Era muito mais bonito o tempo em que ele punha a mão no ombro dela ou publicamente andavam de mãos dadas. Alguém decretou e espalhou que o gesto está fora de moda. Que falem, mas, se não inventaram coisa melhor, que se calem! O fato é que continua bonito ver a mão dele segurando a dela, sem nenhuma outra razão além do carinho entre dois seres humanos.
Casais idosos ainda fazem isso e há casais jovens que não abrem mão desse privilégio. O gesto não tem nada de antiquado. Diz muito ao coração dela e faz bem ao homem que ele é. Mostra publicamente que há um laço a prender suavemente os dois. As mãos falam e ajudam a dizer coisas boas e más. Por elas também passam o cuidado, o carinho e a ternura.
Em algum ponto da caminhada muitos casais perderam esse delicado e belíssimo costume. Em era de tanta violência, fora e dentro do lar, de tanta indelicadeza, ingratidão e perda de valores, há costumes que devem ser preservados e incentivados. Um deles é a ternura do casal de mãos dadas.
Era bonito, simbolizava cuidado e laços de família e todos podiam ver. Que volte a simbolizar a unidade. Prefiro ver isso do que homens indelicados e mulheres magoadas e de rosto sombrio e enxabido, ao lado do homem que um dia foi a razão dos seus sorrisos. Pequenos gestos fazem a diferença. Parecem bobos e fora de moda, mas não são mais tolos e fora de moda do que um casal se espicaçando na frente dos outros e agindo como se o outro não significasse mais nada em sua vida. Pode até haver mentira naquelas mãos dadas, mas se até inimigos se dão as mãos e assinam tratados, por que não um casal que tem uma história? Que se reze o Pai-Nosso de mãos dadas. Que se comece pelos casais!
Não há informações precisas sobre quando surgiu a primeira moeda. Certamente, no alvorecer do mundo. Feitas de ouro, de prata, de cobre ou de papel, as moedas/dinheiro sempre estiveram no centro da história. Com o dinheiro construiu-se a civilização. Em função dele aconteceram as guerras. Há os que adoram o dinheiro, mas o escritor Giovanni Papini sustenta que é a mais abjeta e terrível criação do homem. Enquanto Judas, por 30 moedas de prata, vendeu o Mestre, Francisco de Assis recusava-se até a mexer no dinheiro.
Está fazendo muito sucesso um livro lançado nos Estados Unidos: Dinheiro feliz - a ciência de como gastar melhor. A tese defendida: “O dinheiro pode comprar a felicidade”. A obra ainda não foi traduzida para o português.
Os autores dizem que as escolhas que as pessoas fazem sobre seus gastos desencadeiam uma série de efeitos biológicos e emocionais. Eles apresentam estas sugestões: “Fazer viagens, pagar integralmente o produto antes de usá-lo e ajudar os outros”. O caminho da felicidade passa por aí. Outras duas indicações dadas pela obra: “Terceirizar as atividades chatas, como a limpeza da casa, por exemplo, e limitar o acesso a coisas das quais gostamos, evitando assim o consumismo”.
Investir em si mesmo e não nas coisas é mais um dos segredos sugeridos. Um jantar, uma viagem, um concerto, uma recepção aos amigos, podem ser mais significativos que bens adquiridos. Um dos itens do livro surpreende: “Ajudar aos outros”. E esta atitude é percebida em crianças antes mesmo de completarem dois anos. A norma não parte dos grandes banqueiros e nem do Fundo Monetário Internacional (FMI), porém figura no Evangelho. De preferência no anonimato: que tua mão direita não saiba o que faz tua esquerda.
As cinco normas sugeridas nada têm de revolucionárias e concordam com o bom senso. Nem por isso, a questão do dinheiro está resolvida, assim como a questão da felicidade. O dinheiro proporciona momentos felizes. Os dois extremos são prejudiciais: o muito e o pouco, o excesso e a carência.
O livro nada fala no modo de ganhar o dinheiro, apenas como gastá-lo melhor. O Evangelho nos adverte dos perigos que o dinheiro pode trazer. Ele quer ser absoluto e não admite restrições. De resto, o dinheiro não costuma fazer por nós aquilo que fazemos por ele. Além do mais, ele é volúvel: o corpo ainda está quente no caixão e o dinheiro já optou por outros amigos. Ele promete, mas não entrega a felicidade.
O olhar, em alguns momentos, parece se perder voltado para um lugar longínquo, talvez inexistente. É próprio do humano questionar-se em vista do amanhã. Perguntar-se pelo ontem também faz parte da normalidade. Inquietações sempre estarão próximas de quem se ocupa com a existência e não é adepto da indiferença. Viver por uma causa, por um ideal é abrir diante de si possibilidades de novos horizontes, bem diferentes do rotineiro. É impossível fugir das obrigações e compromissos. Seria prazeroso estar em outro lugar, mas é necessário estar aí, dando conta do fazer e das responsabilidades.
O humano é extraordinário. Pode deslocar-se sem sair do lugar. Vive num espaço concreto, mas alcança outras dimensões, onde o sentir profundo cria a sensação de paz e o coração se aquieta como se fugisse das tribulações. Porém, o tempo segue seu curso. Os meses chegam ao final, o ano sempre parece adiantado. A vida é maior que o tempo, mas precisa do tempo para dar significado ao existir. As experiências vão sendo somadas, aprendizados alargam o conhecimento, encontros deixam marcas.
O corpo vai se desgastando. É próprio do tempo imprimir transformações. Não tem como sair ileso: é perceptível o passar dos anos. Impossível permanecer eternamente jovem, na aparência física. No entanto, há uma jovialidade invisível: manifestada na alegria, na sabedoria e na capacidade de continuar sonhando. Gastar a vida por um ideal é optar por não envelhecer. É ter a sensação que muitos anos ainda serão somados e que as realizações permanecem incontáveis.
Alguns, impulsionados por sistemas e ideologias, cedem à tentação de resumir a trajetória neste mundo através do acúmulo de bens materiais. Para estes, viver é trabalhar para amontoar coisas. Os dias são rápidos e a quantidade material parece não ter um ponto de equilíbrio. Correm o risco de esquecer-se de viver, mas não abrem mão de avolumar o ter. Lá adiante, a vida cobrará satisfação, realização e as mãos poderão estar vazias.
O amor é o melhor jeito de abraçar a vida e gastar os dias. Ninguém chega ao entardecer
vazio se tiver optado por amar. Oportunidades se multiplicam àqueles que vivem embalados pela caridade. As coisas materiais são necessárias. Amar, porém, é uma opção que depende do que vai no coração.
. Carro 1: O imaginário - João Simões Lopes Neto - O carro apresenta João Simões Lopes Neto, escritor e empresário, como representante literário do imaginário social do RS. Seus contos e lendas vieram a fazer sucesso depois de sua morte.
. Carro 2: A lenda do Boitatá - a cobra de fogo - Diz a lenda que, nos passeios e viagens noturnas, um fogo em forma de cobra voa na frente dos cavaleiros, impedindo que sigam adiante. A forma de se livrar do ataque seria desatar o laço e arrastá-lo pela presilha. O Boitatá, que é atraído pelo ferro da argola do laço, deixaria assim o cavaleiro e o seguiria até amanhecer o dia.
. Carro 3: A lenda do Negrinho do Pastoreio - Genuinamente rio-grandense, a lenda nasceu da escravidão e reflete o
meio pastoril, o poder e a religiosidade que
é associada aos outros tantos casos de escravos considerados mártires.
. Carro 4: A Salamanca do Jarau - O palco da lenda é o Cerro do Jarau, formado por uma cadeia de morros, que se destacam na paisagem do pampa gaúcho, no município de Quaraí. Simões Lopes Neto desenvolveu o tema com elementos que decorriam das superstições locais, como a princesa encantada, os tesouros escondidos apresentados na forma de serpente.
. Carro 5: O Mate do João Cardoso - Um dos mais populares contos de Simões destaca a tradição herdada dos indígenas, a hospitalidade do mate na roda do chimarrão, e o convívio, a solidariedade e a fraternidade do homem rural. Mostra um período da história em que os meios de comunicação eram escassos e as novidades vinham pelos viajantes, que passavam pelas terras e eram convidados para um mate.
. Carro 6: Trezentas onças - No conto, Blau Nunes perde sua guaiaca com 300 onças do patrão, com as quais deveria comprar uma tropa de gado. Assustado, pensa em se matar, mas desiste por questões divinas. Volta para a estância preparado para contar o ocorrido ao patrão. Ao chegar, vê sobre a mesa a guaiaca com o dinheiro. Ela havia sido encontrada por uma comitiva de tropeiros, que a devolveram. Lembra a honestidade, a confiança, a honra ao “fio do bigode”.
. Carro 7: Lobisomen e bruxa - Segundo a lenda, o sétimo filho homem de uma família será fatalmente lobisomem, a menos que seja batizado pelo irmão mais velho. O mito da bruxa no RS veio da Europa: será bruxa a sétima filha do casal, quando não for interrompida por varão, e batizada pela primogênita, perde o fado.
. Carro 8: Crendices e superstições - Retrata o acervo cultural, herdado dos antepassados gaúchos, que figura no mundo mágico, povoado de crenças, misticismo, simpatias, promessas.
. Carro 9: Chasque do Imperador - O carro lembra a narrativa da vinda de Pedro II para acompanhar a guerra contra os paraguaios que tomaram Uruguaiana.

Celebra-se a Revolução Farroupilha, data máxima dos gaúchos, em 20 de setembro, feriado no Rio Grande do Sul. Os festejos alusivos à data, no entanto, estendem-se por quase todo o mês, iniciando em 7 de setembro, quando acende-se, na capital, Porto Alegre, a chama crioula, a partir de uma centelha da pira da pátria. De 14 a 20 de setembro, na chamada Semana Farroupilha, as celebrações intensificam-se, com acampamentos, bailes e desfiles em vários municípios.
Este ano, o tema para os festejos farroupilhas é “O Rio Grande do Sul no Imaginário Social”, abordando mitos, lendas e contos do Estado descritas pelo escritor João Simões Lopes Neto (1865-1916), um gaúcho, naturalmente.
O tema é especialmente explorado nos desfiles temáticos. Em Porto Alegre, onde ocorre um dos maiores desfiles, o espetáculo está marcado para a noite de 19 de setembro. Nove carros retratarão diferentes lendas e mitos.
Quem foi João Simões Lopes Neto? Natural de Pelotas (RS), Lopes Neto era escritor e empresário. Para os estudiosos e críticos de literatura, ele foi o maior autor regionalista do RS, pois procurou em sua produção literária valorizar a história do gaúcho e suas tradições – daí a merecida homenagem neste 20 de setembro! Mas o escritor só alcançou a glória literária depois de sua morte, ocorrida em 1916, mais especificamente em 1949, após o lançamento das obras Contos Gauchescos e Lendas do Sul.
Já vi gente brigando com a própria sombra, imaginando estar sendo perseguido por alguém. Eu mesmo, em noite fria, acendi a luz da garagem e, com pressa, ao chegar perto do carro assustei-me do movimento de minha própria sombra, achando estar diante de um assaltante.
Também não faltam aqueles que reclamam quando as nuvens ou a neblina nos oferecem um dia de sombra. Dia cinzento parece nos oprimir, nos deixando em estado de natural mal-estar. Uma das atenções dos bons engenheiros atuais é o cuidado para que nenhuma repartição das casas ou dos edifícios fique condenada à sombra. Popularmente, quando alguém passa a ser uma presença indesejada em nossa vida e nos persegue, logo o intitulamos como nossa sombra.
Em geral a sombra desperta nas pessoas uma relação de desconforto. Na própria Bíblia a realidade da sombra passa a ser uma figura simbólica também do limitado e do negativo. Na última oração, o rei Davi declara: “Qual sombra passam nossos dias aqui na terra onde não há esperança”. Jó também desabafa e diz: “O ser humano, nascido de mulher, tem a vida curta, mas cheia de inquietações. É como a flor que se abre e logo murcha, foge como a sombra e não permanece”. “Como a sombra que se desfaz é todo o mortal!”
Porém, é justo que nos demos conta também da relação positiva com as sombras do caminho. Um antigo provérbio chama atenção e nos ajuda a perceber o lado bom da sombra: “Nunca tenha medo das sombras. Elas somente mostram que há uma luz que resplandece por perto”. É a lei dos contrastes. Não haveria sombra se não houvesse luz! E, certamente, não daríamos o devido valor à luz se não existissem sombras e trevas.
Além do mais, temos muitas experiências na vida real da importância das sombras confortadoras. Num dia escaldante de sol, andamos e trabalhamos, suamos e cansamos e ansiosamente procuramos uma sombra amiga que nos abrigue. Bendita sombra que se dispõe a aliviar o peso e o calor do dia!
Se na Bíblia temos textos que situam a sombra como símbolo do negativo, também comprovamos citações positivas, que exaltam o simbolismo da sombra. Assim o salmista reza: “Guarda-me como a pupila dos olhos, protege-me na sombra de tuas asas” “Tu que estás sob a proteção do Altíssimo e moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: ‘Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus, em quem confio”. Isaías dá graças a Deus que acompanha seu povo: “Senhor, meu Deus... Tu te tornaste proteção para o fraco... sombra no tempo do calor” .
Na vida, nem tudo é tão negativo como parece! Benjamin Franklin dizia: “ Um otimista vê novas oportunidades em toda a calamidade. Um pessimista vê novas calamidades em toda a oportunidade”. Parece ser um tanto normal encararmos as sombras apenas pelo seu lado negativo. Porém a vida real nos ensina que estas também têm sua dimensão positiva e verdadeira.
Ao invés de uma reforma política, uma minirreforma eleitoral. Este parece ser o máximo de mudanças que o Congresso Nacional aprovará para vigorar na eleição de 2014. Pouco, quase nada em relação ao que pediram as multidões que foram às ruas em junho – e ao desejo dos cidadãos de bem deste país.
A agilidade e a aparente boa vontade demonstradas durante e logo após os protestos cederam lugar à tradicional lerdeza com que os temas políticos, principalmente os polêmicos, são tratados no Brasil. E como alguns deles contrariam frontalmente parlamentares, acumulam-se motivos para a morosidade.
A rapidez com que foram aprovados e sancionados projetos importantes, como o que classifica corrupção e peculato como crimes hediondos, ou, razão inicial das manifestações, a redução das tarifas de ônibus, teve efêmera duração. Já não se fala mais em reformas, a ideia de um plebiscito foi se apagando, e sobressaem-se apenas tentativas de remendos, diferente das profundas transformações almejadas. Talvez por isso 52% dos brasileiros admitem desinformação sobre reforma política.
Os protestos terão restrito reflexo sobre o pleito de 2014. É que pela lei eleitoral, novas regras só poderão vigorar se aprovadas até 2 de outubro próximo.
Frustrando a enorme expectativa criada, parlamentares entregam-se ao ritmo do atropelo para ajustes em medidas de diminuto efeito prático. Pelas propostas que tramitam, é possível que haja proibição de alguns tipos de gastos, como placa e pintura de muro, seja encurtado o período de campanha e alteradas as datas de convenções partidárias.
São mudanças nada ousadas, acomodadas no limite do mínimo necessário para dar uma satisfação. Financiamento de campanha e prazo de mandatos, pontos importantíssimos, ficam para trás. O impacto da mobilização, nesse campo, não passa de ajustes. Chega a ser provocativo. Reação de quem não entendeu o recado.
O sol apenas aparecia no horizonte e o camponês já estava em sua lavoura. Teria pela frente um dia cheio de fadiga. Seu arado, puxado pelos bois, traçava sulcos na terra, onde brotaria um trigal. E com isso ganhava o pão, com o suor do seu rosto, para si e para sua família. Numa fazenda vizinha, um trator fazia o mesmo trabalho. E o homem do arado comentou para si mesmo: este que é feliz. Trabalha com rapidez, sem grande esforço e terá uma lavoura muito maior que a minha.
O tratorista viu um caminhão cruzar pela estrada e comparou as atividades. Veja, ele anda rápido, a paisagem muda constantemente, logo estará na cidade. Este que é feliz. Mas não era assim que pensava o motorista do caminhão. Tanto mais que por ele passou um luxuoso automóvel. Este não tem patrão, não tem que carregar e descarregar mercadorias. Deve ser um executivo com um alto salário e com direito a todas as mordomias. Olhando para o alto, o condutor do automóvel viu um avião cruzando o espaço. E imaginou a felicidade do piloto: alto salário, anda com rapidez, sem grande fadiga, não tem problemas de trânsito e conhece muitos países.
Olhando do alto, o piloto viu um pequeno ponto escuro, numa lavoura e pensou: feliz é este lavrador, faz o que gosta, semeia lavouras, cercado do canto dos pássaros, trabalha quando quer e está sempre perto de sua família.
O maior, o mais universal dos desejos do homem é ser feliz. Desde que nascemos até a hora da morte, nossa única preocupação é ser feliz. Todos os atos que fazemos têm esse objetivo. Por vezes a busca é indireta. Tomamos um remédio amargo, mas objetivamos a felicidade que vem da saúde. Trabalhamos, nos privamos de muitas coisas, para sermos felizes mais tarde. O filósofo pessimista Arthur Schopenhauer dizia: “O homem sempre quer ser feliz, mesmo quando se enforca”.
Nem todos concordamos a respeito do que é felicidade. Para uns, é sinônimo de dinheiro, para outros é o prazer. Saúde, família, bebida, viagens, reconhecimento público podem ser sinônimos de felicidade. O conceito muda também de conformidade com as etapas da vida. Para a criança, felicidade pode ser um brinquedo ou um doce, para o jovem a namorada dos sonhos, para o estudante o diploma, para o homem maduro uma viagem ou a aposentadoria.
Somos demasiadamente grandes para nos plenificarmos com coisas materiais. Elas se esgotam e deixam um vazio. Esta, por exemplo, foi a experiência de Santo Agostinho. Ele acabou por encontrar a felicidade onde, unicamente, está: em Deus. É uma felicidade que nos conduz na vida, superando as naturais frustrações e nos acompanha além da morte. De resto, felicidade está onde a colocamos. É inteligente ser feliz onde realmente estamos. É tomar consciência que podemos e devemos ser felizes ali em nosso cantinho e não onde não estamos.
Encheram o caminho do riacho de barreiras e pedras enormes. Ele não se atrapalhou em momento algum. Continuou correndo. Contornou todos os obstáculos, deu um jeito de achar o seu caminho.
Finalmente puseram diante dele uma enorme pedra. Ele foi inchando, inchando, inchando até que formou um lago, o lago cresceu e subiu e lá estava ele correndo de novo, por cima da enorme pedra.
Então os engenheiros concluíram que não é possível parar um riacho. Fizeram uma grande ponte sobre ele, porque riachos às vezes se enchem, transbordam e derrubam tudo à sua frente.
E disse o riacho: - Pareço frágil, mas não sou. Quando me barram, dou um jeito de achar outro caminho. Mas se abusam ao ponto de não me deixarem outra alternativa, passo por cima e vou em frente! Ninguém me impedirá de continuar servindo quem precisar de minha ajuda!
Quando um psicotrópico - uma droga qualquer - chega ao cérebro, estimula a liberação de uma dose extra de um neurotransmissor, provocando sensações de prazer. À medida que o uso vai se prolongando, o organismo do usuário tenta se ajustar a esse hábito. O cérebro adapta seu próprio metabolismo para absorver os efeitos da droga. Cria-se, assim, uma tolerância ao tóxico. Desse modo, uma dose que normalmente faria um estrago enorme torna-se em pouco tempo inócua. O usuário procura a mesma sensação das doses anteriores e não acha. Por isso, acaba aumentando a dose. Fazendo isso, a tolerância cresce e torna-se necessária uma quantidade ainda maior para obter o mesmo efeito. A dependência vai assim se agravando continuamente.
Como o psicotrópico imita a ação dos neurotransmissores, o cérebro deixa de produzi-los. A droga se integra ao funcionamento normal do órgão. E quando falta o “impostor” químico, o sistema nervoso fica abalado. É a síndrome da abstinência.
A recusa em abster-se do que quer que seja por parte de uma sociedade hedonista como a nossa leva ao uso incontido e descomedido das drogas, que provocam viagens para fora da realidade e do tempo, sensações sempre mais fortes e omniabarcantes de prazer, de relaxamento, de bem estar. Fugir do cotidiano esmagador, banal, sem futuro; viajar a outros mundos e realizar outro tipo de experiências, contanto que não sejam aquelas reais e autênticas - essa é a proposta das drogas de toda espécie que o tráfico insidiosamente crescente traz para dentro das casas e das famílias, dos colégios e instituições educacionais, dos bares, boates e lugares de lazer onde a juventude - presa fácil e incauta da viagem fictícia que a droga proporciona, - se deixa envolver e embarca muitas vezes, infelizmente, na viagem sem volta da overdose ou da violência de letais consequências que os efeitos da droga provocam.
Dizer não à droga é tornar-se livre, independente. Dizer não à droga é dizer ao próprio corpo e ao próprio desejo: você não manda em mim. Eu é que mando em você. Estamos situados na minha identidade mais profunda de ser humano e de filho de Deus. E aqui é o templo do Espírito e a casa de Deus. Aqui mandamos eu e o Criador que me fez à sua imagem e semelhança.
Os especialistas costumam dividir as drogas em dois tipos: leves e pesadas. Drogas leves são as que causam “dependência psíquica”, que significa o desejo irrefreável de consumi-las. Pesadas são aquelas que, além da dependência psíquica, causam também a física, ou seja, a sua falta acarreta uma síndrome de abstinência tão violenta, com sintomas físicos tão dolorosos, que o viciado procura desesperadamente pela droga a fim de aliviar a ânsia de consumo. Por essa razão, fumo e álcool podem ser considerados drogas pesadas, apesar de serem socialmente aceitas.
A bandeira levantada pela luta antidrogas tem provocado polêmica, porque faz referência direta e indireta à violência que cerca o mundo das drogas. Antes, as campanhas de prevenção propunham dizer não às drogas, apresentando apenas uma visão individualista de sua ação maléfica: os prejuízos físicos e mentais do uso. Agora o conceito mudou: a mensagem apela para a responsabilidade social, tendo como mote: “O tráfico é dependente de você”. “Quem compra drogas financia a violência.” Os filmes mostram jovens bem-nascidos indo às “bocas”. No momento em que o usuário entrega o dinheiro ao traficante, ouve-se o locutor em off: “O que você faz com seu dinheiro é problema seu. O que o tráfico faz com seu dinheiro, também é problema seu”. Assim os filmes chocam duplamente, porque mostram o mundo violento das drogas e, sobretudo, porque responsabilizam o usuário por essa violência.
Não há como nos enganarmos: nada do que fazemos começa e acaba apenas em nós mesmos. Atinge, ao contrário, toda a coletividade. Hoje, dizendo não às drogas, estamos não só beneficiando a própria saúde. Estamos igualmente contribuindo para construir um mundo de paz, onde a violência seja um pesadelo cada vez mais longínquo. Sejamos senhores de nossa vida. Não deixemos que a droga mande em nós. A primeira vítima seremos nós mesmos.
“O paraíso artificial das drogas é bem a imagem de uma civilização reduzida a pó” (Octavio Paz).
O universo é muito mais do que o sol e as estrelas. É o inseto que eu piso, é o alimento que eu como. É toda a realidade que me cerca e me dá vida. E em tudo há respeito, acolhida e serviço. Podemos dizer que em tudo há relacionamento de amor. Relacionamento sem ciúmes e sem poder.
As flores enfeitam nossa terra. No colorido do jardim elas se beijam, se tocam e se acariciam. Nenhuma reclama da beleza da outra. A rosa não tem inveja do lírio. A sabedoria da natureza é um livro aberto para a humanidade. Toda pessoa deve estar aberta ao ensinamento das flores.
O sol cumpre sua missão. Não reclama das nuvens que diante dele fazem passagem. Ele sabe que as nuvens têm sua missão e seu espaço. Sabe que a terra necessita das nuvens para espalhar a chuva. Toda pessoa deve aceitar a missão e a função das outras pessoas para existir uma harmonia da vida.
E como é gostoso ficar olhando e sentindo a harmonia dos animais! Nenhum animal se envergonha pela sua condição. O sabiá não fica ciumento com o tubarão porque não sabe nadar. O gato não fica reclamando do canário porque não tem asas para voar. Não há rivalidade entre eles e nem ciúmes. Os animais podem lutar entre si por conquista de alimentos e água, mas nunca por conquista de poder e espaço. As pessoas é que não sabem respeitar o espaço de cada coisa, de cada animal e de cada criatura humana. E por causa da conquista do espaço e do poder são capazes de destruir e de matar.
As estrelas brilham no firmamento. Todas andam em seu caminho. Nenhuma atrapalha o caminho da outra. Nenhuma tem ciúmes do brilho e do calor da outra. Algumas brilham mais, outras menos. Assim é a humanidade. Cada pessoa é uma estrela. Brilha do seu jeito. Cada uma merece o respeito e o apoio. São bilhões de estrelas nesta humanidade que devem se respeitar.
Ao mesmo tempo, em nosso ser e em todo planeta terra está a variedade do calor e do frio, da luz e da escuridão. Há uma primavera e verão, um outono e inverno. Tudo vai acontecendo no seu ritmo. Há uma beleza na primavera, que é de causar admiração para o verão. Há uma beleza no inverno que pode encantar o outono. Cada realidade tem sua beleza. Assim, a vida de cada pessoa é perpassada pela primavera e verão, pelo outono e inverno. Como a natureza se respeita em suas estações, as etapas de nossa vida devem merecer o mesmo respeito.
Tudo isso parece ilusória poesia. Mas não é. Há uma poesia em cada ser e no universo como um todo. Mas a natureza, e cada ser, é um livro aberto que ensina a viver. Em cada ser e no universo todo estão as lições da vida. Depende de cada um acolher e viver essas lições. O livro aberto de um canteiro de jardim pode servir para os namorados conversarem de amor, como pode se tornar um local que recebe um corpo ferido por um criminoso, para quem o livro do jardim nada diz.