quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

NELSON RODRIGUES VIVE.

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Nelson Rodrigues tinha uma obsessão pelos idiotas. Combateu-os a vida toda, mas eles venceram, e se multiplicaram.

Foi premonitório numa das suas célebres frases sobre este fenômeno humano:

“Os idiotas irão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade”.

Vivo fosse, Nelson Rodrigues teria hoje 106 anos. Continua mais atual do que nunca.

Por que me lembrei dele justamente nesta terça-feira do Carnaval de 2018?

Fico pensando no que Nelson escreveria em sua coluna “A vida como ela é” sobre o noticiário destes dias em que a idiotice nacional bate todos os recordes.

E olhem que no tempo dele ainda não existiam as redes sociais, um terreno fértil para os idiotas que ele imortalizou em sua extensa obra.

Num país que tem hoje 20 pré-candidatos à Presidência da República, espalhados por mais de 30 partidos, um deles ameaça metralhar a Rocinha para combater a violência se for eleito e os banqueiros nativos batem palmas de pé.

Outros dois presidenciáveis compraram jatinhos com dinheiro público a juros baixos e tem quem defenda este direito como uma oportunidade de mercado, ao mesmo tempo em que blasfemam contra a corrupção.

“A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas que são a maioria da humanidade”, escreveu ele, mais de meio século atrás.

Nelson iria enlouquecer de raiva se lesse os comentários publicados no papel e nas redes digitais nestes últimos dias.

Ao mesmo tempo reacionário na ideologia e revolucionário na dramaturgia, não se conformava com a mediocridade e imbecilidade dos seus contemporâneos do século 20.

Não sabe o que perdeu ao morrer antes deste século 21 que revelou Donald Trump ao mundo e pode eleger Bolsonaro no Brasil, que ainda se espanta com os tapa-mamilos das mulheres de peitos de fora, enquanto o presidente Temer vai de Mangaratiba para Roraima cuidar de venezuelanos e o prefeito carioca Crivella passa o Carnaval na Alemanha.

“Daqui a 200 anos, os historiadores vão chamar este final de século de a mais cínica das épocas. O grande acontecimento do século 20 foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”, foi outra das suas constatações pouco generosas com a humanidade.

“Espera para ver o século 21…”, poderia lhe ter dito Ulysses Guimarães, parafraseando aquela sua profética frase sobre o Congresso Nacional, que os jornalistas da época criticavam: “Espera para ver o próximo”.

Mais do que nunca, a vasta obra do “Anjo Pornográfico”, tão fielmente retratado na biografia de Ruy Castro, é leitura obrigatória para entendermos melhor o que está acontecendo, com seus inacreditáveis protagonistas e comentaristas.

Nelson Rodrigues vive.

Já estamos na Quarta-Feira de Cinzas, acaba a fantasia e começa tudo de novo.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O FEMININO VEIO PRIMEIRO

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O presente texto quer ser uma pequena contribuição ao debate sobre o feminino tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. Vejamos como surgiu no processo da sexogênese. Várias são as etapas.

A vida já existe na terra, há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi provavelmente um bactéria unicellular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Há dois bilhões de anos, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromosomos. Nela se identifica a orgem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromosomos em pares. Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas diferentes com seus núcleos. A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos – que junto com a seleção natural representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e simbiose do que da luta competitiva pela sobrevência.

Nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que no grande utero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.

Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pênis, algo masculino, que tocando a célula passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados há 370 mihões de anos com os répteis, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o aparecimento dos maníferos há cerca de 125 milhões de anos já surgiu uma sexualidade definida de macho e fêma. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos apareceu o nosso ancestral mamífero que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros há 67 mihões de anos, puderam ganhar o chão e se desenvolver chegando aos dias de hoje.

Há ainda o sexo genético-celular humano que apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromososmos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O do homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromosomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromosomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Ainda com referência ao sexo genital-gonodal importa reter que nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, femininina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromosomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina. Em termos do sexo genital-gonodal podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio de Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgêni pelos testículos.

Por fim existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra e pelo hipotálamo que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o andogênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormônio, produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininios; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio.

Importa ainda dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontologica. O ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Até a emergência da sexualidade o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força institiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais ponderosa “que move o céu e as estrelas”(Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas retenhamos: o feminine vem primeiro e é básico.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

FUZIL NAS MÃOS E MÍDIAS NA CABEÇA

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Tudo que Deus fez e faz tem como objetivo primordial o ser humano. Deus oferece na morte de seu Filho primogênito na cruz a salvação ao ser humano. A morte de Deus é pelo homem salvo. O amor de Deus é dado na missão de Jesus, salvar o ser humano. Para Deus cada pessoa é merecedora de seu amor salvífico. Vendo nesta perspectiva a ação de Deus nas história, a morte de cruz por amor, é gesto a ser compreendido e assimilado pelo humano contemporâneo.

No Brasil, a partir da elaboração do Estatuto do Desarmamento em 2003, foi instituída a campanha de conscientização em prol do desarmamento da população. Na época foram veiculados conteúdos em meios de comunicação social com a finalidade de conscientização do perigo do porte de armas. Foram seis meses de intensa campanha visando que as pessoas entregassem de boa-fé as armas, com direito até à indenização, conforme a Lei número 10884/2004.

A princípio o resultado da Campanha pelo Desarmamento, segundo dados do Ministério da Justiça, superou a estimativa com a entrega de 443.719 armas de fogo. As armas recolhidas foram destruídas por um pesado rolo compressor do comando do Exército diante de câmeras de televisão. Com o resultado positivo o Ministério da Justiça estendeu a Campanha pelo Desarmamento até 23 de outubro de 2005. Contudo, apesar da conscientização e da proibição da comercialização de armas de fogo e munição, em 2011 o governo federal gastou 3,5 milhões em indenizações referentes a desarmamento. Contudo, a população brasileira continua fortemente guarnecida por armas de fogo.

Apesar da campanha, hoje se continua a comercializar armas de fogo tanto de forma legal, como de modo ilegal pelo tráfico de drogas. Lamentavelmente a comercialização de armas e munição não é às escondidas. Os órgãos públicos que devem combater o uso e a venda de armas e munições não têm condições de coibir sua comercialização. Mediante a realidade que se apresenta, é surpreendente o juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, postar fotos em redes sociais segurando um fuzil e mostrando o resultado de um teste de tiro. Na postagem feita em 1º de dezembro o juiz federal agradece à Polícia Civil pelo treinamento e à Polícia Militar pela escolta pessoal. O grave, após campanha de desarmamento de grande custo para a nação, é ver um juiz com destacada atuação nos processos da Lava Jato agir de forma nada conveniente com seu ofício público.

A cena do juiz Marcelo Bretas fazendo apologia à violência percorreu o mundo pelas redes sociais e sua postura rendeu muitas críticas. Segundo o jornalista Luís Nassif, chama atenção como o magistrado tem se mostrado preocupado em fortalecer sua imagem diante da opinião pública. Mas, segundo o jornalista, por detrás daquela imagem há um ego impulsionado que nada tem a ver com o papel de um servidor público. É estarrecedor que o magistrado da Operação Lava Jato faça apologia em defesa de armas de fogo, algo que há de sobra no Estado do Rio de Janeiro. De todo modo, um fuzil nas mãos deve ser algo abominável por qualquer cidadão de bem neste Brasil. Tal imagem diz que algo está perdido, a sua própria consciência, e que o Brasil enveredou para o caminho da violência pública, agora institucionalizada.

Entretanto, as bases éticas das estruturas públicas repudiam qualquer vontade abusiva que afronte as formas jurídicas e o livre consentimento pela paz civil. O problema da violência e do mal do Brasil está no próprio homem, na sua incapacidade de ser um cidadão público respeitável. Entretanto, as estruturas de bem se mantêm na colaboração pacífica de milhões de homens justos e honestos neste país. O cidadão comum aprende que honesto vive na miséria e porta a paz em seus atos. Justamente a morte de cruz de Deus foi por ter rejeitado estruturas exteriores como armamentos e violência para salvar o ser humano. Ao assistir a cena de um juiz com fuzil nas mãos e com a mídia na cabeça, tem-se a conclusão de sua incapacidade para exercer um ofício público como a magistratura.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

AMIGOS DE COLEÇÃO.


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Quero deixar imediatamente claro: este texto não fala de coleção de amigos. Muito pelo contrário: amigo de coleção é o ex-amigo, que a gente guarda num cantinho da memória e vai, com o pensamento, visitar de vez enquanto, cultivando a melancolia, a saudade, a tristeza, o rancor, o alívio, a satisfação.

A gente nunca sabe quanto tempo uma amizade pode durar. É preciso jogar-se de cabeça, esperando que seja para sempre, na alegria, na tristeza, na cumplicidade, no apoio, no cuidado, no aviso. Mas nada é garantido. A única certeza é que ex-amigo ficará para sempre nessa condição, cutucando os nossos sentimentos. Ex-amigo não permite a elaboração do luto, quando a gente menos espera ele reaparece, mas o abraço fica suspenso no ar.

O lado positivo da coleção de ex-amigos está no fato de nos oferecer a oportunidade para não cometer os mesmos erros com outros. À medida que a coleção aumenta, o catálogo das emoções se amplia. Há amigos que a gente perde porque perdemos o endereço, trocamos de escola, de casa, de trabalho e de país. São ex-amigos que ensinam o sentido da saudade. Outros, a gente perde porque cresce e em nossas vidas já não cabe a cumplicidade incondicionada, cada um precisa assumir as próprias responsabilidades e deixar de ser gregário. São ex-amigos que ensinam o valor das nossas escolhas. Há amigos que a gente perde porque a vida é complicada e não oferece oportunidade para compartilhar experiências, um almoço, um feriado. São ex-amigos que nos revelam o significado da solidão, que permitem que a gente aprenda a lidar com isso. Há ex-amigos que nos colocam diante da raiva e exigem que a gente descubra um modo para reconhecer, conviver e domar esse sentimento. Há ex-amigos que pioram com o tempo, em vez de envelhecerem como vinho de qualidade, mostram o seu lado mais azedo. Eles nos pedem paciência e às vezes desafiam os limites da nossa paciência. Com eles descobrimos o que significa dizer não, entendemos o valor do ponto. Há ex-amigos que nos surpreendem e nos decepcionam. Eles nos fazem perceber o sentido exato da traição e podem oferecer ótimos exemplos dessa arte que caleja e põe à prova a nossa confiança e a nossa capacidade de apostar de novo, apesar das probabilidades.

Os meus amigos de coleção têm um grande valor para mim. Conservo na memória, cultivo a tristeza, a decepção, mas também os bons momentos, as experiências vividas. Ex-amigos são parte da estrada e da história, na mesma medida dos amigos. Não, não é para comparar, porque amigos são aqueles que certamente já passaram por dificuldades, resistiram e ficaram ao nosso lado, embora tantas coisas tentem continuamente separar as pessoas. Claro que os amigos são especiais. Entretanto, ex-amigos também são. Como um sonho que não deu certo, mas no qual a gente aposta todas as fichas. Porque apenas sonhos podem se tornar realidade. Ainda que se concretizem em outras amizades, o ex-amigo é a vitória da persistência, é a derrota que se torna uma semente de futuro.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

PARA VOCÊ EU DARIA UM RIM.

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Há histórias de amor que excluem a clássica declaração “eu te amo”. Em Pisa aconteceu assim: ele tinha recebido o rim de um doador e ela era a enfermeira da ala hospitalar. O transplante não deu certo e ele voltou para a fila, esperando a sorte de conseguir outro doador. Mesmo mantendo o profissionalismo, algo, porém, aconteceu entre o paciente e a enfermeira. Algo que ficou no silêncio, selado pelos olhares mudos, que diziam tudo. Primeiro ela pensou: “espero que corra tudo bem para ele”. Depois, resolveu fazer os testes de compatibilidade e constatou na pasta do paciente que era uma doadora compatível. Resolveu declarar que estava disposta a dar-lhe um rim. O paciente não quis aceitar, mas ela insistiu. O transplante correu bem. Na semana passada eles se casaram.

Há histórias de amor que excluem a clássica declaração “eu te amo”. Na Itália há um provérbio que diz: “entre o dizer e o fazer existe um mar”. Ela fez, ele aceitou e foi amor, mesmo sem dizer.

Há histórias de amor que resistem à clássica declaração “eu te amo”. Porque a declaração é uma intenção. Bonita, mas intenção. O amor é feito de gestos concretos e não tem nada a ver com os desejos, tem a ver com o que fazemos em parceria, contra todas as previsões. Às vezes é difícil dizer “eu te amo”, porque há muito por fazer. Os acontecimentos atropelam as palavras.

Lembro de um poema de Adélia Prado, que acho uma das mais sublimes descrições do amor. O título é “A coisa mais fina do mundo”. Diz assim:

“Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,

ela falou comigo:

‘Coitado, até essa hora no serviço pesado’.

Arrumou pão, deixou tacho no fogão com água quente.

Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.”

Eram tempos difíceis, são tempos difíceis. Mas o amor não passa. Por amor, a gente troca de país, de profissão, de vida. A gente dá um rim. Por amor, a gente é capaz de tudo. Mesmo quando não diz.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

FAZER BROTAR AS SEMENTES DA ESPERANÇA E DO AMOR;

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Em alguns períodos, durante o verão, é comum, de uma hora para outra, acontecer uma forte chuvarada. Em seguida, muitas vezes, o sol reaparece. Seguidamente recordo um ritual da minha mãe: no dia seguinte, após uma chuvarada naqueles dias quentes, ela se dirigia até às plantações para observar o crescimento das plantas, cuja as sementes ela mesma havia lançado à terra. Ela gostava de ver o verde vicejante das plantinhas que ‘saudavam’ a chegada da chuva, portadora de um novo vigor. A conjugação do calor com a água derramada pelas nuvens provocava o rápido desenvolvimento das culturas, tornando mais evidente a promessa de uma boa colheita. Minha mãe amava a terra e nunca perdeu o contato com as lidas do interior. Perseguia as ervas daninhas, tendo como parceira uma surrada enxada.

A chuva renova a face da terra, garante o precioso líquido que sacia a sede. Após o banho, oferece novo ânimo ao corpo cansado. Onde está a água, está o milagre da vida. Pensando bem, o processo de formação da chuva é muito interessante. Aprecio ver a chuva caindo. Na infância, gostava de dormir próximo de um telhado de zinco, só para ouvir a sonoridade das insistentes gotas que caiam do céu. Dava a impressão de que o sono tinha outro embalo. São tantas lembranças de um tempo que não volta, cenas que não perdem o colorido, que jamais conhecerão o que significa desbotar. A vida acontece no hoje, mas ela é feita de muitos pedacinhos que nos remetem ao ontem. E quanto mais anos são somados, mais recordações acompanham os passos, rumo à eternidade.

Fiquei pensando nas fortes chuvas de outros verões: pegavam todos desprevenidos, mas eram passageiras. Algumas pessoas precisariam, de tempos em tempos, tomar um bom banho de ‘chuva’. Não falo de uma enorme quantidade de gotas de água, mas de uma chuvarada de otimismo, um banho de humildade, uma boa molhada de bondade. Tem gente ressecada pela indiferença e pela ganância, ao ponto de desconhecer totalmente os benefícios da solidariedade. Tomara que a água da chuva leve embora a vingança, os desentendimentos familiares, as fofocas que tanto machucam, a infidelidade que tantos estragos faz à felicidade. Uma chuva de humanismo faria germinar outras sementes, para garantir outras colheitas. Continuarei gostando do harmonioso ruído da chuva no telhado de zinco, mas torço para que outras chuvaradas façam germinar e crescer a semente da esperança e do amor.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

LEMBRANÇAS


Estão ali demarcando espaços, marcando presença nos objetos guardados na estante de uma vida, contendo emoções, amigos, amores sentidos, guardados e cultivados na intimidade de um encontro que ficou no passado mas é carregado através do tempo.

Pessoas especiais que se mostram através dos objetos que guardamos, amarradas a nós permanecem, como registros fortes que ficaram do mais simples sentir.

Fotos que revelam vida, expressam pessoas que ocupam um lugar especial; que de fora foram lançadas para dentro do nosso ser. Imagens que ficam como lembranças gravadas no íntimo...

Panelas velhas e tortas ganhas da melhor amiga, ali a ocupar um espaço, não permitindo que novas entrem e a não desapegar... A flor de hibisco guardada como se nunca fosse murchar... O colar ganho das amigas na adolescência, hoje ainda na caixa a pretear, sem ser usado para não estragar... Nessas recordações está escrito a amizade sentida, a cumplicidade contida e o medo de perder o elo, através do objeto.

A mala com alça quebrada que ganhou do avô a arrastar viagem após viagem sem reclamar... é a segurança que segue seu andar.

Enfeite fora de moda, antiquado, mas foi ganho do amor, já é motivo suficiente para ser lindo transmitindo o brilho do sentimento.

Na casa que tem alma, tudo ali a se amontoar, acumular pó, presente através das lembranças. É difícil desfazer-se, eles contem história, vida, amor... Tudo está impresso neles, o afeto sentido e a história vivida. Através dos objetos que guardamos, próximo a nós, a vida se enfeita. Lembranças ali a ornamentar a saudade que invade e de certa maneira é modificada só para mostrar-nos que temos um lugar na vida de alguém e que alguém especial passou por nós...lembranças que precisam deslocar-se para dentro de nós...

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

FANTASIADO DE MIM MESMO

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Neste Carnaval me fantasiarei de mim mesmo. Arrancarei todos os adornos que me disfarçam aos olhos alheios: a postura arrogante, o olhar altivo, a função que me faz sentir importante, a roupa que me enfeita a personalidade. Desgravatado, descalço, desgarrado do trio elétrico, buscarei um bar para embriagar-me de utopias.

Do coração extrairei todas as pedras que lhe encobrem a textura de carne: a ira e o ódio, a mágoa e o ciúme, a inveja e a indiferença. Cantarei o samba-enredo das bem-aventuranças e trarei alvíssaras aos que padecem de desesperança.

Desnudado desses artifícios que projetam de mim um simulacro, hei de descer do pedestal que me ampara a elevada autoestima para cortar as asas de minha pusilanimidade. Evitarei assim gravar como epitáfio ter sido o que não sou.

Não abominarei minha acidental condição humana, tão frágil e limitada. Despojado dos fantasmas nos quais me espelho, sairei livre e solto no bloco Nau dos Insensatos. Exibirei o meu rosto lavado com todas as rugas gravadas por minha história de vida. Não me envergonharei dos traços irregulares do meu corpo nem cobrirei a cabeça para esconder meus cabelos alvejados.

Neste Carnaval hei de participar do desfile das escolas de sabedoria. Deixarei Buda calar as vozes que tanto gritam dentro de mim, e pedirei a Confúcio ensinar-me o caminho do equilíbrio. Serei discípulo peripatético de Sócrates e aluno disciplinado na Academia de Aristóteles. Farei coro aos magníficos clamores de Maria por justiça, e dançarei com Hipácia nas pedras lisas do porto de Alexandria. Subirei as ladeiras de Assis para saudar aquele que ousou se desfantasiar por completo, e cruzarei as muralhas de Ávila para beijar as mãos daquela que me instrui nas vias da profundência.

Inebriado pelo vinho de Caná, desfilarei no carro alegórico dos místicos e me deixarei conduzir pelas inescrutáveis veredas da meditação. Ao carro abre-alas convidarei todos os incrédulos que professam fé na vida.

Quero muito júbilo neste Carnaval, festa da carne transfigurada pela alegria do espírito e transubstanciada pela sacralidade que a impregna. Festa de sorriso d’alma e da partilha perdulária de todos os meus bens materiais e simbólicos.

Nesta louvação de Momo, não serei pierrô ou colombina, palhaço ou pirata. Liberto de máscaras e fantasias, ousarei exibir na Praça da Apoteose a nudez de meu lado avesso. Haverão de contemplá-la aqueles que, livres dos óculos da ilusão, abrirem os olhos da empatia.

Quando o som agônico da cuíca se calar no irromper da alvorada, desfantasiado de mim mesmo hei de sambar, em reverentes rodopios, em torno do Mestre-sala: Aquele que nos primórdios do tempo, quando nada havia, quebrou a solidão trinitária no exuberante baile, enfeitado de confetes e serpentinas que, iluminados pelo brilho dos fogos, se fizeram estrelas e galáxias para marcar o desfile evolutivo da mãe natureza.

Então a vida irromperá na avenida em todo o seu esplendor, e a multidão verá que não é mera alegoria.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

MILIONÁRIOS

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O colega de meu filho conta que seu pai é milionário: “ele tem uma empresa em Dubai, somos riquíssimos”.

Quase todos os dias encontro este pai milionário, que acompanha o filho menor à creche. Desce do metrô, caminha a pequenos passos, como os da criança, e não dispensa a bengala, herança de um passado que desconheço, mas que deixou sequelas visíveis e o impossibilitou para o trabalho manual. Na Itália ainda existem programas sociais, portanto, o pai recebe um benefício.

Aliás, não há vez que eu não encontre o pai milionário sem um dos seus filhos. A melhor riqueza, sabemos, é aquela que se traduz em cuidados, em presença, em carinho.

O colega do meu filho acha a nossa casa maravilhosa. É casa de quem trabalha, na medida de quem trabalha e sabe que a riqueza é um bem negado à maioria e, especialmente, é desigual. A riqueza material raramente premia pais considerados milionários por seus filhos, mas o amor os enriquece aos olhos de quem se sente no centro das suas vidas.

Outro dia o meu filho chamou a minha atenção para um prédio bastante modesto, até mesmo para o padrão popular do nosso bairro: “é aqui que mora o meu colega. Eles são milionários”. Concordei. Somos um mundo de milionários odiados por um por cento do planeta, uma minoria organizada que resolveu vingar-se e roubar tudo o que temos.

Mas quando o meu filho pergunta se nós também somos ricos, eu digo: sim e não. Sim, porque crianças como ele têm algumas possibilidades, começando pelo acesso ao alimento e à escola, que a maioria das crianças no mundo ainda não tem. Não, porque na escala da crueldade, somos apenas um pouco menos explorados do que os outros noventa e nove por centro que estão no nosso barco. Apesar disso, gosto de lembrar ao meu filho o que dizia o seu avô, meu pai, descendente de escravos e calejado na melancolia: “lembre sempre que podem amarrar seus pés e suas mãos, mas nunca poderão aprisionar o seu pensamento”. O avô de meu filho também era milionário.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O PROBLEMA É O GOVERNO.

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O problema do Brasil é o governo que não representa o povo, com desaprovação de 97% da população. O atual governo é a maior nulidade da história nacional. Por conta deste fracasso, o país está sendo governado por corruptos e entregue aos interesses dos grupos internacionais. A solução do país inicia pela eleição de um governo soberano.

O Estado Brasileiro está praticamente falido com altos gastos para manter o poder e o serviço público. O cenário nacional repete a trágica situação da França no século XVIII, mas com uma grande diferença. No caso da França, por consequência dos gastos públicos, mordomias, privilégios sustentados por impostos abusivos, a população desencadeou uma revolta pública ou Revolução (05/05/1789 - 09/11/1799). O cenário nacional tenciona-se para uma iminente revolta popular por conta do desemprego, preço dos combustíveis, gás, alimentação, vestuário, corrupção generalizada, falência dos estados e municípios da federação, concentração de renda, mordomias, privilégios às castas política e pública, venda dos postos do pré-sal, privatização dos setores da mineração, energias, rodovias, portos, aeroportos e sucateamento das empresas e serviços públicos, etc.

O Estado brasileiro está falido por gestores que ocupam o ofício público em benefício próprio. Pior, a solução nacional não está no alcance da ética. Todo problema do Brasil é na verdade no campo político, no qual se criou uma divisão nacional. O cidadão brasileiro tornou-se refém desta divisão. As escolhas futuras vão acirrar mais o ódio entre as divisões. Os grandes prejudicados serão os cidadãos de bem. Com as instituições públicas e mídia corrompidas em seus próprios interesses, o estado brasileiro estará por longo tempo dividido. Uma divisão não pelo afã do debate das ideologias e ideias no campo da disputa política da direita e esquerda, mas de ódio e intolerância. A bem da verdade, a solução do Estado brasileiro passa pelo nascimento de nova consciência do cidadão.

O filósofo alemão Hegel (1770-1831) confia na capacidade do Estado porque a história da civilização é racional. Visto que sem conflitos e sem contradições não haveria história e nem ser humano politizado. A história é um movimento de conflitos e de oposições que se encontram num processo de racionalização. Ao Estado cabe garantir ao ser humano as condições para qualificar seu espírito, a razão. Hegel concebe o Estado como um organismo capaz de promover a superação dos antagonismos que dividem os seres humanos. Em outras palavras, o Estado representa a reconciliação pelo espírito de estatismo, nacionalismo, segurança nacional.

Em contrapartida, para seu conterrâneo, o filósofo Karl Marx (1818-1883), esta capacidade do Estado de obter a reconciliação dos antagonismos acontece em tese. Ao considerar que o Estado está a serviço de uma superestrutura de opressão e dominação, o processo de evolução do espírito previsto por Hegel não chega ao homem concreto, particular, individual. A função da superestrutura é a alienação. A base para isto é o trabalho, pois o trabalhador não trabalha em vista dos fins racionais ou da liberdade de espírito como pensava Hegel, mas para o sistema produtivo. O trabalhador vive em função da produção de algo que não goza ou nunca usufrui deste resultado. Na visão de Marx, o Estado está subserviente ao racionalismo burguês, articulado pela doutrina do capitalismo.

Na verdade, o problema do Estado brasileiro é assunto para muito debate desprovido de interesses e ódios. Papel não somente dos cientistas políticos, mas dos cidadãos. Porém, em 11 de novembro de 2017, entrou em vigor a Reforma Trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional, que registrou mais demissões do que contratações. O saldo de demissões ficou negativo em 12,3 milhões. Com isso, percebe-se que o problema do Brasil não é por falta de aprovadas Reformas, mas de restabelecer a função pública que compete ao Estado. Tem-se um choque ao perceber e comprovar as consequências da desastrosa Reforma de um governo ilegítimo. Portanto, de um estado totalmente subserviente aos interesses dos grupos estrangeiros. Por fim, já faz tempo que o pão sobre a mesa das famílias dos brasileiros deixou de ser função do Estado e preocupação do governo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O ABRAÇO.

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Margô comentou que estava com saudade do avô, mais especificamente dos abraços que recebia do avô quando criança. Acordara naquele dia pensando nele, e, pôs-se a recordar: Quando chegava na casa do avô e ele solicitava com sorriso nos lábios um abraço, ela saía correndo: “Pupo do vovô, vem aqui me dar um abraço”’. Ela ponderava que hoje aqueles abraços evitados eram importantes, mas a simples lembrança acalentava seu coração e resgatava a recordação do avô que já não se encontrava entre eles.

Marco, o neto, também tinha muita saudade desse avô. Muitas vezes ele pegou o neto pelo braço e mostrou as coisas simples da vida pelo seu olhar, deixando registros gravados no valoroso homem que ele se tornou.

Aquele avô era o vínculo seguro para ela, para os irmãos e para os primos. Vovô Ernestão era assim, brincalhão, meio trapalhão. Humildade e amor ao próximo eram seu legado. Era um homem bom, carregava um amor imenso pelo ser humano dentro do peito, e a simplicidade dos seus passos eram seu guia.

Pelas ruas, praças e pontes vovô Ernestão seguia esbanjando alegria, colecionando amigos e estórias. Provocava todos com alegria e descontração. Fazia chacota e seguia seu leve andar com humor.

O vínculo seguro que Margô manteve presente com o avô atualmente lhe transmitia segurança para os desafios que se apresentavam. Ele faz falta para ela, para a família, para os conhecidos, mas acima de tudo deixou suas marcas. Os registros gravados no coração dos netos, assim como nas pessoas que com ele conviviam eram a segurança para seguir com harmonia a vida adiante.