sábado, 21 de maio de 2016

INPEACHMENT

A pedido dos leitores a coluna continua a reflexão sobre a votação do dia 17 de abril. O texto anterior abordou o surgimento do processo e os políticos envolvidos. Neste, trato de algumas interpretações do acontecido. Para isto, recorro à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que publicou duas cartas a respeito da crise política instalada em Brasília. Uma publicada anteriormente à abertura do processo na Câmara e outra lançada a 14 de abril, no encerramento do encontro dos bispos em Aparecida, SP.

Para adentrar na interpretação do acontecido, é preciso acessar o site da Câmara dos Deputados e verificar os projetos que foram aprovados no ano. É algo improdutivo. O relator do processo de impeachment, Jovair Arantes, deputado do PTB, apresentou 20 projetos, todos beneficiando seus patrocinadores. Mas, sob o processo de cassação da presidente Dilma, esconde interesses.

Primeiro, o fato é que o impeachment por não ter ato jurídico sustentável, torna-se falho e passa a ser golpe. A cassação está repleta de interesses políticos, econômicos, religiosos, globais, menos de estofo jurídico. Sem este último, o processo nasce duvidoso. Segundo, para maquiar essa verdade, a mídia estrebucha-se para provar o contrário. Para tanto, seus jornalistas carregados de ódio semeiam divisões e intolerâncias. Quanto a isto, não é de causar estranheza. A Rede Globo defendeu o golpe de 1964. A bem da verdade, para esta a luta do povo nunca será manchete do telejornal.

A terceira interpretação da votação pela cassação da presidente é que rejuvenesceu a política brasileira, sobretudo do caráter sexista e excludente. Aliás, os deputados inovaram nas expressões impróprias para o debate político. A votação do dia 17 serviu para revelar a face dos deputados que representam o povo brasileiro. Há de convir, atingiram a sabedoria de qualquer cidadão digno deste país. A quarta interpretação é referente ao combate da corrupção e dos corruptores. Nunca na história brasileira se investigou tanto este problema. Aqui é que se esconde a finalidade de cassar a presidente da República. Impedir que o Ministério Público e Polícia Federal avançassem nas investigações. Uma lista da Odebrecht aponta para mais de 200 deputados e senadores envolvidos em corrupção.

A quinta razão pela cassação é favorecer aos interesses de grupos nacionais, internacionais, privatizar a Petrobras, entregar o petróleo e o gás brasileiro, mudar as leis trabalhistas, reduzir os direitos dos trabalhadores, impedir que a esquerda ganhe as eleições presidenciais de 2018, atender o interesse da mídia, em especial do grupo Rede Globo, socorrer o neoliberalismo em falência, etc.
No decorrer da semana farei uma novo coluna com as repercussões do acontecido pelo mundo.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

OS SOFISTAS ESTÃO RENASCENDO?

Os sofistas foram geniais educadores da polis grega. Eles foram os primeiros mestres e pedagogos da cultura ocidental. Exímios debatedores. Afiadíssimos dialéticos e imbatíveis na arte de argumentar e contradizer. Eles arrebatavam multidões, num tempo de mudança cultural e política que exigia novos ensinamentos no âmbito político, jurídico e moral. Na democracia insipiente da Grécia antiga, em que o direito e a moral já não eram compreendidos como produto da natureza, típico da cultura aristocrática decadente, mas da sociedade, eles se apresentam como os defensores de uma nova ordem ancorada em um único soberano, o homem.

O homem é a medida de todas as coisas, diziam. Se o homem é a medida de todas as coisas, e não deus ou a natureza, então tudo é relativo ao homem e não existe a menor chance se levar a sério uma verdade que pretende ser universal e absoluta. Sem valores perenes, verdades universais e normas jurídicas absolutas, tudo vira uma questão de ponto de vista e de força suficiente para impor o seu ponto de vista, caindo inevitavelmente no ceticismo e no relativismo.

O bem comum, por exemplo, em política, é só uma aparência externa para fazer crer que os interesses próprios, dos mais fortes, tenha legitimidade. Por trás do discurso do bem comum, age-se com interesses escusos e inconfessos e quem é mais expert e mais bem articulado impõe o que para ele ou seu grupo parece ser interesse a todos.

Assim resumida a filosofia dos sofistas, que semelhança há com o que estamos vivendo hoje no Brasil? Estamos ou não reeditando os sofistas? Há laboratório melhor do que o Brasil para a ressurreição dos sofistas?

A disputa, a guerra de posições, o argumento e contra-argumento, a luta incessante de posições opostas, é a regra em política. Em uma sociedade desigual como é a brasileira, é natural que se leve para o âmbito político estatal os interesses em disputa na sociedade civil. A disputa na defesa de interesses é, portanto, legítima.

Na disputa legítima de interesses diversos, há os que defendem os empresários e ruralista e há os que defendem os trabalhadores e sem-terra, por exemplo. Há os que defendem os homens brancos e ricos e há os que defendem as mulheres pobres e os negros. Há os que são contra os homossexuais e há os que defendem os direitos dos homossexuais. Não há como ser diferente. Não há uma posição neutra e universalista em abstrato e nisso os sofistas tem razão.

Mas, não haverá um mínimo de bem comum, de interesse público, de direitos humanos elementares que tanto um quanto outro deveríamos defender? Não há um mínimo comum que não poderíamos recuar sob pena de comprometer a vivência pacífica e justa da sociedade? Ou não dá para almejar vida pacífica e justa na sociedade? Se não há, então a própria política vira uma guerra de todos contra todos como se estivéssemos em um estado de natureza.

Ora, a política é justamente a nossa capacidade de superar a natureza belicosa, interesseira e mesquinha, em nome de valores mais altos formulados por acordos humanos para nos tornar mais humanos.

Há nisso uma pequena dose de idealismo e de utópico, mas não custa sonhar e tentar acordos mínimos de interesse comum. Fora isso, a barbárie piscará seu olho grande e nos atrairá para seus braços logo aí adiante!...

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SENTIMENTOS

Sentimento é um componente da vida e da história diária de todo o ser humano normal; é a aptidão para sentir. Essa aptidão sugere vida, normalidade e sensibilidade. A insensibilidade tende a registrar morte, apatia e indiferença. Porém, não precisamos fazer muito esforço para nos dar conta de que há sentimentos bons e ruins. Podemos despertar sentimentos de amor, afeição, compaixão e ternura, como sentimentos de ódio, rejeição, indiferença e agressividade.

Os sentimentos acompanham nossas ações e decisões, podendo permear e definir a qualidade de nossas opções fundamentais da vida. Em qualquer estado de vida que estejamos, podemos acordar com sentimentos positivos ou negativos, com argumentos que nos entusiasmam para a missão do dia ou nos deixam desanimados. Há sentimentos que nos fecham e nos tentam a fugir dos compromissos e há outros que nos animam a prosseguir, custe o que custar, na luta do dia a dia.

Os sentimentos são um campo imenso onde nos movimentamos com as mais diferentes reações. É por isso que, às vezes, nos surpreendemos conosco mesmos, sem ter clareza de nossas escolhas. Do mesmo modo, os que convivem conosco podem se surpreender com nossas reações, palavras e atitudes. O que se passa em nosso íntimo? Na verdade somos um mistério para nós mesmos e os sentimentos afloram de modos diversos, mesmo sem saber de sua intensidade e as razões como nos atingem.

Ter sentimentos diversos é normal de todo o ser humano. Porém, temos que nos policiar constantemente para que nossas reações, o mais possível, sejam equilibradas. O que mais nos ajuda a ajustar nossos sentimentos, na administração da vida e de nossa missão, são as motivações que nos garantem ânimo e coragem de continuar.

Às vezes carregamos conosco motivações simplesmente humanas e passageiras. Essas podem alimentar bons sentimentos e determinação por alguns momentos e, depois, facilmente perdemos o ânimo e voltamos à rotina que é sempre o terreno fértil da monotonia da vida e dos sentimentos pessimistas. O cuidado com os sentimentos depende muito do cuidado com a qualidade de nossas motivações de viver e agir.

Em tempos de instabilidade, como os nossos, necessitamos superar as motivações pequenas e passageiras e nos agarrar em motivações grandes, fortes e duradouras. Em nosso chão, as motivações simplesmente humanas parecem ter sempre menos durabilidade. Para que consigamos usufruir sentimentos arejados, necessitamos de motivações que nos são liberadas a partir do amor misericordioso de Deus, sempre fiel.

Paulo exorta a Timóteo para que “instrua os ricos deste mundo, para que não sejam orgulhosos, nem coloquem a esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que nos dá tudo com abundância, para que nos alegremos. Que os ricos pratiquem o bem, se enriqueçam com belas obras, sejam generosos, capazes de partilhar”.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

ALGUMAS SELETIVIDADES

Era o fim da década de 1980. O Brasil vivia o fervor do retorno da democracia. Depois das “Diretas Já” que acabaram elegendo indiretamente Tancredo Neves que, ao morrer antes de tomar posse, deixou lugar a José Sarney que com o Plano Cruzado conseguiu eleger uma Constituinte não exclusiva nem democrática, estávamos finalmente vivendo o frêmito da primeira campanha presidencial que, depois de quase 30 anos, iria eleger diretamente o máximo mandatário do país.

Pois foi nesta época que, nas Ilhas do Guaíba em Porto Alegre e nos fundos do Bairro Mathias Velho, em Canoas, começaram as primeiras experiências de Coleta Seletiva de resíduos urbanos no Brasil. A alma da iniciativa – como de tantas outras que nasceram da organização popular – foi o Irmão Antônio Cecchim. Com sua fé inabalável no Deus da vida e na capacidade de organização dos mais pobres, ele começou a organizar os carrinheiros, carroceiros e catadores de materiais. Ao ar livre, sob a sombra das árvores ou em galpões precários, fazia-se a separação dos vários tipos de papel, as muitas categorias de plásticos e, o que era mais valioso, os metais e, entre estes, o alumínio, verdadeira pedra preciosa.

Na Mathias Velho, quem assumiu a causa da coleta seletiva foram os frades capuchinhos e as irmãs de várias congregações que ali atuavam junto aos miseráveis das vilas recém formadas em consequência do êxodo rural. Os freis Volmir Bavaresco e João Carlos Romanini foram, durante anos, os companheiros e assessores daqueles homens e, na maior parte dos casos, daquelas mulheres que, coletando e selecionando materiais, conseguiam dali tirar um sustento para suas famílias e, de lambuja, ajudar no funcionamento da vida das cidades e na preservação do meio-ambiente.

A importância da coleta seletiva iniciada de forma tão artesanal e na base da cara e da coragem foi sendo pouco a pouco reconhecida, ganhou amplitude e qualidade e, em muitas cidades, foi incorporada às práticas de gestão das cidades e transformou-se numa atividade econômica que movimenta milhões.

Lembrei dessa história nestes dias em que nosso País passa por um outro momento importante da sua história de democracia nem sempre tão democrática e o princípio da seletividade está sendo usado com intensidade no campo da justiça e da operacionalidade democrática. No campo da justiça, um mesmo ato, quando cometido por umadeterminada pessoa ou por um membro de um determinado partido, é considerado crime e, quando cometido por outra pessoa ou por membro de outro partidonão levam a nenhuma punição... Ou então, uma eleição, quando vencida por determinado partido, é considerada ilegítima e quando um outro partido toma de assalto o poder sem ter passado pelo crivo das eleições, isso é visto como se fosse a maior normalidade democrática!

Tudo ao contrário do que nos ensinaram nossos mestres catadores. Eles separavam papel, plástico, metal e material orgânico. Mas sabiam que papel é sempre papel, plástico sempre é plástico e metal sempre é metal e que cada um tem um valor inerente que independe da preferência pessoal que eu possa ter por um deles.

Talvez tenhamos que aprender com nossos catadores como se recicla a vida política de um país e possamos aprender com eles o que pode ser reaproveitado ou não daquilo que sobrou de nossa precária convivência democrática.

terça-feira, 17 de maio de 2016

O QUE FAZER COM O NOSSO TEMPO

As estatísticas constituem-se em obsessão de nosso tempo. Institutos especializados encarregam-se de fazer levantamentos preciosos e tabular as mais diferentes questões. Recente pesquisa revela como o cidadão comum, classe média e alta, gasta seu tempo. As cifras indicam que a vida ficou, hoje, bem mais fácil, com menos trabalho e mais lazer.

Os números revelam que o cidadão pesquisado trabalha, em média, 1.784 horas anuais, algo parecido com cinco horas diárias, descontando férias, dias santos e outros dias não trabalhados. Contrastando com estas cifras, o mesmo cidadão ocupa 3.354 horas anuais com o lazer. Das 8.760 horas do ano, 2.920 horas são gastas com o sono, 548 com as refeições e 154 horas adoentado. Resumindo: nove horas por dias são ocupadas pelo lazer, oito horas dormindo, cinco horas trabalhando, uma hora e meia comendo e bebendo e a doença consome trinta minutos, em média.

Gastando o tempo de modo dispersivo, todos reclamamos com a falta de tempo. Na realidade, todos temos o mesmo tempo, o que acontece é a má distribuição do nosso tempo.

Todos temos o mesmo tempo. Para o executivo, para o atleta, para o líder político, para o santo, para o herói, para o motorista de táxi, o dia tem 24 horas, a semana tem sete dias, o dia 24 horas e a hora 60 minutos. São, portanto, 168 horas semanais, fatiadas em 1.440 minutos.

Na pesquisa, por um esquecimento significativo, não entraram as horas gastas com os outros, nem os minutos dedicados a Deus. Será justo usar o tempo apenas em atividades e em nosso próprio benefício? Será inteligente desperdiçar tantas horas, sabendo que elas nos farão falta? Tanto mais que a vida não oferece nenhum minuto de prorrogação.

O povo grego, o mais sábio da antiguidade, dava ao tempo dois nomes: cronos e kairós. Cronos era o tempo comum, o tempo do calendário, dos anos, meses e dias. Já kairós era o tempo de Deus. Pensador e político indiano, Mahatma Gandhi dizia que uma vida sem fé, sem oração, é como um barco sem leme. Pelo menos, um minuto em cada dia nos dirá onde estamos, para onde navegamos, onde estão os perigos e onde está o porto desejado. Um momento de oração dá sentido aos 1.440 minutos de cada dia.

Muitos alegam que não têm tempo, não sobra tempo, para rezar. Um dia até pode ser. O que diríamos a um companheiro que garante não sobrar tempo, que nunca tem tempo, para tomar banho? Na realidade, tempo é uma questão de escolha.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O MERCADO PERDEU A VERGONHA

A vergonha talvez seja uma das mais dolorosas experiências humanas. Ela é fruto das humilhações impostas às pessoas. Humilhações podem ser de muitas naturezas. Ela tem uma estreita relação com a esperança destruída. Isto é, a vergonha estabelece condições para as disfunções no convívio mais íntimo da natureza humana e em outros relacionamentos. Destarte, o risco de perder a vergonha pode expor a pessoa ao ridículo ou causar o embaraço dos outros. Em cenário político mundial o menosprezo pela política pública é uma força dominadora aliada natural ao poder do dinheiro. Em defesa do poderio econômico, sem escrúpulos reduziram o papel da política pública.

Em cenário político nacional assistimos as ameaças às esperanças do povo brasileiro. Direitos garantidos tornam-se inseguros diante das aspirações em relação ao campo da economia e do mercado. O discurso político pela estabilidade da economia se distancia do bem comum, coletivo. Em situação de crise mundial da economia globalizada na qual se materializa profundamente o fracasso do sistema injusto e excludente apela-se outra vez para o sacrifício das nações pobres. Em nossa pátria, se não bastasse, reproduz-se um velho discurso de 500 anos, favorável aos detentores de muitas posses, que impõe culpa social ao alto salário mínimo que prejudica o sistema, inviável à estabilidade econômica. Atrás deste velho discurso esconde-se a incapacidade do sistema econômico se sustentar sem a exploração dos trabalhadores.

Na mesma direção, obriga-se ao Estado incrementar políticas públicas na seguridade social avessa à classe trabalhadora, às organizações sociais, sindicais e populares. Há um discurso internacional de promulgação de reformas políticas necessárias em socorro ao sistema neoliberal. Mais objetivamente em nível nacional, pretende-se alinhavar o país com as políticas neoliberais que até então só tem favorecido ao mercado mundial. Essas políticas são o desvanecimento da esperança dos pobres e de um país soberano. A expectativa dos países latino-americanos é de serem desrespeitados nos direitos básicos da existência humana por novas políticas neoliberais.

Em cenário mundial que anula a democracia e reduz os direitos humanos, mais uma vez os indivíduos são penalizados. Na reviravolta das políticas públicas perderam a vergonha em defesa do mercado. Na verdade, é basicamente a frustração e o fracasso da economia que conduzem ao ódio e à violência entre países, povos, indivíduos. Tal ocorre diante do faminto mercado por este não cumprir as promessas de bem coletivo, o que igualmente conduz para a destrutibilidade social e política dos países subservientes ao neoliberalismo. No mesmo rodo o cenário político nacional perdeu a vergonha. Nele há vontade política de implantar medidas nada esperançosas para a nação. Pior, os sacrifícios dos pobres serão benefícios econômicos para a sociedade internacional.

sábado, 14 de maio de 2016

UMA IMAGEM SINGELA E PURA

Homenageando a Fifi, Belinha, o Bono e o Jymmi, uma foto singela, sem recursos técnicos, feita no improviso do providente celular, captando uma cena de quatro cachorrinhos devidamente alinhados e postados na soleira da porta de entrada de uma igreja e, pronto, empatia e curtição imediata e contagiante. A foto teve repercussão em dois jornais e de lá para as redes sociais em compartilhamentos incontáveis. Essa cena de “cachorrinhos rezadores” que mobilizou uma instintiva empatia de todos os que puderam ver, pode receber interpretações variadas, além da curtição visual. Eu arrisco uma interpretação em quatro pontos.

1-No limiar do céu e a terra, sagrado e profano: os cachorrinhos não estão nem dentro da igreja, nem fora, estão no limite entre o espaço sagrado e o profano. É como se a cena evocasse uma ligação entre o céu e a terra mediada pelos animais. Tradicionalmente temos dito que os humanos são de Deus e os animais são dos humanos. Na cena que a foto capta, não aparece o humano, a não ser como expectador. É como se os animais, representados pelos quatro, reivindicassem o direito de fazer parte da sacralidade e da intimidade com Deus, usurpada pelo homem que se acha feito a imagem e semelhança de Deus e põe tudo o mais ao seu dispor. Os animais na porta da igreja solicitam, inconscientemente, direito de cidadania moral e religiosa. Eles estão aí para nos dizer que respeitam os limites que nós humanos lhe impusemos, isto é, ficar do lado de fora da igreja mas, ao mesmo tempo, eles nos instigam a pensar de que, talvez, eles mereçam também fazer parte da assembleia dos eleitos. Eles postos, quase de joelhos, no limiar da porta da igreja, tem um poder simbólico que nos obriga a pensar, mesmo que o pensar nos faça doer.

2-Uma posição de reverência quase espiritual: A posição dos quatro cachorrinhos é emblemática. Nenhum dele está com os pés dentro da igreja. Todos com os pés fora, com o corpo projetado para dentro. Eles estão numa posição que alia uma escuta fiel e um respeito canino. Parece uma ensaiada posição de reverência. Solícitos, entregues, curiosos mas respeitosamente atentos e concentrados. Que maravilha!

3-Empatia para com os cachorros: O fato de serem cachorros faz com que a sensibilidade aflore. Nós amamos os cachorros. Eles são fofos. Sem eles seríamos mais pobres, menores, sem graça. A vida humana sem os cachorros seria um erro, parafraseando Nietzsche que dizia que “sem a música a vida seria um erro”. A questão que nos faz pensar aqui é o que não está na cena da foto. Todos os outros animais não estão ai. Só os cachorros estão. O fato de serem cachorros nos mobiliza e nos desperta empatia, e isso não é errado, pois eles são, como já dito, fofos e amáveis. Mas, e os ausentes? E os outros animais? Eles nos mobilizam da mesma forma? Claro, creio que se quatro vacas ou quatro porcos estivessem no lugar dos cachorros, uma foto que registrasse a cena, também repercutia pelo inédito, mas, será que a tal ponto de dizermos: que fofos! Que lindos! Que gracinhas!....

4-Um alívio para a vida dura do cotidiano: Talvez a empatia despertada pela foto captando a cena se dê devido ao fato de estarmos cansados de coisas brutas, duras, malandragens, noticiários e cenas de violência e desrespeito aos direitos humanos e aos direitos dos animais. Uma cena delicada de animais, inocentes como uma criança, singela, espontânea e sem maldade, nos arrebata por um excesso de stress e por um excesso de maldade que somos cotidianamente obrigados a suportar. Uma imagem singela e pura nos alivia a alma e nos traz novamente a esperança que, quem sabe, a vida continua valendo a pena!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

OS MANIPULADORES



O vale-tudo pela disputa de audiência na TV aberta tem levado ao ar telejornais que são um atentado contra a sabedoria, os valores e a consciência democrática. Os conteúdos dos telejornais são agressivos à consciência, intolerantes e parciais com os fatos. Escondem-se nos manipulados comentários dos telejornais não somente a disputa do mercado, mas o interesse de criar uma cultura dependente e de opinião manipulável. Eis uma necessária reforma a ser feita, a do sistema de televisão.

O sistema de televisão no Brasil iniciou em 18 de setembro de 1950 com a TV Tupi, por Assis Chateaubriand. É o governo federal que autoriza as concessões de televisão aberta. No Brasil as emissoras de TV são controladas por grandes grupos de comunicação. Os maiores detentores das concessões são o grupo Globo, SBT, Record, Bandeirantes, BBC do governo britânico. Sem sombra de dúvida o aparelho de televisão é o eletrodoméstico mais popular e conhecido da humanidade. Em cada sala, quarto, espaço público, ali está um aparelho. É um verdadeiro altar que prende a atenção da grandiosa assembleia devota. Devido a sua importância os espaços, os cômodos das casas, construções, são arrumados em função do aparelho de TV.

Os monólogos do telejornal, das novelas, substituíram os diálogos e as conversas em família. Antes mesmo da criança saber escrever assiste a centenas de horas de emissão. Com o desenvolvimento tecnológico dos aparelhos e do sistema de transmissão por satélite a televisão tornou-se um sistema onipresente, onisciente e onipotente. Isto é, a televisão domina todas as informações e programas das pessoas. A assembleia devota segue à risca a cartilha televisiva e esta se dá o luxo de usar sempre mais imagens, tom humorístico, recurso da emoção, a superficialidade das notícias. Adotam a verdade conforme seus interesses comerciais e ganhos econômicos. No Brasil, a TV tornou-se o palco central da vida política, sem a imparcialidade. Por essa razão, todos querem ambicionar ser o presidente da Câmara, ministros, presidente dos poderes públicos. A TV converteu-se do quarto poder para o primeiro poder, manda e desmanda sobre assembleia devota. Pior, não há contrapoder capaz de detê-lo.

A bem da verdade, o que menos fazemos é ver televisão. É ela que nos vê por primeiro. Dita hábitos, orienta como agir, faz assumir cegamente sua tendência, bombardeia quem é contra seus interesses. Escamoteia com a verdade dos fatos políticos. Instrumentaliza um controle social pelo ódio. Vende a própria mensagem. Conspira e censura as ideias contrárias. Manda nos leitores. A mediocridade dos telejornais atinge nossa consciência. A informação virou mercadoria. Sem uma reforma do sistema de comunicações, torna-se o poder midiático perigoso para a democracia e a cidadania.

O AMOR NUNCA SE ATRASA

São cheios de detalhes, criatividade em ação. Alguns discretos, outros mais ousados. Cada qual registra uma história, esconde um mistério, ressalta o sonho de eternidade. Sempre personalizados, os convites de casamentos são uma pequena amostra das incontáveis facetas do amor. É uma questão cultural: não basta usar a palavra para expressar a alegria do acontecimento mais aguardado: a realização de um sonho acalentado há tempo. O convite de casamento oficializa o desejo dos noivos de partilhar o maior de todos os eventos. Ser convidado para uma celebração de casamento é uma honra e uma distinção.

Procuro guardar os convites recebidos. A coletânea já é significativa, bem como o espaço ocupado. Em cada convite, uma vitoriosa história de amor. Além dos criativos detalhes, presto atenção nos pensamentos ilustrativos. Alguns são de uma profundidade incrível, provocando verdadeiras reflexões, permitindo inúmeras pontuações. Num convite que recebi nos últimos tempos, estava a seguinte inscrição: ‘Não acreditamos que o amor possa chegar cedo ou tarde. O amor é pontual. Chega sempre na hora certa, seja a hora que for.’

Ambos haviam feito uma experiente caminhada existencial. Quando tudo parecia definido, os caminhos se cruzam, o interesse se reacende, a capacidade de amar se restabelece. Podiam ter lamentado o atraso da manifestação desse sentimento, simplesmente se empolgaram. A maturidade acabou dando as devidas medidas ao sonho e à celebração. De fato, o amor nunca chega cedo ou tarde. Se tem sentimento pontual é o amor. Não há atraso, nem precipitação. Talvez falte compreensão quanto ao tempo do amor e isso pode interferir na intensidade que o próprio amor supõe.

Nunca será tarde para recomeçar, nem para experimentar novos sentimentos. O amor é capaz de surpreender e rejuvenescer, independente da questão cronológica. Em cada etapa da vida, ele se manifesta de um jeito e com uma tonalidade ímpar. Mesmo que haja uma certa demora em entender determinadas situações, o tempo que restar será suficiente para confirmar que valeu a pena viver e amar. Outros convites de casamento foram recebidos. Todos são únicos. Este será guardado com carinho por ter proporcionado inspiração e aprendizado. Maturidade e amor guardam uma certa e eterna cumplicidade. Verdade, o amor nunca se atrasa.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

SONHAR

“A vida é feita de sonhos”. “A vida termina quando se deixa de sonhar”. Muitas vezes ouvimos estas afirmações. Na vida é preciso projetar algo melhor para o futuro. Para tanto, empenham-se energias e esforços. O ser humano está sempre em busca de algo, é quase um insaciável desejo. Nessa esperança, busca dar um salto para a transcendência de modo a atingir um estágio mais elevado para sua felicidade. Sendo assim, sonhar fecunda de esperança uma humanidade mais perfeita.

No que se refere ao sonho, não é o noturno ou o do repouso, mas o de ideias que aperfeiçoem a natureza humana e espiritual da pessoa. Claramente, não é uma situação de sacralizado e de endeusado, mas preferir, na condição humana, dar mais sentido aos dias e à própria vida. Almejar tal condição pressupõe buscar ensinamento e fundamento para que o sonho seja seguro e realizado. Quer dizer, sonhar tem muito a ver com o que a pessoa pensa. O lugar, o contexto, a situação social em que vive influenciam as possibilidades. Cada dia se veria a pessoa, sem dúvida, em maior necessidade de aperfeiçoar o próprio cotidiano e legitimar verdades e normas para sua felicidade inquestionável.

Para muitos em estado de exclusão humana não se oferecem todas as condições e motivações para sonhar com dias melhores. Nestas condições, a vida está condicionada e profundamente limitada à possibilidade de sua plena felicidade. Então, sonhar tem relação com o contexto da vida. Sem dúvida alguma, o desejo de conquistar algo sempre mais valioso está submetido ao imperativo do contexto social. Isto significa que o sonho se organiza de forma consciente e enaltece chegar a elevados níveis de dignidade humana. Antes de tudo, sonhar é um sinal evidente do desejo de construção de melhor qualidade de vida, sendo livre de qualquer dominação e da condição de marginalidade.

Então, sonhar potencializa o ser humano, embora seja mais complexo do que imaginamos conquistar sua plena felicidade. É lógico que aqui não se aposta no sonho advindo do inconsciente durante o período de sono. Este tipo de sonho, para a ciência, é uma experiência da imaginação do inconsciente. Para Freud, tais sonhos são gerados na tentativa de realização de um desejo reprimido.

Aqui se compreende o sonho como capacidade do ser humano pensar e buscar motivações e fazer projetos em busca de melhor realização e felicidade. Porém, a realização de tais sonhos também depende de razoáveis ambientes da sociedade e de contextos favoráveis ou suficientes para superar problemas e dificuldades. Nesse sentido fica difícil para um pobre fundir sonho e realidade. Neste caso, a realização do sonho inviabiliza-se quando faltam solidariedade e políticas públicas de combate à pobreza. Derrotar a pobreza e a exclusão humana seria um verdadeiro sonho. Um ótimo legado deixariam as políticas públicas e a humanidade para as gerações futuras.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

IMPEACHMENT: 60% DOS SENADORES TÊM PROCESSOS NA JUSTIÇA E NOVE FORAM ELEITOS SEM NENHUM VOTO.



Do El Pais e do Congresso em Foco:



De acordo com levantamento do Atlas Político, 49 dos senadores (60%) são alvos de processos na Justiça. Dentre os parlamentares favoráveis ao impeachment, o porcentual é de 61% (30 de 49), e entre os contrários 63% (12 de 19). Sete dos 13 indecisos estão envolvidos em querelas judiciais. As acusações variam, mas as de lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem financeira, corrupção e crimes eleitorais predominam.

“O Senado não pode ser considerado uma Casa moralmente superior à Câmara dos Deputados se levado em conta o nível de corrupção dos seus integrantes”, afirma Andrei Roman, cientista político formado em Harvard e um dos idealizadores do Atlas. Ele critica ainda o fato de que atualmente 11 senadores da Casa são suplentes. “Geralmente os suplentes do Senado não receberam voto algum, diferente do que acontece na Câmara. Muitas vezes eles são escolhidos apenas por serem grandes doadores de campanha”, afirma. Para Roman isso gera um déficit de representatividade “sensível” e prejudicial “em um momento como esse”.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também é alvo de nove inquéritos da Lava Jato. As suspeitas contra ele giram em torno de irregularidades que vão de recebimento de propina em acordos com a Petrobras, propinas em contratos com a Transpetro (subsidiária da petroleira) e favorecimento à Serveng, uma das empresas envolvidas no esquema. Ele é investigado por lavagem de dinheiro e corrupção. A defesa do peemedebista nega qualquer irregularidade.

Nove dos 80 parlamentares chegaram ao Senado sem ter recebido diretamente um único voto. A cassação do mandato de Delcídio do Amaral (MS) por quebra de decoro parlamentar reduziu o número de parlamentares votantes, mas ampliou a bancada dos parlamentares sem voto na Casa. Com exceção do suplente de Delcídio, o empresário Pedro Chaves (PSC-MS), que não será empossado a tempo, todos poderão decidir pelo afastamento ou não da presidente da República.

Com a posse de Chaves, que estreia na política sem jamais ter recebido um único voto nas urnas, o Senado terá dez senadores que chegaram ao Parlamento pela suplência. Destes, apenas Donizeti Nogueira (PT-TO), que substitui desde o início do ano passado a senadora licenciada Kátia Abreu (PMDB-TO) enquanto ela comanda o Ministério da Agricultura, está sujeito a voltar para casa a qualquer momento. Os demais têm direito a exercer plenamente o mandato até o derradeiro dia. Por diferentes motivos, viraram titulares.

Além de Pedro Chaves, Wilder Morais (PP-GO) também foi alçado ao Senado devido à cassação do mandato do titular, no caso, Demóstenes Torres (GO), em 2012. Três senadores herdaram, literalmente, a vaga com a morte dos colegas de chapa: Zezé Perrella (PTB-MG), Ataídes Oliveira (PSDB-TO) e Dalírio Beber (PSDB-SC). Eles seguem o mandato para o qual foram eleitos os senadores Itamar Franco (PPS-MG), falecido em 2011, João Ribeiro (PR-TO), morto em 2013, e Luiz Henrique da Silveira (PMDB-SC), que morreu no ano passado.

Primeiro suplente de Itamar, Perrella herdou sete anos de mandato no Senado mesmo ter sido votado. O ex-presidente da República voltou ao Senado em fevereiro de 2011 e faleceu em julho daquele mesmo ano. Ele só conseguiu cumprir seis meses dos oito anos para os quais havia sido eleito. Como mostrou a Revista Congresso em Foco, o senador mineiro foi o segundo mais ausente em 2015: deixou de comparecer a 48 das 127 sessões reservadas a votações no período. Ou seja, mais de um terço dos dias em que a presença era obrigatória na Casa.

Presidente da comissão especial do impeachment, o senador Raimundo Lira (PMDB-PB) foi efetivado no mandato em 2014 com a ida do titular Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB) para o Tribunal de Contas da União (TCU). Embora possam alegar que foram votados juntamente com os titulares, os suplentes raramente têm visibilidade na campanha eleitoral. Muitos são convidados para a suplência por motivos eleitorais, seja para atingir determinado eleitorado, seja para financiar a eleição.