sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CHEGAR ANTES.

Enquanto recordava que esta poderia ser  a última crônica de 2016, veio em mente algo muito simples: na infância a atenção não incluía o término do ano, mas o começo do novo ano. O amanhecer do primeiro dia não alterava apenas um algarismo, mas abria espaço para a tradicional saudação acompanhada da mãozinha estendida. Levantávamos mais cedo do que o normal e nos dirigíamos às casas dos vizinhos. O ritual era conhecido: dizíamos ‘feliz ano novo’ e, ao mesmo tempo, aguardávamos algumas moedas. Cada qual corria no intuito de chegar antes e, assim, saudar por primeiro e ser agraciado com uma simples, mas simbólica doação.

O contentamento era tão grande, ao ponto de deixar em segundo plano o valor arrecadado. Afinal, um coração de criança sempre encontra motivos para alegrar-se. Não há necessidade de volume, nem de aparência, muito menos de preço. A criança que fomos no ontem era mais simples, desconhecia eletrônicos, não tinha grandes exigências. O coração conhecia a leveza advinda da bondade e da gratidão. Fico pensando: que maravilhoso era correr para desejar ‘feliz ano novo’, mesmo que, em seguida, a mão era estendida aguardando um singelo abono. O contentamento não suponha grandes motivos, nada era mensurado a partir da quantidade arrecadada.

Os tempos mudaram. A vida experimenta outros sabores e também alguns dissabores. Para alegrar uma criança, nem sempre é fácil. Sem contar que nada mais surpreende. Tudo é conhecido, através de redes e meios que criam necessidades à infância. Quantas dúvidas quando se trata de presentear alguns pequenos. Por outro lado, a grande maioria já não sabe a importância de desejar ‘feliz ano novo’. Alguns costumes assinalados pela simplicidade não deveriam ficar no esquecimento. Não se trata unicamente de recuperar o passado, mas de conservar aquela alegria que unia gerações e que valorizava os pequenos gestos.

Bom, o ano está terminando. Os balancetes permitem diferentes análises. O olhar econômico é fonte de frustração. Foi um ano bem difícil. A recuperação desconhece a rapidez. Por outro lado, foi um tempo de muito aprendizado. É necessário reinventar até mesmo o jeito de viver, revendo determinados costumes. Talvez não seja aconselhável estender a mãozinha, por causa da crise. Porém, ninguém está dispensado de saudar e abraçar com um efusivo ‘Feliz 2017’.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

VOCÊ!

Desde 1927 a revista Time escolhe anualmente o “Homem do Ano”. A iniciativa nasceu dos editores para “escrever algo em semana de poucas notícias”. Em 2006, o escolhido não foi nenhuma personalidade famosa, mas você. Você foi o “Homem do Ano”. Lógico, a escolha tem um significado positivo para a coletividade anônima, e maior para a Time.

Convenhamos que a iniciativa da Time visa à preocupação de aumentar sua participação e influência em termos de informação e notícia. Logo, eleger o “Homem do Ano” vende anúncios e exemplares da revista. Com isso a revista amplia sua influência na formação da opinião pública. Contudo, após duras críticas da opinião pública, em 1999 a revista alterou o título do “Homem do Ano” para “Pessoa do Ano”, na intenção de evitar conflitos de gênero, sexismo, etc. Até então, somente quatro mulheres ganharam o título "Homem do Ano": Corazon Aquino em 1986, Rainha Elizabeth II em 1952, Soong Mei-ling (Madame Chiang Kai-shek) em 1937 e Wallis Simpson em 1936. As únicas mulheres a ganharem o prêmio após a mudança foram as que denunciaram as práticas ilegais das empresas de trabalho em 2002, Cynthia Cooper da Worldcom, Sherron Watkins da Enron e Coleen Rowley do FBI.

De grande influência social, ao propor a premiação “Pessoa do Ano” a revista Time também alavanca seus negócios midiáticos através dos usuários que contribuem para o desenvolvimento do mundo virtual, como quem acessa portais como Wikipédia, Facebook, Youtube e MySpace. Em razão disto, em 2006 elegeu você a “Pessoa do Ano”, em inglês You. A premiação referia-se aos milhões de anônimos usuários da internet. No ano anterior, a Time elegeu o fundador da Microsoft, Bill Gates, e sua esposa, Melinda, pelo crescimento e influência dos conteúdos online gerados pelos usuários em blogs ou sites como YouTube, MySpace e Wikipédia. Somente em 2005, o portal mais popular, o YouTube, recebeu cerca de cem milhões de visualizações diárias. Há dez anos, em 2006, o YouTube foi comprado pelo Google. É lógico que a escolha vai além do Você, mas na intenção de fundar e estruturar a nova democracia digital.

Sendo assim, homenagear os anônimos vencedores chamados de Você não foi por falta de notícias a serem divulgadas, mas pelo retorno econômico e pela influência na informação gerada em cada acesso em algum portal virtual. Quanto maior o número de acessos a um portal virtual maiores são as influências na informação, notícias e setor comercial. Eleger o coletivo como "Pessoa do Ano" é almejar a maior influência de informação em nível mundial. Em suma, você foi o escolhido enquanto acessar algum portal de internet. Contudo, você é mais do que uma conexão ou um internauta. É mais que digital. Afinal, não é o Wi-Fi que conduz a vida humana, e sim outras dimensões e valores imprescindíveis.

PODEMOS SER INTERROMPIDOS A QUALQUER MOMENTO.

Envolta em papel de presentes, chegou a nova agenda. Bonita, funcional, cheia de esperanças e sonhos, como a juventude costuma ter. ao seu lado, marcada pelo tempo e pelas lutas diárias, a velha agenda, cansada e um pouco triste por ser deixada de lado. Embora ela saiba que é amada por mim. Entre as duas, o mistério do tempo.

A velha agenda nada mais é que a minha vida. Em suas páginas estão assinalados os meus fracassos, os meus pecados, as minhas omissões, as esperanças que murcharam, as sementes que não germinaram, as boas intenções que, por não terem sido realizadas, se tornaram más intenções.

Mas ela guarda também páginas luminosas, momentos divinos. Lá estão os meus êxitos, minhas alegrias, os sonhos realizados, os perigos que ficaram para trás. Lá estão assinalados encontros com o Pai e encontros com os irmãos. Algumas palavras lembram momentos difíceis com final feliz: as vezes que tudo me levava a dizer “não” e eu disse “sim”; e as vezes que eu disse “sim”, quando tudo conspirava em favor do “não”.

A nova agenda está totalmente em branco. Compete a mim, em meio às complicações da vida, escrever alguma coisa. O passado é irreversível, é imutável. Não existe a possibilidade de rasgar algumas das folhas da agenda e da vida ou apagar o que foi escrito. Já Pilatos dizia ao povo judeu: “O que escrevi, escrevi”. Por outro lado, o passado é um mestre que merece ser consultado, embora as respostas mudem com o passar do tempo.

Em cada Ano Novo renovamos nosso estoque de projetos e decisões. Se muita coisa não deu certo no ano que passou, é justo apostar todas as fichas no ano que surge. Sou responsável pela nova agenda, mesmo sabendo que ela receberá contribuições dos outros.

A agenda de 2017 está também aberta aos imprevistos. Não vamos enfrentar este ano sozinhos. Deus vai continuar a amar-nos e sua graça nos ajudará a superar os momentos confusos e difíceis.

Santo Agostinho lembrava que Deus promete a todos e sempre o seu perdão, mas não garante a ninguém o dia de amanhã. O escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004) falava de três certezas que nos acompanham: recém estamos começando, temos muita coisa a fazer e podemos ser interrompidos a qualquer momento.

Cada dia é presente de Deus, é um sinal de seu amor. Com isso Ele quer nosso amadurecimento humano e divino. Os gregos falavam do “kairós”, isto é, o tempo de Deus, a passagem de Deus em nossa vida. E o tempo de Deus é hoje. Que a nova agenda nos diga isso todos os dias.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

FELIZ 2017

Neste ano-novo, se faça novo, reduza a ansiedade, regue de ternura os sentimentos mais profundos, imprima a seus passos o ritmo das tartarugas e a leveza das garças.


Não se mire nos outros; a inveja mina a autoestima, fomenta o ressentimento e abre, no centro do coração, o buraco no qual se precipita o próprio invejoso.


Espelhe-se em si mesmo, assuma seus talentos, acredite em sua criatividade, abrace com amor sua singularidade. Evite, porém, o olhar narcísico. Seja solidário: estenda aos outros as mãos e oxigene a própria vida. Não seja refém de seu egoísmo.


Cuide do que fala. Não professe difamações e injúrias. O ódio destrói a quem odeia, não o odiado. Troque a maledicência pela benevolência. Comprometa-se a expressar alguns elogios por dia. Sua saúde espiritual agradecerá.


Não desperdice a existência hipnotizado pela TV ou navegando aleatoriamente pela internet, naufragado no turbilhão de imagens e informações que não consegue síntetizar. Não deixe que a sedução da mídia anule sua capacidade de discernir e o transforme em consumista compulsivo. A publicidade sugere felicidade e, no entanto, nada oferece senão prazeres momentâneos.


Centre sua vida em bens infinitos, nunca nos finitos. Leia muito, reflita, ouse buscar o silêncio neste mundo ruidoso. Lá encontrará a si mesmo e, com certeza, um Outro que vive em você e que quase nunca é escutado.


Cuide da saúde, mas sem a obsessão dos anoréticos e a compulsão dos que devoram alimentos com os olhos. Caminhe, pratique exercícios, sem descuidar de aceitar as suas rugas e não temer as marcas do tempo em seu corpo. Frequente também uma academia de malhar o espírito. E passe nele os cremes revitalizadores da generosidade e da compaixão.


Não dê importância ao que é fugaz, nem confunda o urgente com o prioritário. Não se deixe guiar pelos modismos. Faça como Sócrates, observe quantas coisas são oferecidas nas lojas que você não precisa para ser feliz. Jamais deixe passar um dia sem um momento de oração. Se você não tem fé, mergulhe em sua vida interior, ainda que por apenas cinco minutos.


Arranque de sua mente todos os preconceitos e, de suas atitudes, todas as discriminações. Seja tolerante, coloque-se no lugar do outro. Todo ser humano é o centro do Universo e morada viva de Deus. Antes, indague a si mesmo por que, às vezes, provoca nos outros antipatia, rejeição, desgosto. Revista-se de alegria e descontração. A vida é breve e, de definitivo, só conhece a morte.


Faça algo para preservar o meio ambiente, despoluir o ar e a água, reduzir o aquecimento global. Não utilize material que não seja biodegradável. Trate a natureza como aquilo que ela é de fato: a nossa mãe. Dela viemos e a ela voltaremos. Hoje, vivemos do beijo na boca que ela que nos dá continuamente: ao nutrir cada um de nós de oxigênio e alimentos.


Guarde um espaço em seu dia a dia para conectar-se com o Transcendente. Deixe que Deus acampe em sua subjetividade. Aprenda a fechar os olhos para ver melhor.


Feliz 2017!

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

DIA SEM SOL

Tempo nublado; silêncio na madrugada... A idade me ensina que a tristeza vista no imediatismo do meu coração é falsa...
Acostumamos a idolatrar os dias ensolarados... e, de fato, são belos e bela é a vida na possibilidade de agir, andar, encontrar amigos e companheiros; contudo, a quietude dos dias nublados revela-nos os limites do nosso modo estar no mundo...
Vivemos acelerados, falamos e agimos preenchendo a vida para que esta não tenha nenhum vazio...
Compramos, vendemos... Nos mostramos, olhamos a estamparia do mundo... O tempo é tempo ocupado...
Assim, nos dias nublados tendemos a ficar melancólicos... Qual será o nosso medo?
Penso que temos medo de nos encontrarmos... De ver desnudados sonhos reprimidos, fragilidades camufladas...
Ninguém cresce longe do próprio coração...
Urge ousadia e coragem para viver o tempo livre, desbravando nosso próprio mundo desabitado...
Pensar, cochilar... ler um poema, ouvir uma canção... O ócio é criativo. Ele pode não ser utilitário para a lógica do mercado e do espetáculo... mas o é para que cuidemos de nós...
Robóticos, não brincamos...
Utilitaristas, não sonhamos...
Só conhecemos o que pode a força bruta... pouco sabemos do que pode o corpo no bailado das nuvens, vivenciando as potências da ternura e da suavidade...
Antes escrevíamos longas cartas; hoje, trocamos pequenas mensagens previamente codificadas no reducionismo de calar a força das palavras e de, ruidosamente, evitar as lições do silêncio...
Não fujamos da dança das nuvens...
Tempo livre... é tempo de mar e brincar, dar-se a preguiça e dar-se aos voos da vida sonhada...
Todos, nos dias atuais, sabem os dados que nos identificam socialmente... poucos, e muitas vezes nós próprios, desconhecemos o que somos nas batidas melodiosas do nosso coração... Nele, mora nossa história... e nosso eu adiado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Numa isolada região, montanhosa e fria, vivia um aldeão simples e temente a Deus. Em sua oração pedia que Deus visitasse sua pobre cabana. Na véspera de Natal - sem saber se era sonho ou realidade - Jesus garantiu-lhe que o visitaria. Já no alvorecer do dia começou os preparativos para acolher o Senhor. Enfeitou, como pode sua habitação, preparou uma deliciosa sopa de cebolas e colocou um pedaço de carneiro nas brasas.

Lá fora a nevasca era mais forte e o camponês, de dez em dez minutos, olhava a estrada branca e vazia. Pelas tantas viu um vulto avançando. Ainda não era Ele. Apenas um vendedor ambulante, faminto e carregando pesado fardo. Foi ao seu encontro e convidou-o a entrar. Ofereceu-lhe um prato de sopa e um pedaço de carne, enquanto a lareira secava suas roupas. Depois, agradecido, partiu. Uma hora depois surgiu, no mesmo caminho, uma mulher. Tinha de levar um recado urgente e estava cansada e faminta. Depois de um prato de sopa e um naco de carne, ela partiu. Já quase escurecia e apareceu outra visita. Era uma criança que se perdera pelo caminho. Depois de alimentá-la com sopa e carne, orientou-a para tomar o rumo certo.

Algumas horas passaram, o vento rugia lá fora e a neve continuava caindo. Desgostoso, o aldeão foi deitar, pois chegara à conclusão que o Senhor não viria. Certamente o considerava indigno de sua visita. Seu sono foi interrompido por uma luz intensa e radiosa, em meio a ela estava o próprio Jesus.

Com um misto de desculpa e protesto, o camponês afirmou: esperei-o durante todo o dia... E Jesus esclareceu: por três vezes visitei tua cabana. Lembra aquele viajante cansado, aquela mulher pobre e aquele menino perdido? E, sorrindo, esclareceu: era eu.

Este conto é inspirado no genial escritor russo Leon Tolstoi. Antes e depois dele foram escritos outros milhares de contos. Mas nenhum deles consegue superar a magia de Lucas. José e Maria, obedecendo um decreto de Cesar, foram registar-se em Belém: “Enquanto lá estavam completaram-se os dias para o parto e Maria deu à luz seu filho primogênito e reclinou-o numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na estalagem” (Lc 2,1-4). Um anjo apareceu aos pastores e a glória do Senhor os envolveu. E o anjo disse: não tenham medo, eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo – Senhor.

Natal - ontem, hoje e sempre - é uma narrativa só compreendida pela ótica do amor. O amor misericordioso de nosso Deus, que é de sempre e para sempre. E na vivência do amor fraterno que entramos no mistério do Natal.

domingo, 25 de dezembro de 2016

FELIZ NATAL

Feliz Natal a todos que dançam embalados pelos próprios sonhos e nunca dizem sim às artimanhas do desejo.

Feliz Natal aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia.

Feliz Natal a quem acorda, todas as manhãs, a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções que só obrigam a quem carece de convicções.

Feliz Natal aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam recatados os seus olhos no recanto da sobriedade.

Feliz Natal aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores e aos escritores sem palavras.

Feliz Natal a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão e convocam os famélicos à mesa feita com as tábuas da justiça e coberta com a toalha bordada de cumplicidades.

Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir.

Feliz Natal a todos que, com o rosto lavado das maquiagens de Narciso, dobram os joelhos à dignidade dos carvoeiros.

Feliz Natal a todos que sabem voar sem exibir as asas e abrem caminhos com os próprios passos, inebriados pelos ecos de profundas nostalgias.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão, bordam toalhas de cumplicidades, secam lágrimas no consolo da fé, criam hipocampos em aquários de mistério.

Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas a quebrar convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Queira Deus que renasçam com o Menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios. 


- CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 64, frade dominicano e escritor

sábado, 24 de dezembro de 2016

O MEU NOME É CRISE.

Adital – Há tempos não se falava tanto de mim como agora. Tudo por causa de uma crise no sistema financeiro. A África anda, também há tempos, em crise crônica – de democracia, de alimentos, de recursos; quem fala disso?

Existe ameaça de crise do petróleo; governantes e empresários parecem em pânico frente à possibilidade de não poder alimentar 800 milhões de veículos automotores que rodam sobre a face da Terra.

No último ano, devido ao aumento do preço dos alimentos, o número de famintos crônicos subiu de 840 milhões para 950 milhões, segundo a FAO; mas quem se preocupa em alimentar miseráveis?

Meu nome deriva do grego krísis, discernir, escolher, distinguir – enfim, ter olhos críticos. Trago também familiaridade com o verbo acrisolar, purificar. Ao contrário do que supõe o senso comum, não sou, em si, negativa. Faço parte da evolução da natureza.

Houve uma crise cósmica quando uma velha estrela, paradoxalmente chamada supernova, explodiu há 5 bilhões de anos; seus cacos, arremessados pelo espaço, deram origem ao sistema solar. O sol é um pedaço de supernova dotado de calor próprio. A Terra e os demais planetas, cacos incandescentes que, aos poucos, se resfriaram. Daqui a 5 bilhões de anos o sol, agonizante, também verá sua obesidade dilatada até se esfacelar nos abismos siderais.

Todos nós, leitores, passamos pela crise da puberdade. Doeu ver-nos expulsos do reino da fantasia, a infância, para abraçar o da realidade! Nem todos, entretanto, fazem essa travessia sem riscos. Há adolescentes de tal modo submersos na fantasia que, frente aos indícios da idade adulta, que consiste em encarar a realidade, preferem se refugiar nas drogas. E há adultos que, desprovidos do senso de ridículo, vivem em crise de adolescência…

Resulto da contradição inerente aos seres humanos. Não há quem não traga em si o seu oposto. Quantas vezes, no trânsito, o mais amável cidadão arremessa o carro sobre a faixa de pedestres; a gentil donzela enfia a mão na buzina; o aplicado estudante acelera além da conveniência! Não é fácil conciliar o modo de pensar com o modo de agir.

Estou muito presente nas relações conjugais desprovidas de valores arraigados. Sobretudo quando a nudez de corpos não traduz a de espíritos e o não-dito prevalece sobre o dito. Felizmente muitos casais conseguem me superar através do diálogo, da terapia, da descoberta de que o amor é um exercício cotidiano de doação recíproca. O príncipe e a fada encantados habitam o ilusório castelo da imaginação.

Agora, assusto o cassino global da especulação financeira. Acreditou-se que o capitalismo fosse inabalável, sobretudo em sua versão neoliberal religiosamente apoiada em dogmas de fé: o livre mercado, a mão invisível, a capacidade de auto-regulação, a privatização do patrimônio público etc.

Dezenove anos após fazer estremecer o socialismo europeu, eis-me a gerar inquietação ao mercado. A lógica do bem-estar não lida com o imprevisto, o fracasso, o inusitado, essas coisas que decorrem de minha presença. Os governantes se apressam em tentar acalmar os ânimos como a tripulação do Titanic, enquanto a água inundava a quilha, ordenou à orquestra prosseguir a música…

Tenho duas faces. Uma, traz às minhas vítimas desespero, medo, inquietação. Atinge aquelas pessoas que não acreditavam em minha existência ou me encaravam como se eu fosse uma bruxa – figura mitológica do passado que já não representa nenhuma ameaça.

Minha outra face, a positiva, é a que a águia conhece aos 40 anos: as penas estão velhas, as garras desgastadas, o bico trincado. Então ela se isola durante 150 dias e arranca as penas, as garras, e quebra o bico. Espera, pacientemente, a renovação. Em seguida, voa saudável rumo a mais 30 anos de vida.

Sou presença frequente na experiência da fé. Muitos, ao passar de uma fé infantil à adulta, confundem o desmoronar da primeira com a inexistência da segunda; tornam-se ateus, indiferentes ou agnósticos. Não fazem a passagem do Deus “lá em cima” para o Deus “aqui dentro” do coração. Associam fé à culpa e não ao amor.

Acredito que este abalo na especulação financeira trará novos paradigmas à humanidade: menos consumismo e mais modéstia no padrão de vida; menos competição e mais solidariedade entre pessoas e empreendimentos; menos obsessão por dinheiro e mais por qualidade de vida.

Todas as vezes que irrompo na história ou na vida das pessoas, trago um recado: é hora de começar de novo. Quem puder entender, entenda.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

DECRETO DE NATAL

Fica decretado que, neste Natal, em vez de dar presentes, nos faremos presentes junto aos famintos, carentes e excluídos. Papai Noel será malhado como Judas e, lacradas as chaminés, abriremos corações e portas à chegada salvífica do Menino Jesus.
Por trazer a muitos mais constrangimentos que alegrias, fica decretado que o Natal não mais nos travestirá no que não somos: neste verão escaldante, arrancaremos da árvore de Natal todos os algodões de falsas neves; trocaremos nozes e castanhas por frutas tropicais; renas e trenós por carroças repletas de alimentos não perecíveis; e se algum Papai Noel sobrar por aí, que apareça de bermuda e chinelas.
Fica decretado que, cartas de crianças, só as endereçadas ao Menino Jesus, como a do Lucas, que escreveu convencido de que Caim e Abel não teriam brigado se dormissem em quartos separados; propôs ao Criador ninguém mais nascer nem morrer, e todos nós vivermos para sempre; e, ao ver o presépio, prometeu enviar seu agasalho ao filho desnudo de Maria e José.

Fica decretado que as crianças, em vez de brinquedos e bolas, pedirão bênçãos e graças, abrindo seus corações para destinar aos pobres todo o supérfluo que entulha armários e gavetas. A sobra de um é a necessidade de outro, e quem reparte bens partilha Deus.

Fica decretado que, pelo menos um dia, desligaremos toda a parafernália eletrônica, inclusive o telefone e, recolhidos à solidão, faremos uma viagem ao interior de nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a nossa verdadeira identidade. Entregues à meditação, fecharemos os olhos para ver melhor.

Fica decretado que, despidas de pudores, as famílias farão ao menos um momento de oração, lerão um texto bíblico, agradecendo ao Pai de Amor o dom da vida, as alegrias do ano que finda, e até dores que exacerbam a emoção sem que se possa entender com a razão. Finita, a vida é um rio que sabe ter o mar como destino, mas jamais quantas curvas, cachoeiras e pedras haverá de encontrar em seu percurso.

Fica decretado que arrancaremos a espada das mãos de Herodes e nenhuma criança será mais condenada ao trabalho precoce, violentada, surrada ou humilhada. Todas terão direito à ternura e à alegria, à saúde e à escola, ao pão e à paz, ao sonho e à beleza.

Fica decretado que, nos locais de trabalho, as festas de fim de ano terão o dobro de seus custo convertido em cestas básicas a famílias carentes. E será considerado grave pecado abrir uma bebida de valor superior ao salário mensal do empregado que a serve.

Como Deus não tem religião, fica decretado que nenhum fiel considerará a sua mais perfeita que a do outro, nem fará rastejar a sua língua, qual serpente venenosa, nas trilhas da injúria e da perfídia. O Menino do presépio veio para todos, indistintamente, e não há como professar o “Pai Nosso” se o pão também não for nosso, mas privilégio da minoria abastada.

Fica decretado que toda dieta se reverterá em benefício do prato vazio de quem tem fome, e que ninguém dará ao outro um presente embrulhado em bajulação ou escusas intenções. O tempo gasto em fazer laços seja muito inferior ao dedicado a dar abraços.

Fica decretado que as mesas de Natal estarão cobertas de afeto e, dispostos a renascer com o Menino, trataremos de sepultar iras e invejas, amarguras e ambições desmedidas, para que o nosso coração seja acolhedor como a manjedoura de Belém.

Fica decretado que, como os reis magos, todos daremos um voto de confiança à estrela, para que ela conduza este país a dias melhores. Não buscaremos o nosso próprio interesse, mas o da maioria, sobretudo dos que, à semelhança de José e Maria, foram excluídos da cidade e, como uma família sem-terra, obrigados a ocupar um pasto, onde brilhou a esperança.

Fonte: CEBI

NATAL EM TEMPOS DE HERODES.

O Natal deste ano será diferente de outros natais. Geralmente é a festa da confraternização das famílias. Para os cristão é a celebração da divina Criança que veio para assumir nossa humanidade e faze-la melhor.
No contexto atual, porém, em seu lugar assomou a figura do terrível Herodes. o Grande (73 a.C-4-a. C), ligado à matança de inocentes. Zeloso por seu poder, ouviu que nascera em seu reino, a Judéia, um menino-rei. Foi quando ordenou degolar todas os meninos abaixo de dois anos (Mt 2,16). Ouviu-se então uma das palavras mais dolentes de toda Bíblia:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem”(Mt 2,18).

Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas impostas pelo atual governo, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos como saúde, educação, segurança, aposentadorias e congelando por 20 anos as possibilidades de desenvolvimento têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.

Aos legisladores não são desconhecidas as consequências letais, derivadas da decisão de considar mais importante o mercado que as pessoas.

Dentro de poucos anos, teremos uma classe de super-ricos (hoje são 71.440 segundo IPEA, portanto,0,05% da população),uma classe media amedrontada pelo risco de perder seu status e milhões de pobres e párias que da pobreza passaram para miséria. Esta significa fome das crianças que morrem por sub-nutrição e doenças absolutamente evitáveis, idosos que já não conseguem seus remédios e o acesso à saúde pública, condenados a morrer antes do tempo. Essa matança possui responsáveis. Boa parte dos legisladores atuais da chamada “PEC da morte” não podem se eximir da pecha de serem os atuais Herodes do povo brasileiro.

As elites do dinheiro e do privilégio conseguiram voltar. Apoiados por parlamentares corruptos, de costas ao povo e moucos ao clamor das ruas e por uma coligação de forças que envolve juizes justiceiros, o Ministério Público, a Polícia Militar e parte do Judiciário e da mídia corporativa, reacionária e golpista não sem o respaldo da potência imperial interessada em nossas riquezas, forjaram a demisão da Presidenta Rousseff. O real motor do golpe é o capital financeiro, os bancos e os rentistas (não afetados pelas políticas dos ajustes fiscais).

Com razão denuncia o cientista politico Jessé Souza: “O Brasil é palco de uma disputa entre dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites”(FSP 16/4/2016).

A tristeza é constatar que todo esse processo de expoliação é consequência da velha políitca de conciliação dos donos do dinheiro entre si e com os governos, que vem desde o tempo da Colônia e da Independência. Lula-Dilma não conseguiram ou não souberam superar a arte finória desta minoria dominante que, a pretexto da governabilidade, busca a conciliação entre si e com os governantes, concedendo alguns benefícios ao povo a preço de manter intocada a natureza de seu processo de acumulação de riqueza em altíssimos níveis.

O historiador José Honório Rodrigues que estudou a fundo a conciliação de classe sempre de costas ao povo, afirma com razão:”a liderança nacional, em suas sucessivas gerações, foi sempre anti-reformista, elitista e personalista…A arte de furtar é nobre e antiga praticada por essas minorias e não pelo povo. O povo não rouba, é roubado…O povo é cordial, a oligarquia é cruel e sem piedade…; o grande sucesso da história do Brasil é o seu povo e grande decepção é a sua liderança”(Conciliação e Reforma no Brasil, 1965, pp. 114;119).

Estamos vivendo a repetição desta maléfica tradição, da qual jamais nos liberaremos sem o fortalecimento de um anti-poder, vindo do andar de baixo, capaz de derrubar esta clique perversa e instaurar um outro tipo de Estado, com outro tipo de política republicana, onde o bem comum se sobrepõe ao bem particular e corporativo.

O Natal deste ano é um Natal sob o signo de Herodes. Não obstante, cremos que a divina Criança é o Messias libertador e a Estrela é generosa para nos mostrar melhores caminhos

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A CEIA MÁGICA

“A Missa do Galo se encerrou aos primeiros minutos de 25 de dezembro. Padre Afonso se deixara contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono.
Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Natal e lhes deu a bênção final. Uma dezena de paroquianos se ombreou na sacristia para lhe manifestar votos de boas festas. Presentes se sobrepunham a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.
Dependurados os paramentos, padre Afonso se viu sozinho.

Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele sabia tê-lo merecido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio, acometeram-lhe muitas tentações.

Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia.

Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes, sentia saudades dos filhos que não tinha. Atormentava-o se ver sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, surpreendia-se sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por sua família imaginária.

Naquela noite, a solidão lhe bateu forte. Uma solidão com a ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum dos paroquianos tivera a generosidade de o convidar à ceia.


Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e se dirigiu à zona boêmia.


Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve vontade e medo de sentir ódio também de Deus.

Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.


Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas se aliviar e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.


Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar um sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.


Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido.


Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.


Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria.


Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.


Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele a tomou pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto.


Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia.


Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma prostituta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): “As prostitutas vos precederão no Reino de Deus.” E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.


Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia.”