sexta-feira, 4 de setembro de 2020

O ESTADO: NEM PEQUENO NEM GRANDE.

200 perguntas sobre a doença e o impacto na sua vida - Infográficos -  Estadão

A pandemia, com seu enorme custo social e de vidas, poderá produzir algumas consequências positivas — se a sociedade brasileira for capaz de se apropriar dos novos impulsos que ela gerou.

As fake news entraram em refluxo. Não que elas tenham deixado de ser disseminadas, mas perderam terreno. À falta de “comunistas”, feministas, e políticos brasileiros para culpar, os propagadores de fake news divulgaram teorias conspiratórias, como a que diz que o vírus foi produzido na China, (utilizando uma declaração de um prêmio Nobel japonês, desmentida pelo próprio, e desconhecendo as conclusões da CIA e da Organização Mundial da Saúde a respeito da origem do vírus). Rapidamente descobriram que os brasileiros não estavam preocupados com conflitos geopolíticos importados, e sim em saber como o vírus afetava suas vidas. Voltaram então a demonizar velhos conhecidos — incluindo agora na lista Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta — mas perderam parte do impulso, que certamente ressurgirá com o fim da pandemia. Esperemos que tenha aumentado a imunidade da população em relação as notícias falsas.

O jornalismo profissional ressurgiu com força. Um fenômeno aparentemente paradoxal é que pessoas que criticam os meios de comunicação tradicional, quando devem conferir notícias que afetam suas vidas, checam a veracidade na imprensa na qual “não acreditam”. Em tempos de pandemia, a imprensa passou a ser incontornável. Se há algo a lamentar, é que o silêncio do Presidente e de seu atual Ministro da Saúde sobre o andar da pandemia, em particular depois que o governo deixou de transmitir números totais de contágios e mortes (da qual teve que voltar atrás por decisão do STF), levou os jornalistas a enfatizar o que o governo quis esconder, a expansão da doença, com pouca informação e análises diárias mais meticulosas das tendência da em cidades e microrregiões. Quando o governo falha em informar, o jornalismo cumpre o importante papel de alertar a população para os riscos que está correndo. Mas isso não exime a imprensa do esforço de uma cobertura mais detalhada.

O ataque às instituições acadêmicas e cientificas recuou. No início do atual governo, tivemos que conviver com uma investida sistemática contra o mundo acadêmico, falsamente apresentado como constituído por “parasitas” cujo único objetivo seria difundir ideias perigosas para a moral pública. Graças à pandemia a maioria da população descobriu que o Brasil possui centros de excelência cientifica nas mais diversas áreas, dos quais nós devemos orgulhar, e que as respostas devem ser procuradas na ciência, personificada em profissionais da medicina e em remédios e eventual vacina que venha a ser produzida. Esperemos que os centro universitários e de pesquisa recuperem suas verbas, e passem a ser apoiados e não perseguidos.

O mesmo vale para alguns líderes religiosos que continuaram divulgando explicações sobrenaturais sobre o surgimento da pandemia e prometendo curas milagrosas para o novo coronavírus. Essa é uma postura que ainda vê a ciência e a religião como incompatíveis, e considera Deus uma entidade paternal autoritária que castiga o povo, a partir de uma leitura primária da Bíblia. (Afinal, se a pandemia responde a um designo divino e ela resultar num fator central para a derrota eventual de Donald Trump, será que Deus enviou o coronavírus com este objetivo?) O terraplanismo continuará, mas a valorização do conhecimento científico foi revitalizado.

A ignorância do conhecimento científico tem um preço político. A negação de dados e informações “inconvenientes”, o desrespeito por aqueles que possuem um conhecimento consolidado nas suas áreas (seja de relações internacionais, da educação ou da saúde), a divulgação sistemática de mentiras, são expedientes que podem ser eficazes para abocanhar apoio eleitoral e chegar ao poder. Com o tempo, porém, a sociedade termina descobrindo seus efeitos nocivos — infelizmente, muitas vezes depois de sofrer danos enormes.

Vemos, finalmente, que o Estado não deve ser nem pequeno nem grande: deve responder de forma eficiente às necessidades da população. O debate sobre um “Estado mínimo” vs. um “Estado grande” se mostrou, como não poderia deixar de ser, uma falácia. Não existe uma sociedade moderna viável sem um estado capaz de assegurar o bem-estar básico da população, promover o progresso da ciência e da tecnologia, coordenar e regular as mais diversas atividades e suavizar o impacto econômico e social das flutuações do ciclo e das transformações econômicas. Situações de crise realçam estas funções, que estão sempre presentes. Há políticas neoliberais, não um Estado neoliberal, que seria tão distópico quanto uma sociedade sem mercado.

No lugar de atacar o Estado, o que se trata é de melhorá-lo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A FELICIDADE DO CONSUMO.

 Aumentar o consumo de frutas e legumes colabora para melhorar o bem-estar e a  felicidade — Setor Saúde

Para quem vive numa zona desafogada do mundo, a fome parece uma coisa do passado (há pessoas com fome em suas esquinas, mas são minoria.)

Até ao século 19, a principal preocupação da maioria da humanidade era obter alimento. Tirando a minoria rica, que sempre existiu em todos os países (ou sociedades), o homem comum tinha de pensar, sobretudo, se teria o suficiente para viver no dia seguinte. Não no futuro, ou nesse mês, mas amanhã. Com a industrialização, os aperfeiçoamentos técnicos agrícolas, a maior eficiência dos circuitos de distribuição – caminhos de ferro, refrigeração e outros melhoramentos –, o número de pessoas que passou a comer regularmente aumentou constantemente, isto nos países onde essas tecnologias se desenvolveram. Para dar só uma estatística, entre as muitas que demonstram este fato, a proporção de pessoas subalimentadas no mundo passou de 15 para 8,9% entre 2004 e 2019. Contudo, esta pequena porcentagem significa, em termos reais, que em 2019 havia 690 milhões de pessoas subnutridas. Quase a população da Europa inteira.

Mas o processo de melhoramento que teria começado há mais de cem anos, de repente começou a enfraquecer-se. Segundo a mesma fonte, o número de esfomeados aumentou 10 milhões entre 2018 e 2019 e agora, neste momento, há mais 60 milhões de subnutridos do que em 2014.

Isso, antes de surgir a pandemia da Covid-19. Num instante, um terço da população do mundo ficou sob alguma forma de confinamento, uma palavra que pouco se usava. No pico da crise, esse valor chegou a metade da população, afetando 90 países, num total de cerca de 200. As medidas tomadas pelos governos, que variaram dentro dum largo espectro, em termos globais perturbaram a produção e distribuição dos alimentos, mesmo em regiões não diretamente afetadas pela pandemia. A globalização dos circuitos alimentares, que era já aparente, revelou-se muito mais profunda; por exemplo – e há milhares de exemplos – as exportações de soja do Brasil, o maior produtor mundial, para a China, o seu maior consumidor, foram quase interrompidas. A Europa, e cada país europeu, que importam uma grande porcentagem dos frescos que consomem diariamente, sofreram uma escassez de produtos comuns.

Uma situação de carência de certos produtos alimentares não é a mesma coisa que um estado permanente de falta do consumo mínimo para viver, com certeza (1800 calorias por pessoa, mais ou menos). Mas levou à consciência da opinião pública um valor até agora praticamente desconhecido: o capital natural.

E o que é o capital natural? Em Ciência Econômica, desde que foi classificada como tal, em meados do século 19, considerava-se como valores básicos o capital e o trabalho. Capital é, como sabemos, o investimento financeiro necessário para produzir alguma coisa. O capital é um recurso limitado – elástico segundo circunstâncias e variáveis que não vamos analisar aqui, mas por definição sempre insuficiente para as necessidades. No entanto, quando o capital não chega, há sempre métodos de o criar, uma vez que o dinheiro é um bem artificial.

Já o mesmo não acontece com o capital natural, que pode ser definido como a quantidade de produtos naturais que a Terra produz, ou seja, as matérias primas a partir das quais o trabalho produz coisas, alimentos ou máquinas, com os meios fornecidos pelo capital "tradicional". Sendo um bem natural, é limitado e, embora possa ser "esticado" com um melhor aproveitamento das matérias primas – novos adubos, ou rotatividade das culturas, descoberta de novas jazidas minerais, ou métodos mais eficientes de retirar petróleo do subsolo – há um "teto" inultrapassável. A Terra só pode fornecer uma quantidade limitada dos recursos que usamos cada vez mais.

A partir de 1961, no âmbito das Nações Unidas, um órgão chamado Painel Intergovernamental Sobre Alterações Climáticas – IPCC, começou a estudar esta questão do Capital Natural, uma vez que as alterações climáticas são uma variante importante na sua formação.

No relatório de 2019, o IPCC afirma que "o crescimento da população mundial e o consumo per capita de alimentos para humanos e animais, fibras, madeiras e energia, provocaram gastos sem precedentes na utilização das terras e de água doce." E ainda: "A atividade agroalimentar é responsável por 30% da emissão de gazes de estufa e absorve 70% do consumo de água doce do planeta. Além disso, cerca de um terço dos estoques de peixe são sobre-explorados".

A estatística começa em 1970 e é facilmente compreensível: quantos dias de um ano precisa a Humanidade para consumir os recursos naturais disponíveis nesse ano? Em 1970 o consumo corresponde a 13 meses. Ou seja, os humanos consumiram tudo o que a Terra tinha para lhes dar nesse ano e ainda um mês do ano seguinte. Se isto parece assustador, muito mais é o aumento constante que se verificou desde então. Em 2018, os humanos consumiram o equivalente a 1,7 terras – ou seja o que tinham disponível em 2018 mais oito meses de 2019.

Todavia, há algumas esperanças. Os métodos de exploração da natureza estão constantemente a aperfeiçoar-se a vão-se adaptando às necessidades, como a substituição da energia fóssil, limitada, por energia solar ou eólica, inesgotáveis. Outras situações, menos publicitadas, mas que provocam pequenos ganhos, são a criação de animais de uma forma mais "biológica", a imposição de quotas para a pesca, ou a criação de peixes em recintos fechados. Os novos métodos têm os seus detratores e defensores, mas de fato são necessários.

Outra variável a considerar é o que as pessoas comem. Quem não passa fome, tem, mais ou menos, a possibilidade de escolher o que come. Muitos vegetarianos não consomem carne não porque lhes desagrade o sabor, mas porque sabem o consumo de capital natural necessário para criar um animal.

Mas essas possibilidades de escolher as suas 1800 calorias diárias levando em consideração fatores ambientais não tem levado a humanidade, como um todo, a um consumo mais preservador do planeta. Num estudo feito antes da pandemia, concluiu-se que são estes os dez alimentos mais consumidos no mundo: (se não está sentado, sente-se, porque vai ficar completamente estupefato!):

Batatas fritas, queijo fundido La Vache Qui Rit, Coca-Cola, café solúvel, tilápia (é um peixe), goma de mascar (!), leite condensado, Nutella (pasta de chocolate com avelãs), algas, e ketchup Heinz.

Talvez esta lista, francesa, seja um pouco francófona. Será? Mas não são os franceses famosos pela sua culinária e um povo notoriamente gourmet?

Então, aqui vai outra lista. Esta refere-se aos Estados Unidos e tem a particularidade de ser da altura em que havia muita gente confinada. Foi elaborada pela Uber Eats, usando as encomendas para serem entregues à porta do cliente. Estão por estados e veja estes casos:

Arizona, Florida, Illinois, Soouth Carolina e Virginia: batatas fritas (em palitos). Califórnia: Frango tikka masala. Colorado: pedaços de carne grelhada (que eles chamam, "carne assada") com batatas e molho de queijo derretido. Connecticut: burritos. Georgia, Kentucky, Michigan e Tennessee, Texas: Pad thai. E por aí vai...

Portanto, não só comemos mal, como estamos comendo o planeta, literalmente. Ou, por outras palavras, matamo-nos mais depressa com o que consumimos e estamos a encurtar a vida das gerações futuras.

Mas não vamos terminar este breve comentário com uma nota sombria. Os hábitos alimentares mudam muito, mas mesmo muito, de país para país, e geralmente nos menos desenvolvidos come-se melhor (quando se tem o que comer) do que nos desenvolvidos. Vale a pena ver o ensaio que o fotógrafo Peter Menzelfez mostrando o que consomem por semana 30 famílias em 24 países. Independentemente da escolha de cada um, Menzel consegue, de uma maneira sutil, fazer-nos acreditar um bocadinho na felicidade do consumo

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

É ASNEIRA DE MAIS. OUTRO DIA EU CONTINUO.

 Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras – Observador

O tempo me exaure, ou melhor, a falta dele.  Mas nada se compara ao cansaço na alma de acompanhar as notícias de um país que, outrora, foi alcunhado de “país do futuro” e que hoje, não é sequer o país do presente. O presente (como o passado) da nação brasileira é permeado por injustiças sociais, desrespeitos à Constituição, direitos vilipendiados, e como se não bastassem-desgraça pouca é bobagem-discursos presidenciais insuperáveis pela baixeza, pelo cinismo e desimportância.

Na semana passada, uma criança de apenas dez anos esteve na pauta das discussões cotidianas, tanto em redes sociais, como nos bate-papos de alguns corajosos nas ruas. Corajosos ou insensatos, apesar do comércio em muitas cidades funcionar, o número de doentes pela Covid-19 persiste e o de mortos ultrapassa os 120.000 óbitos. 

As investigações policiais deram conta de que a criança era violentada pelo padrasto desde os seis anos de idade, e agora, aos dez estava grávida, sendo autorizado pela justiça que fizesse o aborto. Como se não bastasse a violência por que passou a menina, desde sempre, foi violentada mais vezes após o crime vir à tona; quando uma fascista com tornozeleira eletrônica divulgou aos quatro cantos o nome da criança, do médico e do hospital, e  uma matilha de desocupados delinquentes fundamentalistas foram ao hospital impedir a interrupção da gravidez, sob os gritos de “assassina”, direcionados à infância violentada; quando uma professora posta nas redes sociais que a menina gostava de “dar”.  

Enquanto o país se distraía com a tragédia vivida pela pobre menina, as barcas com toras de madeira amazônica atravessavam os rios, o desemprego batia recorde em cima de recorde, os índios, nas aldeias, morriam de fome e de doença, os moradores em condição de rua congelavam no frio (...)

O presidente da nação intencionando mostrar a sua popularidade em meio ao caos, cumprimenta e abraça seguidores que o bajulam em palcos estrategicamente montados. Numa dessas investidas, põe no colo um anão, acreditando ser uma criança, e promove uma das cenas mais patéticas já protagonizadas por um presidente da República. Ao perceber que não se tratava de um infante, aterrorizado pelo constrangimento, joga o anão nos braços de um dos seus assessores. Ah, Bolsonaro! Eu te odeio, mas você me faz rir muito, sentimentos contraditórios que me tensionam e me divertem. Meu psicólogo não está dando conta. Nem eu.    

Em outro momento, proferindo discurso vazio e populista, no Nordeste do Brasil, informa à população brasileira que é “imbrochável” e que não usa aditivos para sua vida sexual. A nação ouviu isso mesmo? Sim. Mais uma estripulia do Circo de Horrores institucionalizado pelo miliciano. No momento em que o escutei, fiquei a esbravejar telepaticamente com a natureza: Tu é lá perfeito coisa nenhuma? Antes essa praga com faixa presidencial fosse infértil! E não deixasse descendentes corruptos, inescrupulosos, cínicos e demagogos, como o 01, 02, 03 e,  certamente, o 04 – como o miliciano se refere aos filhos – além da pobre menina sempre de cara amarrada. Devo confessar que me compadeço dela. Já imaginaram o quão difícil é nascer numa família de “machos” que tem profundo desdém por tudo o que representa o feminino? Basta lembrar das diversas vezes em que o presidente fundador do “Clã das Rachadinhas” atacou as jornalistas, deputadas e até a presidenta Dilma Roussef, com um ódio e palavreado comuns aos misóginos. Agora, após mais uma semana agitada, submerge o caso da pastora Flordelis. Calma! Não estou dando conta. Fica para a próxima.   

domingo, 30 de agosto de 2020

PENSE NISSO: ESTÃO ESTUPRANDO O BRASIL.

Mulher é estuprada ao aceitar carona - Jornal TodoDia

Quando Bolsonaro disse à deputada Maria do Rosário “que não a estuprava porque ela não merecia”, o Brasil foi estuprado. Quando, ao votar no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, dedicou seu voto aos militares de 64 e citou Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por torturas no DOI-Codi, o Brasil foi torturado. Quando defendeu que mulheres deveriam ganhar menos por engravidarem, foi machista, misógino e atacou todas as mulheres. Quando a ministra Damares Alves debocha das mulheres e diz que a igualdade de gênero incentiva agressões porque se a menina é igual logo aguenta apanhar, está estimulando a violência contra as mulheres e meninas.

O Brasil foi estuprado por Bolsonaro e a gangue que governa o país. Governa, não, desgoverna. Eles não se envergonham de ser mentirosos, incompetentes e de estarem destruindo tudo, imbuídos no fundamentalismo político e religioso, nas ideologias fundamentalistas e na perversidade. Eles expõem as vísceras do que há de pior, de mais baixo e grotesco nesse governo, que estimula todos os tipos de preconceito, arbítrio e as violências contra as mulheres, meninas, LGBTIs, negros, pobres e trabalhadores.

Uma menina de dez anos foi estuprada. O fato veio à tona e ocupou as redes e manchetes, causou muita indignação. A forma como esse triste fato virou manchete e, posteriormente, os dados dessa criança foram vazados, demonstra a barbárie e a falta de política do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ministério que mandou uma equipe para a cidade de São Mateus no ES, portanto, tinha os dados, endereço e outras informações da criança. Como esses dados chegaram nas mãos da bolsonarista e extremista Sara Fernanda Giromini (Sara Winter) quem tem que apurar e explicar é o Ministério Público do Espírito Santo, que precisa punir os culpados e todos os que tentaram transformar essa tragédia em palanque político.

Todos os envolvidos no ataque à criança, sem exceção, precisam ser punidos severamente. O estuprador, que já está preso, mas também aqueles que vazaram as informações; os que foram para a porta do hospital ameaçar os médicos e hostilizar a criança; a bolsonarista Sara Winter, que cometeu crime ao violar os artigos 143 e 247 do Código Penal e do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente.). Não esqueceremos esse crime e nenhum outro cometido contra as mulheres e meninas. Vamos cobrar sempre a punição dos envolvidos – esse recado vai para Damares Alves.

Não foi apenas essa menina. Várias outras meninas indefesas e vulneráveis são estupradas. A cada hora cerca de quatro meninas, de 10 a 14 anos, são violentadas no Brasil. São números de uma perversidade monstruosa, que demonstram a inexistência de qualquer política de combate e enfrentamento a essa violência, a esse crime hediondo.

São seis abortos por dia em meninas entre 10 e 14 anos. Em 2018, o Brasil registrou recorde de casos de estupro, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública – cerca de 180 pessoas foram violentadas por dia, num total de 66 mil casos anuais de violência sexual no país. Destes 81,8% das vítimas do sexo feminino e 18,2% do sexo masculino, sendo 50,9% de raça negra e 48,5% de raça branca.

Os casos de violência sexual só crescem. A cada onze minutos uma mulher é estuprada, a maioria meninas de até 14 anos. Se forem considerados os abortos legais, os espontâneos e outros tipos, na faixa etária de 10 a 14 anos, em 2019 foram 1.871 casos. São números de guerra e de uma dor que é invisibilizada pela sociedade, onde a vítima torna-se culpada, os violadores estão muito próximos à vítima, na maioria das vezes moram ao lado, ou até na mesma casa. Uma tragédia!

sábado, 29 de agosto de 2020

MENOS RELIGIÃO E MAIS ESPIRITUALIDADE.

Espiritualidade é mais simples do que parece: é colocar o amor em movimento  - Blog do Prem Baba 



Um dos fatores de evasão de católicos da Igreja ou indiferença à pratica religiosa é o fato de muitos fiéis adultos não possuírem outra formação na fé senão a que receberam na infância via família e catequese. Assim, quando as pernas crescem a calça curta já não serve...

Conheço muitos cristãos que não leem a Bíblia por uma razão óbvia: nada entendem do texto. E não sabem onde buscar ajuda. A Igreja Católica dispõe de poucos leigos, religiosas e padres capacitados para administrar cursos bíblicos. Uma das mais promissoras iniciativas é o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) com seus cursos e publicações, mas infelizmente pouco valorizado pela hierarquia da Igreja Católica.

A maioria dos padres conhece apenas noções de lições de seminário, em geral utilizadas para reforçar tradicionais conteúdos devocionais. Muitos não suportam questionamento dos fiéis e, por isso, não se atrevem a ministrar cursos. Preferem o monólogo do sermão de missa, pois ali não convém à assembleia fazer perguntas e muito menos contestações.

Hoje em dia, os estudos bíblicos estão de tal modo avançados que muitos fiéis talvez se sentissem abalados em sua fé se enfocassem os relatos evangélicos à luz das pesquisas mais recentes e destituídos de invólucros míticos. A avalanche devocional recobriu de tal modo os personagens bíblicos, como o próprio Jesus, que fica difícil encará-los como humanos.

Muitos cristãos ainda creem em um Deus cruel que, ofendido por nossos pecados, exigiu que a sua ira divina fosse aplacada por um sacrifício igualmente divino: a morte de seu filho na cruz!

Mas qual pai se compraz de ver seu único filho crucificado?

Como Jesus perdeu a vida todos sabemos: assassinado. Por quê? Não era ele uma pessoa tão boa, espiritualizada, que "passou a vida fazendo o bem", como diz o evangelista João? Quem haveria de querer matá-lo?

Ora, Jesus nada tinha dessa figura angélica alimentada por eflúvios piedosos. Era "sinal de contradição". Colocou-se ao lado dos injustiçados. Denunciou os ricos e as autoridades de seu tempo. Incomodou os opressores. Não admitiu que corresse dinheiro no Templo, casa de Deus transformada em "covil de ladrões".

Por isso, foi assassinado por dois poderes políticos: o romano e o sinédrio judaico. Pilatos e Caifás. Morreu como prisioneiro político.

Nada disso interessa a quem deturpa o Evangelho e sonega seu conteúdo para alimentar uma religiosidade de consolação, e não de compromisso; de evasão, e não de engajamento; de fuga do "vale de lágrimas", e não de inserção amorosa e libertadora no mundo.

A fé necessita de alimento sólido. Não se nutre adultos com papinhas de bebê. Daí o fato de muitos católicos migrarem para Igrejas nas quais a compreensão teológica da Palavra de Deus é trocada por interpretações míticas que reforçam a apatia diante das mazelas sociais. Já que não se tem acesso aos serviços de saúde, ao menos se espera confiante o milagre da cura e se deposita a fé e a poupança no pregador que promete prosperidade em curto prazo. Caso ela não venha, pode ter certeza de que você ainda não cortou definitivamente seus vínculos com o diabo...

Menos religião e mais espiritualidade...

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

PARA PENSAR: A IMPORTÂNCIA DO ESCREVER

 

escrever | Livros só mudam pessoas - Part 6

Não é à toa que psicanalistas e orientadores espirituais ao longo da história aconselharam seus pacientes e orientandos a escrever suas experiências. A intenção é provocar uma anamnese e ajudar a lidar com sentimentos em revolta ou movimentos interiores desencontrados. Por vezes, escrever é também instrumento de resistência e mesmo sobrevivência a sofrimentos que vão além do suportável e ameaçam o equilíbrio psíquico e a continuação da vida biológica.

Assim é que mulheres judias durante a Segunda Guerra Mundial, em meio ao horror do holocausto nazista, encontraram na escrita um modo de resistência para continuar vivendo em meio ao sofrimento e à dor, sob contínua ameaça da morte. Foi esse o caso da judia convertida ao catolicismo e monja carmelita Edith Stein; da filósofa judia agnóstica Simone Weil, a qual, possuída pelo Cristo e morta aos 34 anos, deixou uma obra que preenche 19 volumes; assim igualmente a jovem judia também agnóstica Etty Hillesum, que morta aos 29 anos de idade em Auschwitz, deixou três volumes de um diário e algumas cartas, impressionando o mundo com a profundidade de suas experiências místicas, e finalmente da adolescente Anne Frank, que passou vários meses escondida em um prédio de Amsterdam durante os quais escreveu um diário que, após sua morte no campo de Bergen-Belsen, tornou-se mundialmente conhecido como hino de esperança na humanidade em meio à desumanidade do nazismo.

Foi a escrita também a salvação da escritora estadunidense Joan Didion, que vivia positiva parceria com o marido John, também escritor, e derramava sua maternidade amorosamente sobre a filha adotada, Quintana. Tudo foi interrompido pela morte brusca de John com um fulminante infarto, seguida pela morte de Quintana, acometida por uma série de problemas de saúde rapidamente agravados com sucessivas hospitalizações. O caminho encontrado por Joan para lidar com o luto foi escrever. E enquanto sua saúde se fragilizava pelo pouco que se alimentava e pela tristeza que a consumia, escreveu o romance "O ano do pensamento mágico", sucesso de vendagem nos Estados Unidos.

Joan Didion escreveu este livro após a morte de Quintana, mas o livro narra apenas a doença da jovem e não sua morte. Esta será enfrentada através do texto, dois anos depois, com o livro "Noites azuis" (Blue nights). Ali, enfim, a escritora faz a passagem do luto de volta à vida. E declara que sem a escrita isso não teria sido possível.

A escrita de si é algo que o ser humano pratica há séculos e em muitas circunstâncias. Os grandes autores de ficção transportam a seus personagens suas inquietudes e sofrimentos. Assim exorcizam seus medos e ajudam os leitores a identificá-los e com eles lidar.

Em situações limite, a escrita é o meio pelo qual a vítima encontra forças para resistir ao carrasco e eventualmente triunfar sobre ele. A escrita conserva a narrativa da experiência, da dor, do desespero. E também registra a esperança que conserva a vida em movimento mesmo sob a ameaça inexorável da morte e da destruição.

Escrever é um ato de afirmação da vida. Quem escreve diante de um projeto de morte que se abate sobre si próprio, desafia esse projeto reafirmando a vida, que teima em acontecer mesmo sob o tacão da ameaça e da violência. É igualmente testemunha de um futuro. Escrever é produzir algo que as gerações futuras poderão ler. É registrar as próprias experiências e oferecê-las como laboratório onde outros e outras poderão elaborar as suas.

Diante da efemeridade das coisas e do tempo, a escrita igualmente é terapêutica por ser algo que permanece, que é fixado para não ser perdido. No caso das escritoras que mencionamos, as quatro judias europeias e a estadunidense, a morte – própria e alheia - interrompeu suas vidas. Mas a escrita as sobreviveu. As sobrevive. E não deixa se perder na noite dos tempos suas preciosas experiências e admirável resistência.

Outros poderão ler e aprender. A leitura será um revisitar doloroso ou gozoso do registro produzido pelas testemunhas que vivenciaram os fatos e os narram e interpretam. E assim se poderá não repetir chacinas, tragédias. E, mais do que isso, criar universos novos onde a vida triunfe sobre a morte. É por essa razão que escrevo todos os dia.

DEIXE ECOAR NO CORAÇÃO O DESEJO DE QUERER A LUZ.

 luz que te quero - Foto de Paracuru, Ceará - Tripadvisor

"Quero a luz" é a expressão de um desejo a ser operado pela força de princípios inegociáveis, a exemplo da preciosa recomendação do apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos: "Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem". É incontestável, sabe-se muito bem, que em toda tentativa de vencer o mal com o mal, o resultado da batalha é a derrota ainda maior. Nesse horizonte se desenha preciosa lição com força de remédio ante os dramáticos cenários que pesam sobre os ombros da humanidade: somente o bem pode derrotar o mal. É essa também a receita terapêutica para sanar realidades feridas pelos constantes combates fratricidas que enfraquecem instituições no seu interno, multiplicam as violências, validam preconceitos, a exemplo das posturas racistas e excludentes.

Nesse cenário se põe a discussão acalorada a respeito de razões. Mas razões não podem ser desvinculadas de princípios. E os princípios são inegociáveis. Ao contrário disso, corre-se o risco de se permitir tudo. Não se pode simplesmente considerar que a batalha em curso seja um conjunto de meras acareações, apenas para deliberar a perspectiva de quem tem razão, agindo como se o conjunto da vida pudesse ser tratado em partes estanques. Em questão está o jogo que envolve o mal, o bem e o amor.

Diante de trágicas experiências, é próprio do comportamento humano procurar identificar as raízes do mal, explicar suas causas e fazer valer dinâmicas para a sua superação. Desafio que se torna ainda mais complexo no contexto da administração do dom precioso da liberdade humana. Assim, incontestavelmente, o bem e o mal ganham o rosto e o nome daqueles que os escolheram livremente. "Quero a luz" deve representar o desejo de, humildemente, se abrir e aprender a gramática da lei moral universal. Na gramática da lei moral está inscrito o compromisso intocável da responsabilidade para com a vida de cada pessoa, considerada dom sagrado, defensável e promovido em qualquer que seja a circunstância, por ser um bem acima de todo e qualquer bem.

Ao contemplar os cenários da sociedade mundial, não se pode camuflar a efetiva difusão de numerosas manifestações sociais e políticas da maldade - da desordem social à anarquia, da injustiça à violência contra o outro - fecundadas pela indiferença e amparadas em relativizações dos valores e dos princípios intocáveis da lei moral. O mundo está afligido por muitos males sociais e políticos, com a eclosão das violências. O investimento permanente na aprendizagem, na prática dos princípios e valores da gramática da lei moral contracena com o exercício do poder. O poder que todos têm, em medidas diferentes, como parte da composição do tecido de sua cidadania, de sua confissão de fé e nos contextos de sua representatividade e responsabilidades interage com os cenários da vida social e política.

No conjunto das muitas obscuridades encontram-se, pois, exercícios equivocados no uso e desempenho do poder. Ora, porque se tem excessivo poder, em instâncias que tomam decisões estreitadas por interesses próprios - não há vontade política de preservar a vida e defendê-la-, ora porque, não raramente, um poder é exercido sem a esperada competência humanística, apenas com o objetivo de usufruir das benesses. Há uma gama de descompassos em andamento no exercício do poder, sem poupar qualquer que seja a instância, da religiosa à judiciária, da instância familiar à política, com passagem pelos desencontros cotidianos de civilidade. Revela-se, assim, a fonte de desmandos, a falta de pudor em fazer valer o que, subjetivamente, se considera oportuno.

As sociedades mundial e local encontram-se numa travessia marcada por muitas agruras, dentre elas as feridas expostas de um poder fragilizado pelas muitas práticas equivocadas, pela incapacidade de se efetivar o que se configura na legislação, a começar pela Constituição Federal. Esse horizonte dos descompassos que envolvem desde opiniões aos seus resultados, comprometendo a vida no seu conjunto, pede uma aprendizagem nova. Isso, para conter a exorbitância no uso do poder, evitando-se a relativização do intocável, a mistura do que é imiscível - dinâmicas que atrasam processos, adoecendo o planeta e as pessoas em disputas figadais por interesses que comprometem o inegociável princípio da solidariedade. Ante o mal crescente e os descompassos, todos estão desafiados a um mea culpa e a um anseio renovado por deixar ecoar no coração o desejo-experiência de querer a luz.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

PARA TUDO HÁ LIMITES SUPORTÁVEIS.

 

Qual é o Limite de Peso Recomendado: Legislação, Conceitos, NIOSH ...

Quatro sombras escuras pairam sobre um país solar que nunca puderam ser dissipadas pela nossa consciência e inconsciência coletivas: a sombra do genocídio dos povos originários,os donos primeiros destas terras.De seis milhões que eram, sobraram apenas um milhão, a maioria por não suportar o trabalho escravo ou pelas doenças dos invasores contra as quais não possuíam nem hoje possuem imunidade. A sombra da colonização que depredou nossas terras e florestas e nos tornou sempre dependentes de alguém de fora, impedidos de forjar nosso próprio destino.

A sombra da escravidão, nossa maior vergonha nacional, por termos transformado pessoas trazidas de África em escravos e carvão a ser consumido nos engenhos de cana de açúcar. Jamais vistas como pessoas e filhos e filhas de Deus mas como “peças” a serem compradas e vendidas, construíram quase tudo o que existe neste país. E hoje, tidos por preguiçosos e presos, compõem mais da metade de nossa população, jogados nas periferias; suportam o ódio e o desprezo antes imposto aos seus irmãos e irmãs das senzala e agora transferidos a eles com uma violência tal como mostrou o sociólogo Jessé Souza (A elite do atraso:da escravidão à Lava Jato, 2007 p.67) até perderem o sentido de sua dignidade.

A sombra das elites do atraso que sempre ocuparam o frágil Estado, usando-o para seu benefício. Nunca forjaram um projeto de nação que incluísse a todos, apenas, com as artes perversas da conciliação entre os endinheirados, apenas um projeto só para eles. Não bastava desprezar os marginalizados, mas rachar-lhes as cabeças, caso se levantassem, como ocorreu várias vezes na sua heroica história da resistência e da rebeldia.

Quando um sobrevivente dessa tribulação, por caminhos de pedras e de abismos, chegou a ser presidente e fez alguma coisa para ajudar a seus irmãos e irmãs, logo criaram as condições perversas para destruir sua liderança, excluindo-o da vida pública e, por fim, a ele e a sua sucessora apeá-los do poder. Essa sombra ganhou contornos de “procelosa tempestade e noturna sombra (Camões) sob o atual governo que não ama a vida, mas exalta a tortura, louva os ditadores, prega o ódio e larga o povo à sua própria sorte, atacado letalmente por um vírus, contra o qual não tem nenhum projeto de salvamento e, desumano, se mostra incapaz de qualquer gesto de solidariedade.

Estas sombras, por serem expressão de desumanização, se aninharam na alma dos brasileiros e brasileiras e raramente puderam conhecer a luz. Agora criaram-se as condições ideológicas e políticas para serem lançadas ao ar como lavas de um vulcão, feitas de boçalidade, de violência social generalizada, de discriminações, de raiva e de ódio de grandes porções da população. Seria injusto culpar a elas. As elites do atraso se internalizaram em suas mentes e corações para fazer que se sintam culpadas de sua sorte e acabem por fazerem seu o projeto deles que, na verdade, é contra eles. O pior que pode acontecer é o oprimido internalizar o opressor com o projeto enganoso de bem estar, sempre lhes sendo negado.

Pois, no atual momento o “cordial da incivilidade” brasileiro irrompe do coração, mostrando a sua forma perversa de ofensa, calúnia, palavras de baixo calão, fake news, mentiras diretas, ataques violentos a negros, pobres, quilombolas, indígenas, mulheres, LGBT políticos de oposição, feitos inimigos e não adversários. Irrompeu, violenta, uma política oficial, ultraconservadora, intolerante, com conotações fascistoides. As mídias sociais servem de arma para todo tipo de ataque, de desinformação, de mentiras que mostram espíritos vingativos, mesquinhos e até perversos. Tudo isso pertence ao outro lado da “cordialidade” brasileira hoje exposta à luz do sol e à execração mundial.

O exemplo vem do próprio governo e de seus fanáticos seguidores, De um presidente se esperaria virtudes cívicas e o testemunho pessoal de valores humanos que gostaria vê-los realizados em seus cidadãos. Ao contrário, seu discurso é eivado de ódio, desprezo, de mentiras e de boçalidade na comunicação. É tão inculto e tacanho que ataca o que é mais caro à uma civilização que é sua cultura, seu saber, sua ciência, sua educação, as habilidades de seu povo e o cuidado da saúde e da riqueza ecológica nacional.

Nunca tanta barbárie, nos últimos cinquenta anos, tomou conta de algum país, como no Brasil, aproximando-o ao nazifascismo alemão e italiano. Estamos expostos à irrisão mundial, feitos país pária, negacionista do que é consenso entre os povos. A degradação chegou ao ponto de o chefe de Estado fazer o humilhante rito de vassalagem e de submissão ao presidente mais bizarro e “estúpido” (P. Krugman) de toda a história norte-americana.

É humilhante constatar que não haja da parte das mais altas autoridades a coragem patriótica para encaminhar, dentro da legalidade jurídica, a destituição ou o impeachment de um presidente que mostra sinais inequívocos de incapacidade política, ética e psicológica para presidir uma nação das proporções do Brasil. Podem fazer-se ameaças diretas à mais alta corte, de fechá-la, de fazer proclamas à volto ao regime de exceção com a repressão estatal que implica e nada acontece por razões arcanas.

As oposições, duramente difamadas e vigiadas, não conseguem criar uma frente compartilhada para opor-se à insensatez do poder atual.

A brutalização nas relações sociais e especialmente entre o povo simples não deve ser imputada a ele, mas às classes oligárquicas do atraso que lograram internalizar neles seus preconceitos e visão obscurantista de mundo. Estas classes nunca permitiram que vingasse aqui um capitalismo civilizado, mas o mantém como um dos mais selvagens do mundo, pois conta com os apoios dos poderes estatais, jurídicos, midiáticos e policiais para abateram qualquer oposição organizada. A “racionalidade econômica” se revela desavergonhadamente irracional pelos efeitos maléficos sobre os mais desvalidos e para as políticas sociais destinadas aos socialmente mais sofridos.

Esse é um texto indignado. Há momentos em que o intelectual se obriga por razões de ética e de dignidade de seu ofício, a deixar o lugar do saber acadêmico e vir à praça e externar sua iracúndia sagrada. Para tudo há limites suportáveis. Aqui ultrapassamos a tudo o que é dignamente suportável, sensato, humano e minimamente racional. É a barbárie instituída como política de Estado, envenenado as mentes e os corações de muitos com ódios e rejeições e levando à frustração e à depressão a milhões de compatriotas, num contexto dos mais atrozes que tiram de nosso meio pelo vírus invisível mais de cem mil entes queridos. Calar-se equivaleria render-se à razão cínica que, insensível, assiste o desastre nacional. Pode-se poder tudo, menos a dignidade da recusa, da acusação e da rebeldia cordial e intelectual.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

AS CRIANÇAS NÃO NOS OUVEM, ELAS NOS IMITAM.

 Crianças que não brincam ao ar livre não se preocupam em preservar ...

Você tem alguma memória de brincar na natureza em sua infância? Subir na árvore, deitar na grama, caçar tatu-bola ou construir uma cabana ao ar livre? Infelizmente, é possível que essas memórias estejam em extinção para muitas crianças que vivem no ambiente urbano da atualidade.

Estudos mostram que entre 1997 e 2003 houve um declínio de 50% na proporção de crianças de 9 a 12 anos que passavam tempo em atividades externas nos Estados Unidos. As crianças brasileiras são as que mais passam tempo na frente da televisão e chegam a ficar 90% do tempo em lugares fechados nos grandes centros urbanos.

As consequências dessa desconexão dos pequenos com a natureza estão sendo percebidas, estudadas e colocadas em pauta em diversos contextos e espaços. São levantadas, por exemplo, questões como obesidade infantil, ansiedade, depressão, dificuldades de concentração e menos interação social.

A fala de um dos maiores especialistas da área, entretanto, chamou minha atenção para um aspecto interessante (e preocupante): “Estamos criando um ambiente em que, creio eu, as crianças estão menos vivas.” Richard Louv aponta que um dos principais impactos da desconexão com a natureza é o encolhimento de seu mundo sensorial. Ao invés de terem experiências primárias, diretas e exploratórias com o mundo, crianças estão apenas observando, dialogando e vivenciando o mundo por meio de telas e aplicativos.

As novas tecnologias não envolvem o toque humano e dessa maneira nossos sentidos estão sendo eletrificados e segundo o próprio Louv, corremos o risco de despersonalização da vida humana.

Queremos crianças menos vivas? Tenho certeza que não. Como começar a reverter esse quadro? Nós, adultos, precisamos nos (re)encantar e (re)conectar com a natureza. A grande maioria dos adultos, atualmente, não se sente parte da natureza e a enxerga como um ambiente cheio de riscos, perigos, sujeiras e sem “progresso”. E adivinhem só: as crianças nos observam o tempo todo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

UMA HISTÓRIA TAL COMO É CONTADA PELOS ÍNDIOS DO AMAZONAS

 

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Em muitas tribos da Amazônia acredita-se que os mortos se transformam em borboletas. Durante o tempo necessário para a purificação, cada qual ganha uma forma adequada. As que se purificam logo, são alvíssimas, com poucas horas de vida e com cores brancas. Penetram diretamente no mundo da felicidade.

As que precisam de mais tempo, são menores, leves e multicores. E as que precisam de muito tempo são maiores, pesadas e com cores escuras.

Todas elas voam de flor em flor, sugando néctar e fortalecendo-se para carregar o próprio peso ao se alçarem ao céu, onde viverão felizes com todos os antepassados e parentes que estão apenas no outro lado da vida. Conta-se naquela floresta a seguinte estória:

Coaciaba, era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi.

Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os colibris e outros insetos.

De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença, por velhice ou por causa de um vírus maligno da natureza. Morre-se também por saudade da pessoa amada.

Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la a passear. Mesmo pequena, só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia a ela e aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse a sua mãe.

De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia após dia até que também ela morreu. Os parentes ficaram muito penalizados, com tanta desgraça sobrevindo sobre a mesma família.

Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como a dos demais indios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.

A mãe Coaciaba, cujo espírito fora, sim, transformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor sugando néctar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.

Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás. Ao sugar o néctar, ouviu um chorinho triste e doce. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro dela a vozinha da filha querida Guanambi. Como poderia estar aprisionada ai? Refez-se da emoção e disse:

-Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranquila que vou libertá-la para juntos voarmos para o céu.

Mas deu-se logo conta de que ela era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida. Recolheu-se, então, a um canto e, em lágrimas, suplicou ao Espírito criador e a todos os ancestrais da tribo:

-Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa de todos os parentes, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração da flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e a vós todos, anciãos de nossa tribo: transformem-me num pássarinho veloz e ágil, dotado de um bico ponteagudo para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.

Tanta foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criador e os anciãos da tribo atenderam, sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediatamente sobre a flor lilás. Sussurrou com voz carregada de enternecimento:

-Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.

Com o bico ponteagudo, foi tirando com cuidado pétala por pétala até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe.

Purificadas e abraçadas voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.

Desde então se introduziu entre indígenas amazônicos, o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilás, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe, na forma de um beija-flor, venha buscá-a para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes com todos os antepassados.

OBS: Estes são os povos originais que o governo está deixando morrer pelo covid 19 em nossa rica amazônia.

domingo, 23 de agosto de 2020

EPIDEMIAS: UM NOVO RISCO DO AQUECIMENTO GLOBAL

 

O Perigo das Epidemias Zoonóticas

O despertar de um vírus pré-histórico congelado, o ressurgimento da varíola, a dengue que se instala na Europa, entre outras hipóteses dignas de filmes de catástrofe, estão sendo seriamente estudadas pelos cientistas, preocupados com o risco de epidemias ligadas ao aquecimento global.

A pandemia de Covid-19, com seu vírus sem dúvida procedente de um morcego, expôs os perigos das interferências cada vez mais significativas entre as atividades humanas e a natureza.

Mas o risco de epidemias também pode ser gerado pelas mudanças climáticas, que provocam o deslocamento de mosquitos portadores da malária ou da dengue, e o início do degelo do permafrost, onde micróbios de outras épocas estão presos.

"Nosso maior inimigo é nossa própria ignorância, porque a natureza está cheia de microorganismos", principalmente no permafrost, "verdadeira caixa de pandora", disse Birgitta Evengard, microbiologista da Universidade de Umea, na Suécia.

Uma parte "importante" dos solos permanentemente congelados pode se descongelar em 2100, liberando dezenas ou centenas de bilhões de toneladas de gás de efeito estufa, segundo os especialistas do clima da ONU (Giec).

E não é só isso. "Os microorganismos podem sobreviver em um meio congelado por muito tempo", alerta o professor Vladimir Romanovsky, da Universidade de Alasca, em Fairbanks.

Mamutes e neandertais

Esses organismos revividos atacam somente as amebas. Mas nessas regiões geladas, "os neandertais, mamutes e rinocerontes peludos adoeceram, morreram, caíram. É possível que todos os vírus que causaram seus problemas ainda estejam no solo", alerta o professor Jean-Michel Claverie.

O número de bactérias ou vírus aprisionados é incalculável. O que preocupa é saber se são perigosos e, neste ponto, os cientistas estão divididos.

"O antraz prova que uma bactéria pode dormir no permafrost por centenas de anos e ser revivida", destaca Birgitta Evengard.

Em 2016, na Sibéria, uma criança morreu vítima de antraz mesmo essa bactéria tendo desaparecido da região há 75 anos.

Outros patógenos conhecidos, como os vírus da gripe de 1917 ou da varíola, também estariam preservados nas camadas geladas dos cemitérios árticos onde as vítimas de velhas epidemias foram enterradas.

O "verdadeiro perigo", segundo o professor Claverie, estaria nas camadas profundas que podem ter 2 milhões de anos e que potencialmente escondem patógenos desconhecidos.

Mas, em todo caso, esses patógenos precisariam de um hospedeiro para sobreviver. Um encontro que a mudança climática pode proporcionar.

Doenças tropicais

O aquecimento global pode se tornar também um bom aliado para vírus mais atuais, que já causam estragos no mundo.

Malária, dengue, chikungunya, zika... Alguns mosquitos vetores de doenças tropicais podem chegar à Europa e à América do Norte.

É preciso um hospedeiro, assim como "condições específicas de temperatura para que o patógeno possa se reproduzir no mosquito", diz Cyril Caminade, epidemiologista da Universidade de Liverpool.

Até o momento, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) relatou apenas alguns casos autóctones de doenças que podem ser transmitidas: cerca de quarenta casos de dengue entre 2010 e 2019, dois casos de zika na França em 2019 e várias centenas de casos de chikungunya entre 2007 e 2017, principalmente na Itália.

O Aedes aegypti, principal vetor da dengue, também está sob vigilância.

"Um aumento da temperatura média poderia levar a uma transmissão sazonal da dengue no sul da Europa se o A.aegypti infectado pelo vírus se estabelecer", alerta o ECDC.

Já o risco de retorno da malária nas regiões onde já foi endêmica, na Europa e América do Norte, é menos claro