terça-feira, 7 de janeiro de 2020

JÁ OUVIU FALAR E, DEEPFAKES?

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Apavorante. Em deepfakes eles podem tirar sua roupa, fazer você falar o que quiserem, colocar você em qualquer lugar do mundo, ou até participando de um animado vídeo pornô. Muito mais. Pior: dependendo do que possam pretender, nem precisam de você. Podem criar as pessoas que quiserem com as características e pensamentos que bem entenderem.

São Tomé? Já era. Essa de acreditar só no que se vê está indo por terra e em toda a Terra. Estamos em perigo real, de vermos criados mundos paralelos completos, como a própria Criação, como religiosamente acreditamos que foi. Sete dias, descanso, costelas, ceias – tudo ultrapassado. Sairão de máquinas potentes, hardwares, guiados por mentes com domínio tecnológico, e nos serão apresentados em vídeos tão perfeitos que não será possível perceber sua manipulação. Com eles, facilmente o sentimento coletivo poderá ser manipulado.

São deepfakes, vídeos criados por softwares de inteligência artificial, que conseguem utilizar fotos e gravações da voz de alguém para criar um vídeo falso dela, mostrando não apenas ela fazendo algo que nunca fez como ainda dizendo algo que nunca disse. Ou criar essas pessoas, totalmente virtuais, com idades, raças, credos, ideologias, gêneros. Que surgirão buscando nos influenciar, domesticar, pensar como elas, até nos fazer ter raiva de outras que sejam reais. Distopia total.

Se hoje nem as fake news conseguem ser combatidas, imaginem se esses novos monstros o serão em curto espaço de tempo. A inteligência artificial aprimorada aprendendo, sendo nutrida por informações, a criar um mundo falso em algoritmos.

Apavorante, repito. Discursos de ódio, manipulação nas eleições, ataques aos movimentos sociais, as relações humanas, tudo poderá ser afetado de forma ainda mais violenta do que o que já vem ocorrendo celeremente em todo o mundo. Tudo virtual, não haverá como prender o autor de calúnias, difamações, informações falsas que aparecem nas imagens, porque ele simplesmente não existirá. E o mundo ainda não está preparado para capturar os jovens, em geral, muito jovens, que já detêm essa tecnologia, a operam cada vez melhor, e estão gostando muito, orgulhosos dessa brincadeira que inventaram. Sem limites, farão nascer exércitos que hipoteticamente podem ser maiores do que os chineses, com a fidelidade dos soldados norte-coreanos, e com a loucura dos radicais.

Fica a dúvida: como agirão quando tiverem noção do poder que essa poção mágica poderá lhes proporcionar? Devemos temê-los? Afinal, estarão criando uma nova civilização. Como se deuses fossem. De mentira. Mas o que é verdade, ultimamente?

domingo, 5 de janeiro de 2020

UMA SOCIEDADE PONTUADA POR EXTERMÍNIOS.


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Há progressiva banalização do mal, sombra a ser combatida pela luz da estrela que brilha mais forte neste tempo. Essa luz adverte todos de que é preciso mudar de rumo, com urgência e com velocidade, para que não se perpetue, especialmente na sociedade brasileira, um cenário infernal. É necessário consolidar nova realidade a partir das dinâmicas da fraternidade, de uma alegria que nasce do exercício da solidariedade, do orgulho santo de pertencer a um mesmo povo, de viver em um país com riquezas culturais e naturais diversas, com potencial para ser uma sociedade exemplar. Nesse sentido, um raio de luz da estrela deste tempo aponta para as responsabilidades que precisam ser assumidas por governantes, legisladores, autoridades da justiça, formadores de opinião, construtores da sociedade pluralista e cidadãos. Todos são instados a exercer suas responsabilidades com coerência para impedir a consolidação de uma sociedade pontuada por extermínios.
As estatísticas de mortes são alarmantes, e os governantes não podem alimentar a violência com a adoção de posturas que, a partir do pretexto de se buscar a defesa de valores, apenas iludem e ainda alimentam descompassos sociais e políticos. Também o contexto jurídico está desafiado a contribuir mais significativamente, com adequada interpretação das leis, no estabelecimento da ordem democrática, para evitar que se consolide, cada vez mais, um cenário caótico na sociedade brasileira.

Vencer o processo que pode levar a uma sociedade de extermínios exige de todos investir em novas atitudes balizadas por uma linguagem adequada, que não incite mais desgovernos e perdas, e pelo altruísmo de cada pessoa, particularmente, para vencer as idolatrias geradas pela sedução patológica do dinheiro. Há uma cega ambição que leva à busca sem limites pelo acúmulo de bens, com lógicas que justificam um desenvolvimento econômico em benefício de pequenos grupos, enquanto empobrece grande parte da população. É perigoso permanecer neste caminho e esta advertência não é agouro, mas convite para mirar-se na estrela deste tempo do Natal, deixar-se guiar por ela, até a fonte da verdadeira humanidade.

Deus, o único capaz de promover um “novo natal” para a sociedade, permite livrar-se do mal que leva não somente indefesos e pobres ao sofrimento, mas também aqueles que detêm muito dinheiro e poder. É oportunidade para enfrentar a indiferença e a banalização do mal, que colocam sob risco o patrimônio natural, por falta de conversão ecológica, e a cultura, a partir de perversas relativizações, hábitos, práticas e escolhas. Enfrentar males que também provocam a deterioração religiosa, particularmente por uma proposta de cristianismo “torto”, por pretensões políticas incabíveis e pela perda do sentido de pertencimento que gera respeito solidário, compaixão pelos enfraquecidos e pobres. Uma religiosidade que não indica o caminho para o bem viver - fundamentado na simplicidade e no reconhecimento da vida como dom. A estrela luzente do Natal conclama providências e adotá-las é uma urgência, pois, definitivamente, não há como viver em uma sociedade de extermínios.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

QUERIDA AMÉRICA LATINA

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A América Latina, com 638 milhões de habitantes, é hoje a região de maior desigualdade no mundo. Após uma década de redução da pobreza e da desigualdade, os índices voltam a preocupar, devido à sonegação fiscal e o corte de programas sociais. Como as economias nacionais retrocederam, hoje 20% da população são considerados vulneráveis. E 122 milhões de pessoas que deixaram a pobreza, mas não conseguiram se incluir na classe média, podem perder o pouco que obtiveram.

Em 2002, 44,5% dos latino-americanos viviam na pobreza, dos quais 11,2% na miséria. Hoje, entre a pobreza e a miséria vivem 30% da população do Continente, ou seja, 210 milhões de pessoas.

Nenhum outro continente foi tão oprimido quanto o americano. Na Ásia predominam olhos puxados. Na África, a população negra. Aqui escasseia quem possua traços indígenas. Já no primeiro século da colonização continental calcula-se que 70 milhões de índios foram massacrados pelos colonizadores europeus.

Desde 2014 há forte queda da participação latino-americana no comércio mundial, e redução relativa do preço dos principais produtos sul-americanos. Alguns países puxam o aumento da desigualdade na região: de longe, a Venezuela, pela recessão econômica sem precedentes, e também Brasil e Argentina.

Graças a governos progressistas instalados no Continente a partir de 1998, desde 2003 mais de 72 milhões de latino-americanos deixaram a pobreza, segundo dados da Oxfam. Isso ocorreu devido ao aumento do salário mínimo e dos gastos públicos em políticas sociais, e o aprimoramento da educação fundamental.

Esse reempobrecimento da população decorre não apenas de fatores econômicos, como o fim do boom das commodities, mas também de redução das políticas sociais, em especial nos países afetados por golpes parlamentares, como Honduras, Paraguai e Brasil, e que nos últimos anos foram governados por presidentes neoliberais, como Argentina e Chile.

Em matéria de educação, o Brasil ainda não atingiu o patamar médio dos países latino-americanos. Aqui os alunos do ensino médio permanecem na escola cerca de quatro horas por dia. A média continental é de seis horas.

A América Latina não encontrou ainda seu modelo de desenvolvimento sustentável. Todos os países continuam na dependência de suas exportações, ou seja, sujeitos aos interesses das nações metropolitanas e às oscilações do mercado.

O Continente não terá futuro enquanto não alcançar justiça fiscal, ou seja, o imposto progressivo (quem ganha mais, paga mais), a redução da corrupção e o aumento dos gastos em políticas sociais.

No Brasil, o retrocesso nos índices sociais aumenta com a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, que cortaram substancialmente direitos conquistados nas últimas sete décadas. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), com base em dados do Portal do Orçamento do Senado, publicado em julho, demonstra que os cortes de verbas promovidos por Bolsonaro nos seis primeiros meses de governo pouparam setores historicamente privilegiados como Legislativo e Judiciário, e se concentraram em áreas relacionadas com a garantia de direitos humanos. Habitação, educação, defesa e direitos da cidadania foram as áreas mais atingidas pela política de cortes de recursos que, de janeiro a junho deste ano, já somam R$ 31 bilhões. Isso significa menos emprego, menos moradia, menos saúde e educação, menos pão na mesa do brasileiro.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

DIREITA E ESQUERDA.

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Mas o que distingue direita e esquerda?

Para a direita o valor supremo é a liberdade individual, que dever ser protegida da ação do Estado, já para a esquerda o grande valor é a igualdade, cabendo ao Estado agir para combater as desigualdades sistêmicas.

Essa é a distinção fundamental entre os dois campos, dai a atualidade dos termos direita e esquerda.

O debate poderia ser esse: liberdade individual ou igualdade? Nicola Matteucci, por exemplo, afirma que direita e esquerda não são valores, são apenas termos vazios e que a verdadeira disputa é entre liberdade e igualdade. Já Norberto Bobbio afirma que “... a liberdade pode ser tanto de direita quanto de esquerda, e a verdadeira disputa entre direita e esquerda repousa em atribuir maior estima à igualdade ou à diversidade”.

Os nossos amigos de direita dirão: “ora, nós de direita, ao contrário da ‘esquerdalha’,defendemos a liberdade e a igualdade.”. Será verdade?

Ser de direita significaria, portanto, acreditar que o enriquecimento seria a recompensados mais empreendedores, ou mais corajosos, ou mais capazes e de seus herdeiros, que a propriedade privada não seria a causa da desigualdade, mas uma consequência da desigualdade natural. É porque são muito variadas as habilidades e disposições que distinguem os homens que, segundo os defensores de uma natureza humana rígida e inflexível, existe a propriedade privada, e não o inverso. A diversidade entre os indivíduos, inata ou adquirida, seria o fundamento da desigualdade social. Em consequência, o capitalismo seria o horizonte histórico possível e o limite do desejável. Porque com o capitalismo, em princípio, qualquer um poderia disputar o direito ao enriquecimento.

Ser de esquerda significa reconhecer que os seres humanos são distintos uns dos outros, que possuímos capacidades e talentos diferentes. Que uns são mais ágeis e outros mais articulados, uns musicais e outros enérgicos, uns impulsivos e outros reflexivos, contudo, as necessidades materiais e culturais mais intensas são comuns a toda a humanidade. A necessidade de abrigo e alimento, de educação e saúde, de segurança e lazer, de informação e aprovação, de trabalho e reconhecimento é universal. Que é a exploração de uns pelos outros a causa da desigualdade, e não o contrário.

Bem, eu acredito que a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo, nossa essência é o conjunto de relações sociais, acredito que a humanidade é igual e desigual, porque diversa. Acredito que compartilhamos, essencialmente, as mesmas necessidades, num mundo essencialmente desigual, acredito na necessidade e na urgência da união das forças democráticas.

Será possível uma frente composta de democratas de direita, centro e esquerda vencer o proto fascismo vicejante?

Essas são as reflexões de hoje, de que lado você está?

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2020: NASCER DE NOVO.

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Estamos à porta de 2020. E o que fizemos de nós mesmos em 2019?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

ESPIRITUALIDADE É A JANELA DA NOSSA VOCAÇÃO.

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Há três coisas inerentes aos seres humanos: nutrição, sexualidade e espiritualidade. São as fontes de nossa existência. Pela nutrição, desenvolvemos e asseguramos a saúde; pela sexualidade, preservamos e multiplicamos a espécie; pela espiritualidade, transcendemos a nós mesmos, relacionando-nos com a natureza, o próximo e Deus.

Sem ingerir alimentos ninguém vive. De nossos cinco sentidos, o paladar é o primeiro a ser ativado. Ainda na fase intrauterina sugamos os nutrientes maternos. Por isso, este é o mais arraigado dos sentidos. Ao mudar de país, modificamos hábitos, adotamos outro idioma etc., mas jamais trocamos de paladar. Como a linguagem, ele é fator primordial de identificação. Na Austrália ou no Alasca, um brasileiro experimenta indizível prazer ao comer arroz com feijão ou manga e abacaxi.

A comensalidade é o mais humano de nossos atos. Nenhum outro animal cuida de preparar os alimentos e, em seguida, sentar em torno da mesa acompanhado de seus semelhantes. Só nós, humanos, fazemos do preparo dos alimentos uma arte – a culinária. E um ritual – estar à mesa e obedecer a um ritual: talheres, guardanapo, pratos, travessas... E nada pior do que comer sozinho. Comer é comungar, partilhar. É ação ressurrecional. A carne que nos alimenta é um animal que morreu para nos dar vida, assim como a salada, um vegetal, ou o arroz e feijão, cereais... A vida é sempre reciclável. Em torno da mesa dou ao outro algo de mim mesmo. Ele se “alimenta” do meu ser, assim como eu do dele.

A sexualidade pode ser sublimada, reprimida, mas nunca ignorada. É o reflexo da idade que a vida tem em nosso planeta: cerca de 3,5 bilhões de anos. Ela assegura a cadeia geracional que veio se aperfeiçoando desde as trilobitas até o ser humano. É a mais significativa manifestação de que a vida é um fenômeno intrinsecamente comunitário.

A libido, como ensinou Freud, pode ser canalizada, mas não descartada. Nem Jesus deixou de ter pulsão sexual. A questão é saber em que nível se manifesta a nossa sexualidade, como porno, eros, filia ou ágape. Como porno (donde pornografia) o meu prazer é a sua degradação; como eros (donde erotismo) o meu prazer é também o seu; como filia (donde filia + sofia = amizade à sabedoria, filosofia), o prazer reside na amizade, na cumplicidade; como ágape, nossos prazeres culminam na felicidade, na comunhão espiritual entre dois seres que se amam.

Graças à ciência moderna, a sexualidade não está mais atrelada à procriação, o que permite que exista como sacramento amoroso, de interação física da comunhão espiritual. O inverso é perverso: a sexualidade como mero prazer físico, imediato, sem mediação da subjetividade.

Espiritualidade é a janela de nossa vocação à transcendência. Podemos canalizá-la para o consumismo, o mercado, o poder ou escolher o dinheiro no lugar de Deus (Mateus 6, 24), mas ela está sempre presente, pois imprime sentido à nossa subjetividade e, portanto, à existência. Portanto, precede a experiência religiosa, assim como o amor antecipa e fundamenta a instituição familiar. Convém lembrar: Deus não tem religião.

A vida espiritual nos induz à comunhão com Deus e reativa a nossa potencialidade amorosa. O caminho mais curto não é ser amoroso com o próximo para, em seguida, amar a Deus. Ao contrário, invadidos pelo amor de Deus transbordamos amor na direção do próximo.

A comunhão com Deus tem duas vias. A mais em voga imagina que Deus é alcançável pela escalada de nossas virtudes morais. Quanto mais puros e santos, mais próximos estaremos de Deus. A via evangélica adota a direção contrária. Deus é amor e irremediavelmente apaixonado por cada um de nós. Nenhum pecado faz com que ele se afaste de nós e deixe de nos amar. Portanto, basta-nos abrir o coração ao amor divino.

É como a relação de um casal: o homem se sente tão amado e ama tanto a sua mulher que não consegue deixar de ser fiel. Assim é a relação com Deus. Em respeito à nossa liberdade, ele espera apenas que decidamos nos abrir mais ou menos ao seu amor, que é terno. E o método mais fácil a essa abertura é a oração, em especial a meditação, que nos permite descobrir Deus no âmago de nosso ser, e no serviço aos mais pobres, sacramentos vivos da presença de Cristo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

FELIZ ANO NOVO AOS QUE SABEM FAZER OS OUTROS FELIZES.

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Feliz Ano Novo a quem alarga o horizonte da utopia e espelha a diversidade de gênero nas cores do arco-íris. E aos que proclamam a soberania do amor como lei irrevogável.

Feliz Ano Novo a quem teme sombras de coturnos e aos que se atrevem a ressoar a voz de quem a exclusão silencia, para que também tenha vez.

Feliz Ano Novo aos que livram a democracia de suas algemas liberais e insistem que ela também floresça lá onde a economia impõe a afronta de poucos terem muito e muitos sobreviverem com quase nada.

Feliz Ano Novo aos artistas que fazem da palavra eco de esperança e desnudam, com suas obras, os figurinos da hipocrisia que encobrem a realidade.

Feliz Ano Novo a quem se recusa a beber a cicuta do ódio à espera de que outros morram. E aos que reverenciam a alteridade como ponte que separa a diferença da divergência.

Feliz Ano Novo aos alpinistas da solidariedade, que escalam confiantes a montanha da indiferença para desfraldar, no topo, a bandeira da ontológica sacralidade de cada ser humano.

Feliz Ano Novo a quem é capaz de enxergar os fenômenos sociais além dos efeitos, e reconhece que entender o capitalismo não requer estudos nem decifrar os índices do mercado. Basta sair à rua e ter cuidado de não pisar nos pedintes estendidos pelas calçadas.

Feliz Ano Novo a quem não divorcia liberdade de justiça e não se refugia em sua ilha de conforto cercada de egoísmo mórbido. E a quem se irmana a todos que lutam para que o pão nosso não seja apenas um verso da oração ensinada por Jesus.

Feliz Ano Novo aos que se despem de toda arrogância para desinvisibilizar aqueles que, na loteria biológica, não mereceram o prêmio de uma vida digna. E a quem desconsidera privilégio ter mais alimentos que apetite, e faz disso uma dívida social.

Feliz Ano Novo a quem cultiva seu jardim de valores éticos e ousa abdicar de todo poder capaz de fomentar opressão, discriminação e sofrimento.

Feliz Ano Novo a quem guarda a memória do passado sombrio e não permite que se apaguem as luzes do alvorecer democrático. E a todos que reforçam os laços das demandas populares e tornam ensurdecedor o grito parado no ar.

Feliz Ano Novo a quem não renuncia ao riso nem se deixa abater pelas diatribes do terror. E a todos que impedem que a noite devore o dia, o sol seja engolido pelos buracos negros, e a liberdade trocada pela segurança.

Feliz Ano Novo aos que ousam apontar que o rei está nu e se empenham em arrancar-lhe a coroa. E a quem anuncia aos quatro ventos que não há súditos, somos todos majestades.

Feliz Ano Novo a quem guarda saudades do velho e se paralisa diante da pedra no caminho. E a todos que descobriram que o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Feliz Ano Novo a todos que se sabem habitantes de um minúsculo planeta situado em uma pequena galáxia do Pluriverso e, por isso, aprenderam a recolher as asas da afetação. E a quem garimpa a própria subjetividade em busca de preciosidades inefáveis.

Feliz Ano Novo a todos que desnaturalizam a desigualdade social e se sentem tocados pelo dor alheia. E a quem se desassossega perante os arautos da fatalidade e se soma aos iconoclastas do mercado.

Feliz Ano Novo a todos que, conscientes de que o humano vem com defeito de fabricação e prazo de validade, se despem da empáfia e contabilizam seus erros como lições no rumo da transparência.

Feliz Ano Novo a quem sabe que a fonte da felicidade é fazer os outros felizes. E que um dia abracem esta verdade todos que atropelam os semelhantes com a sua soberba, seus preconceitos e sua voracidade de prazeres. Empanturrados de si mesmos, ignoram que o melhor roteiro turístico é o que nos faz viajar para mergulhar nas aventuras do espírito. No avesso de si, então se encontra o dom do outro. O resto é silêncio.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

RENASCENÇA SOLIDÁRIA

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Neste Natal, quero me despojar de todo visgo consumista e, de presentes, dar e receber apenas presenças. Haverei de partilhar o pão do espírito e a fome de beleza. Não permitirei que o sal da amargura roube a alegria da renascença solidária.

Manterei mudo o celular para escutar minhas vozes interiores. Pela via da oração, buscarei intuir o que Deus sussurra ao coração. Livre de amarras virtuais, irei ao encontro de diálogos reais. E me recusarei a beber a copa de ódio com a qual brindam os que conhecem apenas um mandamento: armar uns aos outros.

Neste Natal, não mais admitirei que os conceitos flutuem nos tetos das academias e que as palavras sejam oxidadas pelo discurso insano de quem invisibiliza seus semelhantes. Farei com que a verdade seja, de fato, a adequação da inteligência ao real. E espalharei por toda a cidade as pétalas da rosa dos ventos, para que perfumem o futuro isento das trevas do passado.

No bazar das hipotecas, não aceitarei trocar liberdade por segurança. Armarei o presépio no espaço inconsútil de minha subjetividade e, atento, escutarei o que o Menino tem a segredar ao ouvido do menino que ainda perdura em mim.

Neste Natal, não irei às lojas nem prestarei culto ao fetiche da mercadoria. Limparei toda a neve retórica que se acumula sobre o desassossego dos excluídos, para que a transparência cale a insolência dos arrogantes. Despedirei Papai Noel para acolher o Deus criança. E cantarei um bendito a todos que guardam o pessimismo para dias melhores.

Não permitirei que a ira e o ressentimento me acerquem da sanha assassina de Herodes. Seguirei a estrela de Belém até que me conduza à fonte da bem-aventurança da fome e sede de justiça.

Neste Natal, descartarei nozes e castanhas para me inebriar de aleluias. E convidarei à ceia aqueles que a ganância afasta do pão deles de cada dia. E reafirmarei meu radical ateísmo ao deus que suporta, indiferente, o mundo no qual poucos têm muito e muitos têm pouco.

Não darei falsos abraços a quem retorce nós em meus laços. Nem erguerei a minha taça de vinho àqueles que oferecem cicuta. Festejarei tão somente com quem trilha comigo as sendas da utopia e acredita que o mundo será melhor quando o menor acreditar no menor.

Reunirei músicos que, abraçados às suas violas, haverão de ressignificar a palavra violência, assim como é prenúncio de paz a paciência. Livrarei a festa de Jesus desse punhado de gente que, sem sabor de comunhão, recheia de prendas o vazio do coração.

Neste Natal, quando o canto do galo despertar outros galos e repletar a aurora de encantos, dobrarei os joelhos ao mistério da vida e ao dom inestimável da existência. Recolhido ao mais íntimo de mim mesmo, fecharei os olhos para ver melhor. E, com certeza, encontrarei o outro que não sou eu e, no entanto, funda a minha verdadeira identidade.

Pedirei aos pastores não trazerem ouro, incenso e mirra. O Menino que padece em tantos meninos esquálidos quer apenas pão e paz. Venham de mãos dadas, prestar-lhe culto no presépio, as duas filhas da esperança: a indignação, para denunciar tão injusta realidade, e a coragem, para mudá-la.

Neste Natal, não enfeitarei falsas árvores com os brilhos intermitentes do cinismo. Protegerei as que se erguem sobre raízes firmes, fortes, fundas e férteis. Farei das motosserras enxadas para cultivar os dons da natureza e haverei de proclamar a soberania dos povos originários.

Não deixarei que o desalento semeie sombras no horizonte de meus sonhos. Em cada esquina anunciarei que a esperança viceja onde a cegueira do poder vislumbra apenas ameaças com seus tentáculos. E cantarei com Maria o magnífico louvor ao Senhor que despede os abastados com as mãos vazias e sacia de bens os famintos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

DAR-SE EM VEZ DE DAR


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Natal é tempo de desconforto. Premidos pela publicidade que troca Jesus Cristo por Papai Noel, somos desdenhados como cidadãos e aliciados como consumidores.

Ainda que com dinheiro no bolso, instala-se um oco em nosso coração. Aquece-se a temperatura de nossa febre consumista e, discípulos fundamentalistas de esdrúxula seita, adentramos em procissão motorizada nas catedrais de Mamon: os shopping centers.

Nessas construções imponentes, falsos brilhantes da cenografia cosmopolita, aguardam-nos as oferendas da salvação, premissas e promessas de felicidade. Exibidas em requintados nichos, vitrines reluzentes, acolitadas por belas ninfas, as mercadorias são como imagens sagradas dotadas do miraculoso poder de nos fazer ingressar no reino celestial dos que tudo fazem para morrer ricos.

Livres de profanas figuras que poluem o exterior, como as crianças que transmutam as janelas de nossos carros em molduras do pavor, percorremos silentes as naves góticas, enlevados pela música asséptica e o aroma achocolatado de supimpas iguarias.

Olhos ávidos, flexionamos o espírito de capela em capela, atendidos por solícitas sacerdotisas que, se não podem ofertar de graça o manjar dos deuses, ao menos nos brindam com seus trajes de vestais romanas, condenadas à beleza compulsória.

Eis ali, no altar de nossos sonhos, o Céu antecipado na Terra na forma de joias, aparelhos eletrônicos, roupas e importados, sacramentos que nos redimem do pecado de viver neste país cuja miséria estraga a paisagem.

Com certeza o Natal papainoélico é a única festa em que a ressaca se antecipa à comemoração. Tomem-se vinhos e castanhas, panetones e perus, e um punhado de presentes, eis a receita para disfarçar uma data. E sonegar emoções e sentimentos. Mas não é Natal.

Para se fazer festa de Natal é preciso aquecer afetos e servir, à mesa, carinho e solidariedade, destampando a alma e convertendo o espírito em presépio, onde renasça o Amor. Dar-se em vez de dar, estreitando laços de família e vínculos de amizade.

Urge abrir o dicionário gravado nas dobras de nossa subjetividade e substituir competição por comunidade, inveja por reconhecimento, ressentimento por humildade, eu por nós.

Melhor que nozes nesses trópicos calientes, convém saciar a língua de prudência, privando-se de falar mal da vida alheia.

Um pouco de silêncio, uma oração, a retração do ego, favorecem o encontro consigo mesmo, sobretudo a quem se reconhece alienado de Deus, dos outros e da natureza. Não custa pisar no freio dessa destrambelhada corrida de quem, no afã de ultrapassar o ritmo do tempo, corre o risco de ter a vida abreviada pela exaustão do corpo e a confusão da mente.

Antes dos copos, recomenda-se encher o coração de ternura até transbordar pelos olhos e derramar-se em afagos e beijos.

Pois de que vale o Natal se não temos coragem de nos dar de presente a decisão de nascer de novo?


FELIZ NATAL.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

MST: OCUPAR, RESISTIR, PRODUZIR


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"A terra, ela é sagrada. Nas mãos de quem trabalha a terra
Suor, vida, trabalho e terra. O direito a terra é de quem trabalha
Com a vida que nasce da terra, e ao pó da terra a vida voltará"
(Canto da Terra Sagrada - Paulo Amorim) Por Luiz Fernando Leal Padulla*

Outras vezes já falei sobe o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e sua importância para a democratização das terras. Terras essas, por sinal, que devem ser distribuídas quando não producentes, seguindo nossa Carta Magna, promovendo a urgente e necessária reforma agrária:

Artigo 184 da Constituição Federal: “Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social [...]”

Afinal, à quem serve o latifúndio, a não ser a especulação imobiliária, concentrando muitas terras nas mãos de poucos, enquanto muitos nada têm?

Corajosamente, sob o lema de OCUPAR, RESISTIR e PRODUZIR, esse movimento social é um dos mais importantes atualmente, principalmente por conta de um regime autoritário e fascista que cresce em nosso país.

Gente aguerrida, trabalhadora, lutadora.

Em tempos onde o agronegócio manda e desmanda no (des)governo com a "bancada ruralista", cada vez mais e mais agroTÓXICOS são liberados para a contaminação ambiental, sob a falaciosa ideia de aumentar a produção, a agricultura orgânica e familiar se levanta e se une.

A unidade é tamanha e importante, que faz do MST o maior produtor de alimentos orgânicos do país.

É mais do que necessário o apoio da sociedade para com esses agricultores e agricultoras, que confrontam a petulância e a força do agronegócio, não apenas para promover a produção de alimentos saudáveis, mas também para dizer um basta aos abusos desse meios de exploração, insustentável para nossa sociedade.

E falar do MST, é falar de agroecologia e ecossocialismo, uma vez que visa sim a produção, mas sem extrapolar os limites da natureza. Mais do que isso, como bem diz a socióloga e professora Sabrina Fernandes, o ecossocialismo também preza a reorganização do trabalho, qualidade de vida, justiça social internacionalista, alimentação melhor e saudável e, claro, repensa o impacto que nossa sociedade causa no planeta. Tudo aquilo a que se opõem o agronegócio.

A disputa entre o agronegócio e a agroecologia é desigual, muitas vezes desumana.

Puberdade precoce, má-formação de fetos, alergia alimentar, câncer, contaminação da água, do solo, do ar e até do leite materno. Esses são alguns dos reflexos do que agrotóxicos causam. Além de Tóxico, o Agro é Mentiroso. O Agro Escraviza. O Agro Desmata. O Agro promove a perda da biodiversidade e ameaça a própria produção alimentar - basta vermos o que está acontecendo com as abelhas, insetos extremamente importantes para a polinização de 80% dos alimentos que consumimos.

Mais do que uma produção saudável, fruto da terra, com preço justo, o MST promove educação, cultura, formação cidadã. O alimento saudável é o carro chefe desse movimento, e defendê-lo é sim um ato político! E isso incomoda tanto que os assassinatos no campo, e em terras indígenas ocorrem livremente, contando com a conivência não apenas de um presidente fascista, mas das próprias autoridades que deveriam proibir e impedir esse extermínio.

Sem a posse da terra, não há produção de alimento saudável, nem dignidade e justiça social. A luta que começou há mais de 35 anos, deve continuar.

Lutar é um ato de resistência! Lutar contra o fascismo é nossa obrigação!

sábado, 21 de dezembro de 2019

"O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO".


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Toda vez que abro o Facebook ele me pergunta: "O que você está pensando...?"

Acho que nem o Mark Zuckerberg tem ideia de como essa pergunta me faz pensar. É que "o pensamento parece uma coisa atoa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar..."

Agora, por exemplo, estou pensando nas milhões de pessoas, país afora, condenadas a ter como quase única opção de informação e lazer a TV aberta.

Estou sozinho num hotel,  O evento que vou assistir é às 17h. Tempo fechado, chuvoso, hotel distante de tudo.

Zapeio a TV: Globo, Band, Record, SBT...

Outros canais, só chuvisco.

Penso que isso explica em parte as cenas recentes de milhares de pessoas enfrentando horas de fila para se despedir do apresentador Gugu Liberato.

Até o presidente Bolsonaro embarcou na comoção geral, em nota oficial onde dizia:

"O país perde um dos maiores nomes da comunicação televisiva, que por décadas levou informação e alegria aos lares brasileiros...".

A morte de qualquer pessoa me empobrece e entristece. Toda pessoa é da família humana a que pertenço. Nesse sentido, lamento a morte do apresentador, ainda mais nas circunstâncias em que ocorreu. Mas... a morte não nos isenta da responsabilidade pelo que fizemos em vida.

Gugu passou sua vida profissional na guerra pela audiência. E nessa guerra valeu tudo. Entrevistas forjadas, erotismo rasteiro, exploração piegas das misérias alheias. Serviu com "brilho" à "comunicação televisiva", esse lixão que, agora, está à minha disposição neste solitário e cinzento quarto de hotel.

Pertenço à minoria que pode pagar a TV a Cabo mais cara do mundo.

Tenho acesso à internet no meu celular. Ouço e interajo com o Rádio. Concordo e discordo do Reinaldo Azevedo.

Tenho meu próprio blog, onde posto minhas ideias e opiniões. Estou conectado, sou confirmado e contestado. Aprendo sempre, com os dois lados. Ou seja, tenho pra onde correr, pra onde possa exercitar meu senso crítico.

Milhões de brasileiros, não. Feito gado aboiado, celulares em riste para fazer a selfie fúnebre, alienados, in-felizes, correm pra fila, chorosos, pra enterrar o Gugu Liberato, sem saber que ele continua bem vivo e ao vivo, no ar, em todos os canais da TV aberta...

"Felicidade foi-se embora...?"