terça-feira, 5 de abril de 2016

O QUE É ALEGRIA PASCAL?

Há uma pergunta inquietante que percorre os cantos da Terra, onde os humanos se deparam com realidades tão obscuras e agressivas: Como se pode falar de alegria pascal quando sabemos que há tantos impedimentos que a roubam da humanidade: as guerras, os sofrimentos, as injustiças e agressões de tantas formas?

Na verdade, a alegria pascal não é uma sensação alienada ou alienante, mas um direito sagrado de todos os humanos. Em todo o ser humano existe um pedaço de solidão que nenhuma intimidade humana consegue preencher. É ali que Deus nos encontra. É ali, nessa intimidade, que se encontra o segredo da alegria do Cristo Ressuscitado. A alegria é como um pedaço de chão que cultivamos em nós; é como uma pequena quadra de esporte onde exercitamos a liberdade e a espontaneidade.

Como cristãos, não podemos cruzar os braços diante do ser humano vítima do ser humano. Reduzir à miséria o que há de mais precioso e sagrado que é a pessoa, imagem e semelhança de Deus, é inadmissível. A justa indignação faz parte da fé cristã. Porém, na ânsia de maior justiça não podemos renunciar o cultivo da alegria interior oferecida e garantida a todo cristão pela Páscoa do Senhor. Caso renunciemos nosso direito à alegria cristã, estaríamos nos vergando sob o fardo de nosso desespero e oferecendo à humanidade a nossa tristeza. Diante de tantos problemas, seríamos mais um problema.

Por acaso, para viver na alegria estaríamos impedidos de combater e lutar pela justiça? Ao contrário! Sabemos que a alegria não é apenas uma euforia passageira. É animada por Cristo em homens e mulheres plenamente lúcidos quanto à situação do mundo, capazes de assumir grandes desafios e empreender a via-sacra da vida, na certeza de um final feliz.

A estas alturas da reflexão, também é importante lembrar que a alegria pascal não é uma diversão passageira ligada a uma festa, ou um momento festivo. A verdadeira alegria pascal inaugura-se na certeza de que o “último inimigo foi vencido, isto é, a morte”.
Paulo, insiste: “Alegrai-vos sempre no Senhor!”. Diante desta insistência de Paulo a viver a alegria, o que nos deixa inquietos é a palavra “sempre”. Na verdade, nem sempre estamos alegres pelas muitas interferências que despontam no caminho, como doenças, intrigas, angústias, situações de pobreza etc. Porém, mesmo assim podemos “ser alegres”, embora nosso rosto não consiga manifestá-la.

A Páscoa  resgata, ao ser humano, o argumento imbatível da possível alegria permanente, mesmo que esta precise conviver com o cotidiano da cruz. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia r e siga-me”. Em Cristo não há qualquer sintoma de masoquismo, mas um amor sem limites, capaz de abraçar a cruz e nela morrer para garantir a todos a possibilidade da ressurreição.

domingo, 3 de abril de 2016

A IMPORTAMCIA DA TROCA DE LUGAR.

Certa vez, quatro mendigos encontraram-se numa encruzilhada: um turco, um árabe, um grego e um persa. Para celebrar o encontro, decidiram fazer uma refeição juntos. Reuniram as moedas que possuíam com intuito de comprar algo para a comemoração. Aí chegaram a um impasse: o que comprar com o dinheiro? Uzum, disse o turco; Ineb, gritou o árabe; Staphilion, afirmou o grego; Inghur, protestou o persa. O tom com que cada um fizera sua escolha dava a entender que era questão fechada. Logo estavam discutindo, cada um defendendo sua escolha. O próximo passo só poderia ser agressão moral e até mesmo a agressão física.

Por acaso passou por aí um sábio e, quase por um milagre, conseguiu um pouco de silêncio, o suficiente para ser ouvido. E explicou o absurdo da discussão: cada um de vocês está pedindo a mesma coisa, com palavras diferentes: uvas.

Hoje vivemos num tempo de muitas palavras vazias. Falamos em diálogo, falamos em ética, falamos em qualidade de vida, falamos em dignidade humana, falamos em pobres e não saímos daí.

A necessidade de dialogar é proclamada em todos os setores da vida humana. Isto acontece nas relações internacionais, nos partidos políticos, nos clubes, nas famílias, até na própria Igreja. Todos querem anunciar sua verdade, mas poucos aceitam escutar a verdade do outro. É aquilo que chamamos de diálogo dos surdos; Todos falam e ninguém escuta.

Toda tese tem como base um ponto de vista e o ponto de vista é visto a partir de um ponto. Escutar o outro supõe mudar de lugar. É diferente o ponto de vista do motorista do ponto de vista do pedestre. Para um entendimento será necessário trocar de lugar: o professor com o aluno; o patrão com o operário; o homem com a mulher; o adulto com a criança; o jogador de futebol com o juiz...

Dialogar supõe, antes de falar, ouvir, colocar-se no lugar do outro. Aí é possível entender que existe muita coisa em comum e que as diferenças não são tão grandes, nem importantes. Bem conduzida, a negociação não deixará vitoriosos ou vencidos. E um pouco de dose de humildade pode nos mostrar que a opinião do outro é até mais rica do que a nossa. Ícone do diálogo e da bondade, dom Helder Câmara dizia: se você discorda de mim, me enriquece.

É impressionante, no Evangelho, o número de cegos, surdos, mudos, paralíticos curados por Jesus. Ele mesmo deu o exemplo: deixou a glória para assumir nossa humanidade. Trocou de lugar conosco.

sábado, 2 de abril de 2016

A POLÍTICA E SUAS ARTIMANHAS

Partindo do princípio que o motivo das panelas nunca foi combate à corrupção – já que os maiores corruptos e saqueadores são os ídolos de quem protesta – fica fácil demais afirmar que o desejo de manter o abismo social é a grande bandeira daqueles que vociferam por justiça.

Decididamente, quem tem o egoísmo correndo pelas veias, jamais verá com bons olhos a modesta ascensão social dos que buscam escapar da condição de servo e de miserável. Jamais aceitarão que através da "meritocracia" os malnascidos obtenham vitórias a partir da primeira porta que o governo lhes abrir.

O desejo de condenar o desassistido a não ter o direito de ver seus filhos em uma creche, alimentados, residindo sob um teto decente, com acesso a cursos técnicos ou universidades e a desfrutar de uma vida razoavelmente digna, vai sempre se camuflar em discursos repletos de sofismas.

Ao menos, devido a tantas justificativas - e todas tão frágeis e contraditórias - as ações de repulsa, e mesmo de ódio, não são mais dissimuladas. Os senhores da senzala já vomitam abertamente o que nunca conseguiram digerir. Afinal, imagina que situação mais vexatória ter que aprender política com um semi-alfabetizado!?

Quem é ele pra ousar ter sobrevivido se "a morte dos severinos de fome um pouco por dia" era praxe nos governos anteriores? Como ousou largar a fábrica e questionar a relação de trabalho dos seus iguais? Como ousou transitar com desenvoltura pelos salões e corredores dos que detém o poder? E a jogar os holofotes do mundo sobre o Brasil? E a tirar 36 milhões de brasileiros da miséria extrema? E a etc e etc...?

Curioso que muitos que desfilaram de verde e amarelo, camuflaram-se também nas procissões da Semana Santa. Ali exaltaram as ações d'Aquele que partilhou o alimento; ofereceu conforto aos oprimidos; resgatou a dignidade dos excluídos e denunciou a opressão. Preocupados em caprichar nos brados de amém, seriam incapazes de admitir que gritariam por Barrabás se naquele julgamento estivessem.

Ademais, pobre bom é o pobre da Bíblia. Nada melhor que me sensibilizar com quem sofre a uma distância de dois mil anos de mim. Para esses eu lanço uma moeda na sacola das ofertas com a singela preocupação que meu vizinho ouça o seu tilintar.

Enfim, esqueçamos a retórica de povo solidário e acolhedor. As feras já mostraram suas garras e aumentaram seus rugidos. Aproxima-se o maremoto. A melhor vitória pertence àqueles que não se envergonham de dizer às gerações futuras o exato lado que escolheu.

DAR UM PASSO MAIS

Era uma vez. Assim começam muitas histórias. Era uma vez um bando de rãs. No pequeno lago onde habitavam foi organizada uma competição. O objetivo era alcançar o topo de uma torre. Uma multidão juntou-se para apreciar. Todos eram de opinião de que nenhuma delas conseguiria superar o desafio. Tratava-se de algo impossível.

Uma dezena de rãs habilitou-se. Vocês não vão conseguir, diziam todos. O esforço será inútil, vocês vão fracassar. A competição começou e o pessimismo contagiante foi crescendo. Algumas rãs aceitaram o fatalismo e desistiram. Outras tentaram mais um pouco, mas chegaram à conclusão que seus limites haviam sido atingidos e também desistiram. Mas uma rã, muito teimosa, continuou na luta, passou por momentos difíceis, mas insistiu e chegou ao topo da torre.

Entre o espanto e a curiosidade, todos queriam saber seu segredo. Como ela conseguira superar aquele desafio considerado impossível. A rã vencedora não se deixara empolgar pelos elogios e pela crítica. A verdade veio em seguida: ela era surda. E porque era surda não foi influenciada pelo derrotismo de todos. Não escutara os profetas do pessimismo.

A vida é uma grande competição. Todos competimos, mas a competição não é contra os outros. Competimos conosco mesmos. Nosso dever é conseguir o máximo. E o máximo é conseguir dar um passo mais.

Saint Exupéry, num de seus voos, espatifou seu pequeno avião contra as catedrais de gelo dos Andes. Era impossível sair daí. Seus companheiros não tinham ideia do local da queda. Cansado, desanimado, teve a tentação de deixar que o frio intenso da neve e do gelo trouxesse a paz da morte. Mas ele pensou: se meus companheiros sabem que eu estou vivo, terão certeza que eu estarei caminhando. Com estrema fadiga, deu o primeiro passo. Depois, caminhou três dias e três noites, quando foi localizado e salvo.

Henry Ford, o pioneiro do automóvel em série, dizia aos seus subordinados: “Se você acha que pode, ou se você acha que não pode, sempre terá razão”. E Jean Cocteau - da Academia Francesa - parece ter dado os contornos definitivos nesta questão: “Ele não sabia que era impossível, foi lá e o realizou”.

A história está cheia de coisas “impossíveis” que alguém realizou. Foi assim que surgiram a televisão, o avião, a conquista da lua, o raio laser. A cada Olimpíada, recordes, considerados definitivos, são superados.

Na dimensão da fé, Paulo apóstolo garante: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13). Caso não consigamos, vale a luta. Nosso maior compromisso não é vencer, mas lutar até o fim. Dar um passo a mais.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

ESTOU AQUI SÓ DE PASSAGEM

Conta-se que, no século passado, um turista americano foi à cidade do Cairo no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio. O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco. Onde estão seus móveis? Perguntou o turista. E o sábio, bem depressa, olhou ao seu redor e também perguntou: e onde estão os seus móveis? Os meus?! Surpreendeu-se o turista. Mas estou aqui só de passagem! Eu também, disse o sábio. O turista trocou mais algumas palavras e seguiu pensativo.

A transitoriedade da vida nem sempre é assimilada adequadamente. Não se trata de pensar unicamente na finitude. Porém, não convém viver como se não existisse um término. O fato de estar neste mundo somente de passagem, não deve angustiar e muito menos entristecer. Pelo contrário, deve deixar a vida mais leve e particularmente centrada no essencial. A materialidade é uma das dimensões humanas. Há algo que ultrapassa a realidade física e remete à eternidade.

Viver com o necessário deveria ser um sonho coletivo. Algumas poucas coisas são suficientes para alcançar à vida o sustento e o equilíbrio. O supérfluo em nada agrega. Ter mais do que o necessário é colocar em risco o desejo infinito de realização. De uma forma até assustadora, as coisas materiais roubam a serenidade e comprometem a liberdade. A felicidade nem sempre está atrelada ao que cada um possui. A necessidade material não resume as buscas mais profundas do ser humano.

Estar aqui só de passagem é uma sensação interessante, inspiração para adequar posturas e encaminhar escolhas. Não ter bagagem excessiva evita transtornos, favorece a leveza, confirma o essencial. Não ter o coração apegado deixou de ser palavreado para tornar-se condição de felicidade. Fomos feitos para a eternidade. Para além do horizonte, contemplamos um mistério que nos convoca à transcendência e à esperança.

Assim como o turista se afastou pensativo daquele nobre sábio, por uns instantes meu coração se recolhe para rever algumas atitudes e reinventar a relação com os bens materiais. Para viver bem não há a necessidade de acumular muitas coisas. Viver um pouco mais leve, com menos preocupações e sem apegos é questão de escolha. É interessante recordar diariamente: estamos aqui só de passagem.

quinta-feira, 31 de março de 2016

CORRUPÇÃO

Millor Fernandes, ilustre humorista brasileiro já falecido, dizia que o incorruptível é aquele que ainda não recebeu uma boa oferta. Essa frase será apenas mais uma das belas frases de efeito ou realmente porta uma verdade incontornável? No Brasil a sensação que se tem é que, pelo menos no espaço público, não há como negar que a frase seja realista. Seria de se perguntar se vale somente para o espaço público, isto é, para os políticos que estão constantemente expostos a ofertas, ou se também vale para o cidadão comum. A integridade moral, em nosso tempo, tem se tornado coisa rara. A impressão que dá é que já não há homem justo em que se possa “por a mão no fogo”.

Pitágoras, matemático e filósofo grego, dizia que se o homem fosse educado não precisaríamos de cadeias. Talvez seja otimismo pensar que, em conhecendo o que se deve fazer, de fato, faz-se o que se conhece. Talvez seja otimismo! Mas não há outra via senão apostar na educação moral dos indivíduos, que ao internalizar valores e normas morais armam-se contra as tentações que vêm do mundo exterior em forma de ganhos e benefícios materiais.

Platão, no livro A República, através do personagem Sócrates, também postula a ideia de que o bem pode ser ensinado e na medida em que se sabe o que é o justo, justo se é. Na medida em que se sabe o que deve ser feito, feito será. Na medida em que se sabe o que não deve ser feito, não será feito e ponto.

Mas, os sofistas, esses sábios meio céticos meio cínicos e relativistas, contestam Sócrates e dizem que esse racionalismo moral é balela e que na verdade só praticamos a justiça contra a própria vontade ou porque não temos boas oportunidades e capacidade de fazer o que eventualmente dizem que não devemos fazer. Nesse caso, não há justo ou injusto, corrupto ou incorrupto, pois dadas certas condições todos seríamos propensos a agir em interesse próprio e egoísta. Em outras palavras, somos todos corrompidos

Para defender a tese sofística o personagem Glauco, interlocutor de Sócrates, conta uma lenda e tira a conclusão. Trata-se da lenda do anel de Giges. Giges era pastor de ovelhas e, numa ocasião, estava ele pastoreando e ocorreu uma terrível tempestade que o obrigou a se abrigar numa caverna. Na caverna havia um cavalo morto e ao lado do cavalo um homem também morto. O homem morto portava um anel e Giges o toma para si e o coloca no dedo. Até aí nada demais. Acontece que o anel tinha estranhos poderes de tornar o seu possuidor invisível sempre que a pedra do anel girasse em direção do corpo do possuidor. Ora, ora, ora...! Giges não teve dúvida. Voltou para o castelo, seduziu a rainha e, com a ajuda dessa, matou o rei e assumiu o reinado. A pergunta é, diz Glauco: haveria algum homem supostamente honesto que, se tivesse os poderes de invisibilidade não seria tentado e cairia na tentação do ter, poder e prazer? Glauco conclui que não haveria e que se só somos justos por imposição e por medo e dadas circunstâncias favoráveis, como é o caso da invisibilidade, todos seríamos corruptos e egoístas...

Será? O que você não faria, mesmo se tivesse o poder de invisibilidade? O que você não faria? Você não esbofetearia um desafeto ou um inimigo político? Você não roubaria um anel ou uma joia qualquer numa joalheria. Numa fábrica de chocolate, o que você não faria? Com seu patrão ou autoridade que você não nutre amores, o que você não faria? O que você não faria? O que você não faria, eis o que sobra de moralidade em você.

quarta-feira, 30 de março de 2016

VALORES IMUTÁVEIS

A maior herança que os filhos podem receber de seus pais não são os bens materiais e sim os valores imutáveis. Para garantir a herança que não se corrói, é imprescindível um bom processo formativo educacional para os filhos. Ou seja, são os bens que nunca podem ser roubados e tornar-se corruptíveis. Por isso, deixar uma herança para a vida toda é uma tarefa importante em nosso contexto.

Considerar esta a herança fundamental, em âmbito onde imperam valores materiais, constitui algo a ser pensado para as futuras gerações. Em busca das heranças materiais e imediatas as relações entre as pessoas passaram por profundas transformações. Consequentemente, às vezes, por um simples desentendimento com outrem se recorre a meios de reparação de direitos. Usar medidas extremas revela a perda da capacidade de diálogo das pessoas. Vive-se em tempo no qual por qualquer motivo aplica-se a tolerância zero. E se não bastasse, em defesa desta postura subjetiva, impetra-se uma ação em qualquer instância jurídica. Dessa forma, a palavra perdeu seu valor entre as pessoas, já não é sinônimo de garantia. Caiu por terra a expressão “fio de bigode”. A expressão traduz um tempo em que a palavra era garantia. A origem da expressão “fio de bigode” é incerta, mas pronunciada no termo alemão “bi gott” significa “por Deus”. Isto expressa um juramento em que a palavra precisa ser honrada.

Em contraposição a esta postura tende-se a fortalecer a "lei de Gerson": “o importante é levar vantagem em tudo”. Por vezes, obter vantagens ignorando até mesmo os valores éticos, morais, sociais. Pôr-se nesta postura faz aparecer posicionamentos que cegam as mentes e corroem o coração das pessoas. Isto é, compromete a fundamental herança. É preciso reagir a essa tendência para que os filhos recebam uma herança que não comprometa a esperança no futuro.

Em defesa dessa herança não há uma volta ao passado ou um saudosismo, mas o acreditar em ser possível algo mais substancial para o ser humano. Se isto for aceito, significa repensar todo o processo de educação familiar e social, demonstrando ser possível uma nova sociedade que inicia pela mudança de berço. Em um país como o Brasil, historicamente repleto de desigualdade social e humana, pode ser ensinado o valor da ética e das relações sociais justas às crianças, aos adolescentes e jovens.

Viver em sociedade submetida ao legalismo e à tolerância zero reduz a essência da vida humana. Construir uma verdadeira herança que garanta um futuro melhor a todos envolve a articulação entre as instituições família, escola, sociedade e governos. Exige de todas as pessoas responsabilidades com renovadas orientações familiares, pedagógicas, políticas e civis.

terça-feira, 29 de março de 2016

OS ANIMAIS SÃO DE DEUS A BESTIALIDADE É DOS HOMENS

Ser nazista não é nenhum elogio. Conectada a essa palavra está a prática do horror praticado por humanos, pretensamente superiores, contra outros humanos, supostamente fracos e débeis, na segunda guerra mundial. O nazista se atualiza no comportamento intolerante, violento, insensível com os outros, negador do outro, sobretudo os mais vulneráveis. Até a palavra nazista assusta. Não creio que alguém faça questão de ser chamado de nazista. Nazista é, como a gente diz para as crianças, “coisa feia”.

Ainda assim persiste em nossa sociedade um latente e cada vez mais manifesto espírito nazista no comportamento de alguns grupos minoritários que atacam, violentam e banalizam o bem mais precioso do humano que é a vida e o bem mais caro da civilidade que é o diálogo e a tolerância. E isso é muito perigoso!

Mas não é do horror, violência e intolerância de humanos para humanos que pretendo falar. A questão é a relação dos humanos para com os animais que muito precisamente pode ser qualificada de prática nazista de holocausto em campos de concentração. Há um holocausto diário em ação e as vítimas são os mais inofensivos e inocentes possíveis, os animais. Os animais são de Deus, a bestialidade é dos homens (Platão). Animais inocentes que só desejam liberdade, bem-estar e vida, e pelo seu ser dão glória a DEUS, diz o Papa Francisco, nós os confinamos em campos de concentração doméstico, no uso de seus corpos no ensino e pesquisa, na indumentária e revestimentos, nos jogos e divertimento e, sobretudo, os matamos aos bilhões para alimentarmo-nos de seus corpos já em decomposição. Os animais são de Deus, a bestialidade é dos homens!

A humanidade só se eleva moral e espiritualmente lá onde o amor é universalmente ampliado. Mas como dizer que somos elevados moral e espiritualmente se torturamos animais inocentes e sensíveis como as vacas para tira-lhe o leite? Como podemos nos considerar elevados espiritualmente se torturamos galinhas para lhe roubar os ovos? Como nos chamar de humanos se escravizamos, torturamos e matamos seres de outras espécies pelo prazer do saborear seus corpos esquartejados e servidos sem cerimônia em nossas mesas?

Adeus a inocência! Todos já sabemos o que a indústria dos ovos, carne, leite e seus derivados fazem para continuar lucrando com a nossa cumplicidade. No holocausto de 60 bilhões de animais assassinados por ano, 160 milhões todos os dias e 7 milhões a cada hora, somos todos nazistas cúmplices. Adeus a inocência! Os animais são de Deus, a bestialidade é dos homens!

segunda-feira, 28 de março de 2016

AS QUATRO SOMBRAS SEGUNDO L.Boff.

Em momentos de crise, assomam quatro sombras que estigmatizam nossa história cujos efeitos perduram até hoje.

A primeira sombra é nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a língua do invasor, assumir as formas políticas do outro e submeter-se totalmente a ele. A consequência no inconsciente coletivo do povo dominado: sempre baixar a cabeça e levado a pensar que somente o que é estrangeiro é bom.

A segunda sombra foi o genocídio indígena. Eram mais de 4 milhões. Os massacres de Mem de Sá em 31 de maio de 1580 que liquidou com os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus e pior ainda, a guerra declarada oficialmente por D.João VI em 13 de maio de 1808 que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce manchará para sempre a memória nacional. Consequência: temos dificuldade de conviver com o diferente, entendendo-o como desigual. O índio não é ainda considerado plenamente “gente”, por isso suas terras são tomados, muitos são assassinados e para não morrerem, se suicidam. Há uma tradição de intolerância e negação do outro.

A terceira sombra, a mais nefasta de todas, foi o escravidão. Entre 4-5 milhões foram trazidos de África como “peças” a serem negociadas no mercado para servirem nos engenhos ou nas cidades como escravos. Negamos-lhes humanidade e seus lamentos sob a chibata chegam ainda hoje ao céu. Criou-se a instituição da Casa Grande e da Senzala. Gilberto Freyre deixou claro que não se trata apenas de uma formação social patriarcal, mas de uma estrutura mental que penetrou nos comportamentos das classes senhoriais e depois dominantes. Consequência: não precisamos respeitar o outro; ela está aí para nos servir. Se lhe pagamos salario é caridade e não direito. Predominou o autoritarismo; o privilégio substitui o direito e criou-se um estado para servir os interesses dos poderosos e não ao bem de todos e uma complicada burocracia que afasta o povo.

Raymundo Faoro (Os donos do poder) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil ) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer o estado nacional, fruto da conciliação entre as classes opulentas sempre com a exclusão intencionada do povo. Assim surgiu uma nação profundamente dividida entre poucos ricos e grandes maiorias pobres, um dos países mais desiguais do mundo, o que significa, um país violento e cheio de injustiças sociais.

Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. Mas depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins, nasceram deste esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos e alguns presos e mortos.

A coligação de partidos hegemonizados pelo PT conseguiu chegar ao poder central. Fez-se o que nunca foi pensado e feito antes: conferir centralidade ao pobre e ao marginalizado. Em função deles se organizaram, como cunhas no sistema dominante, políticas sociais que permitiram a milhões saírem da miséria e terem os benefícios mínimos da cidadania e da dignidade.

Mas uma quarta sombra obnubila uma realidade que parecia tão promissora: a corrupção. Corrupção sempre houve entre nós em todas as esferas. Negá-lo seria hipocrisia. Basta lembrar os discursos contundentes e memoráveis de Ruy Barbosa no Parlamento. Setores importantes do PT deixaram-se morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dado os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos.

A justiça focou-se quase só neles e mostrou-se muitas vezes parcial e com clara vontade persecutória. Os vazamentos ilegais, permitidos pelo juiz Sérgio Moro, forneceram munição à imprensa oposicionista e aos grupos que sempre dominaram a cena política e que agora querem voltar ao poder com um projeto velhista, neoliberal e insensível à injustiça social. Estes conseguiram mobilizar multidões, conclamando o impedimento da Presidenta Dilma, mesmo sem suficiente fundamento legal como afirmam notáveis juristas. Mas o PT respondeu à altura.

As quatro sombras recobrem a nossa realidade social e dificultam uma síntese integradora. Elas pesam enormemente e vêm à tona em tempos de crise como agora, manifestando-se como ódio, raiva, intolerância e violência simbólica e real contra opositores. Temos que integrar essa sombra, como diria C.G.Jung, para que a dimensão de luz possa predominar e liberar nosso caminho de obstáculos. O PT, apesar de seus erros, a causa que defende será sempre válida: fazer uma política integradora dos excluídos e humanizar nossas relações sociais para tornar a nossa sociedade menos malvada.

domingo, 27 de março de 2016

UM OLHAR CRISTÃO AO MUNDO DA COMUNICAÇÃO

Geralmente dá-se à comunicação uma definição empírica: Comunicar é “dizer alguma coisa a alguém”. Esta “alguma coisa” pode se ampliar em nível planetário, por meio do grande mundo das redes sociais, que vieram se unir aos meios de comunicação clássicos e tradicionais. Também este “a alguém”, num plano global, nem se pode imaginar e nem se pode calcular quem seja.

Esta consciência empírica, à luz da amplidão das prospectivas da atualidade, onde sempre mais nos comunicamos sem ver o rosto do outro, fez surgir o problema maior da comunicação. Aqui alimenta-se a informação, sem que aquele que comunica sinta-se comprometido com o outro que recebe.

Um olhar cristão ao mundo da comunicação pode nos sugerir algo novo e grandioso, mais do que a sofisticação dos meios. Partimos da comunicação de Deus para nós, humanos. A teologia pode nos ajudar a uma nova experiência. Este novo da comunicação não vem de uma teoria, nem de uma invenção histórica e humana.

Por incrível que pareça, no sepulcro de Jesus, na noite da Páscoa, realiza-se o gesto da comunicação mais radical de toda a história da humanidade. O Espírito Santo, vivificando Jesus Ressuscitado, comunica ao seu corpo a força incontida de Deus. Comunicando-se a Jesus, o Espírito se comunica à humanidade inteira e abre o caminho a toda a comunicação autêntica que supõe o dom de si, superando a ambiguidade da comunicação humana, na qual não se confirma nenhum compromisso mútuo.

Neste horizonte da Páscoa a comunicação passa a ser aquela que o Pai faz de si a seu Filho amado, Jesus. Esta comunicação fundamental de Deus passa a cada homem e cada mulher e dali àquela que nós cultivamos reciprocamente no modelo desta comunicação divina. Esta é a espinha dorsal de uma comunicação comprometida e comprometedora de vida e dignidade. A dimensão pascal da comunicação não nos permite manipulações, mas respeito; não tolera o jogo de conveniência, mas a sinceridade do amor que liberta e promove.

O Espírito Santo que recebemos, graças à morte e ressurreição de Jesus e que nos faz viver no próprio Jesus, preside em nós a comunicação, imprimindo as marcas de dedicação e amor pelos outros. Desta realidade fundamental da fé cristã tiramos algumas conclusões para nossas relações comunicativas:

- Na raiz de cada comunicação está a grande comunicação de Deus que se dá ao ser humano por meio de seu Filho Jesus e do Espírito Santo.
- Cada comunicação, para ser verdadeira, necessita ter presente a grande comunicação de Deus, para não se tornar vazia. Só nesta raiz a comunicação pode garantir o ritmo e a medida justa a cada gesto comunicativo.
- Toda a confusão que atualiza a o clima da ‘Torre de Babel’, é resultado da rejeição desta comunicação de Deus.
- O novo da comunicação que nos vem da Páscoa, necessariamente, precisa efetivar a comunicação ‘coração a coração’.

sábado, 26 de março de 2016

JESUS OU BARRABÁS ?



Essa semana, santa, comemoramos o martírio de um líder politico, preso, torturado e morto ele foi entregue aos verdugos após uma delação premiada.
Judas Iscariotes, é o que consta no meu Livro Negro, foi o primeiro malandro beneficiado pelo instituto da delação premiada.

o sacana entregou o chefe, ganhou a liberdade e ainda saiu com uma sacola cheia de moedas.

com a grana que levou da patranha, dizem que o malandro abriu um resort no deserto da judeia, com ofurôs de ébano cheios de leite de camelas.

o chefe, coitado, foi atirado aos cães.

conta a história que o carismático líder político, ao cair nas garras de um juiz desajuizado, foi julgado e condenado pela voz raivosa de uma turba que batia panelas nas ruas.

o cabra se chamava Jesus Cristo.

na varanda de Caifás, uma espécie de Paraty House, o líder político é exposto à multidão.

ele tem um sítio com dois pedalinhos, gritava o juiz.

ladrão, filho da puta, vai pra Cuba, bradava a turba ensandecida.

intoxicado pela imprensa judáico-romana, o povo branco e endinheirado pedia a morte do líder político e a absolvição de dois bandidos: Cunha e Aécio, que à época eram conhecidos como Barrabás.

é o que tá aqui no Livro.

midiotas erguiam cartazes pedindo a morte do ex-retirante de Belém, enquanto babacas obrigavam babás a empurrar seus bebês em meio à turba odiosa.

a história teima em se repetir.

nesse instante, Poncius Morus Pilatus, o jovem, acaba de lavar as mãos sujas nas águas sujas da bacia imunda trazida à boca do palco por Gilmar Mendes.

conhecido também como Mendestófelis, por causa de suas infaustas diabruras.

no entanto, o jogo aqui parece que virou.

um mar vermelho de gente corre em socorro do líder condenado por crime nenhum.

arrancam a cruz de suas costas, golpeiam centuriões, zelotas apunhalam traidores.

e pedem a cabeça de Barrabás; assim, no plural.
todos os Barrabás.

há uma lista com 200 deles.

mas o barbudo não consta em nenhuma lista.
seu crime, dois pedalinhos.

a multidão o absolve o o leva nos braços.
Poncius Morus Pilatus, é açoitado em praça pública, chibatadas vergastam seu lombo jovem, o povo lhe cospe a cara, um mais exaltado lhe atira as próprias fezes.

cai o sol e todos vão pra casa.

Lula é o nome do líder que estavam tentando pegar para Cristo.
hoje ele flana livremente.

foi visto ainda essa manhã caminhando sobre as águas turvas do Laguinho de Atibaia, distribuindo aos pobres pães e tilápias frescas.

não vai ter golpe, escreve o escriba, atualizando as escrituras.

palavra da salvação.

lele teles