terça-feira, 3 de abril de 2012

E TUDO COMEÇA A PARTIR DELE.

Um jumentinho, num certo dia, voltou para casa muito feliz. Ele contou à mãe que fizera sucesso. Fui a uma cidade, explicou, quando lá cheguei, fui muito aplaudido. A multidão gritava, populares arrancavam ramos de oliveira e mesmo colocavam mantos pelo chão. Todos estavam contentes com minha presença, finalizou. A mãe, que era sábia e velha, quis saber se ele estava sozinho e o burrinho esclareceu: eu estava levando um homem chamado Jesus.

Volta a essa cidade, pediu a mãe, mas agora sozinho. Dias depois ele fez a experiência e retornou arrasado. Não entendo o que aconteceu, queixou-se. Fizeram exatamente o inverso: nada de palmas, nada de aclamações, mas me maltrataram, xingaram e até mesmo me bateram. Não sei porque isto aconteceu comigo! E a mãe, explicou: você, sem Jesus, é apenas um jumento.
A pequena fábula propicia uma chave de leitura para a vida e a missão. João Batista já traçara a linha ideal: é necessário que Ele cresça e eu diminua. O grande orador e missionário padre Antônio Vieira dizia ter medo dos profetas de si mesmos. São aqueles que esquecem o Senhor e pregam a si mesmos.
Duas frases da Bíblia sinalizam o horizonte: “Sem mim nada podeis fazer” proclama Jesus; e São Paulo garante: “Tudo posso naquele que me conforta”.Temos os dois extremos: sem Ele, nada, mas com Ele tudo é possível. Está aí a razão do sucesso e dos fracassos . As palavras, quando não acompanhadas do testemunho, são vazias. Podem até suscitar seguidores, mas não discípulos de Jesus.
A evangelização – ontem, hoje e sempre – precisa ser centrada na adorável pessoa de Jesus Cristo. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Jesus não é apenas um dos caminhos, mas Ele mesmo é o Caminho. Jesus não veio ensinar verdades, mas Ele é a Verdade.
Escrevendo aos cristãos de Corinto, Paulo apóstolo garante que não existe outro fundamento possível. Cristo é o alicerce único. Sobre esse alicerce cada um deve construir de seu modo: com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, barro ou palha. A recompensa será proporcional ao material usado.
Felizmente Deus decidiu implantar o Reino em parceria conosco, o que de certa maneira reabilita a pretensão do pequeno jumento. Deus quis contar conosco.
O que não podemos é tentar sozinhos o que é missão feita em parceria. Devemos escolher o último lugar, que é o nosso.
E tudo começa a partir Dele.

FESTEJAR É VENCER A SEPARAÇÃO ENTRE PRESENTE,PASSADO E FUTURO

As festas se repetem. E de tanto repeti-las, parece que vão perdendo o sentido. Para bem celebrar a Páscoa é necessário recuperar o sentido do tempo e, nele, o sentido de cada festa. No agitado mundo moderno, está cada vez mais difícil encontrar tempo para festejar. O trabalho consome a maior parte de nosso tempo e de nossas energias. Levantamos cedo, fazemos nossa higiene e tomamos café correndo para apanhar o transporte que conduz ao trabalho, onde permanecemos todo o dia sem perder tempo para, no fim da tarde, voltar outra vez para casa apressados, descansar e, no dia seguinte, começar tudo de novo... Para a maioria dos jovens, a essa correria do trabalho soma-se a necessidade de estudar. Para muitas mulheres, às exigências do emprego junta-se a obrigação de cuidar da casa, do marido e dos filhos! A vida parece uma corrida contra o tempo que, como o deus Chronos da mitologia grega, nos quer devorar...
No meio de toda essa correria, o domingo aparece como um respiro, um tempo de descanso, de não ser obrigado a sair correndo, desligar o despertador e poder dormir um pouco mais... Mesmo assim, muitas vezes temos que usar o domingo para recuperar o atrasado que não se pôde fazer durante a semana. E lá se vai o tempo de descanso... Ainda bem que de vez em quando o calendário nos brinda um “feriadão”, uma folga um pouco maior para descansar. E saímos correndo para a praia ou para o interior para “não perder o tempo”!... Tão preocupados estamos em aproveitar bem o feriadão que nem nos damos tempo para perguntar o porquê deste tempo maior de descanso. É simplesmente um “feriadão”, uma interrupção no ritmo cotidiano de trabalho, de estudo. A razão do feriado, o que se está comemorando neste dia, é o que menos importa... Basta saber que temos tempo para desfrutar ou, simplesmente, não fazer nada!
Reaprender - No meio de toda essa correria, até mesmo as festas cristãs passaram a ser “feriadões”: feriadão de Páscoa, de Corpus Christi, de Aparecida, de Finados, de Natal. Fica o nome, mas ele é desvinculado da comemoração à qual faz referência. Com efeito, comemorar significa trazer à memória algo de importante que aconteceu. E fazê-lo de tal forma que aquilo que aconteceu no passado continue vivo e atuante no presente. Quando comemoramos o aniversário de uma pessoa, nos alegramos com uma vida que começou a dez, trinta, sessenta anos... e que continua viva. Normalmente, depois que uma pessoa morre, deixamos de comemorar seu aniversário porque a sua vida já terminou. Passamos a comemorar a morte dessa pessoa para dizer que a sua ausência, apesar do tempo que passa, continua a marcar nossas vidas. Ou seja, é uma ausência que continua presente.
“Comemorar” é uma outra forma de viver o tempo. Não é simplesmente deixar-se levar pelos ponteiros de relógio ou pelos numerozinhos do display digital que nos dizem que os segundos voam acumulando minutos que somam horas e juntam dias em semanas que formam meses e nos fazem ter a sensação de que nem iniciamos o ano e ele já está terminando - e que a nossa vida está passando sem que tenhamos tido a oportunidade de desfrutá-lo. O tempo assim experimentado nos consome, nos devora, sufoca, mata.
No mundo moderno da correria do tempo que parece cada vez mais acelerado, sentimos cada vez mais a necessidade de resgatar a capacidade de voltarmos a ser senhores do nosso tempo. Voltar a ver os dias de nossa vida não como obrigação, mas como festa. Festa é a capacidade de suspender o tempo do relógio e viver a intensidade do momento. A verdadeira festa é aquela que não tem hora para começar nem duração delimitada ou tempo para terminar. É a convivência gratuita em que dispensamos relógios e simplesmente desfrutamos o estar juntos. Festejar é ser capaz de vencer a separação entre passado, presente e futuro e viver a alegria da presença das pessoas com quem partilhamos nossas vidas, tenham elas vivido há muitos anos, estejam agora vivendo ou viverão no futuro.

RESSURREIÇÃO, A MAIOR DAS FESTAS.

A Quaresma começa com a Quarta-feira de Cinzas e termina na celebração da Última Ceia, na Quinta-feira Santa. Nesse tempo, os domingos não são dias quaresmais. Eles não contam na soma dos 40 dias! Domingo é o dia em que fazemos a memória da Ressurreição de Jesus. É dia de lembrar a vitória de Deus sobre a morte e por isso é dia de festa.

Dentro da Quaresma e como abertura da Semana Santa, temos a Festa do Domingo de Ramos. Nele festejamos a chegada de Jesus em Jerusalém. Junto com o povo de Israel, comparamos Jesus com Salomão, o Filho de Davi que vem montado num jumento para reinar com justiça e equidade sobre todo o povo de Deus. Como anunciara o profeta Zacarias, ele é o Filho de Davi que vem expulsar os que oprimem e fazem o povo sofrer e instaurar um tempo de justiça e de paz. Por isso, Domingo de Ramos é dia de festa, de cantar e celebrar antecipadamente o triunfo de Deus sobre todos os poderosos deste mundo que, com medo do novo que pode acontecer, querem fazer o povo calar.
E, como não há festa sem comida, o Tríduo Pascal começa com uma Ceia. Ela lembra a Última Ceia Pascal de Jesus com seus discípulos. Festa tensa, pois Jesus sabia que as autoridades, tanto judaicas como romanas, não suportavam sua presença em Jerusalém e sua mensagem de alegria e esperança. Mas, mesmo sabendo da presença à mesa de um dos que o traíram, Jesus deixou de festejar a Páscoa da libertação do Egito. E, para que continuássemos festejando a vitória da vida sobre a morte, deixou o pão repartido e o vinho partilhado como sinais de sua presença viva no meio de nós. E, no gesto do Lava-pés, nos ensinou que, na festa da vida, é maior a alegria de servir do que de ser servido.
Mas a grande festa, a mãe de todas as festas, para os cristãos, é a Festa da Ressurreição que celebramos na Vigília Pascal. É uma festa rica de elementos simbólicos: a luz que rompe as trevas da escuridão e, na vitória de Cristo sobre a morte, ilumina toda a humanidade e o mundo  O canto do Exulted, juntamente com o Glória e o Aleluia, que voltam a ser cantados, proclamam que os que crucificaram a Jesus não têm a última palavra, mas que a última palavra é de Deus que, na ressurreição de Jesus, faz justiça ao que pendeu do madeiro e a todos os que, junto com Jesus, foram e são crucificados por causa da justiça do Reino de Deus. Por isso, com o apóstolo Paulo cantamos: “A morte foi tragada pela vitória; onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”

A DATA DA PÁSCOA

A Páscoa é uma “festa móvel”, ou seja, a data muda a cada ano. Isso se deve ao fato de ser uma festa de origem judaica. Para marcar suas festas, os judeus usavam o calendário da Lua. No ocidente usamos o calendário solar. Por isso a variação de datas. No primeiro Concílio cristão (Nicéia, 325 d.C.), a Igreja manteve como critério para marcar a data de Páscoa o calendário lunar. A festa da Páscoa é celebrada no primeiro domingo após o aparecimento da lua cheia, na estação da primavera do hemisfério norte. Para nós que estamos no hemisfério sul, é outono.


CONTINUANDO: PARA QUE A LIBERDADE.

O segundo estágio da liberdade é bem situado, quando buscamos saber o “para que”. Não basta querer a liberdade, a todo custo, se não se busca um foco de valores para investir esta riqueza, tão preciosa quanto a vida. O “para que” da liberdade é que vai nos tornando livres ou escravos.

De que servem nossas pernas ágeis se não sabemos para onde dirigir nossos passos? Para que serve o melhor material de construção se não sabemos que casa vamos construir? Para que serve a mais elevada inteligência se a vida não tem direção e nem sentido? Para que servem nossas forças se nossas intenções estão voltadas para o mal?
Se desejarmos a liberdade para qualquer coisa não somos verdadeiramente livres, mas condenados à indecisão, à instabilidade e à angústia. Uma vez que superamos certas escravidões externas ou internas necessitamos defender a liberdade conquistada, garantindo que outras formas de escravidão retornem. A autodisciplina, a organização da vida e seus projetos nos tiram do deserto de uma vida sem defesa e sem seguranças.
A liberdade que se conquista precisa abrir caminhos de possibilidades, de realizações autênticas, de solidariedade e conversão que nos possibilitem sermos homens e mulheres novos, que nos aproximem dos valores propostos pelo evangelho. A liberdade nos deve possibilitar viver conforme nossa vocação. Isso implica numa alegre responsabilidade diante da vida que é dom e tarefa.
Para que a liberdade? A essa pergunta somos convidados a responder por uma opção fundamental que se torna a base de nosso viver e de nosso agir. Saber para que vivemos, para que agimos, para que lutamos e para que escolhemos este ou aquele caminho ou estado de vida.
Assim, a liberdade se manifesta como uma energia a serviço de um ideal de vida, como uma fonte a serviço da fecundidade e da esperança, como possibilidade de criatividade e iniciativas, como capacidade de autodeterminar-se para o bem e assumir decisões por motivos válidos. Para nós, cristãos, a liberdade é alguém, Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado.
Por esta liberdade, que leva a marca de autenticidade, necessitamos um projeto de vida a realizar. Ali se configura o conteúdo válido da nossa desejada liberdade. Um bom projeto de vida, na medida alta, impele o presente a movimentar-se para frente. Há uma vida escondida em nós que sustenta o nosso esperar. Roger Schutz dizia que a pessoa sem esperança ancorada no coração, perde o gosto e a coragem de avançar. Portanto, a liberdade existe para a esperança e a esperança alimenta o desejo de liberdade.
Quanto mais a liberdade se torna capacidade de amar, mais livres seremos e menos leis se fazem necessárias. É por esta razão que o melhor projeto de vida que nos forma livres é aquele que garante o aprendizado e a vivência do amor. Então conseguiremos ser livres para amar.



CRISTIANISMO: RELIGIÃO OU A SAÍDA DA RELIGIÃO?

Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé criou-se em torno dele. E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se. Por isso, tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros.

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga. Não foi possível e o próprio Paulo - judeu filho de judeus - com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios. Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente. Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galileia, tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.
Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instância normativa dentro da sociedade, para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem. O que isso quer dizer para nós hoje? Que tudo que é religioso é mau? De forma alguma.
Os gestos, os rituais, as normas, as fórmulas religiosas são boas, desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro. E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto... é resto mesmo. Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

BRASIL RUMO A REFORMA AGRÁRIA.

Caiu mais um ministro, o do Desenvolvimento Agrário. Nomeado o novo: Pepe Vargas (PT-RS), que foi prefeito de Caxias do Sul por dois mandatos e mantém boas relações com o MST. A esperança é que a presidente Dilma Rousseff tenha dado o primeiro de três passos urgentes para o Brasil não ficar mal na foto do “concerto das nações”, como diria o Conselheiro Acácio. Os outros dois são o veto ao Código Florestal proposto pelo Senado e uma nova política ambiental e fundiária que prepare bem o país para acolher, em junho, a Rio+20.
A questão fundiária no Brasil é a nódoa maior da nação. Nunca tivemos reforma agrária. Ou melhor, uma única, cujo modelo o latifúndio insiste em preservar: quando a Coroa portuguesa dividiu nossas terras em capitanias hereditárias.
Desde 2008, o Brasil ultrapassou os EUA ao se tornar o campeão mundial de consumo de agrotóxicos. E, segundo a ONU, vem para o Brasil a maioria dos agrotóxicos proibidos em outros países. Aqui são utilizados para incrementar a produção de commodities.
Basta dizer que 50% desses “defensivos agrícolas” são aplicados na lavoura de soja, cuja produção é exportada como ração animal. E o mais grave: desde 1997 o governo concede desconto de 60% no ICMS dos agrotóxicos. E o SUS que aguente os efeitos... nos trabalhadores do campo e em todos nós que consumimos produtos envenenados.
Os agrotóxicos não apenas contaminam os alimentos. Também degradam o solo e prejudicam a biodiversidade. Afetam a qualidade do ar, da água e da terra. E tudo isso graças ao sinal verde dado por três ministérios, nos quais são analisados antes
de chegarem ao mercado: Saúde, Meio Ambiente e Agricultura.
É uma falácia afirmar que os agrotóxicos contribuem para a segurança alimentar. O aumento do uso deles em nada fez decrescer a fome no mundo, como indicam as estatísticas.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenta manter o controle sobre a qualidade dos agrotóxicos e seus efeitos. Mas, quando são vetados, nem sempre consegue vencer as pressões da bancada ruralista sobre outros órgãos do governo e, especialmente, sobre o Judiciário.
A Cúpula Mundial do Meio Ambiente na África do Sul, em 2002, emitiu um documento em que afirma que a produção mundial de alimentos aumentou em volume e preço (devido ao uso de agrotóxicos e sementes transgênicas). À custa de devastação dos solos, contaminação e desperdício da água, destruição da biodiversidade, invasão de áreas ocupadas por comunidades tradicionais (indígenas, clãs, pequenos agricultores etc.). Fica patente, pois, que a chamada “revolução verde” fracassou.
Hoje, somos 7 bilhões de bocas no planeta. Em 2050, seremos 9 bilhões. Se medidas urgentes não forem tomadas, há de se agravar a sustentabilidade da produção agrícola.
Diante desse sinal amarelo, o documento recomenda: reduzir a degradação da terra; melhorar a conservação, alocação e manejo da água; proteger a biodiversidade; promover o uso sustentável das florestas; e ampliar as informações sobre os impactos das mudanças climáticas.
Quanto aos primeiro e terceiro itens, sobretudo, o Brasil marcha na contramão: cada vez mais se ampliam as áreas de produção extensiva para monocultivo, destruindo a biodiversidade, o que favorece a multiplicação de pragas. Como as pragas não encontram predadores naturais, o recurso é envenenar o solo e a água com agrotóxicos. E com frequência isso não dá resultado. No Ceará, uma grande plantação de abacaxi fracassou, malgrado o uso de 18 diferentes “defensivos agrícolas”.
Tomara que o ministro Pepe Vargas consiga estabelecer uma articulação interministerial para livrar o Brasil da condição de “casa da mãe Joana” das multinacionais da insustentabilidade e da degradação do nosso patrimônio ambiental. E acelere o assentamento das famílias sem-terra acampadas à beira de rodovias, bem como a expropriação, para efeito social, de terras ociosas e também daquelas que utilizam mão de obra escrava.
Governo é, por natureza, expressão da vontade popular. E a ela deve servir. O que significa manter interlocução permanente com os movimentos sociais interessados nas questões ambiental e fundiárias, irmãs siamesas que não podem ser jamais separadas.

VAMOS NOS CORRIGIR

Somos assim. Pregador da fé não gosta de ser corrigido nem pelo seu melhor amigo, muito menos por alguém menos culto e menos santo do que ele. É por isso que poucos pregadores se atrevem a pregar aos colegas pregadores. Se falar do padre que bebe ou do pastor que faz milagres falsos não será ouvido. Ele também tem seus pecados.
Se falar do padre ou pastor que exagera na arrecadação será ridicularizado. Se falar de afetos de mundanidade, de vulgaridade de relações suspeitas com homens, de pedofilia, de moças, não será ouvido. Sabe lá se ele também não tem suas misérias!
O medo de corrigir o outro e de aceitar correção nos torna ainda mais sujeitos ao erro. Nossos telhados de vidro nos acovardam. Mas frota de aviões nas quais nenhum corrige seus pequenos desvios de rota corre o risco de espatifar-se na montanha. Não cai apenas um avião. Caem muitos!

A CORRUPÇÃO DESENFREADA E O NOSSO PAPEL COMO CIDADÃO...

O crescente número de denúncias de corrupção envolvendo órgãos oficiais brasileiros remete à pergunta: as irregularidades sempre existiram em quantidade e abrangência similares às de hoje mas só recentemente passaram a ganhar publicidade, ou elas se multiplicaram à sombra da impunidade?

A resposta não é tão simples. Provavelmente tenha ocorrido as duas coisas: mais casos obtiveram exposição a partir da ação investigativa da imprensa e do trabalho policial e, ao mesmo tempo, a inexistência de punições severas estimulou os golpistas.
O fato é que a periodicidade com que as denúncias ganham manchetes encurtou - a do ano passou a ser mensal, e esta, semanal ou até diária. Corruptos e corruptores demonstram não ter limites para agir, nem poderes constituídos a respeitar. Investem contra a saúde, a educação, o transporte, as rodovias - minam, esvaziam orçamentos, esbaldando-se em desonestidades que vão das tradicionais comissões ao abusivo superfaturamento.
Atacam o dinheiro que poderia salvar vidas com a construção de hospitais; a verba que ergueria escolas ou levaria água e energia elétrica a comunidades carentes; até a que compraria alimentos para famintos. Acumulam escândalos, reincidem, mas a maioria não passa da denominação de suspeito, mesmo alguns enlameados por operações policiais. Até quando?
Punir com rigor é uma forma de conter essa avalanche de crimes. Mas existe outra, com raízes mais profundas, que passa pelo comportamento da sociedade: combater as pequenas irregularidades que perpassam todas esferas sociais, as atitudes antiéticas do cotidiano com as quais as pessoas se acostumaram a conviver por omissão ou por também serem beneficiadas com vantagens. Além da indignação, do lamento e da estupefação pela ousadia e descaramento com que quadrilhas dilapidam cofres públicos, ao cidadão cabe o dever de reagir.

DEUS.

Deus

Passei tanto tempo te procurando.
Não sabia onde estavas, olhava para o infinito,
não te via.
E, pensava comigo mesmo, será que tu existe?
Não me contentava na busca e prosseguia.
Tentara te encontrar nas religiões e nos templos.
Tu também não estavas.
Te busquei através dos sarcedotes e pastores,
também não encontrei.
Senti-me só, vazio, desesperado descri.
E na descrença te ofendi.
E na ofensa tropecei.
E na queda senti-me fraco.
Fraco procurei socorro.
No socorro encontrei amigos.
Nos amigos encontrei carinho.
No carinho eu vi nascer o amor.
Com amor eu vi um mundo novo.
E no mundo mundo novo resolvi viver.
O que recebi resolvi doar.
Doando alguma coisa muito recebi.
E em recebendo senti-me feliz.
E ao ser feliz encontrei a paz.
E tendo paz foi que enxerguei.
Que dentro de mim é que tu estavas.
E sem procurar-te
Foi que encontrei.

domingo, 1 de abril de 2012

PERDAS E DANOS...

Com dias de diferença apagaram-se dois poderosos fachos de luz, duas pilhas de inteligência. Contraditórios, opostos, singulares, ímpares e pares. Iguais: escolheram o riso como ferramenta, mas rir não se resume à mera contração de músculos da face, é uma demonstração espontânea de alegria, satisfação, prazer íntimo ou coletivo. Em qualquer dos seus níveis – do sorriso à gargalhada – independente do seu teor – ironia, sarcasmo, deboche, graça – o riso é uma infalível arma de destruição da arrogância e do rancor.

Chico Anysio e Millôr Fernandes foram mais do que humoristas. O cearense foi ele próprio o veículo dos seus achados antropológicos, primeiro no rádio, depois teatro e televisão. Com aquele corpo mirrado e olhos arregalados veiculou uma magistral galeria de mais de 200 personagens, impagável retrato das mazelas brasileiras.
O carioca Millor serviu-se do desenho e da palavra para nos fazer pensantes. Filósofo que dialogou com ele mesmo para derrubar fraudes, equívocos, lorotas. Usou linhas, tintas, penas, lápis, máquinas. Despreocupado com maquinetas nos fez herdeiros de um formidável acervo de dúvidas e incredulidades.
Coisas do livre-arbítrio. Mas o dano é irreparável no plano moral e institucional. Uma sociedade dominada pelo ceticismo e desanimada diante do elenco de nulidades que se exibe no pódio está sendo empurrada inexoravelmente para o abismo da descrença onde geralmente costumam germinar indignações e revolta.

Crias de um mesmo Rio de Janeiro hoje evaporado, momento urbano indizível. Irreproduzível no tempo e no espaço. Nem suas cinzas esvoaçam juntas. Melhor assim: espalhadas, derrubarão mais farsas e solenidades. Resistiram à Parca, sofreram, não mereciam. Numa terra onde as perdas são disfarçadas Chico e Millôr serão incorporados ao panteão dos que incomodam. E lá ficarão para sempre.

Qual dos dois forjou esta arrasadora sátira onde um moralista com o mesmo nome do sublime orador grego desaba desmoralizado perante a multidão incrédula?
A história do até-agora-senador Demóstenes Torres é tragicômica, joco-séria, pastelão mórbido. Veio do impoluto Ministério Público, procurador geral e secretário de Segurança de Goiás, senador da República, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, líder do DEM na Câmara Alta, incansável caçador de corruptos, chegou a ser considerado uma das 100 personalidades mais influentes do país.
De repente despenca, enredado na quadrilha do contraventor-mor, Carlinhos Cachoeira. Incrível o volume de menções ao seu nome em gravações legais com referências explícitas a tarefas e quantias recebidas. Seu mandato está ameaçado, carreira política praticamente encerrada.
O senador Torres comprometeu o país, sua capacidade de superação e regeneração, pisoteou os valores que cimentam uma nação. Demóstenes, o grego gago, fez da eloqüência uma arte, este homônimo nos empurra para a chacota.
A verve de Chico Anysio e Millôr Fernandes já faz falta.