quinta-feira, 17 de julho de 2014

É PRECISO ESCUTAR A NATUREZA.

O mosteiro erguia-se numa região isolada, ao sopé de uma montanha. O ar puro, as árvores, flores, riachos e o silêncio convidavam à oração Numa noite, o irmão Policarpo se encontrava em oração. Apesar do esforço não conseguia se concentrar, atrapalhado pelo coaxar de uma rã. Vendo que seus esforços eram inúteis, o irmão foi à janela e gritou: Silêncio! Eu estou rezando! E como o irmão era um santo, sua ordem foi imediatamente obedecida. Não só a rã, mas todos os seres vivos calaram suas vozes a fim de que o silêncio pudesse favorecer sua oração.
Um silêncio opressivo reinou em toda a parte. Mas outro som inesperado veio então perturbar o monge. Era uma voz interior que lhe dizia: talvez Deus goste do coaxar da rã como da tua recitação de salmos... Espantado, o religioso começou a pensar: o que pode haver de tão maravilhoso na voz da rã que possa agradar a Deus? E a vozinha interior continuou: por que razão achas tu que Deus inventou o som? Fez-se uma luz interior e o irmão foi, novamente, até a janela e gritou: Canta! E o coaxar rítmico da rã tornou a encher o espaço e com ela todas as outras rãs e todos os outros animais e insetos. E a noite encheu-se de uma música divina.
Algumas vezes tentamos rezar a Deus fora ou à margem do mundo em que vivemos. Isso significa enclausurar-se no silêncio e na solidão. Não é assim. Toda a criação canta os louvores ao Senhor e não podemos fazer coisa melhor do que associar-nos a ela. “Todo o ser que respira louva ao Senhor” lembra o salmo 150.
Os mestres de espiritualidade costumavam dizer: ante de entrar na Igreja, deixa tuas preocupações atrás da porta. Parece mais lógico pedir ao fiel: reze em cima das tuas preocupações.
Na realidade, rezar consiste mais em escutar do que em falar. Escutar a natureza, escutar a Palavra de Deus, escutar os gemidos dos que estão sofrendo. O que precisamos é deixar-nos guiar pelo Espírito, que brada dentro de nós, chamando a Deus de Pai. Jesus foi o pregador dos caminhos e suas parábolas estão cheias do cotidiano. Ele fala dos pássaros dos céus e dos lírios do campo, da rede cheia de peixes, dos trigais maduros, dos figos, do fermento...
Discípulo apaixonado do Mestre, Francisco de Assis via no mundo o seu templo, onde percebia, nitidamente, a voz de Deus. E por isso ele cantava junto com a irmã cigarra, com a irmã rã, com o irmão vento. Não podemos pensar que Deus apenas reside no templo. É nas frestas do cotidiano que mais facilmente O encontramos. Rezar não é apenas falar a Deus. Precisamos escutar o salmo da criação. Precisamos - sobretudo - escutá-lo. Isso significa unir fé e vida. Isso significa unir o domingo à semana, unir a prece ao cotidiano.

terça-feira, 15 de julho de 2014

COMEÇOU A CAMPANHA POLÍTICA. OLHO NO CANDIDATO.

Por injustiça social, o sociólogo, advogado e bem-aventurado padre Leão Dehon, que escreveu meditações e livros sobre justiça e misericórdia, entendia a injustiça estrutural; leis que perpetuavam a pobreza, o salário injusto e a exploração dos pobres. Era errado, mas havia interesse em deixar tudo como estava.
Um dia escreveu que se a injustiça social não é pecado, então não se fale de nenhum outro pecado. Achar que só existem pecados pessoais, que só os indivíduos pecam e negar que uma nação tenha escolhido o pecado é ignorar os ensinamentos da Bíblia e negar Jesus.
Um povo que elege um frio assassino; que vota em candidato que anuncia que, se chegar ao poder vai matar; em alguém que promete dar mais dinheiro aos ricos e menos aos enfermos e aposentados; em alguém que jura que vai investir em armas, está optando pela injustiça social. Um povo que apoia leis que favorecem os que tem mais, vota pela injustiça social. Se um povo escolhe esse caminho, peca.
No evangelho de Mateus, Jesus deixa claro o que é um pecado social e o que salva uma alma. Salva-se quem ajuda os que não conseguem sair de algum sofrimento. Quem o causa ou ignora, peca. Quem ajuda, irá para o céu.
Um povo inteiro pode ser culpado de prolongar o sofrimento dos seus pobres, das crianças e dos enfermos. Se aceitarem leis injustas e candidatos errados todos pecam.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A SOCIEDADE ATUAL ESTÁ DOENTE.

Nem tudo o que tem aparência de música é música. Barulho não é música e música não é barulho. Música é linguagem de comunicação que se faz através da combinação de sons. Sons que nascem dos sentimentos e emoções. A música expressa a situação emocional, psicológica e espiritual da sociedade em seu momento. A sociedade atual está doente. Há muita confusão e medo em seu interior. Há insegurança e incapacidade de suportar-se. É o medo de si mesmo que se reflete em cada ser humano. E a música expressa esse momento de não suportar-se. Busca-se uma fuga. Uma música feito música, música que se torna canal de escutar-se, torna-se muito perigosa. Ela facilita o interiorizar-se. E sentir-se, conhecer-se se torna muito perigoso e doloroso. É mais fácil abafar as emoções doentias com o barulho, que impede de escutar-se e sentir-se como se está.
As bandas de música são confusas. São especialistas em produzir sons. Os instrumentos perdem a individualidade. Não comunicam e impedem a comunicação. Enquanto uma banda executa sua música é proibido falar. É impossível a comunicação. O que importa é a intensidade do som. É a concorrência entre bandas para ver quem consegue mais volume. São os carros que nas ruas disputam o espaço maior para mostrar seu som. Pela aparência somos uma sociedade de surdos, ou uma indústria de surdos. Já está se tornando obrigatório o exame de audição na admissão ao emprego nas empresas. Parece que esse tema não é poesia. É realidade que machuca muita gente. Escutar uma banda, especialmente uma banda de rock, é encaminhar-se para a surdez e para a insensibilidade do belo e do artístico. A arte não conta. Conta a música consumista que exige que seja assim.
Ser orquestra é ser identidade. O universo é orquestra. Cada astro é um instrumento afinadíssimo que executa sua música em harmonia com todos os outros. E o universo é música, tão música, que se torna silêncio. O silêncio é o máximo da música. Provoca escutar-se. Escutar a música que vem de dentro. Escutar uma orquestra, ser um instrumento numa orquestra, é ser individualidade. É permitir que cada instrumento execute sua música. Todos são escutados. Não há confusão. Não há disputa de volume. É a harmonia. É o respeito de um pelo outro em sua maneira de ser. Assim é a orquestra social. É permitir que cada ser humano se expresse em sua individualidade, se expresse como um ser único e irrepetivel.
Construindo uma orquestra. Todos nesta tarefa. Tarefa para tornar a sociedade uma orquestra de músicos e executores de música. Cada um na sua tonalidade e especialidade. Fazer da música social um ambiente de comunicação e de arte. Música comunicação e não confusão. Música onde a sociedade possa escutar-se em suas dores e alegrias, anseios e desejos de infinito, pois a música é a expressão do infinito que nasce em cada pessoa.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

VALORES...O QUE SÃO VALORES?

Um homem caminhava num parque quando um objeto brilhante chamou sua atenção. Deu uma olhada, sem se abaixar, e decidiu: deve ser um pedaço de vidro. E seguiu adiante. Mais tarde, outro caminhante passou pelo mesmo lugar, percebeu o brilho e agiu de maneira diferente. Abaixou-se pegou a pedra, um pouco suja, e viu que era talhada como um diamante. Sua dúvida foi esclarecida, pouco depois, com um joalheiro. Depois de examiná-la com cuidado, esclareceu: trata-se realmente de um diamante de grande valor e com lapidação especial.
Ao longo da vida de cada um aparecem luzes de brilho diferente. Aí surge a avaliação. Há os que desprezam o diamante imaginando ser um imprestável pedaço de vidro. Há também os que recolhem pedaços de vidro e imaginam que sejam diamantes. Verdadeiros diamantes são ignorados e peças sem valor fazem o encanto de muitos.
Cada pessoa, ao longo da vida, organiza sua escala de valores. Coloca no topo aquele que julga ser o valor maior. E a vida das pessoas transcorre de conformidade com os valores escolhidos, verdadeiros ou falsos. Há os que se dão conta ao longo do tempo da fragilidade da escolha. Outros vão com suas escolhas erradas até o fim. É bastante comum colocar a bandeira do clube preferido sobre o caixão. Valerá a pena colocar num time de futebol a razão de uma vida? Na Bíblia lemos o episódio de Esaú que vendeu seu direito à primogenitura por um prato de lentilhas. No período das descobertas, os navegadores europeus ofereciam aos índios espelhos e outras miçangas em troca de ouro puro.
Algumas vezes, nossa escala de valores é dúbia. Temos uma escala ideal, racional, aquela que colocamos no papel quando nos interrogam. E existe a outra escala, a do realismo. É a escala prática, segundo a qual fazemos nossas escolhas diárias. No fim da vida seremos julgados não pela escala ideal, mas pela escala que determinou nossas escolhas.
No ponto mais alto de nossa escala de valores deve estar nosso ideal. É a referência para todos os atos de nossa vida. Pode ser o dinheiro, a vaidade, o prazer, pode ser um clube de futebol, pode ser a família... São Paulo lembra que podemos construir nossa vida com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno e palha. Paulo insiste num ponto: o único fundamento - o valor maior - só pode ser Jesus Cristo.
Na vida é sempre possível recomeçar. A cada dia podemos reavaliar nossa escala de valores, jogar fora os brilhantes cacos de vidro e procurar os diamantes esquecidos. Depois, a morte tornará definitivas nossas escolhas, boas ou más.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

PODEM VOLTAR AS DITADURAS?

Todos os ditadores - de Hitler a Médici, de Batista a Stalin, de Franco a Somoza - passam à história como figuras execráveis, cujos nomes, estigmatizados, se associam às vitimas de seus governos tirânicos. Aliás, Tirano era o comandante da guarda do rei Herodes. Seu nome tornou-se sinônimo de crueldade por se atribuir a ele a execução da ordem real de decapitar, em Belém, todos os bebês, entre os quais estaria Jesus se José e Maria não tivessem fugido com ele para o Egito.
A América Latina carrega em sua história longos períodos de supressão do regime democrático. No século XX, o Brasil conheceu dois: sob o governo Vargas (1937-1945) e sob o regime militar (1964-1985), sem falar dos que governaram sob Estado de Sítio. O paradoxo é que todas as ditaduras latino-americanas foram suscitadas, financiadas e armadas pelo governo dos EUA. Fala-se que nos EUA nunca houve golpe de Estado porque não há, em Washington, embaixada americana...
O recente golpe em Honduras, que resultou na deposição do presidente Zelaya, democrática e constitucionalmente eleito, coloca o governo Obama frente à hora da verdade. Ao receber a notícia, Hillary Clinton, secretária de Estado, vacilou. Talvez tivesse manifestado apoio aos golpistas se o presidente Obama não houvesse reagido em defesa de Zelaya. Ainda assim, os EUA não suspenderam ajuda financeira e militar às Forças Armadas hondurenhas, que sustentam o ditador de plantão.
A política externa da Casa Branca trafega sobre o fio da navalha. Sabe que Zelaya está mais próximo de Chávez que dos falcões usamericanos que ainda comandam a CIA. Esta agência não foi devidamente saneada por Obama. E, agora, tenta justificar o golpe sob o pretexto, infundado, de que o presidente da Venezuela estaria prestes a remeter comandos militares a Honduras para derrubar os golpistas e devolver o mandato ao presidente Zelaya.
A América Latina conheceu significativos avanços políticos nas últimas duas décadas. Após destronar as ditaduras militares e rechaçar presidentes neoliberais - Collor no Brasil, Menem na Argentina, Fujimori no Peru, Caldera na Venezuela - demonstra preferência eleitoral por candidatos oriundos de movimentos sociais, dispostos a disputar o espaço das esferas de poder com os tradicionais grupos oligárquicos.
É verdade que o uso do cachimbo entorta a boca. Alguns mandatários, em nome da governabilidade, não têm escrúpulos em fazer concessões a velhos caciques políticos notoriamente corruptos, representantes de feudos eleitorais marcados pela mais extrema pobreza.
Quando um líder político de origem progressista se deixa cooptar pela oligarquia conservadora o que está em jogo, de fato, não é a propalada governabilidade. É a empregabilidade. Perder eleição significa o desemprego de milhares de correligionários que ocupam a máquina do Estado. Seria, para muitos, atroz sofrimento perder o cargo e, com ele, as mordomias materiais e simbólicas.
Todos sabemos que, hoje, no centro da vida política se sobressai a questão ética. A maioria dos políticos teme a transparência. Por isso, muitos agem por baixo dos panos, promulgam decretos secretos, cumpliciam-se em maracutaias, tratam como de somenos importância o fato de o deputado do castelo usar verba pública em benefício próprio, ou um senador incluir sua árvore genealógica na folha de pagamento custeada pelo contribuinte.
Se não se estancar essa deletéria convivência e conivência de lideranças outrora progressistas com velhos e corruptos caciques, não se evitarão a descrença na democracia, a deterioração das instituições políticas, a perda do senso histórico na administração pública. O que constitui excelente caldo de cultura para favorecer o retorno de ditadores salvadores da pátria.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

VITIMA DA FALTA DE LIMITES.


Um problema que se constata nos jovens de hoje: A FALTA DE LIMITES.
Michael Jackson foi mais uma das vítimas da falta de limites e margens da mídia. No palco, foi poderoso. Profissionalíssimo, era um perfeccionista. Não havia erros. Nas finanças e na mídia, imbatível, até o dia em que começaram a lhe cobrar o preço de sua não conformidade com seja lá o crime de que o acusam. A Justiça diz não ter achado provas. Forte na arte, na vida era de uma fragilidade que dava dó.
Quando morreu, supostamente de overdose de remédios, tinha dominado, como nenhum outro astro jamais o fizera, as técnicas da mídia. Daqui a 20 anos, ele ainda soará inovador e criativo. Ninguém melhor do que ele conjugou o sonoro com o visual. O menino punido pelo pai, pressionado até à exaustão para ser perfeito, tornou-se um dos maiores artistas de toda a história.
Cantor e dançarino de vastos recursos, ele mudou a mensagem do corpo e recriou a dança popular. Mereceu o título de artista pop. Mercadejou e mercantilizou bem. Fez o mundo dançar. Encarnou a festa do corpo e do som. Dominava os passos, o som e os ritmos, mas parecia não ter domínio sobre sua corporeidade: não se aceitava, embora usasse o corpo de maneira esplêndida. Mexeu com ele e com o corpo de bilhões de pessoas, mas acabou, também, mexendo demais no próprio corpo.
Tanto interferiu que o deformou. Na época do botox e do silicone, sirva de exemplo o que se deu com ele. Mas é conselho que o desespero pela estética, mais do que a busca da ética, não será seguido. Não importam as consequências. Quem persegue o corpo perfeito acabará injetando substâncias químicas nele. O preço? Pagam o que for preciso para, por alguns anos, desfilarem como reis e rainhas da era da estética. Michael disse que tinha motivos. Respeitemos sua angústia, mas lembremos aos que acham ter motivos que, mais cedo ou mais tarde, o corpo reage.
De Jackson se pode afirmar que, se soube atuar com o corpo, não soube situar-se com ele. Festejou a vida, mas não soube vivê-la. Quis dela mais do que a vida pode dar. Era controvertido. Processado, tido como inocente, às vezes visto como monstro, julgado à revelia pela mídia que antes o exaltara, inocentado, explorado, perdeu parte de sua enorme fortuna para resolver seus gigantescos problemas.

domingo, 6 de julho de 2014

DEUS É A MINHA DROGA.

Quando Deus ocupa todo o espaço do coração não há lugar para mais nada. Fala-se muito, nos últimos tempos, de drogas pesadas, que desgraçam e devastam a vida de milhões de pessoas. Na experiência humana sentimos que Deus é a única droga que satisfaz o coração. Deus é meu crack. Envolvimento total. Espaço preenchido, sem lugar para mais nada.
O crack de Deus me envolve. Sinto-me envolvido pelo crack da beleza. Onde está a beleza, ali, está a presença de Deus. No espaço da beleza está a casa de Deus. Deus é beleza. Ele é o grande pintor e escultor. Nele nada se repete. Nele estão todas as cores. É o arco-íris perfeito. No coração que sabe contemplar e sentir a beleza não há lugar para uma droga qualquer. Falo de Deus beleza como uma facilidade para deixar-se envolver. Quem não gosta da beleza?
Sinto-me envolvido pelo crack do relacionamento. Tudo é ligação. Deus é relacionamento. O universo é relacionamento. Todos os seres que habitam a terra vivem de relacionamento. Os seres humanos se suicidam quando não conseguem viver o relacionamento. Suicidam-se no trabalho escravo, no materialismo, no alcoolismo e nas drogas, no cigarro e no prazer sexual sem limites, na corrida do dia-a-dia, nos tranquilizantes e em tantos outros anestésicos que vão sufocando a semente do viver. Deus é relacionamento. O universo é relacionamento. O objetivo da vida é ser e crescer no relacionamento. Céu é relacionamento que começa aqui e agora.
Ninguém substitui o Deus-crack. Pode-se fazer do crack-droga um deus para si, onde se é capaz de perder tudo para possuí-la, onde se é capaz até de matar para dar sobrevivência ao vício e às satisfações efêmeras e vazias. A história tem lições claras e trágicas. Quando o coração é vazio de Deus, tenta-se de muitas maneiras preenchê-lo. Mas esse vazio tem dono insubstituível. Nem os holofotes da fama, nem o pódio dos vencedores, nem as passarelas das famosas e famosos, endeusados pela mídia, nem a ganância do poder econômico, político e religioso podem preencher.
Nossa sociedade vive de campanhas erradas quanto à questão das drogas. Criam-se campanhas de policiamento, instalam-se câmeras vigias em todas as partes, utiliza-se a repressão, que acabam levando a nada. Tempo e dinheiro gasto por nada. É preciso chegar na fonte. Dar água viva e pura. Água que se chama amor e família, convivência e respeito, acolhida e doação. Água que se chama despertar em cada criatura a sublime dignidade de ser filha de Deus. Amada de Deus. Querida de Deus. Fica uma pergunta. Como ser essa fonte se as pessoas que propõem essas campanhas também são vazias de Deus? Como ser essa fonte se os podres e as autoridades roubaram e se encheram do poder que somente cabe a Deus?

sexta-feira, 4 de julho de 2014

VAMOS USAR O POUCO DE BOM SENSO QUE AINDA EXISTE

Desde que os seres humanos decidiram viver juntos, estabeleceram um contrato social não escrito pelo qual formularam normas, proibições e propósitos comuns que permitissem uma convivência minimamente pacífica.
Depois surgiram os pensadores que lhe deram um estatuto formal como Locke, Kant e Rousseau. Todos esses contratos históricos têm um defeito: supõem indivíduos nus e acosmicos, sem qualquer ligação com a natureza e a Terra. Os contratos sociais ignoram e silenciam totalmente o contrato natural. Mais ainda, a partir dos pais fundadores da modernidade, Descartes e Bacon, implantou-se a ilusão de que o ser humano está acima e fora da natureza com o propósito de domínio e posse da Terra. Este projeto continua a se realizar mediante a guerra de conquista seguida pela apropriação de todos os recursos e serviços naturais. Atrás sempre fica um rastro de devastação da natureza e de desumanização brutal. Antes se fazia guerra e apropriação de regiões ou povos. Hoje conquistaram-se todos os espaços e se conduz uma guerra total e sem tréguas contra a Terra, seus bens e serviços, explorado-os até a sua exaustão. Ela não tem mais descanso, refúgio ou espaço de recuo.
A agressão é global e a reação da Terra-Gaia está sendo também global. A resposta é o complexo de crises, reunidas no devastador aquecimento global. É a vingança de Gaia.
Não temos outra saída senão reintroduzir consciente e rapidamente o que havíamos deixado para trás: o contrato natural articulado com o contrato social. Trata-se de superar nosso arrogante antropocentrismo e colocar todas as coisas em seu lugar e nós junto delas como parte de um todo.
Que é o contrato natural? É o reconhecimento do ser humano de que ele está inserido na natureza, de quem tudo recebe, que deve comportar-se como filho e filha da Mãe Terra, restituindo-lhe cuidado e proteção para que ela continue a fazer o que desde sempre faz: dar-nos vida e os meios da vida. O contrato natural, como todos os contratos, supõe a reciprocidade. A natureza nos dá tudo o que precisamos e nós, em contrapartida, a respeitamos e reconhecemos seu direito de existir e lhe preservamos a integridade e a vitalidade.
Ao contrato exclusivamente social, devemos agregar agora o contrato natural de reciprocidade e simbiose. Renunciamos a dominar e a possuir e nos irmanamos com todas as coisas. Não as usamos simplesmente, mas, ao usá-las quando precisamos, as contemplamos, admiramos sua beleza e organicidade e cuidamos delas. A natureza é o nosso hospedeiro generoso e nós, seus hóspedes agradecidos. Ao invés de uma trégua nesta guerra sem fim, estabelecemos uma paz perene com a natureza e a Terra.
A crise econômica de 1929 sequer punha em questão a natureza e a Terra. O pressuposto ilusório era de que elas estão sempre aí, disponíveis e com recursos infinitos. Hoje a situação mudou. Já não podemos dar por descontada a Terra com seus bens e serviços. Estes mostraram-se finitos e a capacidade de sua reposição já foi ultrapassada em 40%.
Quando esse fator é trazido ao debate na busca de soluções para a crise atual? Somos dominados por economistas, em sua grande maioria, verdadeiros idiotas especializados - Fachidioten - que não veem senão números, mercados e moedas, esquecendo que comem, bebem, respiram e pisam solos contaminados. Quer dizer, que só podem fazer o que fazem porque estão assentados na natureza que lhes possibilita fazer tudo o que fazem, especialmente, dar razões ao egoísmo e às barbaridades que a atual economia faz prejudicando milhões e milhões de pessoas e que vai minando a base que a sustenta.
Ou restabelecemos a reciprocidade entre natureza e ser humano e rearticulamos o contrato social com o natural ou então aceitamos o risco de sermos eliminados por Gaia. Confio no aprendizado a partir do sofrimento e do uso do pouco bom senso que ainda nos resta.

ONDE FOI MESMO QUE ERRAMOS?

Advogado brilhante, exercia suas funções numa cidade de porte médio, na Bélgica. Sempre gostara de residir no interior e todos os dias fazia o trajeto de 13 quilômetros que separava sua casa da cidade. Certa manhã convidou seu filho, acadêmico de Administração, para irem à cidade. Enquanto o pai cumpriu suas funções na área da justiça, o filho ficou encarregado de levar o carro para uma revisão. A mãe deu-lhe uma lista de pequenas coisas que precisava comprar. Já na cidade, eles combinaram: nos encontraremos, pontualmente, às 17 horas.
Depois de realizar todas as tarefas o jovem foi para o cinema. Distraiu-se tanto que esqueceu da hora. Correu até a oficina e pegou o carro, mas quando chegou ao local eram quase 18 horas. Naturalmente o pai quis saber a causa do atraso. O moço sentiu-se mal e não teve coragem de revelar que fora ao cinema. Explicou que o carro não ficara pronto e teve de esperar. O que ele não sabia é que o pai havia telefonado para a oficina e de lá informaram que a revisão ficara concluída antes da hora.
As palavras, ditas com tranquilidade, calaram fundo no coração do filho: “Algo está errado no modo como o tenho criado e educado, pois você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir o que fiz de errado. Caminharei os 13 quilômetros que separam nossa casa para pensar sobre isso”. E entregou as chaves para o filho, pedindo que levasse o carro para casa. Vestido com suas melhores roupas, terno e gravata, calçados elegantes, começou a caminhar pela estrada de terra, sem iluminação. O rapaz não teve coragem de deixar o pai sozinho. Conduziu o carro por mais de cinco horas, atrás dele, vendo-o sofrer por causa de uma mentira idiota.
A tentação da desculpa, a tentação de atribuir aos outros a culpa, vem desde o Jardim Terreal. Adão acusou Eva; Eva responsabilizou a serpente. No dia a dia, são infinitas as tentativas de fugir à responsabilidade. Os outros são culpados. Na linguagem popular se garante que as vitórias têm inúmeros pais, mas as derrotas são órfãs. Concretamente, na educação dos filhos é fácil achar responsáveis: a televisão, a escola, as más companhias... Ou mesmo culpar a outra parte. É muito comum a mãe - ou o pai - acusar: veja o que o teu filho fez! Ou no máximo apelam para o plural: Onde foi que nós erramos?
O descaminho de um filho nem sempre é culpa dos pais. Tanto é verdade que surgem as chamadas ovelhas negras, destoando dos irmãos. Nossos erros sempre vêm num contexto muito grande, sendo por vezes difícil indicar a origem. O importante é assumir nossa responsabilidade, por tudo o que fizemos ou deixamos de fazer. Por vezes, substituímos o pronome pessoal “eu” por um vago “a gente”... O Evangelho nos pede para assumir nossas atitudes, pois só a verdade nos fará, novamente, livres.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

DEUS NÃO FALA LATIM.

O homem e a mulher são os únicos seres vivos que se contrapõem à natureza. Os demais, das abelhas arquitetas aos macacos africanos que ordenam seus recursos de sobrevivência, são todos determinados pela natureza. Esse distanciamento humano frente ao mundo natural faz a realidade revestir-se de simbolismo e produz a emergência transcendental do imaginário.
Do interesse pelo fogo produzido pelo relâmpago nasce o conhecimento que desperta a consciência. Voltada sobre si mesma, a consciência humana sabe que sabe, enquanto os animais sabem, mas ignoram a reflexão. Através do símbolo e do significado, o ser humano se relaciona com a natureza, consigo mesmo, com os semelhantes e com Deus.
Nasce a cultura, o toque humano que faz do natural, arte. A vida social ganha contornos definidos e explicações categóricas. Do domínio das forças arbitrárias da natureza chega-se às armas que permitem a imposição de um grupo cultural sobre o outro. Porém, cultura é identidade e, portanto, resistência. Mesmo assim, a absolutização de sistemas ideológicos oferece o paraíso, induzindo o dominado a sentir-se excluído por não pensar pela cabeça alheia.
No Brasil colônia, os métodos de catequese cristã introduziam entre os indígenas o vírus da desagregação e, hoje, os donos dos garimpos, das madeireiras e o governo perguntam perplexos por que os povos indígenas necessitam de tanta terra se nada produzem.
A queda dos governos dos países socialistas do Leste europeu assinala não o fim do socialismo, como propaga a mídia capitalista, mas sim da absolutização de sistemas ideológicos. Desabam, com a herança estalinista, todas as estratégias de hegemonização da cultura, e a própria ideia de “evolução cultural”. Não há culturas superiores, há culturas distintas. Agonizam as versões totalizadoras em todos os terrenos da produção de sentido - político, econômico e religioso.
Quem pretender ignorar os sinais dos tempos terá de apelar ao autoritarismo para infundir temor. Sabemos agora que mesmo na América Latina não há uma cultura única, mas uma multiplicidade de culturas - indígena, negra, branca, sincretica - que se explicam por seus próprios fatores internos. Essa polissemia de sistemas de sentido é uma riqueza, embora ameace o poder daqueles que imaginavam restaurar a uniformização medieval.
Há mais de 500 anos da chegada de Colombo às Américas - uma invasão genocida que alguns chamam de “encontro de culturas” -, convém relembrar esses conceitos antropológicos. E agora a democracia impregna também a cultura. Cada homem e mulher, grupo étnico ou racial, descobre que pode ser produtor do próprio sentido de sua vida. O difícil é respeitar isso como valor, sobretudo nós, cristãos, que ainda não sabemos distinguir Jesus Cristo do arcabouço judaico e greco-romano que o reveste e tanto favorece o eurocentrismo eclesiástico.
Felizmente, o próprio Jesus nos ensina a diferença entre imposição e revelação. Impõe-se pervertendo a natureza do poder (Mateus 23, 1-12). Mas revelação significa “tirar o véu”: ser capaz de captar os fragmentos culturais de cada povo e reconhecer as primícias evangélicas aí contidas, como afirmou o Concílio Vaticano II.
Aliás, Deus não fala latim. Prefere a linguagem do amor e da justiça. E esse dialeto toda cultura incorpora e entende.

terça-feira, 1 de julho de 2014

OS DEFEITOS QUE VEMOS NOS OUTROS, QUASE SEMPRE ESTÃO EM NÓS.

Andando por uma estrada do interior, chão batido, altas horas da noite, o motorista sentiu um balanço no carro. E seus piores temores se confirmaram. Apesar das promessas dos vendedores, o pneu estava arriado. E uma desgraça não costuma vir só: estava sem o macaco. A perspectiva era passar o restante da noite no meio do mato, possibilitando até um assalto. Mas uma luz se fez em seu cérebro. Lembrou de ter visto, a três quilômetros, uma pequena oficina mecânica. Lá, certamente, seria possível conseguir o indispensável macaco Trancou o carro e foi caminhando na noite fria e - menos mal - enluarada. Um pensamento surgiu em sua cabeça. E se o proprietário da oficina se aproveitar da situação e quiser cobrar pelo serviço? O macaco era necessário e ele pagaria. Quem sabe, imaginou, ele pedirá trinta reais. E se ele pedir cinquenta? Depois de caminhar um quilômetro, em sua imaginação, o preço foi subindo: cinquenta, cem reais... O Brasil está cheio de gente assim, de gananciosos. E se ele pedir 150 reais? É um abuso, mas não tenho alternativa.
Chegando à oficina, bateu com insistência no portão. O proprietário acendeu a luz e surgiu na janela perguntando o que ele precisava. Com raiva o viajante gritou: pois fique com seu maldito macaco, que eu não vou pagar 200 reais pela sua utilização. E deixando o sonolento dono do estabelecimento sem compreender nada, retornou ao seu carro, à espera do clarear do dia.
Um provérbio popular garante: dize-me o que criticas e dir-te-ei o que és. O Evangelho esclarece: “O olho é a lâmpada do corpo. Se o olho for são, todo o corpo será luminoso” (Mc 6,22). É ainda o Evangelho que recomenda tirar a trave do próprio olho antes de querer tirar o cisco do olho do irmão. Um personagem do livro Os Noivos, de Alessandro Manzoni, garante: tudo é puro para aquele que é puro! Vale a alternativa contrária.
Existe a tentação de atribuir aos outros nossos defeitos. Passamos até por cima dos fatos e imaginamos as intenções. O egoísta está sempre vendo egoísmos nos outros, o invejoso vê inveja em toda a parte. E não faz caso da advertência : não julgueis e não sereis julgados.
O homem sereno e equilibrado verá qualidades nos outros. E quando o erro fica evidente, mesmo assim, encontra desculpas e atenuantes. Os defeitos que percebemos nos outros estão, quase sempre, em nós. Esta é a tendência comum. A maturidade pede que avaliemos as razões profundas, as raízes, dos nossos sentimentos e reações. É deselegante atribuir aos outros os nossos defeitos.