terça-feira, 21 de agosto de 2018

PENSAR E REPENSAR A VIDA.

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Os dias de inverno são próprios para reunir outros pensamentos, não tão frequentes nas demais estações. Assim como a natureza se encolhe e se recolhe, as baixas temperaturas convidam à interioridade. Quantas árvores que, além de perder as folhas, são obrigadas a desfazer-se de alguns galhos. Os parreirais são visitados por exímios podadores que deixam apenas alguns galhos, previamente selecionados. Gotas contínuas são derramadas pelos ramos que perderam sua extensão. Há quem diga que as parreiras choram quando seus ramos são podados. Talvez seja assim mesmo: onde há vida, sempre haverá uma mescla de alegrias e dores. Os sentimentos se intercalam. Impossível ficar muito bem, durante as 24 horas de um dia. Em alguns momentos, a alegria é quase incontida, mas depois ela mesma se encarrega de dar uma volta, abrindo espaço para certas angústias. Alegria e tristeza parecem brincar de se esconder.

Vive bem que é capaz de administrar os acontecimentos e ordenar os pensamentos. As realidades são diversas. Não tem como pegar uma ‘receita’ e reunir os melhores ingredientes para espantar as dúvidas e aproximar somente o bem-estar. Num tempo de incrível instantaneidade, todos são envolvidos pelos acontecimentos mundiais. Os meios são sofisticados, a língua deixou de ser um limitador, as traduções são simultâneas, é possível saber de tudo e de todos, sem colocar o pé fora da porta. Quanto mais o mundo invade a privacidade, mais respostas são necessárias. Em alguns momentos se faz necessária quase que uma redoma para proteger os sentimentos e continuar reavivando a esperança. Se as alegrias contagiassem mais que as tristezas, não haveria tanta necessidade de cuidados. Acontece que um fato triste desbanca um número elevado de alegrias. É quase um mistério: o ser humano permite que a tristeza se aloje no coração mais do que a própria alegria. Há mais espaço para tragédias do que para vitórias.

O inverno vai continuar por mais um período. Se for necessário, até dois pares de meias poderão ser colocados. O importante é proteger-se e, assim, prevenir-se para que as doenças passem distante do nosso endereço. Por outro lado, faz um bem enorme pensar e repensar a vida. Alguns ‘galhos existenciais’ podem ser podados, determinados pensamentos também podem e devem ser distanciados. A vida é uma construção que necessita de contínuos retoques. A todo instante é necessário descartar aquelas lembranças que tentam atualizar a dor e espantar a esperança. O maior desafio não está, talvez, na busca pelo pão cotidiano. O mundo já está aprendendo a repartir o alimento. É claro que o caminho ainda é longo. Mas o que inquieta é a necessidade crescente de paz. Impossível viver serenamente sem alimentar-se de paz. A parreira derrama lágrimas para, depois, surpreender com uma exuberante brotação. Não é diferente com os humanos. Que o inverno ensine a lição do recolher-se. Que a primavera, por sua vez, confirme a possibilidade de transformar lágrimas em sorrisos.
     

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

DEMOCRACIA!


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Quem não se interessa por política não há porque se interessar pela democracia. E quem se interessa por política e sabe que o poder político é a capacidade de agir em conjunto para ajudar uma comunidade histórica a fazer sua história, não há porque não se interessar pela democracia. O ponto de contato entre os dois grupos é o “mundo da vida” e, nele, alienados e ativistas da democracia, estamos todos implicados e, como não há vácuo de poder, se não estiver nas mãos e em favor de todos, estará nas mãos de quem só se interessa por si.

O destino último da humanidade, dos animais e do planeta, depende de Deus, mas, o destino penúltimo, depende da economia política. Se a política se retirar, a economia de mercado, que em nome do vil metal tudo descarta e tudo submete, reinará sozinha, criando terror à terra, aos homens e aos animais.

A democracia é uma forma de organizar o poder político em constante e permanente luta com o poder econômico, que é o que efetivamente manda numa sociedade capitalista, que vige no mundo inteiro. Fora da democracia, a ditadura do capital será ainda mais cruel e selvagem. A democracia representativa e direta é a única chance, mesmo que limitada, de organizar o destino de um povo, limitando o poder da elite econômico que teima em ser rei solitário dos destinos. Não perceber isso é desconhecer o real mecanismo das coisas.

A democracia ainda sobrevive, no mundo inteiro, mas anda com saúde debilitada, alternando quarto de recuperação e a UTI, sem previsão de alta. Contudo, sobrevive. Pior será se abdicarmos dela e flertarmos perigosamente com regimes e indivíduos autoritários que lidam mal com a pluralidade, a igualdade, a liberdade e os direitos humanos elementares. A Democracia, dizia Churchill, “é a pior forma de governo, exceto todas as demais”. A democracia é a pior, exceto todas as demais, porque é a única forma de governo que pode melhorar progressivamente e se baseia em alguns princípios condizentes com a condição humana e uma racionalidade ética mínima.

Que princípios seriam esses?
A soberania é popular e o poder pode ser almejado por qualquer um, sem predestinação vinda do sangue ou de alguma divindade ou força do além.
Os que se habilitam ao poder, via voto, aceitam as regras do jogo e reconhecem a derrota, sem violência ou golpes. Os perdedores não são mortos e nem os vencedores impossibilitados de governar.
A decisão soberana se dá por maiorias livres, sem compra e venda do voto.
A democracia não é um regime da ordem, mas da lei, que possibilita a manifestação legítima do conflito e da contradição, inclusive com participação direta de pressão para constantes inclusões.
Os que se habilitam para o exercício de poder, devem apresentar seus motivos, intenções e projetos para que se saiba o que se está escolhendo e o que se está negando. A possibilidade de vencer eleições precisa ser real. Se um grupo de poder permanece sempre no poder, só alternando nomes, dentro do mesmo campo político e ideológicos, já não estaremos numa democracia.
A democracia é a forma de governo que instaura direitos e cria mediações efetivas de garantia de direitos. Sem um estado democrático de direitos, com liberdade e igualdade real, a democracia será de baixa intensidade e o capital de alta intensidade.
A democracia é a forma de governo que permite a esperança e pode ser melhorada. A ditadura e os regimes fortes são, por essência, não melhoráveis.


Depreende-se, dessa forma de definir e fundamentar a democracia, a possibilidade de pensá-la em uma dupla vertente: a liberal (formal) ou a social (substancial).

A vertente liberal da democracia considera que há democracia quando há eleições com partidos políticos habilitados e livres. A democracia liberal é sinônimo de democracia formal. Para a democracia liberal o que importa é o respeito às regras do jogo e isso basta. Estamos aqui diante de um conceito pobre de democracia e, no mais das vezes, legitimador dos abismos sociais e econômicos não raramente presentes e vigentes nas sociedades capitalistas contemporâneas.

Para a vertente democrática social, ou democracia substancial, importa pensar a democracia tanto no respeito às regras do jogo, quanto na efetivação dos princípios de inclusão e justiça social. Para tanto, a democracia só pode ser pensada com a defesa intransigente dos direitos humanos e das políticas afirmativas reparadoras de injustiças históricas contra as minorias políticas que, via de regra, são maiorias na ordem quantitativa, como são os pobres, negros e mulheres. Nessa vertente, a democracia só é tal se for pensada com a justiça social, sem a qual, o próprio conceito de democracia fica comprometido pela sua simplificação, redução ao formal que, via de regra, legitima uma ordem social e econômica, dentro do sistema capitalista, que sempre será de proprietários e não proprietários e, raramente, com o mínimo sentido de justiça como equidade.

Assim pensadas as coisas, será que estamos, no Brasil, numa democracia ou estamos mais para uma oligarquia, isto é, um governo dos ricos, com fachada de democracia formal?

sábado, 18 de agosto de 2018

NÃO MATARAS

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Há alguns dias, o Papa Francisco presenteou a Igreja e toda a humanidade com mais uma de suas adoráveis e inspiradas surpresas. Em audiência concedida ao presidente da Comissão para a Doutrina da Fé, Cardeal Luís Ladaria, o Papa decretou a alteração do parágrafo 2267 do Novo Catecismo da Igreja Católica, que admitia, em alguns casos extremos, a pena de morte.

Assim dizia o texto do Catecismo, de 1992: “A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.”

Na verdade, a decisão do Papa significa voltar às fontes, autênticas, genuínas e puras da Escritura. Nela, a lei mosaica já proibia atentar contra a vida humana: “Não matarás”. Recolhendo este mandamento, o evangelho de Mateus transmite a interpretação que dela faz Jesus de Nazaré. Ele diz aos discípulos no Sermão da Montanha: Ouvistes o que foi dito aos antigos: "Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo". Eu, porém, digo-vos: “Quem se irritar contra o seu irmão, será réu perante o tribunal”.

A partir daí a morte do outro passa a ser para o cristão o interdito maior. E a vida do outro, tão preciosa e inviolável quanto a própria. E assim sendo de tal maneira que qualquer violência contra a vida humana, mesmo em seus estágios mais frágeis, ameaçados, diminuídos e prejudicados, é gesto que atinge o coração do próprio Deus.

Ao longo dos séculos, buscando uma forma criativa de ser fiel à doutrina da qual foi constituída guardiã, a Igreja chegou a flexibilizar a radicalidade dessa lei maior. Admitiu em muitos tempos e espaços que o Estado eliminasse pessoas que haviam cometido delitos graves em nome de um desejado bem comum.

Mas sempre houve vozes que se levantaram contra essa compreensão da lei que crê poder eliminar outra vida sob a alegação de que esta é nociva à sociedade. Nos países onde a pena de morte ainda vigora, sempre houve ativos grupos de cristãos que protestaram contra a mesma, pedindo sua abolição e extinção.

Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem sinalizado a profunda discordância que sente em relação à existência da pena capital. Falou explicitamente contra a mesma em 2015, em seu discurso no Congresso dos Estados Unidos, país onde ainda há execuções, sobretudo em alguns estados.

Agora, para não deixar mais dúvidas quanto à incompatibilidade de qualquer conivência da Igreja com tal instituição legal, decide alterar o texto do parágrafo 2267, onde se encontra explicitada a doutrina oficial católica. Afirmou na audiência concedida ao Cardeal Ladaria: “A Igreja ensina, à luz do Evangelho, que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, e se compromete com determinação por sua abolição em todo o mundo.”

O fundamento desta decisão radica na convicção profunda de que a dignidade da pessoa humana não pode ser perdida sequer após ter cometido os mais graves crimes. Por isso, a conduta a ser adotada com alguém que violou a lei e cometeu atos ilícitos e mesmo hediondos, deve visar sua redenção e recuperação, e não sua eliminação do convívio com seus semelhantes. Os sistemas de detenção devem garantir ao mesmo tempo a defesa dos cidadãos e a possibilidade de o réu redimir-se definitivamente.

Tal como transmitiu o cardeal Ladaria, o Papa deseja com esta medida encorajar "a criação de condições que permitam a eliminação da pena de morte onde ainda ela ainda acontece". Claramente, a mudança no texto do catecismo reflete a "total oposição do Papa Francisco à pena capital".

O fundo mais profundo dessa alteração doutrinal tão decisiva e fundamental mergulha na identidade do próprio Deus. Não revelam a Escritura e a Tradição eclesial um Deus que se move segundo o mérito de suas criaturas, premiando os bons e punindo (ou eliminando) os maus. A justiça de Deus é restaurativa, dando aos seres humanos não o que merecem, mas aquilo de que necessitam para viverem plenamente sua vocação de filhos de Deus. E essa não se perde nem após cometer pecados e crimes, pois a misericórdia está sempre à espera para devolver a todos sua inocência original.

Não há santo sem passado nem pecador sem futuro, parece nos dizer Francisco com sua decisão. Que o Novo Catecismo da Igreja Católica possa, com essa importante renovação, fazer brilhar cada vez mais para o mundo a identidade de Deus, que é amor sem fim e misericórdia sem limites, e criou o homem e a mulher à Sua imagem e semelhança.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

SOMOS UM BRASIL NEOCOLONIAL

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A perda da capacidade econômica, industrial, comercial, tecnológica e política do Brasil é uma constante do pós-golpe parlamentar de 2016. Se no passado o país viveu o estado de colônia com a chegada dos europeus, agora é visto como a neocolônia dos EUA. Na realidade, o país foi submetido às potências econômicas internacionais, diga-se, pela opção do governo atual. Libertar-se desta situação é tarefa para longos anos de independência política.

Para refletir sobre o momento do Brasil recorro ao teólogo Leonardo Boff, que define a situação num pensamento: “somos sócios menores e agregados ao projeto das grandes potências que dominam o mundo”. Segundo o teólogo, o país perdeu a soberania e a autonomia para organizar e criar um programa econômico de desenvolvimento alternativo às imposições da política neoliberal. Ademais, o Brasil tem historicamente se sujeitado à velha política de submissão. Na melhor definição dos cientistas políticos: “passar o chapéu para ver se cai uma migalha”. Tal é a reverência ao mercado global que após vários anos livre dos empréstimos e de pagamento de juros ao Fundo Monetário Internacional (FMI) o país voltou em 2016 a sua dependência. Nesta condição de dependência do FMI, o Brasil tornou-se novamente um país vulnerável.

As razões pelas quais o Brasil é considerado um país vulnerável são várias. A primeira, conforme o documento divulgado em maio pelo Banco Central Americano (FED ou Federal Reserve), aponta nosso país como o segundo mais vulnerável financeiramente em relação aos 18 países emergentes. O relatório aponta o Brasil à frente apenas da Argentina, país em profunda recessão econômica, totalmente dependente da política econômica do FMI. Na avaliação do FED a vulnerabilidade do Brasil é consequência da falta de uma política econômica consistente, capaz de propor o equilíbrio dos gastos públicos. O resultado é o aumento das contas públicas e o crescimento da dívida bruta do PIB (Produto Interno Bruto).

Admitida esta situação, os analistas políticos se perguntam qual o caminho indicado para a superação da vulnerabilidade. Primeiramente, apontam que é preciso capacidade política nacional de pensar um projeto econômico independente dos grandes grupos internacionais. Sem esta capacidade política, o Brasil continuará dependendo do capital estrangeiro. Em segundo lugar, para enfrentar o aumento da importação de produtos o Brasil precisa fomentar o mercado interno e aumentar as exportações. Enquanto não conseguir implantar essa política econômica, tende a aumentar sua vulnerabilidade. Em terceiro lugar, na falta de uma política econômica de geração de empregos e consumo interno, o Brasil obriga-se a privatizar o capital nacional. Finalmente, nesta lógica, resta ao governo cobrar altos tributos dos cidadãos, como única saída para manter o funcionamento da estrutura pública.

Diante deste cenário econômico e político não resta outra solução extrema a ser tomada pela população brasileira: parar de trabalhar simplesmente. Lamentavelmente, hoje no centro da discussão não estão mais a desigualdade social, pobreza, corrupção, mas os altos tributos cobrados para manter a estrutura pública e seus privilegiados. Nenhum movimento mudará o rumo do país sem a paralisação geral dos trabalhadores vitimados com pesados tributos. A única força está nos braços cruzados dos cidadãos, sufocados social, política e economicamente. Somente este gesto poderá provocar um clamor nacional por uma revolução propondo como solução uma nova constituinte. Para os analistas políticos, somente a eleição de uma liderança nacional que tenha expressiva aceitação da população e que tenha políticas voltadas para o bem coletivo poderá tirar o país desta situação neocolonial de total vulnerabilidade.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ESCREVER É PRECISO...

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Tarefa árdua a de escrever em tempos tão polarizados como os nossos. No mesmo momento em que qualquer indivíduo, relevante ou anônimo na cena social, afirma publicamente sua posição sobre um determinado tema, aparece imediatamente um outro defendendo veementemente posição diametralmente oposta. Parecemos todos envoltos num Fla-Flu de final de campeonato brasileiro.

O tema candente do momento na cena midiática brasileira é o da descriminalização do aborto. E logo aparece gente que, sem preocupar-se em saber do que trata o projeto, confunde a descriminalização com a liberação do aborto. E outros que vão além e afirmam que o projeto de lei institui a obrigatoriedade do aborto e que, se aprovado, todas as mulheres terão que, forçosamente, arrancar os fetos de seus ventos. E logo se instaura um Gre-Nal dos que são a favor do aborto e dos que são contra o aborto. Calma! Antes de entrar no mérito, perguntemo-nos: por que a suprema ministra do STF colocou em discussão essa temática justamente agora a poucas semanas das eleições presidenciais, estaduais e parlamentares, tanto a nível federal como a estadual? E mais: por que este tema sempre é colocado em questão em véspera de eleições? Será que não dá prá desconfiar? Sou tentado a prever que a atual ministra presidenta do STF não vá colocar em votação a questão antes das eleições e ela vai voltar daqui a quatro anos, justamente nas vésperas das próximas eleições...

Dei-me ao trabalho de assistir a alguns dos pronunciamentos feitos por representantes da sociedade na audiência pública relativa ao tema convocada pelo STF. A grande maioria, tanto no bloco a favor como no bloco contrário à aprovação do projeto de lei, me pareceram muito fundamentadas e sensatas desde o ponto de vista dos proponentes. Não vou aqui discutir o mérito de cada uma, pois não é esta a finalidade que aqui me proponho. O que me impele a escrever, é que, apesar daquelas argumentações sérias e consistentes, nos meios de comunicação tradicionais e nas mídias alternativas, seguia a todo vapor o Ba-guá com os que defendem uma posição demonizando a posição dos outros e, dos dois lados, a grande maioria sem apresentar argumentos a não ser o direito ao aborto e o direito absoluto à vida. Raros foram e são os que apresentam seus argumentos. Das poucas intervenções fundamentadas, a mais sensata me pareceu a de Frei Betto. Ela está disponível na internet. É só dar uma busca e logo aparece. E - pasmem! - malhada por radicais de ambos os lados! É isso que acontece com quem pensa e argumenta com lucidez...

O mesmo aconteceu com outro tema que, não sei por qual razão, de uma hora para outra, saiu das manchetes: a legalização do consumo de maconha. Mesma cena: há argumentos tanto a favor como contra que são solenemente esquecidos nas discussões superficiais promovidas por meios de comunicação mais interessados em aumentar sua audiência do que buscar uma solução para o problema da drogadição e da violência resultante do mercado clandestino de estupefacientes. Chega a ser cômico o esforço feito por emissoras de televisão patrocinadas pela indústria do álcool – uma droga legalizada, mas assim mesmo, sempre uma droga – contra a legalização de outra droga, a maconha. Os industriais e mercadores de cerveja não querem que os industriais e mercadores de maconha disputem com eles o mesmo mercado! Ou então, suspeita terrível se verdadeira for, são os mesmos que querem manter o comércio de uma droga legal e o de outra ilegal. Assim ganham tanto num esquema como em outro.

E agora, para alegria dos flafuzeiros, grenalistas e bagualeiros, estamos entrando na disputa eleitoral. E tudo o que não se quer neste cenário de democracia sequestrada e presa pela República de Curitiba, são argumentos. O campo já está sendo demarcado com linhas de pura emoção. A mensagem que nos passam é de que devemos deixar os neurônios em casa e colocar o fígado e a suprarrenal em campo para que a bílis destile seu verde amargor sobre os adversários! Nada de argumentos. A eleição é só emoção. Nós contra eles. A luta do bem contra o mal. As luzes contra as trevas. O progresso contra o atraso. A ordem contra o caos. A modernidade contra a velharia. E tantas outras formas de maniqueísmo que fariam o velho Santo Agostinho ruborescer!

Como argumentar nestes tempos sem argumentos? Confesso que às vezes tenho vontade de parar de escrever... Será que alguém lê meus textos até o fim ou já, desde a primeira linha, serei classificado como pertencente a esta ou àquela tendência e a leitura interrompida antes de eu poder expor meu primeiro argumento?

Se você chegou até aqui, por favor, faça-me saber! Será para mim um consolo e um estímulo. Será um bálsamos para minha atribulada alma de escritor improvisado. Faça isso, por favor, mesmo que eu tenha decidido que, nestes tempos em que muito se fala e pouco se escuta, é preciso continuar a escrever para que o pensamento não se intimide e morra na escuridão que querem nos impor. Parar de escrever é parar de pensar. E parar de pensar, é morrer. Não quero nem me deixar abortar e nem permitir que me entorpeçam com discursos de trevas e silêncio. A escrita é o trigo que mata a nossa fome de saber. Escrever é preciso, viver não é preciso.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

CRISE.

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O rádio do carro reverbera a palavra da hora, mais onipresente que Deus e placa da Coca Cola: CRISE!
Um irado jornalista diz: “nunca vi CRISE tão grande, nunca dei tanta notícia de corrupção e bandalheira”.
Na dúvida se estou em CRISE com o tempo ou em tempo de CRISE me pergunto: será que vivemos, mesmo, os piores tempos de todos os tempos?
Nasci em 1942. Meu parto, segundo minha mãe, foi uma CRISE. Logo depois, nasceu a Petrobrás. Acho que, hoje, estou melhor que ela.
O presidente era Getúlio Vargas, que havia sido ditador, depois foi eleito no voto, mas deu um tiro no peito em meio a uma CRISE chamada na imprensa da época de “mar de lama”.
Morto Getúlio, assumiu o vice, Café Filho, que se afastou em meio a uma CRISE de saúde.
O terceiro na linha de sucessão, o presidente da Câmara, Carlos Luz, (o Eduardo Cunha daqueles dias) tomou posse e foi logo deposto (CRISE!) por tentar impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, um mineiro seresteiro e pé de valsa. A coisa, agora, parecia que ia tomar rumo.
O problema é que JK resolveu construir uma cidade no meio do nada e levar a capital pra lá, com dança e tudo. Mas Brasília tinha muita poeira e ficava muito longe do Brasil. Logo entrou em CRISE.
De JK fomos para o JQ (Jânio Quadros) que falava esquisito e tinha mania de vassoura, não sei se por causa da poeira ou da sujeira da nova capital. Nem bem começou, renunciou. CRISE!
Os militares não queriam o vice, mas ele acabou assumindo, disfarçado de parlamentarista. Começou a ter umas ideias e, CRISE!: foi derrubado pelos militares, que botaram um general na presidência, aliás, um não, vários, um atrás do outro. 21 anos de ditadura, a pior das CRISES...
Teve um marechal baixinho, que não tinha pescoço nem paciência, depois aquele outro que teve uma CRISE (AVC) e, no lugar dele, assumiu uma junta militar. Era uma farda e uma CRISE atrás da outra.
Em sequência, vieram mais três generais, que pareciam não gostar muito de ser presidentes; um bravo, que escutava futebol num radinho enquanto pendurava adversários no pau de arara, um alemão, que não ria de jeito nenhum e queria fazer uma bomba atômica pra jogar na Argentina, e um João, que era meio burro e gostava de cheiro de cavalos.
A CRISE ficou braba e ninguém aguentava mais nem cheiro de generais. E eles não tiveram outro recurso a não ser deixar entrar um civil, sem eleição, claro.
Veio outro mineiro, que tinha sido ministro do que deu um tiro no peito. Mas ele também teve um treco, um dia antes da posse (CRISE de diverticulite, disseram) e acabou morrendo no dia de Tiradentes, aquele que entrou em CRISE contra o imposto de renda, que no tempo dele cobrava 20%. Bons tempos...
Então entrou o vice, tinha um bigode de morsa e havia apoiado os generais. Até ganhou um fardão, parece que pra ser imortal. Ô sina...
E o desgoverno do vice que virou titular foi uma CRISE só. Ele fez uma lei proibindo os preços de subir, correu atrás de boi no pasto, deu calote dentro e fora do país, distribuiu televisão e rádio prus amigos em troca de mais um ano pra ser presidente, disparou a inflação e deu com os burros n’água.
Quando ninguém aguentava mais a CRISE, voltou a eleição direta que o pessoal de farda não gostava e não deixava, mas não tinha como impedir. E apareceu um monte de candidatos, entre eles um sapo barbudo, peão, de língua presa, que deu um susto em todo mundo e quase ganhou. Seria uma CRISE...
Perdeu no segundo turno pra um almofadinha que tinha aquilo roxo, olhos esbugalhados (talvez os olhos estivessem esbugalhados porque aquilo tava roxo) e chamava todo mundo de minha gente.
Ele gostava de correr, andar de moto e fazer discurso pra gente dele. Deu um tiro na inflação que o do fardão tinha deixado, errou feio, garfou a poupança do povo, distribuiu entre outra gente, essa dele, de verdade, construiu uma cascata em casa e, por causa de uma briga com o irmão, quase foi pra cadeia junto com o tesoureiro, que depois morreu, parece que numa CRISE com mulher. Parece...
Roxo de raiva, o almofadinha foi escorraçado do palácio e saiu com o rabo entre as pernas, pela porta dos fundos. Pra resolver a CRISE, entrou de novo um vice, que gostava de pão de queijo e desfile de carnaval. Todo mundo dizia pra ele sair, mas, mineiro teimoso e topetudo, resolveu ficar e encarar a CRISE.
Relançou o fusca e inventou um novo dinheiro, bolado por um ministro, que deu certo, o dinheiro e o ministro, ora vejam só...
E o ministro FHC virou presidente, e gostou tanto que repetiu a dose. Terminou o governo em CRISE de apagão.
Depois dele, eis que o tal peão de língua presa e um dedo a menos, enfim, chegou lá. Lula lá. Na CRISE!
Mas não é que, no começo, o cara até que fez muita coisa boa? Comprou um avião, viajou pra todo lado, deu palpite na cozinha de todo mundo e até ensinou gringo a transformar tsunami em marola.
Apesar de uma CRISE chamada Mensalão, o povão elegeu o cara de novo e depois uma senhora que ele inventou, que nunca tinha sido candidata nem a síndica do prédio em que morava. E ela foi reeleita também, gerando a CRISE do Petrolão, num mar de corrupção, que está aí, ou que, na verdade, nunca nos deixou...
É isso, meninos e meninas desse tempo chamado hoje. Não se desesperem, nem se iludam. A CRISE não vai passar. Nós é que temos que aprender a sobreviver.
Eu aprendi que se correr a CRISE pega, se ficar a CRISE come, se enfrentar a CRISE some!
Amém...

domingo, 12 de agosto de 2018

A POLÍTICA NUMA RODA DE AMIGOS

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Praticar a democracia não é nada fácil. Uma roda de amigos conversava sobre preferências eleitorais. Fiz a pergunta: E se Bolsonaro for eleito presidente? Houve repúdio geral: “Saio do país”, disse um; “Ditadura de novo, nem pensar! ”, reagiu outro. Um terceiro surpreendeu a todos ao declarar que talvez vote nele.

E se Lula for candidato e ganhar? Novas reações de apoio e rejeição. “Nenhum governo fez tanto para o povo brasileiro como o PT”; “Seria legitimar a corrupção”, falou outro.

O fato é que lidamos mal com a democracia. Exceto quando seus ventos sopram a favor de nossos interesses. Se o candidato que odeio for eleito cubro a democracia de maldições. Malditos eleitores que não sabem votar! Com certeza as urnas foram manipuladas! Ah, quem dera um novo golpe derrube o eleito!

Porém, se o candidato de minha preferência for eleito presidente da República, viva o povo brasileiro! Afinal, predominou o bom senso! Os oportunistas foram derrotados!

“Tudo em um Estado democrático deve ser um meio para atingir a democracia, mas a única coisa que não pode, nunca, tornar-se um meio é a própria democracia. Uma concepção meramente instrumental da democracia é a negação, cedo ou tarde, de uma sociedade democrática. Quem se vale da democracia para alcançar os próprios objetivos políticos acabará, em um momento ou outro, sufocando-a”, escreveu Norberto Bobbio (Entre duas Repúblicas - as origens da democracia italiana, Brasília/São Paulo, editora UnB/Imprensa Oficial de São Paulo, 2001).

É equivocado, nas eleições deste ano, centrar o foco apenas em candidatos a presidente. Qualquer um que for eleito terá que se submeter às decisões do Congresso Nacional. Por isso é de suma importância votar bem para eleger deputados federais e senadores. Renovar o parlamento. Evitar que sejam eleitos ou reeleitos candidatos lobistas, interessados apenas em defender interesses corporativos, em geral por meios escusos.

Na roda de amigos todos concordamos que é preciso pôr fim à carreira política daqueles que sempre defenderam os privilégios da minoria contra os direitos da maioria.

Pelo nosso voto podemos fechar as portas do Congresso Nacional aos corruptos, oportunistas e nepotistas. O Brasil merece sair do atraso, ampliar suas políticas de proteção social, aumentar os recursos na saúde e na educação, reduzir drasticamente a desigualdade social, fonte da violência que assola o país.

Menos cadeias e mais escolas. Menos agrotóxicos e mais agricultura orgânica. Menos veículos particulares e mais transportes coletivos. Menos especulação financeira e mais produtividade. Menos criminalização dos movimentos sociais e mais respeito à diversidade. Menos maracutaias e mais transparência. Menos autocracia e mais democracia.

Vote no projeto Brasil. E eleja quem é capaz de aglutinar forças sociais capaz de torná-lo realidade.

TEMOS QUE VIVER COMO SE EXISTISSE AMANHÃ.

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Em tempos de crise é comum entrar no vermelho, no orçamento doméstico, antes do final do mês. E, hoje, não é incomum os governos das nações ou das cidades também entrarem no vermelho, gastando mais do que arrecadam. Quando isso acontece os economistas falam em déficit fiscal. Para solucionar o problema há vários recursos. Um deles é cortar gastos. Outro é aumentar a receita. Outro é fazer as duas coisas. Outro, ainda, é tomar as duas medidas, e ainda assim, pedir empréstimo e rolar dívidas, pagar juros que comprometem tanto o presente quanto o futuro. A preocupação e a precaução nesse campo é regra mínima para não entrar em processos falimentares. A falência não interessa a ninguém. Ou quase a ninguém, pois para os bancos é uma farra...

Algo similar, mas muito mais explosivo e desastroso, não só para famílias ou estados, mas para a humanidade e para os animais, está acontecendo com o planeta. Não é de hoje que os economistas e ecologistas estão alertando sobre o perigo de um processo de colapso ambiental comprometedor da vida na terra. Pelo menos a vida animal, dos humanos e dos não humanos, pois a vida vegetal agradeceria se os humanos tirassem férias permanentes...

Ninguém presta muita atenção para o que está acontecendo. Não é para hoje. É para amanhã e, nesse caso, o amanhã não existe como experiência histórica. O amanhã é um adiamento, assim como quando alguém nos pergunta quando deixaremos determinado vício e respondemos: amanhã.

Há, aí, um autoengano, típico de comportamentos humanos frente a problemas que exigem prevenção e mudanças. Somos uma espécie inteligente e muito eficaz para muitas coisas, sobretudo para solucionar problemas reais e atacar efeitos. Porem, não somos bons, mesmo sabendo, na prevenção e antecipação de doenças e/ou calamidades. Sabemos que o cigarro faz mal e continuamos fumando. Sabemos que comer carne não é a melhor opção para a saúde e ao meio ambiente, mas não estamos dispostos a mudar de hábitos alimentares. E, nesse caso, nem se fala do respeito à vida dos animais, pois aí o egoísmo impera e só remotamente entra como uma atitude moral prévia.

Dia 1º de agosto foi, nesse ano de 2018, o dia em que a terra esgotou seus recursos e biocapacidade frente a pegada ecológica global. De 2 de agosto até 31 de dezembro o planeta entra no vermelho. No ano passado o dia da sobrecarga da terra (Earth Overshoot Day), como é chamado, foi o dia 2 de agosto. Em 2016 foi em 8 de agosto. Em 2015 foi em 13 de agosto. Em 2014 foi em 19 de agosto... Em 1970 foi no dia 29 de dezembro. Repare o processo contínuo e acelerado em tão pouco tempo. O que aconteceu entre 1970 e 2018?

Aconteceram muitas coisas, mas do ponto de vista do impacto e pressão sobre a terra, “nossa casa comum”, como diz o Papa Francisco, dois fenômenos foram e são fatais: o superconsumo e a superpopulação. Para a sustentabilidade do planeta e da chance da biodiversidade, não há como não rever esses dois elementos da equação. É necessário rever tanto a pegada ecológica, isto é, quanto cada um consome da biocapacidade da terra, quanto o número de pés sobre a terra. Em 1970 éramos 3,6 bilhões de pessoas com desejos infinitos de ser feliz, consumindo. Hoje, somos 7, 6 bilhões de almas sedentas e esfomeadas desejando preencher uma falta, uma carência e uma ausência, que só pode ser preenchida existencialmente pela espiritualidade e pela “sobriedade feliz”, mas que teimamos em tentar suprir pelo excesso da absorção do mundo exterior em forma de mercadoria. A continuar no ritmo atual, a letra da música de Renato Russo pode ganhar um outro significado quando diz: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há”.

Uma nova educação e uma nova espiritualidade, junto com uma maior distribuição dos bens produzidos, para diminuir a desigualdade e a pobreza, é a melhor aposta, e não o que tem sido apresentado como solução que, na verdade, é a causa maior do problema: o crescimento infinito. Não há dois ou três planetas ao nosso dispor e não há para onde fugir, até porque, na fuga, nós iríamos juntos...

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

ANDAR NA GARUPA DO PAI.

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Tem cenas e imagens que não precisam de legenda e muito menos de explicação, pois falam por si mesmas. Num dia desses, enquanto estava caminhando com o pensamento um pouco mais solto, distante da pressão dos compromissos, visualizei um pai carregando seu filhinho apoiado nos ombros. Literalmente o menino estava na garupa do pai. Instantaneamente me reportei, em pensamento, para a minha humilde, mas intensa infância. Andar na garupa era um verdadeiro divertimento, que rendia saudáveis gargalhadas, acompanhadas de movimentos bruscos, mas cheios de segurança. Alguns pais não tinham tempo ou não se permitiam tais brincadeiras. Mas os irmãos mais velhos quebravam o galho e a diversão era vibrante. Olhando para trás, fica a impressão de que os problemas eram leves ou inexistentes. A vida fluía com maior naturalidade, o respeito determinava os respectivos espaços, a honestidade servia de carteira de identidade. É bom ter saudade da infância, do divertido entretenimento, do contato com a natureza, da modéstia que reinava, dentro e fora de casa.

Meu olhar continuou voltado para aquele pai que carregava seu filho na garupa. A intimidade entre ambos era nítida, pois sorrisos e gargalhadas se intercalavam. Sim, a educação só é plena quando o amor permite uma larga e criativa espontaneidade. O segredo para construir a personalidade dos filhos é a presença, o afeto, o vigor e o exemplo. O desenvolvimento intelectual conta com o apoio formal da escola, em seus diversos níveis. Porém, a educação é uma exclusividade da família. A mãe tem o privilégio de gerar e, consequentemente, ficar mais próxima dos filhos, em todos os sentidos. Mas a presença do pai é de extrema importância. A prova disso se evidencia, quando os filhos alcançam a idade adulta. Se na infância, a ausência do pai foi acentuada, sem dúvida as lacunas se manifestarão de muitas maneiras. Quantos adultos inseguros, sem iniciativa, dependentes afetivamente e até sem esperança, por causa da pouca interação com o pai.

Aquele pai continuou caminhando com o filho na garupa, as risadas eram intercaladas com expressões de ternura. Em seguida, ele dobrou a quadra e eu continuei meu caminho. Recordei da importância da vida em família, mas pensei também no dia dos pais, que é uma data muito importante, mas que quase sempre se apresenta com excessivo apelo comercial. O consumismo não pode roubar a melhor parte da festividade familiar. Nem todos podem dar presentes, mas todos podem marcar presença. Um regalo, como dizem os italianos, é muito significativo. Mas o presente que rende incríveis registros é o tempo que um pai dedica ao filho. As coisas materiais não podem substituir o afeto, as trocas diárias e a criatividade do amor. Além disso, ser pai é juntar as mãozinhas do filho para elevar aos céus uma prece. A espiritualidade é fonte de muita paz e de significativas realizações. Todos precisam da garupa do pai, para não desanimar diante dos tropeços da vida.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É NISSO QUE EU CREIO.

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Já faz muitos anos que, a cada primavera, imponho-me a tarefa de fazer uma declaração pessoal de fé, de compor um ‘Credo’. Quando era mais jovem, meu credo ocupava páginas e páginas, de tanto que me preocupava em cobrir todas as áreas, sem deixar nada pendente. Era como se tivesse de produzir uma espécie de sentença da Suprema Corte; como se, com palavras, pudesse resolver todos os conflitos sobre o sentido da existência.

Com o tempo, o credo foi encolhendo. Às vezes acaba soando cínico, às vezes cômico, às vezes sereno, mas continuo trabalhando nele. Recentemente resolvi que tinha de fazê-lo caber inteiro em uma única página e que só podia usar palavras simples, mesmo sabendo que corria o risco de parecer idealista e ingênuo.

A ideia de procurar ser breve, verdadeira inspiração, ocorreu-me num posto de gasolina. Estava abastecendo meu velhíssimo automóvel com a gasolina mais pura, de alta octanagem. Combustível de luxo. O carro protestou: começou a ratear nos cruzamentos, vazava combustível pelas esquinas. Logo entendi o que estava acontecendo.

De vez em quando me sinto assim, como o motor do meu carro. Excesso de informação, excesso de complexidade, e eu é que começo a ratear pelas esquinas – um ratear existencial pelos cruzamentos da vida, justamente nos locais e horas em que tenho de tomar as mais difíceis decisões, e inevitavelmente descubro que ou sei demais, ou sei de menos.

O fato é que quanto mais penso sobre a vida, mais me convenço de que ela não é um piquenique. E foi essa imagem, de um piquenique, que me fez descobrir que já sei praticamente tudo o que é necessário saber para viver com dignidade, que as coisas não são, assim, tão complicadas.

Hoje, imagino saber o que realmente conta, porque tenho vivido essas coisas, há muito tempo.
Sim, claro que imaginar é uma coisa, viver já são “outros quinhentos”, mas é essa junção entre ideias e ações, entre sonhos e experiências que me permite resumir assim, hoje, o meu Credo:

Tudo que eu preciso mesmo saber sobre como viver, o que fazer e como ser, aprendi no jardim-de-infância. A sabedoria não estava no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas no tanque de areia do pátio da escolinha maternal. Lá eu aprendi a:

Dividir tudo com os companheiros.

Jogar conforme as regras do jogo.

Não bater em ninguém.

Guardar os brinquedos onde os encontrava.

Arrumar a “bagunça” que eu mesmo fazia.

Não tocar no que não era meu.

Pedir desculpas, se machucava alguém.

Lavar as mãos antes de comer.

Apertar a descarga da privada.

Aprendi que biscoito quente e leite frio fazem bem à saúde e que preciso fazer de tudo um pouco; estudar, pensar e desenhar, pintar, cantar e dançar, brincar e trabalhar, de tudo um pouco, todos os dias.

Ao sair pelo mundo (e pela vida), ter cuidado com o trânsito, ficar sempre de mãos dadas com o companheiro e... “de olho” na professora.

Aprendi com uma sementinha de feijão, que plantei num copo de plástico, que as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima. Ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim.

Outra lição importante que adultos resistem a aprender: peixes dourados, porquinhos-da-índia, esquilos, hamsters e até a semente no copinho plástico – tudo isso morre. Nós também.

Pra finalizar, lembro com uma alegria que a idade adulta não conseguiu me roubar, da primeira palavra que li nos livros de histórias infantis: Olhe!

Tudo que a gente precisa mesmo saber está por aí, em algum lugar do cotidiano mais simples e banal. Em tudo persiste a regra de ouro: aliar amor, respeito às diferenças e princípios de higiene. Ecologia e política, igualdade e vida saudável, tudo brota daí, feito a sementinha de feijão.

Quer conferir?

Escolha um desses itens e o elabore em termos sofisticados, em linguagem de adulto; depois, aplique-o à sua vida, à vida de sua família, ao seu trabalho, à forma de governo de seu país, ao seu mundo, e verá que a verdade que ele contém mantém-se clara e firme.

Pense o quanto o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro – fizéssemos um lanche de biscoitos com leite às três da tarde e depois nos deitássemos, sem a menor preocupação, cada um no seu colchãozinho, para uma soneca. Ou se todos os governos adotassem, como política básica, a ideia de recolocar as coisas nos lugares onde estavam quando foram retiradas; arrumar a “bagunça” que tivessem feito.

E é verdade, não importa quantos anos você tenha: ao sair pelo mundo, vá de mãos dadas, e fique sempre “de olho” no companheiro.

“Tudo que eu deveria saber na vida aprendi no Jardim-de-Infância”

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

ASSIM CAMINHA O PESSOAL

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Voltei a caminhar!

Agora, de segunda a sexta, logo de manhãzinha, pego a estrada e vou fazer minha caminhada. Na contramão do meu caminho, motoristas nervosos, raivosos, descendo para o Centro para encarar mais um dia de trabalho.

O simples ato de caminhar, mais que uma exigência do meu cardiologista, é um privilégio, apesar da tristeza de ver o esgoto poluindo e o lixo esparramado enfeiando a cidade.

Mas, se a vida já me deu régua e compasso, sigo no meu passo.

Caminho, dentro e fora de mim, em busca de sinais de ressurreição. É a vida pedindo passagem.

Contemplativo na ação e ativo na contemplação, acelero os passos e fico atento aos companheiros de caminhada. Passam por mim, indo e vindo, e capturo no ar o que dizem. São fragmentos apenas, frases truncadas, palavras partidas pela respiração entrecortada, sentimentos voláteis, fugidios, que vão se desintegrando ao ritmo desencontrado de pés que vão e vem.

Recolho as palavras em migalhas, vou juntando, fazendo uma espécie de reciclagem dessa sucata verbal, reaproveitando o que posso, completando as lacunas com meus próprios sentimentos e ideias.

É um exercício interessante...

Dois senhores, grisalhos como eu, deixam no ar a frase quase acabada: "tanta gente boa morrendo e eles aí...".

É verdade, penso eu pensando em Brasília. Politicamente incorreto, concluo o pensamento: “Só mesmo um terremoto de dez graus na escala Ricther, com epicentro na Praça dos Três Poderes para dar um jeito naqueles...”.

Duas mocinhas passam num trote rápido, interrompendo minha indignação cívica. Uma delas fala alto, para superar o som dos onipresentes fones de ouvido: “se ele não aparecer hoje, já era...”

Apresso o passo, como se fosse eu o ameaçado de excomunhão. Quem será o pobre coitado? Saberá que está na corda bamba, que seu atraso ou ausência podem lhe custar, sei lá, o coração (ou algo mais) de uma das mocinhas? Outras duas mulheres, essas de meia idade, passam ligeiras: “minha sogra quer ser cremada e que joguem as cinzas no mar. A gente joga ela no rio Uruguai mesmo, garanto que uma poeirinha chega em Balneário Camboriú...”.E a gargalhada passa rápida, como elas.

Ah, o poder dessas mulheres modernas...!

O local da caminhada é democrático e lá vem, em passos miúdos e sem pressa, uma senhorinha idosa que leva pela coleira uma cadelinha, parece que mais idosa ainda. Passam num silêncio que diz muito. Os olhinhos carinhosos de ambas derramam ternura humana e animal sobre a companheira de caminhada.

Só quem tem cachorro sabe o quanto a solidão humana pode ser preenchida pelo bichinho por quem tenho, também eu, muita ternura.

Dois homens, um mais jovem, um mais maduro, ambos fortes e atléticos, trotam em marcha acelerada, assustando a velhinha e sua companheira de caminhada. O mais jovem diz, bufando: “o meu Deus é diferente. Ele é bom. Não fica se vingando de ninguém”.

“Não é vingança, diz o outro, é justiça...”.

E se vão, deixando pelo meio a aula de Teologia.


Lembro de minha mãe: “Tudo que sinto, esbarra em Deus”...

O pensamento voa e me faz esquecer, por instantes, a paisagem humana à minha volta. Meu olhar se estende ao cenário que me rodeia. Contemplo, para além da poluição, a luz do dia plenamente amanhecido.

Um bando de biguás estende as asas ao sol, para secá-las. Um deles emerge, próximo à margem de um açude, trazendo no bico um lambari que é logo engolido.

Outros bichos, antes selvagens, entraram definitivamente para a categoria de fauna urbaníssima. Bem-te-vis, rolinhas, os próprios biguás, as garças brancas, magras e elegantes como top models, os quero-queros, que adoram futebol...

Pessoas, bichos, açude, sol, asfalto, canto de pássaros, buzinas raivosas, um revoar de garças, o congestionamento do trânsito...

Como das palavras, recolho de tudo, fragmentos de ressurreição.

A vida me convida a cuidar dessa minha, nossa casa, tão comum...