quarta-feira, 14 de junho de 2017
FAZER DA VIDA UMA BENÇÃO
O quinto homem mais rico do mundo, Mark Elliot Zuckerberg, nasceu aos 14 de maio de 1984, nos Estados Unidos. Juntamente com seus colegas de quarto da faculdade criou o Facebook. Há pouco tempo foi o paraninfo da 366ª turma da Universidade de Harvard. Na conclusão da homenagem que prestou aos formandos, seus afilhados, disse: “Lembro-me de uma oração que rezo quando tenho que enfrentar um grande desafio, que canto para minha filha, pensando em seu futuro, que diz assim: ‘Que a fonte da força que abençoou os que vieram antes de nós, ajude-nos a encontrar o valor de tornar nossas vidas uma bênção. Amém.’ Espero que vocês encontrem o valor de tornar suas vidas uma bênção”, concluiu o paraninfo Mark Zuckerberg.
Encerrar a saudação aos formandos com uma simples, mas profunda prece deve ter emocionado os presentes. A repercussão na mídia foi grande. Um gesto de humildade de alguém que não perdeu a essência, apesar de ter acumulado uma grande fortuna. Desejou aos jovens formandos algo precioso: ‘tornar a vida uma bênção’. Num mundo que estimula a busca pelo sucesso, desejar que a existência seja uma bênção é abrir espaço para o que há de mais precioso: a espiritualidade. Viver de tal forma, ao ponto de ser uma bênção para si mesmo e para os outros é descobrir o caminho da felicidade.
Ser bênção para os outros é ser capaz de estender a mão num momento de necessidade, de sorrir sem motivos, de abraçar no desejo de consolar, de escutar mesmo estando pressionado pelo tempo. Ser bênção é saber que o outro existe e necessita ser reconhecido em sua dignidade. O mundo seria diferente se todos procurassem ser uma singela bênção. Certamente não haveria espaço para julgamentos, intrigas e distanciamentos. É possível ser o último na quantidade de bens materiais, mas estar nos primeiros lugares, entre aqueles que multiplicam vida e esperança, assumindo diariamente o propósito de tornar a vida uma bênção. A turma de formandos da famosa universidade americana jamais esquecerá as palavras e a prece do paraninfo.
segunda-feira, 12 de junho de 2017
MERCADO E ESTADO.
No Brasil, os dois governos de Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores de nossa história republicana. Entre 2003 e 2011, a renda dos brasileiros cresceu a uma taxa média de 2,8% ao ano. O volume de divisas internacionais superou o montante da dívida externa com os bancos internacionais, fazendo com que o Brasil se destacasse como credor mundial. Acreditou-se que o país havia superado seus problemas com as contas externas.
O aumento do salário mínimo acima da inflação a cada ano, e a política de facilitação de acesso ao crédito, fizeram com que o consumo fosse amplamente dilatado. No período Lula, entre 2003 e 2010, a geração de empregos chegou a 14 milhões (índice igual ao desemprego no período Temer). Todo esse processo criou a impressão de que o Brasil havia conquistado o patamar de um desenvolvimento capitalista autossustentável.
Esse processo reduziu, de fato, a desigualdade social. O índice Geni, que mede o grau de concentração pessoal da renda, se reduziu um pouco nos 13 anos de governo do PT. Diminuiu a distância entre a renda média dos 10% mais pobres e dos 10% mais ricos. Em 2010, esta diferença era de 39 vezes, enquanto em 2002, no governo FHC, era de 57 vezes. Cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da miséria. Ampliou-se a rede de proteção social aos mais pobres. Em 2015, o Bolsa Família atendeu a quase 14 milhões de famílias.
Somam-se a isso a independência e a soberania da política externa brasileira, como a desarticulação da Alca, o fortalecimento do Mercosul, a participação na Celac e no G-20, a formação do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e a eleição do nosso país para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
A falta, porém, de uma ousada política de comunicação e democratização da mídia, aliada ao fortalecimento dos mecanismos de participação democrática, tanto na esfera política quanto na econômica, fragilizaram todas essas conquistas. Não se fez um intensivo trabalho de alfabetização política da população, mormente dos setores populares, concomitante à organização e mobilização desses setores.
Nem sempre os governos progressistas da América Latina se empenharam em inverter a relação, historicamente predominante, da supremacia do mercado sobre o Estado. Ao contrário, através de desonerações tributárias, subsídios generosos a juros baixos e flexibilização das leis trabalhistas, o Estado se aliou ao mercado e se tornou seu provedor.
O Estado, por natureza, deve ser o provedor daqueles que se encontram marginalizados ou excluídos pelo mercado. O Estado tem, por dever, contrapor-se ao mercado quando este favorece a desigualdade social; reforça a primazia da propriedade privada sobre os direitos coletivos; e suga os recursos públicos, através de dívidas públicas não auditadas e, portanto, suspeitas.
Um governo que se pretende progressista e, no entanto, não logra assegurar a soberania do Estado sobre o mercado, está inevitavelmente condenado a ter seu poder político derrotado pelo poder econômico.
O aumento do salário mínimo acima da inflação a cada ano, e a política de facilitação de acesso ao crédito, fizeram com que o consumo fosse amplamente dilatado. No período Lula, entre 2003 e 2010, a geração de empregos chegou a 14 milhões (índice igual ao desemprego no período Temer). Todo esse processo criou a impressão de que o Brasil havia conquistado o patamar de um desenvolvimento capitalista autossustentável.
Esse processo reduziu, de fato, a desigualdade social. O índice Geni, que mede o grau de concentração pessoal da renda, se reduziu um pouco nos 13 anos de governo do PT. Diminuiu a distância entre a renda média dos 10% mais pobres e dos 10% mais ricos. Em 2010, esta diferença era de 39 vezes, enquanto em 2002, no governo FHC, era de 57 vezes. Cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da miséria. Ampliou-se a rede de proteção social aos mais pobres. Em 2015, o Bolsa Família atendeu a quase 14 milhões de famílias.
Somam-se a isso a independência e a soberania da política externa brasileira, como a desarticulação da Alca, o fortalecimento do Mercosul, a participação na Celac e no G-20, a formação do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e a eleição do nosso país para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
A falta, porém, de uma ousada política de comunicação e democratização da mídia, aliada ao fortalecimento dos mecanismos de participação democrática, tanto na esfera política quanto na econômica, fragilizaram todas essas conquistas. Não se fez um intensivo trabalho de alfabetização política da população, mormente dos setores populares, concomitante à organização e mobilização desses setores.
Nem sempre os governos progressistas da América Latina se empenharam em inverter a relação, historicamente predominante, da supremacia do mercado sobre o Estado. Ao contrário, através de desonerações tributárias, subsídios generosos a juros baixos e flexibilização das leis trabalhistas, o Estado se aliou ao mercado e se tornou seu provedor.
O Estado, por natureza, deve ser o provedor daqueles que se encontram marginalizados ou excluídos pelo mercado. O Estado tem, por dever, contrapor-se ao mercado quando este favorece a desigualdade social; reforça a primazia da propriedade privada sobre os direitos coletivos; e suga os recursos públicos, através de dívidas públicas não auditadas e, portanto, suspeitas.
Um governo que se pretende progressista e, no entanto, não logra assegurar a soberania do Estado sobre o mercado, está inevitavelmente condenado a ter seu poder político derrotado pelo poder econômico.
domingo, 11 de junho de 2017
O TERNO NÃO FAZ O TREINADOR.
Falar de futebol é sempre arriscado. Principalmente no Brasil. Aqui, as rígidas regras do esporte bretão foram dribladas pela ginga e criatividade típicas do brasileiro.
Com vantagens e desvantagens. O lado bom da flexibilização é que proporcionou o surgimento dos Garrinchas, Romários e Túlios que encantaram o mundo e nos deram tantos títulos. Por outro, nunca tivemos em nenhuma equipe brasileira um Alex Ferguson e suas duas décadas e meia à frente do Manchester. Nos campeonatos brasileiros, o normal é que nenhum time inicie a temporada e vá até seu fim com o mesmo elenco e o mesmo treinador.
Por falar em treinador, é sabido por todos que nenhum brasileiro conseguiu se firmar à frente de uma equipe europeia. Não por incompetência. A causa é cultural. Na última final da Champions League em que o Real Madrid massacrou a Juventus, era interessante a figura dos dois treinadores, Zinedine Zidane na esquadra espanhola e Massimiliano Allegri na turinesa. Os dois foram jogadores de futebol e agora estavam à beira do campo. Os dois de terno. Meio desalinhado o de Zidane, é certo. Mas sempre um terno, clássico, elegante. O de Allegri, então, perfeito, italiano. Só isso diz tudo. Os dois com gestos comedidos como cabe a um treinador... europeu. Emoção mínima. Eficiência máxima.
Quanta diferença com um Abel Braga, Joel Santana, Murici Ramalho, Renato Gaúcho... só para falar em alguns da atualidade. Estes não cabem dentro de um terno. O Renato até que tenta usar camisas sociais, mas a calça é jeans e, no pé, os tênis. De marca, óbvio. Mas não são sapatos italianos! São tênis. Roupa esportiva e não executiva.
No auge da carreia, o Wanderlei Luxemburgo foi treinar o Real Madrid. Fracassou. Não tinha o perfil europeu. Mas voltou de lá vestindo terno à beira do gramado. Dunga, talvez pela longa experiência como jogador na Itália, ao assumir como treinador no Brasil, também primava pela roupa social. De elegância duvidosa em certas ocasiões, como todos pudemos notar. Também não deu certo. Mais recentemente, aqui na Província de São Pedro de Rio Grande, outro treinador com passagem pela Europa como jogador, passou a dirigir uma da Série B, fardado com elegantes ternos italianos. Fracassou rotundamente... Ele vestia terno italiano. Mas não tinha jogadores italianos. Nem treinava um time italiano. E nem participava de um campeonato italiano. A realidade que estava à sua frente não se transformava pelo fato de ele usar um terno italiano.
Lembro disso tudo ao reparar o cenário político brasileiro e seu messianismo mágico. Personagens que vestem um traje – de presidente, de juiz, procurador, ministro, senador, deputado, prefeito... – e acham que isso é suficiente para que todos os considerem como tal e submetam-se a seus ditames. Pelo simples fato de usarem um terno, uma faixa, uma toga, acham que tem autoridade. Mas para ser autoridade, é preciso muito mais. É preciso o respaldo do povo, da nação, da urna, da democracia.
Por isso, mesmo admirando a eficácia do futebol europeu, ainda prefiro nossos Garrinchas, Romários, Abeis, Joeis, Muricis, Renatos... que não vestem ternos e togas, mas tem o jeito e a ginga do povo brasileiro, falam a linguagem do povo brasileiro e, sem sonhar em ser espelhos cacofônicos da Europa, ganham títulos com o povo brasileiro.
Com vantagens e desvantagens. O lado bom da flexibilização é que proporcionou o surgimento dos Garrinchas, Romários e Túlios que encantaram o mundo e nos deram tantos títulos. Por outro, nunca tivemos em nenhuma equipe brasileira um Alex Ferguson e suas duas décadas e meia à frente do Manchester. Nos campeonatos brasileiros, o normal é que nenhum time inicie a temporada e vá até seu fim com o mesmo elenco e o mesmo treinador.
Por falar em treinador, é sabido por todos que nenhum brasileiro conseguiu se firmar à frente de uma equipe europeia. Não por incompetência. A causa é cultural. Na última final da Champions League em que o Real Madrid massacrou a Juventus, era interessante a figura dos dois treinadores, Zinedine Zidane na esquadra espanhola e Massimiliano Allegri na turinesa. Os dois foram jogadores de futebol e agora estavam à beira do campo. Os dois de terno. Meio desalinhado o de Zidane, é certo. Mas sempre um terno, clássico, elegante. O de Allegri, então, perfeito, italiano. Só isso diz tudo. Os dois com gestos comedidos como cabe a um treinador... europeu. Emoção mínima. Eficiência máxima.
Quanta diferença com um Abel Braga, Joel Santana, Murici Ramalho, Renato Gaúcho... só para falar em alguns da atualidade. Estes não cabem dentro de um terno. O Renato até que tenta usar camisas sociais, mas a calça é jeans e, no pé, os tênis. De marca, óbvio. Mas não são sapatos italianos! São tênis. Roupa esportiva e não executiva.
No auge da carreia, o Wanderlei Luxemburgo foi treinar o Real Madrid. Fracassou. Não tinha o perfil europeu. Mas voltou de lá vestindo terno à beira do gramado. Dunga, talvez pela longa experiência como jogador na Itália, ao assumir como treinador no Brasil, também primava pela roupa social. De elegância duvidosa em certas ocasiões, como todos pudemos notar. Também não deu certo. Mais recentemente, aqui na Província de São Pedro de Rio Grande, outro treinador com passagem pela Europa como jogador, passou a dirigir uma da Série B, fardado com elegantes ternos italianos. Fracassou rotundamente... Ele vestia terno italiano. Mas não tinha jogadores italianos. Nem treinava um time italiano. E nem participava de um campeonato italiano. A realidade que estava à sua frente não se transformava pelo fato de ele usar um terno italiano.
Lembro disso tudo ao reparar o cenário político brasileiro e seu messianismo mágico. Personagens que vestem um traje – de presidente, de juiz, procurador, ministro, senador, deputado, prefeito... – e acham que isso é suficiente para que todos os considerem como tal e submetam-se a seus ditames. Pelo simples fato de usarem um terno, uma faixa, uma toga, acham que tem autoridade. Mas para ser autoridade, é preciso muito mais. É preciso o respaldo do povo, da nação, da urna, da democracia.
Por isso, mesmo admirando a eficácia do futebol europeu, ainda prefiro nossos Garrinchas, Romários, Abeis, Joeis, Muricis, Renatos... que não vestem ternos e togas, mas tem o jeito e a ginga do povo brasileiro, falam a linguagem do povo brasileiro e, sem sonhar em ser espelhos cacofônicos da Europa, ganham títulos com o povo brasileiro.
sábado, 10 de junho de 2017
SÓ DESCANSO QUANDO ESCUTO A PORTA BATER.
O tempo presente pode ser considerado a época da juventude. Atualmente usam-se os máximos recursos científicos e estéticos para permanecer jovem. Passam-se os anos sem considerar-se idoso. Em razão disto, cresce o marketing em torno da juventude. Em tudo isto se apresentam muitos desafios às famílias, à sociedade, em especial às Igrejas.
Em conversações ouve-se a expressão “vivemos na época do triunfo da juventude”. A constatação não deixa de ter certa verdade. Percebem-se em geral tentativas de parecer mais jovem do que os anos de idade. As iniciativas vão desde o jovem não querer perder a juventude. Por vontade, esforços ou outros mecanismos, até de intervenção cirúrgica, os adultos lutam contra a perda da juventude. Muitos idosos ainda se reconhecem como jovens. Até mesmo as crianças e adolescentes almejam passar logo para a fase da juventude. O desejo é ser jovem. A moda é manter-se eternamente jovem. Em tudo isto algo positivo é as pessoas se manterem ativas e com elevada autoestima. Cresce o cuidado com a saúde, beleza física, leveza da vida por ora imune das preocupações, compromissos e sofrimentos. Porém, a vida transcende ao período definido como juventude.
No dizer da ONU a juventude compreende a faixa de idade entre 15 e 24 anos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define a juventude dos 12 aos 18 anos. Na PEC da Juventude aprovada pelo Congresso Nacional em setembro de 2010, a faixa etária da juventude é de 16 a 29 anos.
Depositar suprema importância à fase da juventude leva a crer que acabou o período da gerontocracia. O termo é derivado do grego, em que geroné é ancião e cracia representa o poder. Em outras palavras acabou o poder dos idosos. Percebe-se este sinal de mudança nas relações familiares, sociais, empresariais, governamentais e em qualquer organização. Os idosos são substituídos pelos mais jovens. E, sem dúvidas, por mais despercebido que passe, em presente contexto os chefes das nações procuram aparecer em momentos e ações identificadas como pessoas jovens, vigorosos, esbeltos, atraentes, características da juventude. A mídia e o mercado promovem seus produtos para atrair os jovens. Neste comportamento manifesta-se uma compreensão extremamente fundamentalista do comportamento social, antropológico e do mercado: é reduzir a ideia de felicidade humana à época da juventude.
Na visão cristã o ser humano foi criado para desfrutar da felicidade desde seu nascimento até o gozo da última estação da vida, a eternidade. Contudo, no decorrer das etapas da vida será preciso o enfrentamento dos conflitos, tensões e limitações com sabedoria espiritual para gozar da maior realização e felicidade. Em contrário, o ser humano estaria enclausurado numa falsa ideia de gozo eterno da juventude.
De modo geral, os jovens de todas as épocas e culturas possuem em comum características e diferenças. Contudo, há uma particularidade consensual manifestada nas queixas dos pais, tangente à vida noturna dos filhos. A problemática que os pais enfrentam atualmente não é tanto rebeldia, críticas, paixões, sonhos, intolerância dos jovens, mas as consequências dos atos dos filhos. Em casos concretos os filhos ferem o contrato social e moral por comportamentos e atitudes que não condizem com a tradição e com os costumes dos genitores. Propriamente dito, sobre seu temor quanto às baladas de final de semana, os pais desabafam: “Só descanso quando escuto a porta bater”.
Em conversações ouve-se a expressão “vivemos na época do triunfo da juventude”. A constatação não deixa de ter certa verdade. Percebem-se em geral tentativas de parecer mais jovem do que os anos de idade. As iniciativas vão desde o jovem não querer perder a juventude. Por vontade, esforços ou outros mecanismos, até de intervenção cirúrgica, os adultos lutam contra a perda da juventude. Muitos idosos ainda se reconhecem como jovens. Até mesmo as crianças e adolescentes almejam passar logo para a fase da juventude. O desejo é ser jovem. A moda é manter-se eternamente jovem. Em tudo isto algo positivo é as pessoas se manterem ativas e com elevada autoestima. Cresce o cuidado com a saúde, beleza física, leveza da vida por ora imune das preocupações, compromissos e sofrimentos. Porém, a vida transcende ao período definido como juventude.
No dizer da ONU a juventude compreende a faixa de idade entre 15 e 24 anos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define a juventude dos 12 aos 18 anos. Na PEC da Juventude aprovada pelo Congresso Nacional em setembro de 2010, a faixa etária da juventude é de 16 a 29 anos.
Depositar suprema importância à fase da juventude leva a crer que acabou o período da gerontocracia. O termo é derivado do grego, em que geroné é ancião e cracia representa o poder. Em outras palavras acabou o poder dos idosos. Percebe-se este sinal de mudança nas relações familiares, sociais, empresariais, governamentais e em qualquer organização. Os idosos são substituídos pelos mais jovens. E, sem dúvidas, por mais despercebido que passe, em presente contexto os chefes das nações procuram aparecer em momentos e ações identificadas como pessoas jovens, vigorosos, esbeltos, atraentes, características da juventude. A mídia e o mercado promovem seus produtos para atrair os jovens. Neste comportamento manifesta-se uma compreensão extremamente fundamentalista do comportamento social, antropológico e do mercado: é reduzir a ideia de felicidade humana à época da juventude.
Na visão cristã o ser humano foi criado para desfrutar da felicidade desde seu nascimento até o gozo da última estação da vida, a eternidade. Contudo, no decorrer das etapas da vida será preciso o enfrentamento dos conflitos, tensões e limitações com sabedoria espiritual para gozar da maior realização e felicidade. Em contrário, o ser humano estaria enclausurado numa falsa ideia de gozo eterno da juventude.
De modo geral, os jovens de todas as épocas e culturas possuem em comum características e diferenças. Contudo, há uma particularidade consensual manifestada nas queixas dos pais, tangente à vida noturna dos filhos. A problemática que os pais enfrentam atualmente não é tanto rebeldia, críticas, paixões, sonhos, intolerância dos jovens, mas as consequências dos atos dos filhos. Em casos concretos os filhos ferem o contrato social e moral por comportamentos e atitudes que não condizem com a tradição e com os costumes dos genitores. Propriamente dito, sobre seu temor quanto às baladas de final de semana, os pais desabafam: “Só descanso quando escuto a porta bater”.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
VINDE ESPÍRITO SANTO.
O movimento carismático e pentecostal, a percepção da presença do Espírito Santo e o surgimento de novas igrejas diferentes em forma, conteúdo e espiritualidade das igrejas cristãs históricas é um fato que merece a atenção do mundo inteiro. Vivemos, sobretudo no Ocidente, que sempre apresentou uma pneumatologia acanhada, um verdadeiro Tempo do Espírito. No entanto, esse eclodir do carismatismo pneumatológico deste lado do mundo não deixa de apresentar ambiguidades e questionamentos.
Deste lado do mundo, ou seja, no Ocidente cristão (Europa Ocidental e América), a pessoa do Espírito Santo ficou durante longo tempo um tanto esquecida, e mesmo deixada de lado. O Cristianismo ocidental configurou-se após o século IV e até o século XX por uma primazia quase absoluta do Filho, segunda pessoa da Santíssima Trindade, chegando às raias de um cristomonismo. Por outro lado, a pneumatologia oriental cresceu e desabrochou ricamente, dando a toda a teologia do Oriente cristão (Europa do Leste, Península Balcânica e Oriente Médio) uma configuração trinitária, onde pneumatologia e cristologia harmoniosamente dialogam e se entrelaçam, sobretudo na comunidade eclesial.
Importa, então, refletir sobre este fenômeno, procurar resgatar suas raízes e analisar suas consequências. Sobretudo num tempo como o nosso, quando o movimento carismático cresce de maneira importante na Igreja do Ocidente, fazendo acontecer o pentecostalismo que quase chega por vezes a um pneumatomonismo. Vivemos, hoje, nas igrejas cristãs do Ocidente – católica ou protestantes - o risco de que a espiritualidade e a pastoral sejam marcadas por uma primazia quase absoluta do Espírito Santo, o que deixaria na sombra as outras duas pessoas divinas, e sobretudo a espessura histórica e encarnada da pessoa do Filho e o compromisso concreto que daí resulta.
Este fato gera outras consequências teológicas e também pastorais. Uma delas é um declinar, nas igrejas, da ligação entre experiência do Espírito e compromisso histórico. Em outras palavras, entre espiritualidade e prática. Igualmente categorias como a centralidade da história, a opção pelos pobres e o binômio inseparável fé-justiça, que marcou a teologia pós-conciliar não só da América Latina mas do mundo inteiro, deixa de estar à frente da pastoral das igrejas cristãs.
Em seu lugar, surge a chamada “teologia da prosperidade”, que relaciona experiência de Deus e enriquecimento, sendo adotada por pastores que muitas vezes a impõem aos fiéis de maneira coercitiva e violenta. Esta teologia encontra seu canal de expressão em liturgias muitas vezes bastante exteriorizantes, com grande “ruído” e igual agitação, inclusive sem permitir às celebrações fornecerem aos fiéis espaço de oração e reflexão onde o coração possa sentir e a razão pensar. Até mesmo autores que vêem a positividade presente no movimento carismático em geral são críticos sobre esses pontos da agitação espiritual, da tomada de posse da liturgia e da desconexão com a realidade e a transformação da mesma.
Os tempos que vivemos são, sim, tempos do Espírito. Porém, ao lado da riqueza que nos trouxeram os movimentos carismáticos que reivindicam para si e sua atuação a primazia da Terceira Pessoa da Trindade, encontramos muita ambiguidade. Por isso, esses tempos do Espírito, há que vivê-los no contínuo discernimento.
Por isso é importante voltar sempre e constantemente à 1a carta de João, capítulo 4, vv 1 ss: "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo." Discernir é preciso, ainda que as alegres e ruidosas celebrações carismáticas encham os ouvidos e os espaços; ainda que seja indispensável maior atenção à pneumatologia; ainda que os tempos plurais que hoje vivemos sejam propícios a uma importância maior da reflexão sobre o Espírito.
Perceber nos “sofrimentos do tempo presente” e em nossos próprios gemidos os “gemidos inefáveis” do Espírito (Rom 8,18.23.26) é a condição da verdadeira espiritualidade cristã. A espiritualidade cristã assim entendida é incontrolável pela teologia, que dela deve aprender a experiência de Deus que é Pai, Filho e Espírito. Com a “retração” da morte e ressurreição de Jesus, é o Espírito que habita em nós o responsável pelo reconhecimento da presença do Messias em nós. E isso implicará aderir de todo coração a esta presença, não apenas na catarse obtida na afetividade exacerbada, mas na obediência humilde e provada que se dá pelas dificuldades da caminhada e pelo sofrimento inexplicável nosso e alheio.
Deste lado do mundo, ou seja, no Ocidente cristão (Europa Ocidental e América), a pessoa do Espírito Santo ficou durante longo tempo um tanto esquecida, e mesmo deixada de lado. O Cristianismo ocidental configurou-se após o século IV e até o século XX por uma primazia quase absoluta do Filho, segunda pessoa da Santíssima Trindade, chegando às raias de um cristomonismo. Por outro lado, a pneumatologia oriental cresceu e desabrochou ricamente, dando a toda a teologia do Oriente cristão (Europa do Leste, Península Balcânica e Oriente Médio) uma configuração trinitária, onde pneumatologia e cristologia harmoniosamente dialogam e se entrelaçam, sobretudo na comunidade eclesial.
Importa, então, refletir sobre este fenômeno, procurar resgatar suas raízes e analisar suas consequências. Sobretudo num tempo como o nosso, quando o movimento carismático cresce de maneira importante na Igreja do Ocidente, fazendo acontecer o pentecostalismo que quase chega por vezes a um pneumatomonismo. Vivemos, hoje, nas igrejas cristãs do Ocidente – católica ou protestantes - o risco de que a espiritualidade e a pastoral sejam marcadas por uma primazia quase absoluta do Espírito Santo, o que deixaria na sombra as outras duas pessoas divinas, e sobretudo a espessura histórica e encarnada da pessoa do Filho e o compromisso concreto que daí resulta.
Este fato gera outras consequências teológicas e também pastorais. Uma delas é um declinar, nas igrejas, da ligação entre experiência do Espírito e compromisso histórico. Em outras palavras, entre espiritualidade e prática. Igualmente categorias como a centralidade da história, a opção pelos pobres e o binômio inseparável fé-justiça, que marcou a teologia pós-conciliar não só da América Latina mas do mundo inteiro, deixa de estar à frente da pastoral das igrejas cristãs.
Em seu lugar, surge a chamada “teologia da prosperidade”, que relaciona experiência de Deus e enriquecimento, sendo adotada por pastores que muitas vezes a impõem aos fiéis de maneira coercitiva e violenta. Esta teologia encontra seu canal de expressão em liturgias muitas vezes bastante exteriorizantes, com grande “ruído” e igual agitação, inclusive sem permitir às celebrações fornecerem aos fiéis espaço de oração e reflexão onde o coração possa sentir e a razão pensar. Até mesmo autores que vêem a positividade presente no movimento carismático em geral são críticos sobre esses pontos da agitação espiritual, da tomada de posse da liturgia e da desconexão com a realidade e a transformação da mesma.
Os tempos que vivemos são, sim, tempos do Espírito. Porém, ao lado da riqueza que nos trouxeram os movimentos carismáticos que reivindicam para si e sua atuação a primazia da Terceira Pessoa da Trindade, encontramos muita ambiguidade. Por isso, esses tempos do Espírito, há que vivê-los no contínuo discernimento.
Por isso é importante voltar sempre e constantemente à 1a carta de João, capítulo 4, vv 1 ss: "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo." Discernir é preciso, ainda que as alegres e ruidosas celebrações carismáticas encham os ouvidos e os espaços; ainda que seja indispensável maior atenção à pneumatologia; ainda que os tempos plurais que hoje vivemos sejam propícios a uma importância maior da reflexão sobre o Espírito.
Perceber nos “sofrimentos do tempo presente” e em nossos próprios gemidos os “gemidos inefáveis” do Espírito (Rom 8,18.23.26) é a condição da verdadeira espiritualidade cristã. A espiritualidade cristã assim entendida é incontrolável pela teologia, que dela deve aprender a experiência de Deus que é Pai, Filho e Espírito. Com a “retração” da morte e ressurreição de Jesus, é o Espírito que habita em nós o responsável pelo reconhecimento da presença do Messias em nós. E isso implicará aderir de todo coração a esta presença, não apenas na catarse obtida na afetividade exacerbada, mas na obediência humilde e provada que se dá pelas dificuldades da caminhada e pelo sofrimento inexplicável nosso e alheio.
quinta-feira, 8 de junho de 2017
QUEM É ÉTICO É FELIZ.
O professor João Adalberto Guimarães, brasileiro em um intercâmbio na Europa, entrou numa estação de metrô em Estocolmo, capital da Suécia. Ele notou que havia, entre muitas catracas normais e comuns, uma de passagem grátis livre. Então questionou a vendedora de bilhetes o porquê daquela catraca permanentemente liberada, sem nenhum segurança por perto. Ela, então, explicou que aquela era destinada às pessoas que, por qualquer motivo, não tivessem dinheiro para o bilhete da passagem. Com sua mente incrédula, acostumado ao jeito brasileiro de pensar, não conteve a pergunta, que para ele era óbvia: “E se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?” A vendedora espremeu seus olhos límpidos azuis, num sorriso de pureza constrangedora e questionou: “Mas por que ela faria isso?” Sem resposta, ele pagou o bilhete e passou pela catraca, seguido de uma multidão que também havia pago por seus bilhetes. A catraca livre continuou vazia.
A cultura de levar vantagem está em decadência. Impossível ser feliz e não ser honesto. Muitos já se deram conta de que é urgente uma nova postura para garantir a realização pessoal. Fazer o que é certo quando ninguém está vendo é o jeito mais sereno e transparente de viver a ética. Para recuperar a confiança na humanidade é necessário transformar o coração humano. O espaço ideal para lapidar a existência é a família. Quando a convivência familiar for alicerçada nos valores humanos universais, será possível vislumbrar um ser humano correto, ético, transparente e, sem dúvida, feliz.
Amontoar bens materiais às custas de injustiças e espertezas nunca foi e nunca será uma expressão da dignidade. É deprimente conviver com pessoas que só pensam em si mesmas e que fazem da ganância um jeito sutil de fragilizar as relações humanas. A catraca vazia, destinada aos que vivem sem o mínimo, mas necessitam se deslocar, é um termômetro da honestidade e da transparência. Um dia, talvez, perto e longe de nós, serão muitas as catracas vazias, pois a humanidade terá recuperado sua postura ética. Não há dúvidas: quem é ético é feliz!
A cultura de levar vantagem está em decadência. Impossível ser feliz e não ser honesto. Muitos já se deram conta de que é urgente uma nova postura para garantir a realização pessoal. Fazer o que é certo quando ninguém está vendo é o jeito mais sereno e transparente de viver a ética. Para recuperar a confiança na humanidade é necessário transformar o coração humano. O espaço ideal para lapidar a existência é a família. Quando a convivência familiar for alicerçada nos valores humanos universais, será possível vislumbrar um ser humano correto, ético, transparente e, sem dúvida, feliz.
Amontoar bens materiais às custas de injustiças e espertezas nunca foi e nunca será uma expressão da dignidade. É deprimente conviver com pessoas que só pensam em si mesmas e que fazem da ganância um jeito sutil de fragilizar as relações humanas. A catraca vazia, destinada aos que vivem sem o mínimo, mas necessitam se deslocar, é um termômetro da honestidade e da transparência. Um dia, talvez, perto e longe de nós, serão muitas as catracas vazias, pois a humanidade terá recuperado sua postura ética. Não há dúvidas: quem é ético é feliz!
terça-feira, 6 de junho de 2017
O ESTOMAGO E O BOLSO, É ISSO QUE IMPORTA.
Foi na Conferência de Estocolmo, em 1972, que a ONU instituiu o dia 05 de junho como dia mundial do meio ambiente. Tal como outras tantas datas comemorativas, por exemplo, dia do trabalhador, dia da mulher, dia da consciência negra, essa data também é ambivalente, isto é, tanto se presta para comemorar as conquistas quanto para chorar e lamentar as violências e desrespeitos que ainda persistem. Em relação ao meio ambiente temos muito pouco a comemorar e muito a pensar qual rumo a humanidade está tomando numa tríplice relação: meio ambiente, animais e humanos.
Em relação ao meio ambiente, parece que já decidimos que não nos interessam as gerações futuras e que não abriremos mão dos lucros e bem-estar atuais e imediatos, em nome de sentimentalismos com as “almas” que ainda não estão sequer projetadas na mente e nos corpos dos homens e mulheres que por ora circulam sobre a terra. Ponto. Continuaremos queimando energias fósseis (carvão, gás e petróleo) até que se esgotem, não importando o que dizem os cientistas sobre o uso dessas energias como uma das principais causas do aquecimento global, além das poluições conectadas ao uso dessas fontes de energias. Não estamos nem aí para o que diz a ciência. Decidimos que o que manda em nós não é a razão, mas o estômago e o bolso.
Continuaremos desmatando e destruindo a biodiversidade, poluindo as águas, sobrecarregando a terra com pesticidas, fertilizantes e nutrientes químicos para produzir mais do que a terra naturalmente consegue, para depois desperdiçar 40% dos alimentos. Continuaremos produzindo lixo e mais lixo e jogando nos córregos, nos rios, no mar e que se lixe a natureza. Decidimos que o que importa é o estômago e o bolso.
Quanto aos animais, que não são meio ambiente, não são recursos naturais como alguns insistem em afirmar, mas são seres vivos com os mesmos interesses dos humanos (viverem livres, com saúde e não morrer), continuaremos tratando-os como coisas e como recursos naturais, criando-os com requinte tecnológico de crueldade, e matando-os aos bilhões todos os anos (7 bilhões por ano no Brasil e 70 bilhões por ano no mundo) sem cair no “sentimentalismo” dos defensores dos animais. Não importa se a administração tecnológica do sofrimento e da morte na indústria do leite, ovos e carne (eufemisticamente nomeados pelos industriais de proteína animal) seja a principal causa do desmatamento, da perda da biodiversidade, da poluição do solo e das águas e da emissão de gases de efeito estufa. O que nos importa é o estômago e o bolso.
Em relação aos humanos, o que nos interessa nos humanos é que eles continuem o que sempre foram: consumidores. E os que não estão incluídos no consumo (os pobres) e os que retardam a destruição das florestas vivendo felizes nela (os índios), nós daremos um jeito para que aos poucos e rapidamente se encontrem com o Pai eterno no outro lado da vida. Sem dó e piedade continuaremos a adorar o deus mercado e quem se atrever a não prestar culto em seus templos e a seus sacerdotes, que saibam que não estamos para brincadeira!
Se por acaso você for alguém muito preocupado com a natureza, com animais, com os pobres e condenados da terra, então, nesse dia 05 de junho, junta-se aos que também se preocupam e reze, chore juntos, ou acenda uma vela de esperança para que amanhã a soma das fagulhas de luz se tornem um clarão...
Em relação ao meio ambiente, parece que já decidimos que não nos interessam as gerações futuras e que não abriremos mão dos lucros e bem-estar atuais e imediatos, em nome de sentimentalismos com as “almas” que ainda não estão sequer projetadas na mente e nos corpos dos homens e mulheres que por ora circulam sobre a terra. Ponto. Continuaremos queimando energias fósseis (carvão, gás e petróleo) até que se esgotem, não importando o que dizem os cientistas sobre o uso dessas energias como uma das principais causas do aquecimento global, além das poluições conectadas ao uso dessas fontes de energias. Não estamos nem aí para o que diz a ciência. Decidimos que o que manda em nós não é a razão, mas o estômago e o bolso.
Continuaremos desmatando e destruindo a biodiversidade, poluindo as águas, sobrecarregando a terra com pesticidas, fertilizantes e nutrientes químicos para produzir mais do que a terra naturalmente consegue, para depois desperdiçar 40% dos alimentos. Continuaremos produzindo lixo e mais lixo e jogando nos córregos, nos rios, no mar e que se lixe a natureza. Decidimos que o que importa é o estômago e o bolso.
Quanto aos animais, que não são meio ambiente, não são recursos naturais como alguns insistem em afirmar, mas são seres vivos com os mesmos interesses dos humanos (viverem livres, com saúde e não morrer), continuaremos tratando-os como coisas e como recursos naturais, criando-os com requinte tecnológico de crueldade, e matando-os aos bilhões todos os anos (7 bilhões por ano no Brasil e 70 bilhões por ano no mundo) sem cair no “sentimentalismo” dos defensores dos animais. Não importa se a administração tecnológica do sofrimento e da morte na indústria do leite, ovos e carne (eufemisticamente nomeados pelos industriais de proteína animal) seja a principal causa do desmatamento, da perda da biodiversidade, da poluição do solo e das águas e da emissão de gases de efeito estufa. O que nos importa é o estômago e o bolso.
Em relação aos humanos, o que nos interessa nos humanos é que eles continuem o que sempre foram: consumidores. E os que não estão incluídos no consumo (os pobres) e os que retardam a destruição das florestas vivendo felizes nela (os índios), nós daremos um jeito para que aos poucos e rapidamente se encontrem com o Pai eterno no outro lado da vida. Sem dó e piedade continuaremos a adorar o deus mercado e quem se atrever a não prestar culto em seus templos e a seus sacerdotes, que saibam que não estamos para brincadeira!
Se por acaso você for alguém muito preocupado com a natureza, com animais, com os pobres e condenados da terra, então, nesse dia 05 de junho, junta-se aos que também se preocupam e reze, chore juntos, ou acenda uma vela de esperança para que amanhã a soma das fagulhas de luz se tornem um clarão...
segunda-feira, 5 de junho de 2017
A IMPRENSA BRASILEIRA
Nenhum veículo de comunicação tem a obrigação de adotar linhas editoriais progressistas e sintonizadas com causas caras à esquerda. Aliás, meios de comunicação de massa com essas características são francamente minoritários ao redor do mundo.
Todavia, como diz um dos nossos maiores jornalistas, o bravo Mino Carta, o compromisso com a "verdade factual", premissa básica do jornalismo, devia ser ponto de honra de qualquer empresa de comunicação, de todo jornalista preocupado em levar informação de qualidade para a sociedade.
Na mídia monopolizada brasileira, isso está a anos luz de acontecer. Mais do que ostentar o nada nobre do título de campeã em manipulações, mentiras e assassinato de reputações, a grande imprensa atua como verdadeiro partido de direita, disputando a agenda política do país, perseguindo e caçando adversários, protegendo corruptos aliados, servindo cegamente aos interesses do mercado e sabotando os interesses populares e nacionais.
Tudo isso temperado com porções generosas de cinismo e canalhice. Aqui seria necessário um número infinito de artigos para descrever flagrantes de desfaçatez por parte dos sabujos dos barões da mídia. Vamos ficar apenas, então, com a economia brasileira. Todos os fundamentos revelam uma economia arruinada pelos golpistas. A dupla Temer-Meireles prometeu o paraíso com o afastamento do PT do governo, mas entregou as labaredas do inferno.
Com taxas de recessão e desemprego recordes, era natural que as pessoas consumissem menos e as empresas travassem seus investimentos. Diante dessa "paz dos cemitérios", ocorreu a mais do que previsível desaceleração dos índices inflacionários. Só que pelo pior motivo possível: a falta dinheiro no bolso, o que impacta negativamente na qualidade de vida.
Mas não é que Globo, Folha, Veja, Estadão e Band passaram a trombetear uma recuperação da economia que só eles são capazes de ver? Esse tipo de manipulação grosseira, porém, tem efeito bumerangue. O cidadão ouve ou lê aquelas notícias e logo questiona: "Mas melhorou para quem? A minha vida, da minha família e dos meus amigos só piora."
Em relação ao desemprego, uma ligeira melhora recente nos números do Cagede (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), do Ministério do Trabalho, bastou para desencadear uma onda de euforia oportunista na mídia, que chegou a estampar que a crise na geração de empregos estava com os dias contados.
Aí vem a ducha de água gelada, em pleno outono, na forma de mais uma pesquisa do IBGE, segundo a qual o desemprego não para de crescer. Nada menos que 13% da população economicamente ativa brasileira estão sem trabalho. Ou seja, 14 milhões de brasileiros e brasileiras não têm acesso ao mais elementar dos direitos sociais, que é o direito ao trabalho.
Mas o esperado silêncio dos comentaristas econômicos dos jornais ante a desmoralização de suas análises e projeções acaba sendo estridente. Afinal, autocrítica e reconhecimento de erros e avaliações é coisa de profissionais e empresas sérias.
Todavia, como diz um dos nossos maiores jornalistas, o bravo Mino Carta, o compromisso com a "verdade factual", premissa básica do jornalismo, devia ser ponto de honra de qualquer empresa de comunicação, de todo jornalista preocupado em levar informação de qualidade para a sociedade.
Na mídia monopolizada brasileira, isso está a anos luz de acontecer. Mais do que ostentar o nada nobre do título de campeã em manipulações, mentiras e assassinato de reputações, a grande imprensa atua como verdadeiro partido de direita, disputando a agenda política do país, perseguindo e caçando adversários, protegendo corruptos aliados, servindo cegamente aos interesses do mercado e sabotando os interesses populares e nacionais.
Tudo isso temperado com porções generosas de cinismo e canalhice. Aqui seria necessário um número infinito de artigos para descrever flagrantes de desfaçatez por parte dos sabujos dos barões da mídia. Vamos ficar apenas, então, com a economia brasileira. Todos os fundamentos revelam uma economia arruinada pelos golpistas. A dupla Temer-Meireles prometeu o paraíso com o afastamento do PT do governo, mas entregou as labaredas do inferno.
Com taxas de recessão e desemprego recordes, era natural que as pessoas consumissem menos e as empresas travassem seus investimentos. Diante dessa "paz dos cemitérios", ocorreu a mais do que previsível desaceleração dos índices inflacionários. Só que pelo pior motivo possível: a falta dinheiro no bolso, o que impacta negativamente na qualidade de vida.
Mas não é que Globo, Folha, Veja, Estadão e Band passaram a trombetear uma recuperação da economia que só eles são capazes de ver? Esse tipo de manipulação grosseira, porém, tem efeito bumerangue. O cidadão ouve ou lê aquelas notícias e logo questiona: "Mas melhorou para quem? A minha vida, da minha família e dos meus amigos só piora."
Em relação ao desemprego, uma ligeira melhora recente nos números do Cagede (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), do Ministério do Trabalho, bastou para desencadear uma onda de euforia oportunista na mídia, que chegou a estampar que a crise na geração de empregos estava com os dias contados.
Aí vem a ducha de água gelada, em pleno outono, na forma de mais uma pesquisa do IBGE, segundo a qual o desemprego não para de crescer. Nada menos que 13% da população economicamente ativa brasileira estão sem trabalho. Ou seja, 14 milhões de brasileiros e brasileiras não têm acesso ao mais elementar dos direitos sociais, que é o direito ao trabalho.
Mas o esperado silêncio dos comentaristas econômicos dos jornais ante a desmoralização de suas análises e projeções acaba sendo estridente. Afinal, autocrítica e reconhecimento de erros e avaliações é coisa de profissionais e empresas sérias.
domingo, 4 de junho de 2017
O QUE.COLOCAR DENTRO.
Quando me perguntam sobre o Brasil, respondo que não vejo luz no fim do túnel porque nem mesmo enxergo o túnel...
Não lembro de ter vivido conjuntura tão incerta. Na ditadura os atores, de um lado e outro, eram definidos. Agora não. Há um assombroso retrocesso no país, e é praticamente insignificante a reação de quem se lhe opõe.
A reforma trabalhista jogou por terra mais de 70 anos de conquistas laborais. A terceirização passou ao primeiro lugar. A reforma da Previdência condena os brasileiros mais pobres a uma vida toda de trabalho forçado, pois dificilmente terão sobrevida após 49 anos de aluguel de sua força de trabalho aos patrões, a preço salarial irrisório.
O Brasil está atolado no retrocesso econômico, no esgarçamento das políticas sociais, na precarização da saúde e da educação, e na corrupção. Os dados são alarmantes: 13 milhões de desempregados; surtos de febre amarela, dengue, zika e chikungunya, violência urbana crescente.
Para se contrapor a essa conjuntura, não basta abastecer as redes sociais de ofensas, ironias, ressentimentos e piadas. É preciso organizar a esperança. Ter clareza de como proceder nas eleições de 2018 e qual o projeto de Brasil dos nossos sonhos.
O voto em 2018 deverá estar pautado pelo Brasil que queremos. Essa visão estratégica deve nortear a escolha de partidos e candidatos.
Eleições, contudo, não mudam um país. O que muda é o fortalecimento dos movimentos sociais, o aprofundamento ideológico à luz do marxismo, o resgate da utopia e a militância junto aos segmentos empobrecidos da população. Buscar a alternativa socialista brasileira com visão crítica das experiências socialistas historicamente existentes.
Há que resistir a essa avassaladora cooptação feita pelo neoliberalismo. A direita avança no mundo todo. A desigualdade se acentua: oito indivíduos, segundo a Oxfam, possuem a mesma renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade.
Temos apenas duas escolhas: cuidar de nossa vida biológica, como estudar para obter emprego e, graças ao salário, sustentar a família, esperando que a sorte não nos empurre para a pobreza; ou imprimir à vida um sentido biográfico, histórico, ao assumir a militância da luta por justiça, liberdade e defesa intransigente dos direitos humanos.
Não nos basta informação. É preciso investir em formação, de modo a construir uma alternativa de sociedade que, a meu ver, deve consistir no eco-socialismo.
Fora Temer? E o que colocar dentro?
Não lembro de ter vivido conjuntura tão incerta. Na ditadura os atores, de um lado e outro, eram definidos. Agora não. Há um assombroso retrocesso no país, e é praticamente insignificante a reação de quem se lhe opõe.
A reforma trabalhista jogou por terra mais de 70 anos de conquistas laborais. A terceirização passou ao primeiro lugar. A reforma da Previdência condena os brasileiros mais pobres a uma vida toda de trabalho forçado, pois dificilmente terão sobrevida após 49 anos de aluguel de sua força de trabalho aos patrões, a preço salarial irrisório.
O Brasil está atolado no retrocesso econômico, no esgarçamento das políticas sociais, na precarização da saúde e da educação, e na corrupção. Os dados são alarmantes: 13 milhões de desempregados; surtos de febre amarela, dengue, zika e chikungunya, violência urbana crescente.
Para se contrapor a essa conjuntura, não basta abastecer as redes sociais de ofensas, ironias, ressentimentos e piadas. É preciso organizar a esperança. Ter clareza de como proceder nas eleições de 2018 e qual o projeto de Brasil dos nossos sonhos.
O voto em 2018 deverá estar pautado pelo Brasil que queremos. Essa visão estratégica deve nortear a escolha de partidos e candidatos.
Eleições, contudo, não mudam um país. O que muda é o fortalecimento dos movimentos sociais, o aprofundamento ideológico à luz do marxismo, o resgate da utopia e a militância junto aos segmentos empobrecidos da população. Buscar a alternativa socialista brasileira com visão crítica das experiências socialistas historicamente existentes.
Há que resistir a essa avassaladora cooptação feita pelo neoliberalismo. A direita avança no mundo todo. A desigualdade se acentua: oito indivíduos, segundo a Oxfam, possuem a mesma renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade.
Temos apenas duas escolhas: cuidar de nossa vida biológica, como estudar para obter emprego e, graças ao salário, sustentar a família, esperando que a sorte não nos empurre para a pobreza; ou imprimir à vida um sentido biográfico, histórico, ao assumir a militância da luta por justiça, liberdade e defesa intransigente dos direitos humanos.
Não nos basta informação. É preciso investir em formação, de modo a construir uma alternativa de sociedade que, a meu ver, deve consistir no eco-socialismo.
Fora Temer? E o que colocar dentro?
sexta-feira, 2 de junho de 2017
A PRÁTICA DO ASSÉDIO
O assédio moral é ato indefensável. A vítima passa a ser agredida em suas condições psicológicas, morais, sociais, de consciência e fisicamente. O assédio é ato que compromete a civilização do século XXI. Em decorrência do aumento de casos de assédio é preciso promover cultura que não possibilite tal atitude.
O termo assédio é usado em muitas expressões. O poeta russo Joseph Brodsky em 1976 aplicou o termo sexual harassment, que em português significa assédio sexual. O médico sueco Heinz Leymannem usou em 1989 a palavra mobbing, traduzido como perseguição no trabalho. O professor inglês Adam Crawford em 1992 utilizou o termo bullying, traduzido por muitas palavras como maltrato psicológico, perseguição, abordagem violenta, intervenção humilhante, etc. A psiquiatra francesa Hirigoyen define o assédio como uma conduta abusiva, configurada por comportamentos, palavras, gestos e atitudes. Algo inaceitável como padrão moral da sociedade. Para a pesquisadora brasileira Margarida Barreto o assédio é uma doença e distorção moral. Na cultura de senso comum assédio significa perseguir com insistência, molestar, perturbar, aborrecer, incomodar, importunar.
A prática do assédio está muito presente em ambientes de trabalho, escolas, clubes, espaços públicos. Normalmente é praticado por quem tem poder ou possuir autoridade sobre o assediado. A Lei n. 8.112 define o ato de assédio como decorrente de uma hierarquia autoritária e que coloca o subordinado em situações humilhantes. Muitas vezes o assediador além de se utilizar de condições de autoridade incentiva-se com preconceitos como machismo e de subordinação de gênero. Possivelmente haja muitas outras motivações que levam ao ato de assediar. Em todo caso, a problemática do assédio frequentemente ganha as manchetes, como no episódio que envolve famoso ator brasileiro ligado à Rede Globo de Televisão. Quanto a isso é preciso refletir sobre a parcela de colaboração da emissora com o episódio sem tirar a responsabilidade do agressor.
Segundo o jornalista Marco Damiani, do jornal Brasil 247, a emissora tem sua grande parcela de culpa, pois “pelas novelas, há décadas, todas as noites, em horários nobres, incentiva o sexo precoce, rebaixa as mulheres a objetos sexuais, faz elogio do machismo, glamouriza a prostituição, afiança traições, arranca roupas, tira camisas, exibe bundas...". Outro alerta vem do escritor italiano Umberto Eco (1932-2016) que afirmou que a má qualidade da televisão destruiria a sociedade italiana. Na péssima qualidade da programação da televisão brasileira como da Rede Globo o perigo de destruição da cultura é constante. Ainda, passado um ano do golpe parlamentar a emissora com seus âncoras felizes transmitiam em rede nacional cartazes escritos "Dilma vaca" e ofereciam seus microfones para manifestações machistas. Por conseguinte, é preciso concordar com Umberto Eco que a má qualidade da televisão brasileira leva a ruir os valores da sociedade e da civilização.
O termo assédio é usado em muitas expressões. O poeta russo Joseph Brodsky em 1976 aplicou o termo sexual harassment, que em português significa assédio sexual. O médico sueco Heinz Leymannem usou em 1989 a palavra mobbing, traduzido como perseguição no trabalho. O professor inglês Adam Crawford em 1992 utilizou o termo bullying, traduzido por muitas palavras como maltrato psicológico, perseguição, abordagem violenta, intervenção humilhante, etc. A psiquiatra francesa Hirigoyen define o assédio como uma conduta abusiva, configurada por comportamentos, palavras, gestos e atitudes. Algo inaceitável como padrão moral da sociedade. Para a pesquisadora brasileira Margarida Barreto o assédio é uma doença e distorção moral. Na cultura de senso comum assédio significa perseguir com insistência, molestar, perturbar, aborrecer, incomodar, importunar.
A prática do assédio está muito presente em ambientes de trabalho, escolas, clubes, espaços públicos. Normalmente é praticado por quem tem poder ou possuir autoridade sobre o assediado. A Lei n. 8.112 define o ato de assédio como decorrente de uma hierarquia autoritária e que coloca o subordinado em situações humilhantes. Muitas vezes o assediador além de se utilizar de condições de autoridade incentiva-se com preconceitos como machismo e de subordinação de gênero. Possivelmente haja muitas outras motivações que levam ao ato de assediar. Em todo caso, a problemática do assédio frequentemente ganha as manchetes, como no episódio que envolve famoso ator brasileiro ligado à Rede Globo de Televisão. Quanto a isso é preciso refletir sobre a parcela de colaboração da emissora com o episódio sem tirar a responsabilidade do agressor.
Segundo o jornalista Marco Damiani, do jornal Brasil 247, a emissora tem sua grande parcela de culpa, pois “pelas novelas, há décadas, todas as noites, em horários nobres, incentiva o sexo precoce, rebaixa as mulheres a objetos sexuais, faz elogio do machismo, glamouriza a prostituição, afiança traições, arranca roupas, tira camisas, exibe bundas...". Outro alerta vem do escritor italiano Umberto Eco (1932-2016) que afirmou que a má qualidade da televisão destruiria a sociedade italiana. Na péssima qualidade da programação da televisão brasileira como da Rede Globo o perigo de destruição da cultura é constante. Ainda, passado um ano do golpe parlamentar a emissora com seus âncoras felizes transmitiam em rede nacional cartazes escritos "Dilma vaca" e ofereciam seus microfones para manifestações machistas. Por conseguinte, é preciso concordar com Umberto Eco que a má qualidade da televisão brasileira leva a ruir os valores da sociedade e da civilização.
quinta-feira, 1 de junho de 2017
COM BOA VONTADE
Na sociedade brasileira atual grassa uma onda de ódio, raiva e dilaceração que raramente tivemos em nossa história. Chegamos a um ponto em que a má vontade generalizada impede qualquer convergência em função de uma saída da avassaladora crise que afeta toda a sociedade.
Immanuel Kant (1724-1804), o mais rigoroso pensador da ética no Ocidente moderno, fez uma afirmação de grandes consequências, em sua Fundamentação para uma metafísica dos costumes(1785): “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Kant reconhece que qualquer projeto ético possui defeitos. Entretanto, todos os projetos possuem algo comum que é sem defeito: a boa vontade. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou não é boa vontade.
Há aqui uma verdade com graves consequências: se a boa vontade não for a atitude prévia a tudo que pensarmos e fizermos, será impossível criar-se uma base comum que a todos envolva. Se malicio tudo, se tudo coloco sob suspeita e se não confio mais em ninguém, então, será impossível construir algo que congregue a todos. Dito positivamente: só contando com a boa vontade de todos posso construir algo bom para todos. Em momento de crise como o nosso, é a boa vontade o fator principal de união de todos para uma resposta viável que supere a crise.
Estas reflexões valem tanto para o mundo globalizado quanto para o Brasil atual. Se não houver boa vontade da grande maioria da humanidade, não vamos encontrar uma saída para a desesperadora crise social que dilacera as sociedades periféricas, nem uma solução para o alarme ecológico que põe em risco o sistema-Terra. Somente na COP 21 de Paris em dezembro de 2015 se chegou a um consenso mínimo no sentido de conter o aquecimento global. Ainda assim as decisões não eram vinculantes. Dependiam da boa vontade dos governos, o que não ocorreu, por exemplo, com o parlamento norte-americano que somente apoiou algumas medidas do Presidente Obama.
No Brasil, se não contarmos com a boa vontade da classe política, em grande parte corrompida e corruptora, nem com a boa vontade dos órgãos jurídicos e policiais jamais superaremos a corrupção que se encontra na estrutura mesma de nossa fraca democracia. Se essa boa vontade não estiver também nos movimentos sociais e na grande maioria dos cidadãos que com razão resistem às mudanças anti-populares, não haverá nada, nem governo, nem alguma liderança carismática, que seja capaz de apontar para alternativas esperançadoras.
A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de guerra civil mundial. Não há ninguém, nem as duas Santidades, o Papa Francisco e o Dalai Lama, nem as elites intelectuais mundiais, nem a tecno-ciência que forneçam uma chave de encaminhamento global. Abstraindo os esotéricos que esperam soluções extra-terrestres, na verdade, dependemos unicamente da boa vontade de nós mesmos.
O Brasil reproduz, em miniatura, a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em quinhentos anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Nossas elites nunca pensaram uma solução para o Brasil como um todo mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Está aqui a razão do golpe parlamentar que foi sustentado pelas elites opulentas que querem continuar com seu nível absurdo de acumulação, especialmente, o sistema financeiro e os bancos cujos lucros são inacreditáveis.
Por isso, os que tiraram a Presidenta Dilma do poder por tramoias político-jurídicas, ousaram modificar a constituição em questões fundamentais para a grande maioria do povo, como a legislação trabalhista e a previdência social, que visam, em último termo, desmontar os benefícios socias de milhões, integrados na sociedade pelos dois governos anteriores e permitir um repasse fabuloso de riqueza às oligarquias endinheiradas, absolutamente descoladas do sofrimento do povo e com seu egoísmo pecaminoso.
Contrariamente ao povo brasileiro que historicamente mostrou imensa boa vontade, estas oligarquias se negam saldar a hipoteca de boa vontade que devem ao país.
Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Em momento de risco, no caso do barco-Brasil afundando, todos, até os corruptores se sentem obrigados a ajudar com o que lhes resta de boa vontade. Já não contam as diferenças partidárias, mas o destino comum da nação que não pode cair na categoria de um país falido.
Em todos vigora um capital inestimável de boa vontade que pertence à nossa natureza de seres sociais. Se cada um, de fato, quisesse que o Brasil desse certo, com a boa vontade de todos, ele seguramente conseguiria.
Immanuel Kant (1724-1804), o mais rigoroso pensador da ética no Ocidente moderno, fez uma afirmação de grandes consequências, em sua Fundamentação para uma metafísica dos costumes(1785): “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Kant reconhece que qualquer projeto ético possui defeitos. Entretanto, todos os projetos possuem algo comum que é sem defeito: a boa vontade. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou não é boa vontade.
Há aqui uma verdade com graves consequências: se a boa vontade não for a atitude prévia a tudo que pensarmos e fizermos, será impossível criar-se uma base comum que a todos envolva. Se malicio tudo, se tudo coloco sob suspeita e se não confio mais em ninguém, então, será impossível construir algo que congregue a todos. Dito positivamente: só contando com a boa vontade de todos posso construir algo bom para todos. Em momento de crise como o nosso, é a boa vontade o fator principal de união de todos para uma resposta viável que supere a crise.
Estas reflexões valem tanto para o mundo globalizado quanto para o Brasil atual. Se não houver boa vontade da grande maioria da humanidade, não vamos encontrar uma saída para a desesperadora crise social que dilacera as sociedades periféricas, nem uma solução para o alarme ecológico que põe em risco o sistema-Terra. Somente na COP 21 de Paris em dezembro de 2015 se chegou a um consenso mínimo no sentido de conter o aquecimento global. Ainda assim as decisões não eram vinculantes. Dependiam da boa vontade dos governos, o que não ocorreu, por exemplo, com o parlamento norte-americano que somente apoiou algumas medidas do Presidente Obama.
No Brasil, se não contarmos com a boa vontade da classe política, em grande parte corrompida e corruptora, nem com a boa vontade dos órgãos jurídicos e policiais jamais superaremos a corrupção que se encontra na estrutura mesma de nossa fraca democracia. Se essa boa vontade não estiver também nos movimentos sociais e na grande maioria dos cidadãos que com razão resistem às mudanças anti-populares, não haverá nada, nem governo, nem alguma liderança carismática, que seja capaz de apontar para alternativas esperançadoras.
A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de guerra civil mundial. Não há ninguém, nem as duas Santidades, o Papa Francisco e o Dalai Lama, nem as elites intelectuais mundiais, nem a tecno-ciência que forneçam uma chave de encaminhamento global. Abstraindo os esotéricos que esperam soluções extra-terrestres, na verdade, dependemos unicamente da boa vontade de nós mesmos.
O Brasil reproduz, em miniatura, a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em quinhentos anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Nossas elites nunca pensaram uma solução para o Brasil como um todo mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Está aqui a razão do golpe parlamentar que foi sustentado pelas elites opulentas que querem continuar com seu nível absurdo de acumulação, especialmente, o sistema financeiro e os bancos cujos lucros são inacreditáveis.
Por isso, os que tiraram a Presidenta Dilma do poder por tramoias político-jurídicas, ousaram modificar a constituição em questões fundamentais para a grande maioria do povo, como a legislação trabalhista e a previdência social, que visam, em último termo, desmontar os benefícios socias de milhões, integrados na sociedade pelos dois governos anteriores e permitir um repasse fabuloso de riqueza às oligarquias endinheiradas, absolutamente descoladas do sofrimento do povo e com seu egoísmo pecaminoso.
Contrariamente ao povo brasileiro que historicamente mostrou imensa boa vontade, estas oligarquias se negam saldar a hipoteca de boa vontade que devem ao país.
Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Em momento de risco, no caso do barco-Brasil afundando, todos, até os corruptores se sentem obrigados a ajudar com o que lhes resta de boa vontade. Já não contam as diferenças partidárias, mas o destino comum da nação que não pode cair na categoria de um país falido.
Em todos vigora um capital inestimável de boa vontade que pertence à nossa natureza de seres sociais. Se cada um, de fato, quisesse que o Brasil desse certo, com a boa vontade de todos, ele seguramente conseguiria.
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