sábado, 15 de fevereiro de 2020

QUEM É A DOMÉSTICA DE GUEDES?

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Concordo em número, gênero e grau com Alencar S. Braga:

"Nesta semana ficamos absolutamente estarrecidos com o comportamento do Ministro da Economia, Paulo Guedes, ao afirmar que o dólar alto era bom porque, nos tempos do dólar a R$ 1,80, até doméstica podia ir pra Disneylândia.

Muito além do preconceito que já é a marca do governo Bolsonaro, assim como o racismo, o machismo e a perseguição ao pensamento, essa fala representa a incapacidade de Guedes em assumir sua incompetência em gerenciar as contas do país frente à crise, o desemprego recorde e à moeda americana batendo incríveis R$ 4,30, encarecendo produtos básicos como combustíveis, medicamentos e até o pão, além de deixar nossas empresas públicas, como a Petrobras e o Banco do Brasil, mais baratas para o especulador estrangeiro.

Representa também qual é o recorte claro de quem Bolsonaro e sua trupe representam: a elite rentista, os milionários, os "veios da Havan" e os "Dorias".

Para o Guedes, estudante é vagabundo, assalariado quer direitos demais, beneficiário do INSS é problema e quem ganha Bolsa Família é folgado.

Para o Guedes, servidor público é parasita. Professor é parasita. Médico é parasita. Assistente Social é parasita. Só não é parasita quem recebe dezenas de milhares de reais todos os meses do Estado.

E, principalmente, a fala de Guedes deixou claro quem ele chama de "domésticas": justamente quem foi pra rua de verde e amarelo pedir pelo impeachment e os próprios apoiadores - e a base de sustentação - do Bolsonaro. Eram aquelas pessoas que iam ou sonhavam ir pra Disney.

O "doméstica" de Guedes passa longe das pessoas que trabalham dignamente com serviços domésticos. Do alto de seu elitismo, o ministro chama de "domésticas" a classe média, a classe trabalhadora, os desempregados e toda população que não está no 1% de abastados para quem ele e Bolsonaro governam.

A "doméstica" de Guedes é você."

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

ESCRAVIDÃO ONTEM E HOJE.


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A existência e a persistência da escravidão ou de condições análogas à escravidão constitui um desafio humanístico, filosófico, ético e teológico até os dias de hoje. Por que humanos escravizam outros humanos, seus co-iguais?

A mais antiga codificação de leis, o Código de Hamurábi, escrito por volta de 1772 aC no Irã já se refere à classe dos escravos. E assim ao longo de toda a história até os dias atuais. A Walk free Foundation que se ocupa com a escravidão, no nível mundial, calcula que haja hoje cerca de 40,3 milhões de pessoas em regime de escravidão por tráfico de pessoas, por dívida, por trabalhos ou casamentos forçados etc. A Índia lidera o ranking com 7,99 milhões de escravizados. Os dados do Brasil de 2018 apontavam 369 mil em condições análogas à escravidão ou escravizados.

As cabeças mais brilhantes do Ocidente viram-na como natural ou até possuíam escravos. Assim Aristóteles, David Hume, Immanuel Kant, Friedrich Hegel. O próprio formulador da Declaração de Independência dos Estados Unidos, Thomas Jefferson na qual se afirmava que todos os seres humanos nascem livres e com direitos iguais possuía escravos, bem como o nosso Tiradentes que possuía pelos menos 6 deles. O famoso Padre Antônio Vieira num engenho pregava aos escravos:”Sois imitadores do Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante ao que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”,chegando a chamá-los por isso de “bem-aventurados”. Uma piedosa e ao mesmo tempo cruel justificativa.

Resumindo: Afirma o grande especialista em escravidão o jamaicano Orlando Petterson, professor em Harvard:”A escravidão existiu desde o início da história da humanidade, até o século XX (XXI), nas sociedades mais primitivas e também nas mais avançadas”(cf.L.Gomes, Escravidão,p.65). Que razões que levaram à escravidão?

Nenhuma explicação até hoje se revelou convincente. Mas podemos tatear razões embora todas precárias.

A primeira teria sido o patriarcado. O homem-macho, há 10-12 mil anos, se impôs a todos, à mulher, aos filhos, à natureza. Sobrepô-se ao outro, fazendo-o seu servo e escravo. A escravidão seria filha do patriarcado ainda vigente nos dias atuais.

A segunda razão, de natureza filosófica, sustenta que o ser humano é um ser decadente. Não num sentido ético mas ontológico. Quer dizer, sua natureza é assim que nunca consegue ser o que deveria ou desejaria ser. Nele há uma amarra interna que lhe impede de dar o salto necessário: controlar e integrar seus impulsos que não são em si maus, mas naturais: a cólera, o uso da força, o poder como capacidade de dominação. Ele decai no sentido de dar vazão a estes impulsos e destarte tornar-se inumano. Donde lhe vem essa incapacidade? A contradição entre o desejo infinito e a realidade finita? Bem que poderia conviver jovialmente com o infinito, acolhendo seu ser finito. Mas não o fez e não o faz. A chaga continua a sangrar e a fazer sangrar.

Tenho para mim que a sabedoria judaico-cristã, de alta ancestralidade, traz alguma luz. Fala de pecado original. O termo não é bíblico, pois aí se usa “pecado do mundo” ou “o ser humano é inclinado ao mal desde a sua juventude”. Pecado original é um termo criado por Santo Agostinho (354-430) em sua intensa troca de cartas com São Jerônimo e em polêmica com o teólogo Pelágio.

Pecado original, segundo ele, não possui uma conotação temporal, “desde as origens”. Mas original concerne ao núcleo originário, primeiro e essencial do ser humano. No seu interior mais profundo vigora uma ruptura: com a natureza, não respeitando seus ritmos, com o outro, odiando-o e com o Definitivamente Importante. Ele se considera o mais o mais importante, pelo fato de ser dotado de razão. Por ela imagina que pode dar conta de si mesmo, como se ele mesmo se tivesse dado a existência e não Alguém que o fez vir este mundo. Pecado original é essa hybris e arrogância. Significa magnificar seu eu a ponto de excluir os outros e o Grande Outro que o criou.

A consequência primeira é a instauração da ditadura da razão. Ela pretende explicar tudo e por ela dominar tudo. Vão propósito. O ser humano não é só razão. É principalmente coração, sensibilidade e amor. Bem antes da razão, o logos, em termos da antropogênese, veio o sentimento, o pathos. Esta dimensão foi recalcada e até negada. Com isso deixou de sentir o outro, de colocar-se no lugar dele, alegrar-se e sofrer com ele. Objetivou-o, vale dizer, o fez um objeto de uso e abuso. Surgiu a dominação do outro. Começou a escravização de um humano sobre outro humano.

Não sentir os outros como nossos semelhantes e não ter empatia para com eles é o “nosso pecado original”, origem da escravidão de ontem e de hoje. Sem abraçar o outro como co-igual e não ouvir o grito da Terra, não haverá futuro para o nosso tipo de mundo e de civilização. Outro deverá vir com seres todos livres e humanos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

CORINGA O FILME.


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Sem ser frequentador de Gotham City ou fã do Batman, não esperava muito do filme. No entanto, o mesmo me impactou. Que personagem é aquele, que figura é aquela, mergulhado no mal desde sempre e tentando incessantemente uma saída, mas não tendo o consentimento da sociedade para isso?

Outra pergunta cabe ao lado de "que personagem é aquele"? Que ator é este que indigna e, ao mesmo tempo, desperta compaixão, ternura, empatia? Representa um assassino. Sim. Contumaz e serial. No entanto, vendo Coringa, torcer pelo bandido é quase inevitável. Nada simples a obra de Todd Philips. Ao contrário, altamente complexa. E o talento de Joaquin Phoenix só faz complexificá-la ainda mais.

O Coringa é um daqueles que Eduardo Galeano chamou de "nadies", palavra castelhana que significa "ninguém". Segundo o poema de Galeano, os "nadies" sonham com um dia mágico em que a sorte chova abundantemente sobre eles. Mas isso nunca acontece. Porque eles são invisíveis. Apanham, apanham e teimam em levantar-se e continuar buscando sair da margem e habitar o centro, o lugar onde há nomes, rostos, identidades.

No entanto, - ainda segundo Galeano - os "nadies" não são, ainda que sejam; não falam idiomas, mas dialetos; não professam religiões, mas superstições; não fazem arte e sim artesanato; não produzem cultura, mas folclore. Não são seres humanos, e sim recursos humanos; não têm cara nem nome, não figuram na história oficial. Apenas são personagens da página de crimes da imprensa e dos meios de comunicação. Valem menos que a bala que os mata.

O drama do Coringa é esse seu anonimato não escolhido, mas imposto por suas terríveis circunstâncias de vida. É um ninguém porque é filho de ninguém: de um pai ignoto ou duvidoso, de uma mãe que não o parira nem amamentara. A sociedade onde vivia tratou de empurrá-lo sempre para a margem, impedindo-o de erguer a cabeça a cada tentativa.

A teologia poderia bem situar o Coringa na categoria de vítima. As vítimas são aquelas pessoas que não podem escolher a vida que desejam porque são invisibilizadas e neutralizadas por todas as formas de poder. Não se pergunta a teologia por suas virtudes ou defeitos, sua elevação de espírito ou sua propensão para o crime. Apenas constata-se que nossa sociedade é opressora, cruel e de certo modo assassina. E que estes, os "nadies", são suas vítimas constantes e ressentidas.

Dessa sociedade é vítima o Coringa, aquele que acaba fazendo da violência e da morte seu lugar de fala. E esconde seu desespero atrás de um riso indomável que é prontamente identificado como problema neurológico, facilitador de enclausuramento ou internação compulsória em hospícios que são, na verdade, campos de extermínio.

O que o filme mostra é que este que mata e ri não é um caso isolado. Com ele e como ele são muitos, multidões, legiões de "nadies", que a cada dia têm que buscar a vida que teima em se apresentar como ameaça e morte. Ou como anonimato forçado, que inviabiliza qualquer tipo de reconhecimento, de proximidade, de relacionalidade.

Contra isso vai a revolta do Coringa, que se constata não ser apenas dele. Tanto é assim que a cena final, com o personagem já morto, traz algo de ressurreição e "redenção" que impulsiona e turbina a revolta dos pobres e das vítimas. Esses e essas vão buscar a visibilidade que desejam com violência.

Por isso, escolhi esse título temerário, perguntando se o Coringa, na verdade, não nos faz enxergar uma redenção ainda que pelo avesso. Se não seria sua anti-história uma cristologia invertida. O personagem negativo, vilão e assassino, na verdade é o único que consegue fazer sair da imobilidade, da passividade os que penam sob o jugo de ser ninguém em uma sociedade que só abre espaço para ricos, celebridades e famosos.

Saio do filme pensando que, se continuarmos produzindo Coringas, talvez um dia nossas cidades sejam Gotham City em versão piorada.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

AS OUSADIAS DE GRETA THUNBERG


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Como dialogar com a geração que chega à universidade com a pegada da garota sueca? Ética do compartilhamento, novas formas para decidir e crítica radical são ótimas pistas — mas não bastam.

Já faz algumas semanas que me sinto interpelado a escrever sobre a educação no século 21 e seus variados desafios. Reconheço que se trata de uma questão controversa e, mais que isso, com intensa presença de futurólogos de variados matizes. Via de regra, aqueles que assumem esta tarefa apostam em modelos educacionais ancorados em variados recursos tecnológicos, em arranjos metodológicos centrados na atividade dos estudantes ou mesmo em formas escolares com design e arquitetura inovadores. Tais preocupações merecem uma reflexão consistente, não resta dúvidas; entretanto, neste texto escolho tomar como foco de minha abordagem outra dimensão, mais próxima ao perfil formativo que tem ingressado em nossas escolas, por meio da chegada de uma geração de meninas e meninos empoderados que povoam nossas instituições com uma nova agenda de preocupações. Como podemos educar a geração de estudantes em que Greta Thunberg foi o exemplar mais representativo do ano de 2019? Quais conhecimentos e experiências formativas precisamos priorizar? Que demandas éticas, políticas e pedagógicas precisam ser reconhecidas pelas escolas neste início de século?

Todavia, meu compromisso neste texto não se encontra em examinar a Greta e suas pautas ambientais. Inquieto-me com um conjunto de adolescentes e jovens – em nossas escolas e universidades, públicas e privadas – que chegam até nossas instituições com visões de mundo bastante específicas. Economia baseada no decrescimento sustentável. Culturas colaborativas e ética do compartilhamento. Combate às formas variadas de discriminação. Intensificação do feminismo e de suas novas pautas. Pensamento computacional e criativas formas de aprendizagem. Diferenciadas literaturas e expressividades corporais. Ou ainda: novos modelos de negociação e de tomadas de decisão na relação com os adultos e as instituições. Esta lista é bastante singela e revela muito superficialmente um conjunto de discussões que atravessam os agrupamentos juvenis de nosso tempo.

Aqui chego no ponto principal que perpassa e institui minha discussão proposta para este texto: quais saberes são importantes para a educação contemporânea? Arrisco três possibilidades pedagógicas,  quais sejam:

1) Aceitar que a ética do compartilhamento é uma nova tendência na difusão, apreciação e construção de conhecimentos na escola; porém, ainda necessitamos auxiliá-los na criação de critérios que validem e melhor selecionem as informações e suas formas de tratamento analítico.

2) Apostar em outras formas de tomada de decisão e em uma nova trama de demandas políticas, que muitas vezes podem contrariar setores conservadores. Assembleias públicas, tuitadas, vaquinhas virtuais, fóruns virtuais de discussão e influenciadores digitais variados são ferramentas potentes para ler o nosso tempo. O desafio, enquanto professores e escolas, seria colocar em permanente discussão as questões da qualidade e da equidade na escola dos adolescentes – lembrando-os que a democracia (os direitos e as liberdades individuais) sempre é desejável, seja como valor, seja como procedimento.

3) Nunca esquecer que as escolas e as universidades são espaços destinados ao exercício do pensamento, ou seja, por meio de novos saberes e experiências precisamos mobilizar a crítica radical e colocar todas as pautas sob tensão permanente, inclusive as nossas. Escolas e universidades têm suas tradições; porém, apostar em uma cultura do compartilhamento, em outros modos de decisão política e em uma revitalização do pensamento enquanto vetor na formação humana podem nos trazer pistas para a educação contemporânea. Que as ousadias de Greta Thunberg sejam bem-vindas à escola do século 21!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

LIÇÕES QUE EXIGEM NOVAS PRÁTICAS E HÁBITOS


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A chuva, dom da criação, derramada para fecundar a terra e garantir bens essenciais, tem se tornado um pesadelo: mais uma vez, avoluma-se o número de pessoas que perdem suas vidas e contabilizam-se os graves prejuízos. Realidade que se hospeda no mesmo horizonte da tragédia-crime de Brumadinho.

Causa perplexidade constatar as lições não aprendidas, o que aponta para a necessidade urgente de mudanças de hábitos e providências que não podem surgir de soluções apressadas, do improviso, mas da inteligência na intuição de novos processos capazes de promover intervenções assertivas e a necessária correção de rumos que garantam condições adequadas para os cidadãos.

Assiste-se, no entanto, a um “bate-cabeça” comprometedor. Um contexto de nefastas consequências explicitadas nas falas e linguagens que revelam a estreiteza de compreensão por parte daqueles que, por necessidade e obrigação, deveriam projetar luzes novas, apontar rumos. Muitos, curiosamente, movidos por interesses questionáveis, se tornam reféns de grupos e pessoas mal intencionadas. Assim, os planos e prioridades são definidos por critérios medíocres, próprios de quem se encastela em um discurso desmoralizante, capaz de intimidar apenas aqueles que se equiparam pela mediocridade. Espera-se, com urgência, dada a incidência dos clamores, especialmente dos pobres, reação eficaz e novas respostas. É preocupante a falta de preparo na forma de conduzir os processos, gerando confusão, acentuando oportunismos, validando critérios inócuos, a exemplo do que se esconde na impiedade da busca irracional do lucro, louvado como alavanca do aquecimento e da melhora da economia.

As brumas e as catástrofes nas evidências das reações agressivas da natureza são o retrato desolador da falta de ações com força de mudanças, da vagareza das soluções que pedem urgências, enquanto a mediocridade da conservação estreita inovações para assegurar o apequenado que se conquistou. As consequências são evidentes na religiosidade que não consegue emitir sua profecia, órfã dependente de discursos ideológicos e partidários; nos governos que não conseguem, minimamente, eleger suas prioridades; nas instituições que servem mais aos que as compõem, ao invés de fazer de seus servidores protagonistas em ações transformadoras - incluindo os cidadãos que não conseguem mudar nem mesmo hábitos simples e corriqueiros.

Pense-se na evidência do lixo produzido e inadequadamente tratado. Além de agravar enchentes e degradações, denuncia o descuido da sociedade. São estreitezas pessoais e sociais que pesam e prejudicam a sociedade brasileira na dinâmica mundial e no próprio horizonte nacional. Tudo isso reflete também oportunismos, com o intuito de conquistar votos, impulsionar projeção pessoal ou político-partidária, contracenando com rigorismos doutrinários e disputas ideológicas assépticas, que não efetivam avanços e atolam ainda mais a sociedade em brumas e catástrofes.

Constata-se, de modo preocupante, a falta de estrutura moral, espiritual e emocional, desfigurando e aprisionando a cidadania numa condição depressiva. Muitas vezes, prefere-se não reagir e apenas viver do cultivo de uma dor, sem buscar a cura ou tratamento adequado - a se fortalecer para realizar grandes mudanças. Lamenta-se o cenário do protagonismo dos profetas que se põem em defesa da verdade, enquanto os agoureiros, até causando medo e submissão, tiram proveito para ganhar o sustento e promoção, neutralizando reações urgentes na construção de respostas novas. São muitas as lições, e poucas as aprendidas. Lições que exigem a produção de nova compreensão, de novas práticas e hábitos. Neste exigido investimento para a vida nova clamada pela sociedade contemporânea, o horizonte da Ecologia Integral é o mais produtivo e com força transformadora. Sem novas dinâmicas, sem a substituição de lógicas, sem a humilde assunção de hábitos não ocorrerão as mudanças adequadas para substituir as brumas e catástrofes que desnorteiam o cotidiano deste tempo.

Não cabe dar as costas, produzir reações agressivas ou antagônicas às interpelações vigentes, desenhadas na perspectiva da Ecologia Integral - embora incomodem alguns e aparentem ser menos importantes do que realmente são. A sociedade brasileira precisa ser tocada nos seus brios, os cidadãos sensibilizados, pela solidariedade, no seu patriotismo. É indispensável aos governantes, na condição de aprendizes-servidores, se deixarem iluminar por uma nova lógica. Ao invés da rigidez que ajuda a matar, a fé precisa ser praticada e fortalecida como conquista da liberdade para a qual Deus criou a vida, a ser preservada em todas as suas etapas. É preciso ter vergonha, se incomodar, trabalhando e contribuindo na construção de mudanças fortes, urgentes, para que sejam superadas as catástrofes e pairem as brumas do amor e das solidariedades.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

SEM GANHAR NADA POR ISSO.


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Elas dedicam 14 horas por dia aos cuidados não remunerados, como buscar água, lenha e cuidar de crianças, aponta relatório da Oxfam para o Fórum Econômico Mundial; dados são globais, mas refletem situação no Brasil, onde os homens são donos de 87,32% das propriedades rurais.

A reportagem é de Priscilla Arroyo, publicada por De Olho nos Ruralistas, 21-01-2020.

Buscar água do poço ou da nascente, colher lenha, cozinhar, fazer pequenos consertos, cuidar de crianças e idosos. Esses são alguns exemplos de trabalho de cuidado não remunerado, atividade essencial para manter o fluxo de comunidades e até da economia de um país. Trata-se de uma ocupação invisível, desproporcionalmente assumida por mulheres e meninas em situação de pobreza.

Em zonas rurais pobres, elas dedicam catorze horas por dia para esses afazeres, cinco vezes mais tempo que os homens, de acordo com dados do relatório “Tempo de Cuidar“, produzido pela Oxfam para ser apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

“Embora os dados sejam globais, se olharmos para o mundo rural brasileiro, essas estatísticas seguramente se repetem”, diz Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil. Ela destaca que os homens são donos de 87,32% das propriedades rurais no País. “Na prática, elas cuidam dos afazeres domésticos e também participam do trabalho na roça”.

Tal cenário contribui para a perpetuação das desigualdades de gênero e econômica, uma vez que prejudica a saúde e o bem-estar das trabalhadores de cuidado, além de impedir a prosperidade econômica e social. É pouco complicado chegar a essa conclusão: uma das principais consequências para meninas em idade escolar que dedicam esse esforço às suas comunidades é a diminuição da taxa de frequência nas salas de aula.

De acordo com o relatório, as mulheres mais afetadas são as que pertencem a grupos que sofrem outros tipos de discriminação além do gênero, como preconceito racial, de nacionalidade, sexualidade e casta. “Na Bolívia, por exemplo, 42% das mulheres afirmam que o trabalho de cuidado constitui o maior obstáculo à sua participação na política”, aponta o texto.

Trabalho 'invisível' agrega trilhões à economia

Enquanto as mulheres padecem de falta de perspectiva pessoal, a dedicação ao trabalho de cuidado agrega ao menos US$ 10,8 trilhões por ano em valor à economia, três vezes mais que o desempenho do setor de tecnologia em todo o mundo. Embora elas sejam responsáveis por mais de três quartos dessa função, o esforço é invisível para os governos, que consideram gastos com esse tipo de atividade como custo, e não investimento. Como consequência, o esforço não aparece em indicadores de progresso econômico e nas agendas de políticas públicas.

As perspectivas são pouco positivas, uma vez que a posição austera adotada por muitos governos agrava mais ainda o quadro. “Em vez de ampliar programas sociais e gastos para investir na prestação de cuidado e combater a desigualdade, os países estão aumentando a tributação de pessoas em situação de pobreza, reduzindo gastos públicos e privatizando a educação e a saúde”, aponta o texto.

No Brasil, onde a administração de Jair Bolsonaro faz o ajuste fiscal a partir de cortes em políticas sociais, as pessoas mais necessitadas são as mais afetadas. “Temos uma preocupação grande com o que vem pela frente”, diz Katia, ao se referir às discussões em relação à reforma tributária. “Deveríamos priorizar a tributação de grandes fortunas, dos dividendos. Mas não estamos vendo isso”.

Escassez de água agrava situação das mulheres

A destruição gradual da natureza acelera o processo de colapso climático, o que tende a piorar ainda mais a situação das mulheres que prestam trabalhos de cuidado. De acordo com estimativa da Oxfam, 2,4 bilhões de pessoas viverão em áreas de escassez de água até 2025. Isso significa que elas terão de caminhar distâncias maiores para prover essa necessidade básica às suas famílias.

Outra consequência apontada pelo relatório é a redução na quantidade de alimentos produzidos, o que tende a aumentar a incidência de doenças e, portanto, a dedicação das meninas e mulheres aos enfermos.

O aumento da quantidade de idosos e crianças é mais um fator que tende a refletir na piora da condição de vida. Estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que, até 2030, haverá um número adicional de 100 milhões de idosos e de 100 milhões de crianças entre 6 e 14 anos que precisarão de cuidados. Diante de sistemas públicos despreparados para atender a essa necessidade adicional, cairá sobre as mulheres mais essa demanda.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

EM QUE LUGAR VOCÊ ESTÁ?

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“Do lado de quem você está?”. Eis uma interrogação que provoca e contribui para revelar configurações partidárias que presidem relacionamentos. Inscreve-se nesse questionamento a tentativa humana de demarcar lugares – o que por vezes, evidencia velada pretensão de poder, que também se assenta na segurança do corporativismo dos aliados. A definição de “lado” hospeda a ilusória sensação de se estar “em casa”, confortavelmente, sem adversários por perto. Um equivocado sentimento de segurança que, não raramente, se fundamenta nas configurações sempre frágeis e limitadas de uma ideologia qualquer.

A interrogação - “do lado de quem você está?” - alimenta ainda a curiosidade, um dos fermentos nas disputas. Esse questionamento cabe, na medida certa, quando se trata de torcidas esportivas ou disputas partidárias, até mesmo do discernimento sobre interesses que se tem. Quer-se sempre saber o “lado” daqueles que exercem altos cargos nas esferas públicas e privadas, de pessoas com significativa projeção social e política, dos formadores de opinião. Mas é importante sublinhar: o desmedido apego à questão “do lado de quem você está?” pode impedir a vivência da unidade, que exige a inclusão da diferença, possibilidade real de enriquecimento em todos os aspectos.

E, para a superação de possível morbidez quando se move somente pelo que é partidário - considerando cenários da política, por exemplo - é preciso responder a questão sobre “o lado de quem você está” de forma diferente. Tomar partido em variados campos, a exemplo da política, pode ser força propulsora na sociedade, mas não se deve buscar apenas defender e reforçar determinado “lado”, ideologia ou discurso que privilegia a identificação de alguma referência simbólico-cromática.

“Do lado de quem você está?”. É possível uma resposta diferente, ao se lançar olhar atento e interessado sobre a sociedade, identificando os seus cenários, no exercício qualificado da cidadania: estar junto dos mais pobres, condição que alicerça o humanismo solidário. E os discursos que comprovadamente estão do lado dos pobres ultrapassam umbrais de academias ou de diretórios partidários, pois sempre serão seguidos de hábitos, de gestos e de atitudes dedicados aos que mais sofrem. Essa prática testemunhal, sem risco de simplesmente reforçar ou requentar falas, é o verdadeiro lado - sem a parcialidade que apenas gera divisões entre grupos e pessoas. Ao invés disso, estar com os pobres sustenta a unidade.

A prática testemunhal, na proximidade junto aos que mais precisam, sinaliza distanciamento de lógicas perversas: a busca por acumular sempre mais riquezas sem ter a coragem de dedicar-se à partilha, à generosidade; o apego ao privilégio de integrar instâncias de decisão e exigir, dos outros, somente dos outros, a adoção de rumos novos. A prática testemunhal guarda a força da coerência necessária para a superação de todo tipo de exclusão e de preconceito. Sabe-se do risco de se apegar a um determinado lado, achando-se no direito de ser indiferente e até de odiar os que estão em outro lugar. Esse apego é característica dos que apenas querem justificar privilégios, alcançar comodidades tranquilizadoras da consciência de seu próprio grupo, ampliar espaços de atuação, inclusive misturando religião e opções confessionais com interesses políticos espúrios.

A interrogação intrigante, “de que lado você está?”, continuará a ser repetida, e mal ou bem respondida, até que um qualificado tecido civilizatório se constitua e a cidadania não seja pautada pelas parcialidades, nas hegemonias, mas na unidade edificada e mantida pela justiça. Hoje, diante da ausência de entendimentos mais lúcidos, torna-se importante identificar “lados” para, a partir do convencimento, promover adesões ao caminho que leva a correções dos funcionamentos da sociedade, dominada pelo consumo e pela ganância.

Esse rumo a ser buscado exige a clareza para compreender que vale menos o lugar ocupado a partir do campo ideológico. O importante é estar junto dos pobres, assumindo um lado que exige coragem para defender direitos e promover a justiça, o território da solidariedade. Nesse horizonte, a partir da tarefa, compartilhada por todos, de se construir um mundo melhor, pode valer a sugestão de substituir a intrigante interrogação “de que lado você está?” por um exercício de autorreflexão. Avaliar, para além das ideias, a própria participação na mudança requerida. Assim, torna-se possível responder, com mais clareza, nova interpelação: “em que lugar você está?”.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

ALEM DE NOS O QUE MAIS TEM NAS PRAIAS?


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Um estudo inédito revelou que os banhistas que frequentam as praias no país dividem espaço, a cada trecho de 8 quilômetros (km), com mais de 200 mil bitucas de cigarro, 15 mil lacres, tampas e anéis de lata, 150 mil fragmentos de plásticos diversos, 7 mil palitos de sorvete e churrasco e 19 mil hastes plásticas de pirulitos e cotonetes.
A reportagem é de Flávia Albuquerque, publicado por Agência Brasil, 24-01-2020.

Os dados são resultado da segunda fase do projeto Lixo Fora D’Água, que visa combater as fontes de poluição marinha por resíduos sólidos, coordenado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e um acordo de cooperação com Secretaria de Meio Ambiente de Santos, com apoio da Agência de Proteção Ambiental da Suécia.

O projeto existe desde 2018 e nesse período identificou que as três principais fontes de vazamento de lixo e resíduos para o mar são as comunidades nas áreas de palafitas, os canais de drenagem que atravessam a malha urbana e a própria orla da praia em sua faixa de areia.

De acordo com o estudo, entre os resíduos mais encontrados e em maior quantidade nas praias estão os materiais plásticos e de forma variada, como plástico filme, pequenos tubos plásticos, hastes plásticas e isopor (52,5%); a bituca de cigarro, responsável por 40,4% do lixo coletado; e borracha, metal, madeiras, embalagens e outros (7,11%).

“Os resultados desse projeto inédito são fundamentais para enfrentar o problema do lixo no mar. Mais do que limpar praias e retirar resíduos do oceano, o plano de ação permitirá às cidades o desenvolvimento de melhores práticas para evitar que os resíduos continuem a poluir o estuário e a orla da praia”, disse o diretor presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho.

Operação Areia Limpa

Com base nos números apurados a Abrelpe decidiu criar a Operação Areia Limpa, que começa no dia 25 de janeiro e dura um mês. Serão escolhidas duas barracas na praia de Santos, litoral de São Paulo, que receberão mobília e assessórios novos, como mesa de apoio com lixeira; taças e copos retornáveis; canudos compostáveis que serão segregados e, ao final do projeto, levados para compostagem; bituqueiras ‘individuais’ de bambu; e carrinho coletor (de 100 litros) para limpeza frequente ao longo do dia. Haverá ainda placas sinalizadoras e um “cardápio” com informações sobre descarte e sobre a operação.

“É a primeira vez que uma ação de prevenção e combate ao lixo no mar é pensada e implementada a partir de estudos metodológicos multissetoriais, com a execução idealizada a partir da prototipagem de soluções que tenham viabilidade econômica, técnica e operacional com vistas à mudança de comportamentos para que se possa alcançar o objetivo maior de reduzir a quantidade de resíduos que vão parar no mar”, explicou Filho.

Indicadores internacionais mostram que cerca de 80% do lixo marinho tem origem no ambiente terrestre. No Brasil, mais de 2 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos vão parar nos rios e mares todos os anos, quantidade suficiente para cobrir 7 mil campos de futebol.

O Projeto Lixo Fora D’Água acontece simultaneamente em outras seis cidades litorâneas: Balneário Camboriú (SC), Bertioga (SP), Fortaleza (CE), Ipojuca (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Luís (MA). Para essas cidades também serão elaborados diagnósticos individualizados. As ações de prevenção, limpeza e monitoramento do lixo no mar serão desenvolvidas e implementadas com base no aprendizado desenvolvido inicialmente em Santos.