, o pau que sempre deu em Chico, nunca deu em Francisco, principalmente se Francisco tiver um sobrenome imponente. Talvez Chico tenha demorado muito a perceber tamanha desigualdade, mas agora que despertou, ele ergue o punho e clama por justiça e igualdade.

O punho cerrado é um gesto político de força e resistência, que se popularizou com os Panteras Negras nos EUA, grupo que combatia o racismo e lutava pela igualdade racial e social. Alguns, mais coxinhas, atribuem o gesto ao socialismo que resiste ao sistema capitalista. Outros, mais românticos, lembram-se de Sócrates, não o Grego, mas o de Ribeirão Preto, craque do Corinthians nos anos 80, que ao fazer um gol, comemorava com os punhos cerrados em protesto contra a ditadura militar. Eu, um pouco mais realista, atribuo a cada cidadão que tem sede de justiça. A cada um de nós que já está cansado de ser tratado como gado de corte a caminho do matadouro. A cada ser humano que tem a consciência de que o mundo só desfrutará da tão sonhada paz, quando houver justiça e igualdade social.

O discurso não deve ser utópico e muito menos esquerdista, como alguns costumam sugerir quando se fala em igualdade. Ele precisa ser humanitário. Cerrar os punhos é dizer não a opressão social, a qual a maioria da população é submetida. Cerrar os punhos é não aceitar que o coronelismo e a tradição do favorecimento hereditário ainda imperem nesse país, mesmo quinhentos anos após o seu descobrimento. Cerrar os punhos é não aceitar que a cor da pele determine o caráter do indivíduo e sentencie o seu destino. Cerrar os punhos é não se manter na sua zona de conforto, enquanto muitos passam fome porque são vítimas de um sistema covarde e desumano, que faz com que o rico fique cada vez mais rico e o pobre cada vez mais fique mais pobre.

Cerrar os punhos é ter um Cristo interior, que deu a própria vida por ao amor a humanidade e desafiou os poderosos do seu tempo, trazendo à luz toda a hipocrisia praticada por aqueles que se julgavam donos da sabedoria e da justiça. Cerrar os punhos é não temer o peso da cruz sobre os ombros, por ajudar o próximo a carregar o seu fardo. Cerrar os punhos é abrir mão do pensamento covarde e acomodado de que o mundo é assim mesmo e que não se pode fazer nada para mudá-lo. Pois o mundo muda quando a nossa mente começa a pensar diferente. Cerrar os punhos é lutar pela verdadeira meritocracia, na qual todos os cidadãos tenham oportunidades iguais, sem que sejam lesados pelos conchavos e pelos apadrinhamentos que insistem em abençoar apenas a alguns ditos filhos de Deus.

Cerrar os punhos é deixar de lado os preconceitos e enxergar no outro um cidadão com os mesmos direitos e deveres que você possui. Nem mais e nem menos. Cerrar os punhos é não se deixar alienar por uma mídia, por vezes golpista, cujo comprometimento é apenas com os interesses de quem a controla. Cerrar os punhos é não abrir mão das políticas afirmativas e de inclusão, só porque a casta mais nobre da sociedade não abre mão de continuar oprimindo os menos favorecidos e de lhes negar o acesso à dignidade plena, a qual todo cidadão deve desfrutar. Cerrar os punhos é não se deixar seduzir por políticos oportunistas, que se aproveitam de um momento desfavorável que o país atravessa, para se apresentarem como a solução do problema.

Cerrar os punhos é se libertar da chibata institucional que sempre tenta açoitar o raciocínio libertário daqueles que querem fazer valer os seus direitos. Cerrar os punhos é impedir que os seus pulsos sejam cortados, que a sua dignidade seja roubada, que a verdade seja corrompida e que os seus sonhos sejam destruídos. Cerrar os punhos é ter coragem para tomar a atitude necessária para a mudança. Se hoje cada um de nós cerrarmos os punhos para lutar por igualdade e justiça, amanhã estaremos de mãos dadas celebrando a vitória.

Um punho cerrado jamais será cortado.

sábado, 12 de março de 2016

O SAGRADO DIREITO DA VIDA DO OUTRO

Em meio a um contexto social de corre-corre e de ativismo, de ruídos e de tantas seduções é preciso refletir sobre a razão da existência humana. Na sociedade pós-moderna são muitas seduções que ocupam a vida. Qualquer pessoa que se ponha a pensar na essência do ser humano, com certa seriedade e serenidade, concorda que a nova cultura produziu condições para mudar o ritmo de vida das pessoas. No entanto, isto nos obriga a pensar no sentido da vida. Convenhamos que, a respeito do consumo exacerbado da nova cultura capitalista globalizada, não é exagero dizer que provocou mudanças de comportamento em todas as pessoas: crianças, jovens, adultos e idosos.

Na visão do teólogo espanhol José Maria Castillo (1929), a sociedade moderna é marcada por três acontecimentos com determinada influência no comportamento humano. Castillo aponta primeiro a quantidade e a rapidez da informação que circula em todo o mundo. Em questão de segundos interage-se com outro extremo do mundo pela internet, correio eletrônico e telefonia móvel. É uma conquista importantíssima de nosso tempo.

O segundo fato é a migração e a circulação de pessoas de um país ao outro, de um continente ao outro. É uma situação que ganhou contornos de problemática mundial com a crise econômica do sistema capitalista. O terceiro fato é o crescimento da violência em todas suas formas possíveis. Atos de terrorismo são organizados e praticados por grupos especializados no assunto. São cenas de violência que impõem pavor pela tamanha monstruosidade e bestialidade da ação humana.

O alcance de tais fatos produz um imaginário social em que ninguém está seguro. Em tudo isto há algo que assusta a sociedade moderna: quanto mais tecnologia, mais insegurança e mais frágil vê-se o ser humano. Diante desses acontecimentos, seguramente é preciso pensar numa sociedade alternativa com elementos de equilíbrio humano, social e global. As coisas que eram seguras ontem, hoje se tornaram inseguras, abaladas, inconsistentes.

É preciso dar um passo em direção a algo que assegure outro horizonte para a humanidade. E a direção é clara, até decisiva ao pressupor: a indagação pelo respeito ao direito à vida de todos; a indagação pela consolidação de valores comuns, como a paz, dignidade, preservação do planeta, harmonia mundial. Mais do que uma nova situação mundial, é o amor que se considera indispensável, inteiramente necessário, para assegurar o sagrado direito da vida do outro.

sexta-feira, 11 de março de 2016

MORTE E VIDA

Este título pode parecer estranho e complicado. Refletindo e meditando no dia de finados, surgiu-me esta reflexão que decidi escrever. É possível que algum leitor discorde, ou duvide desta verdade. Se acontecer, creio que haja razões para isso. Para tanto vamos pensar juntos. Quando se fala em morte, logo temos a ideia de que seja o fim de tudo. Terminou a ação, os recursos humanos se foram, a medicina não tem o que fazer senão registrar a causa do fato. Enfim, revestimos a morte como a realidade que tudo paralisa.

Olhando com realismo, sabemos que o sofrimento e a morte são realidades humanas que estão sempre provocando a capacidade científica para encontrar soluções, remédios e cuidados para que as pessoas tenham qualidade de vida e longevidade em sua existência aqui na terra. Viver mais, viver melhor, viver sem morrer, parece o sonho motor que mais impele reais investimentos de tempo, capacidades, meios de defesa e mesmo bens econômicos.

Apesar de tanto empenho, tantas descobertas, tantos êxitos, tantos recursos e tantos discursos, a morte continua sendo inevitável para todo o ser humano. Se a razão se vê sem argumentos ou até derrotada, se os apegos e afeições encontram barreiras inexpugnáveis diante da morte, o coração e a raiz do ser da cada pessoa continuam se sentido fortemente provocados pela morte.

Como nos certificamos desta provocação tão forte que habita em nós? Como podemos atribuir à morte, aparentemente inerte, tamanha força provocadora? Certamente essa inquietação que nos acompanha e habita as profundezas de nosso ser, não é uma realidade circunstancial, mas essencial. Nós não queremos morrer! Nem queremos que morram aqueles e aquelas que amamos e nos amam.

Nossa condição mortal nos provoca para a imortalidade. A eternidade nos provoca a superar os limites do tempo. Toda a questão está em nos dar conta de que Deus nos chama para a “vida em plenitude”. E a plenitude não se fecha no limite do tempo e nem do espaço. Somos mais! Nosso viver é maior do que o período de tempo que aqui vivemos e datamos em nossos túmulos. Teimosamente queremos que nossa vida continue e se eternize.

Neste anseio incontido de eternização de nosso viver, há um único investimento que garante o êxito. São João da Cruz dizia que nós seremos julgados pelo amor. Na vida e na história, tudo passa, só não passa o amor. O amor tem muitas faces. Revela-se na paciência, na fidelidade, na bondade, na generosidade, no perdão, na ternura, nas muitas obras de misericórdia, na alegre participação da comunidade, na oração, na acolhida dos sacramentos e na celebração do Mistério Pascal de Cristo, que se renova em cada oração participada.

Deixar-nos provocar pela morte, significa encostar a nossa vida com nossas cruzes e luzes, limites e superações, naquele que deu a maior, melhor e definitiva resposta à provocação da morte: Jesus Cristo, o Crucificado Ressuscitado. Amém!

quinta-feira, 10 de março de 2016

EU E O OUTRO

Na diversidade da comunidade de vida somos todos outros uns aos outros. O bárbaro é aquele que se fecha sobre si e ainda não aprendeu que o mundo é maior que seu umbigo, sua família, sua tribo, sua aldeia, sua cultura, sua nacionalidade. Bárbaro é o que diminui, nega e mata o outro.

O outro é o não-eu. O outro é o diferente, o fora do círculo do eu. O outro é aquele que está além da margem da identidade. Identidade que só é possível ser definida na relação com o outro. Negando o outro, nego-me, pois o eu só é verdadeiramente eu na relação. Elimine a relação e o que sobra será uma abstração. Quão sem vida é uma abstração!

Civilizado é aquele que aprendeu a conviver com o outro. Civilizado é aquele que aprendeu a respeitar o outro. Civilizado é o homem urbano que saiu da caverna e aperta a mão, dá bom dia, trabalha junto com o outro, convive e ama o outro que pode ser negro, índio, branco, amarelo, mulher, deficiente físico, homossexual, transexual, prostituta, estrangeiro... Civilizado é o homem e a mulher que inclui o outro no seu universo de relações e de respeito. Civilizado é o humano que aprendeu a tratar o outro com dignidade, respeito e hospitalidade. Civilizado é o que superou o racismo, o machismo, o nacionalismo. Civilizado é o que abriu o leque da consciência e da ação efetiva na vivência harmoniosa da biodiversidade da comunidade de vida.

A civilização é uma permanente vigilância e cerceamento dos nossos instintos de exclusão e de negação do outro. Civilizado é aquele que trocou a violência pelo diálogo, pela acordo, pela conversa, pelo olhar no face a face, pela escuta do apelo que vem do outro. Civilizado é o que superou o olho por olho dente por dente. Civilizado é o que incorporou a ideia de que a vida do outro vale a sua. Civilizado e o humano ético que cai fora do círculo de violência que o desejo mimético lhe impõe. Civilizado é o que não faz vítimas, sobretudo vítimas inocentes. Civilizado é Jesus que morre para desnudar a violência de um sistema de morte que se alimenta do sangue inocente.

Ético e civilizado é aquele que inclui o outro, respeita o outro, defende o outro, aprende do outro, se solidariza com o outro. Ético e civilizado é o que não se sente bem quando o outro sofre e morre. Ético é o que ainda experimenta os sentimentos morais de culpa, vergonha e indignação sempre que o outro sofre e é vítima inocente. Ético é o que é incapaz de fazer mal ao outro. Ético é aquele que reconhece que o outro por excelência é o Animal.

quarta-feira, 9 de março de 2016

HOSTÓRIA E MITOS

Contar histórias é da cultura humana. Desde a infância ouvimos nossos pais contarem histórias. Com sabedoria, seriedade e serenidade contavam histórias em linguagem de fácil compreensão. É verdade que entremeado às histórias falavam também do juízo e do castigo divino. Embora a infância tenha ficado distante, as lições permanecem na memória. Orientam e iluminam nossos passos na vida. É desafio hoje recuperar essa conversa pedagógica familiar, algo de imprescindível felicidade.

É preciso lembrar que em realidade familiar pobre e humilde a criança de outrora vivia ouvindo belas histórias ao redor da mesa, do fogão e no caminho da roça. Todos os enredos visavam transmitir ensinamentos e conselhos para os filhos vencerem na vida com dignidade e com moral. Em mundo corruptível que impede o dar-se conta das coisas de que não se pode abrir mão, se faz necessário discernimento do essencial e prioritário. Do contrário, corre-se perigo de viver sem a finalidade da qual a vida consiste.

Uma narrativa da mitologia grega ajuda a recordar o imprescindível para a vida. É o mito de Sísifo. A narrativa grega inspirou o autor francês Albert Camus (1913-1960), que em 1941 escreveu O Mito de Sísifo, obra na qual introduziu sua filosofia do absurdo, sobre um homem fútil em busca do sentido da vida num mundo ininteligível, sem Deus e sem eternidade. Sísifo é um pastor de ovelhas e filho de Éolo, o deus dos ventos. Sísifo era considerado a pessoa mais ardilosa que já existiu em sua cidade, Corinto. Porém, em sua esperteza pretendia driblar a frágil natureza humana.

Diante desta pretensão de Sísifo, a mitologia narra sobre os absurdos aos quais a vida humana se submete. O absurdo de Sísifo é, por ter dedurado Zeus, deus do Olimpo, submeter-se a passar o resto da vida no subterrâneo onde vivem os condenados. Para libertar-se do castigo é obrigado a empurrar uma enorme pedra até o topo de uma alta montanha. Porém, quando chegava perto do topo, por meio de uma força irresistível a pedra rolava montanha abaixo até o ponto de partida. Sem sucesso, repetia isto diariamente, milhares de vezes e quando estava para alcançar o topo a pedra novamente retornava para o ponto de partida. E o povo vendo o absurdo a que Sísifo foi submetido aprendeu que ninguém devia enganar a morte. Isto é, ninguém tente ser deus, viver eternamente neste mundo.

O mito denuncia que a pretensão humana de reduzir o mundo a um princípio racional é um verdadeiro absurdo. Em tempo no qual se privilegiam os bens, as posses, o capital e o consumo, conduzir-se neste princípio é absurdo. O enfrentamento deste absurdo só pode ser dado pelo próprio homem, libertar-se desta condição que lhes é insuflada inúmeras vezes pelos pais ausentes, que não tem tempo de contar histórias edificantes, pois estão ocupados com privilegiar os bens, o capital, o consumo.

segunda-feira, 7 de março de 2016

UM PAÍIS SE CONSTROI COM EDUCAÇÃO;

Os artigos 35 e 36 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), lei que trata da formação do cidadão no país, referem-se ao Ensino Médio. O Ensino Médio possui, no mínimo, três anos de duração e a sua finalidade é consolidar os conhecimentos adquiridos durante o Ensino Fundamental, possibilitando continuar os estudos, preparar o educando par ao trabalho e a cidadania, bem como dar condições básicas de adaptação aos estudos posteriores, aprimorar o educando como pessoa humana, oportunizar uma formação ética que desenvolva a autonomia intelectual e o pensamento crítico, fornecer uma compreensão dos fundamentos científicos e tecnológicos, relacionando a teoria e a prática.

O currículo do Ensino Médio tem por finalidade o desenvolvimento do educando, assegurando a formação indispensável para o exercício da cidadania e o ingresso no mercado de trabalho e nos estudos posteriores. O artigo 36 ainda diz que o currículo para o Ensino Médio deve levar em conta os seguintes parâmetros: a compreensão do significado da ciência, das letras, das artes, da sociedade, da cultura, da língua portuguesa, uma metodologia de ensino e avaliação que estimulem a iniciativa dos alunos e uma língua estrangeira optativa.

Esses dois artigos da LDB abordam a finalidade básica do Ensino Médio, porém são muito sucintos e há uma distância enorme entre o almejado e as reais condições oferecidas nas escolas. Também o prazo de no mínimo três anos é pouco tempo para se alcançar tudo o que a lei contempla. Portanto, os objetivos são um tanto utópicos.

O problema maior não está na lei, pois ela apenas quer ser um farol para a criatividade na produção de metodologia e estratégias eficazes para auxiliar na formação em nosso país, porém pouco se produz nesse sentido.

Um país se constrói com a educação. A educação que se pretende é fundamentada por um currículo amparado pelas condições necessárias a sua concretização, pois por ele se está formando o cidadão. Que cidadão o país necessita? O Ensino Médio colabora para o exercício da cidadania, a formação ética, intelectual e o pensamento crítico?

sexta-feira, 4 de março de 2016

HUMANOS X ANIMAIS

Às vezes os defensores dos direitos dos animais precisam exercitar a paciência com os que não se preocupam com os animais, quando estes dizem que o que importa, de verdade, é a defesa do humano e que, via de regra, os que se preocupam com os animais o fazem porque não gostam de gente, não amam as criancinhas e coisa e tal.

A bem da verdade, os que processam essa crítica aos defensores da causa animal são, comumente, insensíveis também com as causas humanas. É muito comum os conservadores antropocêntricos e especistas também serem insensíveis com o direitos dos pobres, dos homossexuais, das mulheres, dos indígenas, dos negros, estrangeiros etc. São do tipo: “eu até tenho amigos homossexuais”...”eu até tenho um empregado negro”, “eu até sou a favor da reforma agrária” etc, “só não gosto dos movimentos que os defendem”....

Talvez não se deva universalizar. Mas, preste atenção nos que são contra os direitos humanos nessas categorias acima referidas e verá que também são insensíveis aos direitos dos animais. É nesse sentido que o conceito “os outros” pode ajudar na compreensão das disputas ideológicas e culturais da sociedade moderna e pós-moderna. Os conservadores sempre são sutis em diversionismo para se autojustificarem....

É claro que pode haver exceções e que alguns defensores dos direitos dos animais são insensíveis e não movam uma palha para defender os humanos, sobretudo os “outros” verdadeiramente outros configurados nas categorias acima referenciadas. Alguns ativistas dos direitos dos animais prestam um desserviço à causa animal na medida em que se apresentam como homofóbicos, racistas, machistas, xenófobos etc... Mas não é regra, parece-me!

A regra é: os que defendem os animais no sentido filosófico, ético e religioso o fazem por princípios inclusivos de tal forma que seria uma incoerência radical não postular e viver a paz, a não violência, a inclusão, o respeito, a confraternização, a solidariedade para com todos os seres vivos, máxime o humano.

Na minha modesta percepção, penso que há um falso dilema na relação humano x animais quando a acusação se dirige aos defensores dos direitos dos animais e há uma correta crítica quando os defensores dos direitos dos animais acusam os humanos (geralmente conservadores de vários matizes) de estes sim não defenderem nem um nem outro.

Como conclusão: não despreze os defensores dos animais por achar que o que importa é defender a dignidade humana! Não despreze os defensores dos direitos humanos por achar que o que importa são os direitos dos animais. Não se trata de ou/ou, mas antes, de e/e!

quinta-feira, 3 de março de 2016

NUNCA FALE MAL DE VOCÊ MESMA

Uma pesquisa, feita com duas mil mulheres, revela que elas falam mal de si mesmas, pelo menos, oito vezes por dia. Para cumprir a agenda é necessário começar bem no início do dia. As reclamações mais freqüentes que elas se fazem: você está muito gorda, seu cabelo está uma bagunça, você não está usando maquiagem suficiente, além de criticas contra membros do próprio corpo, achando que são muito grandes ou muito pequenos. A pesquisa foi feita com mulheres entre 18 e 60 anos. O pior é que não guardam para si essas lamentações, mas as ficam proclamando aos quatro ventos.

Os homens também têm motivos para lamentar, mas preferem o silêncio. Homem algum espalha sua autocrítica, apontando para a barriga grande demais, para os cabelos que já se foram, para as rugas impossíveis de disfarçar ou para o cada vez mais fraco desempenho em suas atividades. Pelo menos, neste quesito parecem ser mais inteligentes do que suas parceiras.

Grande parte do sucesso ou do fracasso depende da autoimagem. A pessoa que está convencida de que é feia, desastrada, que não sabe se apresentar, que é inferior aos demais, caminha para o fracasso. E cada fracasso é para ela uma confirmação de que não vale nada. Mas a pessoa que cultiva sua autoimagem, que sabe perceber suas qualidades, que não desanima com um fracasso, acaba conseguindo o sucesso. Todos nós nos programamos: alguns se programam para vencer, outros para perder.

De resto, a pior prova é aquela que você fornece. Se você proclama seus defeitos, os outros começarão a observá-los. Isso vale para os tribunais. Os advogados insistem: mesmo que todas as provas sejam contra você, mesmo que tenha sido flagrado em circunstâncias comprometedoras, negue tudo, continua negando. Não há delação premiada.

Você não tem obrigação de ser o primeiro em tudo, competindo com todos, superando a todos. Você tem obrigação de competir com você mesmo, dando a melhor resposta possível. A vida pode ser comparada a um jogo: você pode não ter as melhores cartas, mas tem obrigação de jogar da melhor maneira possível com as cartas que tem em mãos. Proclamar que suas cartas são péssimas é dar grande vantagem o adversário.

Cada pessoa é uma obra-prima de Deus. Todos temos qualidades e possibilidades. Deus não dá a um só todos os dons, nem deixa alguém sem dom nenhum. Todos somos amados por Deus. E por isso precisamos acreditar que somos bons, amáveis, competentes e felizes. Não precisa sair por ai proclamando isso. Vão achá-lo pretensioso. Mas diga isso para si mesmo/a. E acredite nisso. Acredite que você ainda pode tornar-se melhor.

quarta-feira, 2 de março de 2016

VIRTUDES CARDEAIS ?

Na opinião dos teóricos que estudam os comportamentos influenciados pela cultura contemporânea, um dos problemas da sociedade moderna é a ausência de virtudes cardeais. As virtudes cardeais são inseparáveis de um projeto de vida. São elas: a sabedoria ou prudência, fortaleza ou coragem, temperança e justiça. A origem das virtudes cardeais é atribuída a Platão, que na obra República indica as qualidades para constituir o bem comum da cidade.

O termo cardeal vem de gonzo, significa dobradiça. Quer dizer, são as virtudes essenciais nas quais todas as outras se apoiam. Isto é, as virtudes básicas para toda e qualquer ação humana. Virtude é a disposição de praticar o bem, algo que vai muito além de um simples potencial ou capacidade de praticar boas ações. Trata-se de uma indiscutível inclinação.

A constatação dos teóricos pode ser verdadeira. Porém, as objeções às suas afirmações são lógicas e compreensíveis, pois o comportamento humano tem demonstrado abrigar-se nessas virtudes. A sociedade é reflexo de seu agir, mas o problema da sociedade moderna não se restringe ao comportamento humano. Atualmente o homem vivencia a liberdade, o autoconhecimento e o livre-arbítrio. Mesmo assim, teóricos entendem que as virtudes cardeais estão distantes dos hábitos comportamentais.

Na verdade, todo comportamento está relacionado a um projeto de vida que possui o seu centro e a sua razão de ser assumido. Ao considerar isto, parece evidente que a razão de ser de quem se dedica à política pública é o trabalho pelo bem comum. Para os desportistas, vencer é o aceitável. Transmitir conhecimento e aprendizagem é ofício dos pedagogos. Cuidar da saúde da população é meta dos profissionais da medicina.

Olhando assim, o projeto de vida pessoal é muito importante, até decisivo. Quer dizer, é como as virtudes pessoais se realizam. Em tudo isto é fácil perceber que a vida depende muito das virtudes empregadas. Salvo por vezes, quando não é fácil conciliar e harmonizar o projeto pessoal com as circunstâncias. Em contexto de liberdade projetos incompatíveis são intoleráveis ao livre-arbítrio. Por isso, não é de estranhar que com frequência as pessoas tenham atos de intolerância com os demais e até mesmo sintam-se incapazes de tolerar os que se opõem às suas opções. Ademais, o projeto de vida pessoal tem sua originalidade e grandeza. Em última instância, é o motivo palpitante de suas escolhas.