terça-feira, 31 de maio de 2016

NÃO DEIXE A CHAMA APAGAR

Um homem, que regularmente frequentava um grupo de espiritualidade, sem nenhum aviso deixou de participar de suas atividades. Após algumas semanas, o Mestre daquele grupo decidiu visitá-lo. Era uma noite muito fria. O Mestre encontrou-o em casa, sozinho, sentado diante da lareira, onde ardia um fogo brilhante e acolhedor. Adivinhando a razão da visita, o homem deu as boas-vindas ao Mestre, conduziu-o a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto, esperando. No silêncio que se formara, ambos apenas contemplavam as chamas. Após alguns minutos, o Mestre examinou as brasas e cuidadosamente selecionou uma delas, a mais incandescente, empurrando-a para o lado. Voltou então a sentar-se, permanecendo silencioso. Aos poucos a chama da brasa solitária diminuía, até que houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez.

Em pouco tempo, o que antes era uma festa de calor e luz, agora não passava de um pedaço de carvão recoberto de uma espessa camada de fuligem acinzentada. Nenhuma palavra tinha sido dita desde o cumprimento inicial. O Mestre, antes de se preparar para sair, apontou para o carvão, colocando-o de volta no meio do fogo. Quase que imediatamente ele tornou a incandescer, alimentado pela luz e calor dos carvões ardentes em torno dele. Quando o Mestre alcançou a porta para partir, o dono da casa olhou-o ternamente e disse: ‘obrigado pela visita e pelo ensinamento. Estou voltando ao convívio do grupo.’

A experiência do afastamento tem roubado o brilho de muitas relações. Em alguns lares, a chama do amor nem sempre é alimentada adequadamente. As consequências se tornam bem visíveis, quando da chegada das crises. O amor não termina, mas se não for cultivado perde o encantamento. O relacionamento entre pais e filhos também pode tornar-se frágil se não houver encontros e trocas contínuas. Para distanciar-se não há a necessidade de esforço, basta deixar a indiferença ocupar o espaço do amor.

A chama que inspira e sustenta os laços de amizade aguardam por maior entrelaçamento; o relacionamento profissional não deve ser relativizado; a vivência da fé supõe intensa relação. Há uma luz que insiste em brilhar. Saber cultivar é o segredo da felicidade. Que a participação ativa e criativa possa iluminar a família, o grupo, a comunidade e a nossa sociedade, tão necessitada de luz. Não deixe a chama se apagar!

segunda-feira, 30 de maio de 2016

DO TEATRO E OUTRAS TEATRALIDADES.

A história foi-me contada por um frade que já passou dos setenta. Ela aconteceu na segunda metade da década de 1950 na então Vila Ipê, naquela época um vilarejo a meio caminho entre a Região de Colonização Italiana e os Campos de Cima da Serra. Na vila os capuchinhos haviam instalado uma Escola Seráfica para a formação de futuros frades. No local residiam, no sistema de internato, mais de 100 jovens rapazes.

Na formação daqueles jovens, a arte ocupava um espaço importante. Em primeiro lugar, a música. Todos eram instados a aprender a tocar pelo menos um instrumento musical e a cantar, principalmente o canto coral. Para estimular a desinibição e a capacidade de falar em público, o teatro também tinha destaque. Organizados em grupos, os jovens preparavam peças teatrais e, regularmente, eram organizadas exibições. Normalmente, a representação era para o público interno. Extraordinariamente, para mostrar o trabalho desenvolvido na Escola Seráfica à comunidade local, o convite era estendido a toda a toda a população da vila.

Tais sessões abertas eram concorridíssimas. A sala de teatro do Seminário lotava. Todos os moradores da vila queriam assistir. Naquele sábado à noite não era diferente. Os jovens, orientados pelos frades, tinham preparado uma peça sobre a crise da família. No enredo, depois de uma forte discussão, o filho tomava de uma espingarda e desferia um tiro mortal contra o pai. A cena era representada com o maior realismo possível. A espingarda era de verdade e o tiro também era de verdade. Mas a carga era só de pólvora. Não havia chumbo... Mas o efeito era impressionante! O estampido, a fumaça, o cheiro, o grito, a tinta escorrendo pela roupa do pai, o desespero da mãe e dos outros filhos... Cena de arrepiar.

Na platéia, todas as reações se misturavam: silêncio, gritos, suspiros, risadas, choro... De repente, na calmaria que se seguiu à cena trágica, enquanto o pai morto era arrastado para fora do palco, em meio à platéia, um senhor de uma comunidade do interior, não conseguindo distinguir, pela força da emoção, entre a realidade e a representação, levantou-se e, estendendo o dedo acusador contra os jovens atores gritou em vêneto: I scherza lùri, ma un l’è belche ‘ndà! O que poderia ser traduzido como “Eles brincam, mas um já se foi!”

Corte no tempo... Sessenta anos depois, na metade da segunda década do séc. XX, o que prende a atenção das pessoas, tanto nas grandes cidades como no interior, não é mais a arte, a música, o teatro e suas representações. O mundo é vista através da tela. A cada noite, um percentual significativo de brasileiros e brasileiras, depois de um dia de trabalho exaustivo, senta à frente da televisão ou do computador para ver as informações do dia. Das telas, num teatro minuciosamente preparado, apresentadores e repórteres jogam sobre o público telespectador rios de lama que vão engolindo instituições públicas, empresas, pessoas e reputações. As pessoas são reais, as empresas são reais, as instituições são reais, a corrupção é real... Mas e o enredo, será que ele é real ou é uma teatral construção fruto da imaginação daquela pessoa que, por trás das telas e longe dos holofotes, orienta os atores?

Talvez seria desejável que, entre a tela e os telespectadores, se levantasse um colono que, mesmo por desavisado ou não conseguindo distinguir entre o real e o teatral, pronunciasse outra vez o grito indignado: I scherza lùri, ma un l’è belche ‘ndà!

sábado, 28 de maio de 2016

HUMANOS DIREITOS E DIREITOS HUMANOS

Gosto de uma frase de efeito. Admiro os frasistas e poetas, esses que dizem o que todos nós gostaríamos de dizer, mas chegam antes. Uma boa frase vale mais do que um discurso inteiro. É como um gesto ou uma imagem que valem mil palavras, ou uma obra de arte que condensa universos paralelos. Ah uma bela e boa frase, todo escritor anda em busca de uma.

Há algumas belas frases que me encantam. Exemplo: quando duas pessoas pensam iguais, uma é dispensada; viva todos os dias como se fosse o último, um dia tu acertas; não importa o que fizeram de ti, o importante é o que tu fazes com o que fizeram de ti; só sei que nada sei; a saudade é a presença da ausência; o que não mata, fortalece; a esperança é o sonho do homem acordado etc.

Uma frase é bela quando ao ser pronunciada ou escrita, o pensamento festeja. O que não faz rir e não faz pensar não pode ser uma bela frase. A bela frase desata o pensamento das cadeias do óbvio. De repente alguém junta as palavras como ninguém tinha feito até então e, bingo, eis a frase que estava esperando para se dita.

Eu gosto da frase que diz: os direitos humanos não são só para os humanos direitos. Essa frase dá o que pensar. Há uma narrativa conservadora e elitista que teima em se opor aos defensores dos direitos humanos dizendo que estes só defendem marginais, homossexuais, pobres, negros e excluídos. Os supostos críticos vêm com uma conversinha de que é necessário defender os “humanos direitos”, os que se comportam bem, os que não pressionam, os que não transgridem as normas da boa convivência e do status quo, as normas da tradição. Claro, eles, os conservadores, estão bem posicionas na escala social e por isso querem a todo custo manter o que tem. Nada há nada de incorreto nisso, se os seus direitos forem direitos e não privilégios.

Os direitos humanos são direitos que temos simplesmente por sermos humanos e por isso, claro, mesmo os ricos, bem constituídos e conformes com as tradições e os bons costumes, têm. Defender os direitos humanos significa defender os humanos, todos os humanos, mas sobretudo os que são mais vulneráveis e mais propensos a serem tratados como fora do círculo dos direitos. Os bem constituídos se defendem, os vulneráveis necessitam de defesa.

Os estudiosos costumam classificar os direitos humanos em quatro gerações. A geração dos direitos individuais e civis, a geração dos direitos políticos, a geração dos direitos sociais e econômicos e a geração dos diretos de solidariedade e ecológicos.

Das quatro gerações, a menos garantida é a geração dos direitos sociais e econômicos. É aí que reside a maior parte da violação dos direitos humanos. São os direitos dos pobres e os direitos de reconhecimento das parcelas da sociedade que estão à margem por razões de sexo, cor e condições econômicas. Os liberais conservadores não gostam que se diga, mas eles são conservadores e liberais exatamente por terem parado na primeira geração dos direitos e não se atualizaram e não incorporam as conquistas e avanços do século XX. Pararam no século XVIII e por isso pensam que defender os homossexuais ou os pobres e negros é coisa de comunista. Quem para de ler, continua dizendo que direitos humanos é somente para os “humanos direitos” e para os direitos de propriedade. Duas coisas impossibilitam avanços nos direitos humanos: a imbecilidade e o egoísmo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

QUAL É O CUSTO DE NAVEGAR NA INTERNET?

Você sabia que uma pessoa que usa os meios tecnológicos de forma moderada consome 130 kg de carbono por ano? Segundo pesquisa realizada pela empresa britânica Carbon Analytics, para compensar esse consumo online, estima-se que cada ser humano teria de plantar, anualmente, quatro árvores, uma vez que cada planta absorve, em média, 34 kg de CO² anualmente.

A pesquisa teve o auxílio do aplicativo Earth Mode, criado pelo Google. Essa ferramenta é uma calculadora que permite que as pessoas vejam a quantidade de gás carbônico liberada à atmosfera em suas atividades diárias.

Ao medir o uso online durante quatro semanas, o Earth Mode calcula o consumo anual de energia do usuário e sua contribuição para a “pegada de carbono”. Esse termo, por sua vez, representa a área terrestre necessária para depósito das emissões de carbono oriundas da queima de combustíveis fósseis, da produção de energia elétrica por meio de fontes não-renováveis e da fabricação de cimento.

A pegada de carbono da humanidade é a principal causa das mudanças climáticas. Devido ao fato de emitir gás carbônico em ritmo muito mais rápido do que é possível absorver, existe um acúmulo de gás carbônico na atmosfera e no oceano.

De acordo com Michael Thornton, diretor executivo da Carbon Analytics, “cada vez que uma pessoa usa um website ou faz uma busca na internet, há um gasto muito grande de energia para o fornecimento de dados. De forma cumulativa no mundo todo, isso cria uma grande pegada de carbono”.

A MISERICORDIA NÃO TEM FOLGA.

Todos necessitamos e desejamos ter uma pausa no programa de nosso dia a dia. Não podemos andar sempre no mesmo ritmo. A rotina faz parte de nosso viver, mas não podemos tornar a vida rotineira. Algumas pausas, alguns feriados, tempos de férias, intervalos e alternâncias ajudam no cultivo da leveza da vida. Na verdade, o que é circunstancial de nosso viver é assim. Somos seres necessitados de alternâncias. Porém, o que é fundamental e permanente para a vida não pode parar, nem ter feriado, nem ser dispensado, nem barrado por leis. Assim acontece com o amor, a fé, a esperança e a misericórdia.

Às vezes, na experiência humana e nas muitas exigências circunstanciais da vida que nos envolvem, corremos o risco de experimentar a sensação do abandono de Deus. Então nos ocupamos e nos preocupamos, como se tivéssemos que aprender a nos virar sozinhos. Não é estranha a ideia de que Deus nos tenha criado e nos tenha deixado ao léu da sorte, num mundo que ele criou e agora nada mais faz, nem por nós e nem pelo mundo.

Não está longe, de um mundo secularizado, o imaginário de um Deus aposentado e sentado num trono, assistindo o conturbado cenário da humanidade perdida. Em consequência desta visão, tanta gente se revolta ou prefere ser indiferente, outros arriscam tornar-se deuses para si mesmos e aventurar um poder sem limites que oprime e rouba as esperanças de um povo.

A fé cristã se firma na pessoa de Cristo e em sua Palavra. Esta fé nos traz a luz para reagir e superar uma vivência humana e religiosa truncada. Para não ficar divagando, creio que devamos focar nossa atenção numa cena emblemática de Jesus e numa frase decorrente de sua ação.

No Evangelho de João, descreve-se a participação de Jesus numa segunda festa, em Jerusalém, onde vai encontrar a primeira oposição à revelação. No cenário está a piscina de Betesda que significa“casa da misericórdia”. Ao redor, deitados pelo chão, estão numerosos doentes, cegos, coxos e paralíticos, esperando pelo borbulhar das águas. Diante de um enfermo que há trinta e oito anos lá estava na fila de espera, sem poder contar com a ajuda de ninguém, Jesus ordena que se levante e se ponha a andar, carregando o seu leito.

A apelação por uma lei fria e sem vida suscitou um conflito injusto tanto ao que fora curado, como a quem o curou em dia de sábado. Então deflagrou-se uma perseguição intensa contra Jesus, por transgredir a lei do sábado. Aos perseguidores Jesus pronuncia esta frase reveladora da verdadeira e permanente atuação de Deus misericordioso: “Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”.

Na verdade, jamais se ouviu falar que o verdadeiro amor de mãe faça feriado. Assim é a misericórdia de Deus, revelada em Cristo e que necessita ser sempre atualizada na Igreja. Não há folga e nem proibição humana para a misericórdia de Deus.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O TEMPO E A TEMPORALIDADE

A existência humana tem seus limites não no tempo, mas na temporalidade. A temporalidade não se confunde com o tempo. Temporalidade é viver o tempo que dá sentido à existência humana. Nisto a contingência humana é elevada além do tempo cronológico. Para os cristãos o tempo é conduzido pela esperança da salvação. Para os não cristãos o tempo em que a existência histórica é conduzida na responsabilidade. Então, para crentes e não crentes é vital alimentar um fascínio chamado futuro considerável. Eis o desafio da existência humana.

Considerar a temporalidade do tempo como categoria e como orientação de atitudes, sentimentos e pensamentos amplia o valor do ser humano. Contudo, o tempo presente pode ser definido em muitos conceitos. Assim, o tempo é o período de duração das coisas. O tempo é chamado de passado, presente e futuro. O cronológico é medido pelo calendário, pelo relógio, pelos dias, pelas horas. O tempo psicológico se refere à vivência dos personagens. O tempo da natureza é o do envelhecimento. Para o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a. C.) o tempo é a medida do movimento segundo o "antes" e o "depois". Já para o filósofo alemão Kant (1722 – 1804) “o tempo é um conceito subjetivo criado pela sociedade humana, para explicar a base das transformações da sociedade”. A existência humana se passa no tempo chamado hoje.

Em atenção por vezes excessiva a viver o presente, ou ao passado, é comum ignorar o futuro enquanto tempo considerável para todos os humanos. Por outro lado, a temporalidade do viver humano é fortemente marcada pelo futuro no tempo que se situa no hoje. Esse modo considera que apenas o tempo presente existe e é preciso marcá-lo de esperança. Ao tempo de hoje é preciso agregar a temporalidade necessária para a existência humana. Isto é, a consciência de que temos um passado e que teremos um futuro na perspectiva da consciência e da responsabilidade disponível no presente.

Neste sentido, os teólogos e os filósofos pensam a existência humana como um futuro aberto, indeterminado e preenchido com esperança. Isto não é a situação de passividade daquele que espera o tempo e o futuro. Também não é idolatria do futuro e da história da posteridade ou alienação da esperança. Se assim fosse a espera do tempo, a esperança torna-se disfarçada e impotente. Enquanto houver esperança na temporalidade existirá possibilidade do surgimento do novo, da transformação e do que sustenta a existência humana rumo às coisas futuras, à criação de outra realidade, como a eternidade. Então, para todos a esperança na temporalidade acalenta expectativas além do seu presente mais imediato.

terça-feira, 24 de maio de 2016

OS CAMINHOS DA VIDA

A vida se presta a muitas comparações. Ela pode ser comparada a um rio, a um livro, a um jogo ou a uma novela. Todas as comparações são boas, mas nenhuma esgota as alternativas.

Vamos optar por uma viagem feita de automóvel. O pressuposto é estar no caminho certo, evitar acidentes e chegar ao ponto desejado. A experiência nos mostra que a vida nada tem de monótona. Cada dia, cada curva do caminho, trazem novidades.

Há momentos na vida que é necessário ‘acelerar’. Porque é preciso andar rápido, você deve estar preparado. Mas não queira ficar muito tempo neste ritmo. Há um ponto onde você precisa ‘desacelerar’. A vida, de vez em quando, deve lembrar uma viagem a passeio. A velocidade impede de perceber as paisagens e ver que há outras pessoas à margem ou no mesmo caminho. Assim sendo, de vez em quando, é preciso ‘trocar de marcha’.

Se você andar rápido demais, pode ocasionar um acidente, se você andar muito lento pode ser ultrapassado pelos outros ou nem sequer chegar ao lugar para onde se dirige.Em algumas ocasiões, você precisa ‘parar’. Isto para relaxar um pouco, consultar o mapa do caminho, ver as condições do carro e a reserva de combustível.

O ato de parar pode evitar acidentes ou tomar o caminho errado. E não está excluída a possibilidade - e necessidade - de uma ‘marcha à ré’. Nunca você estará sem opções desde que saiba engatar o ré. Não importa o tempo e a velocidade, importante é chegar.

Lembre também que, na vida, ninguém anda sozinho. De alguma maneira sua família anda com você ou depende de sua viagem. Ao seu lado também viajam outras pessoas. Aí entra a alternativa de direitos e deveres. A prudência e o respeito pelos outros fazem parte da viagem. Você pode precisar deles e eles podem precisar de você. E não esqueça: respeite os sinais de trânsito.

Numa viagem complicada como é a viagem da vida é necessário um mapa confiável. A Palavra de Deus é necessária para situar onde você está. É importante também consultá-la nas encruzilhadas. A escolha não deve levar em conta as condições da pista de rolamento e a largura da rodovia. Essencial é estar no caminho certo.

Nos momentos difíceis, lembre que alguém pode socorrê-lo e ajudá-lo a mudar de caminho. O Evangelho aponta a Jesus como Caminho, Verdade e Vida. Segui-lo é a certeza de estar no caminho certo e chegar até onde você precisa ir: a casa do Pai.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O EMPEACHMENT (FINAL)

Com este texto encerro os comentários sobre a votação de 17 de abril pela cassação da presidente Dilma, abordando a repercussão do fato pelo mundo nos principais meios de comunicação. Trata-se da verificação de algumas manchetes sobre a posição do mundo no processo de impeachment.

A primeira manchete é de jornal online e do colunista Jeferson Miola, do jornal 247: "na guerra pela verdade, como não contam com uma Rede Globo mundial, os golpistas estão perdendo; e estão perdendo de goleada”. Quanto às manchetes internacionais, dos jornais mais lidos como: The Economist, Guardian, El país, Le monde, Financial Times, Reuters “dizem que é golpe”; Wall Street Journal, Washington Post, El País, Le Parisien, Irish Times, New York Times, Pravda, Granma “também dizem que é golpe”; La Nación, La diaria, El observador, Clarín “dizem é golpe”; Al Jazeera, Fox News Latina, CNN e outras dizem o mesmo: “é um golpe de Estado". Como se pode verificar nenhum se posicionou a favor do processo de impeachment.

Visto o que pensa o mundo, sabe-se que o domingo dia 17 de abril prossegue nos dias seguintes em chacotas internacionais. Por tudo isto, o povo brasileiro não pode ser culpado por ter ocupado as ruas e por ter escolhido seu lado. A responsabilidade pela instabilidade política do país é façanha dos parlamentares da Câmara e Senado Federal. Alguns deputados tiveram o luxo de usar jatinho particular pago pelos empresários para votarem contra a presidenta. E mais, para bradar o espírito nacionalista, uns portavam a bandeira do Brasil, outros lenços no pescoço. Se não bastasse, uns recitavam frase de torturadores. É impossível defender o indefensável. Isto é, estes nunca irão respeitar a democracia e respeitar a legitimidade das urnas. Seus mandatos estão comprometidos com os financiadores de suas campanhas.

Por tudo que se viu e ouviu, é impossível acreditar que vão defender os interesses coletivos. Fizeram do Brasil a república da banana. Vê-se o vice-presidente conspirando com o golpe de Estado. Alguém poderia acreditar nestes atores políticos? É verdade que os honestos cidadãos que apostam na democracia se envergonham e os corruptos cantam vitória.

Em todo caso, a admissibilidade do impeachment representa um problema colocado para o governo, pior para a oposição e quem perde é o povo brasileiro. O problema é sério demais para ficar à distância. Boa parte dos deputados e senadores está envolvida com corrupção. Contudo, para construir à esperança na justiça social e para ter ética na politica defender a democracia é legítimo e corroboram. As orações também ajudam para esta conquista.

sábado, 21 de maio de 2016

INPEACHMENT

A pedido dos leitores a coluna continua a reflexão sobre a votação do dia 17 de abril. O texto anterior abordou o surgimento do processo e os políticos envolvidos. Neste, trato de algumas interpretações do acontecido. Para isto, recorro à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que publicou duas cartas a respeito da crise política instalada em Brasília. Uma publicada anteriormente à abertura do processo na Câmara e outra lançada a 14 de abril, no encerramento do encontro dos bispos em Aparecida, SP.

Para adentrar na interpretação do acontecido, é preciso acessar o site da Câmara dos Deputados e verificar os projetos que foram aprovados no ano. É algo improdutivo. O relator do processo de impeachment, Jovair Arantes, deputado do PTB, apresentou 20 projetos, todos beneficiando seus patrocinadores. Mas, sob o processo de cassação da presidente Dilma, esconde interesses.

Primeiro, o fato é que o impeachment por não ter ato jurídico sustentável, torna-se falho e passa a ser golpe. A cassação está repleta de interesses políticos, econômicos, religiosos, globais, menos de estofo jurídico. Sem este último, o processo nasce duvidoso. Segundo, para maquiar essa verdade, a mídia estrebucha-se para provar o contrário. Para tanto, seus jornalistas carregados de ódio semeiam divisões e intolerâncias. Quanto a isto, não é de causar estranheza. A Rede Globo defendeu o golpe de 1964. A bem da verdade, para esta a luta do povo nunca será manchete do telejornal.

A terceira interpretação da votação pela cassação da presidente é que rejuvenesceu a política brasileira, sobretudo do caráter sexista e excludente. Aliás, os deputados inovaram nas expressões impróprias para o debate político. A votação do dia 17 serviu para revelar a face dos deputados que representam o povo brasileiro. Há de convir, atingiram a sabedoria de qualquer cidadão digno deste país. A quarta interpretação é referente ao combate da corrupção e dos corruptores. Nunca na história brasileira se investigou tanto este problema. Aqui é que se esconde a finalidade de cassar a presidente da República. Impedir que o Ministério Público e Polícia Federal avançassem nas investigações. Uma lista da Odebrecht aponta para mais de 200 deputados e senadores envolvidos em corrupção.

A quinta razão pela cassação é favorecer aos interesses de grupos nacionais, internacionais, privatizar a Petrobras, entregar o petróleo e o gás brasileiro, mudar as leis trabalhistas, reduzir os direitos dos trabalhadores, impedir que a esquerda ganhe as eleições presidenciais de 2018, atender o interesse da mídia, em especial do grupo Rede Globo, socorrer o neoliberalismo em falência, etc.
No decorrer da semana farei uma novo coluna com as repercussões do acontecido pelo mundo.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

OS SOFISTAS ESTÃO RENASCENDO?

Os sofistas foram geniais educadores da polis grega. Eles foram os primeiros mestres e pedagogos da cultura ocidental. Exímios debatedores. Afiadíssimos dialéticos e imbatíveis na arte de argumentar e contradizer. Eles arrebatavam multidões, num tempo de mudança cultural e política que exigia novos ensinamentos no âmbito político, jurídico e moral. Na democracia insipiente da Grécia antiga, em que o direito e a moral já não eram compreendidos como produto da natureza, típico da cultura aristocrática decadente, mas da sociedade, eles se apresentam como os defensores de uma nova ordem ancorada em um único soberano, o homem.

O homem é a medida de todas as coisas, diziam. Se o homem é a medida de todas as coisas, e não deus ou a natureza, então tudo é relativo ao homem e não existe a menor chance se levar a sério uma verdade que pretende ser universal e absoluta. Sem valores perenes, verdades universais e normas jurídicas absolutas, tudo vira uma questão de ponto de vista e de força suficiente para impor o seu ponto de vista, caindo inevitavelmente no ceticismo e no relativismo.

O bem comum, por exemplo, em política, é só uma aparência externa para fazer crer que os interesses próprios, dos mais fortes, tenha legitimidade. Por trás do discurso do bem comum, age-se com interesses escusos e inconfessos e quem é mais expert e mais bem articulado impõe o que para ele ou seu grupo parece ser interesse a todos.

Assim resumida a filosofia dos sofistas, que semelhança há com o que estamos vivendo hoje no Brasil? Estamos ou não reeditando os sofistas? Há laboratório melhor do que o Brasil para a ressurreição dos sofistas?

A disputa, a guerra de posições, o argumento e contra-argumento, a luta incessante de posições opostas, é a regra em política. Em uma sociedade desigual como é a brasileira, é natural que se leve para o âmbito político estatal os interesses em disputa na sociedade civil. A disputa na defesa de interesses é, portanto, legítima.

Na disputa legítima de interesses diversos, há os que defendem os empresários e ruralista e há os que defendem os trabalhadores e sem-terra, por exemplo. Há os que defendem os homens brancos e ricos e há os que defendem as mulheres pobres e os negros. Há os que são contra os homossexuais e há os que defendem os direitos dos homossexuais. Não há como ser diferente. Não há uma posição neutra e universalista em abstrato e nisso os sofistas tem razão.

Mas, não haverá um mínimo de bem comum, de interesse público, de direitos humanos elementares que tanto um quanto outro deveríamos defender? Não há um mínimo comum que não poderíamos recuar sob pena de comprometer a vivência pacífica e justa da sociedade? Ou não dá para almejar vida pacífica e justa na sociedade? Se não há, então a própria política vira uma guerra de todos contra todos como se estivéssemos em um estado de natureza.

Ora, a política é justamente a nossa capacidade de superar a natureza belicosa, interesseira e mesquinha, em nome de valores mais altos formulados por acordos humanos para nos tornar mais humanos.

Há nisso uma pequena dose de idealismo e de utópico, mas não custa sonhar e tentar acordos mínimos de interesse comum. Fora isso, a barbárie piscará seu olho grande e nos atrairá para seus braços logo aí adiante!...

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SENTIMENTOS

Sentimento é um componente da vida e da história diária de todo o ser humano normal; é a aptidão para sentir. Essa aptidão sugere vida, normalidade e sensibilidade. A insensibilidade tende a registrar morte, apatia e indiferença. Porém, não precisamos fazer muito esforço para nos dar conta de que há sentimentos bons e ruins. Podemos despertar sentimentos de amor, afeição, compaixão e ternura, como sentimentos de ódio, rejeição, indiferença e agressividade.

Os sentimentos acompanham nossas ações e decisões, podendo permear e definir a qualidade de nossas opções fundamentais da vida. Em qualquer estado de vida que estejamos, podemos acordar com sentimentos positivos ou negativos, com argumentos que nos entusiasmam para a missão do dia ou nos deixam desanimados. Há sentimentos que nos fecham e nos tentam a fugir dos compromissos e há outros que nos animam a prosseguir, custe o que custar, na luta do dia a dia.

Os sentimentos são um campo imenso onde nos movimentamos com as mais diferentes reações. É por isso que, às vezes, nos surpreendemos conosco mesmos, sem ter clareza de nossas escolhas. Do mesmo modo, os que convivem conosco podem se surpreender com nossas reações, palavras e atitudes. O que se passa em nosso íntimo? Na verdade somos um mistério para nós mesmos e os sentimentos afloram de modos diversos, mesmo sem saber de sua intensidade e as razões como nos atingem.

Ter sentimentos diversos é normal de todo o ser humano. Porém, temos que nos policiar constantemente para que nossas reações, o mais possível, sejam equilibradas. O que mais nos ajuda a ajustar nossos sentimentos, na administração da vida e de nossa missão, são as motivações que nos garantem ânimo e coragem de continuar.

Às vezes carregamos conosco motivações simplesmente humanas e passageiras. Essas podem alimentar bons sentimentos e determinação por alguns momentos e, depois, facilmente perdemos o ânimo e voltamos à rotina que é sempre o terreno fértil da monotonia da vida e dos sentimentos pessimistas. O cuidado com os sentimentos depende muito do cuidado com a qualidade de nossas motivações de viver e agir.

Em tempos de instabilidade, como os nossos, necessitamos superar as motivações pequenas e passageiras e nos agarrar em motivações grandes, fortes e duradouras. Em nosso chão, as motivações simplesmente humanas parecem ter sempre menos durabilidade. Para que consigamos usufruir sentimentos arejados, necessitamos de motivações que nos são liberadas a partir do amor misericordioso de Deus, sempre fiel.

Paulo exorta a Timóteo para que “instrua os ricos deste mundo, para que não sejam orgulhosos, nem coloquem a esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que nos dá tudo com abundância, para que nos alegremos. Que os ricos pratiquem o bem, se enriqueçam com belas obras, sejam generosos, capazes de partilhar”.