Há padrões de vida que valem para todos os tempos. Há caminhos, leis, maneiras de viver que correspondem às leis da natureza humana, às leis do corpo, da mente e do espírito. Leis e normas que desde os primeiros seres humanos, que viveram há muitos milhares de anos, nortearam a vida de todos. Outros seres humanos, que pertencerão ao futuro, daqui a muitos milhares de anos, seguirão leis e normas, nas mesmas exigências das pessoas do momento presente. Há princípios que são válidos para todos os tempos. Desde o nascer até o morrer. Nascer e morrer já é uma lei que nunca muda. Assim é o comer e o beber, o dormir e o descansar, o procriar e o conviver, o buscar a felicidade, o prazer, a alegria e a realização. Mas, além desses, há princípios vivenciais que ajudam a realizar os grandes princípios da realização humana.
O princípio da simplicidade. O complicado desagrada a todos. A simplicidade faz com que a criatura humana - nós portanto, - tome o caminho do viver com o necessário, sem se embrenhar no complicado caminho do acúmulo materialista. Faz com que tome o caminho do vestir com simplicidade, sem escravizar-se com o prisioneiro caminho da moda, das roupas apertadas e incômodas. Faz com que tome o caminho da alimentação natural e sadia, deixando de lado o mortífero caminho das comidas gostosas e envenenadas. Faz com que trabalhe para viver e não viva para trabalhar, pois a vida é muito mais do que a prisão de uma profissão ou de um trabalho que a torna cega perante o lucro a qualquer preço. O princípio da simplicidade nos faz viver como pessoas livres, donas de si, comandantes da vida e do destino.
O princípio da sobriedade. Ser sóbrio é ser sábio. A sobriedade faz com que todas as pessoas vivam com o necessário para viver bem. Assim todos teriam possibilidade de vida digna. Não haveria acúmulo de bens. A sobriedade faz com que todos se alimentem com o alimento necessário. Não haveria nem famintos e nem doentes por comerem demais. A sobriedade faz com que todos tenham água e bebida suficientes. Não haveria beberrões e nem pessoas sedentas. O princípio da sobriedade perpassa o vestir, o trabalhar, o divertir-se e todas as atividades humanas. É o equilíbrio da vida.
O princípio da austeridade. Austera não é a pessoa séria e que escolhe o sacrifício como modo de vida. A pessoa austera vive a sabedoria de não gastar mais do que ganha, de não comer mais do que o corpo necessita, de não beber além do que o corpo chama, de não entregar-se ao prazer pelo simples prazer, que produz depois o sofrimento. Ser austero consigo mesmo é assumir a responsabilidade dos próprios atos. É saber que cada minuto da vida é importante, e que não pode ser jogado fora, porque pode ser o minuto decisivo. A vida certa é resultado de pequenos princípios que decidem uma grande vida.
terça-feira, 29 de julho de 2014
segunda-feira, 28 de julho de 2014
JÁ OUVIU FALAR EM REBIMBOCA DA BERIBELINHA?
Ganha um doce quem souber o que significa rebimboca da beribelinha.
Enguiçado numa esquina, o carro de um amigo viu-se socorrido por uma oficina ambulante instalada numa kombi. O mecânico levantou o capô, fez ares de entendido, mexeu daqui, fuçou dali e, peremptório, pronunciou o diagnóstico: “Precisa trocar a rebimboca da beribelinha”. “Quanto custa isto?”, indagou o motorista. “É uma peça rara e cara, mas por cem reais troco para o senhor.”
Feito o acordo, o rapaz enfiou a cabeça no motor e, ferramentas em mãos, iniciou a cirurgia mecânica. Findo o serviço, cinco minutos depois, o carro ligou e o motorista pagou. No dia seguinte, por precaução gaúcha, levou o veículo na oficina da concessionária. Só então soube que não existe rebimboca da beribelinha; o enguiço ocorrera porque soltara o cabo da bateria.
Ora, todos sabemos que existe sim rebimboca da beribelinha. É essa capacidade de certas pessoas explicarem o inexplicável: a defesa de políticos corruptos (basta comparar renda e patrimônio para se tornarem eticamente indefensáveis); a revogabilidade do irrevogável; o ex-presidente ao negar conhecer um jovem apadrinhado por ele; o senador que recorre a notas frias de frigoríficos (com perdão da redundância) para justificar sua dinheirama; a anistia a torturadores que jamais foram punidos; o famoso inquérito de trinta dias para apurar acidentes; o sumiço de drogas apreendidas pela polícia; as propaladas vantagens dos alimentos transgênicos; os anúncios de pedofilia virtual que usam crianças como iscas de consumo; a responsabilidade social de empresas que degradam o ambiente inteiro; os pregadores religiosos insensíveis à miséria circundante; o elegante contrabando de lojas de grifes etc, etc.
Rebimboca da beribelinha é a capacidade de falar sem dizer nada; prometer sem cumprir; governar sem administrar; sorrir sem estar alegre; enfim, roubar o porco e, surpreendido, sair gritando de olho no ombro: “Tira esse bicho daí! Tira esse bicho daí!”
Hoje em dia a rebimboca da beribelinha faz muito sucesso na TV. Tanto que mantém hipnotizados, dia a dia, durante horas, milhões de telespectadores que, além de umas tantas informações dos telejornais, nenhum proveito tiram para ampliar sua cultura, tornar mais crítica sua consciência ou aprofundar sua vida espiritual.
Todos nós temos enguiços na vida, dificuldades, desafios, enfim, peças a serem trocadas e decisões a serem tomadas para saber em que rumo prosseguir. Muitos, acovardados frente aos momentos críticos, apelam para a rebimboca da beribelinha. Reclamam da vida, da realidade, da política do país, do estado atual do mundo, mas nada fazem para mudar esse estado de coisas. Ficam no queixume, alugando os ouvidos de quem está ao lado, destilando ira pela vida fora, à espera de quê? Ora, é evidente, à espera de quem surja e lhes ofereça a rebimboca da beribelinha.
O maior acervo de rebimboca da beribelinha são os arquivos dos parlamentos, nos quais se conservam os discursos de vereadores, deputados e senadores. Quanta empáfia, quanto palavrório, para tão pouco resultado e proveito!
A internet não fica atrás, sobretudo a quantidade de textos, supostamente assinados por autores famosos, que circulam: pura rebimboca da beribelinha. Nada acrescentam à nossa douta ignorância. Enquanto isso, o mundo, lá fora, arde em chamas: guerras, terrorismo, bases usamericanas na Colômbia, gripe suína, narcotráfico, desmatamento da Amazônia, crianças-mendigas improvisadas em acrobatas nas vias dessinalizadas da vida...
Se confissão auricular ainda fosse obrigatória na Igreja, não seria nada mal sugerir ao penitente, em seu exame de consciência, avaliar o quanto seus atos e pensamentos, intenções e palavras, estão repletos de rebimboca da beribelinha.
Deixo a sugestão de se instituir, em clubes e condomínios, empresas e repartições públicas, grupos de amigos e associações, o prêmio anual Rebimboca da Beribelinha. A ser dado a quem, como o meu amigo do carro enguiçado, acredita no primeiro que lhe entuba pelos ouvidos lé com cré.
Enguiçado numa esquina, o carro de um amigo viu-se socorrido por uma oficina ambulante instalada numa kombi. O mecânico levantou o capô, fez ares de entendido, mexeu daqui, fuçou dali e, peremptório, pronunciou o diagnóstico: “Precisa trocar a rebimboca da beribelinha”. “Quanto custa isto?”, indagou o motorista. “É uma peça rara e cara, mas por cem reais troco para o senhor.”
Feito o acordo, o rapaz enfiou a cabeça no motor e, ferramentas em mãos, iniciou a cirurgia mecânica. Findo o serviço, cinco minutos depois, o carro ligou e o motorista pagou. No dia seguinte, por precaução gaúcha, levou o veículo na oficina da concessionária. Só então soube que não existe rebimboca da beribelinha; o enguiço ocorrera porque soltara o cabo da bateria.
Ora, todos sabemos que existe sim rebimboca da beribelinha. É essa capacidade de certas pessoas explicarem o inexplicável: a defesa de políticos corruptos (basta comparar renda e patrimônio para se tornarem eticamente indefensáveis); a revogabilidade do irrevogável; o ex-presidente ao negar conhecer um jovem apadrinhado por ele; o senador que recorre a notas frias de frigoríficos (com perdão da redundância) para justificar sua dinheirama; a anistia a torturadores que jamais foram punidos; o famoso inquérito de trinta dias para apurar acidentes; o sumiço de drogas apreendidas pela polícia; as propaladas vantagens dos alimentos transgênicos; os anúncios de pedofilia virtual que usam crianças como iscas de consumo; a responsabilidade social de empresas que degradam o ambiente inteiro; os pregadores religiosos insensíveis à miséria circundante; o elegante contrabando de lojas de grifes etc, etc.
Rebimboca da beribelinha é a capacidade de falar sem dizer nada; prometer sem cumprir; governar sem administrar; sorrir sem estar alegre; enfim, roubar o porco e, surpreendido, sair gritando de olho no ombro: “Tira esse bicho daí! Tira esse bicho daí!”
Hoje em dia a rebimboca da beribelinha faz muito sucesso na TV. Tanto que mantém hipnotizados, dia a dia, durante horas, milhões de telespectadores que, além de umas tantas informações dos telejornais, nenhum proveito tiram para ampliar sua cultura, tornar mais crítica sua consciência ou aprofundar sua vida espiritual.
Todos nós temos enguiços na vida, dificuldades, desafios, enfim, peças a serem trocadas e decisões a serem tomadas para saber em que rumo prosseguir. Muitos, acovardados frente aos momentos críticos, apelam para a rebimboca da beribelinha. Reclamam da vida, da realidade, da política do país, do estado atual do mundo, mas nada fazem para mudar esse estado de coisas. Ficam no queixume, alugando os ouvidos de quem está ao lado, destilando ira pela vida fora, à espera de quê? Ora, é evidente, à espera de quem surja e lhes ofereça a rebimboca da beribelinha.
O maior acervo de rebimboca da beribelinha são os arquivos dos parlamentos, nos quais se conservam os discursos de vereadores, deputados e senadores. Quanta empáfia, quanto palavrório, para tão pouco resultado e proveito!
A internet não fica atrás, sobretudo a quantidade de textos, supostamente assinados por autores famosos, que circulam: pura rebimboca da beribelinha. Nada acrescentam à nossa douta ignorância. Enquanto isso, o mundo, lá fora, arde em chamas: guerras, terrorismo, bases usamericanas na Colômbia, gripe suína, narcotráfico, desmatamento da Amazônia, crianças-mendigas improvisadas em acrobatas nas vias dessinalizadas da vida...
Se confissão auricular ainda fosse obrigatória na Igreja, não seria nada mal sugerir ao penitente, em seu exame de consciência, avaliar o quanto seus atos e pensamentos, intenções e palavras, estão repletos de rebimboca da beribelinha.
Deixo a sugestão de se instituir, em clubes e condomínios, empresas e repartições públicas, grupos de amigos e associações, o prêmio anual Rebimboca da Beribelinha. A ser dado a quem, como o meu amigo do carro enguiçado, acredita no primeiro que lhe entuba pelos ouvidos lé com cré.
domingo, 27 de julho de 2014
AS PESSOAS É QUE MUDAM O MUNDO.
Como sublinha Bartolomeu Campos de Queiros, tudo que existe - esta publicação, o computador, a cadeira em que me sento, o cômodo no qual me encontro - foi fantasia na mente humana antes de se tornar realidade. Daí a força da literatura de ficção. Também ela foi fantasia na mente do autor e remete o leitor a uma realidade onírica que lhe possibilita encarar a vida com outros olhos. A fantasia impulsiona todos os nossos gestos, atitudes e opções.
A ficção funciona como um espelho que faz o leitor transcender a situação em que se encontra. O texto desvela o contexto e impregna o leitor de pretextos, de motivações que o enlevam, aquele entusiasmo de que falavam os gregos antigos, estar possuído de deuses, de energias anímicas que nos devolvem ao melhor de nós mesmos.
Toda ficção, narrativa ou poética, é descobrimento, revelação. Somos múltiplos e, ao ler, uma de nossas identidades emerge por força do encantamento suscitado pela quintessência da obra ficcional: a estética.
A literatura ficcional não tem que ser de esquerda ou de direita. Tem que ser bela. Fazer da ficção um palanque de causas é aprisioná-la numa camisa de força, transformando-a num espelho que não reflete o leitor, reflete o autor e seu proselitismo. A ficção não tem de ser engajada, o escritor sim tem o dever ético de se comprometer com a defesa dos direitos humanos neste mundo tão conflitivo e desigual.
O prólogo do evangelho de João, um dos textos mais poéticos da Bíblia, só comparável ao Cântico dos Cânticos, diz que “o Verbo se fez carne”. Na arte literária a carne - a criatividade do autor - se faz verbo. Instaura a palavra, que organiza o caos.
No Gênesis, Javé cria o Universo pelo poder da palavra. Ele se faz palavra, manifestação que nos remete, como na obra ficcional, à transcendência (o autor sobrepassa a cotidianeidade ou lhe imprime novo caráter), à transparência (o texto reflete o que está contido nas entrelinhas), a profundência (a narrativa ou o poema nos convida a algo mais profundo do que percebemos na superfície da realidade).
Ler ficção é uma experiência estática - estar em si e fora de si. Somos alçados ao imaginário, induzidos à experiência da catarse, de modo a oxigenar a nossa psiquê. A estética nos imprime um novo modo de encarar as coisas. Como lembra Mário Benedetti, a literatura não muda o mundo, mas sim as pessoas. E as pessoas mudam o mundo.
A estética literária nos envia ao não dito, à esfera do desejo, suscitando-nos sonhos, projetos, utopias, do encontro com o príncipe encantado (Branca de Neve) ao reencontro amoroso com a opressiva figura do pai (A metamorfose, de Kafka, e Lavoura arcaica, de Raduan Nassar). Como assinala Aristóteles, a poética completa o que falta à natureza e à vida. A arte não se satisfaz com o estado factual do ser. Convida-nos à diferença, à dessemelhança, ao tornar-se.
Suscitar em crianças e jovens o hábito da leitura é livrá-los da vida rasa, superficial, fútil, e educá-los no diálogo frequente com personagens, relatos e símbolos (a poesia) que haverão de dilatar neles a virtude da alteridade, de uma relação mais humana consigo mesmo, com o próximo, com a natureza e, quiçá, com Deus.
A ficção funciona como um espelho que faz o leitor transcender a situação em que se encontra. O texto desvela o contexto e impregna o leitor de pretextos, de motivações que o enlevam, aquele entusiasmo de que falavam os gregos antigos, estar possuído de deuses, de energias anímicas que nos devolvem ao melhor de nós mesmos.
Toda ficção, narrativa ou poética, é descobrimento, revelação. Somos múltiplos e, ao ler, uma de nossas identidades emerge por força do encantamento suscitado pela quintessência da obra ficcional: a estética.
A literatura ficcional não tem que ser de esquerda ou de direita. Tem que ser bela. Fazer da ficção um palanque de causas é aprisioná-la numa camisa de força, transformando-a num espelho que não reflete o leitor, reflete o autor e seu proselitismo. A ficção não tem de ser engajada, o escritor sim tem o dever ético de se comprometer com a defesa dos direitos humanos neste mundo tão conflitivo e desigual.
O prólogo do evangelho de João, um dos textos mais poéticos da Bíblia, só comparável ao Cântico dos Cânticos, diz que “o Verbo se fez carne”. Na arte literária a carne - a criatividade do autor - se faz verbo. Instaura a palavra, que organiza o caos.
No Gênesis, Javé cria o Universo pelo poder da palavra. Ele se faz palavra, manifestação que nos remete, como na obra ficcional, à transcendência (o autor sobrepassa a cotidianeidade ou lhe imprime novo caráter), à transparência (o texto reflete o que está contido nas entrelinhas), a profundência (a narrativa ou o poema nos convida a algo mais profundo do que percebemos na superfície da realidade).
Ler ficção é uma experiência estática - estar em si e fora de si. Somos alçados ao imaginário, induzidos à experiência da catarse, de modo a oxigenar a nossa psiquê. A estética nos imprime um novo modo de encarar as coisas. Como lembra Mário Benedetti, a literatura não muda o mundo, mas sim as pessoas. E as pessoas mudam o mundo.
A estética literária nos envia ao não dito, à esfera do desejo, suscitando-nos sonhos, projetos, utopias, do encontro com o príncipe encantado (Branca de Neve) ao reencontro amoroso com a opressiva figura do pai (A metamorfose, de Kafka, e Lavoura arcaica, de Raduan Nassar). Como assinala Aristóteles, a poética completa o que falta à natureza e à vida. A arte não se satisfaz com o estado factual do ser. Convida-nos à diferença, à dessemelhança, ao tornar-se.
Suscitar em crianças e jovens o hábito da leitura é livrá-los da vida rasa, superficial, fútil, e educá-los no diálogo frequente com personagens, relatos e símbolos (a poesia) que haverão de dilatar neles a virtude da alteridade, de uma relação mais humana consigo mesmo, com o próximo, com a natureza e, quiçá, com Deus.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
AQUELE QUE SERVE, É O MAIS SÁBIO DE TODOS.
Enriquecido pela experiência dos anos, um velho barqueiro transportava eventuais passageiros, de um lado para outro de um rio, largo e caudaloso. Numa das viagens transportou um advogado e uma professora. Acostumado a falar muito, o advogado perguntou ao barqueiro se ele conhecia as leis. E diante da negativa, afirmou: que pena, você perdeu metade da vida.
A professora, não querendo ficar para trás, quis saber se o barqueiro sabia ler e escrever, se conhecia história e geografia. Mais uma vez o barqueiro disse que nunca frequentara qualquer escola. Nesse caso, comentou a professora, está perdendo a metade da vida. Nisto veio uma onda maior e o barco foi lançado num redemoinho. Foi a vez do barqueiro perguntar, aflito: vocês sabem nadar? Ambos, apavorados, disseram que não. Neste caso, avisou o velho barqueiro, vocês estão correndo o risco de perder toda a vida. Porém, nadando com bravura, ele conseguiu salvar os dois de morrerem afogados.
São muitas as versões desta história antiga, mas a conclusão é sempre a mesma. O saudoso Paulo Freire dizia: “Não há saber maior ou menor; há saberes diferentes”. Cada um tem seu saber. E a vida é a maior de todas as universidades para quem quiser aprender.
Dezenas de diplomas não tornam ninguém sábio. Existe uma sabedoria que nasce do coração. Aquele que serve é o mais sábio de todos. O saber é importante, mas precisa ser direcionado. São Francisco de Assis permitiu que seus frades estudassem, não para dominar, mas para servir. “Saber mais para amar mais”, completava o santo.
Jesus foi excelente orador, mas nada deixou escrito. Ele falava em parábolas para que todos pudessem entender. Mais: evitava as sinagogas, dominadas pelos doutores e mestres da lei. Ele preferia os caminhos onde doutrinava as pessoas simples, falando dos lírios, dos trigais, dos pássaros, do pastor que procura a ovelha, do fermento que acaba por contagiar toda a massa.
Vivemos hoje a Sociedade do Saber. O poder concentra-se nas mãos daqueles que mais sabem e muitas vezes usam em proveito próprio o conhecimento. O saber é importante, mas o serviço é muito maior. Há doutores formados em universidades, há iluminados pela escola da vida. E o Evangelho garante: Deus revela sua sabedoria aos pequenos e humildes e a esconde dos orgulhosos. E a história guarda com encanto e admiração homens e mulheres simples, numa certa ótica ignorantes, e deixa de lado sábios e autossuficientes. E a fé, o dom mais precioso, não brota dos livros, mas do coração visitado por Deus.
A professora, não querendo ficar para trás, quis saber se o barqueiro sabia ler e escrever, se conhecia história e geografia. Mais uma vez o barqueiro disse que nunca frequentara qualquer escola. Nesse caso, comentou a professora, está perdendo a metade da vida. Nisto veio uma onda maior e o barco foi lançado num redemoinho. Foi a vez do barqueiro perguntar, aflito: vocês sabem nadar? Ambos, apavorados, disseram que não. Neste caso, avisou o velho barqueiro, vocês estão correndo o risco de perder toda a vida. Porém, nadando com bravura, ele conseguiu salvar os dois de morrerem afogados.
São muitas as versões desta história antiga, mas a conclusão é sempre a mesma. O saudoso Paulo Freire dizia: “Não há saber maior ou menor; há saberes diferentes”. Cada um tem seu saber. E a vida é a maior de todas as universidades para quem quiser aprender.
Dezenas de diplomas não tornam ninguém sábio. Existe uma sabedoria que nasce do coração. Aquele que serve é o mais sábio de todos. O saber é importante, mas precisa ser direcionado. São Francisco de Assis permitiu que seus frades estudassem, não para dominar, mas para servir. “Saber mais para amar mais”, completava o santo.
Jesus foi excelente orador, mas nada deixou escrito. Ele falava em parábolas para que todos pudessem entender. Mais: evitava as sinagogas, dominadas pelos doutores e mestres da lei. Ele preferia os caminhos onde doutrinava as pessoas simples, falando dos lírios, dos trigais, dos pássaros, do pastor que procura a ovelha, do fermento que acaba por contagiar toda a massa.
Vivemos hoje a Sociedade do Saber. O poder concentra-se nas mãos daqueles que mais sabem e muitas vezes usam em proveito próprio o conhecimento. O saber é importante, mas o serviço é muito maior. Há doutores formados em universidades, há iluminados pela escola da vida. E o Evangelho garante: Deus revela sua sabedoria aos pequenos e humildes e a esconde dos orgulhosos. E a história guarda com encanto e admiração homens e mulheres simples, numa certa ótica ignorantes, e deixa de lado sábios e autossuficientes. E a fé, o dom mais precioso, não brota dos livros, mas do coração visitado por Deus.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
A IMUNIDADE CONTRA UM MUNDO DE CORRUPÇÃO.
Nossa vida são nossos relacionamentos. É muito antigo o dito da sabedoria popular que diz: “Diga-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. A Bíblia é a grande professora, e no livro do Eclesiástico vai ensinando: “Não abandones o velho amigo... Não sinta prazer em estar com os violentos... Afasta-te do homem que tem o poder de matar... Evita a companhia do falador... Viva com os sábios e prudentes... Quanto possível, desconfia de quem se aproxima de ti...”
Fruta sadia no meio de podres se estraga. Geralmente é assim que acontece. Podem existir exceções. A convivência com ladrões torna a pessoa ladra. Nossa sociedade está se tornando uma escola de ladrões. Engana-se com a maior facilidade. A convivência com corruptos vai corrompendo o coração. A política está sendo para o povo brasileiro uma dessas escolas. A convivência com doentes facilmente torna a pessoa doente. A peste pesteia. O vírus da morte vai penetrando o corpo.
Temos o direito de escolher um ambiente sadio. Que todos, ao despertar para um novo dia, possam rezar: “Senhor, livra-me da companhia dos maus e dos mentirosos. Livra-me das pessoas amargas”. Quem não conhece casos de rapazes e meninas que em casa eram de vida ideal, gente fina, nada a reclamar, e que, ligando-se a uma turminha da pesada, se tornaram insuportáveis no ambiente familiar? É a família que não presta? Não! É o novo ambiente escolhido. E quantas pessoas, especialmente jovens, se lançam como num rio em correnteza sem saber nadar, em ondas de mar violento sem saber se defender. Não se pode culpar essa gente indefesa, porque os leões que engolem os indefesos são de garras muito fortes e dentes que tudo devoram. São os adultos e os grupos dos meios de comunicação somados aos grupos do poder econômico, que fazem das pessoas máquinas de produção e de consumo. Especialmente a criança e o jovem se tornaram o seu alvo.
É preciso criar imunidade. Isso desde o ventre da mãe. Isso desde o colo, criando ao redor um clima que favoreça a vida, e que não permita uma invasão na mente e no coração de tantas futilidades que não ajudam a viver sadiamente. A imunidade surge de ambientes sadios de convivência. Imagens bonitas. Mensagens positivas. Clima de vida ameno, sem brigas e sem frieza. Que chovam mentiras, corrupção, enganos, indiferença, amargura, fofoca... tudo isso não importa se a gente consegue criar imunidade contra todo esse ambiente poluído e com cheiro de morte.
Somos nossos relacionamentos. Pessoas alegres e positivas. Pessoas bondosas e generosas. Pessoas de fé e de esperança. Pessoas de trabalho e de lazer. Pessoas de convivência fácil e confiável. Pessoas que se tornam um estímulo de vida. É nesse ambiente que a árvore, que se chama pessoa humana, cresce, se desenvolve e se fortifica.
Fruta sadia no meio de podres se estraga. Geralmente é assim que acontece. Podem existir exceções. A convivência com ladrões torna a pessoa ladra. Nossa sociedade está se tornando uma escola de ladrões. Engana-se com a maior facilidade. A convivência com corruptos vai corrompendo o coração. A política está sendo para o povo brasileiro uma dessas escolas. A convivência com doentes facilmente torna a pessoa doente. A peste pesteia. O vírus da morte vai penetrando o corpo.
Temos o direito de escolher um ambiente sadio. Que todos, ao despertar para um novo dia, possam rezar: “Senhor, livra-me da companhia dos maus e dos mentirosos. Livra-me das pessoas amargas”. Quem não conhece casos de rapazes e meninas que em casa eram de vida ideal, gente fina, nada a reclamar, e que, ligando-se a uma turminha da pesada, se tornaram insuportáveis no ambiente familiar? É a família que não presta? Não! É o novo ambiente escolhido. E quantas pessoas, especialmente jovens, se lançam como num rio em correnteza sem saber nadar, em ondas de mar violento sem saber se defender. Não se pode culpar essa gente indefesa, porque os leões que engolem os indefesos são de garras muito fortes e dentes que tudo devoram. São os adultos e os grupos dos meios de comunicação somados aos grupos do poder econômico, que fazem das pessoas máquinas de produção e de consumo. Especialmente a criança e o jovem se tornaram o seu alvo.
É preciso criar imunidade. Isso desde o ventre da mãe. Isso desde o colo, criando ao redor um clima que favoreça a vida, e que não permita uma invasão na mente e no coração de tantas futilidades que não ajudam a viver sadiamente. A imunidade surge de ambientes sadios de convivência. Imagens bonitas. Mensagens positivas. Clima de vida ameno, sem brigas e sem frieza. Que chovam mentiras, corrupção, enganos, indiferença, amargura, fofoca... tudo isso não importa se a gente consegue criar imunidade contra todo esse ambiente poluído e com cheiro de morte.
Somos nossos relacionamentos. Pessoas alegres e positivas. Pessoas bondosas e generosas. Pessoas de fé e de esperança. Pessoas de trabalho e de lazer. Pessoas de convivência fácil e confiável. Pessoas que se tornam um estímulo de vida. É nesse ambiente que a árvore, que se chama pessoa humana, cresce, se desenvolve e se fortifica.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
A HISTÓRIA CRIA UM IMAGINÁRIO E ALIMENTA A CRIATIVIDADE.
Sempre houve contadores de histórias. Os contadores de histórias fascinam as plateias. Dentro de cada história há uma lição de vida. As histórias são conteúdos já experimentados. São experiências que passam de geração em geração. Em nosso momento atual estamos esquecendo de contar histórias. Nosso argumento é que não temos tempo. Também é um fator. Mas, mais do que não ter tempo, a máquina da atividade, somada à pressa da vida, impede de sermos criativos e contadores de histórias. Preferimos comunicar o conteúdo numa frase sem vida e desencarnada. Falamos com conceitos e perdemos o encanto das histórias.
Pai e mãe contando mais histórias. Toda criança gosta de histórias. Aprende através de histórias. A história cria um imaginário, alimenta a criatividade e, acima de tudo, dá uma lição de vida. Os pais devem voltar a contar histórias. O argumento da “falta de tempo” não pode ser tomado em conta. Se a criança não merece tempo agora, então os pais não deveriam ter tido tempo para fazer essa criança. Muitos pais não sabem contar histórias. Não têm jeito, ou não escutam e nem leem histórias. É preciso ler e reler histórias para contá-las, criá-las, recriá-las e passá-las adiante. Ler e ler para não ficar só com histórias do “bicho-papão e do boitatá”. Os pais contadores de histórias encantam os filhos e com mais facilidade os educam, porque em cada história se pode passar uma lição de valores e de pessoas que venceram, que foram boas e fizeram coisas bonitas.
Professores contando mais histórias. É sabido que professor que não sabe passar o conteúdo em histórias é um professor chato. Cansa. Enjoa. Os palestrantes que ficam somente falando de conteúdo e de conceitos cansam. Quando iniciam uma história ou um fato, os olhos novamente se voltam para eles e a plateia fica muito mais atenta. Nas salas de aula devem voltar os professores contadores de histórias. Passar conteúdos através de histórias para que a escola se torne mais simpática e os conteúdos mais fáceis de serem assimilados.
O maior contador de histórias. O mundo é uma história. Esta terra é uma história. Cada criatura é uma história. Cada animal é uma história. Muito mais, cada pessoa humana. Cada pessoa é uma história viva, e tendo vivido bem, pode passar sua história para frente. Mas houve uma pessoa que foi o maior contador de histórias: Jesus Cristo. É só ler os evangelhos. Tudo é ensinado em histórias, ou parábolas. Seu ensinamento foi todo com histórias que davam a lição de como é o Reino dos Céus, de como é a vida em Deus. Muitas vezes ele começa: “O Reino dos Céus é como...” e lá vai uma história, no fim da qual Ele faz a conclusão ou deixa cada pessoa fazer sua conclusão. Ele sabia que as crianças gostam de histórias e nós somos crianças muito frágeis diante da vida e de Deus. Os pais devem ler e reler muitas vezes os evangelhos para contar essas histórias do mestre e professor Jesus para seus filhos.
Pai e mãe contando mais histórias. Toda criança gosta de histórias. Aprende através de histórias. A história cria um imaginário, alimenta a criatividade e, acima de tudo, dá uma lição de vida. Os pais devem voltar a contar histórias. O argumento da “falta de tempo” não pode ser tomado em conta. Se a criança não merece tempo agora, então os pais não deveriam ter tido tempo para fazer essa criança. Muitos pais não sabem contar histórias. Não têm jeito, ou não escutam e nem leem histórias. É preciso ler e reler histórias para contá-las, criá-las, recriá-las e passá-las adiante. Ler e ler para não ficar só com histórias do “bicho-papão e do boitatá”. Os pais contadores de histórias encantam os filhos e com mais facilidade os educam, porque em cada história se pode passar uma lição de valores e de pessoas que venceram, que foram boas e fizeram coisas bonitas.
Professores contando mais histórias. É sabido que professor que não sabe passar o conteúdo em histórias é um professor chato. Cansa. Enjoa. Os palestrantes que ficam somente falando de conteúdo e de conceitos cansam. Quando iniciam uma história ou um fato, os olhos novamente se voltam para eles e a plateia fica muito mais atenta. Nas salas de aula devem voltar os professores contadores de histórias. Passar conteúdos através de histórias para que a escola se torne mais simpática e os conteúdos mais fáceis de serem assimilados.
O maior contador de histórias. O mundo é uma história. Esta terra é uma história. Cada criatura é uma história. Cada animal é uma história. Muito mais, cada pessoa humana. Cada pessoa é uma história viva, e tendo vivido bem, pode passar sua história para frente. Mas houve uma pessoa que foi o maior contador de histórias: Jesus Cristo. É só ler os evangelhos. Tudo é ensinado em histórias, ou parábolas. Seu ensinamento foi todo com histórias que davam a lição de como é o Reino dos Céus, de como é a vida em Deus. Muitas vezes ele começa: “O Reino dos Céus é como...” e lá vai uma história, no fim da qual Ele faz a conclusão ou deixa cada pessoa fazer sua conclusão. Ele sabia que as crianças gostam de histórias e nós somos crianças muito frágeis diante da vida e de Deus. Os pais devem ler e reler muitas vezes os evangelhos para contar essas histórias do mestre e professor Jesus para seus filhos.
terça-feira, 22 de julho de 2014
O HUMANO NAO SE PERDEU.
Nunca soube que existisse um Dia do Filósofo. Descobri agora. Segundo o calendário de que no dia 16 de agosto festejam-se aqueles e aquelas que escolheram em suas vidas amar a sabedoria. Sim, pois é isso que, no grego, significa a palavra filosofia. Amor pela sabedoria.
A origem da palavra está na Antiga Grécia, berço da civilização ocidental, onde, em meio à riquíssima mitologia que povoava o panteão de deuses e deusas, alguns começaram a perguntar-se: Quem sou eu? De onde vim e para onde vou? Qual a origem do mundo?
Interpretada comumente como o marco do fim da era do mythos, com o apogeu do logos e da razão, a filosofia, na verdade, desde o início conjugou ambos. Suas origens se encontram em uma interpretação dessacralizada dos mitos cosmogônicos, difundidos pelas diversas religiões. Para os que desejariam uma filosofia completamente “vacinada” contra o mito, aí está uma pedra de tropeço intransponível.
Segundo Aristóteles e Platão, a matéria inicial da reflexão dos filósofos foram os mitos. Estes se tornaram campo comum da reflexão da religião e da filosofia, revelando que a pretensa separação entre esses dois modos de o ser humano interpretar a realidade não é tão nítida como aparentemente se julga.
Nem só razão nem só mitologia, diz a amiga sabedoria que já desde o tempo de Tales de Mileto, 5.000 anos antes de Cristo, nos ensina que o mundo está cheio de deuses. E Platão viria a ser aquele que encontrou a raiz de seus mais belos pensamentos pela meditação dos mitos. Para a filosofia antiga, portanto, o mito dá o que pensar, provoca a razão e a faz produzir sabedoria. A meditação e a interpretação dos mitos serão, então, o que conduzirá o filósofo em sua busca da verdade.
Pois disso se ocupa o filosofar: buscar a verdade. Não poderia haver sabedoria se não houvesse verdade. O bom e o belo são outros nomes da verdade. Verdade que não se rende ao pensamento humano com a evidência laboratorialmente controlada do empirismo, mas vai desvelando seus segredos com o exercício espiritual da busca atenta e amante da filosofia. A filosofia acaba por ser, assim, a porta de entrada para pensar o mistério.
Ao pensar os mitos, o filósofo toca na universalidade das intuições e das experiências ancestrais, referindo a sua pertença comum e originária ao gênero humano. Por isso, os mitos são lugar privilegiado do enraizamento das pessoas e dos povos, conectando-os a seu passado. Tornam-se assim o fundamento da cultura humanista. Contemplando com atenção o mito, o filósofo vai se aproximando da raiz das recorrências humanas, o que lhe permitirá então tocar nas essências, elaborar definições, construir sínteses, montar harmoniosas arquiteturas de conhecimento.
No início, a filosofia se auto compreendia como responsável por tudo que era cognoscivel e, portanto, passível de ser conhecido. Sob sua égide repousava o conhecimento humano em todas as suas especialidades, e até hoje a ela devem sua origem enquanto campos do pensar e do saber: os valores - a ética; a beleza - a estética; a busca da verdade - a lógica.
O tempo passou, o mundo mudou e a filosofia também. Fragmentou-se em muitas especialidades e muitos genitivos. No entanto, ainda é um marco de oposição ao desenraizamento e à atomização da sociedade moderna, alienada justamente porque perdeu o contato com o passado, permanecendo degenerada na busca e fixação em ídolos.
Enquanto houver filósofos apaixonados pela verdade e amigos da sabedoria, podemos ter esperança em que o que constitui o humano não se perdeu. Por isso, é digno e justo saudar e louvar aqueles que hoje continuam cultivando essa amizade e esse amor, impedindo nossa desumanização.
A origem da palavra está na Antiga Grécia, berço da civilização ocidental, onde, em meio à riquíssima mitologia que povoava o panteão de deuses e deusas, alguns começaram a perguntar-se: Quem sou eu? De onde vim e para onde vou? Qual a origem do mundo?
Interpretada comumente como o marco do fim da era do mythos, com o apogeu do logos e da razão, a filosofia, na verdade, desde o início conjugou ambos. Suas origens se encontram em uma interpretação dessacralizada dos mitos cosmogônicos, difundidos pelas diversas religiões. Para os que desejariam uma filosofia completamente “vacinada” contra o mito, aí está uma pedra de tropeço intransponível.
Segundo Aristóteles e Platão, a matéria inicial da reflexão dos filósofos foram os mitos. Estes se tornaram campo comum da reflexão da religião e da filosofia, revelando que a pretensa separação entre esses dois modos de o ser humano interpretar a realidade não é tão nítida como aparentemente se julga.
Nem só razão nem só mitologia, diz a amiga sabedoria que já desde o tempo de Tales de Mileto, 5.000 anos antes de Cristo, nos ensina que o mundo está cheio de deuses. E Platão viria a ser aquele que encontrou a raiz de seus mais belos pensamentos pela meditação dos mitos. Para a filosofia antiga, portanto, o mito dá o que pensar, provoca a razão e a faz produzir sabedoria. A meditação e a interpretação dos mitos serão, então, o que conduzirá o filósofo em sua busca da verdade.
Pois disso se ocupa o filosofar: buscar a verdade. Não poderia haver sabedoria se não houvesse verdade. O bom e o belo são outros nomes da verdade. Verdade que não se rende ao pensamento humano com a evidência laboratorialmente controlada do empirismo, mas vai desvelando seus segredos com o exercício espiritual da busca atenta e amante da filosofia. A filosofia acaba por ser, assim, a porta de entrada para pensar o mistério.
Ao pensar os mitos, o filósofo toca na universalidade das intuições e das experiências ancestrais, referindo a sua pertença comum e originária ao gênero humano. Por isso, os mitos são lugar privilegiado do enraizamento das pessoas e dos povos, conectando-os a seu passado. Tornam-se assim o fundamento da cultura humanista. Contemplando com atenção o mito, o filósofo vai se aproximando da raiz das recorrências humanas, o que lhe permitirá então tocar nas essências, elaborar definições, construir sínteses, montar harmoniosas arquiteturas de conhecimento.
No início, a filosofia se auto compreendia como responsável por tudo que era cognoscivel e, portanto, passível de ser conhecido. Sob sua égide repousava o conhecimento humano em todas as suas especialidades, e até hoje a ela devem sua origem enquanto campos do pensar e do saber: os valores - a ética; a beleza - a estética; a busca da verdade - a lógica.
O tempo passou, o mundo mudou e a filosofia também. Fragmentou-se em muitas especialidades e muitos genitivos. No entanto, ainda é um marco de oposição ao desenraizamento e à atomização da sociedade moderna, alienada justamente porque perdeu o contato com o passado, permanecendo degenerada na busca e fixação em ídolos.
Enquanto houver filósofos apaixonados pela verdade e amigos da sabedoria, podemos ter esperança em que o que constitui o humano não se perdeu. Por isso, é digno e justo saudar e louvar aqueles que hoje continuam cultivando essa amizade e esse amor, impedindo nossa desumanização.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
PROVEITOS POLÍTIICOS.
“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato.
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: “Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”
“Ó tempos, ó costumes!”, exclamou Cícero movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. “Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?”.
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: “É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.”
Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: “Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?”
Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: “Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (…) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (…) Refiro-me a fatos que dizem respeito, não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós.”
Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: “E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?”
Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato. “Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam” - bradou Cícero -, “eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?”
Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: “Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?” E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: “Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não veem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que veem.”
Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim.
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: “Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”
“Ó tempos, ó costumes!”, exclamou Cícero movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. “Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?”.
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: “É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.”
Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: “Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?”
Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: “Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (…) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (…) Refiro-me a fatos que dizem respeito, não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós.”
Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: “E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?”
Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato. “Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam” - bradou Cícero -, “eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?”
Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: “Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?” E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: “Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não veem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que veem.”
Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim.
domingo, 20 de julho de 2014
O AEROPORTO DE AÉCIO E O COMPORTAMENTO DA MÍDIA.
Algumas pessoas estão eufóricas com a informação, divulgada hoje pela Folha, de que na gestão de Aécio foi construído um aeroporto com dinheiro do contribuinte numa propriedade de um tio dele.
14 milhões de reais foram gastos na obra, segundo a Folha.
A euforia que me chama a atenção não é a dos petistas. Esta é previsível, dadas as circunstâncias.
É a de pessoas para as quais o furo da Folha é a prova definitiva de que a mídia não favorece o PSDB e nem, muito menos, se esmera nas denúncias contra o PT.
Cada um fique com sua crença, mas quem acredita nisso – na demonstração de neutralidade apartidária por conta do aeroporto denunciado – acredita em tudo, conforme disse Wellington.
Observe.
Primeiro, entra aí uma espécie de cota da Folha de notícias negativas para o PSDB. Assim como tem uma cota de colunistas de pensamento independente – para cada Janio de Freitas há vários Magnollis – a Folha tem também uma para notícias.
Faz parte do esforço em manter de pé o slogan com o qual ela conquistou, no passado, a liderança entre os jornais: aquele que afirma que a Folha não tem rabo preso com ninguém.
Muito mais por razões de marketing do que propriamente por razões jornalísticas, a Folha é entre as publicações das grandes companhias jornalísticas a que mais parece se preocupar com a imagem de imparcialidade.
É por isso que, de vez em quando, você vai ler lá coisas como o aeroporto de Minas. É uma característica da Folha, e só da Folha.
Saia da árvores e analise a floresta.
A grande diferença entre uma denúncia contra o PT e uma denúncia contra o PSDB está na repercussão dada pelas demais empresas de jornalismo.
Num caso, quando a vítima das acusações é o PSDB, o assunto vai morrendo, à falta de interesse de jornais e revistas. No outro, quando contra o muro está o PT, são manchetes incessantes, e desdobramentos se multiplicam.
Compare a cobertura dada, algum tempo atrás, à Petrobras, depois da compra de uma refinaria em Pasadena, com o noticiário relativo ao escândalo das propinas do metrô de São Paulo.
O episódio que melhor mostra a distinção no tratamento de temas assemelhados diz respeito à compra de votos no Congresso para que fosse aprovada a emenda que permitia a reeleição de FHC.
Como agora, a denúncia partiu da Folha.
Como o Jornal Nacional, por exemplo, repercutiu a compra? Nos últimos anos, o JN se habituou a pegar denúncias anti-PT da Veja e, na edição de sábado, dá-las com extremo alarido.
Eram amplificados assim, com o mesmo expediente, ataques ao governo petista. O espaço dado pelo JN às acusações levava depois, durante a semana, o resto da mídia – jornais, sobretudo – a se engajar na exploração dos “furos” da Veja.
Este comportamento padrão, repetido metodicamente ao longo de tanto tempo, acabou minando a credibilidade da grande mídia perante a parcela mais esclarecida do público – e não apenas entre petistas.
Alguns detalhes mudaram: a radicalização progressiva da Veja levou os editores do Jornal Nacional a tomarem mais cuidado com o noticiário da revista. Acabou a repetição mecânica.
Mas o processo, em si, continua o mesmo. Notícia ruim contra o PT é, para a mídia, notícia boa. Notícia ruim contra o PSDB é, para a mídia, notícia ruim.
O aeroporto de Aécio, por tudo isso, rapidamente vai sumir do noticiário da mídia nesta semana.
Não porque o assunto não seja importante, mas pelas preferências ideológicas e partidárias das grandes empresas de jornalismo, para as quais notícia é algo definitivamente subjetivo.
14 milhões de reais foram gastos na obra, segundo a Folha.
A euforia que me chama a atenção não é a dos petistas. Esta é previsível, dadas as circunstâncias.
É a de pessoas para as quais o furo da Folha é a prova definitiva de que a mídia não favorece o PSDB e nem, muito menos, se esmera nas denúncias contra o PT.
Cada um fique com sua crença, mas quem acredita nisso – na demonstração de neutralidade apartidária por conta do aeroporto denunciado – acredita em tudo, conforme disse Wellington.
Observe.
Primeiro, entra aí uma espécie de cota da Folha de notícias negativas para o PSDB. Assim como tem uma cota de colunistas de pensamento independente – para cada Janio de Freitas há vários Magnollis – a Folha tem também uma para notícias.
Faz parte do esforço em manter de pé o slogan com o qual ela conquistou, no passado, a liderança entre os jornais: aquele que afirma que a Folha não tem rabo preso com ninguém.
Muito mais por razões de marketing do que propriamente por razões jornalísticas, a Folha é entre as publicações das grandes companhias jornalísticas a que mais parece se preocupar com a imagem de imparcialidade.
É por isso que, de vez em quando, você vai ler lá coisas como o aeroporto de Minas. É uma característica da Folha, e só da Folha.
Saia da árvores e analise a floresta.
A grande diferença entre uma denúncia contra o PT e uma denúncia contra o PSDB está na repercussão dada pelas demais empresas de jornalismo.
Num caso, quando a vítima das acusações é o PSDB, o assunto vai morrendo, à falta de interesse de jornais e revistas. No outro, quando contra o muro está o PT, são manchetes incessantes, e desdobramentos se multiplicam.
Compare a cobertura dada, algum tempo atrás, à Petrobras, depois da compra de uma refinaria em Pasadena, com o noticiário relativo ao escândalo das propinas do metrô de São Paulo.
O episódio que melhor mostra a distinção no tratamento de temas assemelhados diz respeito à compra de votos no Congresso para que fosse aprovada a emenda que permitia a reeleição de FHC.
Como agora, a denúncia partiu da Folha.
Como o Jornal Nacional, por exemplo, repercutiu a compra? Nos últimos anos, o JN se habituou a pegar denúncias anti-PT da Veja e, na edição de sábado, dá-las com extremo alarido.
Eram amplificados assim, com o mesmo expediente, ataques ao governo petista. O espaço dado pelo JN às acusações levava depois, durante a semana, o resto da mídia – jornais, sobretudo – a se engajar na exploração dos “furos” da Veja.
Este comportamento padrão, repetido metodicamente ao longo de tanto tempo, acabou minando a credibilidade da grande mídia perante a parcela mais esclarecida do público – e não apenas entre petistas.
Alguns detalhes mudaram: a radicalização progressiva da Veja levou os editores do Jornal Nacional a tomarem mais cuidado com o noticiário da revista. Acabou a repetição mecânica.
Mas o processo, em si, continua o mesmo. Notícia ruim contra o PT é, para a mídia, notícia boa. Notícia ruim contra o PSDB é, para a mídia, notícia ruim.
O aeroporto de Aécio, por tudo isso, rapidamente vai sumir do noticiário da mídia nesta semana.
Não porque o assunto não seja importante, mas pelas preferências ideológicas e partidárias das grandes empresas de jornalismo, para as quais notícia é algo definitivamente subjetivo.
QUANDO NÃO SE CONSEGUE DAR ALGUM NEXO.
Não é culpa deles ou delas, mas há uma inteira geração de adolescentes e adultos que não consegue escrever três sentenças sem cometer, no mínimo, cinco erros de concordância. Fiz essa observação a redação de alguns alunos alunos que, em menos de dois anos, serão formados.
Sentem-se limitados ao escrever, ao usar expressões idiomáticas, ao situar o verbo no singular ou no plural, ao usar substantivos e adjetivos. Transcrevo aqui uma frase, tirada de um aluno de filosofia. Mas eis um pouco do que esse futuro professor disse, ao falar do tema “A Família no Brasil de hoje”.
“Não quero me estender sobre um assunto já tão tratado na tal de mídia e nas igrejas, mas digo que o arquetípico familiar hoje não mais se sustenta, principalmente em se considerando-nos também nós, filhos de uma pequena minoria de poucos que ainda mantêm laços de fidelidade doméstica, mas que nem sempre apreciamos por causa do poder do capitalismo que corrói os laços humanos e pessoais”...
Redações ainda mais sem nexo são divulgadas na mídia. Com professores bem remunerados e com tempo para corrigir as provas e com um sistema educacional que não exigisse o impossível do professor não aconteceria essa chocante constatação.
Na redação de uma coluna de 2.220 toques, com a tolerância para apenas 15 erros de concordância, pontuação e acentuação, cerca de 75% dos alunos de curso superior não passariam. A escola da qual vieram não lhes ensinou a pensar. Em algum momento de nossa história mais recente, alguém neste país achou que o profissional não precisa pensar nem escrever direito e assassinou a língua portuguesa, a filosofia e a arte de raciocinar. Juntar palavras, eles juntam. O que não conseguem é dar-lhes algum nexo.
Sentem-se limitados ao escrever, ao usar expressões idiomáticas, ao situar o verbo no singular ou no plural, ao usar substantivos e adjetivos. Transcrevo aqui uma frase, tirada de um aluno de filosofia. Mas eis um pouco do que esse futuro professor disse, ao falar do tema “A Família no Brasil de hoje”.
“Não quero me estender sobre um assunto já tão tratado na tal de mídia e nas igrejas, mas digo que o arquetípico familiar hoje não mais se sustenta, principalmente em se considerando-nos também nós, filhos de uma pequena minoria de poucos que ainda mantêm laços de fidelidade doméstica, mas que nem sempre apreciamos por causa do poder do capitalismo que corrói os laços humanos e pessoais”...
Redações ainda mais sem nexo são divulgadas na mídia. Com professores bem remunerados e com tempo para corrigir as provas e com um sistema educacional que não exigisse o impossível do professor não aconteceria essa chocante constatação.
Na redação de uma coluna de 2.220 toques, com a tolerância para apenas 15 erros de concordância, pontuação e acentuação, cerca de 75% dos alunos de curso superior não passariam. A escola da qual vieram não lhes ensinou a pensar. Em algum momento de nossa história mais recente, alguém neste país achou que o profissional não precisa pensar nem escrever direito e assassinou a língua portuguesa, a filosofia e a arte de raciocinar. Juntar palavras, eles juntam. O que não conseguem é dar-lhes algum nexo.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
É PRECISO LIBERTAR-SE DA ESCRAVIDÃO DO CONSUMISMO.
O povo se queixa de que não tem dinheiro. E não tem. Mas não despertou para a ditadura do celular consumista. São quatro pessoas na família possuindo três celulares. Não têm direito de reclamar a falta de dinheiro. A família se queixa que não há dinheiro que chega, que o salário é pouco, que a crise é grande. São quatro pessoas na família. Duas meninas. Vão ao instituto de beleza. Pintam o cabelo. Compram bijuterias. Fazem maquiagem. Inutilidades. Escravidão do consumismo.
Inversão de necessidades. Pode-se e deve-se viver somente com o necessário. Os pais vão ao supermercado ou à loja com as crianças. Criam necessidades. O que os olhos veem o coração começa a desejar. Para satisfazer os desejos das crianças compra-se supérfluos. E o dinheiro para as necessidades se torna pequeno. Salário pequeno e injusto? Não é verdade. Apenas inversão de necessidades. Sentada na mesa da cozinha a família conversa sobre o necessário e o supérfluo. Metade das compras fica dispensada. O necessário é pouco.
Criação de inutilidades. A cada cinco segundos há no mundo uma criança morrendo de fome. Dados da ONU. E a sociedade se tornou desumana e tão cachorril que a cada segundo há um cachorro sendo levado ao pet shop. Trata-se, pinta-se, faz-se as unhas, perfuma-se cachorros. Compra-se alimentos mais caros do que os adquiridos para as crianças. A cada segundo uma criança é engolida pelo consumismo, viciando-se em exigir dos pais o tênis que viu nos comerciais da televisão, a roupa que não precisa e o alimento que não alimenta. E nesse mesmo tempo de segundo uma criança chora ou fica doente por não ter o necessário para uma vida digna. A cada segundo de tempo há um pai que coloca a mão no bolso e não encontra o dinheiro para o necessário da vida, mas não é capaz de deixar de comprar seu cigarro, sua cerveja, seu cafezinho. Nesse segundo em que vivemos há uma mãe que não tem o necessário para colocar na panela para a refeição da família, mas não tem a força para recusar a compra do produto de beleza que a vendedora apresentou como necessário.
É preciso rir de si. O varredor de rua deve rir de si porque não tem um calçado digno nos pés, mas anda de celular pendurado no cinto. O adolescente deve rir de si, percebendo que deixa de comprar um livro escolar, mas não deixa de beber sua cervejinha ou refrigerante ou de jogar seu videogame.
Consciência do necessário. Só falta isso. No dia em que as pessoas despertarem para o necessário, e se contarem com ele, não faltará dinheiro em casa e sobrará para ajudar os pobres, as comunidades e até para viajar mais em tempo de férias. Libertar-se da ditadura do consumismo é dizer não a tudo o que é invenção dos grupos de interesse, que criam necessidades e enganam o povo com promessas de felicidade e de prazer.
Inversão de necessidades. Pode-se e deve-se viver somente com o necessário. Os pais vão ao supermercado ou à loja com as crianças. Criam necessidades. O que os olhos veem o coração começa a desejar. Para satisfazer os desejos das crianças compra-se supérfluos. E o dinheiro para as necessidades se torna pequeno. Salário pequeno e injusto? Não é verdade. Apenas inversão de necessidades. Sentada na mesa da cozinha a família conversa sobre o necessário e o supérfluo. Metade das compras fica dispensada. O necessário é pouco.
Criação de inutilidades. A cada cinco segundos há no mundo uma criança morrendo de fome. Dados da ONU. E a sociedade se tornou desumana e tão cachorril que a cada segundo há um cachorro sendo levado ao pet shop. Trata-se, pinta-se, faz-se as unhas, perfuma-se cachorros. Compra-se alimentos mais caros do que os adquiridos para as crianças. A cada segundo uma criança é engolida pelo consumismo, viciando-se em exigir dos pais o tênis que viu nos comerciais da televisão, a roupa que não precisa e o alimento que não alimenta. E nesse mesmo tempo de segundo uma criança chora ou fica doente por não ter o necessário para uma vida digna. A cada segundo de tempo há um pai que coloca a mão no bolso e não encontra o dinheiro para o necessário da vida, mas não é capaz de deixar de comprar seu cigarro, sua cerveja, seu cafezinho. Nesse segundo em que vivemos há uma mãe que não tem o necessário para colocar na panela para a refeição da família, mas não tem a força para recusar a compra do produto de beleza que a vendedora apresentou como necessário.
É preciso rir de si. O varredor de rua deve rir de si porque não tem um calçado digno nos pés, mas anda de celular pendurado no cinto. O adolescente deve rir de si, percebendo que deixa de comprar um livro escolar, mas não deixa de beber sua cervejinha ou refrigerante ou de jogar seu videogame.
Consciência do necessário. Só falta isso. No dia em que as pessoas despertarem para o necessário, e se contarem com ele, não faltará dinheiro em casa e sobrará para ajudar os pobres, as comunidades e até para viajar mais em tempo de férias. Libertar-se da ditadura do consumismo é dizer não a tudo o que é invenção dos grupos de interesse, que criam necessidades e enganam o povo com promessas de felicidade e de prazer.
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