quinta-feira, 1 de março de 2018

SELVAGERIA TURÍSTICA


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Antigamente, o grand tour era uma etapa da formação das elites, em busca de conhecimentos referentes à civilização ocidental. A Itália, e Roma em especial, era uma escala obrigatória nesse processo. Basta pensar que os ideais que inspiraram Simon Bolívar a fazer um juramento solene em prol da libertação da América tinham por referência um episódio específico da história romana: o acordo obtido por Menênio Agripa, que encerrou o conflito da plebe romana contra os patrícios. O protesto, que consistia essencialmente em um exílio voluntário dos plebeus para os arredores da cidade e na recusa em realizar o abastecimento com víveres necessários para o consumo cotidiano de Roma, produziu rapidamente os efeitos desejados. Os plebeus obtiveram dos patrícios o direito a ter dois representantes no Senado, os tribunos.

Hoje, o grand tour transformou-se em mercadoria da indústria turística low cost. A integração da Europa produziu, como efeito positivo, uma integração maior entre os cidadãos europeus à descoberta desse território intercultural comum e acessível a todos os bolsos. Por outro lado, sofre as consequências de uma cultura de massa, que consome monumentos e conhecimentos antes que possam ser digeridos. Quando os meus amigos avisam que passarão por Roma durante três dias – às vezes até menos – eu fico de cabelo em pé: deixem para lá, leiam um livro sobre Roma, certamente saberão mais sobre a cidade em uma publicação séria do que durante um passeio rápido pelos pontos mais conhecidos. Aliás: o Monte Sacro, onde Simon Bolívar jurou libertar a América, fica fora dos roteiros turísticos. Por exemplo.

A plutocracia selvagem, que dispensa a cultura refinada da velha aristocracia e persegue sem escrúpulos o maior lucro no menor tempo possível, também descobriu o grand tour. A União Europeia, vítima da própria governança, forneceu os instrumentos para a operação: deslocaliza-se a produção industrial dentro da própria Europa, segundo a proposta mais vantajosa para o mercado de capital. A Embraco, multinacional brasileira com sede em Santa Catarina, é a última estrela do drama: sem qualquer cálculo histórico e nenhuma preocupação com o impacto social, decidiu fechar as portas de sua fábrica no norte da Itália e transferir-se para a Eslováquia. O governo italiano tentou, como já fez com outras empresas, realizar um acordo para evitar demissões coletivas e a acentuação da crise econômica. Tentou fazer isso, valendo-se dos instrumentos jurídicos disponíveis, com incentivos à manutenção da renda básica e à modernização industrial. Mas os representantes da plutocracia selvagem já tinham feito os seus cálculos e perceberam que na Eslováquia podem produzir com semelhante índice de qualidade e rendimento a um custo mais baixo.

“Gentalha”, definiu o Ministro das Infraestruturas da Itália. Quando a plutocracia abdica de qualquer valor humano, a qualificação que lhe é aplicada é a mesma que injustamente reserva aos seus colaboradores. O boomerang não terá efeito monetário, mas é um enxovalho público, que faz retornar ao interessado a alcunha que lhe convém.

Tudo isso faz pensar, sem nenhuma nostalgia ou edulcoração do passado, que o grand tour hoje é apenas uma prática selvagem predadora, que espelha o padrão de acumulação de capitais e de produção de pobreza em escala global. Essa pauperização possui duas faces: a dos trabalhadores explorados e a das massas com cultura superficial. A dos trabalhadores, que não podem mais se retirar em um exílio voluntário para forçar um acordo favorável, e a das massas, cuja cultura se limita a colocar no currículo uma bagagem instantânea e transitória, pouco mais que uma miragem de conhecimento.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

OS TIJOLOS DA CAPELA

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Sempre gostei de histórias de vida, de caminhos trilhados por pessoas humildes, em busca de determinados objetivos, de experiências exigentes que resultaram, posteriormente, em verdadeiras fontes de alegria e realização. Independente da condição e da formação, todos carregam consigo uma dose significativa de sabedoria que, cedo ou tarde, permitirá escolhas estratégicas e grandes conquistas, principalmente no que diz respeito à paz interior. No campo da espiritualidade, muitas pessoas tiveram momentos místicos, experiências extraordinárias, ao ponto de ser impossível traduzir em palavras. Certa vez, Santa Teresa de Ávila, fundadora das Irmãs Carmelitas, entrou na capela para adorar o Santíssimo. Ela disse, num determinado momento, a Jesus Eucarístico: “Senhor, eu não estou com a menor vontade de Te adorar. Mas, para ficar na Tua presença, vou contar os tijolos dessa capela.” Tempos depois, perguntando a Jesus quando foi que ela melhor O adorou, Jesus respondeu: “Quando você não sentiu vontade, Teresa, mesmo assim ficou comigo.”

Não são poucos os momentos em que somos convocados a realizar determinadas tarefas ou cumprir certas obrigações, inerentes ao nosso estado de vida, sem ter sempre toda aquela empolgação e entusiasmo. Porém, por acreditar na fidelidade, realizamos o que faz parte das obrigações, sem dar ouvidos ao sentimento de falta de vontade. O estado emocional varia continuamente. Ninguém consegue ficar muito bem, durante as 24 horas de um dia. A afetividade é visitada por muitos pensamentos, dúvidas, desconfortos e até desencontros. Nem sempre nos saímos bem na administração do nosso emocional. Porém, o esforço, o desejo em quere acertar, a convicção quanto ao valor da fidelidade podem simplesmente surpreender. Os relatos de pequenas vitórias fazem parte do histórico de todos aqueles que não se deixam guiar apenas pela vontade, mas pela opção de vida e suas decorrentes obrigações.

Santa Teresa de Ávila, humana como todos nós, ensina que é possível vencer a tentação de deixar para depois, de fazer de qualquer jeito, de dar ouvidos somente à vontade. Vencer a si mesmo é uma tarefa árdua. Se não houver empenho, dedicação e disciplina os melhores capítulos da vida permanecerão, apenas, como simples rascunhos. A superação, isto é, ir além daqueles limites que a vontade tenta impor, é possível para todos. Não se trata de uma tarefa simples e corriqueira, mas de uma força extraordinária que só se mantém viva naqueles corações que não abrem mão de cultivar a espiritualidade. Contar tijolos na capela não deixa de ser uma dica para todos os que buscam cultivar a transcendência, mas que nem sempre estão acompanhados da quantidade ideal de afeto. Fazer algo porque tem que ser feito não é apenas uma obrigação, mas é uma forma amorosa de manter-se fiel por todos os dias da vida. Fidelidade e felicidade caminham juntas, eternamente.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

POBRES SÃO MÃO DE OBRA BARATA PARA OS RICOS

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A globalização da economia tem provocado sofrimentos a povos como os da América Latina, África e Ásia. A política econômica global é responsável pelo aumento do quadro de miséria mundial. Ademais, as autoridades mundiais são afiançadoras deste processo excludente. Em contrapartida, a Igreja Católica Apostólica Romana é a entidade mundial que mais socorre as pessoas vitimadas pela miséria social.

As informações divulgadas no dia 15 de dezembro de 2017 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ajudam na compreensão do quadro de crescimento da miséria e da pobreza no Brasil. Segundo o IBGE, o Brasil encerrou o ano de 2016 com 24,8 milhões de brasileiros vivendo com renda inferior a ¼ do salário mínimo. Se comparado com 2014, o número representa o aumento de 53% da pobreza no Brasil. A situação dos brasileiros em estado de extrema miséria chegou a 12,1% da população. No Nordeste os números chegam a 13,1%. Entre os miseráveis brasileiros 78,5% são negros e pardos. Segundo o IBGE a porcentagem de excluídos cresceu, entre os anos 2016 e 2017, devido à concentração de renda.

Daí se deduz que, como consequência da concentração de renda e capital, os países do terceiro e quarto mundo ficaram mais empobrecidos com o passar dos anos. Os resultados são nefastos, pois o Estado nacional perdeu sua capacidade econômica e sua função política e social. Diante de tal conjuntura econômica mundial a função do Estado nacional é cobrar pesados impostos dos cidadãos. Mas, o absurdo da cobrança é para oferecer a estas forças econômicas as melhores condições possíveis de viabilizar suas políticas. Daí a tarefa de países como os da América Latina é oferecer mão-de-obra barata e preparada, infraestrutura de transportes, aeroportos, portos, energia, combustível e leis de livre comércio e de privatizações. Dessa forma, no dizer do teólogo José Comblin (1923-2011), o Estado brasileiro organiza os pobres a serviço dos ricos.

A situação sub-humana dos 25 milhões de brasileiros se agrava com a perda de credibilidade nas políticas públicas. Como efeito, o Congresso Nacional é a instituição menos confiável. Em atual cenário, como não poderia ser diferente, o governo é sinônimo de corrupção. Diante deste quadro nacional os pobres não acreditam na política e nos seus representantes. Por sua vez, como consequência desta indiferença, o problema da exclusão fica mais sério para ser revolvido.

Em decorrência da indiferença política os pobres são mão-de-obra barata do sistema econômico dominante. Contudo, diante do crescimento de pessoas empobrecidas, aos cristãos cabe a prática da economia da solidariedade, como tem sido demonstrado ao longo da história na assistência aos desfavorecidos do sistema. No dizer do papa Francisco, em carta aos gestores de organizações das igrejas cristãs em 27 de novembro de 2016, “é preciso que o mundo escute o sussurro de Deus e o grito dos pobres, dos pobres de sempre e dos novos pobres”. Pois nisto consiste a postura e viver a fé em Cristo de forma autêntica e cabal. Certos de que quem tem fé neste mundo são os pobres, a tarefa de combate à exclusão social e à miséria humana pode ser fortalecida e revigorada pelos cristãos contemporâneos seguindo os exemplos dos primeiros e fiéis seguidores de Jesus.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

GRADUAÇÃO E PÓS-GRADUAÇÃO VOLTOU A SER PRIVILÉGIO

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Um curso de graduação e pós-graduação voltou a ser privilégio no Brasil. Com o congelamento dos gastos públicos com a educação, milhões de brasileiros deixaram de frequentar o ensino superior em 2017. Em atual tendência nos próximos 20 anos o número de universitários será reduzido de forma drástica. Certamente daqui a duas décadas faltarão profissionais capacitados no Brasil.

A causa deste problema futuro para o Brasil tem pais e sobrenome. Os verdadeiros pais são a Câmara dos Deputados e o Senado, que aprovaram a emenda constitucional que criou um teto dos gastos públicos. O sobrenome deste problema se chama PEC 241 ou 55. Durante os próximos 20 anos os gastos com educação, saúde, lazer, cultura, infraestrutura, moradia, segurança e assistência social ficarão congelados. Os únicos partidos que se opuseram ao congelamento foram PT, PSOL e PCdoB. As demais agremiações partidárias aprovaram a emenda constitucional proposta pelo governo.

A emenda constitucional congelou o orçamento público somente para as referidas áreas. Em contrapartida, o orçamento dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário - será reajustado anualmente. A medida constitucional aprovada em 2016, e que entrou em vigor em 2017, já produziu resultado preocupante ao futuro da nação. O primeiro resultado foi a redução do número de universitários. Atualmente em universidades privadas 45% das vagas são ociosas e nas públicas o número é de 40% de ociosidade. Em 2017 cinco milhões de universitários abandonaram a universidade. Para 2018, 45 milhões de jovens brasileiros de 18 a 25 anos estarão fora de uma sala de aula.

O resultado desta política nefasta do governo federal às universidades públicas e privadas foi terem entrado num processo de demissão de professores e servidores. Em dezembro de 2017 o Centro Universitário UniRitter, de Porto Alegre, demitiu 127 professores. Demissões estas confirmadas pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS). Acresce ao péssimo resultado do congelamento orçamentário para a educação o fato das universidades estarem sofrendo arbitrária ação da Polícia Federal. Na Universidade Federal de Minas Gerais o reitor Jayme Arturo Ramírez e outros funcionários da instituição foram levados coercitivamente para a prisão. A ação da Polícia Federal na Universidade de Santa Catarina culminou com a morte do reitor Carlos Cancellier.

Em reação à política do governo e ação da Polícia Federal em universidades, a União Nacional dos Estudantes (UNE) divulgou nota de repúdio: “é preciso enfrentar esta campanha de desmoralização das universidades. As operações tentam sensibilizar a opinião pública de que as universidades públicas estão imersas numa lama de corrupção para justificar sua privatização e a cobrança de mensalidade proposta pelo Banco Mundial”. Muitos intelectuais, como o cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP) André Singer, denunciam: "é óbvio que estamos diante de uma ação orquestrada e arbitrária, usando os mecanismos de exceção abertos pela conjuntura política, com o objetivo de desmoralizar o sistema público de ensino superior no Brasil".

Fica notório que o governo federal articulado com os setores dominantes e conservadores do Brasil e pela Operação Lava Jato visam através de emendas constitucionais e ações coercitivas levarem ao sucateamento das universidades em prol da privatização do ensino superior. Certamente, o abuso cometido contra as universidades brasileiras tem por finalidade privatizar o ensino e elitizar uma classe privilegiada. Na real, graduação e pós-graduação viraram privilégio de poucos, à grande maioria resta a ignorância científica. Isto significa que o futuro do país será de benesses aos abastados e sacrifícios aos desfavorecidos.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

ENTENDIMENTO E SIMPLICIDADE NO OLHAR

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Aquele enredo de um amor e uma cabana estava gravado em mim... Sim, eu era “dos antigos” e tudo que queria era ver crianças brincando, cachorrinhos se divertindo, flores ornamentando, vida crescendo e raízes firmes no chão.

E eu tive muito disso... Sentado na sacada da vida, observando o tempo passar, as crianças crescerem de mãos dadas com o amor, o canto do sabiá para contemplar... árvores, vida, amor, tudo a se entrelaçar. Sombra e almofada para descansar.

As crianças inventando brincadeiras e estórias mil e eu me envolvendo e me deixando inebriar.

Pés descalços na grama, andar sem ter medo de chegar e não saber onde o barco vai ancorar.

Enxergar o azul do mar transmitindo calma à minha alma... Saborear a vida em sintonia com o universo que me cerca.

Às vezes não estamos prontos para ver o azul do céu ou a cor do mar, nem para absorvermo-nos numa vida piegas. Ela precisa ser constantemente construída dentro de nós, para que tudo floresça ao nosso entorno e nos engajemos na simplicidade dos momentos valorosos.

Bonito e simples. Sim, muitas vezes somos nós que complicamos e não absorvemos a beleza do momento.

Quero entendimento e simplicidade no olhar...

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

TEMPO DE PENITENCIA


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As quaresmeiras florescem nesta época do ano. Lindas e tristes as flores roxas, delicadas miçangas de um colar inconsútil.

Nos quarenta dias prévios à Páscoa, a fé cristã celebra, antecipadamente, a vitória da vida sobre a morte. Ressurreição experimentada a cada manhã ao despertar. Vindos da inércia e da inconsciência, da perda de si no sono, súbito revivemos! Na curva final da existência, proclama a fé, desponta a eterna benquerença.

Tempo de inflexão e reflexão. De que vale abster-se de carne terrestre ou aérea se as marítimas nos repletam a pança? Sacrifício, ofício de cultuar o sagrado. Não Deus, que se basta, e sim nós humanos, ossos revestidos de carne, o que há de mais sagrado. Feitos de pó cósmico, de partículas elementares consubstanciadas em átomos, congregadas em moléculas, revitalizadas em células. Quarenta trilhões de células em um corpo humano. Umas, revestidas de seda pura, fragrâncias raras e joias preciosas. Outras estiradas nas calçadas, fétidas, famélicas, entorpecidas pela química da fuga.

Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo.

Vale abster-se da indiferença e abraçar causas solidárias. Deixar de praguejar contra o mundo e tratar de transformá-lo. Esperar mais de si do que dos outros. Poupar críticas aos efeitos e denunciar as causas. Evitar o pessimismo da razão e alentar o otimismo da vontade. Ousar converter o protesto em proposta.

Tempo de penitência. Descer do pedestal e admitir os graves pecados contra a natureza: poluição dos ares, contaminação das águas, agrotoxização dos alimentos. A corrupção em doses cínicas, pois enquanto se torce pela higienização da política, emporcalha-se o varejo com a sonegação de impostos, o furto de objetos no local de trabalho, o salário injusto pago à faxineira, a propina ao guarda de trânsito, as maracutaias que engordam o lucro pessoal e lesam a coletividade.

Tempo de refluir à interioridade. Dedicar-se às flexões da subjetividade. Trilhar sendas espirituais. Extirpar gorduras da alma. Arrancar a trave do próprio olho antes de apontar o cisco no olho alheio. Cuspir camelos que entopem o coração antes de vociferar perante quem engole mosquitos.

Ah, como é cômodo ser juiz do mundo e proferir duras sentenças condenatórias! Fácil apontar o suposto criminoso, difícil erradicar as causas da criminalidade. Fácil identificar os maus políticos, difícil abandonar a própria zona de conforto para inovar a política.

Em tempo de quaresma há de ter presente que o pior pecado não é o da transgressão, é o da omissão. Graças a ele proliferam tantas transgressões imunes e impunes.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

COMO O PATRIARCADO SE IMPÔS AO MATRIARCADO



É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10-12 mil anos. Mas foram deixados rastos dessa luta de gênero. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, Harper San Francisco 1955) e Françoise Gange (Les dieux menteurs, Paris, Editions Indigo-Côtes Femmes,1997).

Segundo estas duas autoras se realizou a uma espécie de processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal.

Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.

O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16) que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstrui-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente.

Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

Em quarto lugar, destruí-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará”(Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição:”multiplicarei o sofrimento da gravidez”(Gn 3,16). Como se depreende, a inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal:”porei inimizade entre ti e a mulher...tu lhe ferirás o calcanhar”Gn 3,15)

A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito( Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido:”entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará”(Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou um desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

O trabalho das teólogas pretende ser libertador: mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade.

Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, cuja existência é cientificamente assegurada, encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Esta mudança deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela debilmente alcançada sob o regime patriarcal. Mas isso só se consegue descontruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias e humanizadoras para os dois sexos. É o que as feministas, antropólogas, filósofas e teólogas e outras estão fazendo com expressiva criatividade.E há teólogos que se somaram a elas.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

MOFO

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Viver em uma cidade milenar permite que a gente descubra certas tendências que as arquiteturas modernas não podem cultivar no nosso coração. De repente, percebe-se um encantamento especial por uma ruína, e não falo dos monumentos mais conhecidos, mas de construções em estado de quase abandono, vigiadas pelo olhar comovido de quem vive Roma em cada ruazinha, em cada esquina, e que salva o património do esquecimento.

Deve ser por isso que fiquei tão chocada quando uma vereadora da cidade criticou uma associação que propõe a projeção de velhos filmes. Tempos atrás, num artigo que não publiquei por achar que havia temas mais importantes a tratar, escrevi sobre Ladrões de Bicicleta, um clássico do neo-realismo italiano que revi, reconhecendo as ruas e os prédios, não apenas nas cenas que enquadram o centro, mas também nas que mostram a periferia.

Decidi que não falaria do assunto e que o filme podia esperar para outra ocasião. Mas a mente não perdoa e reelabora a seu modo o que nos assusta e o que evitamos comentar. Eu tinha prometido não falar sobre isso, então o meu cérebro se vingou produzindo este pesadelo:

Eu morava em uma cidade altamente tecnológica. Nenhuma ruína, nenhum Coliseu a que meus olhos já se acostumaram. Nenhum prédio antigo. Também não havia árvores. Todos os residentes precisavam produzir novidades e só novidades importavam. Quem não inventava algo novo era preso e colocado fora da cidade. Eu tentava me adaptar, não tanto por convicção como pelo terror de acabar numa prisão. E assim, o medo me levava adiante e me dava a oportunidade de ver um rio de gente a ser detida e sumindo nessa prisão nunca vista, mas temida só por ouvir dizer. Acordei sobressaltada, um minuto antes que o pesadelo me conduzisse ao epílogo óbvio: seria presa por não ser suficientemente inovadora. E pensei, enquanto sentia o cheiro dos lençóis e da casa, os odores familiares que nos transmitem segurança, que realmente não sou inovadora em nada. O meu pesadelo era apenas uma reelaboração de O Alienista, de Machado de Assis.

Também lembrei de outro artigo que li esta semana: uma equipe de matemáticos está estudando o Vedas, uma antiga antologia de textos em sânscrito que até hoje não foi plenamente decifrada. Os cientistas acreditam que a lógica do texto está baseada em um sistema de escolha inteligente, capaz de indicar a melhor solução em um evento crítico, que não pode ser resolvido por meio de um sim ou um não. Eles pretendem usar a sintaxe do Vedas para projetar carros inteligentes, em condições de identificar a melhor solução para momentos críticos, por exemplo: bater o carro em um muro ou atingir o pedestre?

Voltei a pensar nos velhos filmes, na vereadora e nos odores. Não posso imaginar um mundo sem o cheiro do mofo. Não posso imaginar um mundo sem o cheiro da história. Não posso imaginar um mundo desprovido de memória. Nem os carros inteligentes e altamente tecnológicos podem abrir mão disso.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O MEDO VENCEU A ESPERANÇA

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“O Brasil é um país curioso, é um país extremamente sem vergonha, não tem a chamada vergonha na cara”.

Antonio Callado, jornalista, romancista, biógrafo e dramaturgo (1917-1997), em entrevista à Folha, poucos dias antes de sua morte.

***

Quem escreve esta coluna hoje não é o jornalista, mas o cidadão brasileiro montado no burrico do Paulo Caruso aí acima.

É um cidadão de quase 70 anos, pai de duas filhas e cinco netos, que está preocupado com o futuro de sua família.

Vamos esquecer por alguns momentos neste domingo o Fla-Flu político-partidário que dividiu a Nação nas eleições de 2014.

Quero e preciso falar das minhas angústias.

Qualquer que seja o resultado da eleição presidencial de 2018 sabemos que o país continuará rachado ao meio.

Atribuir isso a um lado ou outro não resolverá nossos problemas nem fará cessar nossas aflições.

De nada adianta fulanizar a responsabilidade pela maior crise da nossa história recente.

Nenhum dos nomes até agora incluídos na lista de candidatos tem condições de unir novamente este povo em torno de um projeto comum.

Esta é a grande encruzilhada à nossa frente, apenas três décadas após a redemocratização do país.

Nossa jovem e frágil democracia está ameaçada.

Já nem sei o que dizer aos netos que me perguntam o que vai acontecer com o Brasil.

Nós que sempre fomos movidos a esperança em dias melhores, mesmo nas noites mais escuras da ditadura, já não conseguimos enxergar uma luz no fim do túnel.

Em 2002, quando parte da minha geração chegou ao poder vestimos uma camiseta em que se lia:

“A esperança venceu o medo”.

Agora, neste começo de 2018, tão pouco tempo depois, sou obrigado a reconhecer que o medo venceu a esperança.

Não me refiro ao medo imposto pela violência da bandidagem, mas ao medo do futuro, pela absoluta falta de perspectivas de mudança no cenário.

Esperança e medo são os dois sentimentos mais fortes manipulados em eleições desde sempre.

Em 2018, já está claro que o medo vai dominar a campanha eleitoral.

É isto que está por trás da intervenção militar no Rio de Janeiro e da criação extemporânea de um Ministério da Segurança Pública.

São operações do marketing do desespero deste governo e de setores da mídia carioca, em que o combate à criminalidade é apenas uma forma de disseminar o medo para colher votos e assustar ainda mais o eleitorado.

Nos últimos anos, voltamos às piores lembranças do passado, comprometemos o presente e deixamos as novas gerações sem futuro.

Como explicar isso a uma criança?

Eleição sempre foi um momento de renovação de esperanças, de acreditar num futuro melhor, mas este ano nem tenho vontade de sair de casa para votar.

A maioria das pessoas com quem converso, de todas as latitudes políticas, me diz a mesma coisa.

A oito meses da abertura das urnas, quase ninguém tem candidato.

É terrível constatar isso partindo de gente que lutou pelo fim da ditadura e pela volta das eleições diretas para presidente da República, nem faz tanto tempo assim.

Em 1989, na primeira eleição direta da minha geração, neste mesmo período do ano, os eleitores já brigavam por seus candidatos, enfeitavam carros e casas com propaganda, os postes eram tomados por cartazes, não se falava de outra coisa, era uma festa.

Agora, reina o mais absoluto silêncio nas ruas, não há sinais, fora da imprensa e das redes sociais, de que em breve seremos chamados a decidir o nosso destino.

A cada dia aumenta a desesperança, a sensação de que não tem mais jeito, o país não deu certo nem nunca vai dar, como Antonio Callado desabafou aos repórteres Matinas Suzuki Jr. e Maurício Stycer, no final de janeiro de 1997, poucos dias antes de sua morte.

Tenho pensado muito ultimamente nesta entrevista do grande brasileiro Antonio Callado. Ao final, na semana em que completou 80 anos, faz uma triste constatação:

“Perdi completamente o interesse em operações políticas no Brasil. Não acredito que elas venham. Não vejo como podemos sair daqui, agora. Acho o mundo muito esculhambado no momento. Não vejo esperança… Não tenho a menor esperança de ver coisas diferentes na minha frente. Lutei muito é verdade… E não deu em nada”.

Isso foi vinte anos atrás. O que ele diria hoje?

Em tempo: não deixem de ler a comovente reportagem de Eliane Brum “Vidas barradas em Belo Monte” publicada pelo jornal inglês “The Guardian” e reproduzida no UOL neste domingo. Ali está um retrato pronto e acabado do Brasil de 2018 onde o medo venceu a esperança.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ESCREVEMOS PARA QUEM?


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Acho que nunca na história da humanidade tantos se dedicaram com tamanho empenho a escrever sobre todas as coisas como nos dias atuais.


Por onde passo vejo pessoas digitando sem parar como se fossem mudar o mundo com o que escrevem.


Me dá a impressão de que hoje se escreve mais do que se lê e isso não é bom, não deve fazer bem.


Haverá leitores para tudo o que escrevemos no zap-zap e nas redes sociais? Será que as pessoas não têm outras coisas mais prazerosas para fazer?


Tenho para mim que ler é uma forma de se alimentar com as experiências dos outros e aumentar nosso conhecimento.


É sempre bom ler antes de digitar, informar-se bem, pois nem sempre o que escrevemos tem algum interesse para os outros.


Só deveríamos escrever quando for absolutamente necessário, como falar ao telefone numa emergência ou tomar um copo d´água para saciar a sede.


Caso contrário, corremos o risco de ficar repetitivos, batendo sempre nas mesmas teclas gastas.


Em primeiro lugar, é preciso ter alguma coisa nova para dizer, algo que possa ser útil aos outros, para informar, fazer pensar, divertir, se for o caso, ou consolar nos momentos de aflição.


Tirante os que escrevem por dever de ofício, como os jornalistas, escrivães de polícia, cartorários, advogados, juízes e burocratas em geral, que tal se em vez de digitar freneticamente voltarmos a conversar com as pessoas, pessoalmente, sem intermediários eletrônicos?


Nesta febre de evasão da privacidade, em que todo mundo conta para todo mundo o que está fazendo, comendo, pensando, caminhamos para a incomunicabilidade nas relações pessoais em plena era da comunicação total online e full-time.


Se dermos uma boa peneirada, vamos ver que 90% de tudo o que é publicado neste preciso momento em que escrevo é absolutamente dispensável _ a começar, quem sabe, por este texto mesmo.


Por que e para quem a gente tanto escreve, afinal: a pergunta do título fiz a mim mesmo esta noite enquanto pensava sobre o que iria escrever amanhã neste espaço.


Conheço gente que escreve para ser admirado, por sua erudição ou ideias geniais, mas esse nunca foi, certamente, meu caso.


Não escrevo para agradar nem agredir ninguém. Sou um contador de histórias da vida real feito aquela senhorinha que passa o dia na janela e depois conta ao marido o que viu _ do seu ponto de vista, é claro.


O marido, no caso, são os leitores que me acompanham faz mais de meio século e, como não sei fazer outra coisa na vida, continuo escrevendo todos os dias.


Em certos dias, tem assunto demais; noutros, é preciso tirar leite de pedra. Assim é a vida.


Se pudesse, só escreveria sobre coisas boas, inspiradoras, agradáveis de ler e, se possível, engraçadas, mas a vida real não é assim, teima em nos jogar na cara a toda hora fatos abomináveis, personagens execráveis, becos existenciais sem saída.


Às vezes tem gente que me pergunta quando vou lançar um novo livro e eu me pergunto: por que devo escrever outro livro, o que me falta dizer?


Já contei aqui a sacanagem de um amigo meu, também escrevinhador prolífico, que certa vez comentou numa rodinha de jornalistas que eu era o único cara que já tinha escrito mais livros do que lido. Ou seja, que sou um autor inculto.


Pois lhe digo agora, caro amigo, que ultimamente estou tirando o atraso, lendo um livro após outro e, por vezes, dois ou mais ao mesmo tempo _ e tenho gostado muito dessa experiência.


Se as pessoas lessem mais e escrevessem menos, acho que o mundo seria bem mais saudável. Então vou parando por aqui para dar a minha contribuição.


Hoje ganhei um livro novo, Variações sobre o prazer, do grande educador Rubem Alves. Dizem que é muito bom. Como saber? Só lendo…

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

VIOLÊNCIA E DESIGUALDADE

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Pelo menos quatro pessoas morrem assassinadas na América Latina a cada 15 minutos, de acordo com informe recente do Banco Mundial. Embora haja redução da pobreza e das desigualdades nos últimos anos, isso não influi na diminuição da criminalidade.

Dos dez países mais violentos do mundo, oito são latino-americanos, assim como 42 das 50 cidades mais afetadas pela criminalidade. A taxa de homicídios no nosso Continente é de 23,9 mortos a cada 100 mil habitantes, a mais alta do mundo. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o índice sobe para 92 em cada 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a taxa média. No Brasil, há 47 mil homicídios por ano!

Segundo o Banco Mundial, isso se deve ao aumento do tráfico de drogas e do crime organizado; de falhas do sistema judiciário e da impunidade; e da falta de melhor educação e oportunidades de trabalho para os jovens de famílias de baixa renda.

Para enfrentar esse quadro dramático, o banco recomenda a construção de “um tecido social mais inclusivo com maior igualdade de oportunidades”; a implementação de políticas preventivas, com redução dos índices de evasão escolar; e a ampliação da oferta de empregos de qualidade.

O Banco Mundial não se pergunta, em seu relatório, as causas dessa situação. Pesam, evidentemente, o pouco investimento do poder público em educação de qualidade, a corrupção dos políticos e a despolitização da sociedade. Na lógica neoliberal, toda pessoa de “sucesso na vida” é resultado de seu próprio esforço. Ora, isso equivale a esperar que mil alpinistas alcancem, na mesma semana, o pico do Monte Everest, o mais alto do mundo.

É o sistema capitalista, com a sua apropriação privada da riqueza produzida pela sociedade, o grande responsável pela exclusão e desigualdades sociais. Para que uma pessoa atinja o topo da escola social, outros milhares são alijados das oportunidades.

Dos 15 países mais desiguais do mundo, 10 são latino-americanos, nesta ordem: Bolívia, Haiti, Brasil, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Chile, Colômbia e Guatemala. Entre os países do G20, o Brasil é o mais desigual. Basta dizer que os 10% mais ricos da população ficam com 60%.

Os lucros das empresas, que representam 6% da renda nacional, cresceram 231% entre 2000 e 2015. A JBS que o diga! E isso graças à generosidade do Estado que, via BNDES, canalizou muitos recursos para a iniciativa privada cobrando juros irrisórios. Em outras palavras, o pobre povo brasileiro financiou a multiplicação da fortuna dos ricos.

Enquanto o Brasil não passar por uma profunda reforma tributária a desigualdade social só tende a aumentar. O economista Rodolfo Hoffmann calcula, baseado em dados do Pnad 2015, que a disparidade de renda no Brasil cairia 23% se todos pagassem Imposto de Renda de acordo com as alíquotas em vigor, sem deduções, e os recursos arrecadados fossem canalizados para beneficiar os segmentos mais pobres da população. A queda seria de 27% se fosse criada uma alíquota de 40% de Imposto de Renda para quem ganha mais de R$ 7 mil mensais. E ainda seria maior essa redução se o imposto fosse progressivo, taxando a renda e o patrimônio dos 10% mais ricos.

Mas cadê governo para ousar governar democraticamente, ou seja, a favor da maioria do povo brasileiro?