quinta-feira, 20 de setembro de 2018

FÉ, O PODER DO AMOR.

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A fé que vem de sempre...
Essa expressão me fez lembrar um momento forte da minha paternidade: o batismo dos meus filhos. O pequenino ali, alheio a tudo no colo da madrinha, e nós, pais e padrinhos, renovando e professando nossa fé, transmitida de geração a geração, repetindo palavras e gestos de renúncia ao Mal e adesão a Cristo e sua Igreja. Ao final, o pastor diz: "esta é a Fé na qual fomos batizados, razão da nossa alegria em Cristo...".
Fé e alegria...
Sou de uma geração que teve dificuldades em associar essas duas riquezas. Na catequese daqueles tempos, a fé era uma senhora sisuda, ranzinza e mal humorada, a exigir que obedecêssemos cegamente a normas, mandamentos, regras e obrigações que frequentemente se mostravam incapazes de conciliar a crença em Deus com as alegrias da vida.
A própria imagem de Deus que surgia daí era a de um velho de barbas longas e um olho enorme, que via tudo, e estava sempre disposto a distribuir maldições e castigos a torto e a direito, fazendo pairar sobre todos a ameaça dos horrores do inferno pela eternidade...
Castigo eterno... horrores do inferno...
Nesse cenário éramos 'convidados' a mergulhar no mistério da fé. Convenhamos, foi demais para os corações e mentes daquela geração e até hoje há, por aí, gente que não aprendeu a amar a Deus e morre de medo do Diabo...
O Concílio que começou há mais de cinquenta anos deu início a um processo de abrir as portas e janelas da Igreja para que o sopro do Espírito pudesse arejar os longos corredores da sua História. Não tem sido fácil. O que testemunhamos, desde então, é um abrir e fechar de portas, um contraste entre medo e liberdade, o desejo de deixar-se levar pela ação do Espírito e a tentativa de impedir que o mesmo Espírito continue soprando onde quer.
Mas a fé me diz que o novo, que vem de sempre, sempre vem...
Virtude teologal, ao lado da Esperança e do Amor, a Fé rompe as trevas e se faz Luz, iluminando o Amor, que como diz a insuperável carta de Paulo aos Coríntios, é a mais excelente das virtudes.
Virtudes teologais dão pouco ibope num mundo que tem fixação por pecados capitais. Basta pegar o jornal do dia, ler as manchetes, assistir ou ouvir o noticiário na TV e no Rádio, acessar os portais da Internet e eles estão ali, escandalosamente expostos: Ira, Luxúria, Preguiça, Gula, Avareza, Inveja e Vaidade...
Em 2008 a Igreja publicou um documento em que fazia uma releitura atualizada, à luz da realidade do nosso tempo, nomeando os "sete pecados capitais do Sec. XXI". Seriam eles:

- A busca irresponsável por experimentos "moralmente dúbios" com células-tronco.
- O uso de drogas ilícitas e o abuso de drogas lícitas.
- A poluição do meio ambiente.
- O agravamento da injustiça social.
- A riqueza excessiva de poucos em contraste com a miséria absoluta de tantos.
- A existência de estruturas políticas, sociais e econômicas geradoras de pobreza.
- As violações bioéticas.

Como vemos, o assunto é complexo e há vasto material de pesquisa para quem se interessar em aprofundá-lo. Ao longo deste "Ano da Fé" certamente muitas reflexões serão, e já estão sendo, feitas sobre o tema. Mas, antes de alçar voos mais altos nesta discussão é preciso mergulhar nas raízes da nossa experiência de fé e se perguntar: donde vem a minha crença minha fé? Creio em quem...?
Volto à simplicidade daquela pia batismal onde eu, meus pais e meus filhos renascemos no Espírito (João 3,5).
Contemplo a cena...
A roupinha branca que vestia o pequeno era a mesma usada por mim, quando do meu batismo, e guardada com todo cuidado e carinho por minha mãe. A roupa, a pia batismal, a água, a vela, o óleo, o sal, as palavras, tudo é sacramental. Coisas, em si, banais, descartáveis até, mas que abrigam a densidade do mistério que mora nas coisas. Mistério da fé...
Meu coração, tocado pela memória emocionada, repete: Fé, razão da minha alegria...
Alegria de quem se sabe amado pelo Pai, o que gera confiança para me entregar à sua vontade, na gratuidade, sabendo que estou seguro, acolhido, compreendido, respeitado.
Hoje sei de onde vem a minha fé e em quem creio. Creio num Deus que é Amor, que me criou por amor e para o amor. Esta é a fé que me faz descrer do egoísmo, e acreditar, com todas as minhas forças, no poder do Amor.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

CIO DA TERRA...



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Ouço no rádio, na voz de Milton Nascimento, Pena Branca e Xavantinho, uma das mais belas canções da MPB, "Cio da terra", de Chico Buarque e do próprio Milton.
Não sei quantas versões já foram gravadas, mas, de todas, esta é, para mim, a que melhor traduz o diálogo entre a beleza poética da letra e a sensibilidade rústica e suave da melodia.

A composição é tão intensa que ultrapassou os limites da canção popular e chegou à liturgia. É comum vê-la cantada no ofertório de muitas eucaristias nas quais várias de suas frases musicais me chamam a atenção de maneira especial, tornando-se convite à oração.

"Afagar a terra, conhecer os desejos da terra..."Penso na Terra, planeta, e na terra, que se faz, cotidianamente, caminho para os meus pés (ou rodas).

Cidadão absolutamente urbano, pouco sei dos desejos da terra-chão, já que pouca terra sobrou nesta selva de cimento e asfalto em que se transformaram as cidades do século XXI. Ruas impermeáveis, rios convertidos em fétidos esgotos, tudo serve de calha para enchentes, desmoronamentos e outras catástrofes já incorporadas ao calendário das nossas metrópoles.

As dores do planeta também não me passam despercebidas. As loucuras do tempo levam aos extremos de, ao mesmo tempo, no mesmo país, continente e hemisfério, ver gente morrendo de sede e gente morrendo afogada. Mas, mesmo em meio à estranha contradição dessa aridez inundada, meu coração insiste em buscar e semear ternuras, ainda que através de palavras.

Gosto, por exemplo, da palavra "afagar".
Afagar me lembra gesto de carinho em rosto de criança. É convite a toque suave, terno, sem pressa. A colheita vem no sorriso infantil, fruto abundante, com sabor de pura gratuidade. Nele, fecha-se o ciclo amoroso do cio da terra, propícia estação de fecundar o chão da vida com nossos melhores sonhos.

Jesus talvez estivesse ouvindo Chico e Milton quando contou aos seus discípulos a seguinte parábola, em Lucas 13,1-9...

Certo homem tinha uma figueira em meio à sua plantação de uvas.
Quando foi procurar figos, não encontrou nenhum. Disse, então, ao empregado que tomava conta da plantação: "Olhe, já faz três anos seguidos que venho buscar figos nesta figueira e não encontro nenhum. Corte esta figueira! Por que deixá-la continuar tirando a força da terra sem produzir nada?"

Mas o empregado respondeu:"Patrão, deixe a figueira ficar mais este ano. Eu vou afofar a terra em volta dela e pôr bastante adubo. Se no ano que vem ela der figos, muito bem. Se não der, então mande cortá-la".

Recolhendo "cada bago do trigo..."

Em contraponto com a atitude objetiva, prática, utilitarista, do patrão, Jesus revela o olhar amoroso e misericordioso do empregado. Em outra ocasião, quando Pedro lhe pergunta se devemos perdoar, "até sete vezes", Ele responde: "Não, Pedro, setenta vezes sete...".

O Deus em que creio, revelado por Jesus é paciente, amoroso, cuidadoso. Nada tem de vingativo ou irado. É também um Deus que, diante da liberdade humana, se mostra surpreendentemente impotente. Respeita nossas escolhas até o limite do absurdo. Respeita até nosso direito de não crer nele.
E aí, entramos definitivamente no território do mistério. Um Deus onipotente, onipresente, onisciente, ou seja, que pode tudo, sabe tudo e está em toda parte, se mostra frágil e limitado diante da nossa liberdade.
Às nossas dúvidas, à nossa teimosia rebelde, à nossa aridez estéril, Ele responde sorridente e paciente: "Eu vou afofar mais esta terra e pôr bastante adubo a sua volta".

Hoje, olhando/rezando o chão da minha vida, me pergunto:

- Que pedaço de terra precisa ser "afofado" (afagado) em meu coração?

- O que precisa ser adubado em minha vida?

- Que frutos o Senhor espera colher em mim?

ARMAR OU DESARMAR A POPULAÇÃO?

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Volta à mídia a discussão sobre o desarmamento da população brasileira. Na verdade o assunto nunca deixou de ser intensamente discutido em fóruns como a Internet, em conversas informais, entre amigos, no ambiente de trabalho e escolas.

A questão é polêmica. Todos os dias, ao abrir minha caixa postal encontro diversas mensagens, e-mails, com opiniões de todos os tons e níveis possíveis e imagináveis.

Fica difícil, num primeiro momento, formar uma opinião sensata sobre o assunto, uma vez que ele, em geral, é discutido de forma passional, emocional, com pouco equilíbrio e isenção. Há dúvidas, também, nas pesquisas, estatísticas e números que são apresentados pelas diferentes correntes. Fica no ar a sensação de manipulação, de desconfiança, de pouca credibilidade.

Mas, teimoso que sou, tento, nesta nova investida, relativizar a forma e ir além, avaliando o conteúdo, os argumentos. E aí, um impasse: há posições razoáveis dos dois lados.

Os que são contra o desarmamento alegam, em primeiro lugar, o direito constitucional e inalienável à legítima defesa. Criticam também, e com razão, a pouca eficácia do aparato policial oficial no combate à criminalidade. Lembram que quem vai ser desarmado é o cidadão de bem, arma de bandido não tem nota fiscal nem vai ser devolvida, e que eles, os bandidos, podem sentir-se mais à vontade ainda sabendo que, do lado de lá, há uma vítima indefesa. Citam casos específicos em que as pessoas precisariam das armas como proteção, como no caso de ex-policiais e moradores de locais isolados, como sítios e fazendas. São argumentos plausíveis.

Os que são pelo desarmamento apresentam também razões de peso. A campanha de entrega de armas desenvolvida pelo Governo Federal trouxe uma redução significativa no número de homicídios. Menos armas na mão da população, menos mortes, menos violência.

Citam os inúmeros casos de acidentes domésticos, em especial com crianças. Mostram que o cidadão comum, em geral, está despreparado para usar a arma em defesa própria e acaba sendo vítima do bandido, que conta sempre com o fator surpresa a seu favor. Acentuam também que a posse de uma arma pode transformar simples discussões de trânsito ou bate boca entre vizinhos em tragédias irreversíveis. Registram os lucros imensos que estão por trás da indústria armamentista mundial, que teme que uma legislação que restrinja a posse de armas, se aprovada no Brasil, possa levar outros países a buscar o mesmo caminho.

Dados e argumentos também irretocáveis.
Diante de tal equilíbrio de forças, tenho a impressão de que a maioria da população acaba optando pelos argumentos emocionais. "Pensa" com medo, raiva ou ambos. O que não é bom.


Lembro do que dizia o poeta: "o coração tem razões que a própria razão desconhece..." Fui ouvir, então, meu coração. E ele me disse...
Nossas escolhas falam muito de nós mesmos. Decidimos com tudo o que somos. Das coisas mais simples, como a roupa para ir a uma festa ou ao trabalho, até o presidente (ou presidenta) da República ou o síndico do condomínio, nossas escolhas revelam muito da nossa alma. A boca (e os gestos) fala(m) do que está cheio o coração... diz a Bíblia.

Se em meu coração mora o medo, a raiva, a insegurança, a mágoa, o rancor, o sentimento de vingança, minhas escolhas refletirão isso. Se tenho, arraigados em mim, preconceito e discriminação, minhas opções, meus gestos serão um retrato desses sentimentos. E os sentimentos à flor da pele levam a escolhas imediatas, geralmente passionais e explosivas.

O contrário também é verdadeiro. Se em meu coração habita o desejo de paz, de justiça, para lá se dirigirão as minhas escolhas. Se compreendo que o homem não nasceu para ser 'o lobo do homem', mas sim seu irmão, vou buscar construir fraternidade em mim e à minha volta. Decisões que vem do interior mais profundo tem mais chance de se traduzir em escolhas equilibradas, ponderadas.

Mas aí, outro grande problema. Meu coração, assim como a vida, é capaz de abrigar tanto o medo quanto a paz. Nele há espaço para raiva e ternura, desejos de vingança e sede de perdão. Meu coração é humano, assim como tudo o que sou e nele, o Bem e o Mal costumam estar lado a lado...

Então, é preciso ir ainda mais fundo... Perceber que posso até sentir raiva, medo, desejo de vingança, mas não posso consentir que estes sentimentos ocupem meu coração, minha vida. Posso exercer minha liberdade, minha consciência e ir além, em busca do Mais, decisivo, essencial.

Novamente um texto bíblico vem iluminar minha busca:
E Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Homem e Mulher Ele os criou. E viu que tudo era muito bom..."

Imagem e semelhança... bondade original que nos torna parecidos com o Criador. É lá que somos mais verdadeiros. É lá que mora o melhor de nós. Lá está a resposta que eu procurava.

E as pistas continuam: "Felizes os que constroem a paz. Eles serão chamados filhos de Deus...", diz Jesus em sua Boa Nova.
Somos semelhantes a Deus porque somos capazes de amar. E o amor, mesmo do nosso jeito frágil e limitado, pacifica nossos sentimentos, palavras e gestos. São as escolhas feitas por amor que mais nos realizam, que mais nos trazem a experiência da felicidade que buscamos em tudo e em todos.

E para amar é preciso se desarmar...
Pareço ingênuo, utópico? Pode ser, mas é nessa direção que caminha o meu coração, a minha vida.

Para além de todos os argumentos, números e estatísticas, verdadeiros ou não, convincentes ou não, no mais profundo do meu coração, onde mora o desejo do amor maior, do amor que transbordando de si mesmo criou a cada um de nós, há uma pessoa desarmada.

É ao encontro dessa pessoa que quero caminhar. Nela, repito, mora o melhor de mim, o melhor de nós.

Ficam de lado as razões e os argumentos, tão válidos que acabam por anular-se entre si. Decido na profundidade de mim mesmo, esse território sagrado de liberdade onde até Deus, para entrar, pede licença. E eu digo: seja bem vindo!

E não deixo por menos, sou pelo desarmamento geral e irrestrito. Desarmar a alma, o espírito, as mãos, o coração, o corpo. Desarmar a vida. E amar a vida!

terça-feira, 18 de setembro de 2018

UM AVISO A CLASSE MÉDIA

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A classe média é a salsicha do sanduíche da desigualdade social. Ela sobe uma rampa ensaboada: quanto mais se esforça para atingir o topo, mais escorrega para baixo. Trata-se de uma classe híbrida, com variados perfis. Há quem já tenha nascido na classe média, filho de profissionais liberais. Há os que vieram da classe assalariada ou da zona rural e ascenderam socialmente graças à escolaridade que seus pais não tiveram. Há ainda quem se refira nostalgicamente à fazenda ou à casa espaçosa dos avós, gente outrora abastada, cujos netos agora moram em apartamentos e ganham menos do que gostariam.

A classe média ascendente é mais conservadora. Sonha atingir o cume da pirâmide social. Regozija-se por haver trocado a carteira de trabalho assinada pelo negócio próprio e a periferia sem saneamento pela rua asfaltada.

Para esse setor da classe média, a solução para a criminalidade se resume em mais polícias e mais cadeias. Não duvida de que o noticiário da TV fala sempre a verdade. E se sente confortável por possuir carro, celular e computador, ainda que more de aluguel e viva endividado.

A classe média descendente é filha ou neta de uma estirpe que, no passado, teve baixelas de prata, taças de cristal e empregadas dia e noite. É sofrido para quem já foi rei perder a majestade. Por ter meia dúzia de amigos ricos e boa escolaridade, esse setor vive a ilusão de estar muito próximo de ser aceito no seleto clube da elite, embora tenha consciência de que lhe falta o essencial – capital.

Já a classe média média oscila entre o conservadorismo e o progressismo. Os avós são conservadores, cultivam o “American way of life”, enquanto os netos exibem camisetas com a estampa de Che Guevara e votam em candidatos de esquerda.

Entre todos os segmentos da classe média há algo em comum: ai dos filhos jovens se os pais não os socorressem com periódicas ajudas financeiras! Se os avós tiveram empregos bem remunerados, e os filhos alcançaram a época em que ainda era viável fazer poupança, agora os netos estão longe de poder alçar voo próprio. São dependentes familiares. Se não estão desempregados, ganham muito menos do que a geração anterior ao desempenhar as mesmas funções. E sabem que o futuro não é nada alentador...

Não é mesmo. O avanço tecnocientífico engole, cada vez mais, os postos de trabalho. A maioria dos candidatos a um deles não preenche os requisitos mínimos: não é capaz de redigir uma carta, não tem leitura, não domina um idioma estrangeiro, tem baixo nível de cultura geral.

Qual o futuro dessa nova geração? No atual modelo de sociedade consumista, nenhum, exceto para um em cada mil. O sistema vigente é intrinsecamente seletivo e excludente.

A saída seria um modelo pós-capitalista baseado na redução da desigualdade social e na preservação do meio ambiente, ancorado na sustentabilidade, como propõem Thomas Piketty (“O capitalismo no século XXI”), e Glen Weyl e Eric Posner (“Desenraizando o capitalismo e a democracia para uma sociedade justa”). Ou uma sociedade socialista capaz de compatibilizar liberdade individual e justiça social, propriedade estatal e capital privado.

Enquanto não se alcança o ideal, a única solução em curto prazo são políticas sociais centradas na seguridade e na inclusão, e o Estado como indutor do desenvolvimento que prioriza o trabalho, não o capital.

sábado, 15 de setembro de 2018

A SAGRADA FLOR DE LÓTUS

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É difícil encontrar um país da Ásia onde a flor de lótus não seja considerado sagrada. Na tradição budista e em muitas outras crenças orientais a imagem do lótus está ligada à elevação e expansão espiritual.

A pureza e a harmonia equilibrada das pétalas da flor estão associadas à própria história de Sidartha Gautama, o Buda, que deu início ao seu caminho de iluminação ao contemplar a miséria que existia fora dos muros do palácio onde vivia.

A flor branca e delicada que emerge de águas lodosas, revelando toda a sua beleza e força, é um símbolo poderoso e transreligioso do convite a que todo ser humano possa evoluir em direção ao Mais, ao Magis para o qual foi sonhado e criado.

Lembrei-me dessa imagem após assistir o filme "Além da vida", de Clint Eastwood. Assim como o lótus, o cineasta americano tem uma trajetória surpreendente, tanto como ator quanto como diretor. Foi o policial "Dirty Harry", durão e violento, no início da carreira. Repetiu o figurino na pele de outros heróis que abatiam inimigos a tiros e pancadas.

Foi o "Destemido senhor da guerra", de muitos outros filmes, de muitas guerras, sempre com armas ou punhos prontos a disparar contra alvos fáceis e previsíveis.

Mas, aos poucos, o tempo foi agindo no coração, na mente e na lente daquele Rambo dos anos 1960 e 1970 e o personagem durão foi mudando o foco da sua câmera. Da lama de violência em que seus filmes estavam atolados foi surgindo uma flor leve, delicada, sensível.

O primeiro sinal de que algo novo estava germinando na alma do cineasta talvez tenha sido o filme "Bird", (1988) onde ele contou a vida do saxofonista Charles Parker, um dos mais famosos jazzmen americanos.

Em 1992 ele ganha um surpreendente Oscar ao voltar ao genero wester em "Os imperdoáveis". Ao lado de Gene Hackman e Morgan Freeman, revolucionou a previsível narrativa do bang-bang ao colocar em primeiro plano os dramas íntimos de seus personagens.

Em 1995, com "As pontes de Madison", ele se deixa levar de vez pela poética das relações humanas, numa direção e interpretação inesquecíveis, ao lado da fantástica Meryl Streep.

Sem abandonar a imagem de rude e durão, mas também sem fazer concessões ao pieguismo fácil, tão ao gosto de Hollywood, Clint vai ajustando sua câmera sem nenhum pudor para dar um close na beleza possível da alma humana, capaz de emergir do lodo, como em "Menina de ouro" (2004), ou "Gran Torino" (2008).

Chega, agora, com esse "Além da vida" (Hereafter). A narrativa e o roteiro se equilibram o tempo todo num fio de navalha sobre o qual qualquer escorregão pode transformar a história num dramalhão sem remédio. Mas o diretor não deixa que isso aconteça. Sem pressa, vai deixando emergir a delicadeza perdida no lodo do cotidiano.

Apesar de ser construido a partir de um tema polêmico, a vida depois da morte, o filme não faz proselitismo nem defende com paixão religiosa essa ou aquela posição ou conceito. Ao contrário das certezas dogmáticas, expõe nossa dificuldade em lidar com a idéia do "depois daqui", uma tradução literal do título original.

A questão da vida após a morte é apenas arranhada, ao contrário do recente e detalhado "Nosso lar", sucesso nas telas brasileiras de 2010. O que acontece no post morten é mero pretexto para que o filme nos fale da delicada relação do ser humano com seus limites, medos, buscas e esperanças.

Ao espectador, só resta contemplar a instigante, questionadora e por vezes incômoda beleza das pétalas de lótus que vão se revelando uma a uma, se entrelaçando, entre personages e cenas, até o final igualmente delicado e suave.

Não conheço Clint Eastwood, não sei de sua vida, de suas idéias, ou de seu comportamento pessoal. Sei que sua trajetória cinematográfica reaquece minha fé no ser humano, num momento em que, pelas telas da nossa midia, corre um rio de lama, morte, destruição, dor e sofrimento, na anunciada, previsível e absurda tragédia das enchentes.

Entre uma imagem e outra me pergunto: onde e quando florecerá, entre nós, a tão sonhada e desejada flor de lótus?

AS FLORES E SUAS BELEZAS.

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As mulheres podem ser facilmente comparadas às flores, pois possuem como elas grande beleza e perfume e, além disso, quando bem tratadas e regadas com carinho e atenção, ficam a cada dia mais floridas e bonitas.

A beleza das flores é indiscutível, por isso, é bem-vinda em todos os lugares, para trazer maior harmonia aos ambientes e também equilíbrio aos corações daqueles que se sentem desanimados com as tristezas do mundo. Sabe aquele momento difícil em que não se tem mais o que falar, lembre-se que a beleza das flores podem falar por você.

Pense numa coisa, nossa vida requer bastante cuidado, da mesma forma nossos amores. O fato é um só, espinhos e flores são duas belezas que caminham sempre juntas. Durante o passar dos anos percebemos que é impossível ter apenas uma dessas belezas. Todos que querem partilhar da beleza das rosas, bem sabem que com elas também vêm os muitos espinhos. Mas estejas certo de que para obter a beleza da rosa vale sofrer com os espinhos.

As beleza das flores mostram o verdadeiro bem. Quem tenta ter consigo uma flor bem sabe que verá murchar sua beleza. Entretanto, que souber admirá-la no campo poderá ter sua beleza para sempre, em sua memória.

A verdade é que todos querem ter nas mãos o delicioso perfume das flores, mas bem poucas pessoas têm vontade de sujar as mãos para plantá-las e cuidar delas.

Muitos podem até se perguntar por que sempre compramos flores e arroz? O arroz é necessário para nos manter vivos e em pé, já as flores são importantes para que tenhamos alguma coisa pelo que viver.

Podemos dizer que o desejo é uma árvore que tem apenas folhas; já a esperança, uma linda árvore repleta de flores; enquanto que o prazer, é aquela árvore que já conseguiu dar frutos.

Nossos pensamentos podem bem ser comparados as flores, aquelas que colhemos logos pela manhã ficam muito mais viçosas com o passar do dia.

Qualquer flor que você escolha é, de alguma forma, uma renúncia a todas as demais. E, ainda assim, todas elas são belas.

A rosa é uma flor essencialmente feminina que se entrega toda, sendo que, para a mesma só fica a alegria de ter se doado. Seu aroma é um doido mistério. Todas as vezes que é profundamente aspirada chega a tocar no fundo da alma e, por isso, deixa todo o corpo perfumado. Até suas pétalas têm gosto bom na boca, gosto de alegria, de amor e de total beleza.

todos os dias, mas não é aquilo que você faz que a deixará bonita e a fará florescer e ainda o tempo que você dedicará a ela todo o dia.

Colha sempre a alegria de todas as suas flores da primavera e aproveita o tempo para brincar feliz enquanto ele ainda há. Pois, poderá haver dias em que o inverno chegará e com ele irá acabar o perfume das flores, o sol quente, e ainda a beleza das cores.

Gosto das flores, das cores, das estrelas, das árvores, do verde, é lindo observar tudo isso. Toda a beleza que há na vida está escondida ali, e ainda se encontra em muitos outros lugares, basta escolher os lugares certos, e especialmente querer ver as coisas belas, como as flores.E as flores podem bem vir num dia qualquer, apenas para lhe informar como sempre que você é muito especial. Desta forma, sem data especial e nem motivo. Amar, nos torna capaz de transformar a alma de casa! Amar é se deixar surpreender e idealizar é se deixar! Quem sabe tenhamos que aceitar a convivência com pessoas erradas, até que encontremos aquela que é certa. Por hora a pessoa certa, você pode até considerar como fosse errada, daquelas que só servem para o momento, para a curtição, mas quem sabe um dia ela lhe fará feliz, e para que isso de fato ocorra, isso só dependerá de você, já que quando for encontrá-la, louve pois será uma bênção. Estamos tão habituados a tentar passar pela porta fechada, que não vemos o caminho que está aberto. Não procure boas aparências, pois com o tempo elas mudarão. Busque aquela pessoa que te faça rir, e que te aqueça o coração apenas com sua presença.

Da mesma que encontramos diversas pedras em nosso caminho, lembre-se que as flores estão sendo cultivadas mais ao longe. Quem desiste no meio do caminho, não é capaz de colhe-las lá na frente.

Acredite na beleza das flores e aposte em seu perfume, pois quem agrada com flores é capaz ainda de chegar a aquecer a alma de quem as recebe.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O OLHO DE DEUS.


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Certas cenas ficam marcadas na lembrança de forma definitiva. Por razões nem sempre explicáveis (dizem que Freud explicaria...), palavras, gestos, pessoas, acontecimentos ocupam um espaço nos labirintos da memória e ficam lá, inesquecíveis.

Uma cena salta do passado e vem à tela da mente com a limpidez de uma fotografia. Eu devia ter uns cinco, seis anos. Fui com minha mãe visitar um primo. Na escola, onde era interno em Novo Hamburgo. Naquele tempo, mais de 60 anos atrás, era uma viagem! Lá fomos nós.

Ao chegar, já fiquei impressionado com a beleza do edifício que, ao meu olhar infantil, parecia um castelo. Os grandes espaços gramados convidavam a brincadeiras. Conduzido pela mão, cheguei a uma sala ampla, com uma poltrona, cadeiras de palhinha e uma pequena mesa de centro, onde havia uma Bíblia aberta. Um velho padre nos recebeu com um sorriso afável, pediu que aguardássemos ali enquanto anunciava a visita.

Mamãe sentou-se numa das cadeiras e eu, curioso como toda criança, fiquei explorando aquele território cheio de novidades.

Na página aberta da Bíblia uma ilustração colorida da arca de Noé. Olhei fascinado para a longa fila de animais que subiam por uma rampa, dois a dois, em direção ao interior da Arca. Leões, girafas e até elefantes. Fiquei imaginando a confusão que o velho Noé teria que organizar.

Logo minha atenção desviou-se para outra coisa; um quadro na parede. Era diferente, tinha algo de hipnótico. O quadro, em si, era bem simples. A tela azulada, com tons esbranquiçados imitando nuvens. Um grande triângulo no centro e, dentro dele, um imenso olho.

Fiquei paralisado. O olho olhava para mim! Lentamente fui me movendo para um dos cantos da sala. O olho me acompanhou. Atravessei para o outro lado. Eu olhando pro olho, o olho olhando pra mim...

Recuei e busquei abrigo no colo da minha mãe. Ela percebeu o meu medo e me abraçou, afagando minha cabeça. Só então percebi que debaixo do olho, na base do triângulo, havia uma frase escrita. Eu ainda não sabia ler.

-Mãe, o que está escrito ali, naquele quadro do olho grande?
-Aquele é o olho de Deus, meu filho. Ali diz assim; DEUS ME VÊ E ME JULGARÁ!
A frase ressoou nos meus medos infantis: DEUS ME VÊ E ME JULGARÁ... me enrosquei mais ainda no colo seguro de minha mãe. Ela, é claro, como toda boa mãe, aproveitou para me dar ali, na hora, uma lição de catecismo.
- Deus vê tudo, meu filho. Anota tudo num livro grande que tem seu nome no alto de uma página. De um lado ele escreve as suas boas ações. De outro anota cada pecado. No final da sua vida ele soma tudo de bom que você fez, diminui dos pecados e aí descobre se você vai para o Céu ou para o Inferno.
-E o "Pulgatório", mãe?
- Não é pulgatório, meu filho, é Purgatório. Pois é, se a sua conta de pecados não for grande demais pra você ir direto pro inferno e suas boas ações não forem suficientes pra garantir de uma vez o Céu, você pode passar uma temporada no Purgatório.
-E o que a gente faz lá?
-Reza, pede a Deus pra lavar os pecados depressa pra gente ir pro Céu.
-No purgatório tem água?
-É modo de dizer, meu filho.
-E no Céu, o que é que a gente faz? A gente vira anjo?
-É, vira...
-Então, no Céu eu vou ter cabelo louro encaracolado, asas de verdade e vou tocar harpa? Mas eu não sei tocar harpa!
Minha mãe começava a achar que não tinha sido boa idéia aquela lição.
-Olha, meu filho, que bonito ali na Bíblia, Noé e os bichos na Arca.

- Mãe, a senhora me falou, lembra, que todos os homens e animais que não estavam na arca do Noé morreram no... como é que chama mesmo?
-Dilúvio. Pois é, morreu todo mundo...
-E os peixes?

Mamãe deu o suspiro profundo e foi até a porta pra ver se o primo estava chegando. Eu, que já estava ficando à vontade, me vi, de novo, olhando para o olho que olhava para mim com uma expressão ainda mais severa. Sentei na poltrona e fiquei ali, encolhido, calado, pensando que Deus não tinha sido muito justo ao matar todo mundo afogado e proteger os peixes que sabiam nadar. Aliás os peixes nem ficaram sabendo que aquilo era dilúvio. Para eles, agora, tinha era mais espaço pra passear e brincar.

Um frio me passou pela espinha quando lembrei que Deus VIA TUDO, até pensamento, e que agorinha mesmo devia estar anotando no livro que tinha o meu nome mais um pecado: falta de respeito!
A chegada do primo me salvou, pelo menos por enquanto. Ele nos levou a passear pela escola. Visitamos uma imensa biblioteca, atravessamos corredores enormes e fomos a uma capela muito bonita.

No altar, de cada lado havia um anjo segurando um castiçal. Fiquei observando o rosto deles, tentando descobrir se pareciam com alguém que eu conhecia.

Na despedida o primo me deu um abraço e um santinho. Na gravura, um homem segurava um menino no colo. O menino chorava, parecia estar fazendo birra.

- É são José com o menino Jesus. Ele devia parecer com você.
Olhei encantado para o santinho. A expressão de São José, tão paciente. E o menino Jesus fazendo birra!? Então não era pecado!
Minha mãe tomou-me pela mão e lá fomos nós, na viagem de volta. No caminho, o balanço do ônibus, o contato aconchegante de minha mãe, ao meu lado, dormi e sonhei.

O menino Jesus corria comigo pelo gramado do colégio. Ríamos e dávamos cambalhotas. São José, sentado sob uma árvore, conversava tranquilamente com minha mãe. Eu e o Menino Jesus chegamos na sala de visitas. Na parede, o olho olhava pra nós.

O menino Jesus me segurou pela mão, olhou pro quadro, fez uma careta, deu uma gargalhada e saímos correndo inventando novas brincadeiras...

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

DONA MARIA CONCEIÇÃO!

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Viajando pelo interior, sem pressa, apreciando as paisagens geográficas e humanas, meio sem destino, como gosto de fazer, passo diante de uma casinha, dessas de beira de estrada.

Chama-me a atenção, bem à frente da casa, uma bela colcha de retalhos estendida num varal de bambus. Paro o carro, desço e me aproximo. Só então percebo que a colcha é usada, até meio desbotada, mas seu colorido ainda enche de alegria a paisagem árida daquele cantinho do meu Rio Grande.

Bato palmas e numa das janelinhas de moldura azul destacando-se na parede branca, surge o rosto crestado de sol de uma senhora de idade indefinida. Lenço na cabeça, um sorriso simpático, olhinhos vivos, ela me cumprimenta com um aceno.

- Esta colcha está à venda? Pergunto.
- Não, seu moço, é coisa antiga, não vê? Lavei e pus pra secar. Se bem que tô mesmo precisando de um dinheirinho...Mas se chegue, entre, venha tomar um mate...

Urbano como sou, acionei o controle remoto no chaveiro e, com um apito agudo, o carro travou portas, subiu os vidros e ativou o alarme. A senhora franziu a testa, surpresa com aquela novidade que contrastava com suas portas e janelas fechadas à tramelas. Percebi no seu olhar o estranhamento e senti um certo constrangimento em exibir aquela parafernália eletrônica de segurança, ali, em meio ao quase nada.

Mas a senhorinha abriu a porta, o sorriso ainda mais aberto numa boca de poucos dentes.
- Bem vindo seja, a casa é sua.
- Com Licença
- À vontade, senta aí, seu moço, ela disse, tirando uma sacola de panos de cima de um sofá surrado num canto da sala pequena.
Sentei-me e corri os olhos pelo cômodo. Tudo muito simples, limpo e arrumado. Diante de mim uma estante onde uma TV ocupava o espaço central. Não contive um sorriso ao ver o chumaço de bombril na ponta da antena. Outro mundo, pensei...

Ao lado, um vaso com absurdas flores de plástico. No alto da parede, quase no teto, lado a lado, quadros antigos, com aquelas imagens de família, meio pinturas, meio fotografias. Junto, um pôster de Teixerinha e Meri Terezinha, uma foto do Papa João Paulo II e uma gravura coloridíssima do Coração de Jesus.

A senhorinha, que tinha saído um instante, veio da cozinha com um generoso e fumegante chimarrão, acompanhado por uma fatia de broa de fubá molhadinha e que, adivinhei, tinha gosto de infância.

-Obrigado. Hum, tá uma delícia...! O nome da senhora?
-Maria da Conceição, mas aqui todo mundo me chama de Ção.
-O meu é Rui. Mas e a colcha, se a senhora fosse vender, quanto custaria?
-Ah, seu moço, primeiro deixa eu lhe contar a história dessa colcha...
E Dona Conceição levantou-se e foi tirar a peça do varal.
Olhei de novo o relógio, meio impaciente, mas me consolei com mais uma mordida na broa. Estava mesmo uma delícia.

Ela voltou com a colcha dobrada nas mãos e a estendeu sobre o sofá, ao meu lado.

Por uma fração de segundo, não registrada pelo meu relógio digital, mas na minha percepção afetiva, houve um momento de silêncio entre nós, enquanto ela corria as mãos, suavemente, sobre o tecido. Os dedos calosos pararam sobre um quadrado vermelho, numa das pontas da colcha.

- Esse retalho aqui foi sobra do vestido que usei no casamento do meu último filho. Ele mudou pra São Paulo e nunca mais o vi. Já vai pra mais de dez anos...

E as mãos de Dona Conceição acariciaram o pano como se fosse o rosto do filho ausente. Naquele instante de silêncio mágico aquele quadradinho vermelho transbordou saudades...

Com os olhinhos miúdos brilhando, ela continuou o desfile de retalhos e histórias. Esse pedacinho xadrez aqui era de uma toalha da mesa onde eu tomava café com a família toda reunida, bem cedinho, antes do meu falecido Antônio e os meninos saírem para a lida na roça. Faz tempo...
E os olhos marejados de Dona Conceição se fixaram nas fotografias da parede.

Ela continuou falando, acariciando cada pedacinho colorido de pano, deixando vir à tona seu estoque de personagens, acontecimentos, memórias e histórias.

Esqueci definitivamente o relógio e me deixei ficar ali, saboreando palavras que também tinham gosto de infância, me deixando tocar, envolver e agasalhar por aquela colcha que era, na verdade, um resumo de anos e anos de vivências e experiências intensamente, profundamente humanas.

Dona Conceição desfilou mãos e palavras pelos quadrados quase todos, esquecida também do tempo, agradecida, talvez, por esse viajante imprevisto e improvável (viajantes, em geral costumam ter tanta pressa...) que teve, justamente, tempo para sentar-se ali e ouvi-la, acolhê-la, tal como foi acolhido: carinhosamente.

De repente, no último retalho de história, Dona Conceição se recompôs, como se estivesse voltando pra casa depois de uma longa viagem, e disse:

- Mas o senhor perguntou pelo preço da colcha... Nem sei... quanto o senhor acha que vale...?
Em meus trinta e cinco anos de profissão, nunca, nenhum alguém havia feito uma pergunta tão difícil de responder...
- Dona Conceição, a senhora me desculpe, mas não vou comprar a colcha, não. Na verdade quero lhe pedir um favor. Eu quero comprar é a receita da broa de fubá.
- Como assim, seu moço, comprar receita de broa? Coisa mais sem jeito. Não tem receita não, é pegar e fazer...
- Mas eu quero é a receita, sim, a senhora dita e eu escrevo. E faço questão mesmo de pagar, pois é uma obra de arte.
- O que é isso, seu moço, onde já se viu, eu ensino, mas não cobro não. É pelo gosto de saber que o senhor apreciou esse quitute que vem desde a minha mil avó...

Um poema de Adélia Prado cruzou a tela da minha memória...
- Dona Conceição, pode acreditar em mim, a receita dessa broa, eu sei, não tem preço. Tem é o sabor da minha infância, de casa de vó, de fogão de lenha e parede enfumaçada. Tem o calorzinho das brasas que, até hoje, aquecem minhas saudades.
- Ala púxa, que agora o moço falou bonito como quê. Mas e a colcha, não vou vender?
- A senhora é quem sabe, mas eu gostaria que ficasse com ela.
- Anote aí a receita da broa e o modo de fazer. Quatro ovos, mas tem que ser caipira, um punhadinho de fubá de moinho d'água...
O Tempo, que passava apressado pela estrada, parou, chegou à janela, espiou dentro da casa e nos contemplou, cheio de inveja. Sobre meus joelhos a colcha dobrada, a modo de apoio. Num bloco, eu anotava, sem pressa, os ingredientes tão raros quanto o momento.

Os olhos de Dona Conceição brilhavam. Os meus, admiravam.
Na verdade, o que brilhava ali era a vida, admirada, tecida e colorida em cada pedacinho de pano, em cada palavra, gesto, lembrança e memória que partilhamos e saboreamos, com gosto de infância, saudade, broa de fubá e mate chimarrão, adoçado com açúcar mascavo e carinho..

terça-feira, 11 de setembro de 2018

QUEM É O PRÓXIMO

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Sabe quando se está numa destas redes de cafés e vai se aproximando o momento de seu pedido... Quando se terá uma fração de momento de atenção do profissional do caixa demandando que sua escolha seja clara e decidida... Quando qualquer hesitação será recebida com impaciência e inadequação e ao menor sinal de indecisão lhe será roubada a legitimidade comercial levando as pessoas da fila a cassar em olhar seu direito de precedência... Pois é sobre este "próximo" que gostaria de falar.

Terminou-se o tempo mercantilista em que o indivíduo era um freguês, o cliente a quem se dava toda a atenção. Já não era lá um tempo de muita empatia, um tempo marcado mais é por interesses mesmo, mas dele já temos saudades. Hoje o olhar está no "próximo": "Proximo!". O tempo de atenção que nos dispensam é de soslaio, uma breve passagem antes que o protagonista seja "o próximo". Nosso dinheiro, que até então nos comprava a consideração do momento, hoje apenas dá o direito de passagem no encadear de consumidores. Qualquer excentricidade será ameaçada pelo avançar do "próximo". Algo que só havia experimentado no colégio público. Lá, diferente do colégio particular, onde um boleto assegura identidade, o anonimato se fazia o preço da benesse do Estado. Na fila da canjica do recreio, ali naquela situação, eu já havia experimentado ser o próximo antes de ser a mim mesmo.

Tento entender o que seria hoje "amar o próximo como a ti mesmo". Hoje todos nós disputaríamos ser o próximo - o único a merecer atenção e reconhecimento. O presencial não consegue ser amado como alguém ama a si mesmo, mas tão somente o próximo. Estamos é no tempo pós-interesseiro, porque nem sequer a atenção dos outros se consegue por interesse. Isso porque o interesse sempre estará no próximo interesse. Algo só compreensível pelo mundo dos aplicativos, do que pode ser aplicado. O freguês é passado e a referência tanto do foco como do lucro se encontra no que está por vir, um interesse mais viral do que pessoal.

O próximo é com certeza um efeito colateral do olhar de hoje. Esse olhar que é oblíquo, sempre dividido pela atenção preferencial a uma tela, e que nos oferece o mesmo pálido prestígio disponibilizado pelo profissional do caixa: não somos o foco, mas apenas mais um estímulo não presencial e difuso no encadeamento de inputs que constituem o existir. O olhar está no próximo: no que vai pop-up na vida e que teremos que atender ou deletar. E aí tudo faz sentido porque estamos trocando a existência pela aplicabilidade, e o que está presente é irrelevante diante do que está por vir.

Descobrimos que mais fácil do que dobrar a morte com nossa ciência é usá-la para produzir nossa ausência. Inventamos existir no futuro driblando o Anjo da Morte porque não estamos em nenhum lugar do presente. Como um elétron que está em algum lugar da nuvem, mas não tem lócus, também nossa presença, nosso olhar e nosso existir ganham asas no que virá proximamente. Para os que cismam habitar o momento, o mundo se assemelha a uma realidade de zumbis: de pessoas que não olham nos olhos, cuja atenção está sempre na borda da tela à espera do que vai entrar em cena. Enfim acho que estamos no tempo de "amar o próximo mais do que a si mesmo".

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

MEDITAÇÃO


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A Espiritualidade é, basicamente, uma experiência pessoal, vivida individualmente, e partilhada e alimentada na vida comunitária. Ela também se alimenta do texto sagrado e do diálogo pessoal e profundo com Deus através da oração e da vida sacramental. Daí nasce a experiência de ser Comunidade, se sentir Igreja.


Por isso, a importância da dimensão do conhecimento que solidifica a Fé e lhe dá bases humanas, que também são necessárias.

Conhecer a mensagem bíblica, compreender o ‘fio da meada’ da História da Salvação, os mistérios centrais da doutrina cristã: Fé; Trindade, Encarnação, Ressurreição, a realidade sacramental, tudo isso é importante para a caminhada do cristão. Nossa Fé tem uma História. A Bíblia conta essa história. E somos parte dela.

Há várias formas de ler e meditar o texto bíblico. Há quem tenha uma Bíblia na cabeceira da cama e não começa ou termina o dia sem ler um trecho escolhido (a leitura do dia, por exemplo) ou alguma outra escolha, aleatória. Há quem tenha sua Bíblia, na mochila, no carro e, aí, a hora do engarrafamento vira, também, tempo de encontro com a Palavra de Deus.

São pílulas no dia a dia, mas é preciso, também buscar alimento mais sólido, reservar tempo e espaço para um mergulho mais profundo na Palavra de Deus.

Uma das formas de fazer isso é através da “Oração Inaciana”, método inspirado nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

A seguir, um resumo dos passos para “entrar” nessa experiência:

01- Encontre um “lugar sagrado” no seu dia a dia. Um espaço tranquilo, onde você possa estar confortável (o corpo também reza), sem ser interrompido(a) ou incomodado(a).

02- Considere o tempo que você terá para a oração. Seja fiel a ele.

03- Respire pausada e profundamente. Inspire, junto com o ar, a graça, a paz, o amor de Deus presentes no Universo. Expire, expulsando de dentro de você, a tensão, as preocupações, o cansaço. Repita esse exercício várias vezes até se sentir pacificado(a).

04- Coloque-se e sinta-se na presença de Deus. Ele está no meio de nós. Ele está à sua frente, para lhe guiar. Atrás de você, para lhe proteger. Sobre você, para lhe iluminar. Dentro de você, para lhe fortalecer, ao seu lado, amigo e companheiro de caminhada...

05- Leia pausadamente, frase por frase, sem pressa o texto bíblico escolhido, ou indicado. Essa primeira leitura é do conhecimento.

06- Releia o texto. Essa segunda leitura é da sensibilidade. Tente perceber palavras ou frases que chamam sua atenção, tocam seus afetos. Repita-as, deixando que movam os sentimentos que estão no seu coração. É a hora em que Deus fala. Ouça-O...

07- Fale com Deus. Ele o(a) escuta. Responda, seguindo o caminho que lhe indica o coração: É hora de pedir, ou agradecer, ou louvar, ou decidir, ou silenciar...

08- Termine sua oração com um pequeno gesto, uma palavra de “até logo” a Deus.

09- Faça um “diário espiritual” dessas experiências. Anote (ou digite) os sentimentos, intuições, decisões e emoções experimentados durante a oração.

10- Busque viver, na vida diária, as percepções experimentadas na leitura orante da Bíblia.

Hoje, diversas “ciências modernas” tem ressaltado a importância da meditação no equilíbrio do ser humano, destacando a importância da espiritualidade para que se tenha uma vida saudável, em todos os níveis e sentidos. A Bíblia é uma fonte preciosa dessa sabedoria. Encontrar no dia a dia, em meio ao corre-corre enlouquecido em que vivemos, espaços e momentos de mergulho profundo em nós mesmos, tendo a Bíblia como “mapa do caminho”, é resgatar o próprio sentido e significado da nossa vida. Deus, que é amor, criou cada um de nós por amor e para o amor. O amor é nosso berço, caminho e destino...

sábado, 8 de setembro de 2018

LÁPIS DE COR


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Sempre gostei de ver crianças pintando com lápis de cor. Todas as pinturas são bonitas. O ato de pintar tem um toque de divino, a partir de mãos humanas. Quem sabe colorir, também sabe amar. Cores e amores não estão distantes. Pelo contrário, se encontram nos cenários do mundo. A escola deveria ter mais tempo destinado às artes. Todos os alunos, dos diferentes anos, poderiam carregar na mochila uma caixa de lápis de cor ou um conjunto de canetinhas coloridas. A impressão que se tem é que o exercício de pintar está restrito somente aos primeiros anos de escola. Pessoas crescidas, exceto as que desenvolveram seus talentos, desconhecem a importância de colorir, de desenhar, de harmonizar tonalidades. Quem sonha entende de cores, pois os próprios sonhos quase sempre são de um colorido extraordinário, de uma harmonia que transcende o cotidiano.

De uns tempos para cá, os vários setores das ciências humanas, de um modo especial da saúde, resolveram criar cores para determinados meses. É praticamente do conhecimento de todos que o outubro é rosa, o novembro é azul. A cor rosa inspira e alerta quanto ao cuidado para com a prevenção do câncer de mama. A tonalidade azul traz presente o universo masculino e a importância de fazer o exame da próstata. Ultimamente resolveram, de forma criativa, usar o amarelo para colorir o mês de setembro. Imediatamente é possível recordar do semáforo, com suas três cores: verde, amarelo e vermelho. O verde libera a passagem, o vermelho impede, por uns instantes, a continuação do trajeto e o amarelo pede cuidado e atenção. O amarelo do mês de setembro quer despertar uma maior atenção das pessoas quanto ao crescente número de suicídios. Não são poucas as pessoas que, diante de pequenos ou grandes problemas, desistem de viver, interrompem a trajetória, cessam os sinais vitais, deixam de respirar.

Todos os meses poderiam ter uma cor em especial, contanto que a vida não deixasse de ter o colorido da vibração, da gratidão e do encantamento. A monotonia e a solidão têm roubado as tonalidades das diferentes idades. Além disso, o diálogo praticamente foi excluído da vida familiar, muitas amizades são apenas de aparência ou de interesse. Sem falar que a espiritualidade se transformou em pronto socorro: a maioria lembra da importância da oração, somente quando está vivenciando uma dificuldade. Ao longo dos dias, ninguém deveria ficar sem usar, de tempos em tempos, a caixa de lápis de cor ou o conjunto de canetinhas. É urgente colorir os dias, incrementar os detalhes, abraçar o arco-íris, dedicar-se a uma causa de amor ao próximo. Ninguém foi feito para a solidão, nem para ficar simplesmente acumulando coisas materiais. Um dia, após entendermos o valor da vida, poderemos acrescentar mais cores ao mês de setembro. Junto com o amarelo do alerta e do cuidado, outras cores confirmarão o quanto é maravilhoso viver. Mas enquanto esse dia não chegar, que possamos voltar nosso olhar aos que estão tristes e desanimados, para ofertar ternura e aconchego. Viver é simplesmente fantástico.