segunda-feira, 30 de maio de 2022

JUSTIÇA PARA OS POBRES,

Se não se é capaz de suscitar esperança para os pobres, não haverá esperança para ninguém, nem mesmo para os chamados ricos.

Compreende-se assim que a opção preferencial pelos pobres tem sentido e raízes na autêntica fé em Cristo, o Salvador e Redentor do mundo. A compreensão dessa verdade implica na consideração prioritária dos pobres em tudo, exercício humanístico e espiritual para reconhecer critérios alinhados com a defesa da justiça. Assim, a Igreja se torna, por exigência evangélica, advogada da justiça e defensora dos pobres – desdobramento e efetivação da vivência autêntica da fé. Ora, não se pode desconsiderar que a fé em Cristo nasce também da solidariedade – atitude permanente de encontro, de fraternidade e de serviço. Isto significa fazer valer uma justiça que advoga em defesa da vida, em todas as suas etapas, da concepção ao declínio com a morte natural, englobando a superação de situações ameaçadoras do meio ambiente. Dentre essas situações, uma perspectiva de certos agentes do sistema legal eivada de contaminações, particularmente daquelas advindas do espectro do lucro, de um mercado que manipula escolhas, votações e pareceres, enquadrados, não raramente, na frieza de interpretações que desconsideram a busca pela justiça.

Por isso, longe de qualquer viés ideológico político-partidário, nestes tempos difíceis, faz-se importante e prioritário partir sempre da perspectiva dos pobres, possibilidade para um novo despertar humanístico, na superação dos cenários de exclusão, de discriminações e de desigualdades sociais. O cuidado com os pobres, dedicando-lhes amável prestação de serviço, escutando seus clamores, alicerça o despertar de uma cidadania essencial a uma sociedade que precisa ser mais justa, ou sofrerá com um fracasso generalizado. Urgente é desenvolver, conforme orienta o Papa Francisco, na sua Carta Encíclica sobre a Amizade Social, a capacidade de escutar o próximo, especialmente os pobres, atitude receptiva exemplar, superando perspectivas narcisistas. Mas a cegueira imposta a partir do interesse pelo lucro a todo custo está produzindo uma séria deficiência auditiva. Cegueira moral e deficiência auditiva impostas pelo narcisismo dos que escutam apenas a si mesmos, procurando simplesmente contemplar seus próprios interesses. Posturas egoístas que acentuam freneticamente as disputas, fazendo valer tudo, a qualquer preço.

O bem da humanidade depende do reconhecimento de que todo ser humano é irmão e irmã, princípio essencial para que prevaleça uma amizade social capaz de integrar cada vez mais pessoas. A efetivação dessa meta exige o adequado exercício da política, vivida como elevada expressão da caridade, unindo pessoas em torno de processos construtivos, bem administrando diferenças para alavancar o desenvolvimento humanístico integral. É doloroso e preocupante conviver com os acirramentos, os ódios provocados pelo desarvoro de se buscar a vitória a qualquer custo, sobretudo pela destruição de reputação moral, ilusoriamente alimentando o imaginário que se pauta pela lucratividade. Uma realidade que impõe preço impagável de atrasos, danos ao patrimônio de todos, inclusive à memória histórica. Prejuízos que são fruto da inadequada relação com o meio ambiente e entre os cidadãos, com parâmetros legislativos que impõem atrasos – significativas perdas apresentadas como se fossem “progressos” e “avanços”. O alto preço pago pelos inadequados tratamentos do meio ambiente, dos cidadãos e de seu patrimônio histórico e cultural urge a união de instituições sérias que atuem como advogadas da justiça.

domingo, 15 de maio de 2022

A MÃE E O POETA

A relação com a mãe é o primeiro canal para a transcendência que o ser humano experimenta. Já desde a vida aquática e uterina, nadando nessas águas que o protegem e ao mesmo tempo o alimentam e o mantêm vivo. Uma vez saída do ventre materno, a criança experimenta sua identidade de ser relacional através da mãe, que a pega ao colo, a amamenta, a lava e cuida, e lhe devolve o olhar com o qual começa a vislumbrar a existência.

Há, portanto, na maternidade algo de sagrado, se o sagrado é precisamente esse ponto de encontro e conexão entre o biológico e a emergência da representação e da autotranscedência. São as mães aquelas que primeiro dão à criança a possibilidade de participar da riqueza destas duas dimensões: o biológico e o simbólico; o físico e o espiritual; a unidade e a pluralidade que gera a relacionalidade. É a mãe que começa a ensinar a cada um e cada uma que gestou em seu ventre e pariu para o mundo a bela aventura de viver no cruzamento entre duas exigências: uma fisiológica, corporal, sexual; outra da ordem da representação, dos ideais e dos projetos.

Assim também é a mãe que abre ao filho a possibilidade de realizar sua vocação, que é tornar-se um ser de palavra. A língua mãe será por ela pronunciada e ensinada – ao ouvido, no acalanto, nas canções – e se tornará língua falada, palavra pronunciada nos lábios do bebê que ouve e posteriormente chegará ao milagre da linguagem.

Por isso, ela aproxima o filho e através dele, os outros, da eternidade e do divino. Voltemos sobre isso ao poema de Drummond: “Mãe, na sua graça/É eternidade/Por que Deus se lembra/Mistério profundo/De tirá-la um dia?” Como aquela que tem tão inquebrantável aliança com a vida se vai deixando uma saudade e um vazio que nada preenche?

Não a resposta, mas um começo dela, está no próprio verso do poeta: Mistério Profundo. O mistério da fé é que Deus jamais abandona aquilo que criou. As mães são suas parceiras nessa obra eterna de tecer e voltar a tecer a vida, fazendo-a sempre mais complexa e mais bela. Deus é Espírito, que sopra onde quer e não se sabe de onde vem nem para onde vai. Assim é com as mães que um dia partem. Mas partindo permanecem: nos ensinamentos, na memória, nos traços que ficam nos rostos e nos corpos dos filhos, nos rastros de amor que possibilitaram tantas coisas que talvez sem esse excesso de dedicação e ternura não aconteceriam.

O poeta Drummond, depois de dizer, aborrecido que fosse ele rei do mundo baixaria uma lei de que mãe não morre nunca, chega depois à misteriosa resposta que consola os corações de todas as orfandades: “Mãe ficará sempre/ Junto de seu filho/ E ele, velho embora/ Será pequenino/ Feito grão de milho”. O desejo expresso pelo poeta, embora não seja decreto do Senhor, de certa forma se realiza.

As mães se vão, mas depois da primeira dor da irreparável perda, os filhos vão perceber que elas, de fato, não os deixaram. Estão com eles de modo mais profundo e forte do que antes. E os fazem eternamente sentir-se filhos, crianças, oferecendo seu colo uma outra vez para abrigar todo sentimento e consolar toda dor.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

HAJA CORAÇAO.

 


Passei uns dias em SP. Momentos tensos e intensos.

A tensão ficou por conta do clima de medo e insegurança que se percebe por toda parte. Com a aproximação do quase fim da pandemia, é preciso buscar um outro jeito de preservar o medo. O vírus vai, ele não.

São Paulo é a capital brasileira do Datena. Parece que você passa 24 horas dentro do Brasil Urgente.

O medo transforma a exceção em regra geral. Um motoqueiro usa a mochila do I Food como disfarce para assaltar e a partir daí todos os entregadores passam a ser suspeitos. E São Paulo é também a capital brasileira dos entregadores de moto. Daí você cruza com o medo, voando em duas rodas, a todo instante.

Não. Não sou ingênuo. A violência está aí para nos tirar qualquer traço de inocência. Há assassinatos brutais nesse tipo de assalto. Minha crítica é contra a forma como a questão é conduzida. Ao invés de se discutir alternativas educativas e oportunidades de trabalho digno para os jovens, um projeto de segurança pública mais eficaz, investimos em propagar o ódio e ampliar o medo. E o medo nos emburrece, nos devolve aos nossos instintos mais primitivos. Reduz nossa inteligência pessoal e coletiva. Ficamos à mercê de gente especialista em ganhar dinheiro com o nosso medo, como o Datena, e ganhar poder, como o presidente.

Vejam, por exemplo, o momento histórico que vivemos.

O Brasil se esforça, há décadas, para se firmar como um país sério, civilizado, democrático, mas, no momento estamos mais para uma república de bananas onde prevalece o Estado Autocrático de Direita, presidido por esse inacreditável Jair Bolsonaro. Como um sujeito tão tosco chegou aonde chegou? Graças ao medo…

Ele é tosco, mas sempre foi oportunista. Depois daquela ainda mais tosca facada, conseguiu impor um comportamento idiota a todos nós. E engolimos a isca. Graças ao medo do Lula, do PT, do Comunismo, 57 milhões de brasileiros votaram movidos, não por uma proposta de governo, mas pelo medo. O resultado, entre outros, foi o rebaixamento geral do nível de inteligência das nossas ideias e preocupações.

Gente estranha, tragicômica, grotesca, ainda mais desqualificada que o Mito, chegou com ele e passou a ocupar a cena política: Weintraub, Damares, Araújo, Pazuello, Salles, Guedes, Roberto Jefferson, general Heleno, gente sem nome, rotulada como Zero um, Zero dois e Zero três, até um troglodita descerebrado e irrelevante, Daniel Silveira, esse tipo de gente passou a pautar nossas discussões.

Temas superados, alguns desde a Idade Média, como o Terraplanismo, voltaram à pauta.

Questões sepultadas no século dezenove, como resistência à vacinação e a medidas básicas de segurança sanitária estão aí, contestadas, ridicularizadas.

Pautas de costume, questões morais, dogmas religiosos dignos de um Estado Islâmico Radical, são recheio de discursos hidrófobos da bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala).

Educação e Cultura são reprovadas há três anos e meio.

A Ciência foi pru espaço, junto com o ministro astronauta.

O meio ambiente já está chegando a ¼ do ambiente.

Mas, é preciso encontrar um culpado por esse imenso fracasso chamado Brasil Bolsonarista. E achamos. Cruzamos uma cabra com um periscópio e chegamos ao nosso bode expiatório: o entregador do I Food. Ele é o culpado das nossas mazelas e misérias. Cão danado, todos a ele!

Enquanto isso, Daniel Silveira assume cargos de destaque em cinco comissões do Congresso, entre elas, a de Educação e a de Constituição e Justiça.

Vamos ruminando nossos medos, e a boiada continua passando…

sexta-feira, 6 de maio de 2022

CARNAVAL.

 

É parte constitutiva da identidade do ser humano o elemento da festa. A festa interrompe o tempo cotidiano e introduz a diferença do ritual e da celebração, para marcar uma ocasião especial em que é preciso deixar a rotina e voltar os olhos para o extraordinário que irrompe no tempo cronológico.

Todas as festas são eventos pelos quais se entra em “outra” ordem de coisas, onde a fantasia, a imaginação e o desejo tomam lugar. Festejar, portanto, é reafirmar nossa condição de ser humano, é sublinhar o fato de que não somos guiados apenas pelos instintos e pelo kronos que implacavelmente passa. Festejar é demonstrar que temos algum poder sobre o tempo, transfigurando-o com o rito da comemoração e da celebração.

Em tempo de carnaval, mesmo fora de época como no feriado de 21 de abril, as reflexões acima se aplicariam. Somos instigados a refletir sobre o sentido e o objetivo da música e da dança, dos espetáculos cheios de luzes e cores, dos corpos desnudados e fantasiados em desfile, do samba na rua, de tudo que compõe os três dias que o povo espera com sofreguidão. Isso torna-se ainda mais importante no Brasil, país onde o carnaval ocupa lugar central no imaginário do povo. Chamado com justeza país do Carnaval, o Brasil parece que entra em câmara lenta no Ano Novo para só recuperar seu ritmo e dinamismo depois dos festejos momescos.

A alegria do povo que vai às ruas fazer festa é bendita. É cura para as dores e catarse para as opressões vividas e padecidas. Assim foi esse carnaval extemporâneo, acontecido depois da Páscoa, mas onde se expressou uma alegria pascal após tanto luto e tanta morte, como as que assolaram o povo brasileiro nos últimos dois anos. Essa demonstração de alegria encontra seu paradigma no mistério que configura o cristianismo e sua esperança no amor que é mais forte que a morte.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

SOCIÓLOGO CONSTATA O REBAIXAMENTO DA INTELIGÊNCIA DOS BRASILEIROS.


 “Neste momento, vocês estão nas mãos de um ditador”, disse o sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de O Ócio Criativo, argumentando que Mussolini, Hitler e Erdogan também foram eleitos.

Leia trechos da entrevista:

“Esta ditadura reduz a inteligência coletiva do Brasil. Durante esta pandemia, Bolsonaro se comportou como uma criança, de um jeito maluco. Ou seja, o ditador conseguiu impor um comportamento idiota em um país muito inteligente. Porque é isso que fazem as ditaduras.

Este me parece um fato tão óbvio que às vezes nos passa despercebido. Quando o país é comandado por pessoas tão tacanhas, a tendência é o rebaixamento geral do nível cognitivo da sua população.

É fácil entender por quê. Sob Bolsonaro, Damares, Araújo, Pazuello, Salles, Guedes & Cia, vemo-nos obrigados a retomar debates passados, alguns situados na Idade Média, ou no século 19, como se fossem novidades.

Terraplanismo, resistência à vacinação e a medidas básicas de segurança sanitária, pautas morais entendidas como questões de Estado, descaso com o meio ambiente, tudo isso remete a um passado que considerávamos longínquo.

Quando entramos nesse tipo de debate entre nós, ou com as “autoridades”, é como se voltássemos da pós-graduação às primeiras letras do curso elementar. Somos forçados a recapitular consensos estabelecidos há décadas, como se nada tivéssemos aprendido.

É como forçar cientistas a provar de novo a esfericidade da Terra ou a demonstrar eficácia da vacinação. Ou defender, outra vez, a necessária separação entre Igreja e Estado, mais de 230 anos depois da Revolução Francesa.

É muita regressão e ela nos atinge. De repente, nos surpreendemos discutindo o óbvio, gastando tempo com temas batidos e desperdiçando energia arrombando portas abertas séculos atrás na história da humanidade.

À parte a necessária luta política para nos livrarmos o quanto antes dessa gente, entendo que existe uma luta particular e que depende de cada um de nós: a luta para não emburrecer.

Manter a lucidez e a inteligência através da leitura de bons autores e da escrita. Manter viva a sensibilidade pela conversa com pessoas normais e pela boa música. Assistir a bons filmes para contrabalançar a barbárie proposta pela vida diária e pelas redes sociais.

Enfim, mantermo-nos íntegros e fortes para a reconstrução futura do país. Não podemos ser como eles. Não devemos imitá-los em sua violência cega. Não podemos nos deixar contaminar por sua estupidez. Eles passarão. E estaremos aqui, para recomeçar.

Provavelmente, o que leva a esse rebaixamento é o ódio e o ressentimento por levar as pessoas a se sentirem, no fundo, perdedoras (é o caso de todos os bolsonaristas que conheci mais de perto) e ter de encontrar bodes expiatórios para culpá-los. A cultura competitiva, que estabelece, com critérios perniciosos, o que é ter sucesso, faz com que quem entra nesse jogo perverso, sinta-se, no final das contas, sempre um perdedor.”

No destaque, o sociólogo Domenico de Masi (Foto: Ricardo Stuchert)

sexta-feira, 29 de abril de 2022

SÁBIAS E SEVERAS ADVERTÊNCIAS.


Em julho de 2021 o grande pensador da complexidade Edgard Morin completou 100 anos. Observador atento ao curso do mundo, entregou-nos um livro-Réveillons-nous! – Despertai! cheio de sábias e severas advertências. Resumiu seu pensamento numa entrevista à Jules de Kiss, publicada em 26 de março de 2022 na Franceinfo e reproduzida em português pelo IHU de 4/4/22. Leitor assíduo de seus escritos, esta entrevista inspirou o presente artigo.

Morin adverte aquilo que venho há muito tempo repetindo: devemos estar atentos, tentar ver e entender o que está ocorrendo. A grande maioria, inclusive chefes de estado, são inconscientes das graves ameaças que pesam sobre o planeta Terra, sobre a vida e o nosso futuro. Parecem sonâmbulos ou zumbis, obcecados pela ideia do crescimento econômico sempre crescente e também de segurança e de mais construção de armas de destruição em massa.

Vivemos sob várias crises, todas elas graves: a mais imediata é a pandemia que afetou todo o planeta cujo sentido último ainda não foi identificado. Para mim, é um sinal de que a Terra viva enviou aos seus filhos e filhas: ”não podem continuar com a pilhagem sistemática da comunidade de vida na qual se encontram os habitats dos vários vírus que nos últimos anos assolaram regiões do planeta”. Com o Covid-19 foi todo o planeta atingido, não outros seres vivos e domésticos. É um sinal de que não está sendo lido pela maioria da humanidade, nem pelos analistas, centrados nas vacinas e nos cuidados necessários. Quem se pergunta pelo contexto em que apareceu o vírus? Ele é consequência do assalto dos seres humanos sobre a natureza especialmente com o desmatamento de vastas regiões, destruindo a casinha onde habitam os vírus que passaram a outros animais e deles a nós.

Grave é a crise climática pois se não cuidarmos até o ano 2030 o aquecimento pode chegar a 1,5 graus Celsius ou mais, comprometendo a maioria dos organismos vivos e grande parte da humanidade. Junto a isso vem a Sobrecarga da Terra (Earth Oveshoot) que foi constatada no dia 29 de julho de 2021: o bens e serviços importantes para a vida estão se esgotando. Já agora precisamos de 1,7 Terra para atender ao tipo de consumo principalmente das classes opulentas. Arranca-se da Terra aquilo que ela já não pode mais dar. Ela reage aumentando o aquecimento, os eventos extremos, a erosão da biodiversidade e mais conflitos sociais.

O que funciona como uma espada de Dámocles é a possibilidade de uma guerra nuclear que pode destruir toda a vida e grande parte da humanidade. Morin escreve: “Penso que entramos em um novo período. Pela primeira vez na história, a humanidade corre o risco de aniquilação, talvez não total – haverá alguns sobreviventes, como em Mad Max –, mas uma espécie de “reinício” do zero em condições sanitárias sem dúvida terríveis”. A guerra na Ucrânia suscitou este fantasma, pois a Rússia como já dizia Gorbachev pode destruir toda a vida com apenas a metade de suas ogivas nucleares. Mas cheio de confiança de que a história anda não foi fechada, Morin afirma esperançoso:” Precisamos esperar o inesperado para saber como navegar na incerteza”.

É de todos conhecida a erosão das ideias democráticas no mundo inteiro. Está se impondo, em muitos países, como no Brasil, um espírito autoritário e fascistoide que faz da violência física e simbólica e da mentira direta, uma forma de governar. A democracia deixou de ser um valor universal e uma forma de viver civilizadamente em comunidade. Este espírito pode provocar um tsunami de guerras regionais de grande de destruição.

Temos a confiança de Morin de que, como a história tem mostrado, o inesperado e o improvável podem acontecer. Já um pré-socrático nos ensinava: ”se não esperarmos pelo inesperado, quando ele vier, não o perceberemos”. E assim o perderemos.



terça-feira, 26 de abril de 2022

TODOS DIAS AGRADEÇO.

Todo dia quando abro os olhos toda manhã a primeira coisa que agradeço é por estar vivo ao redor de tanta coisa e tanta gente morta. Figurativa ou literalmente falando. E agradeço as chances que tive e até as que perdi.

Todo o dia agradeço os amores que consolidados e os que perdi, o filho que fiz e a filha que criei e na minha contribuição pra autoajuda mequetrefe eu diria que demora pra gente perceber que é preciso pouco pra ser feliz porque vivemos numa sociedade em que todo dia se cultua o muito. E muito de muito é pouco. Quase nada.

Então por quase nada a gente perde amigos e oportunidades por ter dito aquilo que devia ter sido calado. Somos uma imensa legião de criaturas querendo fugir dos mal-entendidos, sempre engolfados em julgamentos e julgando.

Por tudo isso agradeço todos os dias por abrir os olhos me percebendo vivo mesmo que a primeira coisa que eu veja seja uma lagartixa agonizando ou um galho que apodrece na árvore vizinha. Um galho que cumpriu o seu caminho. E o galho passou e eu passarinho.

Todos os dias agradeço por existir vinho, arte e poesia mesmo que eu não esteja a altura ou não tenha dinheiro para desfrutar disso. Mas agradeço a paisagem, o vento úmido de chuva em meio ao caos, a sensação de saudade e de nostalgia, a visão de velhos tempos que contam a história da minha cidade.

Todos os dias agradeço por ter sobrevivido a um grave acidente de carro aos 21 anos, uma quase queda de cavalo aos 16, um infarto aos 57 . E acendo simbolicamente velas perfumadas para celebrar e iluminar o caminho da vida mesmo que você, amável leitor, ache essas imagens de uma pieguice fraudulenta.

Sinceramente por mais que eu respeite os que me leiam a essa altura estou cada vez menos me importando com juízos de valores diante da escrita que cometo. Escrevo porque preciso já diria Leminski o poeta paranaense. E diante desse riscado aumento meu grau de tolerância com os escritos de autoajuda porque mesmo que sejam piegas e tolos partem de um pressuposto positivo. Olhar a vida com outros olhos. Mais doces, mais generosos, bem abertos como os que tento manter todos os dias quando levanto mesmo sabendo que não me faltariam motivos para permanecer deitado. Cada vez mais o desafio para todos é ter disposição de se manter firme e ereto ao cair da cama. Sim, cair, porque é um movimento de queda quando devemos converte-lo todos os dias em movimento de ascensão e glória. Por tudo isso me rendo a autoajuda.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

PENSE NISSO:

 

UM POUCO DE DESCONTRAÇÃO NÃO FAZ MAL A NINGUÉM ...

1. O inventor da esteira morreu aos 54 anos.

2. O inventor da ginástica morreu aos 57 anos.

3. O campeão mundial de fisiculturismo morreu aos 41 anos.

4. Maradona, grande jogador de futebol, faleceu aos 60 anos.

5 . Mark Huggues fundador da herbalife morreu aos 44 anos

 JÁ...

O criador do frango frito KFC (lanche nada saudável) morreu aos 94 anos.

6. O criador da Nutella morreu aos 88.

7. Imagine, o dono dos cigarros Winston morreu aos 102 anos.

8. Aquele que se encarregou de industrializar o ópio? Morreu aos 116 anos em um terremoto.

9. O fundador dos conhaques Hennessy morreu aos 98 anos.

10. Antônio Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda, que pesa 122 quilos e jamais fez qualquer exercício segundo ele mesmo conta, tem atualmente 93 anos e goza de excelente saúde.

 Como os médicos concluíram que o exercício prolonga a vida?

Se o coelho está sempre pulando, mas vive apenas 2 anos e a tartaruga que não faz nenhum exercício, vive 100 anos.

Então vá com calma, descanse um pouco, relaxe, mantenha a calma, ame muito, coma bem, tome seu vinho, sua cervejinha.

Beba um whisky ou uma caninha de vez em quando e aproveite a sua vida com prazer!!!

👍

PS.:  Esqueceram do Hugh Hefner (criador da Playboy)? !!

Morreu aos 91 rodeado de garotas 70 anos mais novas !!!

 Mas não exagere!

24 MANEIRAS PARA ENVELHECER BEM

01- Não se meta na vida dos filhos.

02- Não interfira na educação dos netos.

 03- Ame seu genro e Nora, foi seu filho(a) quem fez a escolha.

04- Nunca tome partido ou opine no casamento deles.

05- Não fique um idoso reclamão.

06- Não seja um idoso com pena de si mesmo.

07- Não fique falando NO MEU TEMPO, ele já passou.

08- Tenha planos pro futuro.

09- Não fique falando de doenças. Tenha a certeza de que ninguém quer saber.

10- Não importa quanto ganhe, poupe todo mês uma quantia.

11- Não faça prestação, idoso não deve pagar carnê.

12- Tenha um plano de saúde ou guarde dinheiro  para despesas médicas.

13- Guarde dinheiro pro funeral ou tenha um plano.

14- Não deixe "problemas" para os filhos.

15- Não fique ligado em noticiário ou política, afinal você não resolverá nada mesmo.

16- Só veja TV para se divertir, não pra ficar nervoso.

17- Se gostar tenha um bichinho de estimação pra te ocupar.

18- Ao se levantar, invente moda: caminhe, cozinhe, costure, faça horta, mas não fique parado esperando a morte.

19- Seja um idoso limpinho e cheiroso. Idoso sim, fedido jamais.

20- Tenha alegria por ter ficado idoso, muitos já ficaram pelo caminho.

21- Tenha uma casa e um modo de vida onde todos queiram ir e não evitar. Isso só depende de você.

22- Use a idade como uma ponte para o futuro e, jamais, uma escada para o passado.

Para a ponte do futuro sempre terá companhia.

23- Lembre-se: é melhor ir deixando saudades do que deixando alívio.

Finalmente,

24- Não deixe "aquele bom vinho" (idosos não devem beber vinho ruim) e nem a cerveja para amanhã, pode ser tarde!🍷🍻.



domingo, 10 de abril de 2022

TRILHOS DE UM HUMANISMO INTEGRAL.

Refletir sobre o atual cenário mundial leva a consolidar a convicção da necessidade urgente de se promover mudanças em diversos âmbitos, por meio de variados recursos cidadãos. Incontestável é a necessidade de se investir na educação integral, capaz de alavancar transformações significativas. A educação integral é obstáculo para aqueles que dificultam os diálogos – inclusive na elaboração e efetivação de políticas públicas essenciais, a exemplo daquelas dedicadas ao campo educacional. É preocupante a cegueira do maquinário estatal, incapaz de reconhecer que a educação impulsiona a sociedade rumo ao desenvolvimento integral.

Está faltando sabedoria e entendimento humanístico para compreender que a tarefa primordial de trabalhar pela educação é responsabilidade governamental em diálogo e articulação com as famílias, as igrejas, as escolas e a sociedade civil. A carência de um humanismo integral na condução de governos obscurece processos de definição das prioridades dos investimentos mais importantes para dar novo rumo à sociedade. Os governantes não podem desconsiderar o campo da educação valendo-se da justificativa de que faltam recursos – um refrão. Precisam reavaliar prioridades, abrindo-se ao diálogo, à escuta, à avaliação de propostas. Para isso, requer-se uma competência humanística que ultrapassa a simples capacidade para fazer funcionar uma máquina estatal e governamental. Não basta simplesmente um modelo de gestão exitoso nas contas.

É fundamental deixar-se presidir por um adequado modelo de sociedade, pela abertura ao diálogo que produz entendimentos lúcidos, capazes de inspirar um novo movimento civilizatório para a humanidade. O equilíbrio das contas e a prioridade da sustentabilidade devem contracenar com um processo educativo que resgate cidadãos do lixo da corrupção, dos comprometimentos na prática da justiça e do desmonte de mecanismos que estão sustentando as exclusões, as desigualdades sociais. O esperado grande movimento transformador do mundo, que contempla a oração e as redes de serviços, envolvendo as dinâmicas dialogais, será possível pela priorização da educação, nos parâmetros do novo humanismo integral. Um humanismo capaz de debelar guerras e conflitos, colocando a civilização contemporânea sobre trilhos novos, condizentes com as suas conquistas científicas e tecnológicas. Trilhos de um humanismo integral.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

GUERRA NA UCRÂNIA.

 

No momento em que parecia que a humanidade iria emergir do pesadelo da Covid-19, o anúncio da guerra na Ucrânia caiu como uma bomba. Não há outro assunto na mídia, levantando posições diversas sobre um e outro lado desta guerra. E o que se apresenta aos olhos de todos nós é o saldo de sempre: sangue, destruição, sofrimento, vítimas e mais vítimas, sobretudo crianças e pessoas vulneráveis das vulnerabilidades tantas que compõem o cenário da vida humana neste já avançado século XXI.

Discute-se se a guerra é justa ou não; quem tem razão e quem não tem; quais implicações tem esta ou aquela tomada de posição; que organismos internacionais devem ou não intervir.

É sempre bom ouvir o que dizem sábios e justos de outras épocas que viveram situações semelhantes. Aqui trazemos a reflexão da filósofa Simone Weil, que viveu no século XX. Nascida em 1909, viveu a Primeira Guerra mundial, lutou na Guerra Civil Espanhola e morreu durante a Segunda Guerra mundial, em 1943, aos 34 anos.

Para Simone Weil, na sociedade como no mundo a ordem resulta do jogo das forças e energias que se limitam e se equilibram. Isso para ela é a imagem da pureza, o equilíbrio entre a força da gravidade e a energia da luz. Não é possível, portanto, haver relações justas entre os seres humanos senão na medida em que uns e outros sabem limitar seus desejos e não desejam se apropriar dos objetos finitos. Pois um desejo limitado pode compor com os outros desejos que a pessoa porventura tenha e com os desejos limitados das outras pessoas.

A violência surge precisamente quando o homem começa a desejar o ilimitado, ou seja, perde o freio de seus próprios desejos e/ou quando seu desejo se encontra contrariado pelos outros. Enraíza-se, então, em um desejo ilimitado que esbarra no limite constituído pelo desejo de um outro. Para Simone Weil, a justiça e a paz só podem acontecer no momento em que os seres humanos renunciam a possuir o infinito, renunciam a desejar ilimitadamente. Se não conseguem fazer isso, é preciso que a lei os constranja a isso. A lei será o limite nas questões sociais e de luta pela justiça.

A vida e o pensamento desta pensadora nos interpelam hoje, quando presenciamos nações se enfrentando e medindo forças. Na verdade, a força é, segundo ela, o que determina as relações entre os homens. E não é possível amar e ser justo senão conhecendo o império da força e sabendo não respeitá-lo. Que o mundo consiga aprender essa difícil atitude, é o que resta desejar diante da guerra que se trava neste momento, mobilizando o mundo.

segunda-feira, 28 de março de 2022

TEMPOS MODERNOS.

É um jogo. Como em todo jogo, há vencidos e vencedores. Foi exatamente isso que perceberam os gregos antigos e, séculos depois, a psicologia captou: no jogo, no esporte, a pulsão humana encontra o seu espaço de catarse. E não faz do adversário inimigo.

O Big Brother, contudo, não se compara ao teatro grego. E dissemina a cultura do buraco da fechadura, favorecida amplamente pelas redes digitais, nas quais predomina o narcisismo. Nesse jogo de espelhos, o usuário expõe, para gáudio ou inveja de seus parceiros de nicho, o que comeu no almoço, a notícia de jornal que lhe despertou mais atenção, o livro que lê, até mesmo fotos e mensagens privadas trocadas com amigos íntimos. Caiu na rede é peixe…

Se uma pessoa posta no Instagram, no Whatsapp, Facebook ou em qualquer outro canal que cortou superficialmente a mão ao usar a faca de cozinha, imediatamente o receptor se faz retransmissor, e o que foi dito a um ressoa em milhares. Como quem conta um conto aumenta um ponto, não será surpresa se, dia seguinte, houver quem diga que fulano teve a mão amputada…

A cultura do buraco da fechadura ganhou tal proporção que, se um parceiro de nicho deixa de dar notícias, logo sofre uma torrente de cobranças. “Está doente?”; “Por que não tem postado?; “O que é feito de sua vida?”

Avesso como sou à invasão de privacidade, bem sei como é isso. O direito de se resguardar virou quase uma desfeita para com os amigos. Agora o axioma não é mais “penso, logo existo”. É “existo, porque me exponho”. Como diria Chacrinha, multidões erguem as mãos na expectativa de que lhes atirem bacalhau…