quarta-feira, 31 de maio de 2017

A VIDA TEM ESTAÇÕES.

Sempre gostei de prestar atenção nas transformações que acontecem, nas diferentes estações do ano. A natureza é dinâmica e criativa. Apesar de todas as interferências inconsequentes da mão humana, o planeta continua dando sinais que encantam, elevam e convidam à contemplação. Quem tem um contato maior com o meio ambiente certamente vive muito melhor. São Francisco de Assis inspirou uma nova postura na relação com a obra da criação. Ele chamava a terra de mãe, o sol de irmão. Cada ser criado recebia o respeito devido, por ser uma extensão do Criador. O mundo utilitarista distanciou o humano dos seus ‘irmãos’ e ‘irmãs’ e a natureza iniciou um longo caminho de padecimento. Ainda bem que nem tudo está perdido. A conscientização não pode dar trégua até não despertar na humanidade um grande cuidado.

É interessante perceber a vizinhança entre as estações. A impressão é de que uma prepara a chegada da outra. O outono, com todo seu charme, faz alguns preparativos para a chegada do inverno, depois de ter se despedido do verão. A primavera brilha nas muitas tonalidades, sem deixar de abrir os braços para acolher, em seguida, o verão. O dinamismo da troca de estação permite detalhes incríveis. É lamentável que a distração simplesmente roube o olhar de admiração que poderia brotar do coração humano. Um dia, talvez, a velocidade e o excesso de preocupações abram espaço para outros sentimentos que darão à vida um novo jeito de ser e de conviver com tudo e com todos.

Todas as estações têm suas peculiaridades, mas o outono é de um charme sem igual. Creio que seja a estação que mais se aproxima do desapego e do retorno à essência. As folhas caem e os excessos são podados. As cores são variadas, apesar da delicadeza de algumas tonalidades, o vento se encarrega de levar as folhas para longe, no intuito de serem absorvidas pela mãe terra. Os humanos poderiam aprender muito com a especificidade de cada estação. Como é necessário se despir dos excessos, permitindo novas tonalidades, recolhendo-se, com o intuito de perceber e se restabelecer com o silêncio que harmoniza e que faz transbordar a paz. Gratidão aos ensinamentos do outono.

terça-feira, 30 de maio de 2017

A MORTE É MAIS TRISTE NO VERÃO.

Roma é uma cidade marcada por uma relação especial com a morte. Começando pelos monumentos: as catacumbas, os mausoléus, ou os mausoléus construídos sobre catacumbas, símbolos da morte elevados ao quadrado. Mas os monumentos também são memória. Volta e meia entro em uma igreja e encontro esculpido no mármore (para que não se apague): "Recorda que deves morrer". Recordar a morte, passar por ela e recordar a morte dos outros, projetando nela a nossa própria finitude, a cada sítio arqueológico ou local de culto. Mas não só nesses lugares.

Passando pela via dei Fori Imperiali, a grande avenida que liga a Praça Veneza ao Coliseu, os turistas podem admirar, maravilhados, o Foro Imperial de um lado e o Foro de Trajano do outro. Poucos observam uma bicicleta pintada de branco, junto de um poste, diante da estátua de Nerva, um dos imperadores da Roma antiga, que, com as esculturas dos demais imperadores, materializa os grandes momentos da antiguidade como um livro a céu aberto.

A bicicleta era de Eva, uma imigrante vinda da República Tcheca, uma estrangeira como tantos nesta cidade, que vivem e adotam Roma como sua. Eva foi atropelada quando retornava do trabalho em outubro de 2009. Os ciclistas romanos transformaram a sua bicicleta em símbolo das vítimas do trânsito. Conservam a pintura, enfeitam a bicicleta com fitas coloridas, fazem disso um hino cotidiano à vida de Eva. A morte para recordar a vida que houve.

Roma está cheia de locais que recordam os que já se foram. Não são necessárias placas ou explicações, quem mora aqui sabe do que se trata. Ontem mesmo voltava para casa depois de um dia quente, ensolarado, e me deparei com um maço de flores frescas em um poste perto da minha casa. Trata-se de uma pessoa morta naquele lugar, anos atrás. E apesar dos anos, do sol, do calor, as flores estão ali, frescas. Porque alguém não deixa que as flores sequem e que a memória se apague. Em momentos como esse, percebemos que a morte está sempre por perto, triste como no primeiro dia. Imbatível diante das estações do ano. Mas isso também nos recorda que vale a pena viver e que vale a pena confiar: um dia as flores frescas estarão lá para nós, depostas por um anônimo, depois de tantos meses, de tantos anos, lembrando aos que estarão no nosso lugar que a vida continua. E pode ter a graça de uma flor, um gesto tão simples e tão profundo.

Roma é tudo isso. Uma cidade cheia de problemas, uma cidade em que os conflitos com os imigrantes podem aparecer atrás do próximo muro ou dentro de quatro paredes. Mas também é uma cidade que acolhe e recorda sem distinção os que nela viveram. E por isso, e não só por isso, é uma cidade única, melancólica com o seu perfil cor de ocre e as suas ruínas, uma cidade com flores frescas em pleno verão, que a deixam ainda mais triste na sua lindeza histórica.

domingo, 28 de maio de 2017

O BRASIL DO ESPELHO

Depois de visitar o País das Maravilhas, Alice, personagem de Lewis Carroll, decidiu atravessar o espelho de sua casa. Assim, entrou no País do Espelho, onde viu tudo ao contrário do que realmente é.

Se vivesse hoje no Brasil, bastaria Alice sair à rua para ver a realidade invertida: o bem comum ignorado pela maioria dos políticos; a propina superior ao salário; a mentira a tentar encobrir a verdade; a safadeza a predominar sobre a ética; e a venalidade sobre a honestidade.

Veria vários Brasis. E dois em destaque: o da maioria, que trabalha arduamente para ganhar por mês menos de dois salários mínimos, e quando doente sofre ainda mais por não contar com a eficiência do SUS e nem poder pagar o preço abusivo de remédios e planos de saúde.

E o Brasil dos que subornam instituições, juízes, deputados, senadores e governadores, para facilitar seus negócios e engordar os lucros. O Brasil dos que mamam nas tetas do Estado.

É tamanha a fila dos que têm rabo preso que todos eles devem estar se perguntando: “Quando chegará a minha vez?”

O presidente Temer recebeu no porão do Palácio Jaburu, no dia 7 de março, um bandido que se chama Joesley Batista, mas ingressou na residência oficial sob a alcunha de “Rodrigo”. Ali ele descreveu descaradamente, à máxima autoridade do país, as falcatruas nas quais andava metido. Recebeu do presidente estímulo para continuá-las.

Não me surpreende se, naquela noite, ao colocar para dormir o pequeno Michel, Temer tenha lido para o filho Alice no país do espelho e gravado na memória este trecho, no qual acreditou ao receber o homem que diz ter corrompido 1829 políticos: “Acho que não podem me escutar... e tenho quase certeza de que não podem me ver. Alguma coisa me diz que estou invisível...”

O rei está nu! E, apesar de seus dois pronunciamentos, não conseguirá ingressar no espelho e ver a sua real situação invertida.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

HARAQUIRI


Em japonês, seu nome é Seppuku. No Ocidente, tornou-se conhecido como haraquiri. Em qualquer uma das versões, literalmente, significa “cortar o ventre”. As primeiras informações de sua existência remontam ao século XII. No século XIX, foi proibido. Reservado aos samurais, o ritual surgiu primeiramente como prova de lealdade, mesmo na morte, do samurai ao seu senhor. Com o tempo, passou a ser executado como forma de resgatar a nobreza de um samurai que traíra ao seu senhor ou infringira o código de honra dos guerreiros.

O harikiri era uma cerimônia pública. Após ter obtido autorização de seu senhor, o samurai, devidamente trajado, ajoelhava e, tomando sua espada ou punhal, realiza primeiro o kiru, um corte horizonte, abaixo do umbigo (em japonês, hara), da esquerda para a direita. Em seguida, se lhe restavam foças, fazia outro corte no sentido vertical, de baixo para cima. As vísceras deviam ser versadas para fora para provar a honradez. Feito isso, entrava em ação o kaishakinin que, num golpe de misericórdia, realizava a decapitação final.

Mesmo identificada com a cultura oriental, a prática de tirar a própria vida como um modo de ter morte digna, foi comum também na Roma antiga. Chefes militares e soldados, na iminência de serem aprisionados pelos inimigos, optavam por cravar a espada em si mesmos. Como nos atesta a Bíblia no livro dos Atos dos Apóstolos, qualquer funcionário público que falhasse no cumprimento do seu dever, salvava sua honra tirando a própria vida (At 16, 25-28). Mas o ato era mais habitual entre os funcionários mais graduados. Foi o caso do general Quintílio Varo ao ser derrotado pelos germanos. Sentindo-se culpado por não ter sabido conduzir seus soldados, cravou a espada no peito. O mesmo foi feito por Marco Antônio, aquele que se tornou famoso por ser amante de Cleópatra. Nero, sem coragem para tal ato, pediu a um soldado que lhe cravasse a espada no coração.

Mas o método mais utilizado em Roma para morrer com dignidade era o corte nos pulsos. A história nos atesta que foi grande o número de políticos romanos que, metidos em intrigas e falcatruas, recorriam a esta prática. No fim do período de Tibério, parte significativa do Senado romano fez correr o sangue das próprias veias. Estavam todos com a honra comprometida e, para fugir à prisão e castigo, preferiram sair desta vida por própria iniciativa e assim resgatar a dignidade, mesmo que fosse depois da morte. Segundo o historiador Tácito, “por medo do carrasco preferiam morrer assim, e também porque, aos condenados, recusava-se sepultura e os bens eram confiscados, enquanto que aos que tiravam a própria vida respeitava-se o testamento e dava-se sepultura ao corpo, como recompensa”. Entre os que optaram por essa saída encontram-se os famosos Sêneca, professor de Nero, e o escritor Petrônio.

Tripas saltando para fora do ventre, espada cravada no coração, sangue jorrando dos pulsos... Cenas que, certamente, não são mais necessárias e nem desejáveis na nossa sociedade moderna e civilizada que rejeita a violência. No lugar delas, sugerimos o simples, singelo e incruento sincericídio. Se alguma noção de honra resta aos homens públicos neste momento de crise nacional, poder-se-ia apenas exigir-lhes que admitam seus crimes, deixem a vida pública, devolvam o dinheiro roubado e, num gesto de grandeza, nunca mais a ela voltem. E isso, de livre e espontânea vontade para que as mãos das vítimas não se sintam tentadas a sujar-se para fazer justiça

quinta-feira, 25 de maio de 2017

NÃO CAMINHAMOS SÓS

Do inferno não há volta. Sua entrada não tem portão, nem cadeado, nem chave. Mas uma vez passado o limiar, não há como retroceder. A frase no alto, adverte: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” É a entrada do inferno descrita por Dante Aleghieri em sua Divina Comédia. O sentido da frase é claro: depois da morte, não há mais possibilidade de mudança no nosso destino. Ou estaremos no céu, ou no inferno.

Menos óbvia era a frase colocada no portal de entrada de vários campos de concentração na Europa do séc. XX: "Arbeit macht frei". O trabalho liberta. Ela podia soar como uma advertência: quem foi trazido para cá é porque é vagabundo, não sabe se organizar na vida, precisa ser forçado a aprender e, numa sociedade industrial, o trabalho é a melhor forma de disciplinar os desviados e rebeldes da sociedade. Parece que foi esse o sentido primeiro do uso da frase pelos nazistas. Judeus, ciganos, homossexuais e comunistas eram pessoas vagabundas que precisavam ser reeducadas e assim contribuir para a construção do Terceiro Reich. Frei Joseph-Marie, foi prisioneiro durante três anos em um desses campos. Para ele, a frase era uma sádica ironia. Em Dachau, Auschwitz, Buchenwald e tantos outros, a única libertação que um prisioneiro podia esperar, era a morte. Ela era a esperança de libertação daquele inferno de trabalho, fome e vexações.

As duas frases me vieram à mente na segunda-feira passada quando, ao chegar no Hospital Colônia Itapuã, me deparei com o portal que separava a “área limpa” da “área suja” do leprosário, disse Vanildo Luiz Zugno. Era um portal que, diferentemente do inferno de Dante, tinha portão, cadeado e, ao seu lado, muros e arame farpado que impediam qualquer um dos internos de sair. Mas assim como o portal do inferno de Dante, este também só tinha entrada. Uma vez ultrapassado o limiar, não havia qualquer possibilidade de saída. Nem depois da morte. Do lado de dentro estava o cemitério para onde eram levados os ali falecidos. Até hoje seus restos lá estão. Nem um único sequer foi reclamado pelos familiares.

No alto do portal do leprosário, uma enigmática frase: “Nós não estamos sós”.A
 frase foi escolhida em um concurso entre os internos. Das muitas sugerida, esta foi a escolhida. Me pus a pensar: qual seu sentido? Qual a intenção do interno, que sabia que nunca mais sairia de lá, ao pronunciar aquela frase? E qual a intenção daqueles – o diretor do hospital, as irmãs da Penitência e Caridade Cristã que ali trabalhavam, Frei Pacífico de Bellevaux, capelão do Hospital Colônia Itapuã de 1940 a 1954 – ao escolher esta frase? Não sei. Não sabemos. Não há, até agora, nenhum documento que o diga...

Mas, Rita, a gentil enfermeira de tantas experiências com os remanescentes do leprosário e com os doentes mentais que hoje ocupam o espaço, foi a quem deu a chave para o enigma da frase. Num tempo em que não havia medicação para a hanseníase, eles foram retirados do convívio social, sepultados ainda em vida, ocultados dos olhos de todos, para que a sociedade não fosse contaminada pela lepra. Eles deram sua vida para que o resto da sociedade não tivesse sua vida ameaçada. Segregados da sociedade, trancafiados nos pavilhões Carville, seus filhos arrancados – literalmente - do seio materno e enviados para o Abrigo Santa Cruz, eles e elas, não estavam sós naquele vilarejo a 60 quilômetros de Porto Alegre. Toda a sociedade estava com eles. Eles carregavam sobre si a doença da sociedade para que esta pudesse estar sã. Verdadeiramente, eles não estavam sós! Nós estávamos com eles e, isso, não pode ser esquecido

quarta-feira, 24 de maio de 2017

QUE BONITO É SER FAMÍLIA

Os horários conventuais, exceto em alguma ocasião, são sempre muito pontuais. O início da oração e das refeições, bem como dos momentos formativos, é respeitado ao pé da letra. Não se trata de rigidez, mas de organização. Sempre gostei da pontualidade, pois a mesma nos deixa com maior liberdade e também com a responsabilidade de ficarmos dentro do espaço de tempo destinado às respectivas funções. O almoço, por exemplo, dura exatamente 30 minutos.

Há uma oração inicial e uma final. Mesmo que alguns terminem antes, todos permanecem à mesa. Não há TV ligada e nem outros aparelhos de som. Além de saciar o corpo, aquele tempo se destina ao diálogo e às trocas de informações. Não deixa de ser um ritual muito significativo.

O mundo imprimiu outro ritmo ao cotidiano. Muitas famílias já não se encontram ao redor da mesa. Em alguns lares, o destaque não está na convivência e no diálogo, mas nas notícias e nos programas televisivos. Por incrível que pareça, mesmo estando ao redor da uma bela mesa, muitos olhares não se encontram, a comunicação não flui e, consequentemente, os alimentos não são saboreados adequadamente.

A refeição não deveria apenas saciar a fome, mas, sim, manter próximos aqueles que estão unidos pelo vínculo do amor. A mesa sempre será sagrada pelo pão de cada dia e por nutrir o vínculo familiar. Encontrar-se é uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma prioridade. É condição para reavivar a chama do amor e da pertença mútua.

A esperança da grande maioria é que um dia tudo será diferente. Não há garantias de que o mundo terá um ritmo menos acelerado. Os indicativos acenam para o aumento da velocidade, pois o consumismo ditará a tonalidade dos encontros e fará a distribuição do tempo. Permanecer trinta minutos ao redor da mesa é o mínimo. Se não for possível nos outros dias, ao menos no final da semana.

Afastar todo e qualquer ruído eletrônico para privilegiar o diálogo, as risadas, as histórias e os acontecimentos é fundamental. Há um só tempo para ser família: hoje. Cada refeição deveria ser festiva, não pelo cardápio apenas, mas pela oportunidade de celebrar o encontro e pela insubstituível alegria de ser família, contemplando todos os formatos que esse nome inspira.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

AGORA É DIRETAS JÁ.

É difícil algum novo escândalo de corrupção, nepotismo e tráfico de influência surpreender quem acompanha de perto a política brasileira. O tecido da nossa institucionalidade política esgarçou, carcomido pela podridão. Os eleitores votam, o poder econômico elege e, lá em cima, os eleitos se entendem, se congratulam, se recompensam, e com certeza riem da nossa cara.

Nem por isso devemos descrer na democracia, desde que haja disposição de botar abaixo a plutocracia. A Lava Jato é, nesse sentido, uma iniciativa positiva, malgrado seu risco de também cair na tentação de fazer jogadas partidárias.

O Brasil está nu. E desmoralizado. E os dois poderes republicanos, o Legislativo e o Executivo, dependurados no Poder Judiciário. Este preside de fato o país. Contudo, o Brasil merece retomar o curso normal do processo democrático e, para isso, o Congresso deveria calçar as sandálias da humildade e aprovar, agora, eleições diretas para a presidência da República.

Qualquer outra solução é tentar costurar remendo novo em pano velho. Manter Temer é ver o país em queda livre, inclusive pelas denúncias que ainda emergirão.

Uma eleição indireta teria que buscar um candidato acima de qualquer suspeita. E o Congresso certamente não haverá de eleger quem, amanhã, possa desalojar do aparelho do Estado os suspeitos de corrupção e os indicados por eles.

Se queremos resgatar a democracia é melhor correr o risco com o povo do que pretender solucionar a crise sem ele.

DO MODERNO AO PÓS-MODERNO

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão. E nos ensinaram a situar o homem no centro do pensamento e a acreditar que a razão, sem dogmas e donos, construiria uma sociedade livre e justa.

Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade - Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, o ceticismo frente aos valores.

Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a inflação, com a nossa filha gastando mais em pílulas de emagrecimento que em livros, e causa-nos profunda decepção saber que, neste país, a impunidade é mais forte que a lei.

Ainda assim, temos esperança de mudá-lo. Recuamos do social ao privado e, rasgadas as antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Já não há utopias de um futuro diferente. Hoje, é considerado politicamente incorreto propagar a tese de conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Que análise de realidade previu a volta da Rússia à sociedade de classes? Resta-nos captar fragmentos do real (e aceitar que o saber é uma construção coletiva). Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, descontinuidade e pluralismo.

A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de consumo imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva mimetização generalizada de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhando por veredas perdidas.

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos.

Ingressamos na era da globalização. Graças às redes de computadores, um rapaz de São Paulo pode namorar uma chinesa de Beijing sem que nenhum dos dois saia de casa. Bilhões de dólares são eletronicamente transferidos de um país a outro no jogo da especulação, derivativo de ricos. Caem as fronteiras culturais e econômicas, afrouxam-se as políticas e morais. Prevalece o padrão do mais forte.

A globalização tem sombras e luzes. Se de um lado aproxima povos e quebras barreiras de comunicação, de outro ela assume, nas esferas econômica e cultural, o caráter de globocolonização.


Frei Beto

sábado, 20 de maio de 2017

DECLARAÇÃO DA POBREZA PERANTE A ONU.

O aumento escandaloso dos níveis de pobreza no mundo tem suscitado movimentos pela erradicação desta chaga na humanidade.

No dia 9 de maio realizou-se um ato na Universidade Nacional de Rosário promovido pela Cátedra da Água, um departamento da Faculdade de Ciências Sociais, coordenado pelo Prof. Anibal Faccendi, em forma de uma Declaração sobre a ilegalidade da pobreza. Frei Leonardo Boff participou e fez a fala de motivação. O sentido é conquistar apoios do congresso nacional, da sociedade e de pessoas de todo o continente para levar esta demanda às instâncias da ONU para conferir-lhe a mais alta validação.

Já antes no dia 17 de outubro de 1987 havia sido criado por Joseph Wresinski, o Movimento Internacional ATD (Atuar Todos para a Dignidade) que incluía o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Neste ano será celebrado em muitos países que aderiram ao movimento no dia 17 de setembro.

A Declaração de Rosário vem reforçar este movimento pressionando os organismos mundiais da ONU para efetivamente declarar a fome como ilegal. A Declaração não pode quedar-se apenas no seu aspecto declaratório. O sentido dela é poder criar nas várias instituições, nos países, nos municípios, nos bairros, nas ruas das cidades, nas escolas, mobilizações para identificar as pessoas seja na linha da pobreza extrema( viver com menos de dois dólares e sem acesso aos serviços básicos) ou a pobeza simplesmente dos que sobrevivem com um pouco mais de dois dólares e com acesso limitado à infraestrutura, à moradia, à escola e outros serviços mínimos de humanização. E organizar ações solidárias que os tirem desta premência, com a participação deles.

Já em 2002 Kofi Annan, antigo secretário da ONU havia declarava duramente:” Não é possível que a comunidade internacional tolere que praticamente a metade da humanidade tenha que subsistir com dois dólares diários ou menos num mundo com uma riqueza sem precedentes.

Efetivamente, os dados são estarredores. A OXFAM que é uma ONG que articula muitas outras em vários países e que se especializou em estudar os níveis de desigualdade no mundo, apresenta todos os anos seus resultados, cada vez mais amedrontadores. Geralmente a OXFAM vai a Davos na Suiça onde se encontram os maiores ricos epulões do mundo. Apresentam os dados que os deixam constrangidos. Neste ano em janeiro de 2017 revelaram que 8 pessoas (a moria está lá em Davos) possuem riqueza equivalente àquela que 3,6 bilhões de pessoas. Quer dizer, cerca de metada da humanidade vive em situações de penúria seja como pobreza extrema, seja como pobreza simplesmente ao lado da mais aviltante riqueza.

Se lermos afetivamente, como deve ser, tais dados, damo-nos conta do oceano de sofrimento, de doenças, de morte de crianças ou de mortes de milhões de adultos, estritamente em consequência da fome. E aí nos perguntamos: onde foi parar a nossa solidariedade mínima? Não somos cruéis e sem misericórdia para com nossos semelhantes, face àqueles que são humanos como nós, que possuem desejos de um mínimo de alimentação saudável como nós? Removem-se-lhes as víceras vendo os filhinhos e filhinhas não podendo dormir por fome e eles mesmos tendo que engolir em seco pedaços de comida, recolhidos nos grandes lixões das cidades, ou recebidos da caridade das pessoas e de algumas instituições (geralmente religiosas) que ainda lhes oferecem algo que lhes permite sobreviver.

A pobreza geradora de fome é assassina, uma das formas mais violentas de humilhar as pessoas, machucar-lhes o corpo e ferir-lhes a alma. A fome pode levar ao delírio, ao desespero e à violência. Aqui cabe recordar a doutrina antiga: a extrema necessidade não conhece lei e o roubo em função da sobrevivência não pode ser considerado crime, porque a vida vale mais que qualquer outro bem material.

Atualmente a fome é sistêmica. Thomas Piketty, famoso por seu estudo sobre o Capitalismo no século XXI mostrou como esta presente e escondida nos USA: são 50 milhões de pobres. Nos últimos 30 anos, afirma Piketty, a renda dos mais pobres permaneceu inalterada, enquanto o 1% mais rico cresceu 300%. E conclui: “Se nada se fizer para superar esta desigualdade, ela poderá desintegrar toda a sociedade. Aumentará a criminalidade e a insegurança. As pessoas viverão com mais medo do que com esperança”.

No Brasil fizemos a abolição da escravatura, mas quando faremos a abolição da fome?

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A FIGURA DA BELEZA.

A beleza é uma das faces de Deus que mais instiga e fascina o homem na revelação de seu mistério. Rodin esclarece que “não há, na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma idéia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade.”.

Esta afirmação nos remete a uma afirmação teológica fundamental. Se a fé nos diz que Deus é a verdade, a experiência humana ao longo dos séculos e milênios tem nos revelado que a verdade é bela, ou que o belo é o verdadeiro. Beleza e Verdade são outros nomes para o Deus que as diversas religiões vêm nomeando ao longo dos tempos, experimentando em suas vidas e vendo-se por elas fascinadas.

Contemplar a Deus, experimentar sua presença tem sido descrito com palavras, imagens e metáforas muito próximas daquelas utilizadas para descrever a experiência estética. Na tradição judaico-cristã e na rica mística gerada pelo cristianismo, a ética e o apelo ao compromisso no serviço ao outro anda de par com a experiência do fascínio e deslumbramento pela contemplação da beleza desse Outro que fascina e atemoriza com a força de sua sedução. A mística tem, inegavelmente, uma dimensão estética.

Porém, de que estética e de que beleza se trata? Certamente não da beleza dos padrões ditados pelos parâmetros humanos. A beleza do divino é desconcertante e imprevisível, apresentando-se freqüentemente com visibilidade e signo invertido e paradoxal, deixando aquele ou aquela que a experimenta perplexo e fascinado, buscando captar a direção que lhe é mostrada com tal experiência.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, opõem-se duas concepções relativas à interpretação da figura de Cristo e sua representação. Orígenes foi um dos primeiros a defender a representação de um Cristo perfeitamente belo. Apoiava-se no salmo de David, que cantava: “Oh mais belo dos filhos dos homens, reina, triunfa pelo fulgor atraente de tua beleza”. Esta sublimação do Cristo respondia às concepções teológicas de São Gregório de Nissa, de São Jerônimo, de Santo Agostinho e São João Crisóstomo.

Por outro lado, os monges e Padres da Igreja da África e da Ásia Menor se recusavam representar um Cristo de beleza fulgurante. Seguiam nisto o profeta Isaías: “ O Filho do Homem é sem beleza e sem brilho, nós o vimos e o desconhecemos. Era um objeto de desprezo, o último dos homens, um homem das dores e conhecendo a enfermidade. Não tinha graça nem beleza que pudesse atrair nossos olhares.” São Cirilo de Alexandria, bispo de Jerusalém, e São Basílio, bispo de Cesaréia, foram partidários de uma representação austera, melhor adaptada ao Cristo, que recusou todas as tentações do mundo, veio para a redenção dos pecadores e foi crucificado vergonhosamente com os escravos.

Ao longo da história do Cristianismo, estas duas tendências vão se alternar sobre as representações da figura de Jesus Cristo. Ora será representado com esplendor e glória dentro dos cânones de beleza vigentes em cada época, como os Cristos bizantinos e renascentistas, ora representado e venerado inseparável do mistério de sua cruz, com as mais dolorosas representações de seu sofrimento e suplício, no qual os seres humanos verão sua salvação e esperança, no consolo de seu próprio sofrimento e dor

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O DEUS DE VERÍSSIMO

Em sua crônica de domingo, 7/5, em O Globo, Veríssimo diz que escolheu como Deus, no qual racionalmente se pode acreditar, aquele que se arrependeu de sua obra, admitiu o seu erro, levantou a poeira e deu a volta por cima para começar de novo – o Deus do Dilúvio, “Deus das dúvidas e do segundo pensamento. Um Deus com quem, decididamente, se pode conversar.”

Veríssimo não necessitava ir tão longe para encontrar o Deus multifacetado do Antigo Testamento. Bastaria ir àquele que revelou, em sua humanidade, a face real de Deus – Jesus de Nazaré.

Ali está o Deus que xinga o governador de “raposa” e os fariseus de “raça de víboras e sepulcros caiados”; se irrita com Pedro, a ponto de chamá-lo de “satanás”; se equivoca na escolha de Judas como apóstolo; passa à família a impressão de que enlouqueceu; faz o primeiro milagre, não para salvar uma pessoa, e sim para a festa não acabar, ao transformar água em vinho; se revela pela primeira vez como Messias a uma mulher; chora por que o amigo morreu; e deixa os abastados numa saia justa ao afirmar que é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

Humano assim como foi Jesus, ele só podia mesmo ser Deus, afirma Leonardo Boff.