Um menino de seis anos decidiu preparar uma surpresa para seus pais. Num sábado, bem cedo, levantou em silêncio e foi para a cozinha. Prepararia panquecas para o café. Coisa bem simples, tanto mais que estava com a receita na mão. Como primeiro passo tirou do armário uma tigela e uma colher de madeira. Depois puxou uma cadeira, sem fazer barulho, para alcançar a lata de farinha. Era muito pesada e ele acabou derramando tudo no chão. Rapidamente apanhou a quantia que julgava necessária e colocou na tigela, acrescentando uma xícara de leite.
Havia farinha em toda a parte, mas ele achava que tudo estava indo regularmente. Subiu de novo na cadeira para apanhar uma dúzia de ovos. A grade resvalou e não sobrou um para contar a história. O menino ajuntou o que deu e colocou na tigela, misturando tudo. Outro problema estava pela frente: deveria colocar no forno ou no fogão? Não sabia ligar nem um, nem outro. Olhou para trás e, desolado, viu que o gatinho estava lambendo o conteúdo da tigela. Expulsou o animal, que deixou um rastro de leite, farinha e ovos. Ele mesmo se deu conta que seu pijama estava sujo.
Nesse momento, olhou para a porta e lá estava seu pai, parado. Assustado arregalou os olhos, sentiu uma vontade imensa de chorar. A cozinha estava na maior bagunça e certamente vinha bronca. Mas o pai foi ao seu encontro, tomou-o no colo e o beijou ternamente, não se importando que sua roupa também ficasse manchada de ovos e farinha.
Assim é como Deus age conosco. Ao longo da vida projetamos muitas coisas e, por vezes, nada dá certo. Culpados, abaixamos os olhos, convencidos de nossa inutilidade. A melhor solução é desistir e fugir do olhar do Pai.
E aí acontecem as surpresas de Deus. Ele nos ama não porque merecemos, mas porque precisamos. E nunca muda de atitude. É o pai que acolhe o filho pródigo, é o pastor que procura a ovelha até encontrá-la, é o juiz que não condena a mulher adúltera, é o crucificado que intercede junto do Pai pelos algozes: eles não sabem o que fazem.
Na parábola dos talentos (Mt 25,14), o único empregado rejeitado é aquele que enterrou o dinheiro. Enterrar o talento é fechar-se em si mesmo, lavar as mãos, recusar-se a partilhar. Esse é o grande pecado. Por outro lado, tentar é a grande virtude. Isto implica também em saber recomeçar. Deus tem olhos de pai e vê a boa vontade nos filhos. E nunca nos cobrará pelo sucesso, mas baterá palmas sempre que tentarmos. Antes chorar por não conseguir do que baixar a cabeça por não tentar. Nossa missão é continuar preparando panquecas para Deus e para os irmãos. De qualquer jeito.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
terça-feira, 2 de setembro de 2014
SABER EDUCAR É SABER AMAR.
Pesquisas indicam que as crianças brasileiras costumam passar 4 horas por dia na escola e o dobro de olho na TV. Impressiona o número de peças publicitárias destinadas a crianças ou que as utilizam como isca de consumo.
A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e nutricionais. De obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como refrigerantes e frituras, à anorexia provocada pela obsessão da magreza digna de passarela.
Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes, as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo independe de amor, a estética do corpo predomina sobre os sentimentos, a felicidade reside na posse de bens materiais.
Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Se uma criança associa a sua felicidade a propostas consumistas, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar o desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores enraizados em sua subjetividade. Torna-se, assim, uma criança rebelde, geniosa, indisciplinada em casa e na escola.
A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a incontinência do desejo dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.
Um dos fatores de deformação infantil é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto suplicou ao pai, em bilhete, que desse a ele tanta atenção quanto dedica à TV... Um filho de pais separados pediu para morar com os avós após presenciar a discussão dos pais de que, um e outro, queriam se ver livre dele no fim de semana.
Causa-me horror o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo, tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente “adulta”. Encurta-se, assim, seu tempo de infância. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração busque compensação na ingestão de drogas.
Com frequência pais me indagam o que fazer frente à indiferença religiosa dos filhos adolescentes. Respondo que a questão é colocada com dez anos de atraso. Se os filhos fossem crianças, eu saberia o que dizer: orem com eles antes das refeições; leiam em família textos bíblicos; evitem fazer das datas litúrgicas meros períodos de miniférias, como a Semana Santa e o Natal, e celebrem com eles o significado religioso dessas efemérides; incutam neles a certeza de que são profundamente amados por Deus e que Deus vive neles.
Crianças são seres miméticos por natureza. Ora, o que esperar de uma criança que presencia os pais humilharem a faxineira, jogarem lixo na rua...
Criança precisa de afeto, de sentir-se valorizada e acolhida, mas também de disciplina e, ao romper o código de conduta, de punição sem violência física ou oral. Só assim aprenderá a conhecer os próprios limites e respeitar os direitos do outro. Só assim evitará tornar-se um adulto invejoso, competitivo, rancoroso, pois saberá não confundir diferença com divergência e não fará da dessemelhança fator de preconceito e discriminação.
É preciso conversar com elas, através da linguagem adequada, sobre situações-limites da vida: dor, perda, ruptura afetiva, fracasso, morte. Incutir nelas o respeito aos mais pobres e a indignação frente à injustiça que causa pobreza; senso de responsabilidade social (há dias vi alunos de uma escola varrendo a rua), de preservação ambiental (como a economia de água), de protagonismo político (saber acatar decisão da maioria e inteirar-se do que significam os períodos eleitorais).
Se você adora passear com seu filho em shoppings, não estranhe se, no futuro, ele se tornar um adulto ressentido por não possuir tantos bens finitos. Se você, porém, incutir nele apreço aos bens infinitos - generosidade, solidariedade, espiritualidade - ele se tornará uma pessoa feliz e, quando adulto, será seu companheiro de amizade, e não o eterno filho-problema a lhe causar tanta aflição.
Saber educar é saber amar.
A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e nutricionais. De obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como refrigerantes e frituras, à anorexia provocada pela obsessão da magreza digna de passarela.
Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes, as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo independe de amor, a estética do corpo predomina sobre os sentimentos, a felicidade reside na posse de bens materiais.
Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Se uma criança associa a sua felicidade a propostas consumistas, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar o desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores enraizados em sua subjetividade. Torna-se, assim, uma criança rebelde, geniosa, indisciplinada em casa e na escola.
A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a incontinência do desejo dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.
Um dos fatores de deformação infantil é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto suplicou ao pai, em bilhete, que desse a ele tanta atenção quanto dedica à TV... Um filho de pais separados pediu para morar com os avós após presenciar a discussão dos pais de que, um e outro, queriam se ver livre dele no fim de semana.
Causa-me horror o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo, tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente “adulta”. Encurta-se, assim, seu tempo de infância. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração busque compensação na ingestão de drogas.
Com frequência pais me indagam o que fazer frente à indiferença religiosa dos filhos adolescentes. Respondo que a questão é colocada com dez anos de atraso. Se os filhos fossem crianças, eu saberia o que dizer: orem com eles antes das refeições; leiam em família textos bíblicos; evitem fazer das datas litúrgicas meros períodos de miniférias, como a Semana Santa e o Natal, e celebrem com eles o significado religioso dessas efemérides; incutam neles a certeza de que são profundamente amados por Deus e que Deus vive neles.
Crianças são seres miméticos por natureza. Ora, o que esperar de uma criança que presencia os pais humilharem a faxineira, jogarem lixo na rua...
Criança precisa de afeto, de sentir-se valorizada e acolhida, mas também de disciplina e, ao romper o código de conduta, de punição sem violência física ou oral. Só assim aprenderá a conhecer os próprios limites e respeitar os direitos do outro. Só assim evitará tornar-se um adulto invejoso, competitivo, rancoroso, pois saberá não confundir diferença com divergência e não fará da dessemelhança fator de preconceito e discriminação.
É preciso conversar com elas, através da linguagem adequada, sobre situações-limites da vida: dor, perda, ruptura afetiva, fracasso, morte. Incutir nelas o respeito aos mais pobres e a indignação frente à injustiça que causa pobreza; senso de responsabilidade social (há dias vi alunos de uma escola varrendo a rua), de preservação ambiental (como a economia de água), de protagonismo político (saber acatar decisão da maioria e inteirar-se do que significam os períodos eleitorais).
Se você adora passear com seu filho em shoppings, não estranhe se, no futuro, ele se tornar um adulto ressentido por não possuir tantos bens finitos. Se você, porém, incutir nele apreço aos bens infinitos - generosidade, solidariedade, espiritualidade - ele se tornará uma pessoa feliz e, quando adulto, será seu companheiro de amizade, e não o eterno filho-problema a lhe causar tanta aflição.
Saber educar é saber amar.
domingo, 31 de agosto de 2014
SEGUIR A LOGICA DA NATUREZA
Por natureza entendemos o conjunto dos seres orgânicos e inorgânicos, os campos energéticos e morfogenéticos que existem como subsistemas de outros sistemas maiores, sejam ou não afetados pela intervenção humana, constituindo um todo orgânico, com um equilíbrio dinâmico. O ser humano é parte da natureza e co-pilota o processo de evolução junto com as forças diretivas da Terra.
A natureza é uma realidade tão complexa que não pode ser encerrada em nenhuma definição. Ela permanece um mistério, como mistério é o ser e o nada. O que possuímos são discursos culturais sobre a natureza: das culturas ancestrais, das modernas e das várias ciências. Em nome de cada compreensão, decide-se qual é o nosso lugar nela e que tipo de intervenção é adequada ou não.
Quando contemplamos a natureza salta logo aos olhos uma medida imanente a ela que resulta não das partes tomadas isoladamente, mas do todo orgânico e vivo. Há harmonia e equilíbrio.
Para os contemporâneos a natureza resulta de um imenso processo de evolução que vai além do modelo de Charles Darwin (1809-1882), que fundamentalmente a restringia à biosfera sem incluir o cosmos. Tudo começou com o big bang num processo não linear que conhece saltos, flutuações e bifurcações. Não só se expande, mas cria e organiza possibilidades novas. Significa que as leis naturais não possuem caráter determinístico, mas probabilístico.
Os conhecimentos da termodinânica nos sinalizam que a vida e qualquer novidade no universo surgem a partir de certa ruptura do equilíbrio. Essa quebra da medida é só um momento, pois provoca em seguida a auto-organização que cria um novo equilíbrio dinâmico. É dinâmico porque continuamente se refaz, não pela reprodução do equilíbrio anterior, mas pela criação de um novo. A lógica da natureza em evolução é esta: organização-desorganização-interação-nova organização. E assim sucessivamente.
Isso não significa que a natureza não possua uma medida (leis da natureza); o que ela não possui é uma medida estática e mecânica, mas dinâmica e flutuante, caracterizada por constâncias e variações. Há fases de ruptura para logo em seguida gestar nova regularidade. A Terra já foi quase duas vezes mais quente que hoje, mas apesar disso mostrou ao longo das eras um incrível equilíbrio dinâmico que tem favorecido benevolamente a vida em sua diversidade.
A natureza vista como um todo não impõe prescrições. Aponta para tendências e regularidades que podem ir em várias direções. Cabe ao ser humano, auscultando a natureza e com fina percepção, escolher uma que lhe pareça mais adequada. Então ele surge como um ser responsável e ético.
O ser humano deve seguir a lógica da natureza: fazer e refazer continuamente o equilíbrio. Não de uma vez por todas, mas sempre em atenção ao que está ocorrendo no ambiente, na história e nele mesmo. A justa medida muda, o que não muda é a permanente busca da justa medida.
Os povos indígenas nos dão disso o melhor exemplo. Por uma afinidade profunda com a natureza, os solos, as nuvens, os ventos e outros eventos naturais sabem, de golpe, o que vai acontecer e o que fazer.
Investigações recentes mostraram que as pessoas não mudam por causa de informações sobre o aquecimento global, mas quando sofrem na pele com a degradação ambiental. Isso comprova que o motor que move as pessoas é menos o intelecto que o sentimento profundo, raiz do novo paradigma de convivência com a Terra. Sem esse sentimento não ouviremos a grande voz da Terra a nos convidar para a sinergia, a compaixão, a coexistência pacífica com todos os seres. A partir desse pathos se torna absurdo querer subordinar o novo conhecimento genético à obtenção de lucros, como se a vida não valesse por si mesma, sem ser reduzida a uma simples mercadoria no balcão de negócios.
Se esta sintonia fina com a natureza em nós e também ao nosso redor não se transformar numa cultura, então estaremos sempre às voltas com a busca da justa medida a ser encontrada e aplicada. Viveremos reconciliados conosco mesmo e com a natureza. Eis um caminho a seguir.
A natureza é uma realidade tão complexa que não pode ser encerrada em nenhuma definição. Ela permanece um mistério, como mistério é o ser e o nada. O que possuímos são discursos culturais sobre a natureza: das culturas ancestrais, das modernas e das várias ciências. Em nome de cada compreensão, decide-se qual é o nosso lugar nela e que tipo de intervenção é adequada ou não.
Quando contemplamos a natureza salta logo aos olhos uma medida imanente a ela que resulta não das partes tomadas isoladamente, mas do todo orgânico e vivo. Há harmonia e equilíbrio.
Para os contemporâneos a natureza resulta de um imenso processo de evolução que vai além do modelo de Charles Darwin (1809-1882), que fundamentalmente a restringia à biosfera sem incluir o cosmos. Tudo começou com o big bang num processo não linear que conhece saltos, flutuações e bifurcações. Não só se expande, mas cria e organiza possibilidades novas. Significa que as leis naturais não possuem caráter determinístico, mas probabilístico.
Os conhecimentos da termodinânica nos sinalizam que a vida e qualquer novidade no universo surgem a partir de certa ruptura do equilíbrio. Essa quebra da medida é só um momento, pois provoca em seguida a auto-organização que cria um novo equilíbrio dinâmico. É dinâmico porque continuamente se refaz, não pela reprodução do equilíbrio anterior, mas pela criação de um novo. A lógica da natureza em evolução é esta: organização-desorganização-interação-nova organização. E assim sucessivamente.
Isso não significa que a natureza não possua uma medida (leis da natureza); o que ela não possui é uma medida estática e mecânica, mas dinâmica e flutuante, caracterizada por constâncias e variações. Há fases de ruptura para logo em seguida gestar nova regularidade. A Terra já foi quase duas vezes mais quente que hoje, mas apesar disso mostrou ao longo das eras um incrível equilíbrio dinâmico que tem favorecido benevolamente a vida em sua diversidade.
A natureza vista como um todo não impõe prescrições. Aponta para tendências e regularidades que podem ir em várias direções. Cabe ao ser humano, auscultando a natureza e com fina percepção, escolher uma que lhe pareça mais adequada. Então ele surge como um ser responsável e ético.
O ser humano deve seguir a lógica da natureza: fazer e refazer continuamente o equilíbrio. Não de uma vez por todas, mas sempre em atenção ao que está ocorrendo no ambiente, na história e nele mesmo. A justa medida muda, o que não muda é a permanente busca da justa medida.
Os povos indígenas nos dão disso o melhor exemplo. Por uma afinidade profunda com a natureza, os solos, as nuvens, os ventos e outros eventos naturais sabem, de golpe, o que vai acontecer e o que fazer.
Investigações recentes mostraram que as pessoas não mudam por causa de informações sobre o aquecimento global, mas quando sofrem na pele com a degradação ambiental. Isso comprova que o motor que move as pessoas é menos o intelecto que o sentimento profundo, raiz do novo paradigma de convivência com a Terra. Sem esse sentimento não ouviremos a grande voz da Terra a nos convidar para a sinergia, a compaixão, a coexistência pacífica com todos os seres. A partir desse pathos se torna absurdo querer subordinar o novo conhecimento genético à obtenção de lucros, como se a vida não valesse por si mesma, sem ser reduzida a uma simples mercadoria no balcão de negócios.
Se esta sintonia fina com a natureza em nós e também ao nosso redor não se transformar numa cultura, então estaremos sempre às voltas com a busca da justa medida a ser encontrada e aplicada. Viveremos reconciliados conosco mesmo e com a natureza. Eis um caminho a seguir.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
BARULHO E SILÊNCIO
Gosto de ler na Bíblia, no primeiro livro dos Reis, o fato que revela a
grandeza do silêncio e sua necessidade. O fato é esse. Deus ia passar
por onde estava Elias e seus companheiros. De repente surgiu um furacão
que rasgava os montes e despedaçava os rochedos. Deus não estava no
furacão. Surgiu depois um grande terremoto. Deus não se encontrava no
terremoto. Houve um grande fogo, mas Deus estava ausente. Passado o fogo
percebeu-se o sussurro de uma brisa leve. No meio da brisa amena saiu
uma suave voz que perguntou: O que estás fazendo aqui Elias?
Leio, observo, sento e olho para esta nossa sociedade, para este nosso chão feito de trabalho e música, de vida no lar e na rua, de encontros e desencontros de pessoas e me pergunto: Deus, onde estás?
Há demais furacões nas ruas. Quem ainda consegue aguentar o barulho dos carros que fazem comerciais e os carros que fazem tremer as janelas das casas, numa concorrência de quem está mais na solidão?
Há demais terremotos que rebentam os ouvidos dos jovens, usando e abusando dos fones, abusando na escuta de bandas que, para encobrir a pobreza musical, reforçam as baterias e os ritmos musicais.
Há demais fogos que incendeiam as brigas dentro de casa e os meios de comunicação sempre ligados em alto volume. Há demais ventos e trovões que vêm das escolas e das igrejas. Há demais tempestades que batem nas necessidades e nas emoções das pessoas que, em nome de Deus, gritam por socorro, curas e salvação. E Deus, que está em tudo e em todos, que está no longe e no perto, continua gostando da brisa do silêncio da vida.
Deus é o silêncio do universo. A natureza toda é silêncio e silenciosa. O equilíbrio da pessoa acontece na medida em que é capaz de estar só e de silenciar.
Cada pessoa, para poder sobreviver nesse ambiente de tempestade e furacões, deve ir criando o clima da brisa da tarde. O clima da brisa está em sentar-se e pensar sobre a vida, em ser capaz de estar sozinho.
O clima da brisa é conseguir tomar um livro ou a Palavra de Deus e passar uns momentos lendo. O clima da brisa é ser capaz de ficar esperando para que os furacões e os ventos passem, para sentir que a brisa chegou.
É preciso perceber a mistura de silêncio e de barulho em que vivemos. Além de perceber, sermos despertadores. Fazer as pessoas perceberem aquilo que faz bem ao corpo e à mente. Que ajude a viver melhor. A história passada nos ensina que pessoas de grande pensamento escolheram viver longe do barulho. Pessoas criativas se distanciam dos ambientes agitados. Artistas, escritores e poetas gostam do silêncio, e é lá que fazem suas criações.
Pessoalmente, caminho pelo silêncio do mundo, procuro ambientes para pensar, dispenso a companhia de pessoas comuns e gritalhonas e degusto a companhia de mim mesmo.
Leio, observo, sento e olho para esta nossa sociedade, para este nosso chão feito de trabalho e música, de vida no lar e na rua, de encontros e desencontros de pessoas e me pergunto: Deus, onde estás?
Há demais furacões nas ruas. Quem ainda consegue aguentar o barulho dos carros que fazem comerciais e os carros que fazem tremer as janelas das casas, numa concorrência de quem está mais na solidão?
Há demais terremotos que rebentam os ouvidos dos jovens, usando e abusando dos fones, abusando na escuta de bandas que, para encobrir a pobreza musical, reforçam as baterias e os ritmos musicais.
Há demais fogos que incendeiam as brigas dentro de casa e os meios de comunicação sempre ligados em alto volume. Há demais ventos e trovões que vêm das escolas e das igrejas. Há demais tempestades que batem nas necessidades e nas emoções das pessoas que, em nome de Deus, gritam por socorro, curas e salvação. E Deus, que está em tudo e em todos, que está no longe e no perto, continua gostando da brisa do silêncio da vida.
Deus é o silêncio do universo. A natureza toda é silêncio e silenciosa. O equilíbrio da pessoa acontece na medida em que é capaz de estar só e de silenciar.
Cada pessoa, para poder sobreviver nesse ambiente de tempestade e furacões, deve ir criando o clima da brisa da tarde. O clima da brisa está em sentar-se e pensar sobre a vida, em ser capaz de estar sozinho.
O clima da brisa é conseguir tomar um livro ou a Palavra de Deus e passar uns momentos lendo. O clima da brisa é ser capaz de ficar esperando para que os furacões e os ventos passem, para sentir que a brisa chegou.
É preciso perceber a mistura de silêncio e de barulho em que vivemos. Além de perceber, sermos despertadores. Fazer as pessoas perceberem aquilo que faz bem ao corpo e à mente. Que ajude a viver melhor. A história passada nos ensina que pessoas de grande pensamento escolheram viver longe do barulho. Pessoas criativas se distanciam dos ambientes agitados. Artistas, escritores e poetas gostam do silêncio, e é lá que fazem suas criações.
Pessoalmente, caminho pelo silêncio do mundo, procuro ambientes para pensar, dispenso a companhia de pessoas comuns e gritalhonas e degusto a companhia de mim mesmo.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS.
Na encosta de uma montanha, cheia de silêncio e de luz, um monge estabeleceu sua morada. Construiu uma tosca cabana, sem portas. Alimentava-se com vegetais, raízes e frutas abundantes no local. Um pequeno e límpido riacho fornecia-lhe água para beber. A ordem, o canto dos pássaros e as flores lembravam um pequeno paraíso. Havia espaço, clima e tempo para uma vida feliz e inteiramente voltada para Deus.
Na paisagem destacavam-se muitas nogueiras e o monge colheu certa quantidade de nozes e guardou na cabana, uma vez que o inverno costumava ser rigoroso. Mas um pequeno rato descobriu as nozes e isso representou um perigo para a frugal alimentação do eremita. Aproveitando uma ida ao povoado, distante alguns quilômetros, trouxe um gato e pensou: o problema está resolvido. Mas o gato precisava, todos os dias, de um pires com leite e por isso foi necessário conseguir uma ovelha. Aí surgiu a necessidade de uma cerca para guardar a ovelha e um pequeno pasto para alimentá-la. O perigo, nesta altura, vinha do lobo, que poderia devorar a ovelha. O passo seguinte foi comprar um cachorro. A ovelha deu cria e foi necessário contratar um empregado, que exigiu uma arma para sua defesa.
Passaram-se anos e um discípulo foi visitar o velho mestre. Em vez de uma cabana, encontrou próspera fazenda, cercada de muros, com dezenas de empregados. Diante do espanto do discípulo, o mestre esclareceu: trata-se de uma longa história..., mas tudo começou com algumas nozes.
A vida é feita de escolhas. Nem todas parecem importantes, mas, quase sempre, todas indicam uma direção. E elas têm ligação entre si, como elos de uma corrente. Uma pequena escolha parece sem importância, mas pode iniciar um processo, que nos leve longe, bem longe, do objetivo proposto. Todos somos atraídos por valores, mas eles apresentam ambiguidades. Uma coisa é o valor ideal, outra coisa é o valor real. Valor é aquele que, na prática, vale para nós. E assim vamos formando nossa escala de valores, que ao longo da vida pode mudar. E podemos acabar bem longe do objetivo inicial. Linhas paralelas caminham até o infinito sem se afastar ou aproximar. Mas um pequeno desvio inicial acaba alterando significativamente o rumo.
Todo o viajante, algumas vezes, precisa parar e olhar o horizonte, para ver se está no caminho certo. Toda a pessoa, algumas vezes, precisa parar e analisar as próprias escolhas e ver se elas o estão levando para o seu objetivo. E ninguém pode dizer: fui longe demais, agora é tarde. Hoje é o primeiro dia do resto da vida. E se uma coisa é importante, não podemos deixar para amanhã. O tempo de Deus é hoje. A (in)fidelidade de hoje prepara a fidelidade de amanhã. Em seu leito de morte, Francisco de Assis aconselhou a si e aos seus frades: comecemos hoje
Na paisagem destacavam-se muitas nogueiras e o monge colheu certa quantidade de nozes e guardou na cabana, uma vez que o inverno costumava ser rigoroso. Mas um pequeno rato descobriu as nozes e isso representou um perigo para a frugal alimentação do eremita. Aproveitando uma ida ao povoado, distante alguns quilômetros, trouxe um gato e pensou: o problema está resolvido. Mas o gato precisava, todos os dias, de um pires com leite e por isso foi necessário conseguir uma ovelha. Aí surgiu a necessidade de uma cerca para guardar a ovelha e um pequeno pasto para alimentá-la. O perigo, nesta altura, vinha do lobo, que poderia devorar a ovelha. O passo seguinte foi comprar um cachorro. A ovelha deu cria e foi necessário contratar um empregado, que exigiu uma arma para sua defesa.
Passaram-se anos e um discípulo foi visitar o velho mestre. Em vez de uma cabana, encontrou próspera fazenda, cercada de muros, com dezenas de empregados. Diante do espanto do discípulo, o mestre esclareceu: trata-se de uma longa história..., mas tudo começou com algumas nozes.
A vida é feita de escolhas. Nem todas parecem importantes, mas, quase sempre, todas indicam uma direção. E elas têm ligação entre si, como elos de uma corrente. Uma pequena escolha parece sem importância, mas pode iniciar um processo, que nos leve longe, bem longe, do objetivo proposto. Todos somos atraídos por valores, mas eles apresentam ambiguidades. Uma coisa é o valor ideal, outra coisa é o valor real. Valor é aquele que, na prática, vale para nós. E assim vamos formando nossa escala de valores, que ao longo da vida pode mudar. E podemos acabar bem longe do objetivo inicial. Linhas paralelas caminham até o infinito sem se afastar ou aproximar. Mas um pequeno desvio inicial acaba alterando significativamente o rumo.
Todo o viajante, algumas vezes, precisa parar e olhar o horizonte, para ver se está no caminho certo. Toda a pessoa, algumas vezes, precisa parar e analisar as próprias escolhas e ver se elas o estão levando para o seu objetivo. E ninguém pode dizer: fui longe demais, agora é tarde. Hoje é o primeiro dia do resto da vida. E se uma coisa é importante, não podemos deixar para amanhã. O tempo de Deus é hoje. A (in)fidelidade de hoje prepara a fidelidade de amanhã. Em seu leito de morte, Francisco de Assis aconselhou a si e aos seus frades: comecemos hoje
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
OS MISERÁVEIS NÃO FAZEM PROTESTOS.
Somam hoje 950 milhões as pessoas ameaçadas pela fome crônica. Eram 800 milhões até 2007. O número cresceu devido à expansão do agronegócio, cujas tecnologias encarecem os alimentos, e a maior extensão de áreas destinadas ao cultivo de agrocombustíveis, produzidos para saciar a fome de máquinas e não de gente.
A fome é o que há de mais letal inventado pela injustiça humana. Causa mais mortes que todas as guerras. Elimina cerca de 23 mil vidas por dia. As crianças são as principais vítimas.
Quase ninguém morre por falta de alimentos. O ser humano suporta quase tudo: políticos corruptos, humilhações, agressões, indiferenças, a opulência de uns poucos. Até o prato vazio. Por isso ninguém morre da falta completa de alimentos. Os famélicos, quando nada têm para comer, levam à boca, para enganar a fome, restos catados no lixo, lagarto, rato, gato e variados insetos. A falta de vitaminas, carboidratos e outros nutrientes essenciais debilita o organismo, torna-o vulnerável às enfermidades. Crianças raquíticas morrem de simples resfriado, privadas de defesas.
Há apenas quatro fatores de morte precoce: acidentes (de trabalho ou trânsito); violência (assassinato, terrorismo ou guerra); enfermidades (aids ou câncer); e fome. Esta produz o maior número de vítimas. No entanto, é o fator que menos suscita mobilizações. Há sucessivas campanhas contra o terrorismo ou pela cura da aids, mas quem protesta contra a fome?
Os miseráveis não fazem protestos. Só quem come entra em greve, vai às ruas, manifesta em público descontentamento e reivindicações. Como essa gente não sofre ameaça da fome, os famintos são ignorados.
Os líderes das nações mais ricas e poderosas do mundo, reunidos no G8, no início de julho, decidiram liberar US$ 15 bilhões para aplacar a fome mundial. Como o G8 é cínico! Ele é o responsável pelos famintos serem multidão. Eles não existiriam se as nações metropolitanas não adotassem políticas protecionistas, barreiras alfandegárias, transnacionais de agrotóxicos e de sementes transgênicas. Não morreriam de fome cerca de 5 milhões de crianças por ano se o G8 não manipulasse a OMC, não incentivasse a desigualdade social e tudo isso que a aprofunda: o latifúndio, a especulação dos preços dos alimentos, a apropriação privada da riqueza.
Apenas US$ 15 bilhões! Sabem quanto esses senhores e senhoras do G8 destinaram para salvar o mercado financeiro, de setembro de 2008 a junho de 2009? Mil vezes esta quantia! US$ 15 bilhões servem apenas para oferecer uns caramelos a alguns famintos. Sem contar que boa parte desses recursos irá para o bolso dos corruptos ou servirá de moeda de troca eleitoral. Dou-lhe um pão, dá-me um voto!
Se o G8 tivesse de fato intenção de erradicar a fome no mundo, promoveria mudanças nas estruturas mercantilistas que regem a produção e o comércio mundiais, e canalizaria mais recursos às nações pobres que aos agentes do mercado financeiro e à indústria bélica.
Se os donos do mundo quisessem realmente acabar com a fome, eles tornariam o latifúndio um crime de lesa-humanidade e permitiriam a livre circulação de alimentos. Do mesmo modo, se tivessem mesmo o propósito de erradicar o narcotráfico, em vez de prender uns poucos traficantes, poriam suas máquinas de guerra para destruir definitivamente os campos de plantação de maconha, de coca, de papoula... transformando-os em áreas de agricultura familiar. Sem matérias-primas, não há traficante capaz de produzir droga.
Se a natureza algo ensina de óbvio é que, a médio prazo, estaremos todos mortos! Se a Terra já perdeu 25% de sua capacidade de autorregeneração, o que acontecerá se a humanidade tiver que esperar mais 40 anos para que se tomem medidas eficazes?
Se aqueles que não passam fome tivessem, ao menos, fome de justiça, virtude qualificada por Jesus como bem-aventurança, então a esperança em um futuro melhor não seria vã.
A fome é o que há de mais letal inventado pela injustiça humana. Causa mais mortes que todas as guerras. Elimina cerca de 23 mil vidas por dia. As crianças são as principais vítimas.
Quase ninguém morre por falta de alimentos. O ser humano suporta quase tudo: políticos corruptos, humilhações, agressões, indiferenças, a opulência de uns poucos. Até o prato vazio. Por isso ninguém morre da falta completa de alimentos. Os famélicos, quando nada têm para comer, levam à boca, para enganar a fome, restos catados no lixo, lagarto, rato, gato e variados insetos. A falta de vitaminas, carboidratos e outros nutrientes essenciais debilita o organismo, torna-o vulnerável às enfermidades. Crianças raquíticas morrem de simples resfriado, privadas de defesas.
Há apenas quatro fatores de morte precoce: acidentes (de trabalho ou trânsito); violência (assassinato, terrorismo ou guerra); enfermidades (aids ou câncer); e fome. Esta produz o maior número de vítimas. No entanto, é o fator que menos suscita mobilizações. Há sucessivas campanhas contra o terrorismo ou pela cura da aids, mas quem protesta contra a fome?
Os miseráveis não fazem protestos. Só quem come entra em greve, vai às ruas, manifesta em público descontentamento e reivindicações. Como essa gente não sofre ameaça da fome, os famintos são ignorados.
Os líderes das nações mais ricas e poderosas do mundo, reunidos no G8, no início de julho, decidiram liberar US$ 15 bilhões para aplacar a fome mundial. Como o G8 é cínico! Ele é o responsável pelos famintos serem multidão. Eles não existiriam se as nações metropolitanas não adotassem políticas protecionistas, barreiras alfandegárias, transnacionais de agrotóxicos e de sementes transgênicas. Não morreriam de fome cerca de 5 milhões de crianças por ano se o G8 não manipulasse a OMC, não incentivasse a desigualdade social e tudo isso que a aprofunda: o latifúndio, a especulação dos preços dos alimentos, a apropriação privada da riqueza.
Apenas US$ 15 bilhões! Sabem quanto esses senhores e senhoras do G8 destinaram para salvar o mercado financeiro, de setembro de 2008 a junho de 2009? Mil vezes esta quantia! US$ 15 bilhões servem apenas para oferecer uns caramelos a alguns famintos. Sem contar que boa parte desses recursos irá para o bolso dos corruptos ou servirá de moeda de troca eleitoral. Dou-lhe um pão, dá-me um voto!
Se o G8 tivesse de fato intenção de erradicar a fome no mundo, promoveria mudanças nas estruturas mercantilistas que regem a produção e o comércio mundiais, e canalizaria mais recursos às nações pobres que aos agentes do mercado financeiro e à indústria bélica.
Se os donos do mundo quisessem realmente acabar com a fome, eles tornariam o latifúndio um crime de lesa-humanidade e permitiriam a livre circulação de alimentos. Do mesmo modo, se tivessem mesmo o propósito de erradicar o narcotráfico, em vez de prender uns poucos traficantes, poriam suas máquinas de guerra para destruir definitivamente os campos de plantação de maconha, de coca, de papoula... transformando-os em áreas de agricultura familiar. Sem matérias-primas, não há traficante capaz de produzir droga.
Se a natureza algo ensina de óbvio é que, a médio prazo, estaremos todos mortos! Se a Terra já perdeu 25% de sua capacidade de autorregeneração, o que acontecerá se a humanidade tiver que esperar mais 40 anos para que se tomem medidas eficazes?
Se aqueles que não passam fome tivessem, ao menos, fome de justiça, virtude qualificada por Jesus como bem-aventurança, então a esperança em um futuro melhor não seria vã.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
A INGENUIDADE DA MÃE.
O filho mimado, superprotegido pela mãe que via nele sua realização de mulher, embora frequentemente alertada pelo pai, cresceu não precisando acertar em nada. A mãe passava-lhe a mão na cabecinha e dizia que adotara o método summerhill. Iria educá-lo em liberdade e não na repressão como sua mãe o fizera.
Assim foi, e ele cresceu. Chegou aos 32 anos como um fracasso em pessoa. O casal acabou se separando, o pai morreu depois num acidente e a mãe, que conseguia o seu dinheiro da aposentadoria do pai, continuou pondo a mão na cabeça do filho e a achar que ele era um gênio e que não devia ser forçado a nada.
Assim ele não se fixava em nenhum emprego e todo empreendimento que assumia, fracassava. Não deu certo em nada, nem no namoro, nem no trabalho, nem nas coisas que criava. Elas acabavam assim que ele começava a agir. Ninguém mais o queria por perto. Mas ela o via como um gênio. Ai de quem criticasse o menino ou o garoto já com mais de 30 anos.
Punha-lhe na mão dinheiro e quando era dinheiro grande, ele alegava ter perdido ou ter sido assaltado. Ela acreditava piamente nele. Um dia, um irmão dela lhe disse que o menino se drogava. Ela virou fera. Sabia quem era o filho. Nunca! Filho dela poderia ter defeitos, mas não se drogava. Segundo ela, vivera 30 anos com ele, era a mãe e ela saberia. Não, o filho dela apenas tinha traumas vindos do pai. Ela o protegia porque ele era um filho sofrido, mas droga, nunca! Não o filho dela.
O rapaz foi enterrado no dia seis de maio. Morrera de overdose. Ela aprontou um auê com os médicos. Para ela, o moço morreu de parada cardíaca. Médicos não sabem nada! O filho dela nunca se drogou!
Oremos pelas mães que têm certeza de que nunca erraram, nunca erram e nunca errarão.
Assim foi, e ele cresceu. Chegou aos 32 anos como um fracasso em pessoa. O casal acabou se separando, o pai morreu depois num acidente e a mãe, que conseguia o seu dinheiro da aposentadoria do pai, continuou pondo a mão na cabeça do filho e a achar que ele era um gênio e que não devia ser forçado a nada.
Assim ele não se fixava em nenhum emprego e todo empreendimento que assumia, fracassava. Não deu certo em nada, nem no namoro, nem no trabalho, nem nas coisas que criava. Elas acabavam assim que ele começava a agir. Ninguém mais o queria por perto. Mas ela o via como um gênio. Ai de quem criticasse o menino ou o garoto já com mais de 30 anos.
Punha-lhe na mão dinheiro e quando era dinheiro grande, ele alegava ter perdido ou ter sido assaltado. Ela acreditava piamente nele. Um dia, um irmão dela lhe disse que o menino se drogava. Ela virou fera. Sabia quem era o filho. Nunca! Filho dela poderia ter defeitos, mas não se drogava. Segundo ela, vivera 30 anos com ele, era a mãe e ela saberia. Não, o filho dela apenas tinha traumas vindos do pai. Ela o protegia porque ele era um filho sofrido, mas droga, nunca! Não o filho dela.
O rapaz foi enterrado no dia seis de maio. Morrera de overdose. Ela aprontou um auê com os médicos. Para ela, o moço morreu de parada cardíaca. Médicos não sabem nada! O filho dela nunca se drogou!
Oremos pelas mães que têm certeza de que nunca erraram, nunca erram e nunca errarão.
domingo, 24 de agosto de 2014
UM PAÍS SEM MEMORIA VAI AFUNDANDO POUCO A POUCO.
O grande filósofo Martin Heidegger afirma: “A memória é o recolhimento do pensar fiel”. Com isso, quer dizer que ela protege e guarda consigo tudo aquilo que é importante, que faz sentido, que se antepõe e antecede mesmo aos fatos como seu sentido. Por isso, a memória é a condição de possibilidade da cultura, da civilização, de tudo que o ser humano constrói sobre a terra.
Em termos teológicos, a memória é o que permite não perder a Palavra revelada e acolhida na fé; a identidade do Deus pessoal que se revela, diz seu nome e mostra seu rosto e deseja ser reconhecido. Pela memória se narra e se conta a história dessa experiência, desse diálogo, dessa identidade. E tudo isso para fazer memória, para não deixar esquecer aquilo que fez e deve continuar fazendo a humanidade: viver, sofrer, rir, pensar, falar e conhecer.
Existe a memória da alegria, do amor vivido e realizado, dos momentos vividos juntos. Memória dos rostos sorridentes, das palavras trocadas, dos gestos de carinho sentidos sobre a pele.
Mas existe também a memória da dor. Ela não fala em termos abstratos, do “ser humano” ou da “humanidade”. Fala do outro concreto: do desespero das viúvas que se lançam impotentes sobre o caixão do companheiro; do choro das crianças órfãs que gritam sem entender por que seu pai jaz no chão perfurado por balas; dos rostos emagrecidos e famintos dos que vivem em continentes que as grandes potências riscaram dos mapas. Fala do holocausto nazista... e dos expurgos stalinistas e de seus milhões de vítimas.
Quando há olvido dessa dor e desse sofrimento, surge um processo lento de desumanização de um povo ou de uma cultura. Por isso filósofos como Adorno, teólogos como Metz, enfatizam a importância da dimensão subversiva da memória. É subversiva porque não deixa desaparecer o mal praticado, a justiça desprezada e põe em evidência a extinção da tradição que começa a crescer, ameaçando sufocar a dignidade humana.
A memória reclama um modo de pensar que não reduza o sujeito a uma abstração conceitual sem referência à história e aos processos sociais. E assim reivindica o direito de ser uma mediação crítica para a prática humana. Seu instrumento é por excelência a narrativa. Assim nasceu o cristianismo, quando os discípulos do nazareno narravam a história daquele que passara pela vida fazendo o bem, que fora morto violenta e injustamente, mas que Deus ressuscitara e agora se encontrava vivo em meio a eles.
Assim acontece com as vítimas da história que, nomeadas e narradas pela memória, permanecem vivas. Não se trata de um mero amor às tradições, mas o desejo de criar e formar uma comunidade de solidariedade com as vítimas da história, que interrompe as tentativas de calar e amordaçar a verdade que os sistemas totalitários de todos os tipos carregam em seu bojo. A memória resgata a narrativa ardente do passado e o atualiza para transformar o presente. Rememora acontecimentos com urgência de futuro, criando uma solidariedade que olha longe e vê além das aparências.
Um país sem memória vai pouco a pouco vendo desaparecer e esfumar-se sua identidade verdadeira. Abre espaço para retornos indesejados e varre para as sombras de um equivocado esquecimento presenças luminosas cujas vidas deveriam ser narradas uma e mais vezes, a fim de iluminar o caminho das novas gerações. Esperemos que o Brasil não entre nessa lista. Seria desastroso e indigno da grande nação que é.
Em termos teológicos, a memória é o que permite não perder a Palavra revelada e acolhida na fé; a identidade do Deus pessoal que se revela, diz seu nome e mostra seu rosto e deseja ser reconhecido. Pela memória se narra e se conta a história dessa experiência, desse diálogo, dessa identidade. E tudo isso para fazer memória, para não deixar esquecer aquilo que fez e deve continuar fazendo a humanidade: viver, sofrer, rir, pensar, falar e conhecer.
Existe a memória da alegria, do amor vivido e realizado, dos momentos vividos juntos. Memória dos rostos sorridentes, das palavras trocadas, dos gestos de carinho sentidos sobre a pele.
Mas existe também a memória da dor. Ela não fala em termos abstratos, do “ser humano” ou da “humanidade”. Fala do outro concreto: do desespero das viúvas que se lançam impotentes sobre o caixão do companheiro; do choro das crianças órfãs que gritam sem entender por que seu pai jaz no chão perfurado por balas; dos rostos emagrecidos e famintos dos que vivem em continentes que as grandes potências riscaram dos mapas. Fala do holocausto nazista... e dos expurgos stalinistas e de seus milhões de vítimas.
Quando há olvido dessa dor e desse sofrimento, surge um processo lento de desumanização de um povo ou de uma cultura. Por isso filósofos como Adorno, teólogos como Metz, enfatizam a importância da dimensão subversiva da memória. É subversiva porque não deixa desaparecer o mal praticado, a justiça desprezada e põe em evidência a extinção da tradição que começa a crescer, ameaçando sufocar a dignidade humana.
A memória reclama um modo de pensar que não reduza o sujeito a uma abstração conceitual sem referência à história e aos processos sociais. E assim reivindica o direito de ser uma mediação crítica para a prática humana. Seu instrumento é por excelência a narrativa. Assim nasceu o cristianismo, quando os discípulos do nazareno narravam a história daquele que passara pela vida fazendo o bem, que fora morto violenta e injustamente, mas que Deus ressuscitara e agora se encontrava vivo em meio a eles.
Assim acontece com as vítimas da história que, nomeadas e narradas pela memória, permanecem vivas. Não se trata de um mero amor às tradições, mas o desejo de criar e formar uma comunidade de solidariedade com as vítimas da história, que interrompe as tentativas de calar e amordaçar a verdade que os sistemas totalitários de todos os tipos carregam em seu bojo. A memória resgata a narrativa ardente do passado e o atualiza para transformar o presente. Rememora acontecimentos com urgência de futuro, criando uma solidariedade que olha longe e vê além das aparências.
Um país sem memória vai pouco a pouco vendo desaparecer e esfumar-se sua identidade verdadeira. Abre espaço para retornos indesejados e varre para as sombras de um equivocado esquecimento presenças luminosas cujas vidas deveriam ser narradas uma e mais vezes, a fim de iluminar o caminho das novas gerações. Esperemos que o Brasil não entre nessa lista. Seria desastroso e indigno da grande nação que é.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
O MUNDO VAI MAL PORQUE OS BONS SE OMITEM.
Num campo isolado, com muita relva e muita água, viviam tranquilos três touros: um marrom, um branco e um preto. Nas cercanias habitava também um leão, que era visto, algumas vezes, entre a vegetação espessa, espiando os animais. Naturalmente, ele causava medo. Mas, aos poucos, os touros estavam se acostumando, até mesmo comentavam que o leão não era tão feroz como se dizia. Vez por outra o leão, respeitosamente, desejava a eles um bom dia.
Aproveitando a ausência do touro branco, o leão se aproximou dos touros preto e marrom e fez-lhe esta proposta: corremos o risco de chamar atenção dos caçadores por causa da cor chamativa do touro branco, tão diferente da nossa, que é tão discreta. Os touros concordaram e o leão devorou o touro branco. Passado algum tempo, o leão insinuou-se junto ao touro marrom: a tua cor e a minha cor são iguais. Deixa-me comer o touro preto, para que possamos viver tranquilos. A contragosto, o touro marrom concordou e o touro preto foi também devorado. E o touro marrom ficou sozinho. Chegou tua vez, disse o leão, uma semana depois. Conformado, o touro disse apenas: faze-o, mas antes deixe que eu proclame uma verdade: fui devorado no dia em que entregamos o touro branco.
A fábula dos animais se repete, muitas vezes, com os humanos. A injustiça praticada contra um inocente afeta a todos. A omissão costuma cobrar um preço muito alto. O raciocínio é míope: não tenho nada a ver com aquilo.
Poeta e pensador alemão do século XX, Bertold Brecht deixou um pequeno poema sobre a omissão diante do nazismo: primeiro vieram prender os comunistas, eu não me importei, pois não era marxista; depois prenderam alguns operários, não me importei, pois não sou operário; depois agarraram os sacerdotes, mais uma vez não me importei, não sou religioso... Quando vieram prender-me, não tinha ninguém para me defender.
A tentação de lavar as mãos, a clássica receita de Pilatos, costuma trazer um perigoso saldo de injustiças, lágrimas e sangue. Aparentemente não é conosco e fingimos não ver e escutar. O pensador John Danne proclamava: nenhum homem é uma ilha: cada homem é uma parte da terra. Se um torrão cai no mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, o solar do teu amigo ou o teu próprio...
Possivelmente o maior pecado da atualidade seja a omissão. O mundo não vai mal porque existem muitos maus, mas porque os bons se omitem. Povo unido jamais será vencido, proclamava um grito de mobilização na década de oitenta. A estratégia contrária propõe: dividir para vencer. Determinadas alianças podem tornar-se perigosas. E no final da vida seremos cobrados por tudo o que não fizemos. E a aliança do leão com o cabrito nunca dará certo.
Aproveitando a ausência do touro branco, o leão se aproximou dos touros preto e marrom e fez-lhe esta proposta: corremos o risco de chamar atenção dos caçadores por causa da cor chamativa do touro branco, tão diferente da nossa, que é tão discreta. Os touros concordaram e o leão devorou o touro branco. Passado algum tempo, o leão insinuou-se junto ao touro marrom: a tua cor e a minha cor são iguais. Deixa-me comer o touro preto, para que possamos viver tranquilos. A contragosto, o touro marrom concordou e o touro preto foi também devorado. E o touro marrom ficou sozinho. Chegou tua vez, disse o leão, uma semana depois. Conformado, o touro disse apenas: faze-o, mas antes deixe que eu proclame uma verdade: fui devorado no dia em que entregamos o touro branco.
A fábula dos animais se repete, muitas vezes, com os humanos. A injustiça praticada contra um inocente afeta a todos. A omissão costuma cobrar um preço muito alto. O raciocínio é míope: não tenho nada a ver com aquilo.
Poeta e pensador alemão do século XX, Bertold Brecht deixou um pequeno poema sobre a omissão diante do nazismo: primeiro vieram prender os comunistas, eu não me importei, pois não era marxista; depois prenderam alguns operários, não me importei, pois não sou operário; depois agarraram os sacerdotes, mais uma vez não me importei, não sou religioso... Quando vieram prender-me, não tinha ninguém para me defender.
A tentação de lavar as mãos, a clássica receita de Pilatos, costuma trazer um perigoso saldo de injustiças, lágrimas e sangue. Aparentemente não é conosco e fingimos não ver e escutar. O pensador John Danne proclamava: nenhum homem é uma ilha: cada homem é uma parte da terra. Se um torrão cai no mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, o solar do teu amigo ou o teu próprio...
Possivelmente o maior pecado da atualidade seja a omissão. O mundo não vai mal porque existem muitos maus, mas porque os bons se omitem. Povo unido jamais será vencido, proclamava um grito de mobilização na década de oitenta. A estratégia contrária propõe: dividir para vencer. Determinadas alianças podem tornar-se perigosas. E no final da vida seremos cobrados por tudo o que não fizemos. E a aliança do leão com o cabrito nunca dará certo.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
OS TALENTOS DEVEM CRESCER E FRUTIFICAR.
Ser a melhor pessoa, não em relação às outras. Isso cheiraria a competição. Toda comparação limita e estraga. O bonito é ser a melhor pessoa em relação a si mesma. Quer dizer, tirar de dentro de si o melhor. Oferecer ao mundo o melhor de si. Não apenas existir como um satélite que rodeia esta terra, sem marcar presença. Dar o melhor de si é marcar esta terra com uma passagem e uma história pessoal, com assinatura própria e com o máximo de potência que o Criador confiou.
Ser a melhor pessoa no exercício dos talentos. Em cada ser humano há talentos diferentes. Não podem ser enterrados como no fato que Jesus conta no Evangelho. Devem frutificar. Os talentos são possibilidades que devem ser desenvolvidas. Muitas pessoas passam por esta viagem na terra sem descobrir seus talentos. Não tiveram ocasião ou simplesmente foram dominadas pela acomodação e preguiça. Nenhuma pessoa deve se considerar inútil e sem talentos. Todas nascem com possibilidades. Mas é preciso cultivar, deixar crescer e frutificar. Isso exige refletir, sacrificar-se, dedicar tempo. Isso exige grande disciplina e domínio de si. Exige ser aluno de si mesmo. Escutar-se. Tomar-se na mão. Ser senhor de si mesmo. Não viver ao sabor do vento. Ter um objetivo. Ter um propósito. Lutar e ver na frente, como num espelho, a melhor pessoa que pode tornar-se.
Ser a melhor pessoa respondendo às necessidades. Basicamente todas as pessoas têm as mesmas necessidades e podemos resumi-las em físicas, mentais, emocionais e espirituais. Devo cuidar bem do corpo para me tornar uma pessoa saudável. Para ter a melhor saúde possível. Devo cuidar de minhas emoções para ser a melhor pessoa nos relacionamentos com o próximo, com o mundo e com Deus. As relações sadias me tornam a melhor pessoa para mim mesmo. Devo cultivar minha mente, meu estudo e reflexão, para tornar-me o melhor de mim em minha profissão e na sabedoria da vida. Devo cultivar minha espiritualidade, para que minha vida tenha um significado e possa tornar-me a melhor criatura de Deus, segundo seus planos a meu respeito. Morrer sentindo-me a melhor pessoa que podia tornar-me é ter vivido com sentido e ter construído o céu, que é o desejo do coração.
Ser a melhor pessoa cultivando os desejos. Há desejos e sonhos no coração humano que não podem ser traídos. Trair os sonhos é trair-se a si mesmo. É trair a vocação e o destino. Devo escutar e cultivar meus desejos. Devo tomá-los na mão e ver qual a melhor maneira de realizá-los no trabalho, na convivência e em todas as situações. Os desejos são como gritos do coração que clamam para ser escutados: gritos de amar e ser amado, de vida e paz, de harmonia e convivência, de felicidade e alegria, de festa e eternidade.
Tenho que tirar de dentro de mim o melhor que sou, para poder dizer que sou uma pessoa livre e realizada. Tenho que chegar a ser a melhor pessoa que posso ser.
Ser a melhor pessoa no exercício dos talentos. Em cada ser humano há talentos diferentes. Não podem ser enterrados como no fato que Jesus conta no Evangelho. Devem frutificar. Os talentos são possibilidades que devem ser desenvolvidas. Muitas pessoas passam por esta viagem na terra sem descobrir seus talentos. Não tiveram ocasião ou simplesmente foram dominadas pela acomodação e preguiça. Nenhuma pessoa deve se considerar inútil e sem talentos. Todas nascem com possibilidades. Mas é preciso cultivar, deixar crescer e frutificar. Isso exige refletir, sacrificar-se, dedicar tempo. Isso exige grande disciplina e domínio de si. Exige ser aluno de si mesmo. Escutar-se. Tomar-se na mão. Ser senhor de si mesmo. Não viver ao sabor do vento. Ter um objetivo. Ter um propósito. Lutar e ver na frente, como num espelho, a melhor pessoa que pode tornar-se.
Ser a melhor pessoa respondendo às necessidades. Basicamente todas as pessoas têm as mesmas necessidades e podemos resumi-las em físicas, mentais, emocionais e espirituais. Devo cuidar bem do corpo para me tornar uma pessoa saudável. Para ter a melhor saúde possível. Devo cuidar de minhas emoções para ser a melhor pessoa nos relacionamentos com o próximo, com o mundo e com Deus. As relações sadias me tornam a melhor pessoa para mim mesmo. Devo cultivar minha mente, meu estudo e reflexão, para tornar-me o melhor de mim em minha profissão e na sabedoria da vida. Devo cultivar minha espiritualidade, para que minha vida tenha um significado e possa tornar-me a melhor criatura de Deus, segundo seus planos a meu respeito. Morrer sentindo-me a melhor pessoa que podia tornar-me é ter vivido com sentido e ter construído o céu, que é o desejo do coração.
Ser a melhor pessoa cultivando os desejos. Há desejos e sonhos no coração humano que não podem ser traídos. Trair os sonhos é trair-se a si mesmo. É trair a vocação e o destino. Devo escutar e cultivar meus desejos. Devo tomá-los na mão e ver qual a melhor maneira de realizá-los no trabalho, na convivência e em todas as situações. Os desejos são como gritos do coração que clamam para ser escutados: gritos de amar e ser amado, de vida e paz, de harmonia e convivência, de felicidade e alegria, de festa e eternidade.
Tenho que tirar de dentro de mim o melhor que sou, para poder dizer que sou uma pessoa livre e realizada. Tenho que chegar a ser a melhor pessoa que posso ser.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
CARTA A EDUARDO CAMPOS
Eduardo, você não imagina o quanto eu e todo povo pernambucano estamos lamentando a tua trágica e inesperada partida. Temos muitos motivos para isso. Primeiro, pela falta que irás fazer a tua família e aos teus amigos. Depois, pelo exemplo de homem público que representavas para o nosso estado e para o Brasil.
No entanto, eu tenho um motivo particular para lamentar a tua morte. Depois da tua entrevista no Jornal Nacional, eu fiquei com muita vontade de te encontrar, de apertar a tua mão, olhar no teu olho e te perguntar: Quem disse que eu desisti do Brasil, Eduardo? Infelizmente, no dia seguinte, ocorreu o trágico acidente e eu nunca vou poder te dizer isso.
Eduardo, não fui eu, nem o povo brasileiro que desistimos do Brasil.
Quem desistiu do Brasil foram setores da política e da mídia brasileira, quando promoveram o golpe militar de 1964 que mergulhou o nosso país em 21 anos de ditadura militar e que submeteu o povo brasileiro aos anos mais difíceis de nossa história. Inclusive, sua família foi vítima na carne daquele momento, quando o seu avô e então governador de Pernambuco, o inesquecível Miguel Arraes, foi retirado à força do Palácio do Campo das Princesas e levado ao exílio.
Eduardo, você não imagina o que essa mesma mídia está fazendo com a tragédia que marcou a queda do teu avião. Eu nunca pensei que um dia pudesse ver carrascos do jornalismo político brasileiro como Willian Bonner, Patrícia Poeta, Alexandre Garcia e Miriam Leitão falando tão bem de um homem público. Os mesmos que, um dia antes do acidente, quiseram associar a tua imagem ao nepotismo no Brasil choram agora a tua morte como se você fosse a última esperança do povo brasileiro ver um Brasil melhor. Reconheço as tuas qualidades, governador, mas não sou ingênuo para acreditar que sejam elas o motivo de tanta comoção no noticiário político brasileiro.
A pauta dos veículos de comunicação conservadores do Brasil sempre foi e vai continuar sendo a mesma: destruir o projeto político do partido dos trabalhadores que ameaça por fim às concessões feitas até então a eles. O teu acidente, Eduardo, é só mais uma circunstância explorada com esse fim, do mesmo jeito que foi o mensalão, os protestos de julho e a refinaria de Pasádena. Se amanhã surgir um escândalo “que dê mais ibope” e ameace a reeleição de Dilma, a mídia não hesitará em enterrar você de uma vez por todas. Por enquanto, eles vão disseminando as suposições de que foi Dilma quem sabotou o teu avião, e que fez isso no dia 13 justamente pra dizer que quem manda é o PT. Pior do que isso é que tem gente que acredita e multiplica mentiras e ódio nas redes sociais.
Lamentável! A Rede Globo e a Veja não estão nem aí para a dor da família, dos amigos e dos que, assim como eu, acreditavam que você não desistiria do Brasil. Você é objeto midiático do momento.
Eduardo, não fui eu quem desistiu do Brasil. Quem desistiu foi o PSDB, que após o regime militar teve a oportunidade de construir um novo projeto de nação soberana e, no entanto, preferiu entregar o Brasil ao FMI e ao imperialismo norte americano, afundando o Brasil em dívidas, inflação, concentração de renda e miséria. O mesmo PSDB que, antes do teu corpo ser enterrado, já estava disseminando disputas entre o PSB e REDE para inviabilizar a candidatura de Marina, aliança que custou tanto a você construir.
Eu não desisti do Brasil, Eduardo. Quem desistiu foi a classe média alta que vaiou uma chefe de Estado num evento de dimensões como a abertura de uma copa do mundo porque não se conforma com o Brasil que distribui renda e possibilita a ricos e pobres, negros e brancos as mesmas oportunidades.
E tem mais uma coisa, Governador. Se ao convocar o povo brasileiro para não desistir do Brasil o senhor quis passar o recado de que quem desistiu foi Lula e Dilma, eu gostaria muito de dizer que nem eu, nem o povo e, nem mesmo o senhor, acredita nisso. Muito pelo contrário. A gente sabe que o PT resgatou o Brasil do atraso imposto pelo nosso processo histórico de colonização, do intervencionismo norte americano e da recessão dos governos tucanos. Ao contrário de desistir do Brasil, Lula e Dilma se doaram ao nosso povo e promoveram a maior política de distribuição de renda do mundo, através do bolsa família. Lula e Dilma universalizaram o acesso às universidades públicas através do PROUNI, do FIES e do ENEM. Estão criando novas oportunidades de emprego e renda através do PRONATEC e estão revolucionando a saúde com o programa mais médicos.
Eduardo, eu precisava te dizer: não fui eu, nem o povo brasileiro, nem Lula, nem Dilma que desistimos do Brasil. Quem desistiu do Brasil, meu caro, foram os mesmos que hoje estão chafurdando em cima das circunstâncias que envolvem o acidente que de forma lamentável tirou você do nosso convívio. Fazem isso com o motivo único e claro de desgastar a reeleição de Dilma e entregar o país nas mãos de quem, de fato, desistiu do Brasil.
Descanse em paz, Eduardo. Por aqui, apesar da falta que você vai fazer a todo povo pernambucano, eu, Lula, Dilma e os brasileiros que acreditam no futuro do Brasil vamos continuar na luta, porque NÓS NUNCA DESISTIREMOS DO BRASIL.
Por Carlos Francisco da Silva, de Bezerros (PE)
No entanto, eu tenho um motivo particular para lamentar a tua morte. Depois da tua entrevista no Jornal Nacional, eu fiquei com muita vontade de te encontrar, de apertar a tua mão, olhar no teu olho e te perguntar: Quem disse que eu desisti do Brasil, Eduardo? Infelizmente, no dia seguinte, ocorreu o trágico acidente e eu nunca vou poder te dizer isso.
Eduardo, não fui eu, nem o povo brasileiro que desistimos do Brasil.
Quem desistiu do Brasil foram setores da política e da mídia brasileira, quando promoveram o golpe militar de 1964 que mergulhou o nosso país em 21 anos de ditadura militar e que submeteu o povo brasileiro aos anos mais difíceis de nossa história. Inclusive, sua família foi vítima na carne daquele momento, quando o seu avô e então governador de Pernambuco, o inesquecível Miguel Arraes, foi retirado à força do Palácio do Campo das Princesas e levado ao exílio.
Eduardo, você não imagina o que essa mesma mídia está fazendo com a tragédia que marcou a queda do teu avião. Eu nunca pensei que um dia pudesse ver carrascos do jornalismo político brasileiro como Willian Bonner, Patrícia Poeta, Alexandre Garcia e Miriam Leitão falando tão bem de um homem público. Os mesmos que, um dia antes do acidente, quiseram associar a tua imagem ao nepotismo no Brasil choram agora a tua morte como se você fosse a última esperança do povo brasileiro ver um Brasil melhor. Reconheço as tuas qualidades, governador, mas não sou ingênuo para acreditar que sejam elas o motivo de tanta comoção no noticiário político brasileiro.
A pauta dos veículos de comunicação conservadores do Brasil sempre foi e vai continuar sendo a mesma: destruir o projeto político do partido dos trabalhadores que ameaça por fim às concessões feitas até então a eles. O teu acidente, Eduardo, é só mais uma circunstância explorada com esse fim, do mesmo jeito que foi o mensalão, os protestos de julho e a refinaria de Pasádena. Se amanhã surgir um escândalo “que dê mais ibope” e ameace a reeleição de Dilma, a mídia não hesitará em enterrar você de uma vez por todas. Por enquanto, eles vão disseminando as suposições de que foi Dilma quem sabotou o teu avião, e que fez isso no dia 13 justamente pra dizer que quem manda é o PT. Pior do que isso é que tem gente que acredita e multiplica mentiras e ódio nas redes sociais.
Lamentável! A Rede Globo e a Veja não estão nem aí para a dor da família, dos amigos e dos que, assim como eu, acreditavam que você não desistiria do Brasil. Você é objeto midiático do momento.
Eduardo, não fui eu quem desistiu do Brasil. Quem desistiu foi o PSDB, que após o regime militar teve a oportunidade de construir um novo projeto de nação soberana e, no entanto, preferiu entregar o Brasil ao FMI e ao imperialismo norte americano, afundando o Brasil em dívidas, inflação, concentração de renda e miséria. O mesmo PSDB que, antes do teu corpo ser enterrado, já estava disseminando disputas entre o PSB e REDE para inviabilizar a candidatura de Marina, aliança que custou tanto a você construir.
Eu não desisti do Brasil, Eduardo. Quem desistiu foi a classe média alta que vaiou uma chefe de Estado num evento de dimensões como a abertura de uma copa do mundo porque não se conforma com o Brasil que distribui renda e possibilita a ricos e pobres, negros e brancos as mesmas oportunidades.
E tem mais uma coisa, Governador. Se ao convocar o povo brasileiro para não desistir do Brasil o senhor quis passar o recado de que quem desistiu foi Lula e Dilma, eu gostaria muito de dizer que nem eu, nem o povo e, nem mesmo o senhor, acredita nisso. Muito pelo contrário. A gente sabe que o PT resgatou o Brasil do atraso imposto pelo nosso processo histórico de colonização, do intervencionismo norte americano e da recessão dos governos tucanos. Ao contrário de desistir do Brasil, Lula e Dilma se doaram ao nosso povo e promoveram a maior política de distribuição de renda do mundo, através do bolsa família. Lula e Dilma universalizaram o acesso às universidades públicas através do PROUNI, do FIES e do ENEM. Estão criando novas oportunidades de emprego e renda através do PRONATEC e estão revolucionando a saúde com o programa mais médicos.
Eduardo, eu precisava te dizer: não fui eu, nem o povo brasileiro, nem Lula, nem Dilma que desistimos do Brasil. Quem desistiu do Brasil, meu caro, foram os mesmos que hoje estão chafurdando em cima das circunstâncias que envolvem o acidente que de forma lamentável tirou você do nosso convívio. Fazem isso com o motivo único e claro de desgastar a reeleição de Dilma e entregar o país nas mãos de quem, de fato, desistiu do Brasil.
Descanse em paz, Eduardo. Por aqui, apesar da falta que você vai fazer a todo povo pernambucano, eu, Lula, Dilma e os brasileiros que acreditam no futuro do Brasil vamos continuar na luta, porque NÓS NUNCA DESISTIREMOS DO BRASIL.
Por Carlos Francisco da Silva, de Bezerros (PE)
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