terça-feira, 3 de setembro de 2019

NOTÍCIA PASTEURIZADA!

Resultado de imagem para pasteurização do leite

Voltando ao tema Meios de Comunicação Social, fiz, algum tempo atrás, uma experiência interessante; gravei os telejornais apresentados num mesmo dia pelas quatro principais redes de TV: Globo, Record, Band e SBT e depois vi os quatro, de enfiada. Haja paciência.
Com pouquíssima variação, repetiam-se quase que as mesmas palavras e imagens, confirmando o que já disse aqui, em outra crônica: notícia, hoje, é uma mercadoria que se pode vender e comprar.

Com a facilidade das comunicações on line, em tempo real, as chamadas “Agências Internacionais”, preparam blocos prontos que são adquiridos de maneira avulsa ou através de assinatura. O pacote chega prontinho às redações. É só fatiar e colocar no ar.
Assim, a mesma imagem, e às vezes o mesmo texto que assisto, leio ou ouço aqui, no Brasil, é transmitido aos quatro cantos do mundo, num poderoso, avassalador e pasteurizante processo de formação de opinião que não conhece ou respeita fronteiras, culturas, valores e princípios. O que vale é o espetáculo da notícia. Por isso, o termo pasteurização torna-se bem adequado.

Quando fui com meus amigos para o meio Rural, em comunidades do interior dessa região, uma das coisas que mais chamou a atenção dos meus amigos e amigas, a turma urbana, era o processo de coleta e distribuição do leite.
Em cada sítio ou pequena fazenda, feita a ordenha, o latão de leite era colocado à margem da estrada, em geral ao lado da porteira por onde passa o caminhão que recolhe tudo e leva para a usina da cooperativa. Meus amigos ficavam intrigados. O leite fica ali, à beira da estrada, sem ninguém pra tomar conta, vigiar, ninguém pra conferir? É, na roça ainda é assim...
O caminhão percorre toda a zona rural de determinada região e recolhe os muitos galões, de muitos e diferentes leites, de muitas e diferentes vacas: leite da Mimosa, da Formosa, da Malhada, da Princesa. Na usina, são todos misturados e aí acontece a tal da pasteurização e homogeneização.
Segundo o “São Google”, o processo de pasteurização foi desenvolvido pelo cientista francês Louis Pasteur (1822-1895). Nele, o leite é aquecido à alta temperatura e logo em seguida submetido a um resfriamento brusco. A variação rápida mata os germes e bactérias.
Daí, inclusive, me veio a ideia de criar uma receita para gripes e resfriados em geral. O doente deve preparar um chá, composto por um dente de alho, duas colheres de mel, quatro folhas de hortelã, um limão cortado em cruz, ferve tudo por 10 minutos em 500 ml de água, depois toma, com Aspirina, Paracetamol ou Dipirona. Na sequência, corre para debaixo de um cobertor bem felpudo e espera começar o suadouro. Quando o suor estiver pingando, corre à cozinha, tira do freezer uma garrafa de Stella Artois estupidamente gelada, reza uma Ave Maria e bebe.
O micróbio da gripe não está esperando a cerveja. Morre de susto ou de choque térmico. É batata!

A pasteurização, voltando a ela, além de eliminar os agentes causadores de doenças, permite também que os diversos leites possam ser igualados, homogeneizados e conservados por um longo tempo.

Pois é... notícias também podem ser pasteurizadas e homogeneizadas. Assim como o leite, que vem de muitas fontes, as notícias são, também, recolhidas “à beira da estrada dos acontecimentos”, engarrafadas e levadas à usina das redações onde são misturadas, aquecidas e resfriadas a gosto do dono do jornal, pasteurizadas, homogeneizadas e redistribuídas.

E o que temos, então? A morte do menino Joaquim misturada e diluída nos gols da rodada; a subida do dólar fervida junto com a queda do guindaste, o helicóptero parlamentar cheio de cocaína resfriado pela imagem das crianças sem esperança. As denúncias de corrupção acabam sendo leite das mesmas tetas e, ao final, tudo vira uma coisa só, girando na autoclave do noticiário diário.

E, não se esqueça, se o processo de pasteurização permite a conservação por longos períodos, notícias armazenadas podem ser requentadas e novamente servidas, ao gosto e necessidade do freguês ou interesse do vendedor...
Notícias podem ser servidas e engolidas, como leite. Misturadas, frescas, requentadas, adulteradas, camufladas por outros produtos que lhes dão um sabor ou aparência que não tem em sua origem.

É a política do café com leite, notícia com espetáculo. Leite com achocolatado, manchete com merchandising. Leite com conhaque, notícia com mentira patrocinada. Leite com creme, notícias com agrado para os amigos...

É... é preciso ter, dentro de cada um de nós, um sistema de filtragem e controle de qualidade que possa submeter a notícia a um “INMETRO” pessoal, antes de assistir ao Jornal Nacional, ler a Veja, ouvir o noticiário da gaúcha, na CBN, na Band News, ler as manchetes da Folha, do Globo e  Zero Hora..
.

Pensem nisso, enquanto lhes digo: até amanhã.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

OS MASCARADOS

Resultado de imagem para OS MASCARADOS


Escrevo desde antes de aprender a ler. Acho que com todo mundo é assim, a gente começa rabiscando paredes com giz de cera e acaba digitando mensagens cifradas no Twitter e no Facebook.
Em mim, a escrita criou raízes que se entranharam no meu coração e na minha vida. Escrever é minha terapia, uma alternativa à loucura. Escrevo para sobreviver (não economicamente), apesar de saber que as pessoas podem viver, e muito bem, sem ler o que escrevo.
Imaginando, talvez, que estudando e conhecendo muitas letras, poderia ajuntá-las para formar palavras, frases, parágrafos, páginas, crônicas e livros. Lá, nos labirintos do aprendizado da palavra escrita, uma das disciplinas que mais apreciei foi Etimologia. A Etimologia nos ajuda a compreender mais que o significado das palavras, revela sua alma, seu coração, sua gênese e sua história, levando ao sentido que elas encarnam e exprimem.
Palavras são entidades mágicas e algumas ganham vida própria, ao se misturarem com a própria vida.
A Etimologia é o húmus de onde nascem e crescem as palavras. A língua, claro, é algo dinâmico, as palavras mudam de sentido com as mudanças de tempo e cultura, mas nunca se separam totalmente da sua fonte original.
Disse tudo isso como preâmbulo para compartilhar com vocês a etimologia de uma palavra que me veio à lembrança, diante de acontecimentos recentes, destacados na mídia dessa terra brasilis. A palavra é isonomia.
No Congresso Nacional, via voto secreto, suas excelências estão tentando salvar alguma coisa do pau de galinheiro em que se tornou a imagem do Legislativo.
No Rio, manifestantes mascarados foram detidos e o Tribunal de Justiça baixa norma que proíbe o uso de máscaras nas manifestações. Na Bahia, as autoridades querem impedir o bloqueio de ruas e rodovias, durante protestos, para garantir o direito de ir e vir dos cidadãos.
Concordo com tudo; sou absolutamente contrário ao anonimato que gera violência, vandalismo, acho perfeito que se busque garantir direitos que conquistamos a duríssimas penas, mas invoco, aqui, outro direito inalienável das sociedades organizadas de forma civilizada: a isonomia.
Valei-me, Etimologia!
A palavra "isonomia" vem do grego iso = igual + nomos = lei e significa, literalmente, lei que iguala, que estabelece a justiça mediante a igualdade de direitos a todos, usando os mesmos critérios. Tem como sinônimos, equidade, justiça, igualdade e, como antônimos, desigualdade e injustiça.
O argumento das autoridades é que, por trás das máscaras, podem se esconder criminosos, vândalos, bandidos de todas e das piores espécies. Há lógica nisso e as imagens dos atos de violência e vandalismo exibidas à exaustão confirmam o receio.
Sejam proibidas, pois, as máscaras, banidos os mascarados. Mas, coerentes com o princípio da isonomia, proíbam-se, sim, TODAS as máscaras e sejam banidos para sempre TODOS os mascarados!

O que é o voto secreto, senão uma máscara? E as promessas eleitorais? E os programas dos partidos? E as legendas de aluguel? E os conchavos da base aliada e a falsa e conveniente indignação da oposição alienada? E as togas de juízes comprados (ou vendidos?)?
Quanto vandalismo pode se esconder por trás dos discursos e dos silêncios de autoridades e excelências engravatadas?
Quanta violência pode haver numa canetada, numa emenda ao orçamento, numa votação em fim de mandato?
Ah, pobre grande país, reduzido a esse patético desfile de máscaras ao qual o povo assiste, da geral, exercitando seu parco "direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval" e hoje se chama programa eleitoral.
Vai passar?
Estamos condenados a ver, de dois em dois anos, passar o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar (Arrudas)?
Ah, meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar, a evolução da liberdade, até o dia clarear...
Clareia, dia! Liberdade, abre as asas sobre nós! É 7 de setembro e as urnas vêm logo aí.
Chega de máscaras! Chega de mascarados!

sábado, 31 de agosto de 2019

NÓS ERA VERDE E NÃO SABIA.


Resultado de imagem para ECOLOGIA

Tem gente que pensa que essa "onda verde" de preocupações ecológicas, sustentabilidade, consumo consciente, é coisa dos tempos modernos. Nem tanto. O que mudou, e muito, foi a intensidade e competência do marketing que hoje se faz em torno de ações que, antes, eram naturais.
Quando eu era menino, ou seja, ainda dentro do nosso tempo histórico, meu e do caro leitor, as garrafas de leite, de refrigerante e cerveja eram de vidro e deviam ser devolvidas na hora da compra de outra unidade. A loja mandava os "cascos" vazios de volta às fábricas onde eram lavados e esterilizados, podendo, assim, ser reutilizados inúmeras vezes.

A vida se concentrava nos bairros, mas se precisássemos ir ao centro da cidade para uma consulta médica ou ir ao dentista, por exemplo, em geral subíamos escadas, porque não havia escadas rolantes.

De volta pra casa, caminhávamos até o armazém da esquina para fazer compras na caderneta. Para quem não sabe, a caderneta era usada em estabelecimentos comerciais tipo padarias, farmácias, vendas e assemelhados. O balconista entregava o produto e anotava o valor a lápis, na página onde havia o nome do freguês. No final do mês era só ir lá, somar e acertar. Simples como a vida.

Não havia super nem hiper-mercados, com estacionamentos caros e lotados de carros de 300 cavalos de potência usados para andar dois quarteirões. A polêmica sobre o uso das sacolinhas plásticas nem passava pela cabeça dos consumidores que levavam, de casa, uma sacola de pano ou de lona listrada que era usada quantas vezes fosse necessário. Isso quando a montanha, ou melhor, o produto não chegava a Maomé através de um ecológico delivery: de bicicleta, vinham a nós o verdureiro, o padeiro, o peixeiro, o leiteiro e outros vendedores a quem conhecíamos pelo nome e pela qualidade dos produtos oferecidos. Fui um destes entregadores bicicleteiros no bolicho do meu pai em Gramado.

As fraldas dos bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Aliás, a palavra 'descartável' era uma ilustre desconhecida. Para secar as fraldas de pano, energia eólica e solar, ou seja, o varal. Nada de turbinadas e barulhentas máquinas de lavar e secar. E lá em casa, com a escadinha de filhos, o varal era sempre uma festa onde "nossas roupas comuns, dependuradas na corda, qual bandeiras agitadas, pareciam um estranho festival..."

E as roupas eram mesmo "em comum". Eu, sendo o mais velho daquela penca de irmãos, tinha o privilégio de inaugurar a camisa do uniforme escolar. Os irmãos menores iam "herdando" as roupas que tinham sido dos irmãos mais velhos, que eram usadas, cerzidas, ajustadas até a exaustão. E a gente achava essa reciclagem a coisa mais natural do mundo.

Havia só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima. A pizza era feita em casa mesmo.

Naquela tomada ligava-se uma única TV, uma só pra todo mundo da casa, e não uma TV em cada quarto. Sem controle remoto, ligar e desligar, mudar de canal, ajustar o som e mexer na antena exigiam constantes exercícios abdominais no senta e levanta do sofá. Mas nem precisava de TV, pois havia um cinema "Splendit" em Gramado e a gente ia a pé para a matinê.

Naquela era pré-McDonalds, terminado o filme, voltávamos correndo pra casa para curtir o lanche. Nada de Hambuguer, X-Burguer, X-Tudo. Sem praça de alimentação, sem as geringonças elétricas e eletrônicas que fazem tudo por nós, minha mãe, avó e tias colocavam a mão na massa no preparo de roscas e biscoitos caseiros, bolos fantásticos, doces inesquecíveis. E cada uma tinha sua especialidade.

Ninguém fazia empadinhas como tia Nilda, caçarola italiana como tia Loni, biscoitos de polvilho torcidinhos como vovó Ella, capa de canudinho (que a gente recheava de doce de leite na hora) como tia Elli, bolo como tia Iracema, broa de fubá como dona Tutu e outros quitutes cuja lembrança dos sabores fazem minha memória salivar.

E mesmo com essas delícias nada diets à mesa, éramos magros e atléticos (com perdão da palavra), sem necessidade de dietas mágicas, sibutraminas e moderadores de apetite. Exercitar-se era comum no dia a dia, sem precisar ir a uma academia (que nem existiam) ou usar esteiras que também funcionam a eletricidade e hoje viram varais na área de serviço dos nossos modernos "apertamentos".

Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina para aparar a grama. Utilizava-se um tesourão ou um cortador que exigiam músculos. Mas isso foi num tempo em que havia quintais e gramados. Hoje, em tempos de playgrounds de cimento e campos de grama sintética...Sem playgrounds, nossa diversão era o futebol no campinho, as brincadeiras - bente-altas, pique-esconde, mãe-da-rua, garrafão e outras molecagens, sempre na rua, num tempo em que ser moleque e estar na rua eram as coisas mais naturais e saudáveis do mundo. Bebíamos água da bilha ou do filtro de barro, em canecas de alumínio que faziam com que a água parecesse ter saído diretamente da fonte. Nada de copos descartáveis ou garrafas pet que tornam-se lixo por séculos e séculos amém.

A caneta tinteiro Parker 51 do meu pai era recarregável. Para fazer a barba, ele amolava sua própria navalha, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' quando a lâmina fica sem corte.Ninguém gastava horas de estresse e litros de combustível para ir e voltar do trabalho. As pessoas tomavam o ônibus sem atropelos, sem congestionamentos, sem hora do rush. Íamos à escola a pé ou de bicicleta, ao invés de usar a mãe como serviço de táxi 24 horas. É verdade que éramos bem menos e vivíamos menos assustados, pois não havia os Datenas para nos aterrorizar. No Estádio
 do gramadense,torcidas, sentadas lado a lado, sem divisão, gritando "cachorrada!" e a outra respondendo, "refrigerados!". Na verdade, já éramos ecológicos e tínhamos uma vida absolutamente sustentável.

Bons tempos, em que a gente era verde e não sabia...

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

QUANDO A FUMAÇA DO GÁS LACRIMOGÊNEO BAIXAR

Resultado de imagem para gas lacrimogêneo


Faz tempo, constatei que o maior erro de um dos políticos mais falados da história desse país, o mineiro Juscelino Kubistchek, foi levar a capital do país para o Planalto Central. Brasília ficou longe demais do Brasil o que permitiu que lá se desenvolvesse e proliferasse uma classe política cada vez mais distante e divorciada dos cidadãos que a elegeram.
Duvida? 

Se você é capaz de lembrar o nome do deputado federal ou do senador no qual votou nas últimas eleições, pergunte a si mesmo: ele poderia se apresentar de cara limpa diante dos manifestantes que começam a enchem as ruas por todo o país?
Adianto a resposta; NÃO! Seria rechaçado e expulso, se desse sorte.

Aliás, uma das interrogações que pairam sobre esse momento que vivemos é: onde andam os nossos políticos? Cadê as nossas "lideranças"?
Repito o que já disse, devem estar reunidos com seus marqueteiros e aspones, sussurrando a meia voz: "Imagina na Copa...".

Um dos slogans cantados pela multidão, Brasil a fora , que mais me chamou a atenção foi: "o povo, sem partido, jamais será vencido!".

Há um cansaço arraigado, uma descrença profunda nos políticos e partidos hoje estabelecidos, o que traz à tona um grande perigo; imaginar que podemos avançar política e socialmente abrindo mão da democracia representativa, por maior que seja a sua crise.

Alguns amigos, em conversas que temos mantido, expressam receio de que a situação, seguindo sem controle das autoridades, pode gerar o pretexto para que se pense numa guinada à direita, a modo de 1964. Em nome da lei da e da ordem, contra a baderna e a desordem, uma intervenção militar, um outro golpe?

Aviso de quem já sofreu com essa experiência: cuidado, meu amigo, na época dos militares no poder a corrupção e a bandalheira só eram menores que a censura. Doía tanto quanto dói hoje, só que ninguém podia reclamar. E, detalhe, as balas não eram de borracha...

Um golpe, uma intervenção militar não seria uma solução e nem creio que haja clima para tanto, mas sei que a ideia é atraente para muita gente.

O clima de baderna me faz lembrar um episódio acontecido diante das barricadas do Quartier Latin, na Paris de 1968, quando Lacan disse aos estudantes: "Como revolucionários, vocês são histéricos clamando por um novo chefe. E conseguirão".

Será que as multidões hoje, nas ruas do Brasil, expressam tão somente o histérico desejo de um chefe, um líder, um guia, um salvador da pátria?
Já tivemos muitos, e o último, Bolsonaro, sepultou sua biografia ao homenagear Ustra e falar bobagens.

Antes dele, tivemos um certo Fernando Collor, de triste, presente e atuante memória.
Não, salvadores da pátria, nunca mais...

Volto, então, à pergunta inicial: se nenhum dos políticos dos quais me lembro teria cara, coragem e dignidade para participar de uma manifestação nas ruas da minha cidade, se a alternativa de intervenção militar seria um mergulho nas trevas, qual a saída?
Não há saída, há caminho e construção. E, para mim, o trajeto é bem claro: começa na minha casa, passa por uma urna eleitoral e caminha firme para a construção, enfim, de um país do qual a gente possa, de verdade, se orgulhar.

Depois que a poeira do gás lacrimogêneo baixar, o que vai restar é um país pra gente reconstruir. Construção demora, mas é preciso começar.

Por isso, decidi minha primeira demão: nas próximas eleições não votarei em ninguém que já tenha sido eleito e cumprido um mandato. REELEIÇÃO ZERO!!! De quem quer que seja.
Não é para passar o país a limpo? Então radicalizei. JÁ TE VI E NÃO GOSTEI!!!

Qual um moderno Diógenes, vou sair à rua com o título eleitoral à mão, meu senso crítico a modo de lanterna, em busca de gente nova, ainda não contaminada. Cansei dessa história de algumas maçãs podres no cesto. Este cesto é que está podre! Vou trocar logo o cesto todo com tudo o que ele contém!

Já pensou, Brasília, as Assembléias Legislativas dos Estados, os palácios de governo amanhecerem no dia 1° de janeiro  com uma longa fila de caminhões levando a mudança de TODOS os políticos que há anos ali instalaram suas bundas parlamentares e
executivas, produzindo tudo isso contra o qual estamos protestando nas ruas? Ah, dirão muitos, isso é impossível.

Até alguns dias atrás havia tanta coisa impossível...
Hoje sei, utopia não é um sonho impossível. É rumo. É pra lá que a passeata vai. Quando vai chegar? Não sei. Mas vou junto.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

UNIVERSO PARALELO

Resultado de imagem para universo paralelo


Leio na internet, que o PSDB encomendou pesquisa para saber o que querem os eleitores visando a ajustar o discurso dos seus candidatos aos anseios da população.

A coisa funciona mais ou menos assim: escolhido o nome, de acordo com os interesses e poderes dos grupos partidários, faz-se uma pesquisa sobre os humores do eleitorado e os marqueteiros colocam-se em campo para ajustar fisiologicamente o áudio e o visual do candidato à moldura da campanha eleitoral.

A nota cita o PSDB, mas a prática é generalizada entre os partidos.Aliás, o que mais há nesse país é a tal da "prática generalizada entre os partidos".
Vejamos, por exemplo, os fatos que ocupam, hoje, os espaços nobres da mídia tupiniquim:
Começa mais uma etapa da Lava Jato, para quem não sabe ou se esqueceu, é aquele episódio que levou à condenação de diversas figuras, entre elas algumas que ocupavam privilegiadas poltronas, nos gabinetes dos mais altos poderes da República. Lula e o PT não sabiam de nada.
Escândalo nas licitações no metrô de São Paulo. Por anos a fio, empresas fraudavam licitações de bilhões de reais, eu disse bilhões, para a construção e ampliação do metrô de SP. O PSDB de FHC, Covas, Serra e Alckmin não sabia de nada.

Ou seja, o desconhecimento da realidade é uma das "práticas mais generalizadas entre os partidos" desse país.

Volto a bater em antiga tecla; o mundo político brasileiro criou uma realidade, na verdade um universo paralelo, onde vive uma casta com padrões de comportamento absolutamente estranhos e avessos aos comuns mortais da nossa pátria amada.

No mundo real, em que vivemos nós, os tais comuns mortais, a semana de trabalho tem seis, às vezes sete dias, a gente rala no trânsito, paga todos os impostos, visíveis e invisíveis, pagando dobrado, já que paga pra existir o SUS, mas tem que pagar Plano de Saúde, paga o INSS, mas tem que pagar Previdência Privada, paga pela segurança pública, mas tem que contratar segurança privada e instalar a parafernália eletrônica que registra, dia a dia, o nosso medo, paga pela Educação, mas tem que pagar Escola Particular. É assim que (não) funciona.

Enquanto isso, no universo paralelo, os candidatos começam a se reunir com suas competentes equipes, comandadas por iluminados marqueteiros, pagos a peso de ouro, via caixa 2, para saber "o que aquele povo do lado de lá está querendo".

O cenário, hoje, apresenta a novidade das manifestações. É um quadro, até aqui, inédito. A última vez que algo parecido aconteceu foi no impeachment do Collor. Aliás, em 15 de agosto, comemoraram-se exatos 27 anos da renúncia do "caçador de marajás", em 1992. Terá nossa consciência política alcançado a maioridade cívica?

Sou um otimista por opção de fé e de vida. Acredito (e nem sou gremista) que estamos sempre evoluindo para o Mais. Lentamente, com retrocessos penosos, decepcionantes, mas evoluindo.
Mas não podemos baixar a guarda. Do lado de lá do universo, eles estão se organizando para 2020.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O SEXTO SENTIDO.


Resultado de imagem para O SEXTO SENTIDO

"Todo dia ela faz tudo sempre igual...", cantou o Chico, numa interpretação inesquecível, onde dividia palco e voz com o Caetano.
Eu também faço, quase todos os dias, coisas iguais. Não tenho dificuldades com a rotina. Há muito aprendi que uma das sabedorias preciosas da vida é descobrir o extraordinário no ordinário, no comum, no cotidiano. A rotina, aliás, é um espetáculo sutil no palco do cotidiano, uma ilha cercada pelo imprevisível por todos os lados.

E assim, apesar de ilhado naquilo que é sempre o mesmo, não estou condenado a viver na mesmice. Há que aguçar os sentidos. Os seis. Seis?

Pois é. Os sentidos ordinários nós conhecemos e identificamos bem; visão, audição, olfato, tato e paladar. Mas qual seria o tão falado sexto sentido?

Há controvérsias. Há quem diga que é a intuição, o pressentimento, a sensibilidade para perceber o "mais" que se esconde na banalidade das coisas e pessoas com as quais interagimos no cotidiano. Pode ser. Mas tenho por mim e para mim que o sexto sentido é, na verdade, a memória.

A memória humana é um prodígio. Capaz de arquivar experiências das quais sequer chegamos a fazer um registro consciente, não conhece limites de tempo e espaço. Enquanto a memória dos computadores pode ser medida em megas, gigas e bytes, a memória humana pode ser um oceano do qual não visualizamos começo, meio e fim.

Desde a memória intrauterina, há quem creia em memória de vidas
passadas, passando pela memória pessoal, coletiva, até o exercício da esperança, que é a memória do que virá, do que podemos ainda fazer acontecer, a memória é um sentido poderoso. Por ela, podemos "nos deixar afetar" pelos outros sentidos.

Por exemplo: na minha família há uma tradição. Somos três irmãos. No dia do aniversário de cada um, já sabemos; o prato principal, no almoço da casa da minha mãe, é o preferido do aniversariante.
Entra em cena a memória...

Na tela das lembranças, me vejo chegando à casa de Dona Leonida. Da porta da memória, aspiro o perfume do frango ao molho pardo com angu e quiabo. Ouço o burburinho das vozes dos meus irmãos, à minha espera. Sinto o toque dos abraços, dos beijos, do afeto fraterno que nos une. À mesa da saudade saboreio a delícia ancestral da receita que vem de minha mil avó.
aprendi a rezar com os sentidos, inclusive, e especialmente, com a memória. Ela me conecta com sentimentos preciosos como a gratidão, o perdão, a saudade. A memória me revela a beleza do ontem, do hoje, daquilo que se faz sempre.

A memória é o avesso da mesmice. Iluminada pela vida interior, ela permite vislumbrar, nas frestas do cotidiano, centelhas do Sagrado...
Como naquela segunda feira, 2 de maio de 2011. Mais um dia, igual a tantos outros dias. No caminho para o trabalho, cenas e personagens que são meus velhos conhecidos.

Sob o céu azul de aquarela desse outono enlouquecido, senhorinhas diligentes varrem intermináveis passeios.
Um mendigo, tão baldio quanto o canto da marquise sob a qual dormiu, passa por mim, cinzento, olhar vazio, esgarçado, abraçado a um cobertor ensebado, puído e roto, levando consigo e em si todas as suas posses; casa, quarto, banheiro, abrigo, miséria e saudade...

No rádio, Obama anuncia a morte de Osama. Não, não é um jogo de palavras. É o jogo do poder, do ódio, da vingança travestida de justiça.

A tudo contemplo, tudo rezo, no amanhecer de uma segunda-feira como tantas, em que, como todos os dias, sou chamado a fazer tudo quase sempre igual...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A BELA FLOR DE LOTUS

Resultado de imagem para flor de lotus


É difícil encontrar um país da Ásia onde a flor de lótus não seja considerado sagrada. Na tradição budista e em muitas outras crenças orientais a imagem do lótus está ligada à elevação e expansão espiritual.

A pureza e a harmonia equilibrada das pétalas da flor estão associadas à própria história de Sidartha Gautama, o Buda, que deu início ao seu caminho de iluminação ao contemplar a miséria que existia fora dos muros do palácio onde vivia.

A flor branca e delicada que emerge de águas lodosas, revelando toda a sua beleza e força, é um símbolo poderoso e transreligioso do convite a que todo ser humano possa evoluir em direção ao Mais, ao Magis para o qual foi sonhado e criado.

Lembrei-me dessa imagem após assistir o filme "Além da vida", de Clint Eastwood. Assim como o lótus, o cineasta americano tem uma trajetória surpreendente, tanto como ator quanto como diretor. Foi o policial "Dirty Harry", durão e violento, no início da carreira. Repetiu o figurino na pele de outros heróis que abatiam inimigos a tiros e pancadas.

Foi o "Destemido senhor da guerra", de muitos outros filmes, de muitas guerras, sempre com armas ou punhos prontos a disparar contra alvos fáceis e previsíveis.

Mas, aos poucos, o tempo foi agindo no coração, na mente e na lente daquele Rambo dos anos 1960 e 1970 e o personagem durão foi mudando o foco da sua câmera. Da lama de violência em que seus filmes estavam atolados foi surgindo uma flor leve, delicada, sensível.

O primeiro sinal de que algo novo estava germinando na alma do cineasta talvez tenha sido o filme "Bird", (1988) onde ele contou a vida do saxofonista Charles Parker, um dos mais famosos jazzmen americanos.

Em 1992 ele ganha um surpreendente Oscar ao voltar ao genero wester em "Os imperdoáveis". Ao lado de Gene Hackman e Morgan Freeman, revolucionou a previsível narrativa do bang-bang ao colocar em primeiro plano os dramas íntimos de seus personagens.

Em 1995, com "As pontes de Madison", ele se deixa levar de vez pela poética das relações humanas, numa direção e interpretação inesquecíveis, ao lado da fantástica Meryl Streep.

Sem abandonar a imagem de rude e durão, mas também sem fazer concessões ao pieguismo fácil, tão ao gosto de Hollywood, Clint vai ajustando sua câmera sem nenhum pudor para dar um close na beleza possível da alma humana, capaz de emergir do lodo, como em "Menina de ouro" (2004), ou "Gran Torino" (2008).

Chega, agora, com esse "Além da vida" (Hereafter). A narrativa e o roteiro se equilibram o tempo todo num fio de navalha sobre o qual qualquer escorregão pode transformar a história num dramalhão sem remédio. Mas o diretor não deixa que isso aconteça. Sem pressa, vai deixando emergir a delicadeza perdida no lodo do cotidiano.

Apesar de ser construído a partir de um tema polêmico, a vida depois da morte, o filme não faz proselitismo nem defende com paixão religiosa essa ou aquela posição ou conceito. Ao contrário das certezas dogmáticas, expõe nossa dificuldade em lidar com a ideia do "depois daqui", uma tradução literal do título original.

A questão da vida após a morte é apenas arranhada, ao contrário do recente e detalhado "Nosso lar", sucesso nas telas brasileiras de 2010. O que acontece no post morten é mero pretexto para que o filme nos fale da delicada relação do ser humano com seus limites, medos, buscas e esperanças.

Ao espectador, só resta contemplar a instigante, questionadora e por vezes incômoda beleza das pétalas de lótus que vão se revelando uma a uma, se entrelaçando, entre personagens e cenas, até o final igualmente delicado e suave.

Não conheço Clint Eastwood, não sei de sua vida, de suas idéias, ou de seu comportamento pessoal. Sei que sua trajetória cinematográfica reaquece minha fé no ser humano, num momento em que, pelas telas da nossa mídia, corre um rio de lama, morte, destruição, dor e sofrimento, na anunciada, previsível e absurda tragédia das enchentes.

Entre uma imagem e outra me pergunto: onde e quando florecerá, entre nós, a tão sonhada e desejada flor de lótus?

domingo, 25 de agosto de 2019

PARA UM MELHOR FIM DE SEMANA: A MOÇA NA JANELA.


Resultado de imagem para uma moça na janela
Eu passava, ou tentava passar, de carro, pela rua congestionada no acesso ao meu bairro, quando a vi, ali, distraída: uma moça na janela. Coisa rara de se ver na paisagem frenética da cidade; uma moça na janela.

Não que seja raro que elas estejam lá. Raro é que nós, os passantes, tenhamos tempo ou sensibilidade para olharmos as janelas e suas possíveis moças.

Mas ela estava lá, enquanto eu passava. Ou tentava.
O trânsito rugia, logo depois das seis da tarde. Motores e motoristas resfolegando, ameaçando os carros ao redor, engrenagens, olhares e dentes trincados, pés acionando nervosa e inutilmente o acelerador travado pela embreagem, a pressa estéril, a ansiedade frustrada.
Mas havia uma moça na janela.

Eu a vi num relance, nem perto, nem longe. Estava lá, um vulto, uma silhueta. Uma luz frágil às suas costas apenas delineava o perfil feminino adivinhado nos cabelos longos, caídos quase sobre os ombros, a mão esquecida, o olhar perdido, o cotovelo sobre o parapeito...

A moça sonhava na janela, e no seu devaneio me fazia esquecer, por um momento, a loucura à minha volta, a loucura em mim...
Drummond viu uma pedra no meio do caminho e a transformou em poesia. A moça na janela inundou tudo o que sou da mais profunda e silenciosa alegria. E, logo em seguida, de uma delicada e esquecida sensação de saudade...

Tive saudades das ruas da minha infância, onde havia tão poucos carros. Bateu em mim a nostalgia das janelas da minha adolescência, onde havia tão poucas moças, herança dessa família tão masculina. Saudades de outras moças da minha juventude, em outras janelas, vislumbres da paixão que, aos poucos, faria de mim um homem inundado de sentimentos.

Saudades da irmã, da filha que não veio. Saudades, enfim, do feminino em mim...
E assim, num átimo, em meio à saudade, cessou a pressa, calaram-se os motores, silenciaram as buzinas. Meus lábios, até então crispados, angustiados, permitiram-se um suave e terno sorriso de infância.
E em mim sorria o menino que fui, um dia. Um sorriso pascal, mais saboroso que o mais gostoso dos chocolates...

Nem tudo está perdido, pensei. Havia uma moça na janela. E sua presença, ali, anônima e intensa, era quase a garantia de que, mesmo na cidade grande, na loucura do trânsito das seis da tarde, ainda havia tempo e lugar para sonhar e viver poesia.

Mas então, simultaneamente, como se fosse um passo de dança exaustivamente ensaiado, a luz verde do sinal brilhou à minha frente e a moça, girando em câmara lenta, sumiu por trás da cortina que se fechava.

O choque de realidade percorreu meu corpo no compasso das buzinas e dos motores que de novo roncavam, ferozes, à minha volta. No retrovisor adivinhava os lábios crispados dos vizinhos de trânsito, as palavras, como rugidos, exigindo que eu engolisse logo os poucos metros possíveis cedidos pelo engarrafamento.

Mas na retina dos meus afetos, só havia a silhueta suave de uma moça na janela.

Só então me dei conta dos ombros relaxados, das mãos que tocavam suavemente o volante, os pés sem pressa, esquecidos entre o freio e o acelerador, o rosto descontraído, os lábios em teimoso e resistente sorriso.

Segui em frente e eu era outro. Ou, talvez, o verdadeiro eu mesmo. Aquele menino do tempo das saudades que ainda era capaz de contemplar e se reconhecer no vulto anônimo de uma moça na janela.
Tive mais sorte que Drummond, apesar de menos talento. Ele poderia tropeçar de novo, naquela pedra e nem sequer reconhecê-la. Eu posso, nessa crônica, dizer àquela moça que ela me humanizou um pouco mais, que sua presença ali, anônima e gratuita, foi um sopro de vida pascal na loucura de um dia que podia terminar tão somente cinzento, apressado, agônico e triste.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

TUDO OU NADA...

Resultado de imagem para TUDO OU NADA

Segundo a bela moça do tempo, na TV, o outono de 2019 teve início às 20h e 21min de um domingo, durante o equinócio de 20 de março, e vai durar 92 dias, 17 horas e 55 minutos.

Que precisão! Eu não consigo sentir tanta firmeza assim, com as loucuras do clima no nosso planeta azul. Há dias em que tenho a impressão de viver as quatro estações do ano comprimidas em 24 horas. Saio de casa, cedo, e é inverno. O outono começa ali por volta de 9 horas. O verão se faz presente ao meio dia, se estende pela tarde, até que a primavera chegue com o por do sol, colorindo mais um belo horizonte . As previsões do tempo me lembram "o samba do crioulo doido", do inesquecível Stanislaw Ponte Preta.

Sei que tem gente séria que questiona os alertas sobre as mudanças climáticas, as previsões sombrias nesses tempos de aquecimento global, mas não há dúvida de que alguma coisa está fora da ordem no que diz respeito às previsões meteorológicas.

Pode haver exageros, sim. Grandes eventos climáticos e manifestações da força brutal da natureza. Hoje, os efeitos devastadores desses eventos são maiores em função de fatores, como o aumento populacional com a consequente ocupação de áreas de risco, os contrastes econômicos que tornam países e populações pobres mais vulneráveis às forças destrutivas da natureza e o uso de tecnologias que implicam em alto grau de risco, como no caso dos reatores atômicos japoneses.

Tudo isso é verdade, mas é impossível negar as consequências da intervenção do homem na vida do planeta.

A minha vida reproduz, de certa forma, esse caminhar confuso das estações. Na infância tive o brilho da primavera. Tudo era semente e flor. Fui moleque de rua, num tempo em que ser moleque e estar na rua eram as coisas mais saudáveis do mundo. Na juventude, vivi a exuberância do verão onde tudo era promessa de frutos abundantes. A idade adulta trouxe o tempo da colheita, abundante, generosa.

No grisalho dos cabelos chego ao outono, limiar do inverno...Começo a perceber a necessidade de conferir o estoque, de verificar se consegui guardar no silo da vida o que me garanta enfrentar os rigores do tempo que virá.
Mas, por enquanto, sou outono.

Tenho apreciado momentos e pessoas que me falam da leveza e da suavidade, próprias do outono. Meu olhar contemplativo busca, cada vez mais, belos horizontes. Dentro e fora de mim.

Procuro ser fiel a velhos amigos e cultivo com prazer, esses pequenos prazeres que o cotidiano esconde e revela a quem já desenvolveu a sabedoria da busca pela simplicidade.

Tenho me percebido mais poético e apaixonado pelas pessoas a quem quero bem. Amo a vida e acho que ela vale ser vivida.

Essa leveza não me poupa de angústias, contradições e batalhas. Em algumas questões, como justiça e dignidade para todos, o sentimento é de urgência. Noutras, prefiro relaxar e deixar que a vida flua e encontre seu caminho.

Em algumas áreas, como a política, o sentimento é de decepção. Mas isso não traz desânimo ao meu outono. Convida a contemplar, com mais profundidade ainda, a paisagem à minha frente.

O outono traz temperaturas que convidam ao aconchego. Nesse aspecto gosto também do inverno, mas seus rigores nem sempre são confortáveis. Se o vento, para mim, é "noturna melodia" para muitos é apenas o frio que tortura e acrescenta sofrimentos a quem já tem tantos.

O aconchego do outono me faz mais poético. O engraçado é que percebi há algum tempo que minha sensibilidade poética tem sido muito tocada numa situação inusitada: quando estou dirigindo, no trânsito.

Ruas e estradas são, para mim, lugar de reflexão e oração. Elas traduzem um dos princípios que mais me atrai na espiritualidade: o de ser contemplativo na ação e ativo na contemplação.

Dirigir por ruas, mas especialmente por estradas, reúne, para mim, todos esses elementos. Eu estou parado no carro que se move (quando o trânsito permite...). Os cenários e personagens, em volta, são muitos e variados. Cada um com seu mistério a ser desvendado. O olhar atento, o coração a postos.

Um dia desses, num sinal fechado, paro numa esquina e espero. Passa à minha frente, um longo cortejo fúnebre. No primeiro carro, vai o caixão, as coroas de flores. Atrás, uma fila de outros veículos levando as pessoas que darão ao falecido (ou falecida) o último adeus.

Dentro de cada carro, como adivinhar o sofrimento, medir a saudade, perceber as conveniências sociais, superficiais...?
Parado no sinal, vejo a morte passar à minha frente, no seu cortejo final. Um arrepio e o verso vem:
"Minha fé anda desconfiada. Morrer: isso sim é que é tudo, ou nada..."