terça-feira, 10 de janeiro de 2017

SER FELIZ É O DESEJO

O inverno fora duro e parecia nunca mais ter fim. Impaciente e magro, um urso olhava para a paisagem desolada e para o lago congelado. Ele precisava, de qualquer maneira, encontrar alimento. Uma lufada de vento trouxe ao urso um inegável cheiro de comida e ele partiu, imediatamente, em sua busca. Seu instinto lhe sugeria muita prudência. Acabou encontrando um acampamento de caçadores, providencialmente, deserto. E lá, em meio a uma vigorosa fogueira, um panelão cheio de comida. O urso enfiou a cabeça nas gostosas iguarias e sem hesitar, abraçou o a panela.

Um calor insuportável começou a lhe queimar a boca, as patas e o peito. Era uma sensação que ele não conhecia, mas interpretou como uma coisa que queria roubar-lhe a comida. Continuou abocanhando a comida e apertou com força a panela, mas teve de rugir de dor. Quanto mais rugia, mais apertava a panela. Meia hora depois, quando chegaram, os caçadores viram um enorme urso, encostado a uma árvore. Morrera em consequência das queimaduras. Mesmo morto, tinha a expressão de que ele ainda estava rugindo de dor.

Ser feliz é o desejo, mais que isso, uma obsessão, que nos acompanha ao longo da vida. Todos os nossos atos, ao longo de toda a vida, têm uma direção única: a felicidade. Mesmo quando optamos por algo que nos machuca, no momento, jamais perdemos o foco da felicidade, mesmo que seja para mais adiante. Mas na realidade nem mesmo sabemos bem o que é ser feliz. Confundimos, muitas vezes, momentos de prazer com felicidade. A miopia, por vezes, faz-nos optar pelas águas de uma cisterna poluída, deixando de lado fontes cristalinas. Santo Agostinho, que na primeira parte da vida correu em busca da felicidade, deu-se conta de coisas que eram “belas pelo avesso”.

Na vida, algumas vezes, abraçamos coisas que parecem sinalizar a felicidade. Imediatamente, ou com o passar do tempo, nos damos conta que isso não nos faz feliz. Pelo contrário, origina sofrimentos. Mas não queremos largar a panela. Seria suficiente desistir. Acabamos derrotados por algo que nos parecia trazer a felicidade.

Determinados erros justificam-se pela inexperiência juvenil. Com o passar dos anos devemos aprimorar o juízo crítico. Não podemos querer apenas abraçar aquilo que nos faz feliz agora. Precisamos pensar no dia seguinte. As feridas podem nos levar ao desastre.

É sempre tempo de recomeçar. É sempre tempo de fazer a contabilidade entre o custo e o benefício. E se algo não nos favorece, tenhamos a lucidez que o urso não teve: largue a panela.

E Santo Agostinho resumiu sua incansável busca da felicidade: “Fizeste-nos para ti, ó Deus, e irrequieto estará o nosso coração até não repousar em Ti”.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COOPERAÇÃO SE REFORÇA COM MAIS COOPERAÇÃO

Um dos efeitos mais perversos do golpe parlamentar, destituindo com razões juridicamente questionáveis pelos juristas mais conceituados de nosso país e também do exterior, foi impor um projeto econômico-social de ajustes e de modificações legais que significam um assalto ao já combalido bem comum. O golpe foi promovido pelas oligarquias endinheiradas e anti-nacionais que usaram um parlamento de fazer vergonha por sua ausência de ética e de sentido nacional, que por ele pretendem drenar para seu proveito a maior fatia da riqueza nacional. Isso foi denunciado por nomes notáveis como Luiz Alberto Moniz Bandeira, Jessé Souza, Bresser Pereira, entre outros.
Está em curso um desmonte da nação. Isto significa a implantação de um neoliberalismo ultraconservador e predatório que praticamente anula as conquistas sociais em favor de milhões de pobres e miseráveis, tirando-lhes direitos com referencia ao salário, ao regime de trabalho e das aposentadorias além de reduzir e até liquidar com projetos fundamentais como a Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, o FIES e outros institutos que permitiam o acesso aos filhos e filhas da pobreza ao estudo técnico ou superior.
Mais que tudo, começou-se a leiloar bens coletivos como partes da Petrobrás e a colocação à venda de terrras nacionais. A privatização significa sempre uma diminuição do bem de interesse geral que passa às mãos do interesse particular. Atacam-se ao que se chama hoje de “direitos de solidariedade” que submete os interesses particulares ao interesses coletivos e comuns.

Esclareçamos o conceito de bem comum. No plano infra-estrutural o bem comum é o acesso justo de todos aos bens comuns básicos como à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à comunicação. No plano social é a possibilidade de levar uma vida material e humana satisfatória na dignidade e na liberdade num ambiente de convivência pacífica.
Pelo fato de estar sendo desmantelado pela atual ordem injusta, o bem comum deve agora ser reconstruido. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição e articular todas as forças comprometidas com o interesse geral a resistir, a pressionar e a ganhar as ruas.
Por outro lado, o bem comum não pode ser concebido antropocentricamente. Hoje desenvolveu-se a consciência da interdependência de todos os seres com todos e com o meio no qual vivemos. Nós enquanto humanos, somos um elo, embora singular, da comunidade de vida e responsáveis pelo bem comum também desta comunidade de vida. Não podemos vender nossas terras nem deixar de delimitar os territórios indígenas, os donos originários de nosso país nem descuidar do desmatamento desenfreado da Amazônia como está ocorrendo agora.
Nós humanos, possuimos os mesmos constituintes físico-químicos com os quais se constrói o código genético de todo o vivente. Dai se deriva um parentesco objetivo entre todos os seres vivos como o tem enfatizado o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral. Por isso cuidar e defender a natureza é cuidar e defender a nós mesmos, pois somos parte dela. Em razão desta compreensão o bem comum não pode ser apenas humano, mas de toda a comunidade terrenal e biótica com quem compartimos a vida e o destino.
Cooperação se reforça com mais cooperação, pois aqui reside a seiva secreta que alimenta e revigora permanentemente o bem-comum, atacado pelas forças que ocuparam o Estado e seus aparelhos no interesse de poucos contra o bem comum de todos os demais.


domingo, 8 de janeiro de 2017

ESTÁ CHEGANDO A HORA DOS BANCOS PÚBLICOS.

Nos últimos meses, o governo brasileiro não apenas está tomando medidas temerárias do ponto de vista estratégico como também o está fazendo na contramão do mundo, em um momento em que o nacionalismo e o Estado se fortalecem, como reação à globalização, até mesmo pelas mãos da extrema direita, nos países mais desenvolvidos. O que vem sendo apresentado, com a cumplicidade de uma mídia imediatista, irresponsável e descomprometida com os objetivos nacionais, não passa de uma sucessão de “negócios” apressados e empíricos que têm como único norte o acelerado desmonte, esquartejamento e inviabilização em poucos anos, do Estado, com deletérias, estratégicas, e talvez irreversíveis consequências para o futuro.

Estamos entregando o país aos negócios privados, principalmente estrangeiros, em transações gigantescas, feitas a toque de caixa, que envolvem bilhões de dólares. Na maioria das vezes, à revelia da sociedade brasileira, a ponto de muitas estarem sendo realizadas até mesmo sem licitação, como está ocorrendo com a “venda” e desnacionalização de poços do pré-sal e de outros ativos.

Tudo isso com uma fúria privatista que só encontra paralelo nos nefastos mandatos de Fernando Henrique Cardoso, que tiveram como principais consequências econômicas a duplicação da dívida líquida pública e a queda do crédito, do PIB, da renda assalariada e do trabalho formal ao fim de seus oito anos de governo.

Se o recuo estratégico é grave em setores primordiais, como energia, infraestrutura e defesa, ele atinge também, drasticamente, os bancos públicos. Assim como não existem grandes países sem grandes empresas nacionais, também não existem grandes nações que possam prescindir de um forte sistema financeiro público para que se desenvolvam estratégica e soberanamente. Não se trata apenas, como ocorria no passado, do direito de cunhar moeda, mas de ter instrumentos que possam garantir que a roda da economia continue girando.

Nos últimos anos, o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil foram cruciais para manter o país crescendo, investindo na “bancarização” da população e na expansão do crédito. O volume de crédito em circulação, que caiu de 36% para 23,8% do PIB nos governos de FHC, mais do que duplicou nos governos do PT, até atingir 54,2% em dezembro de 2015. Sem financiamento à indústria e à agricultura teria sido impossível, para o país, enfrentar a longa sucessão de graves crises que vêm atingindo o mundo ocidental e o capitalismo desde 2008, quando a banca privada se retraiu, deixando de emprestar dinheiro e passou a investir, como sempre fez historicamente, basicamente em títulos do governo.

Com isso, embora o lucro dos bancos tenha aumentado mais de 400% na era Lula com relação ao governo anterior, as instituições públicas se expandiram mais do que as particulares, aumentando a variedade e quantidade dos serviços prestados a seus clientes, oferta de crédito, lucros e sua presença na economia nacional.

E como o atual governo responde a esse imprescindível papel estratégico? Pega carona e incentiva a campanha, com forte componente ideológico, que se está desenvolvendo na mídia e nas redes sociais, contra o BNDES. Promove a estúpida, suicida e inexplicável eliminação de R$ 100 bilhões dos ativos do BNDES, que estão sendo “repassados” ao Tesouro, para suposto “abatimento” cosmético e irrelevante da dívida pública, em um momento em que o país é apenas a 40ª nação do mundo em endividamento, e se encontra mergulhado em grave recessão.

Reforça essa política de terra arrasada com a interrupção e eliminação, pela atual diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, de projetos de exportação de serviços de engenharia de empresas já atingidas pelo tsunami punitivo da Operação Lava Jato em bilhões de dólares. Com isso, morrem no nascedouro milhares de empregos que poderiam surgir por alguns dos maiores expoentes da engenharia nacional e por centenas de médias e pequenas empresas de sua cadeia de fornecedores.

O governo estende os nefastos efeitos dessa abordagem destrutiva ao Banco do Brasil e à Caixa – apelando para a velha desculpa da busca de “eficiência” – por meio do desmanche e do “enxugamento” do BB e da Caixa, que envolve o já anunciado fechamento de centenas de agências e a demissão “incentivada” de milhares de funcionários, em um momento em que dezenas de municípios, para o enfrentamento da crise, não poderiam prescindir da presença e do apoio dessas instituições.

Quais são as razões que se escondem por trás disso? Por que e para que pisar torcer o pescoço das galinhas dos ovos de ouro da economia nacional que, além de manter o país funcionando, deram altíssimos retornos para seus acionistas e para a União e estão ligadas a conquistas de enorme importância social, como a construção de 3,5 milhões de casas populares nos últimos anos?

De 2010, para cá, o BNDES, além de emprestar centenas de bilhões de reais para grandes, médias e pequenas empresas, teve mais de R$ 40 bilhões de lucro. O Banco do Brasil alcançou, em 2011, um lucro líquido de mais de R$ 12 bilhões e chegou a mais de R$ 14 bilhões em 2015. Os seus ativos, que eram de quase R$ 1 trilhão em 2011, chegam a quase R$ 1,5 trilhão este ano. A Caixa Econômica Federal lucrou quase R$ 4 bilhões em 2011 e expandiu seus resultados para 7,2 bilhões em 2015.

De que tipo de “reestruturação” esses bancos precisam? De mandar gente embora para fazer com que os que vão ficar trabalhem o triplo – cada funcionário de agência do Banco do Brasil já é responsável, em média, pelo atendimento a quase 450 contas da instituição –, e comecem a cometer falhas, e fazer os clientes pensarem em migrar para os bancos privados?

Não se pode compreender esse cerco à banca pública a não ser como um desejo subjacente de abrir mercado para a banca privada, embora esta não tenha deixado de multiplicar também seus ganhos. Deve assustar, sobretudo, a possibilidade que os bancos públicos têm, a qualquer momento, de regular indiretamente o mercado, sempre que necessário, baixando as suas taxas de juros e as tarifas que cobram da população.

Mas essa deliberada e injustificável estratégia de sabotagem e sufocamento dos bancos públicos pode ter, também, outras intenções. Como sempre ocorre, ela abre caminho para que se possa dizer que eles estão operando mal ou perdendo dinheiro, e que devam ser privatizados a médio prazo, eliminando-os, totalmente, da economia nacional.

Assim como ocorre no caso da Petrobras, a sociedade brasileira precisa responder ao desmanche e à campanha contra a banca pública decisivamente. Os bancários e os municípios prejudicados devem entrar na Justiça contra o fechamento de agências, levando ao Judiciário e ao Ministério Público informações relativas à verdadeira situação financeira dos bancos estatais e sua importância econômica e social no contexto do processo de desenvolvimento brasileiro.

É preciso que aqueles que dizem que é necessário aumentar a “eficiência”, expliquem onde está a ineficiência de instituições que praticamente salvaram o país durante a crise de 2008, que contribuíram para a expansão do crédito, da produção e da infraestrutura e que, na última década, deram dezenas de bilhões de reais em lucro. Enquanto o sistema financeiro privado internacional levou a economia global ao colapso.

sábado, 7 de janeiro de 2017

GENTE BOA TAMBÉM MATA

Quem reclamou de 2016 e apostou que ‘17 seria melhor, quebrou a cara logo no réveillon.

é que na noite da festa das roupas brancas, ao invés das sete ondinhas, um sujeito pulou um muro, arma em punho, e passou a disparar freneticamente.

fez 13 vítimas, entre elas a ex-esposa, o filho pequeno e ele próprio.

matou mais mulheres que homens.

a carta que deixou estava recheada de ódio às mulheres de maneira geral: “vadias ardilosas”.

se um diabo desses tivesse acontecido em berlim ou em paris, os nossos bravos bonecos de ventríloquo d’além mar já estariam colocando na cena do crime o que eles chamam de estado islâmico.

diriam que o terrorista deixou - eles sempre deixam - o documento de identidade cair debaixo da arma, para provar que ele era ele mesmo.

aí falariam do defunto o que bem quisesse, defuntos não se defendem.

diriam que o sujeito fez pesquisas na internet e havia ali algumas palavras de origem árabe como azeitona, xadrez, algarismo etc., o que automaticamente o ligaria ao terrível daesh.

fazem isso porque buscam uma motivação, tentam montar uma narrativa para tentar compreender a mentalidade do criminoso por meio do discurso que o seu ato produz.

mas o crime se deu aqui e, antes que o careca-capinador-de-maconha ligasse o assassino a alguma célula terrorista da tríplice fronteira, veio à tona algumas mensagens escritas pelo assassino.

e, veja que curioso, as mensagens eram na verdade uma compilação dos clichês estúpidos que a mídia passou a ventilar por aí, vocalizando e dando visibilidade a uns celerados como frota, malafaia, janaína paschoal, bolsonaro e afins.

mas a nossa tão diligente mídia não se prestou a fazer essa associação, sequer tentou analisar o discurso de ódio do assassino.

era só colocar lá um daqueles “papagaios-especialistas” e ele dizer: sim, é cria nossa, tudo o que ele disse ali nós estamos carecas de dizer aqui aos microfones e aos quatro ventos.

bingo.

veja um exercício simples: agrupe algumas fotos de cartazes usados nas raves cívicas e você terá um mosaico com todos os termos usados nas mensagens do criminoso.

notem que o facebook tá cheio de laiques para o tipo de postura assumida pelo sujeito: misoginia, machismo, ódio às esquerdas e aos direitos dos manos etc.

porque a midiazona não fez esse tipo de relação? simples, associações são feitas quando são convenientes a quem as faz.

nas caixas de comentários dos grandes portais, “homens de bens” tentam defender o agressor, culpar as vítimas e até dizer que fariam o mesmo.

embora o nosso código penal seja claro ao definir a apologia ao crime como crime também, esses celerados não serão punidos, nem os portais que lhes dão visibilidade.

é a omissão conivente.

a impunidade é a alfafa desses bardotos.

não falta quem diga que assassino era apenas um pai tentando exercer o seu sagrado direito de ser pai; mesmo que ele tenha feito isso matando o filho.

em outro crime de ódio, o sujeito que espancou até a morte um ambulante no metrô de sampa - porque o trabalhador tentou impedi-lo de matar uma travesti - foi preso com uma camiseta do que dizem ser o nosso senhor jesus cristo e disse, na maior cara dura, que se considerava um homem de bem.

é o mesmo discurso usado na propaganda do ministério dos transportes: gente boa também mata.

e digo mais: se o cabra estivesse com alá desenhado estampado na camiseta automaticamente o crime teria conotação religiosa, esses barbudos que odeiam a liberdade e o estilo de vida ocidentais.

como era o cristo, o cagação de raiva de malafaia não foi associada como motivadora dessa homofobia.

voltemos à noite do réveillon.

o assassino-suicida - defendido por tanta gente de bens - se mostra perturbado com o feminismo, com os direitos humanos, com os presos que vivem num playground com salário mensal e três refeições por dia, com a vagabunda da dilma, com a corrupção que gera microcefalia(?), com a lei maria da penha...

o estado progressista e a conquista de direitos pelas minorias eram um tormento pra ele.

o crime ocorrido na noite de réveillon em campinas é um crime de ódio e intolerância.

é uma desumanidade de quem não reconhece alteridades, só a sua presumida autoridade.

foi, igualmente usando esses clichês baratos e confusos, tão difundidos pela midiazona, que um pai matou o filho universitário em goiânia e depois se matou.

o garoto tinha simpatia pelas ocupações e pelas ideias progressistas.

era o outro dentro de casa.

o discurso do ódio motiva a eliminação do outro, do inimigo, mesmo que o sujeito se sacrifique como exemplo de purificação.

é o tal suicídio altruísta descrito por durkheim.

é só ler as mensagens que o criminoso deixou, para justificar o injustificável, que você enxerga a mão que manipula as cordinhas.

até agora, sabe-se quem puxou o gatilho, mas quem o motivou?

questões enigmáticas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

PRECISAMOS SUPERAR NOSSO COMPLEXO DE "VIRA-LATAS"

Precisamos superar o nosso complexo de “vira-latas” e tomarmos consciência da importância geopolítica e estratégica do Brasil no conjunto das nações do mundo. Somos uma das maiores nações em termos geográficos e populacionais. Somos a sétima economia do mundo com um mercado interno de 204 milhões de brasileiros. Mas mais que tudo, somos um reserva de bens e serviços naturais como nenhum país do mundo possui em termos de terras férteis, de água doce, de florestas úmidas, de bio-diversidade e de riqueza populacional pluri-étnica. Tal fato não passa desapercebido pelas potências que se arrogaram o poder de decidir o caminho por onde deve andar o planeta, o sistema-vida e o sistema-Terra. É por isso que nosso país, seu governo, as grandes empresas são vigiadas e espionadas. Ademais somos a grande potência do Atlântico Sul voltada para a África. Para onde irá o Brasil? Que posição tomará face aos problemas mundiais? Fará um caminho próprio, baseado na sua riqueza natural e histórica, influenciando outros países? Estas são as preocupações das potenciais que têm sob seu controle o processo de globalização . Transcrevemos esse artigo para nos alertar da importância que possuímos em termos de defesa de nossa soberania nacional. E também denunciar aqueles grupos e poderes que querem se alinhar a um dos poderes mundiais dominantes renunciando à construção de nosso próprio caminho e de nossa identidade nacional e desta forma dar uma contribuição à inteira humanidade. O estudo foi feito por um economista JOSÉ ALVARO DE LIMA CARDOSO, recomendado pelo nosso maior analista das políticas internacionais LUIS ALBERTO MONIZ BANDEIRA. Recomendo a leitura para melhorar nosso quadro de análise de nossa realidade nacional no contexto global.
Eis o que diz:

José Alvaro de Lima Cardoso, economista.


Nesta altura dos acontecimentos até as pedras sabem que o interesse imperialista nas matérias primas do Brasil (petróleo, minerais, água, biodiversidade da Amazônia) foi um dos carros-chefe do golpe. No entanto, além do interesse econômico imediato – nas matérias-primas e na eliminação de direitos e redução de salários – o golpe tem decisivo componente geopolítico, com cada vez maiores evidências do envolvimento direto das forças de inteligência norte-americanas (CIA, FBI, NSA). Está cada vez melhor documento, por exemplo, o envolvimento da equipe da Lava Jato com estratégias montadas em instituições de inteligência dos EUA.
Ao contrário de 1964, quando a censura e a repressão impediam a circulação de informações, neste golpe, apesar da democracia ter sido restringida, está sendo possível denunciar suas entranhas enquanto ele se desenrola (apesar da blindagem da mídia). Sabemos, por exemplo, da relação de Sérgio Moro com a comunidade de informações dos EUA. Moro fez cursos no Departamento de Estado, dos EUA, em 2007. No ano seguinte fez um programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard. Em 2009 participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida pela Embaixada dos Estados Unidos. Foi treinado, segundo o historiador Moniz Bandeira, em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação pelos estadunidenses. Inclusive em demonstrações reais, segundo o historiador Moniz Bandeira, de como preparar testemunhas para delação.
Tivemos a informação também, ainda antes do impeachment, que Sérgio Moro, e o procurador-geral da República Rodrigo Janot, atuam em parceria com órgãos dos Estados Unidos contra empresas brasileiras. E que Sergio Moro recentemente autorizou o compartilhamento da delação premiada do ex- diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, com investigadores de Londres em processo contra a Petrobrás. Segundo informações divulgadas na imprensa, Sergio Moro tem autorizados conversas feitas diretamente com cada delator da Lava Jato e o Departamento de Justiça dos EUA, sem passar pelo Estado brasileiro, como prevê a lei. Ou seja, os responsáveis pela operação Lava Jato permitem o acesso a órgãos do Estado norte-americano, a informações sigilosas, que são utilizadas para atacar e processar judicialmente a Petrobrás e outras empresas brasileiras. Como podemos nominar esse tipo de atitude? Como podemos chamar também a prisão do Vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, principal responsável pela conquista da independência na tecnologia do ciclo de combustível, que colocou o Brasil em posição de destaque na matéria, no mundo?

Não foi por acaso que na preparação do golpe, nos últimos anos, foi estimulado no povo brasileiro o complexo de vira-latas e se depreciou de forma sistemática tudo que poderia significar orgulho pelo País ou amor pela pátria. A campanha foi tão eficiente que idiotas saíram nas manifestações pró impeachment vestidos com as cores ou enrolados na bandeira dos EUA. Somente um processo sofisticado de manipulação da população poderia possibilitar o apoio a uma operação entreguista como a Lava Jato, pensada para quebrar a Petrobrás e o seu entorno, que gerou R$ 140 bilhões em prejuízo para a economia, provocando a demissão de milhares de trabalhadores, liquidando com dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa. Recentemente, membros do Ministério Público Federal vieram a público para colocar sob suspeição o programa de construção de 36 caças estratégicos com a Suécia, colocando em dúvida a lisura de um ex-presidente da República e dos militares que participaram do negócio.

O golpe e o entreguismo estão só no começo. No apagar das luzes de 2016, o presidente golpista determinou à Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa (CABE) a contratação, com urgência, de serviços de sensoriamento remoto por satélite. O custo de importação do equipamento está estimado em cerca de R$ 300 milhões. Segundo informações da imprensa, os membros da CABE estranharam a ordem, visto que este tipo de serviço para as Forças Armadas, só pode ser realizado por empresas nacionais ou constituídas sob as leis brasileiras, com sede e administração no País. Salvo raras exceções.


A ordem, que partiu da Casa Civil, tem graves implicações também no campo da soberania e segurança nacional. Segundo informações, a divisão de licitações e contratos da Aeronáutica classificou como ilegal a determinação, visto que esse tipo de fornecimento tem que ser feito por empresas brasileiras, inscritas no Ministério da Defesa. Os oficiais da Força Aérea, segundo os jornais, estão intrigados com o pedido da Presidência da República, que está se metendo diretamente nesse tipo de assunto, e atropelando regras que, dentre outras coisas, exigem a presença de empresas nacionais no processo. O que pode explicar essa entrega voluntária da vigilância do território brasileiro a empresas estrangeiras, senão entreguismo e subserviência? O que representa, do ponto de vista da segurança e soberania, buscar apoios em outros países, se empresas nacionais sabidamente têm condições de fornecer com excelência esse tipo de serviço? É que este não é um golpe qualquer. A agressão imperialista que o Brasil está sofrendo pode se comparar às guerras contra o Iraque e a Líbia, as técnicas de desestabilização utilizadas são semelhantes.

José Alvaro de Lima Cardoso, economista, publicada no Blog de L.boff

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PAI, ME ENSINA A OLHAR

A alma humana é um mistério e os olhos a revelam. É através deles, os olhos, que espiamos o interior da alma. Sim, a alma tem interior, aquele núcleo duro do Eu, que está para além das aparências e os olhos nos revelam. Como ver além das aparências? Como acessar o interior? Não basta olhar, é preciso ver...!

Os sentidos, tato, olfato, paladar, audição que apontam para fora, para o mundo exterior, para a captação do mundo externo, encontram nos olhos uma dupla dimensão. Com eles vemos o exterior e os que nos veem acessam a nossa alma interior. Vemos e somos vistos. Objetificamos e somos objetificados. Por conta disso, Sartre disse que o inferno são os outros. São o inferno porque nos olham. Ao nos olharem nos tornamos objetos e ninguém gosta de se sentir objeto. Há algo de verdade em Sartre...! Não toda a verdade, claro. O outros são o nosso paraíso também...!

Os olhos nos abrem para fora e nos possibilitam sermos vistos por dentro. Não bastasse essa dupla dimensão há ainda um outro duplo ofício nos olhos, eles servem para ver e para chorar. Para ver e para chorar! Não só para olhar, mas para ver. Ver é mais do que olhar. Ver é olhar com cuidado, com insistência, com atenção, com distinção. Ver é olhar com o corpo todo e não só com a visão. Assim é também com o choro. Choramos com o corpo todo, os olhos são apenas a válvula de escape...!

Pergunta a 10 pessoas e nove vão te dizer que se tivesse que ficar com apenas um dos cinco sentidos, ficaria com a visão. Se preferires um outro sentido, saiba que és exceção. É claro que todos os sentidos são essenciais e é dramática a ausência de qualquer um deles, mas, em caso de escolha, quem não ficaria com a visão? Eu ficaria...Há muita beleza ainda não vista....!

Que maravilha a visão e que enigma da natureza o ato de ver. Como pode a evolução da matéria ter chegado ao órgão que nos mune da capacidade de ver! Os olhos são a complexidade em maior grau. Nós humanos podemos até aumentar a visão, a capacidade de olhar, através de lentes e óculos, mas sequer podemos almejar criar-produzir um olho. É por isso que Deus tem que existir, se não houver outra razão, que seja essa: Deus tem que existir porque o acaso não poderia ser tão precioso e generoso a tal ponto de nos munir da visão.

Contudo, somos cegos para tantas coisas. Somos incapazes de ver o mundo com cuidado, com o corpo todo, com amor. Tantas coisas nos passam desapercebidas e a quantas damos atenção em demasia? Eduardo Galeano nos brinda com uma metáfora poética o que de melhor podemos dizer sobre a visão e sobre o olhar. Diz o poema:

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar! (GALEANO).

O que mais se pode dizer? Que os teólogos, os filósofos, os poetas, os historiadores, os pedagogos e Jesus, nos ajudem a ver...!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

QUE PONTE É ESSA ?

Ninguém tem dúvidas de que Michel Temer é um péssimo gestor – e a melhor prova disso é a destruição do país que ele tomou de assalto à frente de um Parlamento recheado de corruptos – mas não se pode negar a sua eficiência como articulador de bastidores em favor de si próprio. Como consequência de jantares, conversas de pé de ouvido e liberação de recursos para emendas parlamentares ele é adorado pelo Congresso Nacional, onde tem quase 90% de aprovação dos seus membros, obviamente os mesmos que destituíram a presidenta Dilma Roussef e o colocaram no poder. Se depender, portanto, desse desmoralizado Legislativo, Temer deverá permanecer no Planalto até 2018, pois o seu impeachment jamais será aprovado pelos beneficiários de suas benesses, não importa os crimes que cometa no exercício da Presidência da República. Certamente por estar convencido da proteção do Congresso é que ele não se preocupa com a impopularidade, pois não dependeu do povo para chegar ao Palácio do Planalto e não precisa dele para lá permanecer.

Ao mesmo tempo, também garantiu o apoio da grande imprensa, mediante gordas verbas publicitárias canalizadas para os maiores veículos de comunicação de massa do país. Por conta dessa estratégia, que aprendeu com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – que até hoje desfruta da simpatia dos donos e editores – a mídia esconde ou minimiza as notícias negativas do seu governo e destaca as positivas, por mais insignificantes que sejam, influenciando uma parcela da população que se habituou a pensar pela cabeça dos Marinho, dos Mesquita, dos Frias e dos Civitta. Ainda assim, apesar dessa escandalosa proteção, Temer, segundo as últimas pesquisas, foi rejeitado por quase 80% da população, o que, no entanto, não representa nenhuma ameaça à sua permanência no Planalto. Na verdade, a única ameaça que ainda paira sobre a sua cabeça é a ação dos seus aliados tucanos no Tribunal Superior Eleitoral, que poderá cassar o seu mandato, no ano que se inicia, numa votação comandada pelo ministro Gilmar Mendes.

O TSE é o único que pode defenestrar Temer do Palácio do Planalto, graças à ação do PSDB, que atirou em Dilma e acertou nele, embora sem nenhum remorso por ser hoje seu aliado. Isto porque as lideranças tucanas, entre elas o senador Aécio Neves e o próprio FHC, perceberam que, considerando o fato de que o sucessor de Temer será eleito pelo voto indireto caso ele seja cassado em 2017, esta será uma oportunidade única para o PSDB ascender à Presidência da República sem os riscos de derrota numa eleição direta. Na realidade, se nenhum fato extraordinário acontecer de inesperado, frustrando os planos tucanos, Temer vai continuar construindo a sua "Ponte para o Futuro", que FHC classificou de "pinguela" e os trabalhadores já estão chamando de "Ponte para o inferno". Com o Congresso e a mídia do seu lado – e o Judiciário ignorando as denúncias de corrupção contra ele e seus ministros – Temer não precisa se preocupar com o povo que, sem a ressonância da imprensa comprometida, não conseguirá mobilizar-se para derrubá-lo. A não ser que o fato inesperado – a prisão de Lula – acenda os ânimos do populacho.

Afora uma possível cassação determinada pelo TSE, portanto (renúncia nem pensar porque ninguém larga espontaneamente um osso como a Presidência da República), Temer vai continuar destroçando a nação, desmontando suas conquistas, entregando nossas riquezas naturais, em especial o petróleo, para o capital estrangeiro e apequenando o Brasil aos olhos do mundo, o que afugenta potenciais investimentos. Temer e seus apoiadores nos transformaram, efetivamente, num país de vira-latas. Os franceses estão comemorando o negócio lesa-pátria realizado por Pedro Parente, praticamente doando a eles campos produtivos do pré-sal, e os americanos rindo de satisfação pela colaboração dos investigadores da Lava-Jato, que entregaram a eles na bandeja delatores e informações que lhes permitirão processar a Petrobrás e tirar dela até as calças. Com brasileiros como esses o país não precisa de inimigos.

Como consequência das ações deletérias do governo, da atuação vergonhosa do Legislativo e do comportamento político-partidário do Judiciário, que envergonham e revoltam todos os que amam este país, muitos brasileiros já estão abandonando o território nacional, desencantados com os homens que ocupam cargos de mando nos três poderes e, também, com a mídia, que perdeu o respeito e a credibilidade inclusive no exterior. E grande parte dos brasileiros que vive no exterior também já não pretende voltar, até porque não consegue mais vislumbrar melhores oportunidades de trabalho e de sobrevivência. As lágrimas de vergonha de servidores públicos do Rio de Janeiro, registradas pela TV, com os salários atrasados e obrigados a receber doação de alimentos para não passar fome, infelizmente retratam a triste situação do país inteiro, onde o desemprego leva milhares de famílias ao desespero. Enquanto isso, na contramão da situação da maioria dos brasileiros, uma pesquisa revela supersalários no Judiciário e no Ministério Público. O pessoal da Lava-Jato, portanto, vai bem, obrigado.


domingo, 1 de janeiro de 2017

FELIZ ANO NOVO DE NOVO

Feliz Ano-Novo aos artesãos de utopias, cujas mãos calosas desenterram girassóis dos pântanos da ambiguidade; às mulheres garimpeiras de afetos recônditos, divas miraculosas do bem-querer gratuito; às crianças sobrevividas nos corações de todas as idades; e aos guardiões de silêncios meditativos.

Feliz Ano-Novo aos magos da delicadeza e aos que tecem laços de fita com as linhas do tempo; aos auscultadores do rumor de anjos e aos portadores de altivez luminosa montados em cavalos de fogo.

Feliz Ano-Novo aos peregrinos de trilhas desprovidas de obscuridade; aos catadores de conchas nas praias ensolaradas da saciedade ética; aos desatadores de nós nas dobras do espírito; aos arautos de alvíssaras e aos espantalhos do infortúnio.

Feliz Ano-Novo a quem se debruça da janela da alma para contemplar o próprio alvorecer; aos navegantes cujas velas se movem graças ao sopro do Espírito; aos semeadores de horizontes translúcidos; às bordadeiras de ternura no solo pedregoso de nossas desventuras.

Feliz Ano-Novo aos acampados no vasto território da insensatez, reféns de egos inflados; aos acrobatas de mirabolantes conjecturas, escravos de suas altissonantes ilusões; aos autores da incongruência cívica, inveterados jogadores do blefe.

Feliz Ano-Novo aos corações seduzidos pelo toque do amor divino; aos voluntários da generosidade, sinalizadores de caminhos nas vias labirínticas de nossos desacertos; aos profetas inflexíveis à embriaguez da mesmice, intrépidos cultivadores da esperança.

Feliz Ano-Novo aos confeiteiros de adocicados prenúncios entre tantas desilusões; aos artistas da sobriedade, avessos à ribalta da hipocrisia; aos ourives da beleza engravidada de densidade subjetiva; aos mestres da sabedoria impelidos pela brisa suave impregnada do gosto de mel.

Feliz Ano-Novo aos filósofos desalfabetizados de erudição, atentos aos voos da inteligência a transcender a razão; aos adeptos da mística vazia de imagens e palavras; aos ciganos de Deus cujos passos percorrem as sendas mistéricas da amorosidade inefável.

Feliz Ano-Novo a quem se recusa a proferir o discurso ácido da dessignificação do outro; aos habitantes de aldeias líricas, em cujo amanhecer soam cânticos benfazejos; aos eremitas do desconsolo, alimentados pelo Verbo que se faz carne; aos hábeis alpinistas da imaginação, em cujas artes a vida se transmuta em alegorias.

Feliz Ano-Novo aos caçadores de minudências, atentos aos detalhes da gentileza; aos ourives da elegância, cujas palavras exalam fragrâncias perfumadas; às sentinelas do assombro, agraciadas pelo dom de identificar a vida como milagre; aos artífices da fantasia, transubstanciadores de nossas emoções mais telúricas.

Feliz Ano-Novo a quem cala os despropósitos alheios, incapaz de transformar a própria língua em pedra de tropeço; aos velejadores de devaneios românticos, inebriados de poesia; aos arquitetos do futuro, dedicados ao projeto da cerimônia de núpcias da liberdade com a justiça.

Feliz Ano-Novo aos artistas da insensatez capazes de imprimir à vida caráter lúdico; aos aplicados cavalheiros da filosofia do riso, dos quais emana o júbilo de viver; e aos aflitos acendedores de luminárias, discípulos indignados de Diógenes.

Feliz Ano-Novo a quem trafega na contramão dos pusilânimes, entregue à ousadia de reinventar a existência após cada fracasso; e ao guarda do farol em pleno mar revolto, cujo facho de luz abre vias douradas na superfície das águas; e às mulheres de corações embalados pelo acalanto de Cupido.

Feliz Ano-Novo aos olhos vigilantes ao ocaso ambiental, nos quais lágrimas são ressecadas pela fuligem de chaminés lucrativas; aos desengaioladores de pássaros, destemidos pilotos de voos alucinados; e aos serviçais da gratuidade, militantes do altruísmo compassivo.

Feliz Ano-Novo a quem teve um ano infeliz, ferido em dores e lágrimas, atolado em desesperanças e sendas obscuras - queira Deus que agora possa resgatar o melhor de si, religar-se ao Transcendente e fazer do amor a razão de seu renascer em vida.

sábado, 31 de dezembro de 2016

2017 MUITO FELIZ

Feliz Ano Novo aos que acordam em 2017 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.

A quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes os que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; e, generosos, ousam a humildade.

Feliz Ano Novo a todos que despertam ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.

Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio. A quem mira a vida como dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.

Novo seja o ano daqueles que não tropeçam na própria língua, sonegam palavras ácidas, desaprendem a maledicência e semeiam fragrâncias nas veredas dos sentimentos. De quem se guarda no olhar recatado e não mergulha no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.

Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, mundo e amor. Viver é graça para quem se dedica a acariciar rugas e trata suas limitações como cerca florida de choupana montanhesa. Tenham um feliz ano todos que sabem ser gordos e felizes, endividados e alegres, enfermos e otimistas, carentes de certezas mas repletos de vindouras fortunas em seus anseios.

Feliz ano aos órfãos de Deus e de alvíssaras, aos que se abrigam em armaduras de verdades irrefutáveis, aos cavaleiros do desassossego e às damas que recobrem, sob o pudor do corpo, a mais deslavada orgia espiritual. Felizes sejam os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vitórias inconsúteis que nada temem, exceto a expressão súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que os desprezam.

Felizes sejam também as mulheres que devotam amor e dor a quem merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências, aos alpinistas que despencam do próprio ego, e para quem se agasalha de ética e não conspira contra a vida alheia.

Feliz Ano Novo aos que colecionam utopias, fazem das mãos arado e, com o próprio suor, regam as sementes solidárias que cultivam.

Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens, e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a marca atemporal de quem se inebria de emoções férteis.

Muitas felicidades aos que trazem em si o afago do silêncio, sentem-se bem acompanhados quando estão sós e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado com sorrisos de sabedoria.

Aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a velhice com humor, a morte sem estranheza, e brincam com a criança que os habita.

Feliz Ano Novo aos sonâmbulos que trafegam nas veredas do futuro e sonham que a vida é um sonho tão real que dele não vale a pena despertar.

Um ano feliz a todos que professam a incredulidade nos ídolos de pés de barro, veneram bens invisíveis, e andam pelas madrugadas destronando o medo. A todos que creem no que não merece fé e têm fé nos lampejos da dúvida, nos desvãos da incerteza e no mistério que instaura, como presente, o Deus vivo cuja morte é reiteradamente proclamada por quem nele deságua.



F.Beto

FELIZ ANO NOVO

Por que desejar feliz ano novo se há tanta infelicidade a nossa volta? Será feliz o próximo ano para sírios e iraquianos, e os soldados norte-americanos sob ordens de um presidente que qualifica de “justas” guerras de ocupações genocidas? Serão felizes as crianças africanas reduzidas a esqueletos de olhos perplexos pela tortura da fome? Seremos todos felizes, conscientes dos fracassos da Conferência do Clima em Paris por empresas e governos que salvam a lucratividade e comprometem a sustentabilidade?
O que é felicidade? Segundo Aristóteles, é o bem maior que todos almejamos. E alertou Tomás de Aquino: mesmo ao praticarmos o mal. De Hitler a madre Teresa de Calcutá, todos buscam, em tudo que fazem, a própria felicidade.
A diferença reside na equação egoísmo/altruísmo. Hitler pensava em suas hediondas ambições de poder. Madre Teresa, na felicidade daqueles que Frantz Fanon denominou “condenados da Terra”. A felicidade, o bem mais ambicionado, não figura nas ofertas do mercado. Não se pode comprá-la, há que conquistá-la. A publicidade empenha-se em nos convencer de que resulta da soma dos prazeres.
Para Roland Barthes, o prazer é “a grande aventura do desejo”. Estimulado pela propaganda, nosso desejo exila-se nos objetos de consumo. Vestir esta grife, possuir aquele carro, morar neste condomínio de luxo – reza a publicidade – nos fará felizes.
Desejar feliz ano novo é esperar que o outro seja feliz. E desejar que também faça os outros felizes. O pecuarista que não banca assistência médico-hospitalar para seus peões e gasta fortunas com veterinários para tratar de seu rebanho espera que o próximo tenha também um feliz ano novo?
Na contramão do consumismo, Jung dava razão a São João da Cruz: o desejo busca, sim, a felicidade, “a vida em plenitude” manifestada por Jesus, mas ela não se encontra nos bens finitos ofertados pelo mercado. Como enfatizava o professor Milton Santos, acha-se nos bens infinitos.
A arte da verdadeira felicidade consiste em canalizar o desejo para dentro de si e, a partir da subjetividade impregnada de valores, imprimir sentido à existência. Assim, consegue-se ser feliz mesmo quando há sofrimento. Trata-se de uma aventura espiritual. Ser capaz de garimpar as várias camadas que encobrem o nosso ego.
Porém, ao mergulhar nas obscuras sendas da vida interior, guiados pela fé e/ou pela meditação, tropeçamos nas próprias emoções, em especial naquelas que traem a nossa razão: somos ofensivos com quem amamos; rudes com quem nos trata com delicadeza; egoístas com quem é generoso conosco; prepotentes com quem nos acolhe em solícita gratuidade.
Se logramos mergulhar mais fundo, além da razão egótica e dos sentimentos possessivos, então nos aproximamos da fonte da felicidade, escondida atrás do ego. Ao percorrer as veredas abissais que nos conduzem a ela, os momentos de alegria se consubstanciam em estado de espírito. Como no amor.
Feliz ano novo é, portanto, um voto de emulação espiritual. Claro, muitas outras conquistas podem nos dar prazer e alegre sensação de vitória. Mas não são o suficiente para nos fazer felizes. Melhor seria um mundo sem miséria, desigualdade, degradação ambiental, políticos corruptos!
Essa infeliz realidade que nos circunda, e da qual somos responsáveis por opção ou omissão, constitui um gritante apelo para nos engajarmos na busca de “outro mundo possível”. Contudo, ainda não será o feliz ano novo.
O ano será novo se, em nós e a nossa volta, superarmos o velho. E velho é tudo aquilo que já não contribui para tornar a felicidade um direito de todos. À luz de um novo marco civilizatório há que superar o modelo produtivista-consumista e introduzir, no lugar do PIB, a Felicidade Interna Bruta (FIB), fundada em uma economia solidária.
Se o novo se fizer advento em nossa vida espiritual, então com certeza teremos, sem milagres ou mágicas, um feliz ano novo, ainda que o mundo prossiga conflitivo; a crueldade, travestida de doces princípios; o ódio, disfarçado de discurso amoroso.
A diferença é que estaremos conscientes de que para se ter um feliz ano novo é preciso abraçar um processo ressurrecional: engravidar de si mesmo, virar-se pelo avesso e deixar o pessimismo para dias melhores

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MAIS UMA VEZ ESTAMOS CHEGANDO AO FIM DE AMO

Nossa história e, dentro dela o nosso viver e conviver, tem um ritmo que cada vez parece mais acelerado. Todos se queixam que o tempo passa cada vez mais rápido. Não se sabe bem se é a idade que avança, se são as ocupações que aumentam cada dia mais e não nos deixam sentados no tempo. Enfim, começa ano e termina ano com uma rapidez espantosa. Parece que foi ontem o abraço de “Feliz Ano Novo” e já estamos nos preparando para repetir esse cumprimento.

Geralmente são maiores as lamentações de que o tempo passa do que as alegrias de somarmos mais vida aos anos que se vão. E pior disso acontece quando as pessoas, por verem o tempo correr, fogem para o vazio, achando que não adiante plantar porque não se consegue colher e nem realizar plenamente os próprios sonhos. O ritmo do tempo, mesmo acelerado, precisa ser acolhido como a mais bela peça musical que vai fazendo parte do repertório de nossos hinos.

Refletindo melhor, como é importante começar e terminar o ano! Quanta gente começa e não vê o final. Quantos acidentes no percurso! Mas, também, quantas oportunidades nos são oferecidas para construir, com elegância divina, o edifício da nossa existência.

A chegada do fim de ano confirma que o caminho é irreversível. Passam as horas, passam os dias, passam os meses, passam os anos. O tempo passa e nele nós também passamos. Porém, se os calendários vão sendo substituídos por outros, nós continuamos passando sem substituição, porque não somos simples moradores do tempo, mas, na medida que somamos anos à vida, necessitamos somar mais vida aos anos e caminhar rumo à plenitude, na eternidade.

Na cultura consumista que nos envolve, também corremos o risco de achar que, ao consumir coisas, também se possa ir consumindo com a vida. E a vida não nos é dada para ser consumida, mas para ser construída com o passar dos anos.

Uma das grandes causas de frustrações e decepções humanas é ceder à tendência de tornar a vida descartável, como se o amanhã não nos cobrasse o investimento de sua qualificação.

Se o passado é a herança que vamos acumulando e a escola que vai nos ensinando, o presente é a oportunidade que necessitamos administrar como um tesouro envolto em vaso de barro. Somos chamados a nos alegrar e encantar com o tesouro, porém não podemos esquecer seu cuidado para que o vaso não rompa e o tesouro se perca, irremediavelmente.

Mais uma vemos estamos chegando ao fim do ano. Esse fim não vem fechar as portas da vida, mas carrega consigo as chaves do novo que vai se abrir para a nossa liberdade responsável. A luz de Cristo é a mesma do passado, mas o trecho do caminho é novo para o futuro. Se cansamos com o trajeto percorrido no ano que finda, certamente não nos faltarão as energias do Espírito para renovar o nosso vigor no empreendimento de uma nova jornada.