segunda-feira, 11 de abril de 2016

A VIDA É FEITA DE TROCAS.

A vida é feita de trocas. A possibilidade de estar em determinados eventos permite encontros e encantamentos. Sempre fico com o ouvido mais aguçado quando os relatos pessoais salientam a capacidade de superação. Num desses trabalhos, me encontrei com uma jovem entusiasmada. Sua apresentação seria na sequência da minha temática. Pouco falamos. Sua atenção, porém, inspirou as palavras que recebi posteriormente, em meu endereço eletrônico.

“Vim do interior, família de agricultores, sei bem o que é o suor no cabo de uma enxada, no sol quente em meio à plantação de soja e trigo, cuidando dos animais, fazendo a ordenha e comercializando o leite. Desde menina gostava da caneta. Quando tinha que preencher o bloco do produtor, para fazer a nota para transportar os grãos, eu pulava no colo do pai com a caneta em mãos. Não faz muito tempo que me dedico aos estudos, fiz somente uma graduação, o restante é interesse e leitura. A vida me trouxe para cá, onde tenho a oportunidade de fazer o que amo de verdade, que é falar e passar conhecimento às pessoas: ministrar palestras e dar aula para ‘jovens aprendizes’. Sinto-me muito feliz”.

Guardei com carinho esse testemunho. Lembrei de tantos que, de sol a sol, não largam a enxada, pois necessitam garantir o sustento. Nenhum trabalho acontece longe da dignidade, quando as motivações agrupam energias e dão contornos aos sonhos. Sempre haverá uma boa dose de sacrifício quando se trata de realizar as buscas mais profundas. O suor parece validar os esforços que sustentam metas e vitórias. Nada é em vão quando há clareza quanto ao ponto de chegada.

A vida me trouxe para cá, escreveu a realizada jovem. Sim, a vida se faz movimento quando o coração acalenta outros encaminhamentos. Realizar-se sempre será superior às buscas materiais. Trabalhar para adquirir algumas coisas, faz parte do óbvio. Porém, determinar para si mesmo que a felicidade é possível, é reunir as melhores energias para capacitar-se em vista de determinadas conquistas. O colo do pai e a caneta em mãos descortinaram um outro horizonte àquela criança que não conhecia outros endereços, mas sabia que a vida a levaria à realização. De fato, a enxada pode ser o começo de uma história repleta de alegria e de sabor. Na simplicidade, a vida se faz oportunidade.

domingo, 10 de abril de 2016

E ESTA VIDA AGITADA?

Uma das mais repetidas queixas da humanidade atual gira em torno da real agitação da vida. Estamos na era da pressa e da velocidade acelerada. A demanda da vida, em nossos dias, é tão exigente que temos dificuldade de dar conta de nossa programação cotidiana. Com a agitação debate-se o rico e o pobre, o letrado e o iletrado, o homem e a mulher, a criança, o jovem e o adulto.

Há quem se sente escravo da agitação, quase sem tempo para o justo descanso, para a gratuidade da convivência e menos ainda para o lazer. Há quem prefere a agitação para não silenciar, nem pensar nos problemas que pesam em seus ombros. Há quem opta pela agitação para não se acomodar e garantir um justo progresso pessoal e social. Há quem se vê provocado pela agitação dos cargos e sobrecargas que lhe são confiados por sua comprovada capacidade e responsabilidade. Há quem se agita por ser de temperamento primário e extrovertido. Existem agitados e agitadores em todos os cantos do planeta.

Vida agitada pode ser benéfica quando dinamiza a vida e não permite que a rotina tome conta. Vida agitada é positiva quando nos sentimos como os atletas em campo, reunindo energias e capacidades para justas vitórias. Dizia um antigo provérbio que “águas paradas não movem moinho”. Em contrapartida, “águas em avalanche podem fazer os piores estragos”.

A natureza pode nos ensinar a ir encontrando a justa medida. Esta não vem por receita, nem por cronometragem do dia a dia, como se estivéssemos em partida de futebol. Entre vida agitada e vida estagnada, creio que todos preferimos exagerar um pouco o nosso ritmo, pela agitação da vida.

No Evangelho de Lucas, encontramos um episódio singular, onde Jesus se hospeda na casa das irmãs de Lázaro. Maria, muito tranquila, senta-se aos pés do Mestre para ouvi-lo. Marta se agita, preocupada em preparar-lhe boa refeição. Reclama por achar que Maria estava perdendo tempo e não colaborar com ela. Jesus repreende Marta e lhe diz: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada”.

Quando Jesus fala que Maria escolheu a melhor parte, não diz que Marta escolheu a pior. Creio que nessa história está um pouco de nós. Na agitação da vida há sempre o perigo natural de ignorar o que é fundamental e o mais importante. Indiscutivelmente, hoje, vivemos uma enorme crise de profundidade. Este atropelo que não permite sintonizar e responder às nossas profundas aspirações, afeta a totalidade de nossa existência humana, não só a dimensão religiosa.

Nesta vida agitada, que é resultado de muitos e diferentes fatores, se faz sentir sempre mais a necessidade de nos reeducar, tanto na vivência pessoal como na convivência familiar e social. Isto vai nos exigir uma organização no uso do tempo e, acima de tudo, a capacidade de medir nossas humanas possibilidades.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

QUE TAL CRIAR O DIA DO CONTRÁRIO?

No passado, cada dia era dedicado a um santo. Hoje são dedicados às santas causas. Elas acabam atropelando e criando confusão e a pessoa se interroga: hoje é o dia de quê mesmo? E acabam não sendo levadas a sério.

Temos o dia Mundial da Água, Dia Internacional da Mulher, Dia das Mães, Dia da Criança, Dia do Professor... Isto sem esquecer o Dia do Índio, da Negritude e o da Pendura. Ao lado delas surgem outras menos votadas: Dia da Sogra, do Vendedor Ambulante, da Parteira, do Ferreiro, do Carroceiro, do Afiador de Facas, do Cuidador das Cavalariças, Negociante, Oleiro, Vidraceiro, Porteiro...

Nem todas as datas são positivas: Dia contra a Aids, contra o fumo, contra o barulho, Dia sem Celular, sem automóvel, sem televisão... Existem ainda datas que parecem fugir do controle: Dia do Mico Leão Dourado, Dia Contra os Terremotos, Dia da Mentira...

Em meio à confusão indisciplinada de datas, parece faltar uma: o Dia do Contrário. Nesse dia, cada pessoa deixaria seu lugar para assumir o lugar do outro, especialmente daquele com quem contracena.

Cada questão é percebida a partir de um ponto de vista. E todo o ponto de vista é visto a partir de um ponto. Um exemplo clássico seria o Dia do Contrário numa família, todos mudando de lugar. O marido assumiria as tarefas da esposa; os filhos tentariam ver a realidade a partir do ponto de vista dos pais. E vice-versa.

Oportuno também seria fazer valer o Dia do Contrário nas rodovias. O pedestre veria a realidade pilotando um carro, enquanto o motorista assumiria as dificuldades do pedestre. Na sala de aula, professor e aluno trocariam de lugar. O mesmo aconteceria nas empresas: a troca de posições entre o patrão e o empregado. Salutar também seria a troca de posições nas igrejas. Os pregadores sentariam nos bancos, enquanto um leigo faria o sermão. No futebol, a troca seria entre o juiz e os jogadores; na política, o eleitor assumiria o comando e os políticos obedeceriam às leis.

Este exercício alargaria a visão. Na realidade, no dia a dia, funciona a famosa lei do jogador Gerson: o jeitinho, cada um querendo tirar vantagem. Agimos como se todos os outros fossem nossos concorrentes e, não raro, assumimos a posição de donos da verdade.

Há oitocentos anos, Francisco de Assis descobrira a solução: o irmão deve ter sempre a primazia, o irmão é sempre maior do que nós. Isso coloca em destaque a dimensão do serviço. E o próprio Jesus assumiu esta postura. Ele deixou sua divindade e assumiu a condição humana.

O ULTIMO DOS ROMANOS E O PRIMEIRO DOS MEDIEVAIS

Apresento um filósofo do período medieval: Boécio. Mas poderá estar se perguntando: o que tem haver um pensador medieval em pleno século XXI? Vamos lá, pois descobriremos juntos a sua importância para o mundo ocidental.

Boécio (480-524) é um filósofo cristão romano, tradutor e comentador dos tratados de lógica de Aristóteles. Ele é considerado uma “ponte” entre o período medieval e o pensamento clássico da filosofia grega, ficando conhecido como o “último dos romanos e o primeiro dos escolásticos”. Além disso, era um dos altos funcionários da corte do rei Flávio Teodorico, mas por um deslize foi condenado à morte.

Na prisão, antes de ser executado, escreveu uma obra intitulada Consolação da filosofia. Nela, expõe sua concepção filosófica com ênfase ao ponto de vista ético e cosmológico. Em seu tratado é possível de perceber uma mistura de concepções clássicas e medievais.

Uma das contribuições de Boécio ao mundo ocidental é o conceito de pessoa. Seu conceito de pessoa perdurou na Idade Média. Para Boécio, “a pessoa é uma substância individual de natureza racional”. Etimologicamente, o termo pessoa provém da palavra prosôpon (grega) e persona (latina). Ambas dizem respeito à máscara usada pelo ator no teatro na Antiguidade Grega, ao representar o papel principal da peça. Daí, pois, surgiu a expressão ‘pessoa’ que com Boécio ganhou a compreensão de individual e racional.

O conceito de Boécio elevou a dignidade da pessoa humana pelo fato de vê-la como um todo, isto é, o ser. O ser é merecedor de dignidade na integralidade humana. O essencial numa pessoa é o fato de ela ser, existir, e não suas características. É uma realidade ontológica, ou melhor, o ser enquanto ser.

O pensamento marcado pelo Cristianismo compreende a pessoa como ser humano racional, livre pela sua dimensão moral e espiritual, consciente do bem e do mal e responsável pelos seus atos. Refletindo um pouco mais sobre a pessoa, hoje ela é muito valorizada pelo ter e o fazer. Nesse olhar perde-se o seu valor essencial que é o ser, porque o ser pessoa vem primeiro.

Toma-se o ter e o fazer como superiores, em detrimento do ser, ou seja, troca-se o essencial pelo acidental. Desse modo, a pessoa perde o seu verdadeiro sentido, pois não se dá valor a ela pelo fato de ser pessoa, mas por ter posses, por tal profissão ou titulações que, por sua vez, não trazem garantia de felicidade a ninguém que se apóia unicamente nesses parâmetros.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O COSTUME.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O PARTIDO E A PARTE.

2016 é o ano em que teremos eleições para escolha de nossos representantes no legislativo e executivo municipal. É um ano político porque uns candidatos reapareceram e outros se apresentarão pela primeira vez. Eles vêm, infelizmente, com os mesmos discursos, entoando suas vozes em prol do desempregado, do estudante etc. Nos discursos, afirmam melhoria na saúde, na segurança pública, incentivos à agricultura, bem como da cultura e dos esportes, etc. Os candidatos colocam-se ao lado do povo parecendo sentir na pele suas dores e necessidades. E, de bom grado, oferecem-se como representante na luta por melhorias para a população.

São muitos bonitos e empolgantes os discursos, mas, na prática, pouco se percebe de realidade por parte de alguns dos nossos representantes. O que se vê é mais a luta e busca pela parte, ou seja, pelo interesse de seu partido.

A palavra partido indica parte do todo, não é o todo. A proliferação de partidos e coligações em nosso país é grande e confunde o eleitorado desavisado. Qual a causa dessa proliferação partidária? É importante e necessária a diversidade de partidos, os denominados de esquerda e de direita, porque, assim, há maior fiscalização na administração do executivo. O problema está em os partidos, muitas vezes, defenderem mais seus interesses do que o bem comum.

Por outro lado, torna-se relevante o cidadão conhecer as bases de cada partido, isto é, suas origens e seus projetos, porque em muitos existe mais interesse em pequenos grupos do que em iniciativas em prol da população.

É muito comum esta expressão: “O povo tem o governo que merece”. Contudo, acredita-se numa mudança em nosso país em relação à construção da consciência política através da educação, pois, aos poucos, o brasileiro está crescendo em acesso a cultura. Acredita-se que um dos caminhos mais seguros para uma mudança do cenário político é a ética e a educação.

Elas tecem uma consciência crítica da realidade e, só assim, vê-se com mais profundidade as reais intenções dos candidatos que visam, de fato, lutar pelo povo ou pelo interesse do partido. Isso porque, devido à preocupação de projeção partidária, muitos projetos que vem ao encontro das necessidades do povo vão para a gaveta, porque se não é “do meu partido”, o plano não é aprovado.

Então, pergunta-se: você acompanhou o trabalho daquele que recebeu o seu voto na última eleição? O que seu representante eleito têm feito em benefício da cidade? Eles foram eleitos para administrar aquilo que é seu, pois o patrimônio público é seu, é de todos. Sem forçar a expressão, quem fiscaliza o trabalho de seus empregados? Os representantes eleitos são os empregados, por isso devem ser averiguadas suas atitudes.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O QUE É ALEGRIA PASCAL?

Há uma pergunta inquietante que percorre os cantos da Terra, onde os humanos se deparam com realidades tão obscuras e agressivas: Como se pode falar de alegria pascal quando sabemos que há tantos impedimentos que a roubam da humanidade: as guerras, os sofrimentos, as injustiças e agressões de tantas formas?

Na verdade, a alegria pascal não é uma sensação alienada ou alienante, mas um direito sagrado de todos os humanos. Em todo o ser humano existe um pedaço de solidão que nenhuma intimidade humana consegue preencher. É ali que Deus nos encontra. É ali, nessa intimidade, que se encontra o segredo da alegria do Cristo Ressuscitado. A alegria é como um pedaço de chão que cultivamos em nós; é como uma pequena quadra de esporte onde exercitamos a liberdade e a espontaneidade.

Como cristãos, não podemos cruzar os braços diante do ser humano vítima do ser humano. Reduzir à miséria o que há de mais precioso e sagrado que é a pessoa, imagem e semelhança de Deus, é inadmissível. A justa indignação faz parte da fé cristã. Porém, na ânsia de maior justiça não podemos renunciar o cultivo da alegria interior oferecida e garantida a todo cristão pela Páscoa do Senhor. Caso renunciemos nosso direito à alegria cristã, estaríamos nos vergando sob o fardo de nosso desespero e oferecendo à humanidade a nossa tristeza. Diante de tantos problemas, seríamos mais um problema.

Por acaso, para viver na alegria estaríamos impedidos de combater e lutar pela justiça? Ao contrário! Sabemos que a alegria não é apenas uma euforia passageira. É animada por Cristo em homens e mulheres plenamente lúcidos quanto à situação do mundo, capazes de assumir grandes desafios e empreender a via-sacra da vida, na certeza de um final feliz.

A estas alturas da reflexão, também é importante lembrar que a alegria pascal não é uma diversão passageira ligada a uma festa, ou um momento festivo. A verdadeira alegria pascal inaugura-se na certeza de que o “último inimigo foi vencido, isto é, a morte”.
Paulo, insiste: “Alegrai-vos sempre no Senhor!”. Diante desta insistência de Paulo a viver a alegria, o que nos deixa inquietos é a palavra “sempre”. Na verdade, nem sempre estamos alegres pelas muitas interferências que despontam no caminho, como doenças, intrigas, angústias, situações de pobreza etc. Porém, mesmo assim podemos “ser alegres”, embora nosso rosto não consiga manifestá-la.

A Páscoa  resgata, ao ser humano, o argumento imbatível da possível alegria permanente, mesmo que esta precise conviver com o cotidiano da cruz. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia r e siga-me”. Em Cristo não há qualquer sintoma de masoquismo, mas um amor sem limites, capaz de abraçar a cruz e nela morrer para garantir a todos a possibilidade da ressurreição.

domingo, 3 de abril de 2016

A IMPORTAMCIA DA TROCA DE LUGAR.

Certa vez, quatro mendigos encontraram-se numa encruzilhada: um turco, um árabe, um grego e um persa. Para celebrar o encontro, decidiram fazer uma refeição juntos. Reuniram as moedas que possuíam com intuito de comprar algo para a comemoração. Aí chegaram a um impasse: o que comprar com o dinheiro? Uzum, disse o turco; Ineb, gritou o árabe; Staphilion, afirmou o grego; Inghur, protestou o persa. O tom com que cada um fizera sua escolha dava a entender que era questão fechada. Logo estavam discutindo, cada um defendendo sua escolha. O próximo passo só poderia ser agressão moral e até mesmo a agressão física.

Por acaso passou por aí um sábio e, quase por um milagre, conseguiu um pouco de silêncio, o suficiente para ser ouvido. E explicou o absurdo da discussão: cada um de vocês está pedindo a mesma coisa, com palavras diferentes: uvas.

Hoje vivemos num tempo de muitas palavras vazias. Falamos em diálogo, falamos em ética, falamos em qualidade de vida, falamos em dignidade humana, falamos em pobres e não saímos daí.

A necessidade de dialogar é proclamada em todos os setores da vida humana. Isto acontece nas relações internacionais, nos partidos políticos, nos clubes, nas famílias, até na própria Igreja. Todos querem anunciar sua verdade, mas poucos aceitam escutar a verdade do outro. É aquilo que chamamos de diálogo dos surdos; Todos falam e ninguém escuta.

Toda tese tem como base um ponto de vista e o ponto de vista é visto a partir de um ponto. Escutar o outro supõe mudar de lugar. É diferente o ponto de vista do motorista do ponto de vista do pedestre. Para um entendimento será necessário trocar de lugar: o professor com o aluno; o patrão com o operário; o homem com a mulher; o adulto com a criança; o jogador de futebol com o juiz...

Dialogar supõe, antes de falar, ouvir, colocar-se no lugar do outro. Aí é possível entender que existe muita coisa em comum e que as diferenças não são tão grandes, nem importantes. Bem conduzida, a negociação não deixará vitoriosos ou vencidos. E um pouco de dose de humildade pode nos mostrar que a opinião do outro é até mais rica do que a nossa. Ícone do diálogo e da bondade, dom Helder Câmara dizia: se você discorda de mim, me enriquece.

É impressionante, no Evangelho, o número de cegos, surdos, mudos, paralíticos curados por Jesus. Ele mesmo deu o exemplo: deixou a glória para assumir nossa humanidade. Trocou de lugar conosco.

sábado, 2 de abril de 2016

A POLÍTICA E SUAS ARTIMANHAS

Partindo do princípio que o motivo das panelas nunca foi combate à corrupção – já que os maiores corruptos e saqueadores são os ídolos de quem protesta – fica fácil demais afirmar que o desejo de manter o abismo social é a grande bandeira daqueles que vociferam por justiça.

Decididamente, quem tem o egoísmo correndo pelas veias, jamais verá com bons olhos a modesta ascensão social dos que buscam escapar da condição de servo e de miserável. Jamais aceitarão que através da "meritocracia" os malnascidos obtenham vitórias a partir da primeira porta que o governo lhes abrir.

O desejo de condenar o desassistido a não ter o direito de ver seus filhos em uma creche, alimentados, residindo sob um teto decente, com acesso a cursos técnicos ou universidades e a desfrutar de uma vida razoavelmente digna, vai sempre se camuflar em discursos repletos de sofismas.

Ao menos, devido a tantas justificativas - e todas tão frágeis e contraditórias - as ações de repulsa, e mesmo de ódio, não são mais dissimuladas. Os senhores da senzala já vomitam abertamente o que nunca conseguiram digerir. Afinal, imagina que situação mais vexatória ter que aprender política com um semi-alfabetizado!?

Quem é ele pra ousar ter sobrevivido se "a morte dos severinos de fome um pouco por dia" era praxe nos governos anteriores? Como ousou largar a fábrica e questionar a relação de trabalho dos seus iguais? Como ousou transitar com desenvoltura pelos salões e corredores dos que detém o poder? E a jogar os holofotes do mundo sobre o Brasil? E a tirar 36 milhões de brasileiros da miséria extrema? E a etc e etc...?

Curioso que muitos que desfilaram de verde e amarelo, camuflaram-se também nas procissões da Semana Santa. Ali exaltaram as ações d'Aquele que partilhou o alimento; ofereceu conforto aos oprimidos; resgatou a dignidade dos excluídos e denunciou a opressão. Preocupados em caprichar nos brados de amém, seriam incapazes de admitir que gritariam por Barrabás se naquele julgamento estivessem.

Ademais, pobre bom é o pobre da Bíblia. Nada melhor que me sensibilizar com quem sofre a uma distância de dois mil anos de mim. Para esses eu lanço uma moeda na sacola das ofertas com a singela preocupação que meu vizinho ouça o seu tilintar.

Enfim, esqueçamos a retórica de povo solidário e acolhedor. As feras já mostraram suas garras e aumentaram seus rugidos. Aproxima-se o maremoto. A melhor vitória pertence àqueles que não se envergonham de dizer às gerações futuras o exato lado que escolheu.

DAR UM PASSO MAIS

Era uma vez. Assim começam muitas histórias. Era uma vez um bando de rãs. No pequeno lago onde habitavam foi organizada uma competição. O objetivo era alcançar o topo de uma torre. Uma multidão juntou-se para apreciar. Todos eram de opinião de que nenhuma delas conseguiria superar o desafio. Tratava-se de algo impossível.

Uma dezena de rãs habilitou-se. Vocês não vão conseguir, diziam todos. O esforço será inútil, vocês vão fracassar. A competição começou e o pessimismo contagiante foi crescendo. Algumas rãs aceitaram o fatalismo e desistiram. Outras tentaram mais um pouco, mas chegaram à conclusão que seus limites haviam sido atingidos e também desistiram. Mas uma rã, muito teimosa, continuou na luta, passou por momentos difíceis, mas insistiu e chegou ao topo da torre.

Entre o espanto e a curiosidade, todos queriam saber seu segredo. Como ela conseguira superar aquele desafio considerado impossível. A rã vencedora não se deixara empolgar pelos elogios e pela crítica. A verdade veio em seguida: ela era surda. E porque era surda não foi influenciada pelo derrotismo de todos. Não escutara os profetas do pessimismo.

A vida é uma grande competição. Todos competimos, mas a competição não é contra os outros. Competimos conosco mesmos. Nosso dever é conseguir o máximo. E o máximo é conseguir dar um passo mais.

Saint Exupéry, num de seus voos, espatifou seu pequeno avião contra as catedrais de gelo dos Andes. Era impossível sair daí. Seus companheiros não tinham ideia do local da queda. Cansado, desanimado, teve a tentação de deixar que o frio intenso da neve e do gelo trouxesse a paz da morte. Mas ele pensou: se meus companheiros sabem que eu estou vivo, terão certeza que eu estarei caminhando. Com estrema fadiga, deu o primeiro passo. Depois, caminhou três dias e três noites, quando foi localizado e salvo.

Henry Ford, o pioneiro do automóvel em série, dizia aos seus subordinados: “Se você acha que pode, ou se você acha que não pode, sempre terá razão”. E Jean Cocteau - da Academia Francesa - parece ter dado os contornos definitivos nesta questão: “Ele não sabia que era impossível, foi lá e o realizou”.

A história está cheia de coisas “impossíveis” que alguém realizou. Foi assim que surgiram a televisão, o avião, a conquista da lua, o raio laser. A cada Olimpíada, recordes, considerados definitivos, são superados.

Na dimensão da fé, Paulo apóstolo garante: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13). Caso não consigamos, vale a luta. Nosso maior compromisso não é vencer, mas lutar até o fim. Dar um passo a mais.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

ESTOU AQUI SÓ DE PASSAGEM

Conta-se que, no século passado, um turista americano foi à cidade do Cairo no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio. O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco. Onde estão seus móveis? Perguntou o turista. E o sábio, bem depressa, olhou ao seu redor e também perguntou: e onde estão os seus móveis? Os meus?! Surpreendeu-se o turista. Mas estou aqui só de passagem! Eu também, disse o sábio. O turista trocou mais algumas palavras e seguiu pensativo.

A transitoriedade da vida nem sempre é assimilada adequadamente. Não se trata de pensar unicamente na finitude. Porém, não convém viver como se não existisse um término. O fato de estar neste mundo somente de passagem, não deve angustiar e muito menos entristecer. Pelo contrário, deve deixar a vida mais leve e particularmente centrada no essencial. A materialidade é uma das dimensões humanas. Há algo que ultrapassa a realidade física e remete à eternidade.

Viver com o necessário deveria ser um sonho coletivo. Algumas poucas coisas são suficientes para alcançar à vida o sustento e o equilíbrio. O supérfluo em nada agrega. Ter mais do que o necessário é colocar em risco o desejo infinito de realização. De uma forma até assustadora, as coisas materiais roubam a serenidade e comprometem a liberdade. A felicidade nem sempre está atrelada ao que cada um possui. A necessidade material não resume as buscas mais profundas do ser humano.

Estar aqui só de passagem é uma sensação interessante, inspiração para adequar posturas e encaminhar escolhas. Não ter bagagem excessiva evita transtornos, favorece a leveza, confirma o essencial. Não ter o coração apegado deixou de ser palavreado para tornar-se condição de felicidade. Fomos feitos para a eternidade. Para além do horizonte, contemplamos um mistério que nos convoca à transcendência e à esperança.

Assim como o turista se afastou pensativo daquele nobre sábio, por uns instantes meu coração se recolhe para rever algumas atitudes e reinventar a relação com os bens materiais. Para viver bem não há a necessidade de acumular muitas coisas. Viver um pouco mais leve, com menos preocupações e sem apegos é questão de escolha. É interessante recordar diariamente: estamos aqui só de passagem.