sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O HOMEM TRISTE

Não aconteceu de uma hora pra outra. Entristecer é um itinerário que se faz ladeira abaixo e, como diz o ditado, “pra baixo todo santo ajuda”.

Todo demônio também...

Foi um entristecer gradativo, uma perda inconsciente e progressiva de espontaneidade e alegria que lhe foi tirando cor dos pensamentos, silenciando palavras, atrofiando gestos.

A vida foi ficando cinza...

O sorriso, antes solto, fácil, foi se embotando, a começar pela capacidade de rir de si mesmo. Passou a levar a sério a sua tristeza.

Começou a contabilizar as perdas, mais que as conquistas.

Aos poucos, uma amnésia afetiva foi-se acumulando como poeira, escorrendo do cérebro, qual gelada lava, até seu coração.

Não se lembrava da última palavra de ternura que falara ou ouvira, nem o último gesto de carinho que dera ou recebera.

Por fim, era um homem triste., tornou-se um homem triste...

Algumas pessoas, mais próximas ou mais atentas, até perceberam, mas tinham suas próprias tristezas com que lidar. As tentativas fraternas de consolo, estímulo, incentivo, foram ficando tímidas e morreram dessa inanição que nasce com a impaciência.

Passou a pensar na morte, não como uma ruptura dramática, espetacular, mas como um lenitivo para aquele cansaço. Estava cada vez mais difícil carregar nas costas o peso dos dias.

Sentia saudades de suas crenças e alegrias.

Fora um homem de fé.

Quando a fé se eclipsava, recorria à esperança.

Mas, acima de tudo, apegava-se ao amor, como seu berço, caminho e destino.

Quando o amor lhe faltou, definitivamente, entristeceu...



Eduardo Machado

JULGAR?

A pergunta: o que aprendemos no ano que passou?
Que o mais difícil é aprender a julgar.

Por isso neste período refletimos sobre a nossa relação com os outros, pois é neles que espelhamos nossos desejos e nossos temores, nossas idealizações e nossos preconceitos, nosso egoísmo e nossa solidariedade.

Em cada julgamento que realizamos estamos julgando a pessoa que somos.

Lembramos de que a capacidade de julgamento é o que nos faz humanos, mas também pode nos desumanizar, quando:

Julgamos em forma apreçada, e fomos injustos.
Julgamos sob o efeito da cólera ou do medo, e agimos errado.
Julgamos em forma preconceituosa, e humilhamos.
Julgamos em forma dogmática, e desrespeitamos quem pensa diferente.
Julgamos em função da opinião dos outros e não do que sentimos, e nos tracionamos.
Julgamos a forma e não o conteúdo, e fomos banais.
Julgamos quando o que deveríamos ter feito era só compreender.
E usamos o poder no lugar do dialogo, e oprimimos.
E valorizamos o que não merecia e desvalorizamos o que não devia.
E humilhamos com nosso olhar ou com um comentário, incapazes de sair de nossa forma estreita de ser.

Porque nos propomos mudar nossa forma de julgar.

E sermos mais prudentes e menos afobados.
E sermos mais compreensivos e menos preconceituosos
E sermos mais cautelosos e menos apressados.
E sermos mais curiosos e menos dogmáticos.
E sermos mais generosos e menos egoístas.
Valorizando o essencial e não o supérfluo.
Protegendo nossos interesses sem pisar nos outros.
Levando em conta nossos sentimentos sem perder a noção de justiça.
Superando nossos preconceitos que são uma couraça empobrecedora.
E não permitindo que os medos nos dominem.

De forma que possamos chegar ao fim deste ano tendo julgado menos porque nos conhecemos mais, nos colocando ainda que seja por um instante na pele do outro, acumulado assim menos arrependimentos e mais atos de amor, produzido menos dor e mais satisfação.

Porque queremos ser melhores, vale a pena viver e brindar:

Que vivemos, que existimos, que chegamos, a este momento.


Bernardo Sorj

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

FERIAS CONTEMPLATIVAS

Janeiro chegou e com ele as férias escolares, que comandam não apenas o calendário das instituições de ensino, mas a vida de uma boa parcela da população. E mais uma vez, aquilo que deveria ser repouso, se torna um frenético ir e vir, com agências de viagens abarrotadas, aeroportos e rodoviárias cheias, hotéis lotados.

A cultura das sensações e satisfações imediatas na qual vivemos mergulhados roubou inclusive nosso tempo e ­ o que é mais grave ­ nossa capacidade de repousar, descansar, relaxar. Ao estresse do tempo de trabalho e estudo, agregou-se o das férias, onde é absolutamente imprescindível fazer programas incessantes, viajar cansativamente para lugares longínquos. Atrás, arrastadas e impacientes, crianças entediadas, assediando sem parar os pais a fim de comprar, consumir, gastar o dinheiro que podem e não podem, adquirindo objetos, souvenires, brindes e gadgets para os quais provavelmente nunca mais vão olhar.

A volta ao lar trará consigo o sabor algo amargo da frustração do investimento hercúleo em um programa que, afinal, não valeu tanto a pena. A sensação de encontrar-se tão ou mais cansado do que no dia da partida e com a conta bancária reduzida a quase zero deixará no ar uma pergunta incômoda, mas inevitável: mas afinal, não se consegue descansar nem nas férias?

Diabolicamente engenhosa, a sociedade em que vivemos roubou até mesmo nossa capacidade de descanso gratuito. Porque é disso que se trata quando se fala em férias, repouso, lazer, retempero de forças e energias. A máquina do consumo quer colocar-nos em movimento custe o que custar. E o faz, não menos exaustivamente porque em contexto ou situação diferente. E como seres humanos, vamos sendo reduzidos a meros consumidores, em radical ruptura de aliança com a criação da qual fazemos parte.

O tempo de férias seria ­ se tal nos fosse permitido pelo frenesi em que vivemos ­ ideal para recuperar a relação com a criação da qual somos parte. Não para dominá-la ou instrumentalizá-la, como o fazem ­ com nossa cumplicidade ­ as indústrias de turismo e as cadeias de hotelaria. Mas para colocar-se, modesta e maravilhadamente, na escola do amor que olha, vê com respeito, contempla e entra em diálogo e comunicação.

O mundo assim por nós contemplado se tornará, então, surpreendentemente diáfano e transparente da presença divina, desdobrando seus mistérios e encantos diante de nosso humano olhar purificado de toda voracidade instrumentalizadora e tornado capaz de adoração. Nele, criaturas humanas que somos, nos sentiremos chamados a descobrir nosso lugar, que é de aliança e comunhão com a totalidade do cosmos.

Re-adquirir, portanto, um olhar contemplativo, extasiado, permitiria ver no mundo e em todos os seres viventes a marca comum de criaturas de Deus. Revelaria a criação como divina morada de Deus e do ser humano. E poderia ser, enfim, um bom programa para nossas próximas férias. Assim, quem sabe voltaríamos ao trabalho renovados e purificados do muito que o cotidiano nos tem esmagado com sua implacável exigência e frenético ritmo.

Mas, sobretudo, talvez aprendêssemos um pouco mais quem somos: não máquinas de produzir e consumir, mas pessoas criadas, em nada superiores aos outros seres, concidadãos humildemente "posteriores" de uma comunidade de seres vivos que nos antecedeu em seu emergir das mãos do Criador.

Talvez, além de tudo isso, este tempo de repouso ainda nos ensinasse mais sobre quem é esse Criador que, desde sua eternidade, nos desejou e inseriu no tempo e na história, a fim de "transformar a terra", mas também e não menos louvar e alegrar-se com as maravilhas que nos circundam. Aí sentiríamos que a coroa da criação de Deus não é o homem, mas sim o sábado, festa celebrativa e gratuita do Criador e do criado. Essas, sim, poderiam ser férias realmente "sabáticas" e contemplativas.

OITO HOMENS TEM A MESMA RIQUEZA QUE 3,6 BILHÕES DE PESSOAS MAIS POBRES DO MUNDO



Um novo relatório da organização não governamental Oxfam, divulgado nesta segunda (16), revela que o fosso material entre o 1% e os 99% da humanidade, respectivamente, o topo e a base da pirâmide da riqueza mundial, torna-se cada vez maior, com consequências nefastas para a sociedade. O documento também capta uma tendência preocupante: o abismo entre ricos e pobres está aumentando em uma velocidade muito maior do que a prevista. Baseado no Credit Suisse Wealth Report 2016 e na lista de milionários da Forbes, o relatório alerta que apenas oito homens concentram a mesma riqueza do que as 3,6 bilhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da humanidade.

As informações são de reportagem da revista Carta Capital.

"Os oito primeiros colocados na lista da Forbes são o criador da Microsoft, Bill Gates (75 bilhões de dólares), Amancio Ortega (67 bilhões), da grife espanhola Zara; Warren Buffet (60,8 bilhões), da Berkshire Hathaway, Carlos Slim (50 bilhões), das telecomunicações e Jeff Bezos (45,2 bilhões), da Amazon. Figuram ainda o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg (44, 6 bilhões), Larry Ellison (43,6 bilhões), da Oracle, e, por fim, Michael Bloomberg (Bloomberg LP), com 40 bilhões.

Tal riqueza é, na maioria dos casos, hereditária. Nas próximas duas décadas, 500 indivíduos passarão mais de 2,1 trilhões de dólares para seus herdeiros, uma soma maior do que o PIB de um país como a Índia, que tem 1,2 bilhão de habitantes.

Intitulado Uma economia humana para os 99%, o relatório analisa de que maneira grandes empresas e os "super-ricos" trabalham para acirrar o fosso da desigualdade.

A renda de altos executivos, frequentemente engordada pelas ações de suas empresas, tem aumentado vertiginosamente, ao passo que os salários de trabalhadores comuns e a receita de fornecedores têm, na melhor das hipóteses, mantido-se inalterado e, na pior, diminuído.

O estudo aponta que, atualmente, o diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa.

Além disso, os altos lucros das empresas são maximizados pela estratégia de pagar o mínimo possível em impostos, utilizando para este fim paraísos fiscais ou promovendo a concorrência entre países na oferta de incentivos e tributos mais baixos."

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O PREÇO DO SERVIÇO



A injeção de dinheiro público, outra vez, no Grupo Abril já era esperado, assim como aumentou em quase 1.000% os investimentos em outros meios de comunicação, notadamente, o Grupo Globo.

Sem eles, o golpe parlamentar que apeou Dilma Rousseff do poder não teria se viabilizado. Sem Abril e Globo, a demonização do PT e, ato contínuo, a criação de um culto antipetista, com a ascensão messiânica do juiz Sérgio Moro, jamais teria acontecido.

Ainda assim, não deixa de ser surpreendente a indigência moral e o servilismo dessa gente.

Comparar a vida de Mick Jagger à de milhões de brasileiros - trabalhadores e trabalhadoras rurais, domésticas, pedreiros, serventes, vigilantes e toda a gente do povo - que irão morrer durante o expediente não é só ridículo.

É cruel.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

FILOSOFANDO

Os recentes morticínios em presídios e manifestações eticamente equivocadas daí decorrentes, em especial por parte de autoridades constituídas (legitimamente ou não), devem nos levar à reflexão acerca da ideia do mal.

O mal é desafiador e sempre se constitui em verdadeiro enigma para a filosofia. Possivelmente foi Kant quem elaborou a noção de "mal radical" como uma predisposição humana. Contudo, certamente foi Hannah Arendt quem resgatou e atualizou o conceito ao falar dos movimentos totalitários do Século XX.É de Arendt o que segue:

"Pode-se dizer que esse mal radical surgiu em relação a um sistema, no qual todos os homens se tornaram supérfluos. Os que manipulam esse sistema acreditam na própria superfluidade quanto na de todos os outros, e os assassinos totalitários são os mais perigosos, porque não se importam se estão vivos ou mortos; se jamais viveram ou se nunca nasceram".

Adicionalmente ela esclareceu que o mal se manifesta onde encontra espaço institucional para isso em razão de uma escolha política e se banaliza com o vazio do pensamento. Tudo a ver com os últimos e chocantes episódios protagonizados em nossas plagas.

Mas seria o "sistema" mencionado por Hannah Arendt uma entidade intangível, fluida embora onipresente? No caso dos massacres, a citação do "sistema" deve nos levar a examinar as questões relativas à aplicação de penas em geral (por vezes tão brandas e em outras tão severas) e ao encarceramento exacerbado em particular.

Pasmem ao saberem que quase 40% do total de presos no Brasil em 2015/16 sequer foram condenados. E mais, o Brasil tem hoje 4ª maior população prisional do mundo em termos absolutos. Só perde para EUA (2,2 milhões), China (1,7 milhão) e Rússia (673 mil).

Existem 607.731 presos no Brasil para um total de 376.669 vagas distribuídas em 1.424 unidades prisionais, o que significa 161% mais presos do que vagas. Além disso, do ponto de vista substantivo (dos valores éticos), qualquer pessoa que visite qualquer um dos nossos presídios ficará chocado com o ambiente absolutamente medieval, desumano e desumanizador.

Aliás, um grande equívoco que se pode cometer é compreender a sociedade dividida entre bons e maus, honestos e malfeitores, e imaginar que é possível suprimir o grau de liberdade de alguns sem afetar todos os demais. Não se trata de "passar a mão na cabeça" do apenado, se trata em ver em todo homem e mulher em primeiro lugar o ser humano. Trata-se de questionar algumas tendências autoritárias e retrógradas (por aderência à usurpação do poder de 2016) que vêm emergindo nos dias atuais.

Nessa linha é lícito citar a banalização da prisão temporária; a custódia antecipada se transformando em norma geral; as propostas de emenda para que a polícia tenha autonomia para prender, mesmo sem autorização de um juiz; a generalização da interceptação telefônica; a inversão da presunção da inocência e todo o leque de caráter arbitrário que as mentes simplistas estão concebendo e apresentando. Enfim, a repressão à criminalidade não pode fundamentar a supressão de direitos em recaída autoritária

Lembrando o que Darcy Ribeiro dizia em 1982: "se os governantes não construírem mais escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir mais presídios".

domingo, 15 de janeiro de 2017

O CASAMENTO HOJE EM DIA...

O Cristianismo se vale da dinâmica de comunidade para subsistir, tendo o próprio Cristo afirmado que “” (Mt 18,20). Nesse sentido, a pequena comunidade do matrimônio é um casulo de amor e respeito à vida. Porém, essa vida também é ameaçada por algumas enfermidades e deficiências como a discórdia, o divórcio, a profanação da aliança conjugal, as dificuldades econômicas.

No matrimônio, o amor divino é vivido de maneira intensa pelos cônjuges. Esse amor fecundo de vida se prolifera na criação de uma nova vida, os filhos, que emanam dessa união e desse enlace amoroso do casal. A prole, designada a ser amada e cuidada no amor e na vontade de Deus, surge para formar a família, uma pequena “eclesíola” (LIBÂNIO). Essa união dos cônjuges é sacramentada pela ação da Igreja. Os pais educarão seus filhos no amor paternal e na religiosidade, recebendo dos filhos a fidelidade filial. Essa fé e educação nos desígnios do Criador é o que tornam o matrimônio e a família santificados.

A pureza e a fidelidade são permeadas pelo amor conjugal, tornando a união do casal uma construção de vida e de respeito. Essas são também características de uma união de santidade e de fecundidade, a partir da qual a prole é gerada e cuidada no círculo familiar. Essa dinâmica fecunda é uma continuidade, uma colaboração com o Criador em sua obra, ocasião na que os cônjuges se tornam intérpretes da intenção divina.

Porém, o que caracteriza a família contemporânea? A compreensão tradicional afirma que se trata da composição marido/esposa/filhos. Não seria uma compreensão desatualizada e descontextualizada da realidade, principalmente nos aglomerados urbanos? Ora, nesses lugares percebemos uma estruturação familiar muitas vezes condicionada ao abandono dos filhos pelos pais (homens), sendo criados apenas pelas mães solteiras, desquitadas, ou sem união estável. Casos diversos, mas não menos reflexíveis, são as famílias compostas por pais de um mesmo gênero (homossexuais) e seus filhos geralmente adotados ou gerados através de gravidez assistida.

Nesse sentido, o mais importante é a forma como cada questão é abordada dentro do seu contexto e sejam compreendidos antes de serem julgados e que garantam a igualdade dos indivíduos. Para que haja a família faz-se necessário não fragmentos de amor, mas amor.

sábado, 14 de janeiro de 2017

JAMAIS CANSAR DE FAZER O BEM



A vida  sempre foi pautada por horários definidos. A reflexão é o espaço onde o dia é acolhido e ofertado. Uma tradição bem distante da disciplina, nada de rigidez, pois o amor é a inspiração que faz subir aos céus as preces de gratidão e de comunhão. A dedicação e o carinho  tornam de praxe que as orquídeas recebidas são preferencialmente colocadas em local de destaque. Nestes dias de início de um novo ano, entre uma meditação e outra, o olhar alcançou a orquídea presenteada por ocasião do meu aniversário, ainda no mês de abril. Algo incrível: algumas flores continuam lá, apesar do tempo decorrido. Novas flores surgiram, o ontem e o hoje continuam embelezados por essa maravilhosa orquídea.

Sem a intenção de ficar distraído durante a oração matinal, o pensamento percorreu outros horizontes. Impossível não ficar admirado diante daquela maravilhosa orquídea. Lembrei das mãos que a ofertaram. Pensei também na durabilidade das flores. Veio presente a capacidade de produzir novas flores. Pensei no ano que acabou de findar. Apesar de tudo, muitas flores foram colhidas. Alguns resumem diferentemente os dias, salientando que foram mais espinhos do que flores. Talvez não estivéssemos mais acostumados com exigências e carências. A abundância não prepara pessoas resistentes e resilientes.

A orquídea, com suas novas flores, inspira e desafia: independente da situação, é necessário continuar florescendo. Um novo ano é feito de 365 novas oportunidades. As condições externas nem sempre serão favoráveis, mesmo assim é importante não perder de vista a lição da orquídea: em qualquer situação, não deixar de florescer. Evidente que, em alguns momentos, as exigências superarão o ânimo e as próprias forças. Apesar de tudo, é possível continuar avançando, adaptando-se às circunstâncias adversas, realimentando a esperança, aberto às novas possibilidades. Em tempos de gigantesca complexidade, a criatividade deverá estar em contínuo movimento.

Voltando à reflexão, as preces resumem o desejo para este novo ano: ser como a orquídea, continuar florescendo e acreditando no melhor. Não desejar facilidades, mas pedir forças para ser capaz de colorir cada situação, principalmente quando o sofrimento for por demais insistente. Agradecer cada instante, saber viver com menos, sentir a alegria de viver, jamais cansar de fazer o bem.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ONDE ESTÃO?

No âmbito do país violento, golpista, clivado por grupos políticos em pé-de-guerra, agrilhoado por uma crise política sem fim, sem saída, sem perspectiva de solução, os atos de monstruosidade ou de indiferença pelo direito alheio se tornam banais.

Um ambulante que teve a infeliz ideia de separar uma briga teve a cabeça pisoteada até o esmagamento por duas feras humanas enquanto os transeuntes mal desviavam o olhar do linchamento que tinham diante dos olhos.

Onde estão as pessoas que deveriam estar nas ruas correndo atrás de produzir para o país sair do buraco?

Onde estão as pessoas que deveriam estar nos parlamentos buscando soluções ou propostas?

Onde estão os ativistas que deveriam estar bradando, nas ruas e/ou nas redes, que não está tudo bem, não, e que não podemos nos dar ao luxo de ir salgar a bunda na praia porque instalaram uma ditadura no país?

Essa paz é falsa, é uma Pax Romana (longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano em 28 a. c.)

O grande risco que os golpes e as ditaduras deles decorrentes oferecem é o que está acontecendo no país, é a acomodação e o desalento, diferentes no conteúdo mas idênticos na forma.

As pessoas desistem de lutar e decidem ir “cuidar de suas vidas”. E é com isso que os golpistas contam, é com isso que os carrascos do povo contam, é com isso que os tubarões capitalistas contam, é com isso que os fascistas contam.

O objetivo do fascismo é justamente desestimular reações aos desmandos dos regimes autoritários vigentes ou pretendidos. Uma vez que você não se rebela mais, que esconde suas opiniões políticas, que aceita de cabeça baixa os desmandos dos novos donos do poder, o objetivo foi alcançado e não há mais necessidade de a militância fascista fazer suas blitz do ódio.

O Brasil ainda está vivendo do pouco mais de uma década de bonança econômica e social gerada pelos governos petistas. Ainda tem “gordura” para queimar. Mas a nova realidade irá se impor quando as reservas acabarem.

Só aí, quando o cinto apertar de verdade, é que as pessoas vão se dar conta de que não deveriam ter se acomodado, pois a viagem de volta à democracia só começará no momento em que a sociedade se der conta de que vai ter que se mexer ou continuará afundando na areia movediça do autoritarismo e da injustiça.

Mexa-se, saia do marasmo, não se desligue de tudo, não vá “cuidar da sua vida”, pois sua vida é seu país, sua vida depende da taxa de democracia por habitante que sua pátria tiver. Os problemas não desaparecem quando você os ignora. Pelo contrário, aumentam.

QUANDO SE TEM A MENTE ABERTA.

Um dos males que ameaçam subliminarmente nosso dia a dia é o risco da rotina. Popularmente fala-se da “mesmice”. Nada é relevante, tudo é igual. Vai-se vivendo. E assim passam as horas, os dias, os anos e a vida. Esse tipo de conformismo leva tantas pessoas a se arrastarem por um caminho que não oferece nem luzes, nem esperanças, nem horizontes.

O pior risco da rotina não é parar, pois quem deixa a vida estacionar na rotina só tem a regredir. Vida que parou dá para trás. Mas se há este perigo natural, que pode abater qualquer um de nós, existe um outro lado, o da capacidade de reagir. Os conformistas sentam à sombra de uma existência rotineira. Os inconformistas reagem, levantam-se e, antes de enfrentar os desafios, enfrentam a si mesmos, pois dentro de nós mora um inimigo em potencial.

Reagir é uma das atitudes mais dignas. Evidentemente, me refiro à reação diante da rotina da vida. Nada a ver com as reações impulsivas e agressivas diante de fatos ou pessoas. Para acontecer uma reação positiva, capaz de enfrentar a rotina e conferir dinamismo novo à vida, não bastam os recursos próprios da vontade e a liberação de bons desejos. Necessitamos contar também com os incentivos que vêm das pessoas e, acima de tudo, de Deus, do sobrenatural. Só ao natural não se consegue fazer acontecer uma reação de plenitude.

Sempre nos ajuda quando lembramos que cada momento da vida é único, o dia de hoje não se repete, cada ação que faço não tem igual. Tudo é novo e sempre novo para quem acolhe um pouco de eternidade nos pequenos espaços do tempo da vida de cada dia.

 “O contexto social em que vocês estão inseridos, às vezes, sofre o peso da mediocridade e do tédio. Não é necessário se resignar à monotonia da vida cotidiana, mas cultivar grandes projetos, ir além do comum: não lhes deixem roubar o entusiasmo! Será um erro também deixar-se aprisionar pelo pensamento fraco e pelo pensamento uniforme”.

Essa exortação vale para todos. Quando temos uma mente aberta, o pensamento flui fecundo e criativo. Somos chamados a aprender e nos deixar iluminar pelo bem, pela verdade e pela beleza. Um dos cuidados para não cairmos na rotina é também não nos deixarmos arrastar pela opinião dominante, não nos deixarmos condicionar pela maioria. Às vezes precisamos ter a coragem de remar contra a corrente para escolher a medida alta de um viver digno e esperançoso.

Tantas vezes, por conveniência ou até por questão de sobrevivência, há pessoas com imenso potencial para alcançar a medida alta da vida e da fé, mas terminam se nivelando por baixo e sufocando suas maiores aspirações. Cada dia que passa se faz mais necessário reagir em nome da dignidade e com a sempre possível força da fé, da esperança e do amor.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A ESCOLA NA VISÃO DE FRANCISCO

A escola é imprescindível na vida das pessoas. Sem ela certamente a vida seria muito diferente. Todos deveriam frequentar a escola por longos anos, se possível escolas de excelente qualidade de ensino. No Brasil, a realidade das escolas está longe de ser a ideal. Muitas coisas precisam ser repensadas. O discurso do Papa Francisco “Eu amo a Escola” pode nos ajudar nesta tarefa.

Em 10 de maio de 2014, na Praça de São Pedro, Roma, o Papa Francisco proferiu discurso aos estudantes, professores, pais e servidores das escolas da Itália. Inicialmente reconhece as dificuldades, os problemas e as coisas que não correm bem nas escolas. Porém, em seu discurso foi além de constatar a situação das escolas e surpreendeu a multidão: “Eu amo a escola, eu amei a escola como aluno, como estudante e como professor. E depois como bispo”. E prosseguiu com as razões do amor pela escola.

A razão primeira é por guardar uma imagem bela da escola, como o lugar onde não se aprende sozinho, mas há sempre um olhar que ajuda a crescer. Lembra a primeira professora, e que posteriormente a acompanhou e a visitou em seu leito de morte aos 98 anos. Elogia: “porque aquela mulher me ensinou a amá-la. Este é o primeiro motivo pelo qual eu amo a escola”.

A segunda razão é porque a escola é “sinônimo de abertura à realidade”. Ir à escola significa abrir a mente e o coração, os aspectos e as dimensões da realidade. Na escola, “nos primeiros anos aprende-se a 360 graus, em seguida devagarzinho aprofunda-se uma área e por fim especializa-se”. O aprender é tornar-se uma pessoa aberta. Os professores ensinam aos alunos os caminhos para permanecer abertos à realidade. O professor é sempre um pensamento aberto que procura contagiar os alunos.

A terceira razão é porque a escola “é um lugar de encontro”. Lugar onde estamos a caminho, iniciando um processo, empreendendo um caminho. Encontra-se companheiros, professores, pessoas, famílias, culturas, relações, respeito. É o lugar de aplicar o provérbio africano: “para educar um filho é necessária uma aldeia”. E para educar um jovem “é necessária muita gente: família, escola, professores, pessoal não docente, todos”.

A quarta razão é porque a educação não é neutra. Ela é positiva ou negativa. Enriquece ou empobrece. A missão da escola é desenvolver o sentido verdadeiro do bem, do belo. É lugar de estimular a inteligência, consciência, afetividade, etc. A quinta razão, por ser o lugar onde se aprende conhecimento, conteúdos, hábitos, valores. Ela faz crescer três línguas nas pessoas: da mente, do coração e das mãos. O professor ajuda a harmonizar e juntar as três línguas. Em defesa da escola o Papa Francisco termina seu discurso “não nos deixemos roubar o amor à escola”. Em defesa de uma boa educação “é sempre melhor uma derrota limpa do que uma vitória suja”. Valorizar a escola será uma imprescindível solução para o Brasil.