terça-feira, 21 de março de 2023

OUTONO



"Quando começa o outono?

A ocorrência do fenômeno do equinócio de outono marca a chegada dessa estação. O equinócio representa o momento em que os raios solares incidem de forma perpendicular sobre a Linha do Equador, e a luminosidade se distribui de forma relativamente uniforme entre os hemisférios Norte e Sul.

No entanto, é preciso lembrar que o início do outono não acontece simultaneamente nos dois hemisférios:

Hemisfério Norte: inicia-se entre os dias 22 e 23 de setembro;

Hemisfério Sul: começa no mês de março, entre os dias 20 e 21."

"O outono é a estação do ano que acontece logo em seguida ao verão e antecede a chegada do inverno. Sendo assim, pode ser considerado um período de transição entre essas duas estações. Uma das principais características do outono é a redução gradativa das temperaturas diárias, que passam de elevadas a mais amenas, antecipando o período frio que vem na sequência.

Além das mudanças de temperatura, a estação é marcada pela maior incidência de ventos e pela diminuição da umidade do ar. Pode haver a formação de nevoeiros pela manhã, além da ocorrência de geadas e, em alguns casos, até mesmo precipitação na forma de neve.

Inicialmente, os dias e as noites têm a mesma duração, isto é, 12 horas. Na medida em que o outono avança e vamos nos aproximando do inverno, os dias vão ficando mais curtos e as noites mais longas."

"A transformação da cobertura vegetal é o aspecto mais marcante do outono. A folhagem das árvores adquire uma coloração que varia entre tons amarelados e avermelhados, resultado da menor incidência de luz solar e diminuição da produção de clorofila. No caso das espécies caducifólias (conhecidas ainda como decíduas), observa-se a queda das folhas, um mecanismo de proteção da planta.

As zonas temperadas da Terra, que são duas das zonas térmicas em que o planeta se divide, estão localizadas em latitudes médias e são aquelas nas quais as características do outono são mais acentuadas e a estação é mais bem demarcada."

"Outono no Brasil

O outono brasileiro tem início no mês de março e possui duração média de três meses. A maior parte do Brasil está inserida na zona tropical do planeta e, em razão disso, as características dessa estação do ano se tornam mais difusas. Em uma parcela da Região Sudeste e na Região Sul, o outono é mais proeminente do que nas outras regiões.

De acordo com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, o outono no Brasil possui características que são típicas da transição entre o verão e o inverno, com mudanças significativas nas condições temporais. Isso inclui:

temperatura;

umidade do ar;

incidência de ventos; e

volume de chuvas.

As regiões Norte e Nordeste do país registram altas temperaturas para o período, que variam entre 22º C e 32º C, e também os índices pluviométricos mais elevados do outono para o país. As chuvas são mais volumosas nas áreas mais próximas à Linha do Equador.

As temperaturas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil apresentam queda, o que se deve à influência das massas de ar frio que adentram o território brasileiro. As mínimas podem ser de até 10º C nas regiões serranas, e as máximas oscilam entre 18º e 28º C, conforme as informações do CPTEC. Os índices pluviométricos são menores nessas regiões, e, sobretudo nas áreas mais elevadas do Sul e Sudeste, é comum a formação de nevoeiro e ocorrência de geadas."

A ESTAÇÃO DAS FRUTAS

Em ambos os hemisférios, a chegada do outono marca o início do período de colheita. Por conta da grande variedade de frutas que se encontram na fase final do seu ciclo produtivo, o outono é conhecido como a estação das frutas.

Algumas frutas dessa estação são:

maçã;

mamão;

laranja;

pera;

uva;

abacate;

coco;

carambola;

banana;

kiwi;

goiaba;

figo;

manga;

caqui.

A importância do seu consumo reside no alto índice nutricional desses alimentos, que são ricos em vitaminas, minerais e fibras, que trazem diversos benefícios à saúde e podem auxiliar na prevenção de doenças.





quarta-feira, 15 de março de 2023

A MULTIPLICAÇÃO DAS PERDAS.


O princípio do Evangelho é o caminho para superar lógicas que ferem a dignidade humana, desrespeitando a sacralidade intocável da vida de todos. Desrespeito que se revela nas desigualdades sociais, nos preconceitos e discriminações, nas escolhas que passam por cima do dom sagrado da vida, desde a concepção até o declínio com a morte natural. Importante considerar que as lógicas perversas no coração humano abalam o equilíbrio da casa comum. Isto porque muitas atitudes, que buscam vitórias momentâneas, trazem como consequências perdas desproporcionalmente maiores, muitas irreversíveis. Deve-se, pois, aproveitar bem este tempo pascal que oferece singular oportunidade, por sua liturgia, para a conquista do genuíno olhar dos discípulos de Jesus. Esse olhar, mais do que simplesmente capaz de enxergar objetos, indivíduos ou circunstâncias da realidade, permite tudo reconhecer sob inspiração de Deus.

O olhar dos que são genuinamente discípulos de Jesus se distingue daquele que é meramente humano, enquadrado e definido por dinâmicas de disputas, fermentado por perversidades, patologias sociais, particularmente contornado por vícios de rigidez e formalismos. Em resumo, um olhar míope, que leva a sentimentos distantes da misericórdia, na contramão dos valores do Evangelho. Essa distância da misericórdia merece atenção especialmente daqueles que se proclamam cristãos, mas insistem em permanecer alheios aos princípios do Evangelho. Certas atitudes comprovam a distância entre o que se fala e o que se vive, disritmia entre a pregação do amor, princípio basilar da fé cristã, e práticas de certos grupos, sem ética, conduzidos pelo interesse de ganhar a qualquer custo, sem escrúpulos, passando por cima dos outros, disseminando notícias falsas. Posturas na contramão da autenticidade evangélica.

Importante buscar a aprendizagem para se tornar discípulo missionário de Jesus e, assim, não confundir vitórias com passos que levam a grandes perdas. O olhar do discípulo é, pois, instrumento para configurar a realidade com o sabor do Evangelho, neste mundo de aceleradas mudanças. Esse olhar é antídoto contra equívocos nas interpretações e escolhas, provocados por disputas de poder e defesas ideológicas. Ninguém pode achar que domina a realidade, postura que já compromete o sentido de humildade, valor cristão. A ausência de humildade acirra disputas, alimenta ataques sob a pretensão de querer gerar mudanças, inclusive com a disseminação de mentiras e agressividades, revelando a mediocridade de sentimentos.

O olhar do discípulo, iluminado pela luz da presença do Ressuscitado, graça que ultrapassa capacidades humanas, pode dissipar a grande crise de sentido atual. A civilização contemporânea convive com situações desconcertantes, que distanciam a humanidade da meta de partilhar um só coração. Ao invés disso, cada vez mais pessoas estão fechadas na própria realidade, ilusoriamente bafejadas pelos ventos de defesas partidárias. Só há um jeito para se conquistar o olhar dos discípulos de Jesus, para reconhecer o genuíno sentido da vida e, assim, adotar condutas coerentes com o Evangelho: os cristãos precisam começar o seu caminho a partir de Cristo, sem doentios apegos a perspectivas individuais, de grupos, associações ou partidos. A meta deve ser contemplar quem revelou – e o modo como revelou – a plenitude do cumprimento da vocação humana. Distanciar-se desse caminho faz com que o mundo não seja iluminado pela luz do Evangelho. Com isso, as sementes cairão em pedregulhos e não brotarão; a unidade dos discípulos ficará comprometida, com olhares atrofiados pela nuvem de ódios e disputas. Sem a luminosidade do amor, não haverá vitórias: ao invés disso, a humanidade padecerá, cada vez mais, com a multiplicação de perdas.

quinta-feira, 9 de março de 2023

NÃO PODEMOS ACEITAR AS JOIAS

 


Em mais um escândalo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, com o caso das jóias árabes, percebemos a gravidade a qual o Brasil foi submetido nos últimos anos. Mais, podemos ter uma ideia mais acabada do achincalhamento do país perante a comunidade internacional. O Brasil, durante os anos do desgoverno Bolsonaro, passou a naturalizar absurdos que não cessaram depois de sua derrota. Ao contrário. O caso das jóias parece retornar de algum lugar do passado recente para aterrorizar o ex-presidente Bolsonaro e a ex-primeira-dama. A Michelle, de quem nos lembramos, aliás, no envolvimento, em 2020, no escandaloso episódio do cheque de 89 mil reais depositado em sua conta por um ex-assessor de Fabrício Queiroz - o que lhe rendeu o ultrajante apelido de “Micheque”. O atual episódio, aliás, já começa a inspirar outros codinomes, não menos perspicazes.

Mas a questão central, ignorada pela ala fanática do bolsonarismo que se apega ao episódio somente pela ideia de um mal-entendido sobre um “suposto presente”, não se esclarece fora do contexto da privatização da refinaria Landulpho Alves (Rlam) com capacidade de processar 333 mil barris de petróleo por dia, e seus efeitos catastróficos para a população da Bahia, que além de pagar mais caro o preço do gás, tem sofrido com sua escassez, já que mais de metade dos postos de venda de botijões de gás foram fechados após a nova gestão adotar uma política própria de combustíveis. É o preço da privatização de rapina, canalha, irresponsável, nociva à sociedade.

Avaliada em torno de US$ 3 ou 4 bilhões, a refinaria foi vendida para o grupo Mubadala Capital, por apenas US$ 1,5 bilhão, valor que alarmou o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural, Biocombustível (Ineep) justamente porque o argumento utilizado, de que o valor fora ajustado em razão da pandemia, não fazia qualquer sentido em face do teor da negociação. Ao contrário, a negociação escancara, mais uma vez, a face perversa do capitalismo de desastre, sujeitando o povo brasileiro a condições de vida precárias em benefício do capital. O caso das jóias é o modelo exemplar, didático, de como funciona a corrupção. Um presente avaliado em 16,5 milhões (cerca de 3,18 bilhões de US$) - sendo, ou não, pedido pelo ex-presidente, sabendo ele, ou não, que o receberia - abre margens à interpretação. A indignante imagem que sobra é a de que, às custas do povo brasileiro, a commodity do petróleo, cujo lucro deveria ser utilizado em benefício da sociedade brasileira, termina por ser negociado de modo vulgar, orientado por uma mentalidade extrativista, irresponsável em relação à soberania nacional.

Assim como boa parte do continente africano sofre as consequências do capitalismo - cuja miséria é inversamente proporcional a sua riqueza (urânio, ouro, diamantes e petróleo), assim também o Brasil tem sofrido ataques sistemáticos à sua soberania após a descoberta do pré-sal, em 2007. Os anos da barbárie brasileira que se iniciaram com o golpe contra a Dilma Rousseff e se estenderam até o final de 2022 sob o desgoverno de Jair Bolsonaro não podem ser vistos sem que se leve em conta o contexto da disputa econômica pelo lucro do petróleo, além de uma mudança sistemática - orientada pela elite do capital financeiro - na desregulamentação nas relações de trabalho, nas políticas sociais, na distribuição de renda, e na maior  da elite do dinheiro, insatisfeita com o retorno do governo Lula, seguirá em plena articulaçjóias.ão para seguir avançando na exploração e extração da riqueza nacional.

Obrigado, mas não podemos aceitar as joias 

quinta-feira, 2 de março de 2023

A VIDA É UM MISTÉRIO.

É preciso saber enxergar um palmo além do chão, da parede, do teto ou mesmo das convicções que nos norteiam. Tudo depende de nossa cabeça. Somos, como seres humanos, aquilo que está gravado em nossa mente: ideias, noções, fantasias, impressões.

Se fomos educados na crença de que há pessoas superiores a outras devido à cor da pele ou nos deixamos convencer, pela publicidade, que pilotar um carro a 300 km/h é mais nobre que lutar para combater a fome, então nossos atos serão regidos pelo racismo ou pelo culto aos ídolos do consumismo.

No Ocidente, avançamos em ciência e tecnologia e retrocedemos em valores humanos e espirituais. Atulhados em grandes cidades, trancafiados em apartamentos ou em casas cercadas de muros e prédios por todos os lados, já não contemplamos a natureza. Perdemos o silêncio do indígena que caminha pela floresta em busca de caça e distingue o canto dos pássaros. Ou do viajante que em seu cavalo ou carroça se deixa inebriar pela variedade de tons das encostas e plantações.

Vemos sem olhar, escutamos sem ouvir, falamos sem medir o peso das palavras. A vida, como mistério, declina em nossa falta de sensibilidade. O pragmatismo nos induz, célere, ao rol dos ansiosos, a antessala dos infartados, à mesa dos obesos que engolem sem mastigar.

“Cada vez que bebemos um copo d’água recordamos o eterno mistério da Criação. (…) Quando desejamos comer pão ou fruta, ou então gozar de agradável fragrância ou de um cálice de vinho, ao saborear pela primeira vez a fruta da estação, ao contemplar o arco-íris ou o oceano, ao observar as árvores em flor, ao nos encontrarmos com uma pessoa douta no conhecimento da Torá ou na cultura leiga, ao receber notícias boas ou más, foi-nos ensinado invocar Seu grande nome e nossa consciência dele”

Sentir os atos mais vulgares como aventura espiritual é um desafio proposto pelas religiões orientais. Um ocidental enche de água o copo sem ouvir o murmúrio do líquido, enquanto a cabeça permanece distante daquele momento. Um oriental instruído na sabedoria milenar sabe ser aqui-e-agora: copo, água, sede, gesto e atenção formam um todo e favorecem a harmonia interior.

O sábio não corre atrás do tempo nem se deixa arrastar pelo ritmo do relógio. Ele é senhor do tempo. Em suas atividades nunca submerge, pois se comporta “como a cortiça na água”, como sugere São João da Cruz. Ele aprendeu que só o Absoluto e suas expressões – as pessoas e a natureza – valem a pena. Tudo mais é relativo e, como tal, não merece tanta importância.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

CONHEÇA UM POUCO MAIS O NOSSO CARNAVAL.

É parte constitutiva da identidade do ser humano o elemento da festa. A festa interrompe o tempo cotidiano e introduz a diferença do ritual e da celebração, para marcar uma ocasião especial em que é preciso deixar a rotina e voltar os olhos para o extraordinário que irrompe no tempo cronológico.

Todas as festas são eventos pelos quais se entra em “outra” ordem de coisas, onde a fantasia, a imaginação e o desejo tomam lugar. Festejar, portanto, é reafirmar nossa condição de ser humano, é sublinhar o fato de que não somos guiados apenas pelos instintos e pelo kronos que implacavelmente passa. Festejar é demonstrar que temos algum poder sobre o tempo, transfigurando-o com o rito da comemoração e da celebração.

Em tempo de carnaval, somos instigados a refletir sobre o sentido e o objetivo da música e da dança, dos espetáculos cheios de luzes e cores, dos corpos desnudados e fantasiados em desfile, do samba na rua, de tudo que compõe os três dias que o povo espera com sofreguidão. Isso torna-se ainda mais importante no Brasil, país onde o carnaval ocupa lugar central no imaginário do povo. Chamado com justeza país do Carnaval, o Brasil parece que entra em câmara lenta no Ano Novo para só recuperar seu ritmo e dinamismo depois dos festejos momescos.

Efetivamente, a maioria daqueles e daquelas que “brincam” o Carnaval conhecem pouco ou nada do seu sentido mais profundo. A primeira dimensão dos folguedos carnavalescos tem a ver com um tempo religioso, cósmico e sagrado, onde a Transcendência é que irrompe e transfigura o kronos. O antropólogo Roberto da Matta nos chama a atenção, em seu conhecido livro “Carnavais, malandros e heróis”, para o fato de o carnaval ficar suspenso entre o Advento (tempo ligado ao nascimento de Cristo que é celebrado no Natal) e os 40 dias da Quaresma, esse período de penitência e mortificação que visa à conversão (metanoia) e culmina com a celebração dos mistérios da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, é como se todo o ritual carnavalesco, tão apaixonadamente preparado e vivido pelo povo e que tantos milhões rende aos bolsos dos donos das festas e desfiles só deixasse brilhar seu verdadeiro sentido quando o silêncio da Quarta-feira de Cinzas se faz, com seu ritual das cinzas aplicadas em cruz sobre a testa dos penitentes acompanhado das palavras: Convertei-vos e crede no Evangelho. A quarta-feira proclama a morte de Cristo, agora assumida pela disciplina da Quaresma, que substitui os folguedos e a descontração carnavalesca.

O carnaval, portanto, não tem rosto próprio, já que sua identidade é dada por um outro tempo e uma outra ordem de coisas e de sentido. Figura – ainda seguindo Roberto da Matta – como um momento sem nome ou vez, escondido nas dobras de um calendário sagrado. Situado entre o nascimento e a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, a festa que é o reinado de Momo é efêmera como as alegrias e gozos imediatos. Assume e resume simbolicamente os momentos crísticos do Natal e da Páscoa. E a numerologia cristã dos três dias de que fala o Novo Testamento.

O carnaval é, portanto, um evento relativo. Com o brilho e o ruído que atraem todos os focos de atenção, na verdade está simplesmente resumindo algo de fulgor bem maior e duradouro: os três dias de folia se referem e encontram significação no mistério cristão, já que a festa carnavalesca nasce, agoniza e morre em três dias.

Sendo um evento sincrônico, repetitivo, prenhe de conteúdos cognitivos e afetivos, o Carnaval tornou-se e passou a ser um tempo social importante, fortemente ligado à experiência vital de uma sociedade, muito especialmente da sociedade brasileira.

Em uma leitura informada pela fé, mas aos olhos das Ciências Sociais, o Carnaval só pode ser compreendido no contexto da visão cristã de mundo. Carnaval e Quaresma – no calendário cristão que rege o mundo após a queda do Império Romano – opõem-se no ciclo anual por seus conteúdos sociais e religiosos, implicando comportamentos individuais e coletivos opostos. Porém, na verdade, encontram seu ponto luminoso e iluminador na pessoa de Jesus Cristo, Sol que nunca se apaga, Vivente por excelência, sobre quem a efemeridade das coisas não tem e poder.

A alegria do povo que vai às ruas fazer festa é bendita. É cura para as dores e catarse para as opressões vividas e padecidas. Assim foi esse carnaval extemporâneo, acontecido depois da Páscoa, mas onde se expressou uma alegria pascal após tanto luto e tanta morte, como as que assolaram o povo brasileiro nos últimos dois anos. Essa demonstração de alegria encontra seu paradigma no mistério que configura o cristianismo e sua esperança no amor que é mais forte que a morte.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

REDUÇÃO DA TAXA SELIC




Lula está coberto de razão ao tentar forçar a redução da taxa selic: quanto menor o juro que o governo pagar aos bancos (que financiam o governo por meio dos títulos da dívida pública), mais dinheiro vai sobrar para o governo investir, que é o caminho mais seguro para o país voltar a crescer.

É uma queda de braço entre quem empresta e quem toma emprestado. Quem empresta, quer cobrar mais (alegando o tamanho da dívida e o alongamento dos prazos de pagamento) e quem toma emprestado, quer pagar menos.

Lula pode não ter escolhido a forma mais adequada para alcançar seu objetivo, que é reduzir a taxa de 13,75% ao ano, mas o governo tem instrumentos e mecanismos para chegar lá.

Quem está desprotegido mesmo são os clientes dos bancos, pequenos, médios e grandes, dos quais os banqueiros cobram ao mês o que o governo lhes paga ao ano.

A taxa de juros do cartão de crédito está em 13,96% mensais.

E, se o governo diminuir os juros, os banqueiros vão subir o preço do dinheiro ao consumidor, para compensar as “perdas”.

Eles não perdem nunca. (Ao menos no Brasil).

sábado, 4 de fevereiro de 2023

UM BARCO CHAMADO ESMERALDA.


O sol descansava as névoas e iluminava. O entardecer não tardaria a chegar. O entardecer havia chegado. Foi o que ouvi de João.

Sentado em um banco de madeira velho, remexia os pensamentos e acenava, com educação, aos passantes que caminhavam na praia quase vazia.

Parei um pouco e sentei ao seu lado. O sorriso havia feito o convite.

“O senhor não é daqui”, foi o que me disse.

“Estou de passagem”, foi o que respondi.

“Todos nós estamos”, foi o que ensinou.

João tem a idade de alguns cansaços. A pele queimada de sol. Os pés descalços dos frequentadores de areia. As mãos estendidas sobre o tempo explicam tempos de mais ação. O tempo que ainda não havia escorregado por entre os espaços de seus dedos, também queimados de sol e de histórias.

“Esmeralda”, disse ele.

“Como”? Indaguei.

“Querem comprar Esmeralda, estão comprando tudo”.

Não demorei a entender que Esmeralda era o barco. Do banco de madeira velho, víamos o velho barco de João.

“Esmeralda me deu tudo”.

E foi dizendo dos filhos já formados com o dinheiro dos turistas que conheciam o mar em Esmeralda. Da vida com Esmeralda. Dos passeios românticos com Lucília, a esposa, em Esmeralda.

“Faz tanto tempo”. Disse e silenciou. Silenciei também. Foi como se visse sozinho, dentro de si mesmo, um filme bonito.

Aproveitei para ver melhor o mar e os barcos balançando em obediência ao ir e vir das ondas. A visão era de imagens capazes de alimentar afetos e perpetuar memórias.

Voltou João a dizer de Esmeralda. Então, eu percebi que deixei de ver os outros barcos e fiquei enamorado de Esmeralda. O nome estava pintado em lugar visível. O balançar disfarçava a idade. Fiquei, também, construindo o meu filme interno. Imaginando o dia em que João encontrou Esmeralda e, com ela, o seu lugar no mundo.

Fiquei perguntando se já havia encontrado a minha Esmeralda, a minha embarcação, a minha jóia explicadora das existências. O balançar é para todos.

A frase de João voltou a dizer em mim, “todos nós estamos” de passagem. Passageiros do tempo nos espaços que conhecemos. Passageiros do tempo nas embarcações que nos transportam. E que, em dias de lua atrevida, nos oferecem romantismos. Fiquei imaginando Lucília. Como se conheceram? Na praia? Na casa de algum conhecido? Na saída de alguma Igreja? Perguntei nada. Preferi construir.

Esmeralda foi construída por artesãos que já não mais existem. Ou artesãos que existem em Esmeralda. Lucília mora com João, já sem os filhos, em uma casa que não fica longe. Sai pouco. Algumas doenças demitiram o caminhar apaixonado nas areias daquele mar.

Há uma empresa que chegou, há pouco, e que está comprando as embarcações. Poderia ser um bom dinheiro para João e Lucília, para os remédios, para o conforto. Desconfortado está ele em dizer adeus. E se mudarem o nome? E se pintarem de alguma outra cor? E se não mais reconhecer Esmeralda?

Sou de outro canto do mundo. No meu canto, conto a vida em outro tempo. O meu tempo ainda não é do entardecer, embora saiba que há de chegar e que há de balançar verdades provisórias que hoje tenho. Não sei medir o que, para João, é o despedir de Esmeralda. Penso que coisas possam ser despedidas, nascemos sem elas, mas não posso julgar. Não sei o que nasceu em João com Esmeralda e o que representa o seu atravessar de ondas, de dias, de uma vida inteira.

Sei que fiquei feliz antes do entardecer. E que agradeci a conversa.

“Volte amanhã”, disse ele. “Esmeralda e eu, estaremos aqui”.

“E Lucília”? perguntei.

“Ah, se quiser tomar um café em minha casa, será bem-vindo, ela sai pouco, mas ficará feliz”.

E assim resolvemos. O meu amanhecer amanhã será com os dois, na casa simples não muito longe da praia, na simplicidade de um amor que resistiu ao tempo, ao tempo embalado em tantas travessias em Esmeralda.

Um pouco da minha Esmeralda estava ali, no encantamento de encontrar pessoas e no escolher as palavras para oferecer amor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

ECOLOGIA.

 


Quem acompanha as notícias da imprensa sabe que o desafio maior é como conciliar as resoluções necessárias para salvar a biodiversidade com os interesses de lucro das empresas e dos governos que continuam considerando a natureza como matéria prima e como mercadoria. 
Representantes de grandes empresas multinacionais enviaram ao grupo reunido em Kuning uma carta na qual afirmavam: “Devemos reconhecer a amplidão da crise ligada à destruição da natureza. A natureza é essencial na luta contra as mudanças climáticas. Não pode haver comércio nem lucro em um planeta morto”.

Cada vez mais, fica mais claro para a humanidade que em um sistema social e econômico que coloca o lucro em primeiro lugar não existe possibilidade nem de biodiversidade, nem de civilização ecológica. Desde anos, o povo pobre que se reúne junto com as pastorais e movimentos sociais no Grito dos Excluídos tem como palavra de ordem: A vida em primeiro lugar.
Só é possível ver a terra como “casa comum” se a prioridade máxima de toda atividade humana passa a ser a vida. Quanto mais nos inserimos nesse caminho mais percebemos que não é possível salvar a biodiversidade em um mundo de injustiças sociais. Por isso, o melhor é falarmos em sociobiodiversidade, ou seja, um olhar que reúne os ecossistemas da natureza com a luta pacífica pela justiça social e o respeito às diversidades de gêneros, raças, culturas e religiões, além da justiça construída a partir dos direitos da classe trabalhadora e do povo excluído.

Nos Andes, a cultura ketchua mantém até hoje a noção do Pachacuti. Conforme essa visão, a colonização colocou o mundo de cabeça para baixo. É preciso reinverter a ordem do mundo de modo que se recomponha a harmonia entre os seres humanos e a natureza e os Espíritos das montanhas. Isso é o Pachacuti.

A Carta da Terra, documento aprovado pela Unesco, como uma carta dos direitos da Terra, “O destino comum nos obriga a procurar um novo início. Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida”.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A DOR.

 


Movido, o Espírito me pergunta: qual é, hoje, a idade da sua dor, Rui?

Explico.

Há dores infantis, aquelas que vem com a insegurança diante do desconhecido, as que estão na fronteira entre a novidade e o susto. O parto é um bom exemplo. Assim, num de repente, a tranquilidade amniótica é roubada, aperta daqui, puxa dali, luzes, sons, braços agitados em busca de um ninho que parece ter sido perdido para sempre.

Não. Logo virão colo, carinho e a dor passará.

Dores adolescentes costumam vir acompanhadas de revolta, palavras, gestos e reações intempestivas que, explosivas, não medem consequências. Podem machucar e deixar sequelas difíceis da vida curar.

A juventude da dor é enfrentada com a atrevida certeza de que se é indestrutível. “Não vem que não tem. Comigo ninguém pode”!

Pode…

É uma descoberta dolorosa perceber que a dor conhece nossas fraquezas e é lá que ela nos atinge e, dolorosamente, dói.

Chegamos à maturidade e a dor está lá, fiel e paciente, a nos esperar.

A necessidade de garantir sustento para si e para outros, os desafios do trabalho, do amor, as perdas, decepções, os fracassos. Marido, esposa, filhos, amigos, agregados, patrões e empregados, o desafio imenso do con-viver. Assim como mistérios, dores “não hão de faltar por aí”…

Mas, na maturidade, já aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) que, exceto o motorista e o trocador, tudo é passageiro. Até a dor.

Chegamos, enfim, à última idade. Alguns dizem que é a melhor. Há controvérsias…

Minha caixinha de remédios leva ao exercício diário da humildade. O que era força, vigor, agora é fragilidade. E prece. Vestir uma bermuda sem se apoiar em algo ou alguém é esporte radical de alto risco.

O day after dos prazeres da mesa, mostra que uma boa digestão já não é mais uma certeza. Aqueles passos, lépidos, desenvoltos, cobram seu preço que se manifesta no certeiro dedo do médico que pergunta: “dói aqui”?

– Vai faltar dedo, doutor…

Exagero, mas nem tanto. Que o diga meu velho coração.

Mas, para além das dores físicas, a dor maior de todas, em qualquer idade ou lugar, é a solidão…

Fomos criados para o encontro, a relação, o convívio. O outro traz o que me falta; o olhar diferente, o conhecimento ampliado, o sentimento afetado, aguçado.

O ser humano não quer solidão. O solidário, então…

Volto ao início desta crônica…

Em mim mora o desejo do outro.

Hoje à noite, vou rezar com meus queridos. Talvez você, que lê este texto, esteja lá e nem saiba. Não importa. Minha prece chegará aonde deve chegar.

Não sei o que vou dizer na minha oração, não há ensaio possível para essas palavras. Frases feitas, nessas horas, soam inúteis, vazias. Talvez eu reze a modo de Renato Teixeira, em Romaria: “Como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar…”

Por hora, ao longo do dia, vou estocando ternura no meu olhar. Ver tudo e todos com os olhos de Deus.

Então, no silêncio da noite, suavemente, virá a certeza de que a resposta ao poeta que perguntava: “pra quê rimar amor e dor”, sempre será: porque Esperança é outro nome do Amor.

Por falar nisso, “qual é a idade do seu amor?…

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

LADEIRA ABAIXO

 

A posse de Lula, que pela terceira vez irá ocupar o cargo de presidente da república, simbolicamente, nos dá a exata noção do que seja um governo democrático. Um governo onde o povo tenha participação e poder de decisão, precisa ter diversidade. E ela subiu a rampa junto o presidente eleito, com representatividade de cor, gênero, etnia, condição social, PCD e espécie, num momento emocionante que irá entrar para a história da república brasileira. Algo que se construiu em alternativa ao desrespeito institucional cometido pelo antigo ocupante do cargo, que, numa postura antidemocrática e pouco civilizada, se recusou a cumprir a liturgia de transferência do cargo e passar a faixa presidencial ao novo presidente. A ideia, possivelmente de Janja, a nova primeira dama do país, deixa claro que o atual governo representa socialmente o oposto do anterior, onde as minorias eram tratadas como reféns de uma ideologia que as obrigavam a se renderem à maioria ou desaparecerem do mapa.

Um garoto preto, uma liderança indígena, um influenciador digital homossexual e pessoa com deficiência, uma mulher preta catadora de materiais recicláveis, um professor, um metalúrgico e dois apoiadores da Vigília Lula Livre, além da cadela de estimação da primeira dama, subiram a rampa do Palácio do Planalto ao lado de Lula. O presidente eleito recebeu a faixa presidencial das mãos de Aline Sousa, que é articuladora do Movimento Nacional das Catadoras e uma liderança do movimento de mulheres catadoras do Distrito Federal. Ao convidar as minorias para fazerem parte do seu governo, ressaltando a identidade de cada uma delas, Lula abriu um leque maior no que diz respeito a representatividade. Sobretudo, com relação a uma certa resistência que ainda há no campo progressista, no que diz respeito a pautas consideradas identitárias. Uma possível sinalização de que os anseios dos grupos minoritários não se resumem a luta de classes. Estimular a diversidade, algo que sempre foi visto com maus olhos pelos opositores do progressismo, é promover inclusão e combater privilégios adquiridos em qualquer sociedade estruturalmente racista, machista, homofóbica, capacitista e aporofóbica. Que Lula não fique apenas no discurso, onde frisou por mais de uma vez o seu compromisso prioritário com as minorias representativas, ou no simbolismo da subida da rampa, quando fez renascer a esperança dos grupos quase que institucionalmente excluídos. Uma sociedade mais justa, igualitária e verdadeiramente democrática, se constrói com a participação de todos e todas. “União e reconstrução” é o lema do novo governo. E Lula terá a missão de corrigir os desastres sociais promovidos por s eu antecessor, que o deixou como herança 33 milhões de pessoas passando fome e outras tantas milhões em condição de insegurança alimentar. Um presidente que apostou no retrocesso como futuro, se articulando sob um ufanismo pátrio, religioso e irracional como ideologia. A diversidade sobe a rampa com Lula, num país onde as minorias estavam indo ladeira abaixo com Bolsonaro.

 


domingo, 1 de janeiro de 2023

 

Neste ano que se inicia, deixarei meu corpo flutuar em alturas abissais. Acariciarei uma por uma de minhas rugas, desvelarei histórias, apreenderei, na ponta dos dedos, meu perfil interior.

Não recorrerei ao bisturi das falsas impressões. Nem ao espectro da magreza anoréxica. O tempo prosseguirá massageando meus músculos até torná-los flácidos como as delicadezas do espírito.

Suspenderei todas as flexões, exceto as que aprendo na academia dos místicos. Beberei do próprio poço e abrirei o coração para o anjo da faxina atirar pela janela da compaixão iras, invejas e amarguras.

Pisarei sem sapatos o calor da terra viva. Bailarino ambiental, dançarei abraçado a Gaia ao som ardente de canções primevas. Dela receberei o pão, a ela darei a paz.

Acesas as estrelas, contemplarei na penumbra do mistério esse corpo glorioso que nos funde, eu e Gaia, num único sacramento divino. Seu trigo brotará como alimento para todas as bocas, suas uvas farão correr rios inebriantes de saciedade.

Na mesa cósmica, ofertarei as primícias de meus sonhos. De mãos vazias, acolherei o corpo do Senhor no cálice de minhas carências. Dobrarei os joelhos ao mistério da vida e contemplarei o rosto divino na face daqueles que nunca souberam que cosmo e cosmético são gregas palavras, e deitam raízes na mesma beleza.

Proclamarei o silêncio como ato de profunda subversão. Desconectado do mundo, banirei da alma todos os ruídos que me inquietam e, vazio de mim mesmo, serei plenificado por Aquele que me envolve por dentro e por fora, por cima e por baixo.

Suspenderei da mente a profusão de imagens e represarei no olvido o turbilhão de ideias. Privarei de sentido as palavras. Absorvido pelo silêncio, apurarei os ouvidos para escutar a brisa de Elias e os olhos para admirar o que extasiou Simeão.

Não mais farei de meu corpo mero adereço estranho ao espírito. Serei uma só unidade, onda e partícula, verso e reverso, anima e animus.

Recolherei pelas esquinas todos os corpos indesejados para lavá-los no sangue de Cristo, antes que se soltem de seus casulos para alçar o voo das borboletas.

Curarei da cegueira os que se miram no olhar alheio e besuntarei de cremes bíblicos o rosto de todos que se julgam feios, até que neles transpareça o esplendor da semelhança divina.

Arrancarei do chão de ferro os pés congelados da dessolidariedade e farei vir vento forte aos que temem o peso das próprias asas. Ao alçarem o topo do mundo, verão que todos somos um só corpo e um só espírito.

Farei do meu corpo hóstia viva; do sangue, vinho de alegria. Ébrio de efusões e graças, enlaçarei num amplexo cósmico todos os corpos e, no salão dourado da Via Láctea, valsaremos até que a música sideral tenha esgotado a sinfonia escatológica.

Na concretude da fé, anunciarei aos quatro ventos a certeza de ressurreição então, o que é terno tornar-se-á, nos limites da vida, eterno quando a morte nos transvivenciar.