segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A FORÇA MEDICINAL DO ABRAÇO

O mercado está cheio de receitas milagrosas para todas as situações. Prometem o bem-estar, prometem a felicidade, mas não a entregam. E as promessas enganosas nos fazem esquecer velhas soluções que não custam nada. E não têm contraindicações. Estamos falando do velho e conhecido abraço. Todas as maravilhas que se diziam dele acabam de ser comprovadas pela Universidade de Viena. Ele atua na alma e no corpo, melhora nosso psiquismo e nossa alegria de viver. E sua ausência diminui a qualidade de vida.

Os especialistas dizem que uma média aceitável é de 12 abraços por dia. Este número pode ser superado sem qualquer prejuízo. Essa atitude tem efeito multiplicador, pois o abraço funciona em duas direções: quem abraça recebe um abraço. As situações para o abraço são infinitas. É o abraço da mãe para o bebê de poucos dias, é o abraço de dois irmãos que há tempo não se encontravam, é o esperado abraço de reconciliação, é o abraço mágico dos amantes de qualquer idade, é o abraço por um triunfo conquistado, é o abraço para quem está triste, é o abraço por qualquer motivo ou mesmo sem motivo.

A pesquisa da universidade de Viena aponta a força medicinal do abraço. Ele libera a oxitocina, o hormônio da felicidade, queima as enzimas negativas, reduz o estresse e a pressão arterial, aumenta a autoestima e fortalece todo o sistema imunológico. Os benefícios continuam: alivia a dor, combate os resfriados e melhora a comunicação.

O Evangelho fala do velho pai, que ao ver o filho pródigo regressando, corre ao seu encontro e o abraça e cobre de beijos (Lc 15,20). O abraço nunca se repete, é sempre novo, com um significado sempre diferente. Pode significar: eu te peço perdão ou eu te perdoo, pode significar um novo momento na vida dos dois, pode extinguir um abismo existente. O abraço sempre vem revestido de amor. Pode significar: eu te amarei para sempre, pode significar: você é maior do que suas limitações.

É sempre um abraço no corpo e na alma, é um momento mágico que continuamos lembrando anos depois. É remédio milagroso, que não se encontra em farmácias, mas é elaborado no laboratório de um coração maduro e que se derrama no outro. Nada pede e tudo oferece. Nas primeiras páginas da Bíblia lemos que Deus criou o homem, à sua imagem e semelhança, e o beijou (Gn 2,7.). O beijo de Deus à humanidade tem um nome próprio: é o amor.

domingo, 30 de outubro de 2016

OLFATO É O SENTIDO QUE NÃO SE VÊ.

Somos altamente desenvolvidos nas ciências médicas e em tecnologias de melhoramento e cura de doenças que afetam nosso corpo, mas podemos almejar que algum dia um robô, obra humana, consiga ter o prazer de sentir o cheiro da mata num dia de chuva? Ou o cheiro que sai do chão seco no começo da chuva em dia de verão? Ou, quem sabe, aquele aroma do pão assado em forno colonial de tijolo e barro? E o que dizer do perfume inebriante da dama da noite que nos convoca ao êxtase? Toda a ciência do homem é incapaz de produzir o mais elementar órgão que nos disponha ao acesso odorífero das flores, das essências aromáticas da natureza. Tão grande é nosso conhecimento, insuficiente, porém, para produzir um sistema de pequenos orifícios que nos possibilita a experiência dos odores do mundo... O olfato é uma maravilha da natureza; não é obra humana, é graça divina.

O olfato é o sentido do invisível que, mesmo não ocupando espaço, impregna os ambientes. Pelo olfato, o invisível, o que não se mostra, o que não podemos tocar e ver, se apresenta e nos toma por inteiro. Pelo olfato, lemos o instante fugidio, passageiro, mas que deixa sua marca no perfume das estações, nos cheiros circunstanciais, nos odores efêmeros que nos dão a justa medida do nosso acesso ao mundo. Sem o perfume e os cheiros, a vida seria fria, calculista e sem graça.

O olfato é, também, o sentido da imaginação. Não sentimos o perfume do passado, mas o odor presente tem o poder de nos transportar e nos conectar a uma experiência inebriante do passado gravada na memória, da qual o perfume é o elo. Tal como os sabores da infância, os cheiros da infância são mobilizadores de nossas melhores memórias. Não só da infância, mas dos bons momentos da vida que foram acompanhados pelo toque imperceptível dos perfumes. O sutil perfume une duas experiências – a presente e a passada –, fazendo-nos respirar de olhos fechados e com um leve sorriso no rosto...

O olfato, tal como outros órgãos dos sentidos no ser humano, acontece na justa medida. Não somos especialistas no olfato, como alguns animais o são, por exemplo, o cachorro. A justa medida é sábia, pois já imaginou ter a capacidade de sentir o odor do distante, do longínquo? A vida seria insuportável se permanentemente fôssemos arrebatados pelos odores, agradáveis ou desagradáveis. Por isso, via de regra, nos ambientes em que habitamos, os odores são discretos e na justa medida.

É isso, o olfato é o sentido do invisível, do discreto, do passageiro, do instante fugidio, do momento, do circunstancial, do efêmero, do poético, enfim. Um cheiro pra você!

sábado, 29 de outubro de 2016

UMA CRISE CIVILIZATÓRIA

Não há mais pobres como antigamente. As pessoas hoje sabem que podem ter uma saúde decente para os seus filhos, acesso à educação decente e a outros direitos. Nesse sentido vivemos uma crise civilizatória. Não é simplesmente uma crise global que o mundo enfrenta. O volume de recursos apropriados pelos intermediários financeiros seria suficiente para enfrentar tanto a reconversão tecnológica que o meio ambiente exige, com os investimentos de inclusão produtiva que a dinâmica social determina.

Isso seria conferir uma outra articulação do sistema financeiro, pois ele não é só moeda, mas o direito de alocar os recursos onde eles são necessários. A função da moeda não é a especulação financeira. Essa é a reconversão que temos pela frente, que une a oposição propositiva que queremos criar no Brasil. Daqui saíram US$ 20 bilhões para paraísos fiscais, ou 25% do PIB, dinheiro que daria para financiar Deus e o mundo.

Rentismo, um obstáculo

O rentismo é um conceito que se vincula ao mercado internacional, que gerou uma espécie de elite que vive dos juros, não da produção. E isso tem uma enorme profundidade no país. O San-

tander, por exemplo, que é um grande grupo mundial, tem cerca de 30% de seus lucros originários do Brasil. Isto é, o mercado financeiro impõe drenos e também estruturas políticas de poder que tornam muito difícil a qualquer governo gerar transformações necessárias para romper essa lógica. De, 2013 a 2014, Dilma tentou reduzir a taxa Selic e os juros de acesso de pessoas físicas e jurídicas ao crédito, e a reação foi de pressões políticas muito fortes. E é curioso como as reações se manifestam. Quando se baixa os juros, nas televisões, nas rádios, nos jornais, imediatamente se consulta os chamados economistas que dizem, “é inevitável, a inflação vai subir”. Em regra, esses economistas são todos eles de empresas financeiras.

Crise internacional não é impedimento, mas oportunidade

É esse contexto internacional que torna fundamental a adoção de medidas inclusivas, a expansão do horizonte interno econômico. É vital nos basearmos nos objetivos internos da nossa economia. Nas condições de hoje, apoiar o país no sistema internacional é suicídio. Nessa perspectiva, superdimensionar o problema fiscal pode ser um erro, pois há ralos muito maiores no sistema financeiro. O país tem que resgatar o que vaza por sistemas especulativos e para paraísos fiscais e financiar a inclusão produtiva da maioria da população.

O Brasil não está quebrado, mas sob ataque

O (Luiz Gonzaga) Belluzzo diz que as forças conservadoras estão criando, politicamente, uma crise e eu concordo. O Brasil não está quebrado. A origem desta crise não está em uma crise econômica que gera recessão. É uma crise política criada por uma elite que quer quebrar o sistema, e em grande parte está conseguindo isso.

A rigor, essa é a ação que envolve grandes interesses, em particular interesses internacionais no Pré-Sal e o interesse dos grandes bancos internacionais que querem manter a mamata da Selic elevada, pois é um grande negócio aplicar aqui e ganhar 12% de juros, enquanto os Bancos Centrais da Europa e dos Estados Unidos estão trabalhando com taxas de juros de 0,5%, quando muito 1%.

A tentativa da Dilma de reduzir a Selic a 7% e de abrir os bancos oficiais para obrigar a concorrência foi, para esses interesses, um grito de guerra. Tanto que ela teve que voltar atrás. Mas nós não podemos continuar a trabalhar para encher o bolso de dinheiro dos especuladores financeiros. Acho que esse não é apenas o objetivo da classe trabalhadora, mas dos empresários efetivamente produtivos. Não é possível desenvolver o país quando todo mundo se vê obrigado a pagar uma espécie de royalties sobre o dinheiro, aliás um dinheiro que nem é dos próprios bancos, mas dos nossos depósitos, ou então dinheiro fictício criado por meio de alavancagem.

Ou avança, ou recua. Não dá mais para ficar onde está

O Brasil vive um impasse – e, a partir desse impasse o país avança, e consolida os ganhos das últimas décadas, ou retrocede, e perde o que ganhou. Por isso considero importante unificar o debate. E estou convencido de que há muita gente que quer avançar. Muitas famílias, pela primeira vez, têm os filhos na universidade, muitas delas apenas agora conseguem alimentar os seus filhos – e todas elas são mobilizáveis. As mudanças não acabaram porque 200 mil tomaram a Avenida Paulista. Este país tem base.

Eu acho que o fato de uma parcela desses manifestantes do atraso pedirem a volta da ditadura mostra o tipo de ausência de uma visão propositiva da direita. O que eles querem? Sangrar mais os pobres, aumentar mais a desigualdade, privatizar mais?

A contaminação da política pelo poder econômico

Hoje o país tem um Congresso com uma bancada ruralista, uma bancada dos bancos, uma bancada das grandes empreiteiras, uma bancada das grandes montadoras, e você conta nos dedos quem é da bancada cidadã. A lei aprovada em 1997 que autorizou as corporações a financiarem campanhas foi um golpe terrível para o processo democrático. Não se pode qualificar de democracia o que vivemos no Brasil só porque a gente vota, porque o voto é rigorosamente determinado por uma gigantesca máquina de financiamento que vai se traduzir no tipo de Congresso que temos. Isso coloca a questão da reforma política e, em particular, o financiamento das campanhas, na linha de frente.

Nada para o planeta, tudo para os bancos

A Rio+20 teve uma grande reunião internacional que firmou como um dos objetivo levantar US$ 30 bilhões para salvar o planeta. Não conseguiu. Em 2008, em meses, os governos levantaram trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro, se endividaram e passaram a pagar juros para o próprio sistema financeiro que foi socorrido com esse dinheiro. Esse movimento dos governos praticamente destruiu o que restava do legado da social democracia nesses países, do chamado Welfare State, ao reduzirem os direitos sociais.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O CAPITAL FINANCEIRO CONTAMINOU A PRODUÇÃO

O capital financeiro tornou-se hegemônico de uma maneira que desconhecíamos até 2011. Naquele ano, foi divulgado o relatório do primeiro estudo mundial sobre o sistema corporativo internacional, produzido pelo Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH), que corresponde ao MIT da Europa e tem 31 prêmios Nobel de Tecnologia, a começar por Albert Einstein. Uma fonte absolutamente inatacável.


Segundo o estudo, 737 grupos do planeta controlam 80% do valor das empresas transnacionais. Destes, 147 grupos, dos quais 45 são bancos, controlam 40% do sistema mundial. A financeirização, portanto, não é abstrata, um mecanismo diluído ou misterioso. Esses grupos financeiros controlam os conselhos de administração das mais diversas empresas e ditam as políticas das corporações. Como são grupos financeiros que têm participações acionárias poderosas em empresas produtivas,

eles dizem a essas empresas o que fazer: “Nós queremos uma rentabilidade de tanto, senão tiramos o nosso capital e quebramos a empresa”. Se uma empresa decide adotar uma política ambiental mais sustentável, ou qualquer outra coisa que pode afetar a rentabilidade da empresa, esquece.

Centenas de exemplos de fraudes das mais variadas corporações internacionais, como as cometidas por empresas farmacêuticas, de agrotóxicos ou os próprios bancos, têm o objetivo central de gerar lucros. Essa estrutura mundial de poder foi suficientemente forte para, na crise de 2008, levar trilhões de dólares de governos para socorrer os bancos que haviam se excedido nos processos especulativos e estavam desequilibrados. Um socorro para os grupos financeiros que criaram a crise.

A contaminação da Justiça

O poder das corporações está estampado na votação, pelo Supremo, da ação de inconstitucionalidade do financiamento empre-sarial de campanha. As corporações não votam nem devem ter interesses políticos próprios. É legítimo a Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ser um instrumento de participação política das corporações. Mas uma corporação comprar um mandato para um deputado ou senador, financiando-o, certamente isso não é certo. Seis juízes do Supremo, e portanto a maioria, já votaram pela inconstitucionalidade do financiamento empresarial e um único, Gilmar Mendes, ligado a interesses evidentes, pede vistas antes das eleições. Esta única pessoa transformou radicalmente o perfil do Congresso que foi eleito em seguida, pois se tivesse sido proibido o financiamento empresarial antes das eleições, os candidatos não poderiam ter mantido o vínculo com as corporações empresariais. Isso também é uma medida do grau de aprisionamento da política pelo Judiciário, pelas corporações e pela mídia, e coloca como objetivo central das forças progressistas resgatar o processo democrático da órbita do poder econômico.

Crédito a Fernando Henrique, mas em termos

É creditado ao governo Fernando Henrique Cardoso a ruptura com o processo inflacionário, o que é correto. Mas, segundo o The Economist, em 1992 o mundo tinha 44 países com hiperinflação, e todos eles liquidaram esse problema pela razão simples de que não se abriria a eles a possibilidade de participar do sistema financeiro que se internacionalizava se não resolvessem seus processos inflacionários. A globalização financeira, a formação do sistema especulativo, a chamada financeirização era incompatível com economias que tinham moedas não conversíveis, que mudavam de valor no decorrer do dia.

A articulação do rentismo com a mídia

O maior jornal econômico do país, por exemplo, em fevereiro publicou uma matéria que contém um quadro com as projeções de inflação, com o título: “O que os economistas esperam”. E são listadas 21 “apostas” em índices inflacionários feitas por economistas de instituições. Entre eles, não tem nenhum Amir Khair, um Luiz Gonzaga Belluzzo, uma Tânia Bacelar, um Rubens Ricúpero, um Bresser Pereira ou um Márcio Pochmann; sequer um IBGE ou um DIEESE. Apenas de bancos ou consultorias ligadas ao mercado financeiro – e ambos ganham com a inflação. Esses economistas geram expectativas inflacionárias que se autocumprem, pois os agentes econômicos acompanham as expectativas e elevam preventivamente os preços.

Existe um trabalho de chantagem e contaminação pelo aceno do “risco inflacionário” – e todos sabem que a inflação é um golpe mortal em termos políticos. Esse tipo de chantagem segura o governo pelo pescoço. A inflação virou arma ideológica.


Continua...

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O BRASIL ANDOU PARA FRENTE NAS ÚLTIMAS DÉCADAS

No Atlas Brasil 2013 de Indicadores de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), se compararmos os índices de 1991 e 2010, observamos avanços espantosos. Em 1991 nós tínhamos 85% dos municípios do Brasil que tinham um IDH muito baixo, inferior a 0,50. Em 2010 apenas 32 municípios estavam nessa situação, ou seja, 0,6%. Essa é uma mudança extremamente profunda e estrutural. O Brasil começou a se transformar, na fase anterior ao governo Lula, com a aprovação da Constituição de 1988, que criou regras do jogo democrático que permitiram o início dos avanços.

Foi um avanço também a ruptura com a inflação. Afinal, numa hiperinflação não se consegue fazer administração do setor público.

Tudo isso viabiliza uma série de avanços significativos na década de 1990. A partir do governo Lula isso se sistematiza, e os avanços se tornam extremamente poderosos.

Mundo em explosão

Nós estamos num ano crítico em termos mundiais. Chegamos a limites críticos de destruição do planeta. Em 40 anos, destruímos 52% da vida vertebrada do planeta. O relatório da WWF é dramático: nós estamos esterilizando solo e liquidando a cobertura florestal.

Além desses problemas na área ambiental, persistem também um conjunto deles na área da desigualdade. O relatório da Oxfam sobre a desigualdade é devastador. Nós temos 85 famílias que têm mais patrimônio acumulado do que a metade mais pobre da população, ou seja, 13,5 milhões de pessoas. Se você junta o ambiental e o social, conclui-se que o mundo está explodindo.

Coffee Party

O Tea Party paralisa os Estados Unidos. Estes mesmos grupos estão querendo um Coffee Party no Brasil. Partem do mesmo fundamentalismo, do mesmo discurso radical conservador sem propostas. O que eles querem, afinal? Aumentar a desigualdade?

“O capitalismo financeiro impõe severas limitações ao momento seguinte dos avanços sociais, ao avanço do Brasil em direção ao futuro”.

O caminho é olhar para dentro…

Se entendermos as transformações que ocorrem interna e externamente – estamos numa crise planetária e numa volatilidade extrema, inclusive dos preços das commodities –, o caminho que temos de trilhar torna-se claríssimo. O Brasil é um país muito grande, de mais de 200 milhões de habitantes, e tem tranquilamente 100 milhões de pessoas que precisam melhorar a situação de vida. Nós temos, portanto, como crescer na fronteira interna. E quando a área externa é extremamente insegura, nada como reforçar a base interna de desenvolvimento. Isso implica manter e aprofundar as políticas de inclusão e de distribuição de renda, mas garantindo que isso ocorra simultaneamente às transformações significativas no sistema financeiro.

Um futuro em suspenso

O caminho para frente é o aprofundamento da luta contra a desigualdade por meio da inclusão produtiva, da expansão dos programas sociais e coisas do gênero. A oposição que devemos fazer nesse momento não é contra a presidente Dilma (Rousseff), mas para que ela avance muito mais e retome os processos que tinham sido anunciados.

Uma crise para travar o ciclo

A imbricação entre a situação internacional e a situação econômica interna com o seu respectivo embasamento político trava as reformas estruturais que são indispensáveis à continuidade do processo.

É um ciclo travado, mas não acho que a direita tem qualquer coisa coerente a propor. Não está conseguindo propor nada de coerente nem nos Estados Unidos, nem na França, nem na Grã-Bretanha, nem em lugar nenhum. Por todo lado está surgindo um Podemos, ou um Syriza (partido grego de esquerda). Os Estados Unidos estão paralisados em termos de capacidade de governo.


Continua...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O SISTEMA FINANCEIRO EMPERRA A LOCOMOTIVA

O peso morto da economia brasileira”, em que eu descrevo como os juros internos da economia esterilizam as ações de política econômica social. O Rubens Ricupero e o Bresser Pereira, que foram ministros da Fazenda e entendem disso, aprovaram as minhas anotações. O capitalismo financeiro impõe severas limitações ao momento seguinte desses avanços sociais, ao avanço do Brasil em direção ao futuro. Está em curso um processo de globalização financeira mundial que torna difícil ao país adotar políticas macroeconômicas independentes e as reformas financeiras que são necessárias. Quando se cobra nos crediários mais de 100% de juros, a intermediação financeira está se apropriando da metade da capacidade produtiva da população. O imenso esforço que o Brasil fez de redistribuição e de inclusão no mercado de dezenas de milhões de pessoas, os bancos, os comerciantes com crediários, as administradoras de cartões de crédito capturaram. As instituições de crédito sugaram a capacidade de compra da população, e dessa forma esterilizaram a dinamização da economia pelo lado da demanda. Os juros para pessoas jurídicas são absolutamente escorchantes, o que trava também a economia pelo lado do investimento. Os empresários já tendem a investir pouco quando a economia está travada. Quando, ainda por cima, adquirir equipamentos e financiar empresas custa de 40% a 50% de juros, então esqueça de novos investimentos.

Veja o poder político que esses grupos têm para obrigar o governo americano, o Banco Central Europeu, Bruxelas, a encontrar trilhões de dólares em poucos meses, quando os recursos são escassos para resolver o problema da destruição ou da pobreza.

“A financeirização não é abstrata. Grupos financeiros controlam os conselhos de administração das mais diversas empresas e ditam as políticas das corporações”.

A urgente reforma financeira

Sem dúvida, são urgentes as reformas política e tributária, mas é igualmente central uma reforma financeira em profundidade.

O componente rentista da crise é parte de minha análise. Na minha avaliação, o fator central dessas limitações ao futuro é que não temos mecanismos de canalização adequada dos recursos do país. O Brasil tem uma renda per capita de US$ 11 mil – e isso é um nível de renda de um país rico. O nosso país também domina tecnologias e tem instituições. Não existem razões plausíveis para a economia não funcionar. Contudo, a generalização da inclusão social e a redução dos desequilíbrios internos esbarram em razões estruturais.


Continua...

terça-feira, 25 de outubro de 2016

UM ACUMULADO DE IMPASSES

O Brasil hoje vive vários impasses. Um deles tem dimensão internacional e sofre o impacto de movimentos especulativos, sobretudo no mercado de commodities. Nos últimos 12 meses, o minério de ferro, por exemplo, que tem um grande peso na pauta de exportações brasileiras, perdeu 40% do seu valor; a soja, a laranja e outras commodities encolheram entre 20% e 30%. São cifras bastante significativas. No plano interno, o país vive um limite estrutural. O Brasil conquistou um conjunto de avanços, em particular nos governos de Lula e no primeiro governo de Dilma, mas os processos de expansão das políticas sociais chegaram a um limite, a partir do qual são necessárias mudanças estruturais.

As eternamente adiadas reformas de base não são mais adiáveis.

A resistência das elites e a crise política

Nesta tensão, a resistência das elites mostra-se extremamente forte. É por isso que a crise que se gera é essencialmente política. Não há base para falar numa crise de enormes proporções, ou que o país está quebrado, ou ainda que vai quebrar. Isso não faz o mínimo sentido. Podem até ocorrer ajustes que levem a uma racionalização de gastos do governo, mas isto não anula simplesmente a realidade de que o país está num ciclo de avanços absolutamente impressionante.

Socialmente, o Brasil mudou a sua cara. Entre 1991 e 2010, o brasileiro, que vivia até 65 anos, passou a viver 74 anos; em 2012, já vive 75 anos; ou seja, estamos falando de um país onde os brasileiros vivem 10 anos a mais. A mortalidade baixou de 30 por mil para 15 por mil. Isso resulta de uma convergência de mudanças: essas pessoas passaram a ter uma casa mais decente, a comer, são benefi ciários da expansão do serviço básico de saúde, o SUS, etc. São fatores que convergem para uma expansão do tempo de vida e para a redução da mortalidade infantil – e, convenhamos, dividir pela metade a mortalidade infantil é um gigantesco avanço. Além disso, temos um conjunto de outros números já conhecidos: a criação de 20 milhões de empregos formais e 40 milhões de pessoas que saíram da miséria.

Segundo dados do Atlas das Regiões Metropolitanas elaborado conjuntamente pelo PNUD, Ipea e Fundação João Pinheiro, houve uma redução drástica da pobreza em todas essas regiões e um aumento dos Indicadores de Desenvolvimento Básico (IDB). Mais recentemente foram divulgados os Indicadores de Progresso Social, o IPS, que acompanha 54 indicadores que são o PIB, e coloca o Brasil no 42º lugar entre 130 países, puxado para baixo essencialmente pelo problema da segurança, que é o ponto crítico e está diretamente ligado ao problema da desigualdade.


Continua no próximo blog.

domingo, 23 de outubro de 2016

ALGUÉM ME AQUECEU

A manhã era admiravelmente ensolarada. A disposição não podia ser melhor. Há tempo havia agendado esse compromisso numa grande empresa de um município vizinho. Confidenciaram-me, minutos antes do evento, que eram mais de mil funcionários: abertura da semana interna de prevenção de acidentes de trabalho. Praticamente todos estavam sentados. Olhares atentos. Quando há expectativa, o coração, imagino eu, pulsa mais intensamente. A responsabilidade é sempre grande, independentemente do número de participantes. Afinal, todos merecem ouvir algo significativo.

Apesar do sol, um insistente vento frio não dava trégua. Os que estavam sentados tinham a opção de encolher-se e até de proteger-se mutuamente. O mesmo acontecia com os demais que se recostavam nos muros da construção. O palco, improvisado para aquele momento, estava em evidência, para facilitar a visualização de todos os presentes. O vento chegava com sua natural velocidade, sem nenhum intervalo. Enquanto dirigia as palavras preparadas para a abertura da referida semana, o frio percorria as entranhas.

Para a minha surpresa, alguém se aproxima, sem nenhum movimento que chamasse a atenção dos presentes e me ajuda vestir uma jaqueta com o logotipo da empresa. A sensação de aquecimento foi redobrada: além da temperatura do corpo, senti o calor da solidariedade e da ternura. Para que não percebessem a emoção, acabei brincando com o público presente. De fato, não existe nada mais comovente do que um gesto de bondade. A agressividade assusta, o amor simplesmente transborda de ternura o semblante e o coração. Quão maravilhosa seria a vida se as pessoas fossem capazes de viver a fidelidade ao amor. Não faltariam surpresas.

Viver é surpreender: um pedaço de pão, um copo de água, um sorriso, um agasalho, um afago, um olhar demorado. O amor não envolve quantidade, mas não dispensa intensidade. Não faltam oportunidades. As atitudes, porém, parecem tímidas. Algumas pessoas precisam de palcos e de plateia. Outros vivem autenticamente: espalham amor no anonimato de infinitos gestos. Guardarei para sempre aquela jaqueta. Ela será muito mais do que uma peça de roupa. Fará parte das muitas histórias que estão gravadas em meu coração. Um dia poderei contar: eu estava com frio e alguém me agasalhou. Faz bem fazer o bem. 
Texto de: J.Botega.

TOCAR E SER TOCADO

A vida humana é realmente uma perfeição. A pele é o maior órgão do corpo. Ela é repleta de terminações nervosas, capazes de captar estímulos térmicos, mecânicos ou dolorosos. Sua camada externa age como uma capa que protege contra vários fatores do ambiente. A pele de um adulto pesa cerca de quatro quilos e mede, aproximadamente, dois metros quadrados de área. Graças à pele, o ser humano pode sentir e até se comunicar. O tato é um dos cinco sentidos, mas, diferentemente dos outros, ele não é encontrado em uma região específica do corpo, e sim em toda a extensão da pele.

Através do tato é possível sentir a presença do outro e interagir com o universo criado. Tocar e ser tocado é reavivar a existência e plenificar o encontro. O afeto necessita do tato para expressar mais intensamente determinado sentimento. Um abraço, por exemplo, só é efusivo se houver proximidade e toque. Comprovadamente estar próximo, sentir-se mutuamente faz um bem enorme. O afeto tem um papel preponderante na construção da felicidade. Uma criança necessita ser tocada, um idoso aguarda por um gesto amoroso. Todos sentem a necessidade do encontro.

Um dia, na distante Assis, São Francisco, dando um decisivo passo no processo de conversão, foi ao encontro dos leprosos, humanos repletos de chagas; doença incurável, naquele tempo. Ao descobrir o rosto de Deus em semblantes desfigurados, não se conteve e, num ímpeto, beijou o leproso. O toque devolveu dignidade àquele que sobrevivia à margem da sociedade. De lá para cá, o espírito francisco continua inspirando muitos outros gestos, eliminando distâncias, provocando encontros, despertando cuidados, instigando alegria.

Alcançar uma doação, saciar a fome, dar uma peça de vestuário: tudo é muito significativo. Porém, uma grande maioria anseia por um toque, um olhar, um sorriso, um afetuoso abraço. Assim como Francisco de Assis beijou o leproso, que sejamos capazes do contato, da proximidade, da ternura, do amor ao próximo. A doação material é um primeiro momento da solidariedade. A convivência através do tato, do toque, do afeto poderá transfigurar vidas em situação de extrema carência. Doar-se é muito mais intenso do que apenas dar algo material. Que a caridade provoque muitos ‘beijos’, pois outras espécies de lepra têm roubado muitos sonhos da felicidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

CONTRIBUIÇÃO PARA O EXITO NA EDUCAÇÃO.

No dia em que os pais chegassem à conclusão que não é mais possível educar os filhos, só restaria à humanidade um caminho: pedir falência. Educar sempre foi difícil. Na primeira manhã do mundo Adão e Eva tiveram problemas com seu filho Caim. Hoje é cada vez mais difícil educar. Entre muitos fatores: os meios de comunicação social, o decréscimo da influência da escola e da Igreja, além do enfraquecimento dos laços familiares.

Quando um problema é difícil não se pode desanimar, mas é necessário aumentar o esforço. Algumas normas, bem simples, contribuem para o êxito na educação. Na soma, trata-se de unir amor, firmeza e diálogo. Eis 11 passos que podem auxiliar:

Valorize seu filho
. Assim como ele é e não como você gostaria que fosse. Ele quer ser amado e precisa saber que algumas fronteiras devem ser observadas.

Acredite em seu filho.
Deixe que, aos poucos, ele amadureça. A lógica diz: onde plantamos o amor, cedo ou tarde, nascerá amor. Em tudo existe a caminhada.

Ame respeite seu filho
. Os jovens não gostam daqueles que não gostam dos jovens. Mostre que você está a seu lado. Não ironize e seja comedido na crítica.

Elogie seu filho sempre que ele merecer. Evite comparações com seus irmãos, primos e amigos. Isso fortalecerá sua autoimagem.

Compreenda seu filho. Hoje o mundo é rude e competitivo. Tente colocar-se na ótica de seu filho. Os tempos mudaram muito, mas o coração continua o mesmo.

Alegre-se com seu filho. O bom humor, o diálogo e a alegria ajudam a criar um bom clima familiar e, por isso mesmo, educativo.

Aproxime-se de seu filho. Tenha tempo para ele, sobretudo na infância. Deixe-o participar de suas atividades. Não espere que ele tenha problemas para tentar dialogar. Poderá ser tarde demais.

Acolha com simpatia os amigos dos seus filhos
. Caso contrário, será o filho que vai procurar acolhida na casa dos pais dos seus amigos.

Seja coerente com seu filho. Ninguém tem o direito de exigir dos outros o que ele mesmo não faz. Pai e mãe devem ter os mesmos critérios para orientar os filhos.

Evite qualquer tipo de punição. Se tiver de corrigi-lo, faça no momento oportuno e com amor.

Reze com seus filhos Esta é uma norma que os pais acham superada, talvez, porque eles mesmos deixaram morrer a fé e a prática religiosa. E os frutos acabam sendo amargos. Quem ama e respeita a Deus vai amar e respeitar o próximo. A família é a primeira igreja, o tempo e o espaço ideal para encaminhar para a felicidade e a realização.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

DEUS ONDE ESTAVAS?

Quando vemos nas primeiras páginas dos jornais a devastação que o tufão Mathew, agora em outubro, produziu no Haiti e nos EUA destruindo cidades, derrubando árvores, arrastando carros e matando centenas de pessoas, os que cremos, nos perguntamos angustiados:
“Deus, onde estavas naquele momento em que a fúria assassina do tufão Mathew se abateu sobre o Haiti e os EUA? Por que não usaste o teu poder para amainar a virulência destruidora daqueles ventos e daquelas águas inimigas da vida? Por que não intervieste, se podias faze-lo?”
“Sequer permitiste aos haitianos, o tempo suficiente para se recuperarem da devastação que significou o terremoto de 2010 onde milhares e milhares morreram soterrados e viram suas cidades e casas destruídas. Por que agora enviaste outro látego para açoitar e matar?”
“Tu bem sabes, Senhor: o povo haitiano é um dos mais pobres do mundo. Negros, conheceram todo tipo de discriminação. Foram oprimidos por ditadores ferozes que faziam das matanças, política de Estado. Tudo sofreram, tudo suportaram. Não desistiram. Caidos e do meio do pó das ruínas, estavam se lavantando. E eis que de novo foram açoitados pela natureza rebelada. Onde está a tua piedade? Não são teus filhos e filhas, especialmente queridos, porque representam o Cristo crucificado?”
Não entendemos os desígnios dAquele que se revelou como Pai de infinita bondade. Ele pode ser Pai de uma forma misteriosa que não conseguimos comprender. Bem dizem as Escrituras:”Ele é grande demais para que o possamos conhecer”.
Muito menos pretendemos ser juízes de Deus. Mas podemos, sim, gritar como Jó, Jeremias, e o Filho do Homem no Jardim das Oliveiras e no alto da cruz. Jesus queixoso se perguntou: Meu Deus meu Deus, por que me abandonaste?
Nossos lamentos não são blasfêmias, mas um grito humilde e insistente a Deus: “Desperta! Não esqueças da paixão daqueles que atualizam a Paixão de teu Filho bem-amado”.
Seguramente as invectivas de Jó contra Deus por causa do sofrimento incompreensível e as Lamentações de Jeremias vendo Jerusalém conquistada, o templo, destruido e o povo, marchando escravo para o exílio na Babilônia, foram incluidas no rol das Escrituras judaico-cristãs para que nos servissem de exemplo.
Podemos gritar como Jó e nos lamentar como Jeremias. Mais ainda, podemos, no limite do desespero, bradar como Jesus na cruz, experimentando o inferno da ausência do Deus a quem sempre chamava de “Abba”, meu querido paizinho. E Ele silenciou e não o livrou da morte na cruz.

”Quantas perguntas surgem neste lugar. Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar esse excesso de destruição, este triunfo do mal? Vem-nos à mente o Salmo 44 que diz:” jogaste-nos na região dos chacais e nos envolveste na mortalha de trevas. Por tua causa somos trucidados todos os dias, tratam-nos como ovelhas de matadouro. Desperta. Sanhor! Por que dormes? Acorda”.

Embora guardemos um nobre silêncio diante de tamanha dor, perseveramos na fé como Jó, Jeremias e Jesus. Jó chegou a dizer:”Mesmo que me mates, Senhor, ainda assim continuo confiar em ti… Antes Te conhecia só por ouvir dizer, mas agora viram-te meus olhos ”. A última palavra de Jesus foi:”Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lucas ”. E Deus o ressuscitou para mostrar que a dor, mesmo misteriosa, não escreve o ultimo capítulo da história, mas a vida em seu esplendor.
Na esperança ansiamos por aquele dia em que ”Deus enxugará as lágrimas de nossos olhos e a morte não existirá nem haverá luto nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou”
E nunca mais haverá tsunamis, nem Katrinas, nem Mathews, porque surgirá uma nova Terra, onde o ser humano terá aprendido a cuidar da natureza e esta nunca mais se rebelará contra ele.